SCENA II
Uma sala no castello de Elsenor
Entram o REI, a RAINHA, as suas comitivas, ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN
O REI
Sejam bemvindos, caros Rosencrantz e Guildenstern. Independentemente do gosto de os ver, a necessidade do seu prestimo me obrigou a chamal-os a esta côrte sem demora. Ouviram seguramente fallar da transformação de Hamlet; digo transformação, porque já não é o mesmo homem, nem moral nem physicamente. Só a morte do pae póde ser a causa do transtorno da sua rasão, não posso conceber outra. Educados com elle desde a infancia, sympathisando entre si pela idade e pelo caracter, peço-lhes que permaneçam algum tempo na côrte, procurem inspirar-lhe o gosto e prazer da sua convivencia, aproveitem todas as occasiões para descobrir se a sua afflicção não tem alguma causa desconhecida, cuja revelação nos permittisse dar-lhe remedio.
A RAINHA
Bastante tem fallado nos senhores, e estou convencida que ninguem no mundo lhes é mais affeiçoado. A liberalidade do rei compensará largamente os seus serviços e os seus incommodos. Esperâmos dos senhores esta prova de affeição.
ROSENCRANTZ
Vossas magestades são nossos soberanos, e os reis não pedem, mandam.
GUILDENSTERN
Estamos promptos a obedecer; disponham de nós, senhores. Depondo aos pés dos reis os nossos serviços e a nossa dedicação, pedimos-lhes só que ordenem.
O REI
Obrigado, senhores.
A RAINHA
Obrigada tambem eu; vão ter com meu filho: infelizmente mal o reconhecerão. (Á sua comitiva) Alguns d'estes senhores conduzam estes cavalheiros junto de Hamlet.
GUILDENSTERN
Praza a Deus, que a nossa presença lhe seja agradavel e os nossos cuidados um lenitivo.
A RAINHA
Deus queira. (Rosencrantz e Guildenstern sáem seguidos de alguns cortezãos.)
Entra POLONIO
POLONIO
Senhor, regressaram de Noruega os embaixadores, satisfeitos com o resultado da sua missão.
O REI
És sempre correio de boas novas.
POLONIO
Senhor! esteja vossa magestade certo que a minha alma põe a par a dedicação ao meu rei e o respeito e amor ao meu Deus. A menos que a minha sagacidade habitual me enganasse, descobri a verdadeira causa da loucura do senhor Hamlet.
O REI
Estou ancioso por conhecel-a.
POLONIO
Primeiro os embaixadores, depois eu.
O REI
Recebe-os, e encarrego-te de os introduzir á nossa presença. (Polonio sáe.) (Á rainha.) Annunciou-me, querida Gertrudes, que conhece a causa da doença de seu filho.
A RAINHA
Receio bem que a morte de seu pae e o nosso precipitado consorcio sejam as causas unicas.
O REI
Sabel-o-hemos em breve.
Entram POLONIO, VOLTIMANDO e CORNELIO
O REI
Bemvindos sejam, amigos. Falla tu, Voltimando; que novas trazes de nosso irmão de Noruega?
VOLTIMANDO
Envia-vos seus cumprimentos e sauda-vos cordealmente. Mal nos ouviu, ordenou ao sobrinho que pozesse fim aos seus preparativos guerreiros. Julgava-os dirigidos contra a Polonia; mas convencido por um detido exame que eram contra vossa magestade, e indignado por Fortimbraz se prevalecer do estado precario, a que a idade e a doença o tinham reduzido, ordenou-lhe que comparecesse na sua presença. Fortimbraz obedeceu á ordem intimada, e depois de severamente reprehendido pelo rei de Noruega, prestou nas mãos de seu tio o juramento de nada emprehender contra vossas magestades. O idoso monarcha, para provar o seu jubilo, concedeu-lhe uma pensão annual de tres mil escudos, e licença para combater os polacos com as tropas alistadas. Ao mesmo tempo pede-vos pelas presentes (entrega as cartas), que concedaes ás suas tropas livre passagem pelo vosso territorio nas condições estipuladas n'este escripto.
O REI
Este resultado enche-nos de satisfação; quanto ao pedido, lel-o-hemos, e depois de maduramente examinado, responderemos. Agradecemos-lhes os seus valiosos serviços. Descansem agora; juntos ceiaremos logo. (Voltimando e Cornelio sáem.)
POLONIO
Felizmente está terminado este negocio. Senhor e senhora; discutir o que constitue a auctoridade, e em que consiste a obediencia dos subditos, porque a noite é noite, o dia é dia, e o tempo é tempo, seria perder sem proveito a noite, o dia e o tempo; por isso, visto que a concisão é a alma do espirito, emquanto que a prolixidade é só o corpo ou o involucro exterior, serei breve: Vosso nobre filho está louco, digo louco, porque haveria falta de rasão em querer definir o que constitue verdadeiramente loucura. Passemos adiante...
A RAINHA
Menos estylo, Polonio.
POLONIO
Senhora, não faço estylo, juro-o. Seu filho está louco; é triste, mas é verdade. É verdade que é uma lastima, mas é uma lastima que seja verdade; é uma estulta antithese, mas tal qual é acceite-a; não emprego arte. Está louco; resta-nos procurar a causa d'esse effeito, ou antes defeito, porque forçosamente a deve ter. Siga bem o meu raciocinio: Tenho uma filha, tanto a tenho, que me pertence. Minha filha, fiel ao dever e á obediencia que me deve, note bem, entregou-me este escripto. (Mostra um papel.) Reflicta e depois tire a conclusão. (Lê.) Ao idolo da minha alma, á celeste Ophelia, á belleza personificada... É uma desgraçada e estulta expressão. Conserva preciosamente estas linhas, no teu seio alabastrino...
A RAINHA
É de Hamlet a Ophelia.
POLONIO
Espere um momento, senhora, cito textualmente. (Lê)
Tenha espheras de luz de um magico esplendor,
Duvida seja o sol o facho da alvorada,
Duvida da verdade em tua alma gravada,
Mas não duvides nunca, oh! nunca, d'este amor.
Querida Ophelia, não sou poeta, não sei modular suspiros com arte, mas podes acreditar que te amo, mais que tudo n'este mundo. Adeus, a ti, para sempre minha vida, a ti emquanto esta machina mortal me pertencer.==Hamlet.==Eis-ahi o que, por obediencia, minha filha me entregou. Já antes ella me tinha confiado as tentativas de Hamlet, á proporção que renovava as suas instancias amorosas.
O REI
Como pôde ella acolher este amor?
POLONIO
Em que conta me tem, senhor?
O REI
Na de um homem leal e honrado.
POLONIO
Farei por merecer sempre esse conceito a vossa magestade; mas que pensaria o rei de mim, se vendo despontar esse amor, e já o tinha adivinhado antes da confissão de minha filha, que pensariam o rei e a rainha, se me calasse, e me tornasse mudo confidente do seu amor; se, testemunha da sua paixão, tivesse imposto silencio ao meu coração, ou se a considerasse com indifferença? má idéa por certo fariam de mim. Não perdi um momento, disse a minha filha: O senhor Hamlet é um principe collocado fóra da tua esphera; isto não póde ser.—Ordenei-lhe então que evitasse a sua convivencia, e que nunca mais recebesse nem mensagens nem dadivas. Seguiu o meu conselho, e para abreviar a minha narração, o principe, vendo-se assim repellido, caíu primeiro n'uma profunda tristeza, em seguida repugnaram-lhe os alimentos, mais tarde teve insomnias, depois abatimentos e fraqueza intellectual, finalmente, e sempre gradualmente, chegou á demencia e ao delirio. Deplorâmol-o todos.
O REI
E pensas ser essa a causa?
A RAINHA
É muito provavel.
POLONIO
Quizera me dissessem, se aconteceu alguma vez affirmar eu alguma cousa que não fosse certa.
O REI
Nunca que eu saiba.
POLONIO
Se não é verdade o que disse (mostrando a cabeça), que esta role a seus pés. Basta-me a mais simples circumstancia para descobrir a verdade, aindaque estivesse occulta nas entranhas da terra.
O REI
Por que modo nol-o poderás tu provar.
POLONIO
Vossa magestade não ignora que o sr. Hamlet algumas vezes passeia quatro horas consecutivas n'esta galeria.
A RAINHA
É certo.
POLONIO
Quando ali estiver, enviar-lhe-hei minha filha, e nós, occultos por detrás d'esta cortina, seremos testemunhas da entrevista. Se não a ama, se não foi o amor a causa da sua loucura, deixe eu de pertencer aos conselhos de vossa magestade, e faça de mim um quinteiro, um hortelão ou um abegão.
O REI
Tentemos a experiencia.
HAMLET entra lendo
A RAINHA
A leitura é a unica distracção d'este infeliz.
POLONIO
Retirem-se ambos por piedade. Vou fallar-lhe. Confiem em mim. (O rei e a rainha sáem) Como se sente o sr. Hamlet?
HAMLET
Bem, Deus louvado.
POLONIO
Conhece-me, principe?
HAMLET
Se conheço, és um vendilhão de peixe.
POLONIO
Engana-se, senhor.
HAMLET
N'esse caso, queria que ao menos fosses tão honrado.
POLONIO
Honrado?
HAMLET
Sim; pelo caminho em que vae o mundo, custa achar um homem honrado entre dez mil.
POLONIO
É uma triste verdade.
HAMLET
Ora o sol gera vermes no animal putrefacto, e embora divindade, acaricia o cadaver. Tens uma filha, não é verdade?
POLONIO
Sim, meu senhor.
HAMLET
Não a deixes caminhar ao sol, a concepção é um beneficio do céu, mas como tua filha póde conceber, cuidado... meu caro.
POLONIO
Que quer dizer, principe? (á parte) minha filha é a sua constante preoccupação, mas não me reconheceu logo, tomou-me por um vendilhão de peixe. O seu cerebro está gravemente atacado; verdade é, que na minha mocidade o amor algumas vezes me reduziu a um estado similhante a este. Dirijâmos-lhe de novo a palavra. Que está lendo, senhor?
HAMLET
Palavras e mais palavras, só palavras.
POLONIO
De que se trata, senhor?
HAMLET
Quem, o que?
POLONIO
Pergunto o que contém o livro que está lendo.
HAMLET
Calumnias, nada mais. O satyrico auctor tem a impudencia de dizer que nos velhos a barba é grisalha, a pelle rugosa, e que seus olhos distillam ambar e gomma em fusão; que o espirito está caduco, as pernas não os sustêem; tudo cousas que creio em minha consciencia, mas que se não devem escrever. Quanto ao senhor, poderia ter a minha idade, se podesse andar para trás como os caranguejos.
POLONIO (á parte)
Aindaque louco póde coordenar as idéas. (Alto.) Quer vir tomar ar, meu senhor?
HAMLET
Que ar? o do tumulo?
POLONIO (á parte)
Que agudeza e que verdade na replica. Ás vezes as palavras dos loucos têem mais conceito que as dos sãos. Vou deixal-o, e preparar a sua entrevista com minha filha. Senhor, tomo a liberdade de me retirar.
HAMLET
Nada podia tomar, que eu désse com mais gosto; excepto a vida, excepto a vida, excepto a vida.
POLONIO
Adeus, meu senhor.
HAMLET (á parte)
Que imbecil e fastidioso velho.
Entram ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN
POLONIO
Procuram o sr. Hamlet, eil-o.
ROSENCRANTZ (a Hamlet)
Deus seja comvosco, senhor. (Polonio sáe)
GUILDENSTERN
Meu nobre senhor.
ROSENCRANTZ
Querido principe.
HAMLET
Meus bons e queridos amigos, como estão, tu Guildenstern e tu tambem Rosencrantz, meus caros, como passam.
ROSENCRANTZ
Nem bem, nem mal.
GUILDENSTERN
Não nos peza demasiado a nossa felicidade, e não tocâmos o ponto culminante da fortuna.
ROSENCRANTZ
Nem temos tambem rasões de queixa.
HAMLET
No meio está a virtude, é quando chovem as graças.
GUILDENSTERN
Vivemos familiarmente com ella.
HAMLET
Estão pois na intimidade da fortuna; não me admira, é uma cortezã. Que novas ha?
ROSENCRANTZ
Nenhumas, senhor, a não ser que este mundo se tornou virtuoso.
HAMLET
Em tal caso o seu fim está mui proximo, mas o que dizes é falso. Permittam-me uma pergunta que lhes diz respeito. Digam-me, que mal fizeram á fortuna para ella os enviar para este carcere?
GUILDENSTERN
Carcere, senhor?
HAMLET
A Dinamarca tambem é carcere.
ROSENCRANTZ
Então é-o o mundo todo.
HAMLET
Sim, uma vasta prisão que em si encerra um grande numero de carceres, dos quaes o peior é de certo a Dinamarca.
ROSENCRANTZ
Não somos da mesma opinião, principe.
HAMLET
Para os senhores não será uma prisão a Dinamarca, porque o bem ou o mal não existem senão quando assim o julgâmos. Para mim é.
ROSENCRANTZ
A ambição faz parecer a Dinamarca uma prisão a vossa alteza, não cabe n'ella a sua alma.
HAMLET
Acharia vasto reino uma casca de noz, se não fossem os meus terriveis sonhos.
ROSENCRANTZ
São justamente esses sonhos que constituem a ambição, porque toda a substancia do ambicioso é a sombra de um sonho.
HAMLET
Assim os mendigos são corpos, e os monarchas e os heroes ambiciosos não são senão a sua sombra. Querem que vamos á côrte? porque sinceramente não me sinto disposto a discutir.
AMBOS
Estamos ás suas ordens, principe.
HAMLET
Não o comprehendo eu assim, não o quero confundir com o resto dos meus creados; porque, para lhes dizer a verdade, sou pessimamente servido. Mas, com franqueza, amigos, o que os trouxe a Elsenor.
ROSENCRANTZ
Unicamente visitar a vossa alteza, nenhum outro motivo.
HAMLET
Estou tão pobre, tão alheio ao reconhecimento! mas recebam os meus agradecimentos pelo preço que valem. Não os mandaram chamar? Foi por motu proprio que vieram? É a affeição que aqui os trouxe? Vamos, sejam francos, vamos, fallem.
ROSENCRANTZ
Que quer que digâmos, senhor?
HAMLET
Tudo quanto lhes aprouver, mas respondam á minha pergunta. Mandaram-os chamar? Leio nos seus olhos uma confissão, que a sua candura não sabe dissimular. Sei que o nosso bom rei e a nossa excellente rainha os mandaram chamar.
ROSENCRANTZ
Com que fim, senhor?
HAMLET
Os senhores é que o poderão dizer; mas imploro-lhes, pelos direitos da nossa amisade, pelas sympathias da nossa idade, pelos deveres que nos impõe a nossa verdadeira affeição, emfim por todas as rasões as mais convincentes que podesse allegar o mais habil orador, sejam francos e sinceros commigo; mandaram-os chamar? Sim ou não.
ROSENCRANTZ (a Guildenstern)
Que devemos responder?
HAMLET (á parte)
Não os perderei de vista. (Alto.) Se devéras me têem affeição, expliquem-se com franqueza.
GUILDENSTERN
Pois bem, senhor, mandaram-nos chamar.
HAMLET
E eu dir-lhes-hei porque; d'est'arte a minha confissão precederá as suas investigações, e o segredo promettido ao rei e á rainha, não será nem de leve violado. Ultimamente, nem sei por que, perdi toda a minha alegria, renunciei a toda a especie de exercicio; e sinto na alma uma tal tristeza, que esta maravilhosa machina, a terra, me parece um esteril promontorio, este esplendido docel, o céu, esse magnifico firmamento suspenso sobre nossas cabeças, essa abobada sumptuosa, onde brilha o oiro de innumeras estrellas, tudo me parece um infecto monturo de vapores pestilentes. Que obra prima dos homens! que elevação na sua intelligencia! quanto são infinitas as suas faculdades! como a sua fórma é imponente e admiravel, como os seus actos approximam os homens dos anjos, e a sua rasão os approxima de Deus! são a maravilha do mundo, os reis da creação animada, e comtudo o que vale a meus olhos essa quinta essencia do pó? Aborreço os homens e as mulheres, embora os seus sorrisos incredulos, senhores, digam o contrario.
ROSENCRANTZ
Não tinhamos em nosso pensamento tal intenção.
HAMLET
Então porque se riram quando disse que aborrecia os homens?
ROSENCRANTZ
É que eu pensava que, se os homens lhe são odiosos, triste acolhimento receberiam os actores que encontrámos no caminho e que vem offerecer a vossa alteza os seus serviços.
HAMLET
Bemvindo será o que representa os reis; tributarei a sua magestade as minhas homenagens; o cavalleiro andante manejará adaga e escudo, debalde não suspirará o namorado, o comico declamará em paz a sua parte; o bobo provocará o riso aos mais hypocondriacos, emfim a namorada estropiará os versos para não deixar de dizer o que cumpre sinta no coração. Que actores são?
ROSENCRANTZ
São os tragicos da cidade, que lhe agradavam tanto.
HAMLET
Porque se tornaram actores ambulantes? Com a permanencia na cidade, auferiam de certo maior honra e lucros.
ROSENCRANTZ
Innovações recentes foram a causa d'isso.
HAMLET
Ainda gosam da mesma reputação que tinham quando eu habitava a cidade? As suas representações ainda são muito concorridas?
ROSENCRANTZ
Pouco, senhor.
HAMLET
Porque será? Terão elles desmerecido no seu modo de representar?
ROSENCRANTZ
Não, meu senhor; o seu zêlo não arrefece: mas vossa alteza de certo saberá, que appareceu um enxame de creanças, apenas saídas da primeira infancia, que declamam o dialogo o mais simples, no tom o mais elevado, e por isso são calorosamente applaudidas. São moda, e lançaram um tal desfavor sobre os actores ordinarios, como ellas lhe chamam, que muitos homens valentes no campo da batalha, mas que temem as pennas aguçadas, não ousam frequentar o verdadeiro theatro.
HAMLET
Como? pois são creanças? Quem as protege? quem lhes paga? quererão unicamente seguir a sua profissão emquanto conservarem a sua voz aflautada? E se um dia pela força das circumstancias se tornarem actores ordinarios, não terão direito então de se arrependerem, de terem acceitado os encomios das pennas que bem mau serviço lhes prestaram, quando se voltarem contra elles as armas de que se serviram para mal dos outros.
ROSENCRANTZ
Não luctaram pouco entre si, e a nação inteira animou a contenda. Houve um momento em que a receita do emprezario dependia de brigarem os actores e auctores.
HAMLET
Será crivel?
ROSENCRANTZ
Houve mais de uma cabeça quebrada.
HAMLET
E foram as creanças que venceram?
ROSENCRANTZ
Sim, meu senhor. Venceram o proprio Hercules com o seu globo.
HAMLET
Nada me admira, sendo meu tio rei de Dinamarca. Os que o evitavam em vida de meu pae, pagam agora o seu retrato em miniatura, por vinte, cincoenta e cem ducados. Por vida minha que ha alguma cousa sobrenatural em tudo quanto presenceâmos, e que em verdade a philosophia devia esmerar-se por descobrir. (Ouve-se o som de uma musica de clarins ao longe.)
GUILDENSTERN
Chegam os actores.
HAMLET
Senhores, bemvindos sejam em Elsenor. As suas mãos que eu as aperte. O que distingue um bom acolhimento são os cuidados e as attenções polidas; deixem-me recebel-os assim para não parecer que a cortezia para com os actores, com os quaes é minha intenção ter a maior, ultrapassa a que lhes testemunho pessoalmente aos senhores. Bemvindos sejam, mas o tio que tenho por padrasto, e a mãe que tenho por tia estão completamente enganados a meu respeito.
GUILDENSTERN
Em que se enganam elles?
HAMLET
Só estou louco quando o vento sopra do nor-noroeste, em soprando do sul, distingo uma garça de um falcão.
Entra POLONIO
POLONIO
Saudo os senhores.
HAMLET
Escuta, Guildenstern, (a Rosencrantz) e tu tambem: a bom entendedor meia palavra basta; esta creança que vêem ainda usa coeiros.
ROSENCRANTZ
Talvez que os torne a usar; a velhice é, segundo dizem, uma segunda infancia.
HAMLET
Aposto que me vem fallar nos actores; vão ver. Tem rasão, senhor, foi effectivamente na manhã de segunda feira.
POLONIO
Trago uma nova para vossa alteza.
HAMLET
Tenho tambem uma para o senhor. Quando Roscio era actor em Roma...
POLONIO
Os actores acabam de chegar.
HAMLET
Não é verdade.
POLONIO
Palavra de honra.
HAMLET
Cada actor virá montado n'um jumento.
POLONIO
São os melhores actores do mundo para a tragedia, comedia, drama historico e pastoril, pastoral comica e historica, pastoral tragico-comico-historica, com ou sem unidade do logar da acção. Para elles não ha difficuldades, são tristes com Seneca, folgasãos com Plauto. Não têem rivaes quanto ao estylo e á expressão.
HAMLET
Ó Jephthé, juiz em Israel, que thesouro possuias!
POLONIO
Que thesouro possuia elle, senhor?
HAMLET
Mas...
Que era da noite sua a celestial aurora.
POLONIO (á parte)
Ainda minha filha.
HAMLET
Não tenho eu rasão, velho Jephthé?
POLONIO
Se me chama Jephthé, é porque tenho uma filha que estremeço.
HAMLET
Não é consequencia.
POLONIO
Então qual é a consequencia?
HAMLET
Eil-o.
Conhece o seguimento?
Para o final recorde-se da primeira parte d'estas trovas, porque eis quem me obriga a terminar.
Entram tres ou quatro ACTORES
HAMLET (continuando)
Bemvindos todos, bemvindos sejam. Estou encantado de te ver de boa saude, bemvindos sejam, amigos. Ah, meu amigo, que mudança! já com barba! Quererás tu fazer-me sombra em Dinamarca? Ah eis-vos tambem aqui, minha menina! Por nosso senhor, depois que vos vi, subistes apenas um degrau para o céu. Deus queira que a vossa voz, moeda de liga mutavel, não se deprecie de mais com o tempo. Senhores, para mim são todos bemvindos; mas vamos direitos ao assumpto, como os falcoeiros francezes, que largam o falcão á primeira peça de caça que se apresenta, mostrem-me a sua pericia; vamos, um trecho bem pathetico.
PRIMEIRO ACTOR
Que trecho preferis, senhor?
HAMLET
Ouvi-te um dia declamar um trecho de uma peça nunca representada em scena, ou quando muito uma unica vez, porque, se bem me lembro, a peça não agradou a todos; era caviar para o geral do publico: mas, segundo a minha opinião e das pessoas que n'este assumpto têem voz mais auctorisada do que a minha, era uma peça excellente, bem conduzida e escripta com tanta decencia como arte. Pelo que me lembro, diziam que os versos não eram bastante picantes para compensar a insipidez da acção, seu estylo na verdade nada tinha de affectado, mas que quanto ao resto a peça, escripta com tanta simplicidade como methodo, era natural, agradavel, e sem pretensão. Havia sobretudo um trecho que me agradou, era, na falla de Eneas a Dido, o ponto em que lhe refere a morte de Priamo. Se ainda te recordas, começa n'esta phrase, espera, deixa-me ver se me lembro.
Não é isso—começa por Pyrrho.
Que, bem como a alma, tinha a côr da noite escura
Quando elle era a dormir no cavallo sinistro.
Mensageiro do mal, de Belzebut ministro,
No corpo traz agora, em rubros caracteres,
Mais sinistro brazão; da fronte aos pés o cora
O sangue d'anciãos, d'infantes, de mulheres,
E por mil bôcas, mata a sêde que o devora
No sangue recosido aos raios d'essa chamma
Que Troia, em fogo ardendo, em torno a si derrama.
Tisnado pelo fogo e pela raiva ardente
Após Priamo corre...
Continúa tu agora.
POLONIO
Boa declamação na verdade, com as medidas e intonações proprias.
PRIMEIRO ACTOR
Mal vibra um frouxo golpe; aquella espada, outr'ora
Como o raio veloz, lá onde cae descansa,
Indocil á vontade, e á mão rebelde agora,
Oh lucta desigual! lucta sem esperança,
Pyrrho de raiva acceso, investe em frente e ao lado!
E, só do gladio ao sôpro eil-o no chão prostrado
O guerreiro senil! Então, Troia abatida
Parece haver sentido, os golpes derradeiros:
Ao ver prostrado o rei exhaure-se-lhe a vida,
Desabam sobre a base em chammas os outeiros,
E o som cavo e profundo a Pyrrho fere o ouvido.
Eis de repente o gladio, a grande altura erguido,
Já prestes a immolar a fronte alva, nevada,
Do venerando rei, detem-se lá na altura.
E Pyrrho assim parece um tyranno em pintura,
Suspenso entre a vontade e a obra começada!
Mas como, muita vez, pouco antes da procella
Se faz como que ouvir um silencio que gela,
Pára a nuvem no céu, o vento não retumba,
E a terra a nossos pés é muda como a tumba;
Subitamente após se vê no fundo baço
Um raio que illumina e rasga o immenso espaço,
Assim de Pyrrho a furia, instantes mal contida,
Irrompe a completar a obra interrompida.
Dos Cyclopes jamais caíram retumbantes
Com remorso menor os malhos flammejantes
Para forjar de Marte a gravida armadura,
Que sobre o nobre velho, ensanguentada, impura,
De Pyrrho a espada ardente!... É finda a horrenda lucta!
Atrás, fortuna, atrás, atrás, vil prostituta!
Vós, deuses immortaes, em synodo sagrado,
Roubae-lhe o audaz poder, quebrae todos os raios
Ás rodas do seu carro, e lá do céu lançae-os
Tão baixo que o demonio os veja sempre ao lado.
POLONIO
Parece-me demasiado longo.
HAMLET
Para o encurtar manda-se a um barbeiro ao mesmo tempo que a tua barba. (Ao actor.) Continúa, peço-to eu; se não lhe apresentam um bailado grutesco, ou uma scena immoral adormece logo. Continúa, pois, chegámos a Hecuba.
PRIMEIRO ACTOR
HAMLET
A rainha embuçada.
POLONIO
Optimo, embuçada é bom.
PRIMEIRO ACTOR
As chammas, apagando; a fronte coroada
Por um farrapo vil, a fronte onde ainda agora
Brilhava um diadema; apenas mal vestida
Por coberta alcançada á pressa na fugida;
Quem visse tanto horror, acaso concebêra
Que a fortuna só tem entranhas de uma fera;
Mas se os deuses do Olympo houvessem escutado,
Quando ella vira Pyrrho entregue ao estranho goso
De cortar membro a membro, o corpo ao morto esposo,
De seu peito fremente, o grito amargurado
A não ser que da terra ao céu não suba a magua
Sentiriam como ella os olhos rasos d'agua!
POLONIO
Vejam, empallidece, o pranto inunda-lhe os olhos. Basta, peço-to.
HAMLET
Está bem, o resto m'o recitarás n'outra occasião; (a Polonio) queira prover que estes actores sejam bem tratados, percebeu? que nada lhes falte, porque são a chronica resumida e viva da epocha. Mais lhe valeria, Polonio, um mau epitaphio depois da sua morte, do que o seu vituperio em vida.
POLONIO
Tratal-os-hei segundo os seus merecimentos.
HAMLET
Melhor, meu caro, melhor; se se tratasse cada um segundo os seus merecimentos, de poucos se faria caso. Trate-os como o deve á jerarchia e á sua propria dignidade. Quantos menos titulos tiverem á sua benevolencia, mais se deve esmerar no seu tratamento. Agora póde-se retirar com elles.
POLONIO
Venham, senhores.
HAMLET
Sigam-o, meus amigos, ámanhã teremos a representação, (Polonio sáe com os actores, menos um a quem Hamlet faz signal que fique.)
HAMLET (continuando)
Dize-me, meu caro amigo, poderias representar a morte de Gonzaga?
PRIMEIRO ACTOR
Com mil vontades, senhor.
HAMLET
Então ámanhã. Dize-me mais, poderias tu aprender de cór, sendo preciso, doze ou dezeseis linhas que eu desejava intercalar na peça? pódes, não é verdade?
PRIMEIRO ACTOR
Posso perfeitamente, meu senhor.
HAMLET
Fica pois ajustado, segue aquelle senhor, e só te peço que não zombes d'elle. (O actor sáe.)
HAMLET (a Rosencrantz e Guildenstern)
Meus bons amigos, até á noite, estimei vel-os em Elsenor.
ROSENCRANTZ
Meu senhor. (Sáe com Guildenstern.)
HAMLET
Finalmente estou só. Que miseravel eu sou! Pois não será monstruoso que este actor, n'uma ficção, na expressão de uma dor simulada, podesse elevar a sua alma, identificando-se com a sua parte, exaltando-se a ponto de empallidecer, de lhe borbulhar o pranto nos olhos, de se lhe pintar o desespero nas feições, entrecortada está a sua voz, e o seu todo faz uma verdade, de que não é senão uma situação fingida! E tudo, por quem? por Hecuba; que é Hecuba para elle, ou elle para Hecuba, para que a sua memoria lhe arranque lagrimas tão sentidas? Que faria elle no meu logar, se tivesse tantos motivos de dor, quantos eu tenho. Inundava de pranto a scena, aterrava os espectadores pela sua expressão terrivel, fulminava o culpado, atemorisava o innocente; attonitas ficavam as almas simples, e a commoção aos sentidos da vista e do ouvido seria geral. E eu, alma tibia, intelligencia confusa, fico n'uma estupida inacção, indifferente á minha propria causa, e nada acho que dizer, nada, mesmo nada a favor de um rei que perdeu a corôa e a vida pelo mais inaudito attentado! Ah como sou cobarde! Infame me deveriam chamar, esbofetear-me, arrancar-me as barbas, lançar-m'as ao rosto com o desprezo; insultar-me deveriam todos, dizer-me que pela gorja menti, e obrigar-me a soffrer calado todos os vilipendios possiveis. Quem quer fazel-o. Por vida minha que era justo; é forçoso que eu seja inoffensivo como uma pomba sem fel, para levantar uma offensa, para não ter feito pasto dos abutres as entranhas d'esse miseravel, sanguinario e impudico scelerado. Monstro de perfidia, juntas ao assassinio o adulterio! Como sou estupido! É bello na verdade ver-me, a mim, o filho de um rei e pae assassinado, a quem céus e terra instigam á vingança, gastar a minha indignação em palavras e vãs imprecações, como a mais vil e desprezivel prostituta. Que vergonha!! Procuremos Uma idéa... (depois de uma pausa prolongada) Eil-a, achei. Ouvi dizer que criminosos, assistindo a representações dramaticas, de tal modo se perturbaram vendo a sua culpa em scena, que espontanea e immediatamente fizeram confissão do seu crime, porque o assassino embora mudo trahe-se e falla. Quero que os actores representem, na presença de meu tio, a morte de meu pae, observarei as suas feições, sondarei as suas impressões; se se perturbar, sei o que me cumpre fazer. O espirito que me appareceu talvez seja um demonio, porque póde revestir-se da fórma de um objecto amado, tem poder sobre as almas melancholicas, e quem sabe se na minha fraqueza e dor acha os meios para me perder, condemnando-me para sempre. Quero ter a certeza completa; o drama em questão será o laço armado á consciencia do rei. (Sáe.)
Fim do acto segundo
ACTO TERCEIRO
SCENA I
Uma sala no castello de Elsenor
Entram o REI, a RAINHA, POLONIO, OPHELIA, ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN
O REI
Então ainda não poderam, nas suas conversas com elle, descobrir a causa da desordem da sua intelligencia; d'aquella perigosa e turbulenta demencia que se apoderou do seu espirito e lhe rouba o descanso?
ROSENCRANTZ
Confessa sentir esvaír-se-lhe a rasão; mas não conseguimos que elle nos revelasse a causa.
GUILDENSTERN
Parece pouco disposto a deixar sondar os seus sentimentos. Na sua loucura não o abandona um resto de sagacidade; conserva-se na defensiva todas as vezes que tentâmos encaminhal-o a uma confissão tocante ao seu estado.
A RAINHA
Recebeu-os bem ao menos?
ROSENCRANTZ
Com toda a affabilidade de um homem bem educado.
GUILDENSTERN
Mas evidentemente constrangido.
ROSENCRANTZ
Perguntando pouco, mas respondendo ás nossas perguntas com a maior naturalidade.
A RAINHA
E experimentaram algum divertimento para o distrahir?
ROSENCRANTZ
O acaso fez-nos encontrar no caminho alguns actores; fallámos-lhe n'elles, esta nova pareceu agradar-lhe. Estão aqui no palacio, e creio já terem recebido ordem para representarem esta noite na sua presença.
POLONIO
É verdade, e pede a vossas magestades que assistam á representação.
O REI
Com o maior prazer; estimo vêl-o assim disposto. Queiram estimulal-o, senhores, e dirigir a actividade do seu espirito para estes divertimentos.
ROSENCRANTZ
Assim o faremos. (Sáe com Guildenstern.)
O REI
Deixa-nos tambem, querida Gertrudes. Mandámos chamar secretamente a Hamlet, para como por acaso o pôr na presença de Ophelia. Seu pae e eu, legitimos espias, collocar-nos-hemos de maneira que, sem sermos vistos, assistamos á entrevista e possamos julgar pelas suas palavras, se é um amor infeliz que assim o faz padecer.
A RAINHA
Obedeço retirando-me. Quanto a ti, Ophelia, desejo ardentemente que os teus encantos sejam a feliz causa da demencia de Hamlet; porque terei então esperança que as tuas virtudes o restituirão, a contento de ambos, ao primitivo estado.
OPHELIA
Quanto o desejo, senhora.
POLONIO
Ophelia, passeia aqui n'esta sala; (ao rei) vamo-nos collocar, senhor; (a Ophelia) lê n'este livro; esta leitura simulada servirá de pretexto á tua solidão. Enganâmo-nos tantas vezes, e quão frequentemente acontece, com uma capa de santidade e attitude reservada conseguirmos fazer um santo do proprio demonio!
O REI
Oh é bem verdade; que pungente dor esta observação inflige á minha consciencia! O rosto da prostituta não é mais asqueroso debaixo da mascara do seu arrebique, do que o é o meu crime debaixo do falso verniz do meu discurso. Oh peso terrivel!
POLONIO
Hamlet approxima-se, retiremo-nos, senhor. (O rei e Polonio occultam-se atrás da cortina.)
Entra HAMLET
Ser ou não ser, eis o problema. Uma alma valorosa, deve ella supportar os golpes pungentes da fortuna adversa, ou armar-se contra um diluvio de dores, ou pôr-lhes fim, combatendo-as? Morrer, dormir, mais nada, e dizer que por esse somno pomos termo aos soffrimentos do coração e ás mil dores legadas pela natureza á nossa carne mortal; e será esse o resultado que mais devamos ambicionar? Morrer, dormir, dormir, sonhar talvez; terrivel perplexidade. Sabemos nós porventura que sonhos teremos, com o somno da morte, depois de expulsarmos de nós uma existencia agitada? E não deverei eu reflectir? É este pensamento que torna tão longa a vida do infeliz! Quem ousaria supportar os flagellos e ultrages do mundo, as injurias do oppressor, as affrontas do orgulhoso, as ancias de um amor desprezado, as lentezas da lei, a insolencia dos imperantes, e o desprezo que o ignorante inflige ao merito paciente, quando basta a ponta de um punhal para alcançar o descanso eterno? Quem se resignaria a supportar gemendo o peso de uma vida importuna, se não fosse o receio de alguma cousa alem da morte, esse ignoto paiz, do qual jámais viajante regressou? Eis o que entibia e perturba a nossa vontade; eis o que nos faz antes supportar as nossas dores presentes do que procurar outros males que não conhecemos. Assim, somos cobardes todos, mas pela consciencia; assim a brilhante côr da resolução se transforma pela reflexão em pallida e livida penumbra, e basta esta consideração para desviar o curso das emprezas mais importantes, e fazer-lhes perder até o nome de acção. Mas silencio, vejo a linda Ophelia. Joven beldade, lembra-te dos meus peccados nas tuas orações.
OPHELIA
Como tem vossa alteza passado estes dias ultimos?
HAMLET
Bem, agradeço-te do coração.
OPHELIA
Senhor, tenho dadivas e lembranças suas que ha muito lhe desejava restituir. Permitta-me que lh'as devolva.
HAMLET
Eu! de certo que não, nunca te dei nada.
OPHELIA
O principe sabe perfeitamente que me fez essas dadivas, e as doces palavras que as acompanharam ainda lhes realçaram o valor; agora que perderam todo o seu perfume, tome-as, principe, porque para uma alma nobre, as mais ricas dadivas perdem o seu valor, no momento em que aquelle que nol-as fez só nos mostra indifferença. Receba-as, pois, senhor.
HAMLET
Ah, ah, és virtuosa.
OPHELIA
Meu senhor.
HAMLET
És bella.
OPHELIA
Que diz vossa alteza?
HAMLET
Digo que se és virtuosa e bella, deves evitar toda a communicação entre a tua virtude e a tua belleza.
OPHELIA
Que melhor commercio ha para a belleza que o da virtude?
HAMLET
A influencia da belleza será mais prompta em metamorphosear a virtude em vil cortezã, do que a força da virtude em transformar a belleza á sua imagem. Antigamente seria paradoxo, hoje é um facto provado. Amei-te n'outro tempo, é verdade.
OPHELIA
Vossa alteza bem m'o fez acreditar.
HAMLET
Fizeste mal em acreditar. Porque embora a virtude se inocule na nossa primitiva natureza, sempre nos ficam restos d'ella. Nunca te amei.
OPHELIA
Maior foi o meu engano.
HAMLET
Professa, Ophelia, encerra-te n'um claustro. Para que queres continuar uma raça de peccadores; quanto a mim julgo-me ainda assás honesto; e comtudo podia formular contra mim taes accusações, que melhor teria valido, que minha mãe me não tivesse dado á luz. Sou orgulhoso, vingativo e ambicioso; gero no meu cerebro tantas acções más, que o meu pensamento não basta para as distinguir, nem a minha imaginação para lhes dar uma fórma, e falta-me o tempo para as executar. Que vantagem haverá pois que seres como eu se rojem como reptis entre o céu e a terra? Todos somos infames, não te fies em nenhum homem; vae, recolhe-te a um claustro. Onde está teu pae?
OPHELIA
Em casa, meu senhor.
HAMLET
Que lhe fechem as portas para impedir que represente de louco fóra de casa. Adeus.
OPHELIA
Deus misericordioso, tende piedade de Hamlet.
HAMLET
Se alguma vez te casares, dar-te-hei como dote esta triste verdade. Sê tu fria como o gêlo; se fores pura como a neve a calumnia não te poupará. Entra para um claustro, professa, adeus. Mas se absolutamente precisas um marido, então escolhe um louco, porque os homens assisados sabem em que monstros vós as mulheres os tornaes. Professa, recolhe-te a um convento, mas avia-te. Adeus.
OPHELIA
Poderes celestes, restitui-lhe a rasão!
HAMLET
Tambem ouvi fallar da vossa loquacidade. Deus deu-vos um porte e vós o transformaes por vossa culpa. Saltitaes, requebrae-vos; gestos e affabilidade são artificio, zombaes das creaturas de Deus, e fazeis passar por ignorancia o que é simples e pura affectação. Nem quero pensar em vós, mulheres; foi o que me enlouqueceu. Digo que não teremos mais casamentos, todos que estão casados viverão, excepto um, os outros ficarão como estão. Professa, entra para um convento, vae. Adeus. (Hamlet sáe.)
OPHELIA (só)
Oh que nobre intelligencia está ali desthronada. A perspicacia do homem de côrte, a espada do guerreiro, a palavra do sabio, o futuro d'este reino, o espelho do bom tom, o typo dos modos nobres, o modelo em que todos fictavam os olhos, tudo destruido e destruido sem esperança; e eu, a mais afflicta e infeliz das mulheres, eu que saboreei a inebriante ambrosia dos seus juramentos de amor, estou condemnada a ver essa potente e elevada rasão, similhante ao bronze fendido, não dar senão sons falhos e dissonantes; e tanta belleza e juventude crestadas pelo sôpro da demencia! Oh infeliz, oh desgraçada, que vi o que vi, e vejo o que vejo!!!
Sáem de trás da cortina o REI e POLONIO
O REI
O amor! não é a ella que elle dedica a sua affeição; alem d'isso o seu fallar, aindaque um pouco falto de logica, não tem cunho de loucura. Ha na sua alma alguma dor secreta. Receio algum perigo que nos seja fatal. Para prevenir esse resultado, eis o plano que formei e no qual assentei. Quero que Hamlet parta sem demora para Inglaterra, para reclamar o tributo a que esse paiz se nega e a que é obrigado. Talvez que o mar, a mudança de clima, a vista de objectos novos, lhe restituam a rasão, expulsando do seu coração aquella obstinada preoccupação. Que lhe parece?
POLONIO
Parece-me acertado. Comtudo persisto na minha idéa, que um amor desprezado é a causa unica da sua dor. (A Ophelia) Não precisas referir-nos o que te disse o sr. Hamlet. Tudo ouvimos. (Ao rei) Senhor, faça o que lhe parecer conveniente, mas se me quer dar ouvidos, diga á rainha, que, depois da representação, o chame a sós e inste para conhecer d'elle a causa da sua mágua; porém cumpre que lhe falle severamente: com o vosso assentimento ouvirei escondido toda a conversação. Se a rainha não podér penetrar aquelle espirito rebelde a toda a confidencia, ordene-lhe então a partida, e desterre-o, senhor, para o logar que a prudencia lhe dictar.
O REI
Concordo plenamente comtigo; nos grandes é que a demencia deve ser mais vigiada. (Sáem todos.)
SCENA II
Uma sala no castello de Elsenor
Entram HAMLET e differentes actores
HAMLET (a um dos actores)
Não esqueças de dizer aquelle trecho, tal qual o declamei na tua presença; mais que tudo fogo e energia; mas se o recitares como a maior parte dos actores, mais me valeria ouvir a minha prosa na bôca de um pregoeiro. Não movas descompassadamente os braços, acciona moderadamente; no meio mesmo da torrente, da tempestade, do tufão, da paixão, procura ser comedido. Nada impressiona mais desfavoravelmente, do que ver homens robustos reduzirem a pó uma paixão e escorchar os ouvidos dos assistentes, que, pela maior parte, não merecem senão uma declamação absurdamente arrebatada e uma acção desordenada. Açoutados mereciam esses actores, cujo accionado mais parece renhida batalha, e que mais crueis se fingem que um Herodes de comedia. Peço-te que evites esses defeitos.
PRIMEIRO ACTOR
Pela minha parte, prometto-lh'o, senhor.
HAMLET
Não vás tambem caír no excesso contrario, sirva-te de guia a tua intelligencia. Accommoda a acção ás palavras, as palavras á acção, tendo sempre em vista a naturalidade; só é proprio da scena intelligente, que foi e é o espelho em que se deve reflectir a natureza, mostrar a virtude tal qual é, a vaidade sem véu, e cada tempo e cada idade com a sua physionomia propria e com o cunho de verdade. Se se excede, ou se fica áquem do fim proposto, poderá excitar-se a hilaridade do homem ignorante, mas afflige-se o sensato, cujo juizo vale mais que o suffragio de uma sala inteira. Oh! vi representar e ouvi elogiar actores, que, Deus me perdôe, nada tinham de christão na voz, nada de christão, pagão ou mesmo humano no porte, e que se estorciam e bramavam de tal modo, que sempre os julguei obra de algum aprendiz da natureza, que, querendo fabricar homens, errou a vocação, e não tinha produzido senão uma desgraçada imitação da humanidade.
PRIMEIRO ACTOR
Espero em Deus, que vossa alteza não nos poderá notar taes defeitos; entre nós, senhor, estão banidas de todo as exagerações.
HAMLET
Mas que o estejam na verdade; que os bobos não digam mais do que ao que são obrigados pela sua parte; alguns ha que introduzem alguma facecia para excitar o riso dos espectadores ignaros no ponto em que mais attenção se reclama da parte do publico. É um desacerto, e o bobo que recorre a esses expedientes, mostra uma pretensão desgraçada. Vão-se agora preparar. (Os actores sáem.)
Entram POLONIO, ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN
HAMLET (a Polonio)
Então o rei está decidido á nossa peça?
POLONIO
Com certeza, e a rainha tambem. Não tardam.
HAMLET
Diga então aos actores que se aviem. (Polonio sáe.)
HAMLET (continuando, a Rosencrantz e Guildenstern.)
Querem fazer-me o favor de tambem ir apressar os preparativos.
AMBOS
Sim, meu senhor. (Sáem.)
Entra HORACIO
HAMLET
Ah, és tu, Horacio?
HORACIO
Estou sempre ás suas ordens, meu senhor.
HAMLET
Meu caro Horacio, és a flor dos homens, cujo trato tenho cultivado.
HORACIO
Meu querido senhor.
HAMLET
Não julgues que te lisonjeio; que posso eu esperar de ti, cujas unicas rendas são a jovialidade e a honestidade. Quem lisonjeia um pobre? Não, que a lisonja roja-se aos pés da opulencia estupida, e o servilismo curva o joelho, á espera do comprador. Escuta, depois que a minha alma pôde livremente escolher e soube distinguir os homens, marcou-te com o sêllo da predilecção, porque reconheceu em ti um homem que não se abate pelos revezes; um homem que acceita com a mesma indifferença os favores e os rigores da fortuna; felizes os mortaes em quem o juizo e as paixões têem igual imperio, e não são um joguete nas mãos da fortuna. Mostrem-me um homem que não seja escravo das paixões, e terá conquistado, como tu, o meu coração, e abrir-lhe-hei o santuario da affeição mais íntima. Basta sobre o assumpto. Deve-se hoje representar na presença do rei um drama, no qual ha uma scena, que é a historia da morte de meu pae, cujos pormenores já em tempo te contei. Quando se approximar a scena, observa meu tio, com toda a vigilancia que auctorisam as minhas suspeitas; se o segredo do seu crime se não revelar por alguma palavra, então era a apparição obra do demonio, e as minhas imaginações são mais negras que as lavas e cinzas de um vulcão. Tu observa-o attentamente, eu não o perderei de vista; depois, juntando os nossos juizos, concluiremos conforme ao que virmos.
HORACIO
Muito bem, senhor, tão firme estarei no meu posto de observação, que juro por Deus, que me não escapará um movimento, uma impressão da sua alma.
HAMLET
Eil-os que chegam para a representação; agora, cumpre-me ser espectador indifferente. (Ouve-se a marcha real e clarins.)
Entram o REI, a RAINHA, POLONIO, OPHELIA, ROSENCRANTZ, GUILDENSTERN e a CORTE
O REI
Como passa nosso sobrinho Hamlet?
HAMLET
Melhor não póde ser; em verdade passei a viver como os camaleões, nutro-me só de ar, e alimento-me de promessas, as iguarias mais finas não me satisfariam melhor.
O REI
A tua resposta é-me inintelligivel; não é de certo a mim que ella é dirigida.
HAMLET
Pois nem a mim. (A Polonio.) Não me disse que já tinha representado uma vez, quando cursava a universidade?
POLONIO
É verdade, senhor, e era reputado um habil actor.
HAMLET
Que parte representou?
POLONIO
A de Julio Cesar; assassinaram-me no capitolio; Bruto apunhalava-me.
HAMLET
Que brutalidade apunhalar, e n'aquelle logar, um tão excellente bezerro. Os actores já estão promptos?
ROSENCRANTZ
Sim, meu senhor, esperam só as ordens.
A RAINHA
Vem, meu Hamlet, sentar-te a meu lado.
HAMLET
Não, minha mãe; (mostrando Ophelia) este metal tem mais força de attracção.
POLONIO
Que me diz agora, senhor?
HAMLET
Ser-me-ha permittido estar a vossos pés, senhora? (Senta-se no chão aos pés de Ophelia.)
OPHELIA
Não, meu senhor.
HAMLET
Queria dizer, recostar a cabeça sobre vossos joelhos.
OPHELIA
Sim, meu senhor.
HAMLET
Pensaveis talvez que tivesse outra idéa?
OPHELIA
Nada pensava.
HAMLET
É um pensamento este digno de um coração de donzella.
OPHELIA
O que, senhor?
HAMLET
Nada.
OPHELIA
Vejo-o hoje alegre, senhor.
HAMLET
Quem, eu?
OPHELIA
Sim, vossa alteza.
HAMLET
Sou o seu bobo e nada mais. Cousa alguma ha melhor para o homem do que a alegria. Repare, veja como minha mãe está hoje muito alegre, e ainda não ha duas horas que meu pae morreu.
OPHELIA
Vossa alteza engana-se por certo; ha mais de duas vezes dois mezes.
HAMLET
Tanto tempo!! n'esse caso use o demonio o lucto, eu quero vestir-me de arminhos. Oh céus, morto ha dois mezes, e ainda não esquecido, não é então de estranhar que a recordação de um grande homem dure mais de seis mezes; mas, pela Virgem Santa, deve então ter edificado igrejas, aliás arriscava-se a que o esquecessem, como aquelle a quem lavraram este epitaphio:
Aqui jaz esquecido um cavallo de pau.
Soam os clarins, começa a pantomima
(Um rei e uma rainha entram em scena, o seu aspecto é de namorados, abraçam-se. A rainha ajoelha aos pés do rei, mostrando pelos seus gestos que lhe protesta o mais vivo amor. O rei levanta-a, e inclina a cabeça sobre o seu hombro; depois deita-se n'um banco coberto de flores. A rainha vendo-o adormecido, sáe. Apparece um personagem que lhe tira a corôa e a leva aos labios, lança veneno n'um ouvido do rei, e sáe em seguida. Volta a rainha, acha o rei morto, e dá mil signaes de desespero. O envenenador seguido por duas ou tres pessoas, chega e parece lamentar-se com a rainha. O cadaver é levado da scena. O envenenador requesta a rainha, dá-lhe presentes. Ella mostra a principio repugnancia, mas acaba por acceitar o amor offerecido. Sáem.)
OPHELIA
Que significa esta scena, senhor?
HAMLET
Nada que seja bom, é um laço armado ao crime.
OPHELIA
Esta pantomima indica sem duvida o entrecho da peça?
Entra o PROLOGO
HAMLET
Vamos sabel-o, os comediantes não podem guardar um segredo, têem por costume fallar sempre.
OPHELIA
Explicará elle o que significa a pantomima?
HAMLET
Sem duvida, não só essa, mas todas as que lhe quizer apresentar, qualquer que seja a sua especie, e terá a explicação prompta.
OPHELIA
O principe é mau, deixe-me seguir a peça.