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Folhas cahidas, apanhadas na lama por um antigo juiz das almas de Campanhan cover

Folhas cahidas, apanhadas na lama por um antigo juiz das almas de Campanhan

Chapter 5: O SEU A SEU DONO.
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About This Book

This collection of poetry reflects on themes of nostalgia, loss, and the passage of time, as the author reminisces about his youth and the beauty of his homeland. The verses explore the contrast between past joys and present sorrows, using vivid imagery to evoke the natural landscape and personal memories. The work also critiques societal changes and the decline of noble values, employing humor and satire to address contemporary issues. Through a blend of personal reflection and social commentary, the poetry captures the essence of a bygone era while lamenting the loss of innocence and simplicity.

É uma cousa (diz Pop)

Sem ter cabeça nem pés.


Visto isso; temos dropp;

Ninguem tenha á barra medo.

A asneira não é tão calva;

A gente sempre se salva;


De que modo? isso é segredo,


Os praguentos já resmungam

Contra aquelle immenso trem;

Dizem que é força acabar,

Não só nas furias do mar

Mas nas do dropp tambem.


Este dropp é um segredo,

As finanças um mysterio.

Vêdes n'aquella gaiola,

Uma parva cabriola,

Imagem do ministerio?


Navegantes! acautelem-se!

Em posição desastrada

Empreguem maior cuidado

Que lhe não venha ao costado

Uma tremenda caibrada.


Aquelles paus são synistros

Como o cavallo de Troya;

Tudo aquillo é muito serio;

Tem não sei que de funereo

Dos carroçoens do Lagoia!


Tanta tabua consummida

Nessa funeraria asneira!..

Não 'stava ahi um sujeito

Com tanto dropp já feito,

Manoel José d'Oliveira?


Economia
! sarcasmo

Deste ministerio-dropp,

Que cravou no calcanhar

A espora que faz andar

As finanças a galope!


Sou de voto que se dê

Ao dropp um uso real:

--Seja a estufa, com recatos,

P'ra guardar os cinco catos

Do ministerio actual.

O SEU A SEU DONO.

A Cesar o que é de Cesar,

Aos velhos o que é dos velhos!

Quem da crytica se encarga,

Deve andar estrada larga

E não metter-se por quelhos.


Sou assim! E mais sou velho

Mas a verdade é tambem,

Custe embora a quem custar,

A verdade hei-de-a fallar

Seja em mal, ou seja em bem.


Epaminondas Tebano,

A
Concordia
e o
Nacional
,

Nem a rir disseram petas:

Eu tambem como as gazetas,

Sou da honra o pedestal.


Não consinto que se diga,

Que só lavra a corrupção

Nas entranhas dos mancebos.

Eu conheço muitos gebos

Corruptos de profissão


Quem quizer venha ao
Palheiro

Desta nossa Assemblea,

Ha-de vêr linguas farpadas

Em bocas já desdentadas

Maculando a honra alheia.


Ha-de vêr velhos devassos

Como em lubrica orgia,

Já vergados nas cernelhas,

Memorando infamias velhas

Com satanica alegria.


Ha-de vêr o extincto frade,

C'o a bochecha rubra e gorda,

Acerando o epygramma,

Nem se quer poupando a
ama
,

Que lhe faz em casa a sôrda.


Ha-de vêr o millionario

Brazileiro, com mil tretas,

A contar, com sujas cores,

As lendas dos seus amores

Com as
suas
trinta pretas.


Estes taes são os que infamam

A mocidade infeliz!

São estes em cuja tez

O oleo da estupidez

É da vergonha o verniz.


A mocidade não pode

Vencêl-os, não pode, não!

Dominam, são respeitados,

Representam vinculados

Os tempos da corrucção.


Nascidos, quando por terra

Os homens lançaram Deus;

Tem só fé no sensualismo,

E escarnecem com cynismo,

As crenças filhas dos ceus.


Gangrenado o corpo e alma,

Sem saber, e sem piedade,

São authomatos de barro,

Que resistem ao catharro

Pr'a vexar a humanidade.


Onde existe a virgem pobre,

Que de maguas vive cheia,

Lá vai ter uma mensagem

Da senil libertinagem,

Que o pudor lhe regateia.


Perguntai nesses alcouces

De miseria e compaixão,

Quantas victimas da fome

A deshonra ahi consomme,

E de quem victimas são.


Heis d'ouvir factos nojentos

Destes velhos que se arrastam

Sobre a lama das torpezas,

Das luxurias e villezas

Em que, cynicos, repastam.


Velho sou, bem alto o disse;

Mas deshonro-me de ser

Desta geração de velhos,

Em que os moços tem espelhos

Onde infamias possam ver!


Mocidade generosa!

Os teus crimes, tem nobreza;

Quando falla a consciencia,

Nem negaes a Providencia,

Nem manchaes a natureza.


Elles não; sempre atufados

Em nojentos tremedaes,

Crêem só no seu dinheiro,

No cavaco do
palheiro
,

Na barriga, e nada mais.


A Cesar o que é de Cesar,

Aos velhos o que é dos velhos!

Quem da crytica se encarga,

Deve andar estrada larga,

E não metter-se por quelhos.

CONTO MORAL.

Um
attaché
, que vivera

Em Pariz uns quatro mezes,

Voltando á patria mesquinha,

Não roubou nem palavrinha

Aos seus amigos francezes.


Quando entrou nos patrios lares,

Já não era o mesmo filho;

Sua mãe dobando estava,

E o
attaché
perguntava

Que nome tinha o sarilho?


Desceu á loja onde estava

O honrado pai ao balcão.

E mal dera ainda um passo,

Quando viu que estava um engaço

Estendido alli no chão.


Ora, o engaço tinha uns dentes,

Onde o tolo põe um pé,

Quando ao pai enthusiasmado,

Perguntou todo anafado:

Este engarilho que é?


Vai o cabo levantou-se,

Que assim era de suppor;

Vem direito ao infeliz

Quebra a ponta do nariz,

Do futuro embaixador!

MORAL.

Não venham fazer-se finos

Á patria os
attachés
,

Quem vai tolo tolo volta,

Inda que traga uma escolta

De anedoctas dos
Cafés
.

EPYSTOLA

AO EXCM.o VISCONDE DE ATHOGUIA EM DUAS VIDAS; MINISTRO DA MARINHA DOS TRES BRIGUES, E DOS NEGOCIOS ESTRANGEIROS... AO SENSO COMMUM.

Illustre paspalhão, pasmo dos orbes,

Nata da estupidez, alcool dos parvos,

De Campanhan o bardo te sauda!


Eu nunca fui sentar-me á tua porta,

Mendigando mercês; nunca os meus cantos,

Fedendo ao macassar da vil lisonja,

As nedeas ventas incensar te foram!

É livre a minha voz: creiam-me os povos!

Nobre feudo pagar aos grandes parvos

É do bardo a missão. A minha é esta.


Ha muito que eu de ti pasmado andava,

Contando á minha Antonia, e aos pequenos,

O nome que no peito escripto tinha.

Em casa do Francisco da Thomasia

Os teus discursos li, Visconde incrivel!

N'aquellas chatas caras que me ouviam,

Vi faiscas saltar de enthusiasmo.


Bebêmos-te á saude, a rego cheio!

E, no excesso do goso, os teus amigos

Não podiam lamber-se... eram uns cachos!


Tu, mais novo que o neto, ousado Gorgias,

Ha pouco trituraste os cabralistas

No rijo almofariz do craneo ôco.

Salvaste Roma, ó ganço!.. se não grasnas

Piravam-se os taes páos
e a Lusitania,

Viuva dos seus páos, ia-se á mingua!

És o Curcio das lonas, que remiste


Do jogo infame da Albion perversa

A patria dos Affonsos e Affonsinhos!

A divida fatal, chamada externa,

Saldaste-a c'o producto dessas chapas,

Em que fica chapada a crassa asneira,

Eterna viscondessa d'Athoguia!


Do
Conde de Thomar
se intitulava

O patacho fatal, terror dos povos!

Fulminaste o patacho! A Europa accesa,

Pedira-te energia audaciosa.

Passaste heroica esponja sobre o nome,

E fizeste callar a voz da Europa!


Ó Jervis! tu nem sabes quanto vales!

Que o diga Campanhan, Valbom, S. Cosme,

Onde eu pude chegar, e a minha Antonia.


A machado e eixó, de páo castanho,

Um busto construí: era o teu busto.

Teu nome eternisei, nome que teve

Um
u
, maldito
u
, que tantas febres

Na mente escandecida te abrazára!


Não sei se diga mais, palavra d'honra!

Com esta não te enfado mais, visconde.

Não desdenhes vaidoso a offerta humilde,

Que mesquinho reptil aos pés te arrasta.

Recebe dusia e meia de lampreias,

Cosinhadas por mim; são de escabeche...

A proposito, amigo, ha quanto tempo

Conservas de escabeche a intelligencia?

[1] S. exc.a mandou vender os páos, porque deu na melgueira d'uns empregados, que os regeneravam á surelfa, com grave detrimento da marinha portugueza.

[2] S. exc.a vendeu umas lonas, cujo producto fez subir os fundos em Londres, e permittiu a construcção de trinta navios de guerra, com que s. exc.a espera «sulcar as salsas ondas d'Amphitrite,» segundo a gravissima opinião do snr. J. M. Grande.

O MINISTRO E O JORNALISTA.
(Dealogo).

MINISTRO
Eu vim chamado ao leito desta patria

Matava-a a corrupção, e eu salvei-a!

Se prostrada jazia, ou talvez morta,

Qual Lazaro da campa, alevantei-a!

JORNALISTA
De certo levantou Vossa Excellencia!

Que brade embora a vil opposição...

Esquálidos vestigios de gangrena

Bem profundos deixou a corrupção.
MINISTRO
Se crê nessas doutrinas luminosas,

E quer ser prestadio a Portugal,

Acceite a empreza honrosa, augusta, e nobre,

D'expol-as, sustental-as n'um jornal.
JORNALISTA
Empreza honrosa é; della me ufano!