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Helena

Chapter 21: CAPITULO XIV
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About This Book

The narrative opens with the sudden death of a respected elder and the reading of a will whose unexpected clause brings a young woman into his household. Her arrival unsettles his son and sister, provoking questions of inheritance, legitimacy, and social reputation while entangling private affections and restrained romantic interest. Through close domestic scenes and careful psychological observation, the work examines family secrets, honor, and tensions between public standing and private desire, gradually revealing characters' motives and moral ambiguity as relationships and social expectations evolve.

Ésta sorte de triumphos enchia a alma de Eugenia; e, porque ella não possuia nem a modestia nem a arte de o simular, via-se-lhe no rosto o orgulho e a satisfação. A dança não era para a filha de Camargo um goso ou um recreio somente; era tambem um adorno e uma arma. Dahi vinha que o valsista mais intrepido e constante era tambem o principal parceiro do seu espirito; e ninguem disputava esse papel ao filho do commerciante.

—Sua filha é a rainha da noite, murmurou o Dr. Mattos ao ouvido de Camargo, em um intervallo do voltarete.

—Não é verdade? acudiu o médico.

E a alma do pae voava enrolada nas pontas da fita que apertava a cintura de Eugenia, não regressando ao domicilio se não quando a moça parava. Então volvia Camargo um olhar em torno de si, como pedindo egual admiração. Depois ficava sombrio, e mais do que usualmente, cahia em longos e mortaes silêncios. Tres ou quatro vezes approximára-se de Helena sem lograr detel-a, nem adiarem si mais que duas palavras triviaes. Insistia; não a perdia de vista, parecia ancioso de a conversar sôbre alguma cousa.

Helena repartia-se entre todas as pessoas, attenta aos mil cuidados que a noite requeria. Cantou uma vez, dansou uma quadrilha, e não valsou. Em vão Mendonça insistira com ella; a moça desculpou-se dizendo que a valsa lhe fazia vertigens. Na opinião do filho do coronel-major ésta razão encobria somente a ignorancia de Helena. Estacio pensava antes que era a castidade selvagem da irmã que lhe não permittia o contacto de um homem, ideia que lhe fez bem ao coração.

Pela volta da meia noite, terminada a ceia, começou aquella hora de repouso, que precede a total dispersão. As senhoras trocavam impressões e commentarios, os rapazes fumavam, os jogadores decidiam as últimas remissas. A noite não refrescara, e a agitação augmentára o calor. Helena, tão cançada como D. Ursula, retirára-se por alguns instantes para a sala contigua á principal; alli sentou-se n'um sopha, e derreou levemente o corpo, deixando cahir os cilios, não sei se pensativos, se pesados de somno. Seu espirito não tivera tempo de encadear duas ideias ou esboçar um sonho, quando uma voz a accordou:

—Ja dormindo!

Era Camargo.

Helena abriu os olhos sobresaltada. A voz de Camargo, produzira-lhe a impressão de desagrado, que lhe fazia sempre. Sorriu a moca contrafeitamente, e vendo que elle se dispunha a sentar-se no sopha, não arredou o vestido, como se quizesse deixar entre ambos larga distância: Camargo sentou-se.

—Parece que se assustou? disse elle.

—Um pouco.

Camargo agitou entre as mãos os perendengues do relogio,—tão numerosos como elles se usavam naquelle tempo; depois pegou familiarmente no leque da moça, abriu-o, contou as varetas, tornou a fechal-o e restituiu-o com um elogio. Helena respondeu-lhe com um sorriso. Ia levantar-se, quando elle a deteve com éstas palavras:

—Estimei achal-a só, por que precisava pedir-lhe um conselho.

A testa de Helena contrahiu-se interrogativamente.

—Um conselho e um favor, continuou o médico. Não será, creio eu, a primeira vez que a velhice consulte a mocidade. Demais, trata-se de assumpto em que a gente moça lê de cadeira.

Helena olhou para elle desconfiada. Nunca vim o médico tão affavel, e essa mudança de maneiras e de tom é que lhe fazia medo. Verdade é que elle ia pedir-lhe alguma cousa; e a experiencia ensina que o interesse é muito mais eloquente que o vinho e muito mais meigo que o amor. Camargo não se deteve. Fez uma exposição rapida de suas relações com a familia do conselheiro, do sentimento de amizade que o ligava a ella.

—A perda do meu finado amigo,—concluiu elle, não póde ser supprida por nenhuma cousa; mas ha alguma compensação na affeição que sobrevive e me faz considerar ésta familia como minha propria. Estou certo de que seu irmão e D. Ursula sentem a meu respeito do mesmo modo. Quanto á senhora, é recente na familia, mas não tem menor direito que ella. Vi-a tão pequena!

—A mim? perguntou Helena.

Camargo fez um gesto affirmativo, em quanto a moça olhava em volta da sala, receiosa de que alguem tivesse entrado e ouvido. Uma vez segura de que ninguem havia, recebeu impressão contrária á primeira; envergonhou-se daquelle receio. A vergonha augmentou quando o médico accrescentou em voz baixinha:

—Não falemos nisso...

—Pelo contrário! exclamou ella. Pode falar com franqueza; diga tudo. Era minha mãe. Não sei o que foi para o mundo; mas se me perdoaram a irregularidade do nascimento, não creio que me pedissem em troca a renúncia do meu amor de filha; a lei que o poz em meu coração é anterior á lei dos homens. Não repudio uma só das minhas recordações de outro tempo. Sei e sinto que a sociedade tem leis e regras dignas de respeito; aceito-as taes quaes; mas deixem-me ao menos o direito de amar o que morreu. Minha pobre mãe! Vi-a expirar em meus braços; recolhi o seu último suspiro. Tinha apenas doze annos; contudo, não consenti, que outra pessoa velasse á cabeceira a ultima noite que passou sobre a terra... Oh! não a esquecerei nunca! nunca! nunca!

Helena proferiu éstas palavras n'um estado de exaltação que até alli se lhe não vira. Em vão Camargo procurou duas ou tres vezes interrompel-a, receioso de que a ouvissem fóra, por que a moça tinha levantado a voz. Helena não obedeceu; não viu se quer o gesto supplicante do médico. O seio, castamente velado pelo corpinho, que subia até ao pescoço, estava offegante e onduloso como a agua do mar batida pelo vento. Á ultima palavra sahiu-lhe como um soluço. Camargo sentiu-se sorprehendido com aquella explosão de ternura. Era evidente que elle esperava outra cousa. Seguiu-se um breve silêncio, durante o qual Helena mordia a ponta do lenço, como para conter a palavra que lhe tumultuava no coração. O médico proseguiu emfim:

—Ninguem lhe pede que a esqueça, disse elle; todos respeitam esses sentimentos de piedade filial. O passado morreu, e o menos que se deve aos mortos é o silêncio. A senhora tem o direito de lhe dar o amor e a saudade. Mas falemos dos vivos; e perdoe-me se lhe toquei, sem querer, em tão dolorosa recordação.

—Não! não é dolorosa! disse ella abanando a cabeça.

—Falemos dos vivos. Não está certa do amor de sua familia?

Helena fez um gesto affirmativo.

—Não poderia encontrar outra melhor nem tão boa. D. Ursula é uma sancta senhora; Estacio um caracter austero e digno. Venhamos agora ao conselho. Ha muito tempo ando com ideia de ir á Europa; estou caminhando para a velhice; não quero deixar de ir ver alguma cousa além do nosso Pão d'Assucar. Ja desfiz o projecto mais de uma vez. Cuido que agora vou definitivamente realisal-o. Dá-se porém uma circumstância grave. Sabe que minha filha ama seu irmão? Meus olhos descobriram desde muito essa inclinação de um e outro, por que tambem seu irmão ama minha filha. Merecem-se; e de algum modo continuam si affeição dos paes; a natureza completa a natureza. Ésta é a situação. O que eu desejava, porém, é que me dissesse se devo partir ja, levando-a; ou se é melhor esperar que elles se casem.

Helena ouvira o médico sem olhar para elle; quando elle acabou, fitou-o admirada e curiosa. A puerilidade da pergunta era tão evidente que a moça procurou ler no rosto do interlocutor o pensamento verdadeiro e occulto. Camargo apressou-se a explicar-se.

—Estacio,—disse elle,—póde amar Eugenia com ideias matrimoniaes; mas tambem pode não passar isso de um capítulo de romance, como o que se lê em uma viagem da Corte a Nictheroy. Seu caracter é serio; mas o coração tem leis especiaes. Confesso que o procedimento de Estacio nada me affirma a tal respeito. Ha nelle umas mudanças pouco explicaveis. O tempo decorrido é mais que muito sufficiente para que... Está reflectindo!

—Estou.

—E...

—Supponho que pede mais do que me disse. Quer que eu indague a tal respeito as intenções, de Estacio!

—Isso.

—Mas porque não se dirige a elle mesmo?

—Não havia inconveniente; estabeleceu-se porém que um pae não deve ser o primeiro a falar em taes cousas. É preciso respeitar a dignidade paterna. Accresce que Estacio é rico, e tal circumstância podia fazer suppor de minha parte um sentimento de cobiça, que está longe de meu coração. Podia falar a D. Ursula; creio porém que ella não tem a sua habilidade, e... porque o não direi? a sua influência no espirito de Estacio.

—Eu!

—Oh! influência incontestavel! A senhora veiu completar a alma de seu irmão. É visivel a affeição e o respeito que elle lhe tem. Demais, em taes assumptos urna irmã é natural confidente e conselheira.

Helena deu tres pancadinhas no joelho com a ponta do leque, e enfiou os olhos pela porta de communicação entre aquella e a salla principal. Depois voltou-se para o médico.

—Sei que elles se amam,—disse ella,—e ja dei a minha opinião a tal respeito. Eugenia parece ser minha amiga; meu irmão é meu irmão; desejo-lhes todas as felicidades. Ha porém um limite á intervenção de uma irmã; e não desejo ir além. Demais, seu pedido é ocioso.

—Porque?

—Annuncie a viagem; e Estacio, se apressará a pedir-lhe sua filha. Se o não fizer, é por que a não ama, conforme ella merece, e em tal caso mais vale perder um casamento que fazel-o mau.

—Sim? perguntou Camargo.

—Naturalmente.

—O conselho é excellente,—disse o médico depois de um instante, mas tem o defeito substancial de supprimir a sua intervenção, que me é necessaria. Vejamos o meio de combinar as cousas. Supponhamos que, annunciada a viagem, Estacio não corresponde ás minhas esperanças. Que devo fazer?

—Embarcar.

—Embarcar é arriscar o casamento. Ora, este casamento... é um de meus sonhos. Desejo que os filhos continuem a affeição dos paes. Se Estacio recuar, minhas esperanças esvaem-se-me como fumo; o tempo cavará um abysmo entre os dous; Eugenia amará outro... Emfim, conto com a senhora.

—Commigo?

—A senhora tem uma fôrça de resolução, uma fertilidade de expedientes, um espirito capaz de emprezas delicadas, e, tratando-se da felicidade de um irmão. Creio que empenhará todas as fôrças para levar a cabo a mais pura das ambições. Não lhe peço um absurdo, peço-lhe a felicidade de minha filha.

Helena não respondeu; olhou de revez para elle, e cravou depois os olhos no aguia branca tecido no tapete, sobre o qual pousava seu pe impaciente e colerico. Podia referir mais detidamente qual o seu papel juncto de Estacio, a respeito de Eugenia, seus pedidos, e a promessa do irmão, que deveria ser cumprida, se o fosse, em algum dos seguintes dias. Mas nem quiz dar esperanças que os acontecimentos podiam dissipar, nem o coração lhe consentia mais larga confidencia. Ambos elles viam que se detestavam cordialmente; mas se em Helena havia colera abafada, em Camargo havia tranquillidade e observação. Elle contemplava a moça, com o olhar fixo e metalico dos gatos; a mão esquerda, pousada sobre o joelho, rufava com os dedos magros e pelludos. Nada dizia; mas todo elle em uma interrogação imperiosa. Helena olhou ainda uma vez para o médico.

—Dá-me o seu braço até á sala? perguntou.

Camargo sorriu.

—Só isso? Eu dizia commigo outra cousa.

—Que dizia então? perguntou Helena com aquelle ar de esmagadora indifferença que só as mulheres possuem.

—Dizia que muito se devia esperar da dedicação de uma moça, que acha meio de visitar ás seis horas da manhã uma casa velha e pobre, não tão pobre, que a não adorne garridamente uma flamula azul..

Helena fez-se livida; sua mão apertou nervosamente o pulso de Camargo. Nos olhos pareciam falar-lhe ao mesmo tempo o terror, a colera e a vergonha. Atravez dos dentes cerrados Helena gemeu ésta palavra unica:

—Cale-se!

—Falo entre nós e Deus, disse Camargo.

Uma onda de sangue invadiu a face da moça, com a mesma rapidez com que ella lhe empallidecêra. Helena quiz erguer-se; mas sentiu-se exhausta. Ninguem da sala pôde perceber a impressão e o movimento; ninguem olhava para alli. Camargo, entretanto, inclinou-se para Helena e proferiu algumas palavras de animação, que ella interrompeu, murmurando com amargura:

—O senhor é cruel!

—Sou pae, respondeu o médico; pae extremoso e discreto, mais discreto ainda que extremoso, Conto com a senhora.




CAPITULO XIII


Dissolvida a reunião, Helena recolheu-se à pressa, com o pretexto de que estava a cahir de somno, mas realmente para dar á natureza o tributo de suas lagrymas. O desespêro comprimido tumultuava no coração, prestes a irromper. Helena entrou no quarto, fechou a porta, soltou um grito e lançou-se de golpe á cama, a chorar e a soluçar.

A belleza dolorida é dos mais patheticos expectaculos que a natureza e a fortuna podem offerecer á contemplação do homem. Helena torcia-se no leito como se todos os ventos do infortunio se houvessem desencadeado sôbre ella. Em vão tentava abafar os soluços, cravando os dentes no travesseiro. Gemia, intercortava o pranto com exclamações sôltas, enrolava no pescoço os cabellos deslaçados pela violencia da afflicção, buscando na morte o mais prompto dos remedios. Colerica, rompeu com as mãos o corpinho do vestido, e o joven seio, livre de sua. casta prisão, pode á larga desaffogar-se dos suspiros que o enchiam. Chorou muito; chorou todas as lagrymas poupadas durante aquelles mezes placidos e felizes,—leite da alma com que fez calar a pouco e pouco os vagidos de sua dor.

Calar somente, não adormecel-a, por que ella ahi lhe ficou,—companheira daquella noite cruel, para velarem ambas. Quando os olhos cançaram, e foram mais intervallados os soluços, Helena jazeu immovel no leito, com o rosto sobre o travesseiro, fugindo com a vista á realidade exterior. Uma hora esteve assim, muda, prostrada, quasi morta, uma hora longa, longa, longa,—como só as tem o relogio da afflicção e da esperança.

Quando a tormenta pareceu extincta, a moça sentou-se na cama e olhou vagamente em torno de si. Depois ergueu-se; dirigiu-se tropega á toilette, que communicava com a alcova por uma porta; alli parou deante do espelho, mas fugiu logo, como se lhe pesasse encarar consigo mesma. Uma das janellas estava aberta; Helena foi alli aspirar um pouco do ar da noite. Ésta era clara, tranquilla e quente. As estrêllas tinham uma scintillação viva que as fazia parecer alegres. Helena enfiou um olhar por entre ellas como procurando o caminho da felicidade. Esteve á janella cêrca de meia hora; depois entrou, sentou-se e escreveu uma carta.

A carta era longa, escripta a golphadas, sem nexo nem ordem; continha muitas queixas e imprecações; uma ternura expansiva de mistura com um desespêro profundo; fallava daquelles que, tendo nascido sob a influência de ma estrêlla, só tem felicidades intermittentes e mutaveis; dizia que para ella a propria felicidade era um germen de morte e dissolução,—ideia que repetia tres vezes, como se tal observação fosse o transumpto de suas experiencias certas. A carta fallava tambem de um homem, cujo egoismo de pae não conhecia limites, e que a todo o trance queria que a filha desposasse uma grande riqueza e uma grande posição,—«homem—dizia ella, que me viu a principio com olhos avessos, pela diminuição que eu trazia á herança.» No fim dizia que havia naquellas linhas muito de obscuro e incompleto; que opportunamente contaria tudo; mas que desde ja podia dar a triste notícia de que lhe era forçoso abster-se de sahir.

Helena releu o escripto e meditou longo tempo sôbre elle; accrescentou ainda algumas linhas; depois, rasgou o papel em dous pedaços, chegou-os á vela, e os destruiu. Como arrependida, voltou a escrever outra carta, mas não chegou a acabar seis linhas; rasgou-a como fizera á primeira, e só então recorreu ao remedio melhor de uma alma ulcerada e pia: rezou. A prece é a escada mysteriosa de Jacob: por ella sobem os pensamentos ao ceu; por ella descem as divinas consolações.

Entretanto, a noite começava a inclinar a urna das horas ás mãos da madrugada. O somno fugira dos olhos de Helena; mas era forçoso repousar. Assim mesmo vestida atirou-se sôbre o leito. Não dormiu, não se póde dizer que dormisse; ficou alli n'um estado, que não era vigilia nem somno, até que a manhã rompeu inteiramente. Abrindo os olhos, pareceu accordar de um sonho; sua imaginação recompoz as phases todas do acontecimento da vespera. Depois suspirou, e ficou longo tempo a olhar para o chão, com a fixidez tragica e solemne da morte.

—Era justo! murmurava de quando em quando.

Levantou-se emfim; levantou-se abatida e cançada. Viu-se ao espelho; a descorada face e a linha roxa que lhe circulava as palpebras difficilmente podiam deixar de impressionar a familia. Helena disfarçou como pôde esses vestígios da tempestade; explicou-os do modo mais verosimil: o cançasso da vespera e a insomnia de toda uma noite. A explicação não achou obstaculo no ânimo da tia e do irmão. Somente o padre Melchior, presente a ella, fitou na moça um olhar dubitativo, que a obrigou a baixar os cilios.

Se Helena padecia, o logar de Estacio não era ao pe della? Assim o pensou o sobrinho de D. Ursula, que em todo esse dia resolveu não sahir de casa. Cercou-a de cuidados, buscou distrahil-a, pediu-lhe que fosse repousar um instante. Para justificar a explicação que dera, Helena obedeceu ás instrucções do irmão. Este foi encerrar-se no gabinete, onde se occupou em examinar e colleccionar alguns papeis. Era o dia marcado para solicitar de Eugenia o consentimento matrimonial, e elle não cogitava em ir ao Rio Comprido. Na irmã, sim; na irmã pensava elle, ora relendo as páginas de sua predilecção, ora mandando saber se dormia socegada, ora contemplando o desenho com que ella o presenteára na vespera. Sentia-se tão feliz naquella aurora do anno!

Pouco antes do jantar ouviu no corredor um rumor de saias, e não tardou que a irmã apparecesse á porta. Vinha como fôra; mas a Estacio pareceu que effectivamente o descanço e o somno lhe haviam restaurado as fôrças. A razão era o sorriso estudado que lhe avivava o rosto. Helena parou e Estacio foi ter com ella, travou-lhe da mão, fel-a entrar.

—Estás melhor? perguntou.

—Estou boa.

—Não dizia eu que era melhor desistir da ideia da reunião? Éstas festas prolongam-se, e fatigaram, sobretudo as pessoas franzinas...

Helena ergueu os hombros.

—Anda sentar-te um pouco.

—Primeiro hade responder-me a uma cousa.

—Que é?

—Que dia é hoje? perguntou ella.

—Anno bom.

—Lembra-se do que me prometteu?

—Perfeitamente. Ves estes papeis? disse elle mostrando sôbre a secretária uma porção de papeis classificados e postos por ordem. Occupei-me até agora em liquidar o passado; faltam-me umas últimas contas, que o procurador hade trazer amanhã. Depois, irei...

Helena abanou a cabeça com ar de desaprovação.

—Não, disse ella; não hade ir depois, hade ir hoje mesmo. Que tem as contas com a autorisação que deve pedir a Eugenia? Va logo de noite. Sou supersticiosa; creio que o pedido feito no dia de hoje é de excellente agouro. Dará um anno feliz.

—Minha intenção era ir dentro de quatro ou cinco dias, respondeu Estacio depois de silêncio; mas não tenho dúvida em fazel-o ja. Uma vez preenchida a formalidade.

—Pedil-a-ha immediatamente ao pae.

—Não!

—Porque?

—Porque precisarei meditar ainda vinte e quatro horas, pelo menos. Vinte e quatro horas não é muito para quem tem de amarrar-se eternamente. Quero sondar meu proprio espirito, e...

—Mas tudo isso é uma estravagancia! interrompeu Helena sentando-se na borda da rede em que Estacio costumava ler. Pretenderá voce recuar depois de lhe falar a ella?

—Oh! não! Mas uma vez que caminho para solução tão grave, não ha inconveniente em ir pe ante pe. Admiras-te? perguntou elle vendo que a irmã fazia um gesto de impaciencia.

—Zango-me.

—Mas...

—Voce é insupportavel. Falta ao que prometteu.

—Ja disse que hei de cumprir.

—Não recuará?

—Não.

—Irá pedil-a hoje mesmo?

—A ella.

—A ella e ao pae.

—Ao pae escreverei uma carta.

—Pois seja uma carta! Contanto que acabe com isso. O casamento será...

—Quando convier ao Dr. Camargo.

—Antes do fim do mez.

—Tão cedo!

—Dou-lhe mez e meio. Nem uma hora mais! Estou morta por vel-os casados, tanto por voce como por ella, coitada! que o ama tanto...

—Cres? perguntou vivamente Estacio.

—Se creio! Posso affirmal-o. Não será amor como voce quizera que fôsse, mas é o amor que ella lhe pode dar, e é muito. Está dito! Palavra?

Estacio estendeu silenciosamente a mão, que Helena apertou.

—Vou confiar todo o meu destino á cabeça mais leve do universo, disse Estacio com os olhos fitos no chão. Não é de seu coração que me queixo; mas de seu espirito, que nunca deixou as roupas da infancia. Demais, á medida que me approximo da hora solemne, sinto que me repugna o estado conjugal. É tão boa a minha vida de solteiro! tão cheios os meus dias...

Helena tapou-lhe a boca com uma das mãos; com a outra fez-lhe um gesto para que se calasse. Depois, fugiu. Uma vez só, Estacio reflectiu longamente na situação em que se achava; reconheceu que estava moralmente obrigado a pedir Eugenia, desde que seus corações se tinham aberto um para o outro, celebrando um contracto, que elle só não podia romper. A consciencia rebellou-se contra as resoluções do coração, e a decisão foi curta.

Naquella mesma noite, ouviu Eugenia a esperada palavra. A alegria que se lhe derramou nos olhos foi immensa e caracteristica. Um pouco mais de recato não era descabido em tal occasião. Não houve nenhum; seu primeiro acto de mulher foi uma meninice. Eugenia ignorava tudo, até a dissimulação de seu sexo. Concedendo a mão a Estacio, não era uma castellã que entregava o premio, mas um cavalleiro que o recebia com alvorôço e submissão.

Transposto o Rubicon, não havia mais que caminhar direito á cidade eterna do matrimonio. Estacio escreveu no dia seguinte uma carta ao Dr. Camargo pedindo-lhe a mão de Eugenia, carta sêcca e digna, como as circumstâncias a pediam. Antes de a remetter, mostrou-a a Helena, que recusou lel-a. Não a leu, nem lhe pegou. Elle teve-a alguns instantes na mão, sem atrever-se a dal-a ao escravo que esperava por ella. Por fim, deitou-a sôbre a secretária.

—Amanhã, disse elle sorrindo para Helena.

Helena lançou mão da carta e deu-a ao escravo.

—Leva á casa do Sr. Dr. Camargo, ordenou a moça. Não tem resposta.




CAPITULO XIV


Camargo ia sentar-se á mesa quando lhe entregaram a carta de Estacio; leu-a pura si, mas a filha leu-a nos olhos delle. Uma aura de bemaventurança desrugou a fronte do médico; seus labios,—cousa pasmosa!— abriram-se n'um sorriso perenne e franco, sorriso que uma vez chegou a desabrochar em gargalhada, a primeira que D. Thomasia lhe ouviu. Acabado o jantar, Camargo deu conta do pedido á mulher, e os dous paes chamaram a filha á sala. Eugenia ouviu a notícia sem baixar os olhos nem corar. Interrogada, respondeu que era muito do seu gosto o casamento.

—Sim? perguntou Camargo simulando um espanto que não sentia.

Eugenia fez uma leve inclinação de cabeça, com certo ar de quem dizia não acreditar no espanto do pae. Este pegou nas mãos da filha e puxou-a para si.

—Assim, pois, meu anjo,—disse elle,—casas-te por tua livre vontade? Estacio é o eleito de teu coração? Louvo a escolha, que não podia ser mais digna. Serás herdeira das virtudes de tua mãe, que te proponho como o melhor modelo da terra.

—O mais consciencioso pelo menos, acudiu D. Thomasia satisfeita e vaidosa do louvor do marido. Ha de ser boa espôsa, modesta, solicita, e economica.

—Economica, sem avareza,—emendou Camargo. A riqueza não deve ser dissipada; mas é certo que impõe obrigações imprescindiveis, e seria da maior inconveniencia viver a gente abaixo de seus meios. Não farás isso, nem cahirás no extremo opposto; procura um meio termo, que é a posição do bom senso. Nem dissipada, nem miseravel.

D. Thomasia concordou com ésta explicação do marido, em quanto Eugenia, olhando alternadamente para um e outro, parecia não lhes dar a minima attenção. Seu pensamento estava em Andarahy; ella viaja na imaginação, a cerimonia do consorcio, as carruagens, o apuro do noivo, a sua propria graça, a coroa de flores de larangeira, que a havia de adornar, emfim talhava ja o vestido branco e pregava as rendas de Malines com que havia de levar os olhos a ambas as metades do genero humano. Daquelle sonho foi despertada pelo pae, que lhe imprimiu na testa o seu segundo beijo, o primeiro, como o leitor se hade lembrar, foi dado na noite da morte do conselheiro. O terceiro seria provavelmente no dia em que ella casasse.

—Sabes que te amo, Eugenia? disse Camargo olhando para ella.

—Papae!

Camargo não pôde dizer mais nada. Seu amor, um instante expansivo, volveu a aninhar-se no fundo do coração, onde sempre estiveram. A satisfação do médico precisava do silêncio e do recolhimento para saborear-se. Foi então que Eugenia passou ás mãos de D. Thomasia. A mulher do Dr. Camargo via aquelle casamento com olhos differentes do marido. O que ella sobretudo viu eram as vantagens moraes da filha. Sentou-a ao pe de si e recitou-lhe um catecismo de deveres e costumes, que Eugenia interrompia de quando em quando, com exclamações de obediencia filial:

—Sim, mamãe!... Deixe estar!... Mamãe hade ver!...

D. Thomasia sentia-se feliz. Seu rosto, cuja expressão era vulgar, tinha naquella occasião alguma cousa que o tornava sublime. Ella fez com que a filha se lhe sentasse ao collo; e ésta, sentindo que a molestava, deixou-se lentamente cahir de joelhos, ficando entre os della, a olhar para ella.

Camargo, entretanto, ja não era daquelle mundo. Passeava de um para outro lado, com as mãos para traz, a morder a ponta do bigode. De quando em quando parava e olhava para o grupo das duas senhoras, mas era só machinalmente; seu olhar baço indicava que elle ia mergulhado em profundas cogitações.

Naquelle homem sceptico, moderado e taciturno, havia uma paixão verdadeira, exclusiva e ardente: era a filha. Camargo adorava Eugenia: era a sua religião. Concentrára esforços e pensamentos em fazel-a feliz, e para o alcançar não duvidaria empregar, se necessario fôsse, a violencia, a perfidia e a dissimulação. Nem antes nem depois sentira egual sentimento; não amou a mulher; casou por que o matrimonio é uma condição de gravidade. O maior amigo que teve foi o conselheiro Valle; mas essa mesma amizade que o ligára ao pae de Estacio nunca recebêra a contra-prova do sacrificio; alias appareceria em toda a sinceridade a natureza do médico. Elle só conhecia os affectos por assim dizer caseiros e inertes, os que não sabem nem podem afrontar as intemperies da vida. Nas relações moraes dos homens possuia somente o trôco miudo da polidez; a moeda de ouro dos grandes affectos nunca lhe entrára nas arcas do coração. Um só existia alli: o amor de Eugenia.

Mas esse mesmo amor, alias violento, escravo e cego, era uma maneira que o pae tinha de amar-se a si proprio. Entrava naquillo uma somma larga de fatuidade. Menos graciosa, Eugenia seria talvez menos amada. Elle contemplava a com o mesmo orgulho, com que o joalheiro admira o aderêço que lhe sahiu das mãos. Era a ternura do egoista: amava-se na propria obra. Caprichosa, rebelde, superficial. Eugenia não teve a fortuna de ver emendados seus defeitos, antes fui a educação que lh'os deu. Dos labios de Camargo nunca sahiu a expressão correctiva; nenhum de seus actos revellou esse procedimento vigilante e director, que é a nobre attribuição da paternidade. Se a indole da filha fosse ma, a complicidade do pae fal-a-hia pessima.

Não era felizmente; seu coração conhecia as doçuras da bondade; sua rebeldia era um hábito, não um vicio nativo. A propria frivolidade foi-lhe desenvolvida pela educação, nada podendo o zelo da mãe contra as complacencias do pae. Ésta era a explicação tambem da fascinação que exercia nella o tumulto exterior da vida. Quasi se póde dizer que ella não conhecêra o vestido curto: a modista a desmamou; uma contradança foi a sua primeira communhão.

Não era facil dar a Eugenia a felicidade que o pae ambicionava e a que mais lhe apetecia a ella. Posto não fosse perdulario, eram poucos os haveres do médico, de modo que á filha não podia caber peculio sufficiente a satisfazer todas as velleidades. Elle espreitou durante longo tempo um noivo, armando com algum dispendio a gaiola em que o passaro devia cahir. No dia em que percebeu a inclinação de Estacio, fez quanto pode para prendel-o de vez. Esperou muitos mezes a iniciativa de Estacio; e quando ella lhe entrou a fugir para a região das cousas problematicas, suspeitou a influência de Helena. Ja era muito que ésta moça diminuisse a herança do futuro genro; arrancar-lhe o genro era de mais. Camargo não hesitou um instante; foi direito ao fim. O resultado confirmou-lhe a suspeita.

O casamento era muito, mas não bastava. Camargo cuidára na carreira política de Estacio, como um meio de dar certo relevo público ao marido da filha, e, por um effeito retroactivo, a elle proprio, cuja vida fora tanto ou quanto obscura. Se o marido de Eugenia se confinasse no repouso doméstico, entre a horta e a algebra, a ambição de Camargo padeceria immenso. Vimol-o apresentar a Estacio a maçan política; recusada a princípio, foi-lhe de novo apresentada, e finalmente acceita com a noiva. Ésta dupla victória foi o momento maximo da vida do médico. Elle ouvia ja o rumor público; sentia-se maior,—ante-gostava as delícias da notoriedade;—via-se como que sogro do Estacio e pae das instituições.

—Vou entrar na cova dos leões, sem a convicção de Daniel,—suspirou Estacio na occasião em que cedeu ás instancias de Camargo.

—Seu talento amansará os leões,—acudiu este.

Assentou-se logo alli que o casamento seria celebrado na primeira semana de março. Os dous mezes de intervallo foram destinados ás formalidades ecclesiasticas e ao preparo do enxoval. Estacio aceitou tudo sem objecção. D. Ursula e Helena approvaram o plano. A primeira accrescentou uma clausula:—os noivos viriam morar com ellas em Andarahy.

O padre Melchior, consultado sôbre o casamento, deu-lhe inteira approvação, e só lhe pareceu que o prazo era longo de mais. A effusão com que abraçou Estacio, as palavras de applauso que lhe disse impressionaram vivamente o mancebo.

—Desejava muito este casamento? perguntou elle.

—Muito! Seu pae ha de approval-o no ceu!

Até os mortos conspiravam contra elle; Estacio aceitou resolutamente seu destino. A alegria do padre, ordinariamente contida e digna, transpoz os limites do costume, para se mostrar quasi infantil; D. Ursula não cabia em si do contente; Helena parecia colhêr naquelle casamento a sua propria felicidade. Era a bemaventurança universal que Estacio ia comprar a trôco de um vínculo eterno.

Surgiu, entretanto, um obstaculo temporario. A madrinha de Eugenia, a fazendeira que lhe mandara um dia a opala, que a moça admirou namorando ao mesmo tempo os olhos do futuro noivo, a madrinha de Eugenia adoeceu gravemente, menos ainda da molestia que a accommetteu que dos annos que lhe pesavam nos hombros. Era senhora rica, viuva, flanqueada por duas sobrinhas solteiras, uma cunhada, um primo, dous filhos destes e uma vintena de afilhados. Ja daqui se póde inferir a estreiteza das esperanças de Camargo. Posto que elle não tivesse nunca preterido os deveres que lhe impunha o vínculo espiritual, dando á fazendeira todas as provas possiveis de um grande affecto, ainda assim era de recear que a ultima vontade da moribunda não trouxesse o cunho da estricta justiça, ou, quando menos, de razoavel equidade. Nestas circumstâncias, a viagem a Cantagallo era urgentissima, e cumpria realizal-a á custa dos maiores incommodos. Todo o incommodo é aprazivel quando termina em legado. Camargo não perdia a esperança desse desenlace egualmente affectuoso e pecuniario. Resolveu ir com a familia toda, e avisou por carta ao futuro genro.

Estacio estimou o obstaculo, mas não contou com o que elle trazia no bojo. Chegando ao Rio Comprido achou afflictos o médico e D. Thomasia; Eugenia recusava sair da Corte. Em vão lhe mostravam a conveniencia de corresponder, em occasião tão grave, á affeição da madrinha; debalde lhe diziam que era ser ingrata não ir recolher o último suspiro da veneravel senhora, sua mãe espiritual. Eugenia recusava a pes junctos.

Assistiu o noivo á ultima phase da lucta entre os paes e a filha. Ésta trazia os olhos vermelhos de chorar; batia com as mãos uma na outra, declarando que só iria á fôrça. Estacio procurou chamal-a á razão, apoiando as reflexões do pae, sem alcançar mais do que elle. Emfim, Eugenia poz uma condição á sua acquiescencia:

—Irei, se o Dr. Estacio fôr comnosco.

Camargo approvou a condição in petto; verbalmente, oppoz-se ao sacrificio. Estacio enfiára; posto entre a espada e a parede, ja a viagem de Eugenia lhe parecia superflua.

—Acompanha-nos? insistiu a moça,

—Não é possivel, acudiu o médico; tamanho incommodo por um simples capricho.

—Pois então não vou!

D. Thomasia ficou um tanto vexada com a teima de Eugenia. Estacio mordia o labio, olhando para a moça, cujo rosto o interrogava instantemente. Venceu-o o decoro; considerando Eugenia sua mulher, quiz cortar por uma scena que lhe parecia ridicula.

—Acompanhal-os-hei,—disse elle sem enthusiasmo.

A solução era favoravel a todos: os tres aceitaram de boa feição. Marcou-se a viagem para dous dias depois. D. Ursula, apezar dos bons olhos com que via o casamento, achou desnecessaria a ida do sobrinho, mas não emprehendeu dissuadil-o. Helena approvou tudo. Elle fez sentir ás duas parentes a extensão do sacrificio, e esteve a ponto de retirar a palavra. Era tarde. A ultima noite passada em Andarahy foi cruel para elle; as horas voaram ligeiras como nunca. Como devia sahir no dia seguinte, logo cedo, alli mesmo se despediu da tia e da irmã, despedida de alguns dias que lhe custou como si fôra de annos. Prometteu, entretanto, que o regresso seria breve.

O que elle não podia prometter era conjurar o drama que se lhes preparava, drama que ia em fim devolver-se, intenso, funesto e irremediavel,—do qual não o consolariam jamais nem as doçuras da paz doméstica, nem as glórias da vida pública.




CAPITULO XV


Estacio levantou-se ao amanhecer. Uma vez prompto, quiz sorprehender a tia e a irmã com uma lembrança sua, e escreveu n'uma folha de papel éstas simples palavras: «Até á volta; 6 horas da manha.» Dobrou-a e foi pol-a sôbre a mesa de costura de D. Ursula. Dalli passou á sala de jantar, depois á varanda. Aqui chegando deu com os olhos em Helena, que o esperava ao pe da escada.

—Silêncio! disse graciosamente a moça. Não faça espantos que póde accordar titia. Vim saber se voce precisa de alguma cousa.

—De nada, respondeu Estacio commovido. Mas que imprudencia foi essa de se levantar tão cedo?

—Cedo! O sol não tarda comprimentar-nos. Adeus! muitas recommendações a Eugenia. Não lhe falta nada, não é?

—Nada.

Estacio recebeu a mão que Helena lhe estendêra e ficou a olhar para ella.

—Olhe que é tarde!

Dizendo isto, Helena apertou-lhe a mão e procurou retirar a sua; Estacio reteve-a.

—Se soubesses como me custa ir!

—São apenas alguns dias...

—Valem por mezes, Helena! Adeus, não te esqueças de mim. Escreve-me; eu escreverei logo que chegar. Não faças imprudencias; não saias a passeio em quanto eu estiver ausente.

—Adeus!

—Adeus!

Estacio quiz dar-lhe o abraço da despedida; mas a moça, menos ainda com a palavra que com o gesto, fel-o recuar.

—Não, disse ella affastando-se; as despedidas mais longas são as mais difficeis de supportar.

Recuou até á porta da sala de jantar, fez um gesto de despedida e entrou. Estacio desceu a custo as escadas. Helena viu-o descer e sahir; depois subiu cautellosamente ao seu aposento. Alli sentou-se alguns minutos, pensativa e triste. Ergueu-se enfim, vestiu rapidamente as roupas de montar; collocou o chapellinho preto sôbre os cabellos penteados á ligeira, e desceu. Na chacara esperava-a Vicente, com a egua ajaezada e prompta. Helena montou sem demora; o pagem cavalgou uma das duas mulas que havia na cavallariça e os dous sahiram a trote na direcção da casa do alpendre e da bandeira azul.

A casa estava ainda silenciosa; porta e janellas conservavam-se hermeticamente fechadas. Helena apeou-se e bateu de mansinho; repetiu as pancadas progressivamente mais fortes. Ninguem lhe respondeu. Helena impaciente rodeou a casa; mas parece que achou egualmente fechadas as portas do fundo, por que volveu logo. Collou o ouvido á porta e esperou. Quando lhe pareceu que era baldado o esfôrço, tirou da algibeira um lapis e um pedacinho de papel; collocou o pe no degrau de tijolo e sôbre o joelho escreveu algumas palavras; dobrou depois o papel e introduziu-o por baixo da porta. Esperou ainda alguns minutos, caminhou para a egua, montou e regressou a casa.

Vinha triste e pensativa. A egua, a passo vagaroso, não sentia o esfôrço da cavalleira, que a deixava ir, frouxa a redea, inutil o chicote. O pagem levava os olhos na moça com um ar de adoração visivel; mas, ao mesmo tempo, com a liberdade que dá a confiança e a complicidade, fumava um grosso charuto havanez, tirado ás caixas do senhor.

D. Ursula não estava ainda levantada; mas Helena não lhe occultou o passeio. O dia correu triste e solitario, como os seguintes, sem embargo da companhia que iam fazer ás duas senhoras as pessoas mais íntimas. Mendonça, a quem Estacio as recommendára, era alli pontual; seu espirito conseguia disfarçar um pouco as saudades do moço ausente. O padre Melchior prolongava suas visitas quotidianas; um mesmo sentimento ligava a todas as pessoas.

O mesmo era, e não unico, por que outro e mais egoista e pessoal veiu alli viçar tambem. Mendonça sentiu que metade de seu destino estava acabada, e que a outra metade ia começar, mais circunspecta que a primeira. O relogio em que elle viu bater essa hora fatidica foram os olhos, de Helena. Mendonça começava a amar, Estouvado, e não corrupto, atravessára o delirio dos primeiros annos sem perder a flor dos castos affectos, sem sequer a haver colhido. Helena sentiu nascer e crescer essa adoração silenciosa, sem parecer que a descobrira. Não animou o mancebo nem o repelliu; redobrou de confiança,—dessa confiança, que só se dá aos simples familiares, e que mostra claramente a um namorado a inanidade de suas esperanças. Ao parecer de extranhos, a situação affigurava-se de perfeita concordia. O coronel-major piscou um dia os olhos ao Dr. Mattos; o Dr. Mattos proferiu um—latet anguis in herba—e ambos foram repartir o pão das conjecturas com a espôsa do advogado, senhora muito perspicaz nos namoros de salão. A opinião dos tres é que o casamento era cousa provavel e talvez certa. Um só obstaculo podia haver; eram os escrupulos do pae de Mendonça. Esse mesmo obstaculo não existia, por quanto, além das qualidades estimaveis da moça, havia o reconhecimento legal e social, público e doméstico; accrescendo (observação do Dr. Mattos) que duzentas e tantas apolices mereciam um comprimento de chapeu e não davam logar a cinco minutos de reflexão.

As primeiras cartas de Estacio chegaram uma tarde, em que as duas senhoras e Mendonça se achavam na varanda, acabado o jantar, bebendo as últimas gotas de cafe. D. Ursula, depois de pôr em actividade tres mucamas para lhe irem procurar os oculos, levantou-se e foi ella propria á cata delles, coma sua carta na mão. Helena ficou com a que lhe era dirigida estava sentada juncto a uma das janellas; abriu-a e leu-a para si:


ESTACIO A HELENA.

«Quando ésta carta te chegar ás mãos estarei morto, morto de saudades de minha tia e de ti. Nasci para os meus, para a minha casa, os meus livros, os meus habitos de todos os dias. Nunca o senti tanto como agora, que estou longe do que ha mais caro neste mundo. Poucos dias la vão, e ja me parecem mezes. Que seria se a separação não fosse tão limitada?

«Na carta que escrevo a ti tia dou conta de nossa viagem e da saúde de todos. D. Clara está, na verdade, á beira da morte; mas pode durar ainda alguns dias, e o Dr. Camargo resolveu esperar até dar-lhe os ultimos adeuses. A recepção que nos fez a familia foi cordialissima. Ha aqui uma cunhada da enfêrma, um primo, tres sobrinhos, outros parentes e varios afilhados. O primo é commendador e tenente-coronel; elle e os outros são a gente mais affavel do mundo. Os homens da familia são influências eleitoraes; quando souberam da minha candidatura, offereceram-me logo os seus serviços, com a clausula unica de que haja prévia recommendação do Rio do Janeiro. Agradeci o favor, com muita abundancia d'alma porque a tal candidatura, que não me seduzia nem seduz, não ha remedio se não cuidar della, de modo que o meu nome não padeça, a injúria da derrota. Que te parece ésta pontasinha de vaidade?

«Mudemos de assumpto, que este me afflige, e não quero philosofar sem ti, que es a minha companheira nestas vadiações de espirito. Ahi não te lembrarás, talvez, das nossas palestras; aqui lembra-me tudo. De manhã, dou o meu passeio equestre, como la; mas que differença! Quem vae a meu lado é o tenente-coronel, excellente homem, coração de pomba, com o defeito unico e enorme de se não chamar D. Helena do Valle, a minha boa Helena, que la está na Côrte a divertir-se sem seu irmão. Elle fala de tudo e muito: do cafe, do governo, das eleições, dos escravos, dos impostos. Eu ouço-o, que é o menos que posso fazer, e deixo-o ir sem interrupção. Ás vezes, como que desconfiado, recolhe-se ao silêncio; eu ato o fio da conversa e elle encarrega-se de desenrolar o novello. Tão pouca cousa o faz feliz! Já cacei uma vez; confesso-te que é o que me pode distrahir um pouco. Pensava ter perdido o costume; mas não perdi. A modestia impede-me dizer mais.

«A fazenda é vasta e a casa excellente. Não te direi que gósto da vida agricola; não gósto, não me dou com ella. Mas viver num recanto como este, a dous passos do mato, a tantas legoas da rua do Ouvidor, isso creio que se dá com a minha indole. Consultaremos titia. Eu não sei o que é amar o tumulto exterior; acho que é dispersar a alma e crestar a flor dos sentimentos. Nasci para monge... e creio que tambem para despota, porque estou a planear uma vida ignorada e deserta, sem consultar tuas preferencias. Sou um Cromwell com tendencias de frade; ou, por dizer tudo n'uma só palavra: sou um Lutero... muito inferior.

«Pobre Helena! Ja la vão quatro páginas só a falar de mim. Vejamos ó que tens feito. Andas muito triste? passeas? lês? jogas? tocas? Conta-me a tua vida o mais miudamente que puderes; conta-me a vida de todos. Não me escondas nada; se, por exemplo, ao abrir um livro ou tocar uma tecla do piano, pensares em mim, escreve isso mesmo, marcando o dia e até a hora, se puder ser. E depois dou-te o direito de perguntar onde ficou a minha gravidade, e responderei que ha uma puerilidade séria, e que os extremos tocam-se. Quando assim não seja, a culpa é do ceu, que me não deu uma irmã creança; agora é preciso que comecemos pela primeira phase da vida.

«Deixei muito recommendado ao Mendonça que fôsse a nossa casa com frequencia. Não sei se elle se terá lembrado e cumprido a promessa que me fez. Se não tiver cumprido, has de mandar-lhe dizer que eu o detesto e abomino, que elle é o maior traidor que o ceu cobre; que tudo fica acabado entre mim e elle; que a amizade é um culto, etc. Dize o que te parecer e pelo modo que te é usual.

«Lembro-me de ti a proposito de tudo. Hoje de tarde, por exemplo, o terreiro offerecia ura aspecto bonito e caracteristico. Se ella estivesse aqui, disse commigo, faria um magnifico desenho. Peguei de um lapis que trouxe, meia folha de papel, e quiz reproduzir o panorama. Escrevi um problema algebrico! Foi um conselho que me deu o lapis: ninguem se metta a fazer aquillo que ignora. Eu ignorava o que era estar ausente da familia; por que motivo me determinei a tental-o?

«Interrompi ésta carta para receber o Dr. Froes, que é o médico de D. Clara; veiu ao meu quarto para me dizer que o estado da doente é perdido; que a morte é certa; mas que a vida póde prolongar-se ainda por muitos dias. Ve que perspectiva! Estou com raiva de mim mesmo; esses ultimos dias da enfêrma pesam sôbre mim como se fôra o punho fechado do destino. Se a morte é certa, por que viver alguns dias mais? E é vida isso, ou é morrer aos goles, sem consciencia do que se perde nem do que se vae ganhar?

«Está decidido; posso ir daqui a seis dias ou daqui a um mez. Sera o que Deus quizer. Manda-me, entretanto, alguns livros. No meu quarto só achei um Manual de medicina prática. Manda-me alguma cousa que me faça lembrar Andarahy. Tira da estante oito ou dez volumes, á tua escolha. Manda tambem algum trabalho de agulha teu; quero mostral-o á cunhada de D. Clara, a quem gabei muito os teus talentos. Se puderes desenhar alguma cousa, á pressa, o tanque, a varanda, ou qualquer outro logar, faze-o, e manda com o resto. Escreve-me longamente; conta-me tudo o que houver interessante; fala-me de ti, que é o meio de consolar minhas saudades, que são immensas, immensas como este amor que tenho a minha familia toda. Vou fazer por voltar breve. Adeus, minha boa Helena; adeus, minha vida, adeus, ó mais bella e doce de todas as irmãs!

«P.S. Reli a carta, e fiquei envergonhado do trecho a respeito da vida da doente. Perdoa-me a ferocidade, e leva-a em conta da solidão.»




CAPITULO XVI


Helena leu e releu a carta. Depois ficou silenciosa a olhar para as folhas da trepadeira, que do lado de fóra viera a subir pela muralha da varanda, e a debruçar-se emfim do parapeito para dentro. A carta ficára aberta sôbre os joelhos da moça. Mendonça, a poucos passos, olhava para ésta, sem ousar falar-lhe.

Goethe escreveu um dia que a linha vertical é a lei da intelligencia humana. Póde dizer-se, do mesmo modo, que a linha curva é a lei da graça feminil. Mendonça o sentiu contemplando o busto de Helena e a casta ondulação da espadua e do seio, cobertos pela caça fina do vestido. A moça estava um pouco inclinada. Do logar em que ficava, Mendonça via-lhe o perfil correcto e pensativo, a curva molle do braço, e a ponta indiscreta e curiosa do sapatinho raso que ella trazia. A attitude convinha á belleza melancholica de Helena. O rapaz olhava para ella sem movimento nem voz.

A tarde expirava; a côr verde do morro fronteiro ia tomando o aspecto cinzento-escuro que precede a côr fechada da noite. A propria noite desceu; e um escravo entrou na varanda, a accender as duas lampadas que pendiam do tecto. Ésta circumstância accordou a moça, e bastou-lhe voltar um pouco a cabeça para ver o amigo de Estacio a alguns passos de distância.

—Estava ahi? perguntou Helena estremecendo.

—D. Ursula não voltou, respondeu Mendonça com timidez; não quiz interromper a leitura que a senhora fazia.

—A leitura? A leitura acabou ha muito tempo.

—Mas tambem se lê com o espirito.

Helena lançou-lhe um olhar suspeitoso.

—Não sei ler de cór, disse ella, erguendo-se e sahindo da varanda.

Mendonça ficou aturdido. Que lhe dissera elle tão grave que a pudesse offender? Repetiu suas proprias palavras e não lhes achou sentido mau. Certo, porém, de que a molestára, alli ficou aborrecido de si mesmo, desejoso de lhe explicar tudo, se alguma cousa houvesse explicavel. Apos alguns instantes, resolveu entrar tambem. Entrou; Helena não estava nem na sala de jantar, nem na do jogo, onde achou D. Ursula com o Dr. Mattos e o coronel-major. Dalli passou á sala de visitas. Helena não o viu entrar; estava mergulhada n'uma poltrona com a cabeça nas mãos. Commovido, deteve-se alguns instantes a contemplal-a; depois caminhou para ella e falou-lhe.

Helena ergueu a cabeça.

—Perdõe-me, disse elle, se alguma cousa lhe disse que a magoou. Confesso que não sei o que poderia haver em minhas palavras. Ficou triste por isso?

A moca cravou nelle um olhar ainda suspeitoso, e não lhe respondeu logo. Mendonça adoptou o melhor dos alvitres naquella occasião; inclinou-se e recuou para sahir. Helena chamou-o; elle approximou-se outra vez, com um ar de tão doce resignação, que lisonjearia o mais levantado orgulho. Helena estendeu-lhe a mão; elle apertou-a e teve impetos de a beijar uma e muitas vezes, triumphando naquelle unico instante da hesitação de todos os dias; faltou-lhe resolução. Helena mostrou-lhe o trecho da carta em que Estacio se referia a elle; falaram dos ausentes e dos presentes, de todos e de tudo, menos do assumpto que exclusivamente preoccupava o moço. Elle sahiu dalli sem ter dito nada de seu coração. Chegando á rua achou-se poltrão e ridiculo, disse mil nomes feios a si proprio; emfim, prometteu declarar tudo a Helena no dia seguinte.

No dia seguinte, que era domingo, Helena dirigiu-se á capella a ouvir a missa do padre Melchior. Acabada a cerimonia, não seguiu para casa, com D. Ursula, mas foi ter á sacristia, onde o padre acabava de tirar os paramentos. Melchior, logo que soubera da carta de Estacio, nessa manha, pedira a Helena que lh'a deixasse ver.

—Falam sempre ao coração as lettras dos amigos, dissera elle.

Helena deu-lhe a carta, que o padre recebeu com uma expressão antes de curiosidade que de affecto. Leu-a vagarosamente, como escrutando o sentido e as palavras; e sendo longa a epistola, longo foi o tempo que elle despendeu em a interpretar. Durante esse tempo, Helena admirava-lhe a figura austera, a serenidade religiosa, que é a coroa mystica do verdadeiro ecclesiastico. A sacristia era pequena; duas altas janellas deixavam entrar a luz, o ar e o aroma das folhas e das flôres da chacara. Entre a cimalha e o telhado algumas andorinhas haviam fabricado os ninhos, donde sabiam, como pensamentos de juventude, a adejar ao sol da manha. Ao pe daquelle quadro exterior de alegria e verdura, a sacristia tinha certo ar melancholico e severo, que lançava n'alma o esquecimento das vicissitudes humanas. Helena deixou-se captivar desse sentimento de abstenção e elevação; se alguma dor ou remorso a pungia, esqueceu-os, por um minuto ao menos, entra aquellas paredes desataviadas, deante de um padre, entre uma imagem de Jesus e as obras vivas do Creador.

Lida a carta, Melchior dobrou-a com ar pensativo; depois entregou-a á moça.

—Ja respondeu? perguntou elle.

—Ja; trouxe-lhe a carta que vou mandar hoje mesmo.

Melchior abriu-a e leu; não gastou menos tempo, ainda que era de menores dimensões. O estylo era affectuoso, mas muito menos exhuberante que o da carta de Estacio. Ella contava-lhe, em suas feições geraes, a vida que alli passavam, desde que elle partira, as occupações de cada dia e as distrações da noite.

«Vivemos, dizia a moça, como podem viver duas creaturas que sabem a affeição que lhes tem um parente amigo, ausente embora, mas não esquecido,—nem ingrato. O padre Melchior, algum dos visinhos, e o Dr. Mendonça são as nossas visitas habituaes. Voce sabe o que vale o padre; é a mais bella alma que Deus mandou ao mundo. Os risinhos são affaveis, como sempre. O Dr. Mendonça é verdadeiramente digno da nossa affeição e confiança. Disse-lhe o que voce me escreveu; elle riu, como homem seguro de escapar á punição.

«Pena é que voce tenha de se demorar ahi tanto tempo; mas, se alguma esperança pode haver de salvar a doente, damo-nos por bem pagas da demora. É verdade que voce não é médico; mas ha ahi outra doente, para quem é, não só médico, mas até toda a medicina. Porque razão me não escreveu Eugenia? Eu não cuidei que essa amiga me esquecesse na vespera de ser rainha cunhada. Se estivessemos mais perto ia puxar-lhe as orelhas. Diga-lhe isto; e se tiver occasião de emprestar-me os seus dedos, applique-lhe o castigo, declarando-lhe o delicto commettido e o juiz que a sentenciou.

«O que voce diz da vida solitaria é muito justo, mas impraticavel. Os amigos não nos iriam ver; e poderiamos nós dispensal-os? Tal é a opinião de titia e a minha. O melhor de tudo é este meio termo de Andarahy; nem estamos fóra do mundo, nem, no meio delle. O ruido externo pode ter os effeitos de que voce fala; mas elle é ás vezes preciso para aturdir e distrahir o espirito. Tambem a solidão tem suas dores, e fundas: tambem ella abala o coração. Nem um extrema nem outro.»

A carta continha alguns periodos mais, não muitos; tres ou quatro vezes falava em Eugenia, com tamanha insistencia que punha em relevo o silêncio a tal respeito conservado por Estacio; falava-lhe da belleza da noiva, do casamento proximo, do amor que os faria felizes, e da ventura que ambos dariam a todos os seus.

Quando o padre acabou de ler a resposta; abriu os braços a Helena; depois abrangeu com as mãos a cabeça da moça e contemplou-a durante alguns segundos.

—Toda a sua alma está nesse escripto, disse elle; vejo ahi a reflexão e o affecto. Tanto melhor! Ha comtudo uma lacuna: não transmitte a seu irmão as minhas saudades; mas ha tambem uma excrescencia: louva meritos que não possuo. Embora! Mande-a...

—Escreverei duas linhas mais.

—Pois sim. Diga-lhe que se apresse porque estou velho e posso morrer antes.

—Oh! protestou Helena.

Melchior olhou para ella silenciosamente.

—Cre que Estacio seja feliz? perguntou elle emfim.

—Creio.

—Tambem eu.

Outro silêncio. O primeiro que o rompeu foi o padre.

—Por que se não casa tambem? disse elle.

—Eu?

—De certo. Póde ser que muito breve, talvez...

—Talvez, nunca.

Melchior franziu a testa; sua physionomia, de ordinario meiga, tornou-se severa, como a consciencia delle. O padre tinha uma das mãos de Helena entre as suas; deixou-a insensivelmente cair. Entre os dous estabeleceu-se um silêncio que os acabrunhava e que não ousavam romper; como subjugados por um mysterio, receiava cada um delles que o outro lh'o lesse na fronte; instinctivamente desviaram os olhos.

Melchior foi o primeiro que voltou a si. A reflexão corrigiu a expontaneidade; e o padre reassumiu o gesto usual, com essa dissimulação, que é um dever, quando a sinceridade é um perigo.

—Vamos la, disse elle; ninguem póde decidir o que hade fazer amanhã; Deus escreve as páginas do nosso destino; nós não fazemos mais do que transcrevel-as na terra.

—É verdade! confirmou ella com um gesto de cabeça, e sem erguer os olhos.

—Amanhã, continuou o padre, o acaso,—isso que os incredulos chamam acaso, e que é a deliberação da vontade infinita,—lhe apontará um homem digno da senhora; e seu coração lhe dirá; é este; e o suspiro desalentado de hoje converter-se-ha n'um olhar de graças ao ceu. Ora, o que eu lhe peço, o que eu desejo, é que se apresse tanto que eu possa casal-os...

—Oh! mas não vae morrer amanhã, interrompeu Helena.

—Estou velho, minha filha; estes cabellos brancos são ja a neve desse mar polar para onde navegamos todos. Conto sessenta annos. A morte póde colher-me um dia proximo...

—Vamos almoçar, disse Helena sorrindo.

Sahiram da sacristia, atravessaram a capella, e penetraram na chacara. Na occasião em que iam transpor a porta da capella, viram Mendonça entrar em casa. Melchior estacou, e olhou para Helena. Ésta ia como acabrunhada e absorta. O gesto do padre, quando ella lhe declarou que não se casaria talvez nunca, ficára-lhe gravado na memoria, como um enigma, que talvez receiava decifrar. Poucos minutos eram passados; contudo, ella pôde reflectir, e colligir os elementos de uma resolução. Detendo-se, com o padre, á porta da capella, viu tambem entrar Mendonça, Os olhos da moca e do padre interrogaram-se de novo, mas desta vez nenhum delles os desviou.

—Vê aquelle homem? perguntou Helena. Parece-lhe que seria bom marido?

—Excellente, de certo, disse vivamente Melchior; caracter, educação, sentimentos.

—Tem ainda uma virtude particular: ama-me.

—Sei.

—Elle lh'o disse?

—Não, mas ve-se. É sabido de todos os que frequentam ésta casa. A probabilidade do casamento é objecto de commentarios; e a opinião geral é que elle se fara dentro de pouco tempo. Confessou-lhe alguma cousa?

—Nada; mas os olhos da mulher amada não são menos sagazes que os dos padres amigos. Acha que devo confirmar a opinião dos outros?

—Acho; consulte porém seu coração.

—Ja consultei.

—Neste unico instante?

—Nada menos.

—Devéras? disse Melchior derramando um olhar de paternal ternura no rosto serio de Helena.

—Não digo que o ame desde ja; mas a affeição que elle me tem reflectirá em meu coração, e eu virei a amal-o. O que importa saber é que é digno de mim. De todos os que me pretendessem nenhum lhe seria superior.

—Ainda bem! Contudo, repare que vae contrahir uma obrigação perpétua, e que um contracto destes não póde ser deliberado em poucos instantes.

—Oh! nesse ponto a minha ignorancia sabe mais do que a sua theologia. Que são minutos e que são mezes? Paixões de largos annos, chegando ao casamento, acabam muitas vezes pela separação ou pelo odio, quando menos pela indifferença. O amor não é mais que um instrumento de escolha; amar é eleger a creatura que hade ser companheira na vida, não é afiançar a perpétua felicidade de duas pessoas, por que essa póde exvair-se ou corromper-se. Que resta à maior parte dos casamentos, logo apos os annos da paixão? Uma affeição pacifica, a estima, a intimidade. Não peço mais ao casamento, nem lhe posso dar mais do que isso.

—Não gósto de tanta reflexão era tão verde edade, replicou benevolamente Melchior; todavia encanta-me esse raciocinio, que ao cabo de tudo póde ser verdadeiro. Mas não me desdigo; alguns minutos é pouco tempo; reflicta ainda vinte e quatro horas.

—Nem um instante mais, insistiu Helena. Minhas reflexões são lentas ou subitas: ou cinco minutos ou um anno; escolha.

—Pois reflicta cinco minutos, replicou o padre sorrindo.

—Ja la vão quatro; aproveitarei o último para lhe dizer que em nada disto falaria se não fossem as qualidades notaveis desse moço; e para accrescentar que a elle me liga certa sympathia de genios... é talvez a semente do amor.

Tinham chegado ao primeiro degrau da escada da varanda. Subiram e penetraram na sala de jantar, onde acharam D. Ursula e Mendonça, este a percorrer com os olhos um jornal do dia. O almoço serviu-se immediatamente.

—Padre-mestre, disse D. Ursula, demorou-se tanto que cuidei... tivesse ideia de me arrebatar Helena.

—Estive-a ouvindo de confissão, respondeu Melchior.

—E pode absolvel-a?

—De certo.

—Mas com grande penitencia, não?

—A mais facil de todas, acudiu Helena olhando para o padre.

—Oh! então é que os peccados são leves! concluiu D. Ursula. Não lhe parece?

Éstas ultimas palavras foram dirigidas a Mendonça, na occasião em que todos caminhavam para a mesa. Mendonça não disse nada. Seus olhos ousavam apenas resvalar pela moça; contra o costume, elle falava pouco,—menos ainda que na vespera e nos dias anteriores. D. Ursula via a differença, mas não a comprehendia.

—Não quero saber que peccados confessou,—disse ella sentando-se; mas estou certa que o maior delles não levaria ninguem ao purgatorio.

—Veja o que é uma tia indulgente, observou Helena a Mendonça, sentando-se a seu lado.

Preoccupado com a conversa que acabava de ter na sacristia e na chacara, Melchior pouca attenção prestou a principio ao filho do commerciante. Seu espirito analysava as circumstâncias do momento e pesava a responsabilidade que lhe podia vir de qualquer resolução que adoptasse. Apos um longo dialogo com a sua consciencia, o velho sacerdote inclinou os olhos ao mancebo, que lhe ficava defronte, ao lado de Helena. Viu-os conversar com essa familiaridade de bom gôsto, que é a pedra de toque dos costumes polidos. Ella mostrava-se graciosa, solicita e attenta, como uma espôsa amante; elle parecia enamorado da voz e das falas da donzella; como que um clarão interior lhe desvendára à alma os horizontes infinitos da esperança. Familiarisado com Helena, tratado por ella com exquisita attenção, era comtudo a primeira vez que ella lhe falava, não como a um confidente amigo, mas como a um homem que poderia vir a ser seu esposo. Alguma seriedade, um olhar submisso, uma attenção continuada, fizeram essa differença que antes foi sentida pelo coração do que descoberta pelos olhos.

No fim do almôço, Melchior dirigiu-se para a sala de visitas, com Helena. Mendonça acompanhou-os. A resolução do padre estava assentada de raiz; elle acceitava aquelle casamento como um presente do ceu. Apenas entrados ha sala, travou das mãos de um e outro e lhes disse, com voz commovida:

—Promettem não zangar-se commigo?

—Por que? interrogou Mendonça com os olhos.

Helena baixára os seus.

—Promettem?

—Padre-mestre... começou Mendonça sem poder concluir a phrase.

O padre olhou silenciosamente para um e outro. Talvez hesitava falar; talvez buscava o melhor meio de dizer o que tinha no coração. Urgia romper o silêncio; fel-o com solemnidade:

—Serei duas vezes padre: segundo a natureza e segundo o Evangelho. Quando duas creaturas se merecem, é servir a Deus emprestar a voz ao coração que não ousa falar. O senhor ama ésta menina; leio-lhe dos olhos o sentimento que o arrasta para ella; são dignos um do outro. Se é a timidez que lhe fecha os labios, eu sou a voz da verdade e do amor infinito; se outro motivo, serei juiz complacente para escutal-o.

Ouvindo éstas palavras, Mendonça ficou aturdido e mudo. Não só a fortuna lhe chegava ás mãos, quando elle menos esperava, mas até escolhêra um caminho desusado e extranho. A realidade confundia-se alli cora o sonho. A presença de um terceiro era sufficiente motivo para acanhar os mais resolutos; accrescia a veste sacra do sacerdote que dava aquillo um ar de solemnidade e consagração. Mendonça recobrou enfim o uso dos sentidos; sua resposta unica e eloquente, foi estender a mão a Helena, gesto a que a moça correspondeu com simplesa e naturalidade.

—Não se enganaram meus olhos, disse o padre. Ama-a, e póde dar-lhe a felicidade que lhe desejo a ella. Tambem Helena o fara venturoso, não? perguntou elle voltando-se para á moça.

—Mas é isto um sonho? perguntou enfim Mendonça.

—A vida não é outra cousa, retorquiu o capellão; velho pensamento e velha verdade. Façamos por que o sonho seja agradavel e não arido ou triste. Promettem-me que se farão felizes?

—Não ambiciono outra cousa, disse o rapaz; será o meu cuidado e a minha glória.

—Seu amor, continuou Melchior, é mais forte que o de Helena; eu consultei-a antes, e li em seu coração. Elege-o com prazer, embora sem enthusiasmo. Não é a paixão cega que a faz falar é um sentimento brando e singello, por isso mesmo duradouro. A reflexão de um corrigirá a violencia do outro, e os dous sentimentos se completarão pela virtude especial de cada um.

Ésta explicação franca de Melchior teve o condão de ser agradavel aos dous. Helena estimou que elle nem lisonjeasse as illusões de Mendonça, nem a désse como acceitando indifferente e estouvada o casamento proposto. Pela sua parte, Mendonça viu nas palavras do padre um indicio da sinceridade de Helena, e aceitou o pouco offerecido, com a certeza de multiplical-o. O caracter de Melchior e a veneração que mereciam suas virtudes, eram fianças de veracidade e davam ao acto singello que alli se passava um forte cunho de santidade e elevação. Não era uma vulgar declaração de amor, sugeita ás variações do espirito ou do interesse; mas verdadeiros esponsaes, em que a religião era inspiradora e testemunha.




CAPITULO XVII


Aquelle dia foi marcado no calendario de Mendonça com lettras de ouro e setim; a noite desceu coroada de murta e rosas. Elle viveu essas horas todas n'um estado de somnambulismo e extasis. Tencionava referir tudo á mãe, logo que entrou em casa ao meio dia; mas não se atreveu, porque elle mesmo não estava certo se vivia a realidade ou se voava nas azas de uma chimera. De noite voltou a Andarahy; achou em Helena o mesmo modo affectuoso, a mesma solicitude e carinho; nenhuma ternura expansiva, nenhuma contemplação namorada; um meio termo que o continha a elle proprio, e não era menos aprazivel ao coração. A nova situação era, entretanto, sensivel, porque os vigilantes de fóra, trocaram entre si olhares profundos e inundados de graves descobertas; um delles, o coronel-major, chegou a proferir uma allusão, que os interessados fingiram não perceber.

Quando Mendonça chegou a casa, nessa noite, ia mais que nunca cheio de commoção e nadando em plena glória. A cidade, apenas ahi entrou, pareceu-lhe transformada por uma vara magica; elle viu-a povoada de seres phantasticos e rutilantes que iam e vinham do ceu á terra e da terra ao ceu. A côr deste era unica entre todas as da palheta do divino scenographo. As estrêllas, mais vivas que nunca, pareciam saudal-o de cima com ventarolas electricas, ou fazerem-lhe figas de inveja e despeito. Azas invisiveis lhe roçavam os cabellos, e umas vozes sem boca lhe falavam ao coração. Seus pes como que não pousavam no solo; elle ia extatico e sem consciencia de si. Era aquelle o galhofeiro de ha pouco? O amor fizera esse milagre mais.

Um dos theatros estava aberto; comprou um bilhete e entrou. Não era desejo de divertir-se ou interessar-se pelo drama, que alias expirava de parceria com o protagonista; era necessidade de ver gente, de ater-se á realidade das cousas, tão chimerico se lhe affigurava tudo o que se passára desde manhã.

Um expectador,—o filho do coronel-major,—viu-o a alguma distância e foi sentar-se ao pe delle.

—O senhor que tem melhor vista,—disse o academico—desengane-me; aquella moça que alli está, naquelle camarote, não é a andorinha viajante?

—A andorinha viajante? repetiu Mendonça olhando para elle; que quer dizer esse nome?

—É a alcunha da irmã de Estacio. Sera ella que está alli, com uma senhora edosa?

—Mas porque lhe chamam assim?

—Eu sei! Naturalmente porque sae á rua todos os dias. Na verdade, é um passear! Mal amanhece, la vae trepada no cavallinho, com o pagem atraz...

—Quem lhe poz essa alcunha?

—As alcunhas são como as mofinas; não tem autor.

Cahíra o panno; Mendonça despediu-se alli mesmo e sahíu. Na rua repetiu mentalmente as palavras do joven academico. Ao cabo de alguns minutos sorriu; comprehendêra que, apenas suspeitada a sua felicidade, ja a inveja lhe deitava na taça uma gota de veneno. Ergueu os hombros, resoluto a supportar tranquillo essa livida companheira do successo.

Guiou para casa, onde entrou pouco depois. Helena volvêra a occupal-o exclusivamente. So, na alcova de solteiro, inventariou os acontecimentos daquelle dia e achou-se morgado da fortuna. Como precisava conversar com alguem, escreveu uma longa carta a Estacio, narrando-lhe toda a história do seu coração, suas esperanças e a prompta realisação dellas. A alma derramou-se no papel impetuosa e exhuberante. O estylo era irregular, a phrase incorrecta; mas havia alli a eloquencia e a sinceridade da paixão. Quando fechou a carta, anteviu o prazer que ia dar ao amigo, logo que ella lhe chegasse ás mãos, levando a notícia de que as vinculos atados na aula iam apertar se na familia. «Vem quanto antes, dizia elle ao terminar a missiva; tenho ancia de abraçar-te e ouvir de ti mesmo o consentimento que me fara o mais feliz dos homens!»