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Helena

Chapter 17: CAPITULO X
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About This Book

The narrative opens with the sudden death of a respected elder and the reading of a will whose unexpected clause brings a young woman into his household. Her arrival unsettles his son and sister, provoking questions of inheritance, legitimacy, and social reputation while entangling private affections and restrained romantic interest. Through close domestic scenes and careful psychological observation, the work examines family secrets, honor, and tensions between public standing and private desire, gradually revealing characters' motives and moral ambiguity as relationships and social expectations evolve.

—Fui bem? perguntou sorrindo.

—Não podia ir melhor; mas o que me admira...

As patas de Moema interromperam a reflexão do moço. A cavalleira brandira o chicotinho, e o animal sahíra a trote largo pelo terreiro fora. Estacio, no primeiro momento, deu um passo e estendeu a mão como para tomar a redea ao animal; mas a segurança da moça logo lhe deixou ver que ella não fazia alli os primeiros ensaios. Ficou parado, de longe, a admirar-lhe o garbo e a destreza. No fim de vinte passos, Helena torceu a redea e regressou ao ponto donde sahíra.

—Que tal? disse ella logo que estacou. Terei geito para a equitação?

—Creança!

—Que é isso? Ja aprendeu? interveio D. Ursula do alto da varanda, onde acabava de chegar.

—Estava caçoando comnosco, disse Estacio. Ve como sabe montar?

—Ella sabe tudo, murmurou D. Ursula entre dentes.

Estacio montou no seu cavallo. Consultou o relogio; eram sete horas e meia.

—Permitte que o acompanhe? perguntou Helena.

—Com uma condição, disse elle; é que hade ter juizo. Não quero temeridades; a egua é apparentemente mansa; convem não brincar com ella. Ja vejo que voce é capaz de muitas cousas mais...

—Prometto ir pacificamente.

Helena cumprimentou a tia com um gesto gracioso, deu de redea ao animal e seguiu ao lado do irmão. Transposto o portão, seguiram os dous para o lado de cima, a passo lento. O sol estava encoberto e a manhã fresca. Helena cavalgava perfeitamente; de quando em quando a agua, instigada por ella, adiantava-se alguns passos ao cavallo; Estacio reprehendia a irmã, a seu pesar, porque ao mesmo tempo que temia alguma imprudencia, gostava de lhe ver o airoso do busto e a firme serenidade com que ella conduzia o animal.

—Não me dirá voce, perguntou elle, porque motivo, sabendo montar, pedia-me hontem licções?

—A razão é clara, disse ella; foi uma simples travessura, um capricho... ou antes um cálculo.

—Um cálculo?

—Profundo, hediondo, diabolico, continuou a moça sorrindo. Eu queria passear algumas vezes a cavallo; não era possivel sahir só, e nesse caso...

—Bastava pedir-me que a acompanhasse.

—Não bastava. Havia um meio de lhe dar mais gosto era sahir commigo; era fingir que não sabia montar. A ideia momentanea de sua superioridade neste assumpto, era bastante para lhe inspirar uma dedicação decidida...

Estacio sorriu do cálculo; mas foi um sorriso passageiro, porque dentro de poucos segundos, seu rosto ficou serio, e elle perguntou era tom sêcco:

—Ja lhe negamos algum prazer que desejasse?

Helena estremeceu e ficou egualmente séria.

—Não! murmurou; minha dívida não tem limites.

Ésta palavra sahiu-lhe do coração. As palpebras cahiram-lhe e um veu de tristeza lhe apagou o rosto. Estacio arrependeu-se do que dissera. Sua sensibilidade apurada comprehendeu a irmã; viu que, por mais innocentes que suas palavras fossem, podiam ser tomadas á ma parte, e em tal caso o menos que se lhe podia arguir era a descortezia. Estacio timbrava em ser o mais polido dos homens. Inclinou-se para ella e rompeu o silêncio.

—Voce ficou triste, disse Estacio; mas eu desculpo-a.

—Desculpa-me? perguntou a moça erguendo para o irmão seus bellos olhos humidos.

—Desculpo a injúria que me fez, suppondo-me grosseiro.

Apertaram-se as mãos, e o passeio continuou nas melhores disposições do mundo. Helena deu livre curso á imaginação e ao pensamento; suas falas exprimiam, ora a sensibilidade romanesca, ora a reflexão da experiencia prematura, e iam direitas á alma do irmão, que se comprazia em ver nella a mulher como elle queria que fosse, uma Graça pensadora, uma sisudez amavel. De quando em quando faziam parar os animaes para contemplar o caminho percorrido, ou discretear acerca de um accidente do terreno. Uma vez, aconteceu que iam fallando das vantagens da riqueza.

—Valem muito os bens da fortuna, dizia Estacio; elles dão a maior felicidade da terra, que é a independencia absoluta. Nunca experimentei a necessidade; mas imagino que o peor que há nella não é a privação de alguns apetites ou desejos, de sua natureza transitorios, mas sim essa escravidão moral que submette o homem aos outros homens. A riqueza compra até o tempo, que é o mais precioso e fugitivo bem que nos coube. Ve aquelle preto que alli está? Para fazer o mesmo trajecto que nós, terá de gastar, a pe, mais uma hora ou quasi.

O preto de quem Estacio falára, estava sentado no capim, descascando uma laranja, emquanto a primeira das duas mulas que conduzia, olhava philosophicamente para ele. O preto não attendia aos dous cavalleiros que se aproximavam. Ia esburgando a fructa e deitando os pedaços de casca ao focinho do animal, que fazia apenas um movimento de cabeça, com o que parecia alegra-lo infinitamente. Era homem de cêrca de quarenta annos, ao parecer, escravo. As roupas eram rafadas; o chapeu que lhe cobria a cabeça, tinha ja uma côr inverossimil. No entanto, o rosto exprimia a plenitude da satisfação; em todo o caso, a serenidade do espirito.

Helena relanceou os olhos ao quadro que o irmão lhe mostrára. Ao passarem por elle, o preto tirou respeitosamente o chapeu e continuou na mesma posição e occupação que d'antes.

—Tem razão, disse Helena: aquelle homem gastará muito mais tempo do que nós em caminhar. Mas não é isto uma simples questão de ponto de vista? Em rigor, o tempo corre do mesmo modo, quer o experdicemos, quer o economisemos. O essencial não é fazer muita cousa no menor prazo; é fazer muita cousa aprazivel ou util. Para aquelle preto o mais aprazivel é, talvez, esse mesmo caminhar a pe, que lhe alongará a jornada, e lhe fara esquecer o captiveiro, se é captivo. É uma hora de pura liberdade.

Estacio soltou uma risada.

—Voce devia ter nascido...

—Homem?

—Homem e advogado. Sabe defender com habilidade as causas mais melindrosas. Nem estou longe de crer que o proprio captiveiro lhe parecerá uma bemaventurança, se eu disser que é o peor estado do homem.

—Sim? retorquiu Helena sorrindo; estou quasi a fazer-lhe a vontade. Não faço; prefiro admirar a cabeça de Moema. Veja, veja como se vai faceirando. Ésta não maldiz o captiveiro; pelo contrário, parece que elle lhe dá glória. Pudera! Se não a tivessemos captiva, receberia ella o gosto de me sustentar e conduzir? Mas não é só faceirice, é tambem impaciencia.

—De que?

—Impaciencia de correr por essa estrada da Tijuca fóra, e beber o vento da manhã, espreguiçando os musculos, e sentindo-se alguma cousa senhora e livre. Mas que queres tu, minha pobre egua? continuou a moça inclinando a cabeça até as orelhas do animal; vai aqui ao pe de nós um homem muito mau e medroso, que é ao mesmo tempo meu irmão e meu inimigo...

—Helena! interrompeu Estacio; voce é muito capaz de desparar a correr.

—E se fôsse?

—Eu deixava-a ir, e nunca a trazia em meus passeios. Voce monta bem; mas não desejo que faça temeridades. Nós somos responsaveis, não só por sua felicidade, mas tambem por sua vida.

Helena refletiu um instante.

—Quer dizer, perguntou ella, que se eu fôsse victima de um desastre não faltaria quem o imputasse á minha familia?

—Justo.

—Singular gente! Não há de ser tanto assim... Pois se eu me lembrasse—é uma supposição—se eu me lembrasse de deixar a vida por aborrecimento ou capricho, seria voce accusado de me haver propinado o veneno? Não ha melhor modo de me fazer evitar a morte.

—Deixemos conversas lugubres, e voltemos para casa, interrompeu Estacio.

—Ja!

—Raras vezes passo d'aqui; e não pense voce que é perto.

—Parece-me que ainda agora sahimos de casa. Vamos uns cinco minutos adeante? Sim?

Estacio consultou o relogio.

—Cinco minutos justos, disse elle.

—Até aquella casa que alli está com uma bandeira azul.

Havia effectivamente, cêrca de quatro minutos adiante, á esquerda da estrada, uma casa de insignificante apparencia, sôbre cujo telhado fluctuava uma bandeira azul presa a uma vara. Estacio conhecia a casa, mas era a primeira vez que via a bandeira. Helena pediu-lhe a explicação daquelle apendice.

—Va la saber, disse o irmão rindo.

Helena deu de redea á egua e adeantou-se alguns passos. Estacio apertou o animal e alcançou-a.

—Não va fazer tolices! disse elle em tom de branda reprehensão. Aquillo é fantasia do morador, ou algum signal de passaros, ou qualquer outra cousa que não vale a pena de uma travessura. Contemplemos antes a manhã, que está deliciosa.

Helena não attendeu á proposta do irmão e foi andando, a passo lento, na direcção da casa. A casa era velha, abrindo por uma porta para o alpendre antigo que lhe corria na frente. As collunnas deste estavam ja lascadas em muitas partes, apparecendo, aqui e alli, a ossada de tijolo. A porta estava meio aberta. Havia absoluta solidão, apparente ao menos. Quando elles lhe passaram pela frente, a porta abriu-se, mas se alguem espreitava por ella, ficou sumido na sombra, porque ninguem de fóra o viu.

Cêrca de cinco braças adeante, Estacio resolveu definitivamente regressar, e Helena não oppoz objecção nenhuma. Torceram a redea aos animais e desceram.

—Não poderei falar á bandeira? perguntou a moça. Deixe-me ao menos dizer-lhe adeus.

Tinha ja tirado da algibeira o seu fino lenço de cambraia; agitou-o na direcção da casa. Quiz o acaso que a bandeira, até então quieta, se movesse no sopro de uma aragem que passou.

—Ve como ella me respondeu? Não se póde ser mais cortez! exclamou Helena, rindo.

Estacio riu tambem da lembrança da irmã, e ambos desceram, a passo lento, como haviam subido. Helena vinha taciturna e pensativa. Seus olhos, cravados nas orelhas de Moema, não pareciam ver sequer o caminho que o animal seguia, Estacio, para arrancal-a ao silêncio, fez-lhe uma observação acerca de um incidente do caminho. Helena respondeu distrahidamente.

—Que tem voce? perguntou elle.

—Nada, disse ella; ia... ia embebida naquella toada. Não ouve?

Ouvia-se effectivamente, a algumas braças adeante, uma cantiga da roça, meia alegre, meia plangente. O cantor appareceu, logo que os cavalleiros dobraram a curva que a estrada fazia naquelle logar. Era o preto, que pouco tinham visto sentado no chão.

—Que lhe dizia eu? observou a irmã de Estacio. Alli vai o infeliz de ha pouco. Uma laranja chupada no capim e trez ou quatro quadras, é o bastante para lhe encurtar o caminho. Creia que vai feliz, sem precisar comprar o tempo. Nós poderiamos dizer o mesmo?

—Porque não?

A moça recolheu-se ao silêncio.

—Helena, isso que voce acaba de dizer. Vamos, estamos sos; confesse alguma tristeza que tenha.

—Nenhuma, respondeu a moca. Peço-lhe, entretanto, uma cousa.

—Diga.

—Peço-lhe que me comunique todas as más impressões que tiver a meu respeito. Explicarei umas, procurarei desvanecer-lhe outras, emendando-me. Sobretudo, peço-lhe que escreva em seu espirito esta verdade: é que sou uma pobre alma lançada n'um turbilhão.

Estacio ia pedir explicação mais desenvolvida daquellas últimas palavras; mas Helena, como se esperasse a pergunta, brandira o chicote, e deitou a egua a correr. Estacio fez o mesmo ao cavallo; dahi a alguns minutos entravam na chacara, elle aturdido e curioso, ella com a face vermelha e a bater-lhe violentamente o coração.




CAPITULO VII


Apearam-se os dous no terreiro e dirigiram-se para a escada que ia ter á varanda. Pizando o primeira degrau, disse Estacio:

—Helena, explique-me suas palavras de ha pouco.

—Quaes?

E como Estacio levantasse os hombros, com ar de despeito, continuou Helena:

—Perdõe-me; sua pergunta não tem nem podia ter outra resposta mais do que a simples recusa. Não lhe direi mais nada. Nunca se devem fazer meias confissões; mas neste caso a confissão inteira seria imprudencia maior. Se se tratasse de factos, creia que a ninguem melhor podia confia-los do que a voce; mas por que motivo irei perturbar-lhe o espirito com a narração de meus sentimentos, se eu propria não chego a entender-me?

Estacio não insistiu. Subiram a escada, atravessaram a varanda e entraram na sala de jantar, onde acharam D. Ursula dando as ordens daquelle dia, a dous escravos. Estacio entrou pensativo; Helena mudou totalmente de ar e maneiras. Alguns segundos antes era sincera a melancholia que lhe ensombrava o rosto. Agora regressara a jovialidade de costume. Dissera-se que a alma da moça era uma especie de comediante que recebêra da natureza ou da fortuna, ou talvez de ambas, um papel que a obrigava a mudar continuamente de vestuario. D. Ursula viu-a entrar risonha e ir a ella dar-lhe os costumados—bons dias—que era sempre um beijo,—ou antes dous,—um na mão, outro na face.

—Demorei-me muito? perguntou ella voltando rapidamente o corpo, de maneira a ver o relogio que ficava do outro lado da sala. Nove horas! Que passeio, Sr. meu irmão!

Estacio olhava para ella silencioso e não lhe respondeu. Seu olhar não era de censura, mas de curiosidade, pena e admiração. Os dous foram logo depois mudar de toilette, e o almôço reuniu a familia. D. Ursula propoz, durante elle, algumas mudanças na disposição da chacara, mudanças que foram longamente discutidas com o sobrinho, e aceitas afinal por este. O dia estava sombrio e fresco; D. Ursula desceu á chacara com Estacio. As alterações foram ainda estudadas e combinadas no proprio terreno, com assistencia do feitor. Logo que acabou a deliberação e que o projecto de D. Ursula foi definitivamente assentado, Estacio reteve-a e lhe disse:

—Preciso falar-lhe um instante.

—Tambem eu.

—Quaes são os seus sentimentos actuaes em relação a Helena? Oh! não precisa franzir a testa nem fazer esse gesto de aborrecimento. Tudo são meras apparencias. Não creio que seja absolutamente amiga della; mas não póde negar que a antipathia desapareceu ou diminuiu muito.

—Diminuiu, talvez.

—E com razão. Pensa que tambem eu não tive repugnancias depois que ella aqui entrou? Tive-as; mas se não houvessem desaparecido,—desapareceriam hoje de manhã.

—Como?

Estacio referiu á tia a scena do capitulo anterior e as palavras que lhe dissera Helena. D. Ursula sorriu ironicamente.

—Não a impressiona isto? perguntou Estacio.

—Não, respondeu D. Ursula com decisão; a phrase de Helena é achada em algum dos muitos livros que ella le. Helena não é tola; quer prender-nos por todos os lados, até pela compaixão. Não te nego que começo a gostar della; é dedicada, affectuosa, diligente; tem maneiras finas e algumas prendas de sociedade. Além disso, é naturalmente sympatica. Ja vou gostando della; mas é um gostar sem fogo nem paixão, em que entra boa dose de costume e necessidade. A presença de outra mulher nesta casa é conveniente, porque eu estou cançada. Helena preenche essa lacuna. Se alguma cousa, entretanto, a podia prejudicar nas nossas relações é esse dito.

Estacio tomou calorosamente a defesa da irmã.

—O que eu lhe contei, disse elle, foram apenas as palavras. Não pude nem poderei reproduzir a expressão sincera com que ella as proferiu e a profunda tristeza que havia em seus olhos. Não lhe nego que, ao vel-a mudar tão depressa e entrar alegre na sala, senti tal ou qual abalo de dúvida; mas passou logo. Sua natureza tem esse raro poder de concentrar a amargura no coração; tambem a dor tem suas hypocrisias...

—Mas que dor? que amargura? interrompeu: D. Ursula. A dor de ser legitimada? a amargura de uma herança?

Estacio protestou calorosamente contra aquelle caminho que a tia dava a suas ideias; emfim pediu-lhe que interrogasse com cautella a irmã.

—Um homem, concluiu elle, é menos apto para obter taes confissões; uma senhora, respeitavel e parenta, está mais no caso de lhe captar a confiança e obter tudo. Quer incumbir-se desse delicado papel?

—Pedes muito, respondeu D. Ursula. Verei se te posso dar metade disso. Era só o que tinhas para dizer?

—Só.

—Uma creancice! Eu tenho cousa mais séria. O Dr. Camargo escreveu-me: trata-se...

—Não precisa dizer mais nada, interrompeu Estacio; la vem elle.

Camargo apparecêra effectivamente a vinte passos de distância.

—Doutor,—disse D. Ursula, logo que este se approximou delles, chega um pouco fóra de proposito. Eu mal tive tempo de assustar meu sobrinho, que ainda não sabe o que o senhor lhe quer.

—Saberá agora; é só bastante que a senhora lhe diga que me approva.

—Completamente,

—Trata-se...—disse Estacio.

—De uma conspiração; todos conspiramos em seu beneficio.

D. Ursula retirou-se para casa; os dous ficaram sos. Uma vez sos, Camargo pousou a mão no hombro de Estacio, fitou-o paternalmente, emfim perguntou-lhe se queria ser deputado. Estacio não pôde reprimir um gesto de sorpreza.

—Era isso? disse elle.

—Creio que não se trata de um supplício. Uma cadeira na camara! Não é a mesma cousa que um quarto no aljube.

—Mas a que proposito...

—Ésta ideia apoquentava-me ha algumas semanas. Doia-me ve-lo vegetar os seus mais bellos annos n'uma obscuridade relativa. A política é a melhor carreira para um homem em suas condições; tem instrucção, caracter, riqueza; póde subir a posições invejaveis. Vendo isso, determinei-me a mettel-o na Cadeia... Velha. Fala-se em dissolução. Para facilitar-lhe o successo, entendi-me com duas influências dominantes, o negocio afigurasse-me em bom caminho.

Estacio ouviu com desagrado as notícias que lhe dava o médico.

—Mas doutor, disse elle depois de curto silêncio, houve de sua parte alguma precipitação. Pelo menos, de via consultar-me. Do modo por que arranjou as cousas, quasi me acho desobrigado de lhe agradecer a intenção. Quanto a acceitar, não acceito.

Camargo não perdeu a tramontana. Havia nelle a tenacidade do dogue e a tactica da serpente. Deixou passar por cima da cabeça a primeira onda de desagrado, surgiu fóra e insistiu tranquillamente:

—Vejamos as cousas com os oculos do senso-commum. Em primeiro logar, não creio que tenha outros projectos na cabeça.

—Talvez.

—Duvido que sejam mais vantajosos do que este. A sciencia é ardua e seus resultados fazem menos ruido. Não tem vocação commercial nem industrial. Medita alguma ponte-pensil entre a Côrte e Nictheroy, uma estrada até Matto-Grosso ou uma linha de navegação para a China? É duvidoso. Seu futuro tem por ora dous limites unicos, alguns estudos de sciencia e os alugueis das casas que possue. Ora, a eleição nem lhe tira os alugueis nem obsta a que continue seus estudos; a eleição completa-o dando-lhe a vida pública, que lhe falta. A unica objecção seria a falta de opinião política; mas ésta objecção não o póde ser. Hade ter, sem dúvida, meditado alguma vez nas necessidades públicas, e...

—Supponha,—é mera hypothese,—que tenho alguns compromissos com a opposição.

—Nesse caso, dir-lhe-ei que ainda assim deve entrar na camara—embora pela porta dos fundos. Se tem ideias especiaes e partidarias, a primeira necessidade é obter o meio de as expor e defender. O partido que lhe der a mão,—se não fôr o seu,—ficará, consolado com a ideia de ter ajudado a a um adversario talentoso o honesto. Mas a verdade é que não escolheu ainda entre os dous partidos; não tem opiniões feitas. Que importa? Grande numero de jovens politicos seguem, não uma opinião examinada, ponderada e escolhida, mas a do círculo de suas affeições, a que seus paes ou amigos immediatos honraram e defenderam, a que as circumstâncias lhe impõem. Dahi vem algumas legítimas conversões posteriores. Tarde ou cedo o temperamento domina as circumstâncias da origem, e do botão luzia ou saquarema nasce um magnifico lyrio saquarema ou luzia. Demais, a política é sciencia prática; e eu desconfio de theorias que só são theorias. Entre primeiro na camara; a experiencia e o estudo dos homens e das cousas lhe designarão a que lado se deve inclinar.

Estacio ouviu attento éstas vozes com que a serpente lhe apontava para a árvore da sciencia do bem e do mal. Menos curioso que Eva, entrou a discutir philosophicamente com o reptil.

—Entra-se na política,—disse elle,—por vocação legítima, ambição nobre, interesse, vaidade, e até por simples distração. Nenhum desses motivos me impelle a dobrar o cabo Tormentorio.

—Da Boa Esperança,—emendou Camargo rindo;—não supprima tres seculos de navegação.

Estacio riu-se tambem. Depois falou ao médico de sua indole e ambições. Não negava que tivesse ambições; mas nem só as havia políticas nem todas eram da mesma estatura. Os espiritos, disse elle, nascem condores ou andorinhas, ou ainda outras especies intermedias. A uns é necessario o horisonte vasto, a elevada montanha, de cujo cimo batem as azas e sobem a encarar o sol; outros contentam-se com algumas longas braças de espaço e um telhado em que vão esconder o ninho. Estes eram os obscuros, e, na opinião delle, os mais felizes. Não seduzem as vistas, não subjugam os homens, não os menciona a história em suas páginas luminosas ou sombrias; o vão do telhado em que abrigaram a prole, a árvore em que pousaram, são as testemunhas unicas, e morredoras da felicidade de alguns dias. Quando a morte os colhe, vão elles pousar no regaço commum da eternidade, onde dormem o mesmo perpétuo somno, tanta o capitão que subiu ao summo estagio por uma escala de mortos, como o cabreiro que o viu passar uma vez e o esqueceu duas horas depois. Suas ambições não eram tão infimas como seriam as do cabreiro; eram as do proprietario do campo que o capitão atravessasse. Um bom peculio, a familia, alguns livros e amigos,—não iam além seus mais arrojados sonhos.

Um sorriso de lástima foi a primeira resposta do médico.

—Meu caro Estacio,—disse, elle depois,—esse trocadilho de andorinhas e cabreiros é a cousa mais extraordinaria que eu esperava ouvir a um mathematico. Saiba que detesto egualmente a philosophia da obscuridade e a rhetorica dos poetas. Sobretudo gósto que me respondam em prosa quando falo em prosa.

—Parece-lhe que poetei? perguntou Estacio rindo.

—Despropositamente! Ora, eu falo de cousas sérias; e convem não confundir alhos, que são a metade prática da vida, com bugalhos, que são a parte ideológica e vã.

—Eu serei ideologo,

—Não tem direito de o ser.

—Pois bem, deixe-me com as minhas mathematicas, as minhas flôres, as minhas espingardas.

—Não! Ha de intercalar tudo isso com um pouco de política.

Puxando-o familiarmente pela gola do paleto, Camargo fel-o sentar ao pe de si, no banco que alli estava mais proximo. Depois falou. O novo discurso foi o mais longo que proferiu em todos os seus dias. Nenhuma das vantagens da vida pública deixou de ser apontada com uma complacencia de tentador; todas as glórias, pompas e satisfações da política, e não só as reaes, mas as ficticias ou duvidosas, foram inventariadas, pintadas, douradas e illuminadas pelo médico. Sua palavra revellou um poder de evocação, uma vehemencia, uma energia, que ninguem era capaz de suppor-lhe. O taciturno desabrochou tagarella. Para falar tanto e com tal fôrça era preciso que o animasse um grande sentimento ou um grande interesse.

Estacio, lisonjeado com a affeição que elle lhe mostrava, não teve ensejo de fazer essa reflexão. Nem se animou a repetir a recusa; adoptou o alvitre de deferir a resposta para outra occasião.

—Ja lhe disse o que sinto a tal respeito. Contudo, estou prompto a reflectir, e a consultar o padre Melchior e Helena.

O nome de Helena produziu em Camargo uma careta interior. Exteriormente não passou o effeito de um sorriso sardonico e dissimulado. Interveiu uma pitada de rapé, que o médico inseriu lentamente, depois de a extrahir lentamente de uma boceta de tartaruga, presente do conselheiro Valle.

—Helena! disse elle com alguma hesitação. Que vem fazer sua irmã neste negocio?

—É um voto,—redarguiu Estacio; e menos leve do que lhe parece. Ha nella muita reflexão escondida, uma razão clara e forte, em boa harmonia com as suas outras qualidades feminis.

Entre as sobrancelhas de Camargo projectou-se uma longa ruga, e foi toda a expressão de seu espanto e desgôsto. A resposta de Estacio revellara-lhe uma situação nova na familia: o voto de Helena, consultivo agora, podia vir a ser preponderante. Ésta solução, que porventura faria estremecer de alegria os ossos do conselheiro, não a previra o médico. Limitou-se a notal-a de si para si; e, terminando subitamente a conversa, disse:

—Consulte as pessoas de seu agrado. Quem não estiver com a minha opinião, não é seu amigo. Em todo o caso, ninguem lhe poderá affirmar que não é a amizade, a longa amizade.

Estacio cortou-lhe a palavra, apertando-lhe affectuosamente a mão. Tinham-se levantado. Era quasi meio dia; Camargo despediu-se alli mesmo; ia ver dous doentes no caminho da Tijuca. O filho do conselheiro atravessou sosinho a chacara; ia pensativo, e aborrecido. A política, na sua opinião, era uma noiva importuna; mas se todos conspirassem a favor della, não sería elle obrigado a desposal-a? A ésta reflexão respondeu a voz do padre Melchior, do alto de uma janella:

—Venha ca, senhor deputado; quando teremos o seu primeiro discurso?




CAPITULO VIII


D. Ursula tinha ja confiado ao velho capellão a proposta de Camargo. Consultado por Estacio, respondeu este que sua opinião era absolutamente inutil.

—Consulte suas fôrças e a responsabilidade do cargo, e escolha, concluiu o padre.

—Ja escolhi, disse Estacio; pedia seu conselho para apoiar melhor a minha propria decisão. Não é esse o destino de todos os conselhos? Decidi que não acceito a candidatura. A vida política é turbulenta de mais para o meu espirito. Estou prompto para a acção, mas não hade ser exterior. Dado o meu temperamento, que iria eu buscar á camara, além de algumas prerogativas e um papel accessorio? Eu só me meteria na política, se pudesse officiar; mas ser apenas sachristão...

—Entre o officiante e o sachristão, observou Melchior, está o prégador, que é cargo nobre e influente.

—Mas o thema do sermão, padre-mestre?—retorquiu Estacio rindo; falta-me o thema.

D. Ursula, a quem seduziam exclusivamente a posição e o rumor público em favor do sobrinho, viu naquellas razões um pretexto ou uma puerilidade. Defendeu, como pôde, a causa de Camargo; instou com o sobrinho para que reflectisse maduramente, antes de qualquer resposta definitiva. Estacio prometteu como promettêra ao médico, por simples condescendencia; mas sobretudo para pôr termo ao assumpto e ir saber a causa do sorriso quasi imperceptivel que viu roçar os labios de Helena. A moça erguera-se e dirigira-se para uma das janellas; Estacio foi até alli.

—Adivinhei pelo seu sorriso,—disse elle, que tudo isto lhe pareço pueril, e que eu faço bem em não acceitar o que se me offerece.

Helena olhou um pouco espantada para elle; mas respondeu com tranquillidade:

—Pelo contrário, penso que deve acceitar. Além de haver consentimento de minha tia, parece ser um grande desejo do pai de Eugenia.

Era a primeira vez que Helena alludia ao amor de Estacio, e fazia-o por modo encoberto e obliquo. Estacio escapou dessa vez á regra de todos os corações amantes: resvalou pela allusão e discutiu gravemente o assumpto da candidatura. Era pesado de mais para cabeça feminina; Helena intercalou uma observação sobre dous passarinhos que bailavam no ar, e Estacio aceitou a diversão, deixando em paz os eleitores.

Durante dous dias, não sahiu elle de casa. Tendo recebido alguns livros novos, gastou uma parte do tempo em os folhear, ler alguma página, collocal-os nas estantes, alterando a ordem e a disposição dos anteriores, com a prolixidade e o amor do bibliophilo. Helena ajudava-o nesse trabalho,—um pouco parecido com o de Penelope,—por que a ordem estabelecida ao meio dia era às vezes alterada às duas horas, e restaurada na seguinte manhã. Estacio, entretanto, não ficava todo entregue aos livros; admirava a solicitude da irmã, a ordem e o cuidado com que ella o auxiliava. Helena parecia não andar; seu vulto resvalava silenciosamente, de um lado para outro, obedecendo a uma indicação do irmão, ou pondo em experiencia uma ideia sua. Estacio parava às vezes fatigado; ella continuava imperturbavelmente o serviço. Se elle lhe fazia alguma observação, a moça respondia com um movimento de hombros ou um sorriso, e proseguia. Então Estacio segurava-lhe nos pulsos e exclamava rindo:

—Socega, borboleta!

Helena parava, mas eram só poucos minutos; volvia logo ao trabalho com a mesma serena agitação. Era assim que as horas se passavam na intimidade mais doce, e que a reciproca affeição ia excluindo toda a preocupação alheia; era assim que a influência de Helena assumia as proporções de voto preponderante.

No terceiro dia D. Thomasia e Eugenia foram jantar a Andarahy. Eugenia estava nesse dia mais sisuda e docil que nunca; dissera-se que trazia a alma tão nova como o vestido, e menos enfeitada que elle. Estacio sentiu-se satisfeito; o ideal reconciliava-se com o real. Poderam falar sosinhos mais de uma vez; todas as pessoas da casa pareciam conspiradas para lhes deixar a solidão. Foi ella quem recordou a proposta política do pai, da qual soubera casualmente, ouvindo a narração que este fizera a D. Thomasia. O desejo de Eugenia era pela affirmativa; e Estacio, receioso de despertar os caprichos adormecidos da moça, frouxamente resistiu, e consentiu ainda mais frouxamente em reconsiderar o assumpto.

—Deputado! exclamava Eugenia com os olhos no ceu.

Estacio acompanhou Eugenia e D. Thomasia na carruagem que as levou ao Rio Comprido. O dia fôra mais ou menos alegre; a viagem foi divertida e palreira como um regresso de romaria. Os cavallos mostravam-se tão lepidos como as pessoas que iam no carro, e encurtaram alguns minutos o caminho, com desgôsto de Eugenia.

Voltando a Andarahy, Estacio trazia a alma pura de todas as más impressões, que lhe deixavam usualmente as visitas á casa de Camargo. Nenhum dissentimento houvera naquelle dia. Eugenia parecia modificada. Em casa esperava-o porém uma desagradavel noticia: a tia sentira-se incommodada pouco depois que elle sahíra e recolhera-se ao quarto. O caso affligiu-o; mas não tardou a apparecer Helena, que o tranquilisou, dizendo-lhe que D. Ursula tinha apenas uma forte dor de cabeça, ja diminuida com o emprêgo de um remedio cazeiro.

No dia seguinte de manhã, informado de que a tia dormia socegadamente, Estacio abriu uma das janellas do quarto e relanceou os olhos pela chacara. A alguns passos de distância, entre duas larangeiras, viu Helena a ler attentamente um papel. Era uma carta, longa de todas as suas quatro laudas escriptas. Seria alguma mensagem amorosa?

Ésta ideia molestou-o singularmente. Affastou-se da janella, conchegou as cortinas, e pela fresta procurou observar a irmã. Helena estava de pe, no mesmo logar, e percorria rapidamente as linhas, até o final da ultima página. Alli chegando, deu dous passos, tornou a parar volveu ao princípio da carta, para a ler de novo, não ja depressa, mas repousadamente. Estacio sentiu-se movido de imperiosa curiosidade, á qual vinha misturar-se uma sombra de despeito e ciume. A ideia de que Helena podia repartir seu coração com outra pessoa desconsolava-o ao mesmo tempo que o irritava. A razão de semelhante exclusivismo não a explicou elle, nem tentou investigal-a; sentiu-lhe somente os effeitos, e ficou alli sem saber que faria. Duas vezes sahiu da janella para ir ter com a irmã, mas recuou de ambas as vezes, reflectindo que a curiosidade pareceria impolidez, se não era talvez, tyrania. Ao cabo de alguns minutos de hesitação, sahiu do quarto e dirigiu-se á chacara.

Quando alli chegou, Helena passeava lentamente com os olhos no chão. Estacio parou deante della.

—Ja fora de casa! exclamou em tom de gracejo.

Helena tinha a carta na mão esquerda; instinctivamente a amarrotou como para escondel-a melhor. Estacio, a quem não escapou o gesto, perguntou-lhe rindo se era alguma nota falsa.

—Nota verdadeira, disse ella alisando tranquillamente o papel, e dobrando-o conforme recebêra; é uma carta.

—Segredos de moça?

—Quer lel-a? perguntou Helena apresentando-lh'a.

Estacio fez-se vermelho e recusou com um gesto. Helena dobrou lentamente o papel e guardou-o na algibeira do vestido. A innocencia não teria mais puro rosto; a hypocrisia não encontraria mais impassivel máscara. Estacio contemplava-a a um tempo envergonhado e suspeitoso; a carta fazia-lhe cocegas; seu olhar ambicionava ser como o da Providencia que penetra nos mais intimos refolhos do coração. Vieram, entretanto, dizer a Helena que D. Ursula lhe pedia fôsse ter com ella. Estacio ficou só. Uma vez só, entregou-se a um inquerito mental sôbre a procedencia da mysteriosa missiva. Um indicio havia de que podia conter alguma cousa secreta; era o gesto com que ella a escondeu. Mas não podia ser de alguma antiga companheira do collegio, que lhe confiava segredos seus? Estacio abraçou com alvorôço ésta hypothese. Depois, occorreu-lhe que, ainda provindo de uma amiga, a carta podia tratar de algum idyllio de collegio, em que Helena fosse protagonista, idyllio vivo ou morto, página de esperança ou de saudade. Ainda nesse caso, que tinha elle com isso?

Fazendo ésta ultima reflexão, Estacio sacudiu do espirito o assumpto e seguiu a examinar as novas obras da chacara, entre as quaes figurava um vasto tanque. Ja alli estavam os operarios; ia começar o trabalho do dia. Estacio viu a obra feita e deu várias indicações novas. Algumas eram contrárias ao plano assentado; como lhe fizessem tal observação, Estacio rectificou-as. Depois admirou-se de não ver um vaso, que alias dous dias antes mandara remover; emfim recommendou a rega de uma planta, ainda humida da agua que o feitor lhe deitára nessa manhã.

D. Ursula não estava de todo boa, mas pôde almoçar á mesa commum. O sobrinho appareceu aborrecido; a sobrinha triste; o dialogo foi mastigado como o almôço. No fim deste, recebeu Estacio uma carta de Eugenia. Era uma tagarelice meia frivola, meia sentimental, mistura de risos e suspiros, sem objecto definido, a não ser pedir-lhe que escrevesse, se não pudesse ir vel-a.

Acabava elle de ler a carta, quando Helena lhe appareceu á porta do gabinete. Não a escondeu; teve um pensamento singular: mostral-a à irmã, na esperança de que ésta, pagando-lhe com egual confiança, lhe mostrasse a sua,—ideia que revellava o seu nenhum conhecimento do espirito das mulheres, porquanto só a indiscrição masculina era capaz de cahir em semelhante laço. Helena percorreu com os olhos a carta de Eugenia e esteve algum tempo silenciosa.

—Permitte-me um conselho? perguntou ella.

E como Estacio respondesse com um gesto de assentimento:

—Va ter com Eugenia, solicite licença para ir pedil-a a seu pai, e conclua isso quanto antes. Não é verdade que se amam? della creio poder affirmar que sim; de voce...

—De mim?

—Penso que é mais duvidoso; ou voce é mais habil. Hade ser isso. Naturalmente parece-lhe fraqueza amar,—isto é, a cousa mais natural do mundo,—a mais bella,—não direi a mais sublime. Os homens serios tem preconceitos extravagantes. Confesse que ama,—que não é indifferente a esse sentimento inexprimivel que liga, ou para sempre, ou por algum tempo, duas creaturas humanas.

—Ou por algum tempo! repetiu mentalmente Estacio.

E éstas quatro palavras tão naturaes e tão communs tinham ares de uma revellação nova no estado de espirito em que elle se achava. Se Helena tivesse proposito de lhe lançar a perplexidade na alma não empregaria mais efficaz conceito. Sería na verdade aquelle amor tão travado de desanimos, dissentimentos e alternativas, tão discutido em seu proprio coração, seria uma affeição destinada a perecer no occaso da primeira lua matrimonial?

—Pois bem, concordou elle, ao cabo de alguns instantes; é verdade. Eugenia não me é indifferente; mas poderei estar certo dos sentimentos della? Ella mesma poderá affirmar alguma cousa a tal respeito? Ha alli muita frivolidade que me assusta; illude-a talvez uma impressão passageira.

—Pode ser; mas ao marido cabe a tarefa de fixar essa impressão passageira... O casamento não é uma solução, penso eu; é um ponto de partida. O marido fara a mulher. Convenho que Eugenia não tem todas as qualidades que voce desejaria; mas não se póde exigir tudo; alguma cousa é preciso sacrificar, e do sacrificio recíproco é que nasce a felicidade doméstica.

As reflexões eram exactos: por isso mesmo Estacio as interrompeu. O filho do conselheiro achava-se n'uma posição difficil. Caminhara para o casamento com os olhos fechados; ao abril-os viu-se á beira de uma cousa que lhe pareceu abysmo, e era simplesmente um fôsso estreito. De um pulo poderia transpol-o; mas, se não era irresoluto nem debil, tinha elle acaso vontade de dar esse salto?

Insistindo Helena, prometteu elle que nessa tarde iria visitar Camargo. De tarde desabou um temporal violento. A fôrça do vento e da trovoada abrandou; mas a chuva continuou a cahir com a mesma violencia; era impossivel ir ao Rio Comprido. Estacio estimou aquelle obstaculo; era melhor adorar de longe a imagem da moça do que ir colhêr algum desgôsto juncto della.

De pe, encostado a uma das vidraças da sala de visitas, via elle cahir os grossas toalhas de agua. A seu lado estava sentada Helena, não alegre, mas taciturna e melancholica.

—É tão bom ver chover quando estamos abrigados, exclamou elle. Tenho la na estante um poeta latino que diz alguma cousa neste sentido... Que tem voce?

—Estou pensando nos que não tem abrigo, ou o tem mau; nos que não tem neste momento nem tectos solidos nem corações amigos ao pe de si.

A voz da moça era trémula; uma lagryma lhe brotou dos olhos, tão rapida que ella não teve tempo de a dissimular. Sorprehendida nessa manifestação de sensibilidade, inexplicavel talvez para o irmão, ergueu-se e procurou gracejar e rir. O riso parecia uma cristalisação da lagryma; e o gracejo tinha ares do responso. Estacio não se illudiu; nada daquillo era claro,—ou era tão claro como a carta. Seu olhar, severo e frio, interrogou mudamente a moça. Helena, que tivera tempo de tranquillisar-se, voltou o rosto para a rua, e começou a rufar com os dedos na vidraça.




CAPITULO IX


Naquella mesma noite D. Ursula, que não havia de todo melhorado, adoeceu devéras. A familia, mal convalecida da perda de seu velho chefe, via-se agora ameaçada de uma nova dor, em todo o caso exposta a novos receios. O Dr. Camargo declarou que o caso era grave, e deu principio a rigoroso tratamento.

Helena era naquella occasião a natural enfermeira. Pela primeira vez patenteou-se em todo o explendor a dedicação filial da moça, sua constancia, solicitude e tino. As horas do dia, e não poucas noites inteiras, passava-as na alcova de D. Ursula, attenta a todos os cuidados que a gravidade da enfêrma exigia. Os remedios e o pouco alimento que ésta podia receber não lhe eram dados por outras mãos. Helena velava á cabeceira durante o somno leve e interrompido da doente, achando em suas proprias fôrças a resistencia que a natureza confiou especialmente ás mães. Quando dava algum repouso ao corpo, não era elle ininterrupto nem longo; e mais de uma vez, alta noite, erguia-se do leito, collocado provisoriamente no quarto contiguo, para ir espreitar a mucama que em seu logar acompanhava a enfêrma. As prescripções do médico era ella quem as recebia e cumpria. A voz dura e sêcca com que Camargo lhe falava não era propria a tornal-o amavel e aceito, mas Helena cerrava os ouvidos á antipathia do homem para só obedecer ao médico. Este não tinha outra pessoa a quem interrogasse acerca dos phenomemos da doença; nem podia achar quem melhor os observasse e referisse; fôrça lhe era acceital-a. Assim que, essas duas pessoas que se repeliam e detestavam, iam de accordo desde que se tratava da vida de um terceiro.

O que completava a pessoa de Helena e ainda mais lhe mereceu o respeito de todos é que, no meio das occupações e preocupações daquelles dias, não fez padecer um só instante a disciplina da casa. Ella regeu a familia e serviu a doente, com egual desvello e beneficio. A ordem das cousas não foi alterada nem esquecida fóra da alcova de D. Ursula; tudo caminhou do mesmo modo que antes, como se nada extraordinario se houvesse dado. Helena sabia dividir a attenção sem dispersal-a, que é o principal segrêdo do trabalho fecundo.

De si é que ella não curou muito. A toilette era singella e descuidada. Os cabellos, colhidos á pressa e presos por um pente no alto da cabeça, não receberam de sua dona, em todo aquelle tempo, a fórma elegante e graciosa, com que ella os saiba realçar. Accrescia o abatimento e pallidez, que era impossivel evitar no meio de tanta fadiga, certo cançasso dos olhos, que os fazia molles e talvez mais adoraveis, um rosto sem riso nem viveza, um silêncio attento e laborioso.

A doença durou cêrca de vinte dias. Afinal, triumphou a sciencia e a propria natureza de D. Ursula, robusta apezar dos annos. A convalecença começou; com ella volveu a satisfação da familia. O papel de Helena não estava acabado; diminuia, contudo, e Estacio interveio para que a irmã tivesse, enfim, alguns dias de absoluto repouso. Ella recusou, dizendo que o repouso perdido aos poucos seria aos poucos recuperado.

Havia no coração de D. Ursula uma fonte de ternura, que Helena devia tocar, para jorrar livre e impetuosamente. Sua dedicação, em tal crise foi a vara mysteriosa daquella Oreb. A affeição da tia era até então frouxa, voluntaria e deliberada. Depois da molestia, avultou expontanea. A experiencia do caracter da moça dera esse resultado inevitavel. Toda a prevenção cessou; a gratidão da vida ligou fortemente o que tantas circumstâncias anteriores pareciam separar. Não o occultou a irmã do conselheiro; suas maneiras não tinham ja acanhamento nem reserva; as palavras subiam do coração á boca sem atenuação nem cálculo; fez-se carinhosa e mãe.

No dia em que ella pôde sahir do quarto pela primeira vez, Helena deu-lhe o braço e levou-a até á sala de costura e das reuniões íntimas. Estacio amparou-a do outro lado. Alli chegando, foi ella sentada n'uma poltrona. Estacio abriu um pouco a janella, para penetrar além da luz, um pouco de ar. D. Ursula respirou á larga, como lavando o pulmão cora aquella primeira onda de vida. Depois, segurando as mãos de Helena, que ficára de pe a seu lado, fel-a inclinar a fronte e imprimiu-lhe um beijo longo e verdadeiramente maternal. Estacio approximara-se; aquella manifestação encheu-o de júbilo.

—Bem merecido beijo!—exclamou elle. Helena foi um anjo em todo este tempo.

—Bem sei,—retorquiu D. Ursula; foi um verdadeiro anjo, foi mulher, mãe e filha. Obrigada, Helena! Póde ser que a medicina tenha ajudado a cura, mas o principal merito é só teu.

Helena abraçou a convalecente.

—Estacio,—disse ésta; agradece a tua irmã, como eu fiz.

Estacio inclinou-se para Helena afim de lhe pousar na fronte o casto ósculo de irmão. Não o conseguiu, porque Helena desviando o busto e reclinando a cabeça para traz, estendeu-lhe sorrindo a mão esquerda e disse:

—Não foi serviço que merecesse tanta paga; basta um apêrto de mão e o affecto de todos.

Estacio apertou-lhe a mão, e sentiu-lh'a trémula. Aquelle movimento de castidade não lhe pareceu exagerado nem descabido; achou-a assim mais bella. Uma creatura tão ciosa de si mesma que nem admittia a caricia do irmão, não era digna de honrar o nome da familia?

A convalecença de D. Ursula foi lenta, e não a houve mais rodeada de cuidados e attenções. Os dous sobrinhos não a deixaram um instante sosinha, e inventavam toda a sorte de recreio com que pudessem distrahil-a: jogos de familia ou leitura, musica ou simples palestra íntima. Uma vez lembraram-se de representar, só para ella, uma comedia de duas pessoas. Outra vez, Helena organizou um sarau musical, em que tomaram parte Eugenia Camargo, e mais tres moças da visinhança. Foi a primeira vez que a ouviram cantar. O successo não podia ser mais completo. Como o applauso que lhe deram pareceu desconsolar um pouco a filha do médico, Helena preparou-lhe habilmente um triumpho, fazendo-a executar ao piano uma composição brilhante, sua favorita. Estacio, que quasi não tirava os olhos da irmã, percebeu-lhe a intenção, e disse-lh'o. Helena esquivou-se à allusão; mas, insistindo elle:

—Não ha nada que admirar, disse ella; Eugenia toca perfeitamente; ora justo que tambem fosse applaudida. Se ha arte no que fiz, parece-me que é a mais singella do mundo. O melhor modo de viver em paz, é nutrir o amor proprio dos outros com pedaços do nosso. Mas, olhe; Eugenia nem precisa disso; tem a primazia da belleza. Veja se ha creatura mais deliciosa.

Estacio dirigiu os olhos para onde Helena lhe indicava. Era um grupo de duas moças e dous rapazes. Eugenia pelo braço de um delles, estava de pe, ouvindo sem attender as palavras, que alli diziam, por que seus olhos inquietos derramavam-se por toda ella e pela sala. Admirava-se e espreitava a admiração dos outros. A figura era realmente graciosa; mas Estacio quizera-a mais inconsciente, menos preoccupada do effeito que produzia.

—Ha cem bellezas como aquella, disso elle.

—Estacio! exclamou Helena com ar de reprehensão.

—A belleza é como a bravura; vale mais se não a mettem á cara dos outros.

—Voce é um ingrato!

Naquella noite ficou mais patente que nunca a preponderancia ganha por Helena, que se tornara a verdadeira dona da casa, a directora ouvida e obedecida. D. Ursula cedêra, em poucas semanas, o que lhe negára durante mezes.

Por que razão, pensando em todas as cousas, não conseguíra ella apressar o casamento de Estacio? Estacio continuava a hesitar, a recuar, a adiar; pedia tempo para reflectir. Suas ausencias no Rio Comprido iam-se tornando mais longas; os dias, quasi todos, eram desfiados no remanso da familia. Mas Helena insistiu tanto que elle prometteu fazer o solemne pedido no primeiro dia do anno.

Estacio não havia esquecido a carta lida pela irmã; mas por mais que a espreitasse e a estudasse nada descobria que lhe fizesse suppor affeição encoberta. Nenhum dos homens que iam alli,—e eram poucos,—parecia receber de Helena mais do que a cortezia commum. D. Ursula, a quem elle incumbira de interrogar a irmã acerca das palavras que ésta lhe dissera na manhã do primeiro passeio, não obteve resposta mais decisiva.

A promessa de ir pedir Eugenia, fel-a Estacio na segunda semana de Dezembro, em uma noite sem visitas que eram as melhores noites para elle. No dia seguinte de manha, erguendo-se tarde, soube que Helena sahíra a cavallo logo cedo.

—Sosinha?

—Com o Vicente.

Vicente era o escravo que, como sabemos, se affeiçoára, primeiro que todos, a Helena; Estacio designara-o para servil-a. A notícia do passeio não lhe agradou. O tempo andava com o mesmo passo de costume; mas á anciedade do mancebo affigurava-se que era mais longo. Estacio chegava á janella, ia até o portão da chacara, cora ar de apparente indifferença, que a todos illudia, a começar por elle proprio. N'uma das vezes em que voltou a casa, achou levantada D. Ursula; falou-lhe; D. Ursula sorriu com tranquillidade.

—Que tem isso? disse ella. Ja uma vez sahiu a passeio com o Vicente e não aconteceu nada.

—Mas não é bonito, insistiu Estacio. Não está livre de um acto de desattenção.

—Qual! Toda a visinhança a conhece. Demais, Vicente ja não é tão creança. Tranquillisa-te, que ella não tarda. Que horas são?

—Oito.

—Dez ou quinze minutos mais. Parece-me que ja ouço um tropel.

Os dous estavam na sala de juntar: passaram á varanda, e viram effectivamente entrar no terreiro Helena e o pagem. Helena deu um salto e entregou a redea de Moema ao pagem que acabava de apear-se. Depois subiu a escada da varanda. Ao collocar o pe no primeiro degrau, deu com os olhos nu irmão e na tia. Fez-lhes um comprimento com a mão, e subiu a ter com elles.

—Ja de pe! exclamou abraçando D. Ursula.

—Ja, para lhe ralhar,—disse ésta sorrindo. Que ideia foi essa de bater a linda plumagem? É a segunda vez que voce se lembra de sahir sem o urso do seu irmão.

—Não quiz incommodar o urso, replicou ella voltando-se para Estacio. Tinha immensa vontade, de dar um passeio, e Moema tambem. Apenas hora e meia.

Aquelle dia foi o de maior tristeza para a moça. Estacio passou quasi todo o tempo em seu gabinete; nas poucas occasiões em que se encontraram, elle só falou por monosyllabos, ás vezes por gestos. De tarde, acabado o jantar, Estacio desceu á chacara. Ja não era só o passeio de Helena que o mortificava; ao passeio jantava-se a carta. Teria razão a tia em suas primeiras repugnancias? Como elle fizesse essa pergunta a si mesmo, ouviu atraz de si um passo apressado e o farfalhar de um vestido.

—Está mal commigo? perguntou Helena com doçura.

Ao ouvir-lhe a voz, fundiu-se a colera do mancebo. Voltou-se; Helena estava deante delle, com os olhos submissos e puros. Estacio reflectiu um instante.

—Mal? disse elle.

—Parece que sim. Não me fala, não se importa commigo,—anda carrancudo... Seria por que eu sahi do manhã?

—Confesso que não gostei muito.

—Pois não sahirei mais.

—Não; póde sahir. Mas está certa de que não corre nenhum perigo indo só com seu pagem?

—Estou.

—E se eu lhe pedir que não saia nunca sem mim?

—Não sei se poderei obedecer. Nem sempre voce poderá acompanhar-me; além disso, indo com o pagem, é como se fosse só; e meu espirito gosta ás vezes de trotar livremente na solidão.

—Naturalmente a pensar de cousas amorosas... acrescentou Estacio cravando os olhos interrogadores na irmã.

Helena não respondeu; tomou-lhe o braço e os dous seguiram silenciosamente uns dez minutos. Chegando a um banco de madeira, Estacio sentou-se; Helena ficou de pe diante delle. Olharam um para outro sem proferir palavra; mas o labio de Estacio tremêra duas ou tres vezes como hesitando no que ia dizer. Por fim, o moço venceu-se.

—Helena, disse elle, voce ama.

A moca estremeceu e corou vivamente; olhou em volta de si como assustada e pousou as mãos nos hombros de Estacio. Reflectiu ella no que disse depois? É duvidoso; mas a voz, que nessa occasião parecia concentrar todas as melodias da palavra humana, suspirou lentamente:

—Muito! muito! muito!

Estacio empallideceu. A moça recuou um passo, e, trémula, poz o dedo na boca como a impor-lhe silêncio. A vergonha flamejava em seu rosto; Helena deu as costas ao irmão e affastou-se rapidamente. Ao mesmo tempo, a sineta do portão era agitada com fôrça, e uma voz atroava a chacara:

—Licença para o amigo que vem do outro mundo!




CAPITULO X


Estacio dirigiu-se ao portão. Abria-o; um moço que alli estava entrou precipitadamente. Era Mendonça. Os dous mancebos lançaram-se nos braços um do outro. Helena, a alguma distância, presenciou aquella effusão, e não lhe foi difficil adivinhar quem era o recem-chegado.

A effusão cessou, ou antes interrompeu-se, para repetir-se. Quando os dous rapazes se julgaram assaz abraçados, tomaram o caminho da casa. Helena, que estava um pouco adiante delles, foi apresentada a Mendonça. Ao ouvir que era irmã de Estacio, Mendonça ficou naturalmente espantado. Cortejou ceremoniosamente a moça, e os dous seguiram até a casa, onde pouco depois entrou Helena.

Mendonça era da mesma estatura que Estacio, um pouco mais cheio, hombros largos, physionomia risonha e franca, natureza mobil e expansiva. Vestia com o maior apuro, como verdadeiro parisiense que era, arrancado de fresco ao boulevard de Gand, ao cafe Tortoni e ás recitas do Vaudeville. A mão larga e forte calçava fina luva côr de palha, e sôbre o cabello, penteado a capricho, pousava um chapeu de fabrica recente.

Estacio, antes de entrar, explicou ao amigo a situação de Helena, cujas qualidades e educação louvou, com o fim de lhe fazer comprehender o respeito e a affeição que ella de todos merecia. Helena adivinhou esse trabalho preparatorio do irmão logo que entrou na sala.

Mendonça divertiu a familia uma parte da noite contando os melhores episodios da viagem. Era narrador agradavel, fluente e pitoresco, dotado de grande memoria e certa fôrça de observação. Seu espirito galhofeiro achava mais facilmente o lado comico das cousas; e mais se comprazia em dizer os accidentes de um jantar de hotel ou de uma noite de theatro que em descrever as bellezas da Suissa ou os destroços de Roma.

A visita durou pouco mais do hora. Estacio quiz acompanhal-o até a cidade; elle não consentiu que fosse além do portão. Atravessando a chacara, falaram do passado, e um pouco do futuro, a trechos soltos, como o lugar e a occasião lhes permittiam. Mendonça, vendo que Estacio não tocava em um ponto essencial, foi o primeiro que o aventou.

—Fallaste-me em uma de tuas cartas de certa Eugenia...

—A filha do Camargo.

—Justo. Negocio roto?

—Quasi terminado.

—Terminado... na egreja, supponho?

—Tal qual.

—Quando?

—Brevemente.

—Marido, emfim! Era só o que te faltava. Nasceste com a bossa conjugal, como eu com a bossa viajante, e não sei qual de nós terá razão.

—Talvez ambos.

—Creio que sim. Tudo depende do gôsto de cada um. O casamento é a peor ou a melhor cousa do mundo; pura questão de temperamento. Eu vi algumas vezes essa moça; era então muito menina. Não te pergunto se é um anjo...

—É um anjo.

—Como todas as noivas. Feliz Estacio! Segues a carreira de tua vocação, em quanto que eu...

—Tu?

—Interrompo a minha e talvez para sempre. Preciso cuidar da vida; não sou capitalista, nem meu pae tão pouco. Adeus, viagens!

—Tanto melhor! Arranjo-te noiva. Não é a tua vocação, mas não serás o primeiro que a erre, sim que dahi venha mal ao mundo.

—Pois arranja la isso. Em todo caso não será tua irmã.

—Oh! não, disse vivamente Estacio.

—Na verdade, é bonita; mas... se permittes a franqueza de outr'ora, acho-lhe uma costella de desdem...

—Que ideia! É a mais affavel creatura do mundo. Veras mais tarde; hoje estava talvez preoccupada. Em todo o caso, não havias de querer que ella saltasse a dansar contigo na sala, de mais a mais sem musica.

Mendonça acabava de accender um charuto; apertou a mão de Estacio e sahiu. Estacio accordou de um sonho. A realidade poz-lhe suas mãos de chumbo e repetiu-lhe ao ouvido a confissão interrompida de Helena. Ancioso por saber o resto, entrou elle immediatamente em casa. A diligencia foi esteril, por que a irmã recolhera-se a seu aposento. Estacio imitou-a. Era forçoso esperar uma noite inteira, demora que o affligia, porque, dizia elle consigo mesmo, cumpria-lhe velar pela sorte de Helena, como irmão e chefe de familia, indagar de seus sentimentos, e ordenar o que fôsse melhor. Uma noite não em muito; comtudo, a preoccupação retardou-lhe o somno. A confissão subita, laconica e eloquente da irmã ficara-lhe no espirito como se fôra o echo perpétuo de uma voz extincta.

Nem no dia seguinte nem nos subsequentes alcançou o que esperava. Helena, ou evitava ficar a sos com elle, ou esquivava-se a maior explicação. Nos passeios matinaes, que eram frequentes, procurou Estacio mais de uma vez enterreirar a conversa no assumpto que, mais que nenhum outro, o preoccupava. Helena ouvia com um sorriso, e respondia com uma gracejo; depois dava de redea á conversação e galopada na direcção opposta. Como a fantasia era campo vasto, nunca mais o moço lograva trazel-a ao ponto de partida.

Um dia, a insistencia de Estacio teve tal caracter de autoridade, que pareceu constranger e molestar Helena. Ella replicou com remoque; elle redarguiu com uma advertencia aspera. Iam ambos a pe, levando os animaes pela redea. Ouvindo a palavra do irmão, Helena susteve o passo, e fitou-o com um olhar digno, um desses olhares que parecem vir das estrêllas, qualquer que seja a estatura da pessoa. Estacio possuia essas duas cousas que nunca hão de conhecer corações mediocres: a nobre retratação do êrro e a generosidade do perdão. Viu que cedêra a um mau impulso, e confessou-o; mas confessou-o com palavras taes, que Helena travou-lhe da mão e lhe disse:

—Obrigada! Se me não dissesse isso, ver-me-hia desparar por este caminho fóra até o fim do mundo ou até o fim da vida.

—Helena!

—Oh! não é vão melindre, é a propria necessidade da minha posição. Voce póde encaral-a com olhos benignos; mas a verdade é que só as azas do favor me protegera. Pois bem, seja sempre generoso, como foi agora; não procure violar o sacrario de minha alma. Não insista em pedir a explicação de palavras mal pensadas e ditas em ma hora...

—Mal pensadas? Póde ser; mas por isso é que são verdadeiras; se voce tivera tempo de as meditar, guardal-as-hia comsigo, avara de seus segredos e suspeitosa de corações amigos. Meu fim era somente ajudal-a a ser venturosa, destruir...

—É tarde! interrompeu a moça consultando o reloginho preso á cintura. Vamos?

Estacio sorriu melancholicamente; offereceu-lhe o joelho, ella pousou nelle o pesinho afilado e leve e saltou no selim. A volta foi menos alegre do que costumava ser. Elles falavam, mas a palavra vinha aos labios, como uma onda vagarosa e surda; nenhuma colera, mas nenhuma animação. Assim correu aquelle dia; assim correriam outros, se não fôra a vara magica de Helena. Seu natural influxo era tão forte, que o irmão voltou desde logo ás boas, sendo as melhores horas as que passava ao pe della, a escutal-a e a vel-a, ambos contentes e felizes. O episodio da confissão vinha as vezes, como hóspede importuno, projectar entre elles seu nebuloso perfil; mas o espirito de Estacio repellia-o, e a alegria da irmã fazia o resto.

Entretanto, graças ao amigo recem-chegado, o filho do conselheiro sahiu um pouco de suas regras habituaes, e começou a provar alguma cousa mais da vida exterior. Mendonça buscava realizar, em miniatura, o seu esvaido ideal parisiense; havia nelle o movimento, a agitação, a galhofa, que absolutamente faltavam a Estacio, e vieram dar-lhe á vida a variedade que ella não tinha. Alguns expectaculos e passeios, uma ou outra ceia alegre, mas casta, tal foi o programma de uma parte infima da existencia de Estacio. Para contrastar com ella, tinha elle as manhãs do Andarahy e algumas noites do Rio Comprido. Ao amigo e á sua consciencia, dizia o moço que estava a despedir-se da liberdade.

A influência de Mendonça estendeu-se á propria casa de Estacio. Mendonça gostava sobretudo da variedade ao viver; não tolerava os mesmos prazeres, nem os mesmos charutos; para os apreciar tinha necessidade do os alternar frequentemente. Se fôsse possivel, era capaz de fazer-se monge durante um mez, antes do carnaval, trocar o hábito por um dominó, e atar as últimas notas das matinas com os preludios da contradança. Sua fidelidade á moda custava-lhe um pouco quando ésta não ia a passo com a sua impaciencia. Em sua opinião o que distinguia o homem do cão era a faculdade de fazer com que uma noite se não parecesse com outra. O Rio de Janeiro não lhe offerecia a mesma variedade de recursos que Paris; mas seu genio era inventivo e fertil, e não lhe faltaria meio de fugir á uniformidade dos habitos.

O peor que lhe acontecia era a disparidade entre os desejos e os meios. Filho de um commerciante, apenas remediado, não teria elle podido realizar a viagem á Europa, nas proporções largas em que o fez, a não ser a intervenção benefica de uma parenta velha, que se incumbira de lhe ministrar os recursos de que elle carecesse durante aquella longa ausencia. Nem a parenta continuaria a abrir-lhe a bolsa, nem pae queria crear-lhe habitos de ociosidade. Tratava este, portanto, de obter-lhe um emprêgo público. Mendonça estava longe de recusar; pedia somente que o emprêgo o não deslocasse da Côrte.

Inquieto, amigo da vida ruidosa e facil, intelligente sem largos horisontes, possuindo apenas a instrucção precisa para desempenhar-se regularmente de qualquer commissão de certa ordem, Mendonça, com todos os seus defeitos e boas qualidades, era homem agradavel e acceito. Seus defeitos eram antes do espirito que do coração. A variedade que elle pedia para as cousas externas e de menor tomo, não a praticava em suas affeições, que eram geralmente inalteraveis e fieis. Era capaz de sacrificio e dedicação; sobretudo, se lhe não pedissem o sacrificio deliberado ou a dedicação reflectida, mas aquelles que exige uma circumstância imprevista e subita.

Não admira que a presença de tal homem viesse modificar o tom da sociedade de que era centro a familia de Estacio, quando elle alli fazia alguma apparição. Era o sal daquella terra. Não tinha a rijeza do figurino, nem a morgue do estrangeirado. A tesoura do alfaiate não lhe dissimulára a indole expansiva e franca. Acolhido como um filho, tinha alli uma porção de sua casa. Que melhor aspecto podia ter a vida em taes condições, naquella familia ligada por um sentimento de amor?

A noite do ultimo dia do anno veiu turvar a limpidez das aguas.




CAPITULO XI


Naquelle dia fazia annos Estacio, e D. Ursula assentira receber algumas pessoas a jantar, e outras mais á noite, em reunião íntima. Ella e Helena tomavam a peito fazer com que a pequena festa de familia fosse digna do objecto. Estacio opinou pela suppressão do sarau; mas era difficil alcançar a desistencia de corações que o amavam.

Logo de manhã, como elle se levantasse cedo, encontrou Helena que o convidou a seguil-a á sala de costura.

—Quero dar-lhe o meu presente de annos, disse ella.

Alli entrados, abriu a moça uma pasta de desenhos, na qual havia um só, mas significativo: era uma parte da estrada de Andarahy—a mesma por onde elles costumavam passear, mas com algumas particularidades do primeiro dia. Dous cavalleiros, elle e ella, iam subindo a passo lento; ao longe, e acima via-se a velha casa da bandeira azul; no primeiro plano, desciam o preto e as mulas. Por baixo do desenho uma data; 25 de Julho de 1850.

Estacio não pôde conter um gesto de admiração, quando a moça retirou de cima do desenho a folha de papel de seda que o cobria. Apertou a mão de Helena e examinou o trabalho. Notou a firmeza das linhas, a exacção das circumstâncias locaes, as impressões de uma hora fugitiva que o lapis da irmã tivera a arte de fixar no papel.

—Não podia fazer-me presente melhor, disse elle; da-me uma parte de si mesma, um fructo de seu espirito. E que fructo! Não ha muita moça que desenhe assim. Era talvez por isso que voce sahia algumas vezes sosinha com o pagem?

Estacio contemplou ainda instantes o desenho; depois levou-o aos labios e beijou-o. O ósculo acertou de cahir na cabeça da cavalleira. Foi o original que corou.

—Andavam a gabar meus talentos,—disse Helena apos um instante; tive a vaidade de dar uma pequena amostra...

—Excellente amostra! Não acha, titia? disse, o moço a D. Ursula, que nesse instante apparecêra á porta, trazendo o seu presente, n'uma bocetinha de joalheiro.

D. Ursula não tinha, de certo, o instincto da arte; mas o amor da familia lhe ensinára uma esthetica do coração, e essa bastou a fazel-a admirar o trabalho de Helena.

—Mas que digo eu todos os dias? exclamou D. Ursula. Ésta pequena sabe tudo!

—Quasi tudo, emendou Helena; ignoro, por exemplo, como lhes hei de agradecer...

—O que, tontinha? interrompeu a tia. Algum, disparate, naturalmente, improprio em qualquer dia, mas muito mais ainda no dia de hoje.

Em quanto as duas senhoras foram tratar das disposições do dia, Estacio mandou sellar o cavallo e sahiu. Queria comparar ainda uma vez o desenho do Helena com o sitio copiado. A fidelidade era completa, e o quadro seria absolutamente o mesmo, se dessem algumas circumstâncias da primeira occasião. Helena não ia ao lado delle; mas a vinte braças de distância fluctuava a bandeira azul da casa do alpendre. Estacio afrouxou o passo do cavallo, como saboreando as recordações da primeira manhã, quando Helena se lhe mostrára tão singularmente commovida. Volveu a reflectir na situação della, e na paixão que lhe confessára, dias antes, com tamanha vehemencia. Se se tratava de uma felicidade possivel, embora difficil, Estacio prometteu a si mesmo alcançar-lh'a. Não era isso servir o sangue do seu sangue?

A casa do alpendre, até alli indifferente a Estacio, creava agora para elle um interesse especial. Á medida que se approximava, ia achando no edificio a fiel reproducção do desenho. Este não apresentava todas as particularidades da vetustez; mas continha as mesmas disposições exteriores, como se fôra feita deante do original.

A uma das janellas estava um homem, com a cabeça inclinada, attento a ler o livro que tinha sobre o peitoril. Nessa attitude não era facil examinal-o; affigurava-se, entretanto, uma creatura mascula e bella. A duas braças de distância, o individuo levantou a cabeça, e cravou em Estacio um par de olhos grandes e serenos; immediatamente os retirou, baixando-os ao livro.

—Mal sabes tu, philosopho matinal, disse Estacio comsigo,—mal sabes tu que a tua casa teve a honra de ser reproduzida pela mais bella mão do universo!

O philosopho continuou a ler, e o cavallo continuou a andar. Quando Estacio regressou dahi a alguns minutos, achou somente a casa; o morador desaparecêra; circumstância indifferente, que escapou de todo à attenção do moço. Nem elle pensava mais naquillo; seu pensamento trotava largo, á ingleza, como o ginete, e ambos bebiam o ar, como anciosos de chegar ao ponto da partida.




CAPITULO XII


A festa correu animada, posto o reunião fôsse restricta. Algumas voltas da valsa, duas ou tres quadrilhas, jogo e musica, muita conversa e muito riso, tal foi o programma da noite, que a encheu e fez mais curta.

Se as honras da casa foram feitas por Helena, a alma da festa era Mendonça, cujo espirito havia ja recebido e colhido o suffragio universal. Eugenia dera-lhe, antes de todos, o seu voto. Havia entre ambos tal ou qual afinidade de indole, que naturalmente os approximava. Mendonça lisongeava os caprichos de Eugenia, applaudia-a, comprehendia-a, obedecia-lhe sem constrangimento nem reparo. Quando Mendonça valsava com Eugenia, todos os olhos se concentravam nelles. Eram valsitas de primeira ordem. As ondulações voluptuosas do corpo de Eugenia e a serenidade e segurança de seus passos, adaptavam-se maravilhosamente áquella especie de dança,—a unica que nossos costumes formalistas possuem. Era bello vel-os percorrer o vasto círculo deixado a seus movimentos; vel-os emfim parar com a mesma precisão e sem o menor symptoma de cançasso. Eugenia punha toda a sua attenção naquelle gesto de braço com que as mulheres, logo que interrompem ou cessam de todo a valsa, conchegam ao corpo a saia do vestido, cujo movimento rotatorio póde dar lugar a alguma indiscrição. O prazer com que ella fazia esse gesto, e a graça com que o acompanhava de uma leve inclinação do corpo mostravam que, mais ainda a faceirice do que a necessidade, lhe movia o corpo e a mão.