Para a nossa tragedia, attenta paciencia.
HAMLET
Parece antes divisa de annel do que prologo.
OPHELIA
Tão curto, senhor.
HAMLET
Como o amor de uma mulher.
Entram um REI e uma RAINHA
O REI DA PEÇA
De Tellus e Neptuno, o largo giro ha feito,
E trinta vezes doze a lua, astro saudoso,
De refrangida luz, á terra ha dado o preito,
Desde que as nossas mãos, com mutuo amor se deram,
E as bençãos d'Hymeneu o sacro nó teceram.
A RAINHA DA PEÇA
Antes que d'este amor se rompa o doce laço;
Mas seguem-se á ventura as maguas, os revezes,
E vejo-vos caído, ha pouco, em tal cansaço,
Tão triste, meu senhor, tão triste e tão mudado,
Que não posso esconder mais tempo o meu cuidado.
Mas que não se perturbe o vosso animo forte
Porque inquieta eu sou, e ousei pensar na morte.
De affecto e de anciedade igual medida temos,
Ou nullos um e o outro, ou um e o outro extremos.
Se é grande o meu amor, demais senhor o vêdes,
Que a par anda o receio, em minha fronte o lêdes.
Sempre que o amor é grande, as apprehensões mais breves
Transformam-se de prompto em maximos temores;
Quando é grande o receio, os affectos mais leves
Ascendem de repente aos mais grandes amores.
O REI DA PEÇA
Bem vês, d'esta alma a luz já quasi que se aparta.
Tu viverás sem mim, sob este céu formoso,
Querida, idolatrada e sempre honesta e casta.
Depois, talvez depois, quem sabe? um novo esposo...
Um homem justo e bom...
A RAINHA DA PEÇA
Seria um novo amor perfidia negra e infame.
Amaldiçoado seja o dia em que outro eu ame!
Embora justo e bom, segundo companheiro
Não n'o acceita ninguem, sem ter morto o primeiro.
HAMLET
Isto é absintho, e que absintho!
A RAINHA DA PEÇA
Acaso um novo amor? um nobre sentimento?
Um sordido interesse: e eu cravára no peito
De meu morto senhor a ponta de uma espada,
Cada vez que, olvidando a antiga fé jurada,
Compartisse outro ser commigo o mesmo leito.
O REI DA PEÇA
Mas quanta, oh! quanta vez, se quebra a acção no meio,
Nasce a resolução escrava da memoria,
Producto da violencia, é curta a sua historia.
A fructa emquanto verde em qualquer ramo atura
Mas, sem abalo algum, tomba apenas madura.
Fatalmente olvidando o que a nós nos devemos
Não pagâmos jámais, a divida esquecemos.
O que durante a dor parece a eternidade,
Mal extincta a paixão, cessa de ser vontade.
O jubilo e o martyrio, ainda os mais completos,
Destruindo-se a si, destroem seus decretos.
Onde o prazer mais ri, mais chora a dor pungente;
Entristece a alegria, alegra-se a tristeza,
Á causa mais subtil, ao mais leve accidente,
E este um dom fatal da vária natureza.
Passâmos pelo mundo, e nada aqui tem dura
Que até o proprio amor muda com a ventura;
Porque é problema ainda occulto aos pensadores
Se dá o amor fortuna, ou se a fortuna amores.
Um principe decáe? somem-se os que os adulam;
Um mendigo se eleva? os amigos pullulam.
Até aqui o amor seguiu sempre a fortuna;
Quem não precisa encontra em toda a parte amigos,
E quem precisa e pede, é lepra que importuna,
Todos transforma e muda em feros inimigos,
Mas para concluir, escuta o corollario:
A vontade e o destino, andam tanto ao contrario
Que o mais leve projecto é sempre letra morta.
Assim crês, não terás jamais outro marido;
Pois abra-me o sepulchro a sua eterna porta
E tudo irá sumir-se em um perpetuo olvido.
A RAINHA DA PEÇA
O meu goso maior transforme-se em tormento!
Minha esperança e fé tornem-se em negro inferno!
Seja a fome em prisão o meu futuro eterno!
Não tenha eu, viva ou morta, o mais curto repouso,
Se, viuva uma vez, tomar um outro esposo!
HAMLET
E se lhe acontecer violar o juramento?
O REI DA PEÇA
Exhausta sinto a fronte, e bom grado entregára
Os restos d'este dia á paz consoladora
Dos braços de Morpheu. Adeus! Oh! sempre cara. (Adormece.)
A RAINHA DA PEÇA
E a desgraça jamais entre nós dois se assente!... (Sáe a rainha.)
HAMLET
Senhora, como acha esta peça?
A RAINHA
A rainha parece-me que faz demasiados protestos.
HAMLET
Mas dada a palavra, não póde faltar.
O REI
Conhece a peça? não contém nada reprehensivel?
HAMLET
Absolutamente nada; tudo quanto contém é só gracejo, até se envenena por gracejo. É a peça mais inoffensiva que póde haver.
O REI
Que titulo tem?
HAMLET
O Laço, já se sabe, por metaphora. O assumpto da peça é um assassinio commettido em Vienna. O rei chama-se Gonzaga, sua mulher Baptista. Vae ver, um crime horrivel. Mas que importa a vossa magestade e a mim, que temos a consciencia pura e que nada temos a receiar! O peior é para aquelles a quem punge algum espinho, a nós nada nos pesa na consciencia.
Entra LUCIANO
HAMLET (continuando)
É este um chamado Luciano, sobrinho do rei.
OPHELIA
Vossa alteza faz o serviço do côro.
HAMLET
Podia até servir de ponto n'uma conversa sua com o seu amante; o caso era eu ver manobrar os dois titeres.
OPHELIA
Sois na verdade mordaz, principe; sois bem mordaz.
HAMLET
A sua pena seria que eu deixasse de o ser.
OPHELIA
De bem para melhor, de mal para peior.
HAMLET
É a sorte que a espera na escolha de um marido! Começa, assassino. Põe de parte esses horriveis tregeitos, avia-te, começa.
Chamando em seu grasnar a lugubre vingança.
LUCIANO
A droga preparada, a hora favoravel,
Cumplice a occasião, a ver nem um só rosto.
Mistura infecta e immunda, extracto abominavel
De peçonhenta sarça á meia noite achada,
Tres vezes polluida e tres envenenada
D'Hecate á maldição, possa a tua virtude
Fechar uma existencia, e abrir um ataúde.
(Deita veneno n'um ouvido do rei adormecido.)
HAMLET
Envenena-o no jardim, para se apoderar da corôa. O nome do rei é Gonzaga; é uma historia authentica escripta no mais elegante italiano. Verão como logo o assassino obtem o amor da mulher de Gonzaga.
OPHELIA
O rei levantou-se.
HAMLET
Quê!! um pequeno clarão apenas, já o assusta?
A RAINHA
Que tem, senhor?
POLONIO
Cesse a peça.
O REI
Tragam luzes. Saiâmos.
POLONIO
Luzes, venham luzes, luzes. (Todos sáem, excepto Hamlet e Horacio.)
HAMLET
E o que ao golpe escapou, gose um prazer profundo.
Quando um chora, outro ri. Oh! sempre assim ha sido,
E assim é feito o mundo.
Se alguma vez a fortuna me maltratar, não bastaria uma scena de effeito como esta, acrescentando-lhe um chapéu ornado de pennas, e duas rosas de Provença nos laços dos sapatos, para que me admittissem n'uma companhia dramatica.
HORACIO
Talvez o admittissem, mas com meia paga.
HAMLET
Ou inteira.
Mandava n'este reino, que vês hoje aviltado,
Qual Jupiter no Olympo, um grande rei... agora
Governa aqui... um chavo.
HORACIO
Foi pena não rimar.
HAMLET
Meu querido Horacio, aposto mil libras esterlinas, em como a sombra fallou só a verdade. Reparaste?
HORACIO
Em tudo reparei, senhor.
HAMLET
Quando se tratava do envenenamento?
HORACIO
Tudo observei.
HAMLET
Ah! ah! ah! quero musica, tanjam as charamelas.
Sei eu dar a rasão... não gosta, está dada.
Venha a musica, quero muita musica. (Entram Rosencrantz e Guildenstern.)
GUILDENSTERN
Senhor, permitta-me que lhe dê uma palavra.
HAMLET
Mil até, se n'isso fizer gosto.
GUILDENSTERN
Senhor... o rei...
HAMLET
Que é?... que me vem dizer d'elle?
GUILDENSTERN
Retirou-se aos seus aposentos, estranhamente indisposto.
HAMLET
Pelo vinho?
GUILDENSTERN
Não, senhor, mas pela colera.
HAMLET
Mais assisado seria terem chamado um medico. Eu não faria senão exacerbar a sua colera com a minha presença.
GUILDENSTERN
Queira, senhor, ter mais nexo nos seus discursos, e não se afastar assim tão bruscamente da questão.
HAMLET
Escutal-o-hei tranquillamente. Falle.
GUILDENSTERN
A sua rainha e mãe me envia a vossa alteza.
HAMLET
Bemvindo seja.
GUILDENSTERN
Senhor, essa polidez é mal cabida n'esta occasião. Se me promette responder rasoavelmente, executarei então as ordens de sua mãe, quando não, retiro-me pedindo desculpa a vossa alteza.
HAMLET
Não posso.
GUILDENSTERN
O que, meu senhor?
HAMLET
Responder rasoavelmente; a minha intelligencia enfermou, no emtanto dar-lhe-hei uma resposta, ou antes como ordena a minha mãe, a melhor que podér. Diga-me agora, que pretende de mim a rainha?
ROSENCRANTZ
Encarregou-nos de lhe dizer, principe, que o seu comportamento lhe causou espanto e dor.
HAMLET
Ah! sou pois um filho tão extraordinario que causo espanto e dor a minha mãe! Nada mais lhe disse? Fallem.
ROSENCRANTZ
Deseja fallar-lhe, alteza, no seu quarto, antes de o principe se deitar.
HAMLET
Obedecer-lhe-hemos, aindaque fosse dez vezes nossa mãe. Tem mais alguma cousa a dizer?
ROSENCRANTZ
Houve tempo em que o principe era meu amigo.
HAMLET
Ainda hoje o sou, juro-o por estes dez dedos.
ROSENCRANTZ
Senhor, qual é a causa da sua dor profunda? É impor-se um constrangimento inutil, guardar esse segredo para comnosco, que somos tão seus amigos.
HAMLET
Inquieta-me o meu futuro!
ROSENCRANTZ
Como póde isso ser, pois o rei já o escolheu para successor ao throno de Dinamarca?
HAMLET
É verdade; mas guardado está o bocado... o proverbio é antigo.
Entram differentes actores cada um com uma charamela
HAMLET
Ah! chegam as charamelas, dá-me uma. (Tira a charamela a um dos actores.) Quer que o acompanhe? então deixe de me perseguir como o caçador persegue a caça.
GUILDENSTERN
Se o meu zêlo, senhor, me faz obstinado, é porque a affeição me torna importuno.
HAMLET
Não o posso comprehender, faz-me favor de tocar n'esta charamela.
GUILDENSTERN
Senhor, eu não sei!
HAMLET
Peço-lhe.
GUILDENSTERN
Creia-me, senhor, não posso.
HAMLET
Supplico-lhe.
GUILDENSTERN
Se nunca soube tocar tal instrumento!
HAMLET
Pois mais difficil é mentir. Com os quatro dedos e o pollegar tapam-se e destapam-se por sua vez os orificios; sopre, e verá que encantadora harmonia produz. Vamos.
GUILDENSTERN
Mas, senhor, eu não posso nem sequer tirar um som d'este instrumento; falta-me o talento.
HAMLET
Que especie de imbecil me julga então? Sou a seus olhos um instrumento de que pretende tirar sons, e que parece conhecer tão bem. Pretende sondar até ao fundo da minha alma, para descobrir o meu segredo; queria então fazer vibrar todas as cordas do meu sentimento. D'este pequeno instrumento (Mostrando-lhe a charamela) tiram-se sons e notas as mais melodiosas; e comtudo nas suas mãos não póde fallar. Pela Virgem santa, sou então mais facil de tocar do que uma flauta? O que lhe asseguro é que se me julga um instrumento nas suas mãos, nunca conseguirá fazel-o fallar. Está muito enganado commigo.
Entra POLONIO
HAMLET (continuando)
Guarde-o Deus.
POLONIO
Senhor, a rainha deseja fallar-lhe immediatamente.
HAMLET (approximando-se de uma janella)
Vê acolá aquella nuvem que tem quasi a fórma de um camello?
POLONIO
Não ha duvida, dir-se-ia effectivamente um camello.
HAMLET
Parece-se mais com uma doninha.
POLONIO
É verdade! tem o feitio da doninha.
HAMLET
Ou de uma baleia?
POLONIO
Realmente, com o que se parece é com uma baleia.
HAMLET
Agora vou ter com minha mãe, hão de acabar por enlouquecer-me devéras. Vou já.
POLONIO
Vou communical-o á rainha. (Polonio sáe.)
HAMLET
Já! É facil dizel-o. Deixem-me sós, meus amigos. (Sáem todos excepto Hamlet.)
HAMLET (só)
É esta a hora da noite propria dos mysterios da magia, a hora em que os tumulos se abrem, em que o inferno exhala sobre a terra o seu sopro contagioso; agora sinto-me capaz de beber sangue ainda fumegante, e commetter actos que o dia consternado não poderia presencear sem terror! Prudencia! Vamos ao quarto de minha mãe. Oh! meu coração, não dispas o teu vigor; firmeza agora, mas que o coração de Nero nunca entre em meu peito. Sejamos inflexiveis, mas não filho desnaturado; seja a minha lingua um punhal, mas minha mão esteja desarmada; e n'esta occasião sejam a minha bôca e o meu coração obrigados pela rasão a dissimular. Por mais violentas que sejam as minhas palavras, dae-me força, meu Deus, para que sejam sempre comedidas, assim como os meus actos. (Sáe.)
SCENA III
Um quarto no castello de Elsenor
Entram o REI, ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN
O REI
Ha n'elle alguma cousa que me desagrada, e creio que haveria perigo para nós em não vigiar a sua loucura; façam pois todos os preparativos de viagem. Vou dar as ordens, e quero que parta sem demora para Inglaterra acompanhado pelos senhores. O interesse da nossa corôa me veda o expor-me aos continuos perigos com que a sua demencia me ameaça.
GUILDENSTERN
Vamo-nos preparar. É um receio santo e salutar o que tem por objecto assegurar a salvação de innumeras existencias, que depende da vida de vossa magestade.
ROSENCRANTZ
É um dever que toca a cada um na sua esphera individual, o applicar todas as suas forças e toda a energia para defender a propria vida contra qualquer ataque; quanto mais obrigado a fazel-o é aquelle de cuja vida dependem tantas existencias! Quando um rei morre, não morre só, é um turbilhão que attrahe tudo quanto encontra no caminho, ou lhe fica proximo: roda colossal fixada no cume de uma elevada montanha, cujos gigantescos raios estão carregados de innumeros accessorios, e cuja quéda os impelle forçosamente a um desastre commum. Quando o rei padece, padecem todos.
O REI
Preparem-se, peço-lh'o, para uma partida immediata, porque estamos resolvidos a pôr um termo ás causas de inquietação que demasiado livremente se dão n'este paiz.
AMBOS
Não nos faremos esperar. (Sáem.)
Entra POLONIO
POLONIO
Senhor, Hamlet entrou agora para o quarto de sua mãe; occultar-me-hei cuidadosamente para ouvir a sua conversa. Asseguro a vossa magestade que a rainha o vae reprehender severamente. É conveniente, como el-rei muito bem disse, que outros ouvidos que não sejam os de mãe, naturalmente propensos á indulgencia, ouçam o que se disserem mutuamente. Adeus, meu senhor; virei aos seus quartos antes que vossa magestade se recolha, e o rei será sabedor de tudo quanto se passou.
O REI
Obrigado, Polonio. (Polonio sáe.)
O REI (só)
O meu crime já não tem perdão no céu, está marcado pelo estigma da maldição divina, como o foi o primeiro fratricida. Apesar de todos os meus desejos, não posso orar; pareço um homem que duas occupações reclamam, e que, não sabendo por qual optar, não escolhe nenhuma. Poisque, quando sobre esta mão maldita se formasse uma crosta de sangue mais espessa que a propria mão, não teria o céu bastante misericordia para que a onda da sua graça a purificasse e a tornasse branca como a neve? Para que serve a bondade divina, senão para remir as nossas culpas? De que vale a oração, se não tem a dupla virtude de prevenir a nossa quéda, ou obter o perdão depois d'ella? Dirijâmos as nossas supplicas ao céu, já que não podemos evitar o crime consummado. Mas, infeliz, como hei de orar? Perdoae-me, Senhor, o meu crime nefando. Não posso, poisque possuo os objectos que me induziram ao assassinio, corôa, throno e consorte. Poder-se-ha obter o perdão, quando se conservam os fructos do crime? N'este mundo corrompido, a iniquidade póde a preço de oiro desviar o curso da justiça, e com o producto do crime comprar a impunidade; mas o céu é justo, todo o subterfugio é inutil; ali os nossos actos são justamente avaliados e os nossos crimes conhecidos. Que devo fazer? Nada me resta. Tentemos o arrependimento. Grande é a sua efficacia; mas que póde n'aquelle a quem mesmo o arrepender-se é vedado? Oh! deploravel condição, oh! consciencia negra como a morte, oh! minha alma, não tens perdão, e quanto mais te esforçares por obtel-o, mais aggravas a tua situação. Anjos do céu, vinde em meu auxilio, tentae um esforço supremo. Dobrae-vos, joelhos rebeldes. E tu, meu coração, que as tuas fibras de aço voltem ao estado primitivo das do recem-nascido. Ainda me resta esta ultima esperança. (Retira-se a um lado da scena, ajoelha e ora.)
Entra HAMLET
HAMLET (vendo o rei)
A occasião é propicia, está orando. Coragem, Hamlet. Sim, mas salvar-se-ía a sua alma, e não é essa a minha vingança desejada. Reflictâmos; um scelerado assassina meu pae, e eu, seu filho unico, abro as portas do céu a esse infame! Seria uma recompensa e não um castigo. Assassinou meu pae, entregue ás preoccupações da carne, quando seus peccados mais vivazes estavam, como as flores na primavera; e quem sabe, a não ser o céu, que contas daria ao Creador? as penas eternas, de certo, não o pouparam. Seria uma vingança immolar este scelerado, quando a sua alma deve estar pura, quando está preparado para a sua ultima viagem? Não! Entra na tua bainha, minha espada, e espera para ferir, golpe mais terrivel e justo. Quando estiver ebrio ou adormecido, ou encolerisado, ou immerso nos prazeres de um leito incestuoso, ou absorvido pelo jogo, ou blasphemando, ou praticando algum acto contrario á salvação da sua alma, então fere, que as penas do inferno serão poucas para um tal crime. (Olhando para o rei.) Prolonga ainda os teus dias enfermos: adiar não é desistir. (Sáe.)
O REI
Sobem as minhas palavras, o pensamento não, e as palavras sem o pensamento não chegam ao céu. (Sáe.)
SCENA IV
Um quarto no castello
Entram a RAINHA e POLONIO
POLONIO
O sr. Hamlet não tarda. Reprehenda-o asperamente; diga-lhe que os seus atrevimentos excedem os limites da paciencia, e que vossa magestade já teve que se interpor entre elle e a colera do rei. Nada mais digo, senhora, peço só que falle com firmeza.
A RAINHA
Fallar-lhe-hei com firmeza, esteja descansado. Afaste-se, ouço os seus passos. (Polonio esconde-se.)
Entra HAMLET
HAMLET
Que me quer, minha mãe?
A RAINHA
Hamlet, offendeste gravemente teu pae.
HAMLET
Minha mãe offendeu gravemente meu pae!
A RAINHA
Como insensato fallas.
HAMLET
A rainha falla como culpada!
A RAINHA
Que queres tu dizer, Hamlet?
HAMLET
O que é, senhora?
A RAINHA
Esqueces quem eu sou?
HAMLET
Pela cruz do Redemptor, que não. Rainha é, foi esposa do irmão de seu marido, e prouvera a Deus que não o fosse, mas é minha mãe!
A RAINHA
Mandar-te-hei alguem que melhor do que eu te saiba fallar.
HAMLET
Vamos, sente-se, minha mãe. Não se moverá, não saírá d'aqui emquanto eu não tiver posto diante dos seus olhos um espelho em que possa ver até ás profundidades da sua alma.
A RAINHA
Que pretendes de mim? queres tu porventura assassinar-me? Acudam á rainha, acudam!
POLONIO (por detrás do reposteiro)
O que é! olá, soccorro!
HAMLET (desembainhando a espada)
Que é isso? Um rato? (Dando-lhe uma estocada.) Aposto um ducado em como o matei!
POLONIO (atrás do reposteiro)
Mataram-me, eu morro. (Cáe para fóra do reposteiro e morre.)
A RAINHA
Que fizeste, infeliz?
HAMLET
Ignoro-o; seria o rei? (Levanta o reposteiro e puxa pelo cadaver de Polonio.)
A RAINHA
Que acto de crueldade e de sangue!
HAMLET
De sangue; quasi tão reprehensivel, minha mãe, como assassinar um rei e desposar o irmão!
A RAINHA
Assassinar um rei?
HAMLET
Sim, um rei, foi o que eu disse. (A Polonio.) Quanto a ti, pobre diabo, louco, temerario e indiscreto, as nossas contas estão ajustadas, aprendeste á tua custa o perigo que corre quem se intromette nos negocios dos outros. (Á rainha.) Cesse de estorcer-se. Silencio, sente-se, quero torturar o seu coração, e fal-o-hei, se ainda possue alguma sensibilidade, e o habito do crime não a bronzeou a ponto de ser insensivel a toda a especie de emoção.
A RAINHA
Que fiz eu, Hamlet, para que me falles n'esse tom ameaçador?
HAMLET
Uma acção que mancha o rubor e a graça do pudor; que transforma a virtude em hypocrisia; que arranca á fronte innocente do amor a sua corôa de rosas, e a substitue por uma chaga asquerosa; que torna os juramentos do hymeneu tão falsos como os do jogador! Oh! uma acção que rouba ao corpo dos contratos a santidade, que é a sua alma, e faz da religião uma rapsodia de palavras. Indigna-se o céu, contrista-se o globo solido e compacto, lê-se-lhe nas faces a consternação como se fosse o ultimo dia do mundo.
A RAINHA
Qual é pois a acção que denunciam este ameaçador preludio e esta expressão fulminante?
HAMLET (mostrando dois retratos em pé que ornam as paredes)
Veja bem esses dois retratos, são as imagens de dois irmãos. Veja que graça impressa n'estas feições: o cabello annellado de Apollo; a fronte do proprio Jupiter; o olhar de Marte, onde se lê a commando e a ameaça; o porte de Mercurio, o mensageiro celeste, quando apenas pousa o alado pé sobre o cimo das nuvens; uma tão feliz reunião das fórmas perfeitas, que cada um dos deuses parecia ter contribuido com o seu quinhão, como se quizessem mostrar ao mundo o modelo do verdadeiro homem! Esse era o seu primeiro esposo. Volva agora os olhares para este lado. Eis o que é o seu segundo esposo! que, similhante á espiga mangrada, pelo seu contacto causa a morte a sua irmã a espiga sã. E saberá ver? Como pôde então abandonar as ferteis e salubres collinas, para se immergir n'este immundo paul!! Se ainda tem olhos, senhora, não póde imputar ao amor o seu comportamento; na sua idade já se acalmou a effervescencia do sangue, e a paixão obedece á rasão. E qual seria a creatura racional, que ousasse trocar o seu primeiro marido por este segundo? É sem duvida dotada de sensibilidade, aliás não seria um ser animado; mas na senhora estão paralysados todos os sentimentos, porque não ha demencia que não deixe ao que verga sob o seu peso uma porção bastante de discernimento, para saber escolher entre objectos tão dissimilhantes. Que demonio a perturbou a ponto de lhe vendar os olhos? A vista sem o tacto, o tacto sem o auxilio da vista, o ouvido sem o uso das mãos e dos olhos, o olfato só por si, uma porção mesmo alterada de um verdadeiro sentido, não podiam ter-se enganado tão estultamente. Oh! vergonha! onde está o teu rubor? Inferno rebelde, que assim pódes atear a revolta nos sentidos de uma mulher, ha muito esposa e mãe. Que admira que, para a ardente juventude, a virtude seja como a cera, que se derrete á chamma que alimenta; que não seja vergonha ceder quando nos arrasta a paixão, poisque o proprio crystal se funde e a rasão prostitue aos desejos os seus vergonhosos serviços.
A RAINHA
Oh! Hamlet, cessa por piedade, obrigas o meu olhar a volver-se todo para a minha alma, e n'ella descubro máculas tão negras e tão profundamente impressas, que nada já as póde lavar.
HAMLET
Viver no suor impuro de um leito infecto, sobre o esterco da corrupção, revolver-se no lodaçal de um asqueroso amor.
A RAINHA
Cala-te, Hamlet, as tuas palavras são outras tantas punhaladas. Piedade! querido filho!
HAMLET
Um assassino, um scelerado, um miseravel, que não vale a centesima parte do seu primeiro marido, um rei de comedia, um ladrão, que empalmou o poder, e que achando a corôa debaixo de mão, a roubou e a metteu no bolso!
A RAINHA
Hamlet!
HAMLET
Um palhaço!
Entra a SOMBRA
HAMLET
Protegei-me e abrigae-me sob vossas azas, anjos do céu. (Á sombra) Que pretendes de mim, sombra querida?
A RAINHA
Infeliz! enlouqueceu.
HAMLET (á sombra)
Vens tu reprehender a tibieza de teu filho, que, deixando passar o tempo, arrefecer a sua indignação, não se apressou em cumprir os teus terriveis preceitos? Falla!
A SOMBRA
Recorda-te que o unico fim d'esta minha apparição é atear em ti o fogo da resolução. Mas vê, tua mãe está succumbida, interpõe-te entre ella e os seus remorsos; é nas mais debeis organisações que mais estragos causa a imaginação. Falla-lhe tu, Hamlet.
HAMLET
Como se sente, minha mãe?
A RAINHA
Eu é que te devia fazer essa pergunta! Por que está teu olhar fito no espaço? por que conversas com seres immateriaes? Teu olhar indefinido revela a lucta da tua alma; como um soldado acordado em sobresalto; teus cabellos, como se a vida os animasse, levantam-se e ouriçam-se sobre a tua fronte. Oh! meu querido filho, apaga a chamma da tua colera, com as tranquillas e limpidas aguas da paciencia! Mas para onde olhas tu?
HAMLET
É elle! Elle! Como está pallido! O seu aspecto, e o motivo que aqui o traz, commoveriam as proprias pedras. (Á sombra) Descrava de mim os teus olhos, receio que me feneça a resolução, vendo teu triste e commovente olhar; que se transforme o caracter dos meus actos talvez em lagrimas em vez de sangue.
A RAINHA
Mas, filho, a quem fallas assim?
HAMLET
Não vê nada, minha mãe?
A RAINHA
Nada, senão tudo quanto existe n'esta camara.
HAMLET
E nada ouviu?
A RAINHA
Cousa alguma, a não ser as tuas palavras.
HAMLET
Mas olhe, minha mãe, não vê como elle se afasta, triste e pensativo? É meu pae, vestido como trajava em sua vida. Eil-o, transpõe agora mesmo a porta. Saíu. (A sombra sáe.)
A RAINHA
É á exaltação da tua imaginação e ao delirio que de ti se apoderou, que são devidas estas creações phantasticas.
HAMLET
O delirio! Senhora, apalpe o meu pulso, e conhecerá que não está menos tranquillo que o seu. Não fallei influenciado pelo delirio. Interrogue-me; em vez de divagar, repetir-lhe-hei textualmente as minhas palavras; não estou louco; engana-se, minha mãe. Por Deus, não se embale, no pensamento falso, que é o meu delirio e não a sua culpa que me faz fallar! Seria cicatrizar exteriormente a chaga, que a consciencia nunca deixaria de augmentar interiormente. Confesse-se ao céu, arrependa-se do passado, premuna-se para o futuro, e não dê pasto ao verme do remorso, que acabará por totalmente corroer o seu coração e obliterar a sua consciencia. Perdoe á minha virtude, porque n'este mundo sordido e venal a virtude deve implorar o perdão do vicio e pedir o favor de poder fazer o bem.
A RAINHA
Oh! Hamlet! Dilaceras-me o coração.
HAMLET
Expulse a parte corrompida, e com a outra metade viva tranquilla e pura. Boa noite; evite meu tio, e se não podér ser virtuosa, ao menos pareça-o. O habito, esse monstro, que destroe e neutralisa em nós toda a sensibilidade, esse demonio do habito, é anjo n'isto, porque consente á virtude e ás boas acções as suas vestes proprias. Não veja hoje o seu esposo, tornar-lhe-ha mais facil a abstenção futura; o habito tudo póde, muda a natureza individual, doma o demonio, e expulsa-o com o seu maravilhoso poder. Boas noites mais uma vez! e quando sentir a necessidade da benção divina, então pedir-lhe-hei a sua. (Mostrando Polonio.) Quanto a este homem, arrependo-me do que fiz; mas obedeci ao céu; assim o quiz tornando-me instrumento das suas vinganças, punindo-o por mim, a mim por elle. Sepultem-no, eu responderei pela morte que lhe dei! Adeus, pois. Cumpre-me ser cruel por humanidade; o primeiro mal está feito, o maior ainda ha de vir. Uma palavra ainda.
A RAINHA
Que devo fazer?
HAMLET
Nada do que eu lhe disse! Receba as caricias do avinhado monarcha, preste as suas faces aos seus osculos, ouça-lhes as palavras de amor; então n'um diluvio de ardentes osculos, entre as mais lubricas caricias, confesse-lhe, revele-lhe tudo, diga-lhe que nunca estive louco, que o fingi, faça-lhe essa confidencia. Qual seria a rainha, bella, sensata e honesta, que hesitasse em confiar áquelle animal immundo e repellente, asqueroso reptil, tão importantes segredos? Quem guardaria silencio? Ninguem. Depois, olvidando o bom senso e a discrição, abra a gaiola e deixe voar as avesinhas, e seguindo o exemplo do bugio da legenda, por simples experiencia, introduza-se na gaiola e rompa o pescoço caíndo!
A RAINHA
Acredita, Hamlet, que se as palavras se compozessem de fôlgo e o fôlgo de vida, eu não teria vida para articular as que tu me disseste.
HAMLET
Devo partir para Inglaterra; sabe-o sem duvida, minha mãe?
A RAINHA
Infeliz! Tinha-me esquecido; pois isso está definitivamente determinado?
HAMLET
Ha cartas selladas, e os meus dois companheiros de estudos, nos quaes me fio tanto como na innocencia dos envenenados dardos das viboras, são os portadores da ordem! São elles que me hão de aplanar o caminho, e se encarregarão de me conduzir ao laço armado pela mais negra traição. Deixemos caminhar os acontecimentos. Causa devéras prazer ver rebentar nas mãos do proprio artifice a bomba que para outrem preparava. Nada ha, senhora, que nos dê mais gosto do que combater a traição, contraminando-a pela sagacidade. A morte de Polonio apressará a minha partida. Levemos o seu cadaver para a camara vizinha. Boas noites, minha mãe. Este conselheiro está agora verdadeiramente a sangue frio, discreto e grave; em vida era dotado de estupida garrulice. Agora basta, acabemos por uma vez. Boas noites. Adeus, minha mãe. (A rainha sáe por um lado, Hamlet pelo outro, arrastando o cadaver de Polonio.)
Fim do acto terceiro
ACTO QUARTO
SCENA I
Um quarto no castello de Elsenor
Entram o REI, a RAINHA, ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN
O REI
Esses suspiros, esse difficil arfar do peito, tudo deve ter uma causa. Queremos conhecel-a e pelos senhores. Onde está nosso filho?
A RAINHA (a Rosencrantz e Guildenstern)
Deixem-nos sós um momento. (Os dois sáem.) (Ao rei) Ah! senhor, que noite esta!
O REI
Que ha de novo, Gertrudes; em que estado achaste Hamlet?
A RAINHA
Tão revolta está a sua rasão, como o mar e o vento, quando entre si luctam, disputando a sua força. N'um dos seus arrebatamentos do delirio, ouvindo mexer atrás de uma cortina, exclamou: Um rato, um rato, e desembainhando a espada, cravou-a no peito d'aquelle excellente ancião.
O REI
Oh! triste acontecimento! Igual sorte teria tido se ali me achasse; livre, corremos o maior risco, mesmo tu; todos, emfim. Que rasões daremos para explicar este acto sanguinario? Taxar-nos-hão de imprevidentes, a responsabilidade toda caírá sobre nós; dirão que deviamos ter isolado esse insensato, mas era tão grande a nossa affeição, que não comprehendemos o que a prudencia nos aconselhava. Obrámos como um homem atacado de um mal vergonhoso, que para guardar segredo deixa enraizar-se esse mal e destruir toda a seiva vital. Onde está Hamlet?
A RAINHA
Pondo em logar seguro o cadaver d'aquelle a quem deu a morte. No meio mesmo da sua demencia, conserva-se pura e intacta a sua intelligencia, como um metal precioso encravado em rocha bruta. Rebenta-lhe o pranto ao lembrar-se da acção que commetteu.
O REI
Saiâmos, Gertrudes. Quando o sol tocar o cume das montanhas, já Hamlet deverá ter embarcado; logo em seguida partirá para Inglaterra. Quanto a esta odiosa acção precisâmos achar na nossa auctoridade e no nosso engenho alguma desculpa que a releve aos olhos do mundo. Olá, Guildenstern? (Entram outra vez Guildenstern e Rosencrantz.)
O REI (continuando)
Meus amigos, procurem pessoas que os ajudem e auxiliem. Hamlet, na sua demencia, matou Polonio, cujo cadaver levou para fóra da camara de sua mãe. Tratem de descobrir onde o occultou, encarrego-os d'esta missão. Nada digam que possa irritar Hamlet, e levem o corpo do infeliz Polonio para a capella; peço-lhes só que se aviem. (Sáem Rosencrantz e Guildenstern.)
O REI (continuando)
Vamos, Gertrudes, convoquemos os nossos mais doutos amigos, demos-lhe a conhecer o nosso designio e a desgraça acontecida. Precavendo-nos d'este modo, talvez a calumnia, que arremessa o seu dardo envenenado de uma extremidade do mundo á outra, e cujos tiros são tão certeiros, como os do mais perfeito canhão, poupe o nosso nome, perdendo-se na immensidade do espaço. Saiâmos d'aqui. Na minha alma não sinto senão perturbação e terror! (Sáem.)
SCENA II
Outro quarto no castello
Entra HAMLET
HAMLET
Duvido que o encontrem.
VOZES DE FÓRA
Hamlet? senhor Hamlet?
HAMLET
De vagar. Que rumor é este? Quem ousa chamar Hamlet? Ah! eil-os que chegam. (Entram Rosencrantz e Guildenstern.)
ROSENCRANTZ
Senhor? que fez vossa alteza do cadaver?
HAMLET
Entreguei-o ao pó de que saíu.
ROSENCRANTZ
Mas em que logar para o podermos levantar e depositar na capella?
HAMLET
Não pensem em tal.
ROSENCRANTZ
Que devemos, pois, pensar?
HAMLET
Que pouco me importo com a sua cabeça, mas muito com a minha. Interrogado de mais a mais por uma esponja! Que resposta lhe póde dar o filho de um rei?
ROSENCRANTZ
É a mim que chama esponja?
HAMLET
A quem havia de ser? sim a ti, que bebes os favores, as recompensas e o poder real. Mas, no fim de contas, taes officiaes prestam ao monarcha relevantes serviços, são para elle como o fructo que o bugio conserva na bôca para depois o engulir; quando necessitar do que tem arrecadado, espreme-os como uma esponja, e ficarão completamente enxutos.
ROSENCRANTZ
Não comprehendo, senhor!
HAMLET
Estimo muito. As palavras do traficante só tem por domicilio os ouvidos do tonto.
ROSENCRANTZ
Diga-nos onde está o cadaver, e siga-nos á presença do rei.
HAMLET
Onde está o rei existe um corpo, mas o rei não está n'esse corpo. O rei é uma creatura.
ROSENCRANTZ
Uma creatura, senhor?
HAMLET
Uma creatura que nada vale! Conduzam-me á sua presença. Vamos jogar as escondidas. (Sáem todos.)
SCENA III
Uma sala no castello
Entra o REI com a sua comitiva
O REI
Mandei chamar Hamlet e procurar o cadaver. Que perigo deixar livre um tal homem; mas não podemos fazer pesar sobre elle todo o rigor das leis. A multidão insensata estima-o, decidindo-se mais pela vista do que pela rasão; n'estas circumstancias o que devemos pensar é o castigo dos culpados, nunca o crime só por si. Para prevenir qualquer descontentamento é forçoso que este precipitado exilio pareça consequencia de madura reflexão. Para males desesperados remedios energicos, ou nenhuns. (Entra Rosencrantz.) Então que aconteceu?
ROSENCRANTZ
Nada podemos saber da sua bôca relativamente ao cadaver.
O REI
Onde está Hamlet?
ROSENCRANTZ
No quarto vizinho, esperando debaixo de segura guarda as ordens de vossa magestade.
O REI
Que venha á nossa presença.
ROSENCRANTZ
Olá, Guildenstern. Conduze Hamlet a este aposento. (Entram Hamlet e Guildenstern.)
O REI
Hamlet, onde está Polonio?
HAMLET
N'um banquete.
O REI
N'um banquete?! onde?
HAMLET
Onde não come, mas é devorado. Uma multidão de vermes politicos disputa o seu cadaver. O verme é o monarcha dos comedores. Engordâmos todas as creaturas para nos engordarmos, e engordâmo-nos para pasto dos vermes. Um rei gordo e um mendigo magro são duas iguarias differentes, comtudo hão de ser servidas á mesma mesa. Esta é a verdade.
O REI
Infelizmente assim é!
HAMLET
É possivel que se pesque, com um verme creado em cadaver real, um peixe, e que se coma depois o peixe que enguliu o verme.
O REI
Que significam as tuas palavras?
HAMLET
Nada; apenas as transformações pelas quaes póde passar um rei para penetrar nos intestinos do pobre.
O REI
Onde está Polonio?
HAMLET
No céu. Mande ali o seu mensageiro procural-o, e se não o achar, procure-o então o rei no sitio opposto. Em todo o caso se não o acharem até d'aqui a um mez, o olfato o denunciará junto á escada da galeria.
O REI (á sua comitiva)
Procurem-o já.
HAMLET
Esperal-os-ha com certeza. (Sáe a comitiva do rei.)
O REI
Hamlet, no interesse da tua saude, que nos é tão cara, quanto dolorosa a acção que commetteste, é forçoso que partas com a maior brevidade; vae, pois, preparar-te. O navio está prompto e o vento sopra propicio; os teus companheiros esperam-te, e tudo está disposto para a tua viagem a Inglaterra.
HAMLET
A Inglaterra?
O REI
Sim, Hamlet.
HAMLET
Está bem.
O REI
O mesmo dirias conhecendo todos os meus projectos.
HAMLET
Descubro um anjo que os vê. Mas partâmos para Inglaterra. Adeus, minha querida mãe.
A RAINHA
E teu pae que te estremece?
HAMLET
Não, minha mãe; pae e mãe são marido e mulher, marido e mulher são uma e mesma carne. Assim, pois, adeus, minha mãe. Vamos para Inglaterra. (Sáe.)
O REI (a Rosencrantz e Guildenstern)
Sigam-o passo a passo, façam-o embarcar promptamente, não ha tempo que perder. Quero que já esta tarde esteja afastado d'estes sitios. Vão! Tudo quanto respeita a este negocio foi já expedido e sellado com as nossas armas. Aviem-se, peço-lh'o. (Sáem.) (Continuando) Rei de Inglaterra, sabes até onde chega o meu poder; as feridas infligidas pelo ferro dinamarquez ainda sangram, e teu respeito nos presta livre homenagem. Se, pois, prezas a minha benevolencia, não receberás friamente as ordens soberanas contidas nas minhas cartas e que exigem a morte de Hamlet. Obedece-me, rei de Inglaterra, porque Hamlet é febre que requeima o meu sangue, e tu é que me deves curar d'ella. Não terei um dia de prazer e descanso emquanto não souber a completa execução das minhas ordens, aconteça o que acontecer. (Sáe.)
SCENA IV
Uma planicie na Dinamarca
Chega FORTIMBRAZ á frente das suas tropas
FORTIMBRAZ (a um dos seus officiaes)
Capitão, saúde da minha parte o rei de Dinamarca e diga-lhe, que, em conformidade com a sua promessa, Fortimbraz lhe pede livre passagem pelo seu territorio; sabe o ponto em que nos devemos encontrar. Se sua magestade desejar fallar-me, irei prestar-lhe as minhas homenagens. Diga-lh'o da minha parte.
O OFFICIAL
As suas ordens serão cumpridas, meu senhor!
FORTIMBRAZ (ás suas tropas)
Avancemos em attitude pacifica. (Fortimbraz e as suas tropas afastam-se. O official fica.)
Chegam HAMLET, ROSENCRANTZ, GUILDENSTERN e mais pessoas
HAMLET (ao official)
Que tropas são essas, meu amigo?
O OFFICIAL
É o exercito norueguez, senhor!
HAMLET
Qual é o seu destino?
O OFFICIAL
Um ponto do território da Polonia.
HAMLET
Quem o commanda?
O OFFICIAL
Fortimbraz, sobrinho do rei de Noruega.
HAMLET
É contra a Polonia toda, ou só contra um ponto determinado da fronteira que marcham?
O OFFICIAL
Se quer que lhe diga a verdade, marchâmos contra uma parte da Polonia, cuja conquista será para nós gloria, sem proveito algum. Estou certo que a sua renda não vale cinco ducados, e se se vendesse ninguem daria mais.
HAMLET
Se assim é, os polacos não devem offerecer resistencia?
O OFFICIAL
Pelo contrario, até já o guarneceram.
HAMLET
Duas mil almas e vinte mil ducados chegarão apenas para tão futil empreza; é um d'estes abcessos que resultam de uma demasiada e prolongada prosperidade que rebenta internamente, sem que nada indique exteriormente a sua acção mortal. Obrigado, amigo.
O OFFICIAL
Deus seja comvosco, senhor. (Afasta-se.)
ROSENCRANTZ
O principe quer que continuemos o nosso caminho?
HAMLET
Póde ir indo, em breve o alcançarei. (Sáem Rosencrantz e Guildenstern.) (Continuando.) Como sempre tudo me accusa e me excita á tardia vingança. O que é o homem, se o seu primeiro bem, o maior negocio da sua vida, consiste em comer e dormir! É um animo brutal, nada mais. Seguramente, que aquelle que nos dotou com essa vasta comprehensão, capaz de abraçar o passado e o futuro, não nos deu essa intelligencia, esse admiravel raciocinio, para que ficassemos ociosos e sem emprego. Quer seja estulto esquecimento, quer cobarde escrupulo, medito demasiado na acção que tenho que commetter, pensamento composto de uma quarta parte de siso e tres quartas partes de cobardia. Como me espanto a mim mesmo quando repito: Eis o que devo fazer, já que me sobram os motivos, tenha eu ao menos vontade, força e energia para o executar. Incitam-me os mais irrecusaveis exemplos; testemunho este numeroso exercito, capitaneado pelo seu joven principe, cujo genio intrepido, soprado por uma ambição divina, affronta, rindo, as eventualidades de um porvir invisivel, expondo uma vida mortal e incerta, a tudo quanto podem ousar a fortuna, a morte e os perigos, e tudo por nada, por uma bagatella. A verdadeira grandeza consiste, não só em commover-se com grandes e poderosas rasões, mas tambem em achar n'uma bagatella rasões de conflicto, cuja verdadeira causa é o pundonor. Que posição pois a minha, eu que tenho um pae assassinado, uma mãe deshonrada; eu que tenho tantos motivos de colera e que tudo deixo adormecer, emquanto que para minha vergonha vejo vinte mil homens, por uma louca esperança de gloria exporem-se á morte, caminharem para o tumulo, como caminhariam para o leito; irem combater para conquistar um quinhão de terra insufficiente para caberem n'elle, e cujo terreno seria uma sepultura acanhada para os mortos. Ah! quanto se revelam sanguinarios os meus pensamentos, ou então nada. (Afasta-se.)
SCENA V
Uma sala no castello de Elsenor
Entram HORACIO e a RAINHA
A RAINHA
Não lhe quero fallar.
HORACIO
Pede-o encarecidamente. Verdade é que ella perdeu a rasão; o seu estado é digno de compaixão.
A RAINHA
O que pretende ella?
HORACIO
Falla sempre no pae, pretende terem-lhe dito que n'este mundo se commettem bem más acções, suspira, bate no peito, exaspera-se sem motivo. Profere palavras equivocas e sem sentido. Nada diz, comtudo quem ao ouvil-a não teria vontade de a comprehender. Aquelles que a ouvem procuram adivinhar o sentido, e preenchendo as lacunas, tentam completar o sentido das suas fallas. Vendo os movimentos que faz, acompanhando as palavras, todos lhe suppõem um pensamento, um sentido, e provavelmente tem-no, mas de certo bem sinistro.
A RAINHA
É conveniente fallar-lhe, porque poderia impressionar malevola e perigosamente os espiritos. Que venha. (Horacio sáe.) (Continuando) Ah! minha alma enferma! Será uma condição do crime, que a menor bagatella pareça sempre a precursora de alguma grande calamidade? Tal é a desconfiança em uma consciencia culpada, que se trahe a si mesma com o receio de se trahir.
HORACIO entra com OPHELIA
OPHELIA
Onde está a bella rainha de Dinamarca?
A RAINHA
Ophelia?