É uma cousa (diz Pop)
Sem ter cabeça nem pés.
Visto isso; temos dropp;
Ninguem tenha á barra medo.
A asneira não é tão calva;
A gente sempre se salva;
De que modo? isso é segredo,
Os praguentos já resmungam
Contra aquelle immenso trem;
Dizem que é força acabar,
Não só nas furias do mar
Mas nas do dropp tambem.
Este dropp é um segredo,
As finanças um mysterio.
Vêdes n'aquella gaiola,
Uma parva cabriola,
Imagem do ministerio?
Navegantes! acautelem-se!
Em posição desastrada
Empreguem maior cuidado
Que lhe não venha ao costado
Uma tremenda caibrada.
Aquelles paus são synistros
Como o cavallo de Troya;
Tudo aquillo é muito serio;
Tem não sei que de funereo
Dos carroçoens do Lagoia!
Tanta tabua consummida
Nessa funeraria asneira!..
Não 'stava ahi um sujeito
Com tanto dropp já feito,
Manoel José d'Oliveira?
Economia
! sarcasmo
Deste ministerio-dropp,
Que cravou no calcanhar
A espora que faz andar
As finanças a galope!
Sou de voto que se dê
Ao dropp um uso real:
--Seja a estufa, com recatos,
P'ra guardar os cinco catos
Do ministerio actual.
O SEU A SEU DONO.
A Cesar o que é de Cesar,
Aos velhos o que é dos velhos!
Quem da crytica se encarga,
Deve andar estrada larga
E não metter-se por quelhos.
Sou assim! E mais sou velho
Mas a verdade é tambem,
Custe embora a quem custar,
A verdade hei-de-a fallar
Seja em mal, ou seja em bem.
Epaminondas Tebano,
A
Concordia
e o
Nacional
,
Nem a rir disseram petas:
Eu tambem como as gazetas,
Sou da honra o pedestal.
Não consinto que se diga,
Que só lavra a corrupção
Nas entranhas dos mancebos.
Eu conheço muitos gebos
Corruptos de profissão
Quem quizer venha ao
Palheiro
Desta nossa Assemblea,
Ha-de vêr linguas farpadas
Em bocas já desdentadas
Maculando a honra alheia.
Ha-de vêr velhos devassos
Como em lubrica orgia,
Já vergados nas cernelhas,
Memorando infamias velhas
Com satanica alegria.
Ha-de vêr o extincto frade,
C'o a bochecha rubra e gorda,
Acerando o epygramma,
Nem se quer poupando a
ama
,
Que lhe faz em casa a sôrda.
Ha-de vêr o millionario
Brazileiro, com mil tretas,
A contar, com sujas cores,
As lendas dos seus amores
Com as
suas
trinta pretas.
Estes taes são os que infamam
A mocidade infeliz!
São estes em cuja tez
O oleo da estupidez
É da vergonha o verniz.
A mocidade não pode
Vencêl-os, não pode, não!
Dominam, são respeitados,
Representam vinculados
Os tempos da corrucção.
Nascidos, quando por terra
Os homens lançaram Deus;
Tem só fé no sensualismo,
E escarnecem com cynismo,
As crenças filhas dos ceus.
Gangrenado o corpo e alma,
Sem saber, e sem piedade,
São authomatos de barro,
Que resistem ao catharro
Pr'a vexar a humanidade.
Onde existe a virgem pobre,
Que de maguas vive cheia,
Lá vai ter uma mensagem
Da senil libertinagem,
Que o pudor lhe regateia.
Perguntai nesses alcouces
De miseria e compaixão,
Quantas victimas da fome
A deshonra ahi consomme,
E de quem victimas são.
Heis d'ouvir factos nojentos
Destes velhos que se arrastam
Sobre a lama das torpezas,
Das luxurias e villezas
Em que, cynicos, repastam.
Velho sou, bem alto o disse;
Mas deshonro-me de ser
Desta geração de velhos,
Em que os moços tem espelhos
Onde infamias possam ver!
Mocidade generosa!
Os teus crimes, tem nobreza;
Quando falla a consciencia,
Nem negaes a Providencia,
Nem manchaes a natureza.
Elles não; sempre atufados
Em nojentos tremedaes,
Crêem só no seu dinheiro,
No cavaco do
palheiro
,
Na barriga, e nada mais.
A Cesar o que é de Cesar,
Aos velhos o que é dos velhos!
Quem da crytica se encarga,
Deve andar estrada larga,
E não metter-se por quelhos.
CONTO MORAL.
Um
attaché
, que vivera
Em Pariz uns quatro mezes,
Voltando á patria mesquinha,
Não roubou nem palavrinha
Aos seus amigos francezes.
Quando entrou nos patrios lares,
Já não era o mesmo filho;
Sua mãe dobando estava,
E o
attaché
perguntava
Que nome tinha o sarilho?
Desceu á loja onde estava
O honrado pai ao balcão.
E mal dera ainda um passo,
Quando viu que estava um engaço
Estendido alli no chão.
Ora, o engaço tinha uns dentes,
Onde o tolo põe um pé,
Quando ao pai enthusiasmado,
Perguntou todo anafado:
Este engarilho que é?
Vai o cabo levantou-se,
Que assim era de suppor;
Vem direito ao infeliz
Quebra a ponta do nariz,
Do futuro embaixador!
MORAL.
Não venham fazer-se finos
Á patria os
attachés
,
Quem vai tolo tolo volta,
Inda que traga uma escolta
De anedoctas dos
Cafés
.
EPYSTOLA
AO EXCM.o VISCONDE DE ATHOGUIA EM DUAS VIDAS; MINISTRO DA MARINHA DOS
TRES BRIGUES, E DOS NEGOCIOS ESTRANGEIROS... AO SENSO COMMUM.
Illustre paspalhão, pasmo dos orbes,
Nata da estupidez, alcool dos parvos,
De Campanhan o bardo te sauda!
Eu nunca fui sentar-me á tua porta,
Mendigando mercês; nunca os meus cantos,
Fedendo ao macassar da vil lisonja,
As nedeas ventas incensar te foram!
É livre a minha voz: creiam-me os povos!
Nobre feudo pagar aos grandes parvos
É do bardo a missão. A minha é esta.
Ha muito que eu de ti pasmado andava,
Contando á minha Antonia, e aos pequenos,
O nome que no peito escripto tinha.
Em casa do Francisco da Thomasia
Os teus discursos li, Visconde incrivel!
N'aquellas chatas caras que me ouviam,
Vi faiscas saltar de enthusiasmo.
Bebêmos-te á saude, a rego cheio!
E, no excesso do goso, os teus amigos
Não podiam lamber-se... eram uns cachos!
Tu, mais novo que o neto, ousado Gorgias,
Ha pouco trituraste os cabralistas
No rijo almofariz do craneo ôco.
Salvaste Roma, ó ganço!.. se não grasnas
Piravam-se os taes páos
e a Lusitania,
Viuva dos seus páos, ia-se á mingua!
És o Curcio das lonas, que remiste
Do jogo infame da Albion perversa
A patria dos Affonsos e Affonsinhos!
A divida fatal, chamada externa,
Saldaste-a c'o producto dessas chapas,
Em que fica chapada a crassa asneira,
Eterna viscondessa d'Athoguia!
Do
Conde de Thomar
se intitulava
O patacho fatal, terror dos povos!
Fulminaste o patacho! A Europa accesa,
Pedira-te energia audaciosa.
Passaste heroica esponja sobre o nome,
E fizeste callar a voz da Europa!
Ó Jervis! tu nem sabes quanto vales!
Que o diga Campanhan, Valbom, S. Cosme,
Onde eu pude chegar, e a minha Antonia.
A machado e eixó, de páo castanho,
Um busto construí: era o teu busto.
Teu nome eternisei, nome que teve
Um
u
, maldito
u
, que tantas febres
Na mente escandecida te abrazára!
Não sei se diga mais, palavra d'honra!
Com esta não te enfado mais, visconde.
Não desdenhes vaidoso a offerta humilde,
Que mesquinho reptil aos pés te arrasta.
Recebe dusia e meia de lampreias,
Cosinhadas por mim; são de escabeche...
A proposito, amigo, ha quanto tempo
Conservas de escabeche a intelligencia?
[1] S. exc.a mandou vender os páos, porque deu na melgueira d'uns
empregados, que os regeneravam á surelfa, com grave detrimento da
marinha portugueza.
[2] S. exc.a vendeu umas lonas, cujo producto fez subir os fundos em
Londres, e permittiu a construcção de trinta navios de guerra, com que
s. exc.a espera «sulcar as salsas ondas d'Amphitrite,» segundo a
gravissima opinião do snr. J. M. Grande.
O MINISTRO E O JORNALISTA.
(Dealogo).
MINISTRO
Eu vim chamado ao leito desta patria
Matava-a a corrupção, e eu salvei-a!
Se prostrada jazia, ou talvez morta,
Qual Lazaro da campa, alevantei-a!
JORNALISTA
De certo levantou Vossa Excellencia!
Que brade embora a vil opposição...
Esquálidos vestigios de gangrena
Bem profundos deixou a corrupção.
MINISTRO
Se crê nessas doutrinas luminosas,
E quer ser prestadio a Portugal,
Acceite a empreza honrosa, augusta, e nobre,
D'expol-as, sustental-as n'um jornal.
JORNALISTA
Empreza honrosa é; della me ufano!