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Helena

Chapter 33: CAPITULO XXVI
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About This Book

The narrative opens with the sudden death of a respected elder and the reading of a will whose unexpected clause brings a young woman into his household. Her arrival unsettles his son and sister, provoking questions of inheritance, legitimacy, and social reputation while entangling private affections and restrained romantic interest. Through close domestic scenes and careful psychological observation, the work examines family secrets, honor, and tensions between public standing and private desire, gradually revealing characters' motives and moral ambiguity as relationships and social expectations evolve.

—Maus instinctos, não,—respondeu Melchior; um desvio da lei social e religiosa, mas desvio inconsciente. Entra em teu coração, Estacio; revolve-lhe os mais intimos recantos, e la acharás esse germen funesto: lança-o fóra de ti, que é o preceito do Eterno Mestre. Não o sentiste nunca: a tentação usa essa tactica serpentina e dolosa; é insinuante, como a calúmnia, e pertinaz, como a suspeita. Mas eu sou a verdade, que affirma, e a caridade, que consola. Digo-te, não que peccaste, mas que ficaste á beira do peccado; e estendo-te a mão para que recues do abysmo.

—Padre-mestre! murmurou Estacio cujo coração recebia a influência da palavra de Melchior, a um tempo severa e meiga.

—Não fales, continuou o padre; negal-o é mentir; confessal-o é ocioso. Como nasceu em teu coração semelhante sentimento? Quiz a fortuna que entre voces dous não houvesse a imagem da infancia e a communhão dos primeiros annos; que, em plena mocidade, passassem do total desconhecimento um do outro, para a intimidade do todos os dias. Ésta foi a raiz do mal. Helena appareceu-te mulher, com todas as seduções proprias da mulher, e mais ainda com as de seu proprio espirito, por que a natureza e a educação accordaram em a fazer original e superior. Não sentiste a transformação lenta que se operou em ti, nem podias comprehendel-a. S. Paulo o disse: para os corações limpos, todas as cousas são limpas. Vias a affeição legitimo naquillo que era ja affeição espuria; dahi vieram os zelos, a suspicacia, um egoismo exigente, cujo resultado seria subtrahir a alma de Helena a todos as alegrias da terra, unicamente para o fim de a contemplares sosinho, como um avaro.

Ouvindo a palavra do padre, Estacio soletrava o proprio coração e lia claramente o que até então era para elle como um livro fechado. A situação tornava-se, entretanto, por demais afflictiva, profunda a vergonha, intenso o remorso. Estacio ergueu-se; erguendo-se deu com os olhos no retrato do Conselheiro, que, na penumbra em que ficava, parecia olhar para o filho, e interrogal-o. Ésta circumstância desorientou o moço.

—Não, padre-mestre! exclamou elle deixando-se cahir na cadeira.—É impossivel! isto que me está dizendo é um sonho mau, é um funesto equívoco; é impossivel; juro-lhe que é impossível. É certo que a amo... que a amava, com sentimento de irmão; mas esquecer-me, aninhar em minha alma tão odioso affecto... oh! era impossivel!

Melchior erguera-se. Apos meia duzia de passos, approximou-se de Estacio, sôbre cuja cabeça estendeu a mão direita, em quanto com a outra lhe erguia a barba, obrigando-o a olhar para elle.

—Digo-te que teus uma raiz de ma herva no coração; ésta é a cruel verdade. Ha no homem uma ligação de sentimento, ás vezes inexplicavel. Productos de climas oppostos ahi se alternam ou se confundem... Mas queres saber o resto?

—O resto?

—Ouve,—continuou o padre sentando-se. A planta ruim bracejou um ramo para o coração virgem e casto de Helena, e o mesmo sentimento os ligou em seus fios invisiveis. Nem tu o vias, nem ella; mas eu vi, eu fui o triste expectador dessa violenta e miseravel situação. São irmãos e amam-se. A poesia tragica póde fazer do assumpto uma acção theatral; mas o que a moral e a religião reprovam não deve achar guarida na alma de um homem honesto e christão.

—Impossivel! impossivel! exclamou Estacio. Mas, dado que assim fosse, por que accumular á difficuldade presente o horror de semelhante revellação?

—Por que a revellação explica a difficuldade. Helena não sabera que ama, mas ama. Ora, um amor clandestino, de parceria com esse outro amor incestuoso, embora inconsciente, provaria da parte de Helena uma perversão, que ella não póde ter, e que, em tal edade, faria della um monstro. Sera Helena esse monstro? Se o fosse, eu desesperaria da natureza humana. Não! essa casa, onde a viste entrar, é com certeza asylo de miseria; o que ella ahi vae levar é a esmola e a compaixão.

Um raio de esperança alumiou a fronte de Estacio. O raciocinio do padre era exacto; e por mais perigosa que fôsse a situação revellada por elle, ja agora não se podia desejar outra cousa; a dignidade da familia ficava intacta. Estacio reflectiu largo tempo no que acabava de ouvir. Mas, a esperança foi curta, embora a necessidade della grande.

—Helena continua recolhida? perguntou o padre.

Estacio fez um leve signal affirmativo.

—Falar-lhe-hei amanhã; por hoje convem não dizer palavra nem deixar transpirar cousa nenhuma.

Dizendo isto, Melchior recolheu-se ao silêncio, como se reflectisse ainda alguma cousa. Estacio erguera-se e entrára a passear lentamente. De quando em quando apertava a cabeça entre as mãos; tantas commoções bastavam para atordoar mais forte espirito. O mysterio o cercava de todos os lados. Elle ia até á janella, dahi até à porta, intercalando as reflexões interiores com sacudimentos nervosos do braço ou da cabeça. A intervallos, olhava a furto e de travez para o capellão, como o criminoso olha para a consciencia; não podia evitar o sentimento de terror, e ao mesmo tempo de respeito, que lhe infundia aquelle investigador exacto e profundo de seus sentimentos mais reconditos e inaccessiveis. Ruminava o que o padre lhe dissera; cada minuto lhe ia tornando mais clara a verdade revellada; e o que era obscuro fizera-se-lhe emfim transparente. É assim que a luz de um astro, accesa desde seculos, chega finalmente a ferir a retina de nossos olhos mortaes.

Uma vez, interrompendo os passos, ergueu os olhos para o retrato do Conselheiro. Não os retirou atterrado; cravou-os com um ar de reproche e de amargura, em que o padre reparou e que o fez sorrir tristemente. O olhar do filho pedia contas ao pae.

—Paz aos mortos! observou Melchior. Os actos de seu pae já não pertencem á jurisdicção deste seculo.

Melchior proferiu éstas palavras ja de pe.

—O Dr. Camargo, disse elle mudando de tom,—deve chegar um dia destes, segundo annuncia. Ha alguma razão para demorar o casamento?

—Nenhuma.

—Convem realisal-o immediatamente.

—Immediatamente.

Melchior caminhou para a porta. Ia dar volta á chave, e deteve-se.

—Antes de nos separarmos, disse elle,—desejo a promessa de que não falarás a Helena antes de amanhã.

—Prometto.

O padre reflectiu um instante; Estacio pareceu adivinhal-o.

—Quer ainda outra promessa? perguntou elle. Quer que a evite da todos os modos.

—Sim; que a considere como pessoa totalmente extranha.

—Poderia ser de outra maneira? observou melancholicamente Estacio. Os successos destes dias são, por em quanto ao menos, uma barreira entre ella e sua familia. Demais, eu seria destituido de todo o senso moral...

—Jura?

—Juro.

Melchior desabrochou a camisa, e aventou um crucifixo de marfim, que lhe pendia de uma fita preta, ao pescoço.

—Este, disse elle cora voz singella, é a effigie do teu Deus. Tão puro exemplo de castidade não viram os seculos nem antes nem depois que elle desceu á terra. Jura o que me promettes.

—Padre-mestre,—retorquiu Estacio; minha palavra era bastante. Mas, se é preciso affirmação mais solemne, eu a darei tal qual me pede.

Estacio inclinou a cabeça sôbre o crucifixo e beijou-o respeitosamente; depois beijou a mão ao padre. Melchior abençou-o e sahiu.

Sahindo do gabinete de Estacio, dirigiu-se para a sala de costura, onde achou D. Ursula um pouco menos agitada.

—Falou a Helena? perguntou ella dirigindo-se ao padre.

—Ainda não; sei que não quer sahir do quarto; deixemos passar a primeira commoção. Amanhã virei saber tudo. Por hoje é preciso que a senhora socegue.

—Oh! estou socegada! Não perdi a confiança.

D. Ursula proferiu éstas palavras com tamanha serenidade e tão profunda convicção que fortaleceu o espirito do proprio Melchior, alias não inclinado a crer no mal. O ancião deteve-se alguns instantes a contemplar o rosto placido de D. Ursula, a admirar a fôrça secreta que a tornava surda ao clamor da realidade,—pelo menos, da realidade apparente. Contemplou-a silencioso, e desceu á chacara.




CAPITULO XXIV


A noite era escura. Calcando a terra e a areia das largas calhes da chacara, Melchior, em sua imaginação, refloria o passado, nem sempre feliz, mas geralmente quieto, dessa quietação que é tanta vez a superficie da vida. Mais de uma vez buscára dissipar a sombra pezarosa que alguns erros do conselheiro accumularam na fronte da consorte. Haveria naquella casa uma geração de dores, destinadas a abater o orgulho da riqueza com o irremediavel expectaculo da debilidade humana?

—Não, dizia elle comsigo mesmo. A verdade é que tudo se encadeia e desenvolve logicamente. Jesus o disse: não se colhem figos dos abrolhos. A vida sensual do marido produziu o infortunio calado e profundo daquella senhora que se foi em pleno meio dia; o fructo hade ser tão amargo como a árvore; seu sabor é travado de remorsos.

Neste ponto chegava ao portão. Ahi deteve-se um instante. O passo cautelloso e timido de alguem fel-o voltar a cabeça. Um vulto, cujo rosto não via, tão escuro como a noite, alli estava e lhe tocava respeitosamente as abas da sobrecasaca. Era o pagem de Helena.

—Seu padre,—disse este,—diga-me por favor o que aconteceu em casa. Vejo todos tristes; nhanhã Helena não apparece; fechou-se no quarto... Me perdoe a confiança. O que foi que aconteceu?

—Nada, respondeu Melchior.

—Oh! é impossivel! Alguma cousa ha por fôrça. Seu padre não tem confiança em seu escravo. Nhanhã Helena está doente?

—Socega; não ha nada.

—Um! gemeu incredulamente o pagem. Ha alguma cousa que o escravo não pode saber; mas tambem o escravo póde saber alguma cousa que os brancos tenham vontade de ouvir...

Melchior reprimiu uma exclamação. A noite não lhe permittia examinar o rosto do escravo, mas a voz era dolente e sincera. A ideia de interrogal-o passou pela mente, do padre, mas não fez mais do que passar; elle a regeitou logo, como a regeitára algumas horas antes. Melchior preferia a linha recta; não quizera empregar um meio tortuoso. Iria pedir a Helena a solução das difficuldades. Entretanto, o pagem, como interpretasse de modo afirmativo o silêncio do sacerdote, continuou:

—Nhanhã Helena é uma sancta. Se alguem a accusa, accusa o bom procedimento della. Eu lhe direi tudo...

Melchior ia recusar, mas um incidente interrompeu a palavra do pagem, contra a vontade deste, e talvez contra o desejo de Melchior. Ouviram-se passos; era um escravo que vinha fechar o portão.

—Vem gente,—disse Vicente,—amanhã...

O pagem tacteou nas trevas em procura da dextra do capellão; achou-a emfim, imprimiu-lhe um ósculo do respeito e affastou-se. Melchior seguia para casa, abalado com a meia revellação que acabava de ouvir. Outro qualquer podia duvidar um instante da sinceridade do escravo; podia suppor que o acto delle em menos expontaneo do que parecia; emfim, que a propria Helena suggeríra aquelle meio de transviar a expectação e congraçar os sentimentos. A interpretação era verosimil; mas o padre não cogitou de tal cousa. A elle é principalmente applicavel a maxima apostolica; para os corações limpos, todas as cousas são limpas.

A seguinte aurora alumiou um ceu puro de nuvens. Estacio accordou com ella, depois de uma noite mal dormida. Nunca a manhã, lhe pareceu mais rumorosa e jovial; nunca o ar apresentára tão fina transparencia, nem a folhagem tão lustrosa, côr. Da janella a que se encostára via as flôres de todos os matizes, quebrando a monotonia da verdura, e enviando-lhe a elle uma nuvem invisivel de seus aromas: aspecto de festa e ironia da natureza. Estacio achava-se alli como um sahimento em horas de carnaval.

Almoçou sosinho; D. Ursula estava com Helena. Logo depois do almôço recebeu uma carta de Mendonça, que tendo ido na vespera a Andarahy, recebêra a resposta dada a todos, e mandava saber se havia molestia em casa. Estacio respondeu affirmativamente, accrescentando que, posto não se tratasse de cousa grave, só o esperava dous dias depois. A resposta podia ser mais circumspecta; no estado em que elle se achava, pareceu-lhe excellente.

Pela volta do meio dia, chegou Melchior. Na sala de visitas achou D. Ursula, que o espreitava de uma das janellas.

—Helena? perguntou elle ancioso.

—Ja hoje desceu,—respondeu D. Ursula. Está mais tranquilla. Não lhe perguntei nada, mas dizendo-lhe que o senhor viria falar-lhe, mostrou-se anciosa por vel-o, e pediu-me até que o mandasse chamar.

Seguiram os dous até á saleta que ficava ao pe da sala de jantar. Helena estava sentada, com a cabeça cahida sôbre as costas da cadeira, e os olhos meios cerrados. Logo que o padre entrou, Helena abriu os olhos e ergueu-se. Vivo e passageiro rubor coloriu-lhe as faces pallidas da vigilia e da afflicção. Ergueu-se e deu dous passos para o padre, que lhe apertou as mãos entre as suas.

—Imprudente! murmurou Melchior.

Helena sorriu, um sorriso pallido e tão passageiro como a côr que lhe tingira o rosto, D. Ursula dispoz-se a ir chamar Estacio, que estava no andar de cima. Apenas a viu sahir, Helena segurou em uma das mãos do padre.

—Queria vel-o! disse ella. Não tenho ânimo de falar a ninguem mais, de dizer tudo...

—É inutil; tudo sei, interrompeu Melchior sorrindo. O Vicente foi hoje de manhã á minha casa; foi de movimento proprio; relatou-me quanto sabia; disse-me que esse homem é seu irmão; que a senhora o ia ver, a occultas, não podendo ou não querendo apresental-o em casa de seus parentes. O escrupulo era excessivo, e o acto leviano. Porque motivo dar apparencia incorrecta a um sentimento natural? Teria poupado muita afflicção e muita lagryma a si e aos seus, se tomasse antes o caminho direito, que é sempre o melhor.

Helena ouvia éstas palavras do padre com a alma debruçada dos olhos. Não parecia sequer respirar. Quando elle acabou, perguntou soffrega:

—Com que intento lhe falou elle?

—Com o mais puro do todos; desconfiou que a senhora padecia por isso e veiu contar-me tudo.

Helena cruzou os dedos e ergueu os olhos. Melchior não a quiz interromper nessa ascenção mental ao ceu; limitou-se a contemplal-a. A belleza de Helena nunca lhe parecêra mais tocante do que nessa attitude implorativa. A contemplação não durou muito, por que a oração foi breve.

—Orei a Deus,—disse ella, descendo as mãos,—por que infundiu ahi no corpo vil do escravo tão nobre espirito do dedicação. Delatou-me para restituir-me a estima da familia. Aquillo que ninguem lhe arrancaria do coração, tirou-o elle mesmo no dia em que viu em perigo o meu nome e a paz de meu espirito. Infelizmente, mentiu.

Melchior empallideceu.

—Mentiu sem o saber, continuou a moça. Disse o que suppunha ser verdade,—o que eu lhe dei como tal. Não é meu irmão esse homem.

Melchior inclinou-se para a moça e pegando-lhe nos pulsos, disse imperiosamente.

—Então quem é? Seu silêncio é uma delação; não tem ja direito de hesitar.

—Não hesito, replicou Helena; em taes situações uma creatura, como eu, caminha direito a um rochedo ou a um abysmo; despedaça-se ou some-se. Não ha escolha. Este papel,—continuou, tirando da algibeira uma carta,—este papel lhe dira tudo; leia e refira tudo a Estacio e a D. Ursula. Não tenho ânimo de os encarar nesta occasião.

Melchior, atordoado, fez um leve signal de cabeça.

—Lido esse papel,—estão rotos os vínculos que me prendem a ésta casa. A culpa do que me acontece não é minha, é de outros; aceitarei contudo ás consequencias. Poderei contar ao menos com a sua benção?

A resposta do padre foi pousar-lhe um beijo na fronte, beijo de absolvição ou de clemencia, que ella lhe pagou com muitos na dextra enrugada e trémula de commoção. Helena precipitou-se depois para o corredor, deixando o padre só, com a carta nas mãos, sem ousar abril-a, receioso dos males que iam dalli sahir, sem certeza ao menos de que ficaria no fundo a esperança. Ia abril-a, e hesitou se o devia fazer na ausencia de Estacio e D. Ursula; venceu o escrupulo e leu.

D. Ursula, que entrou na occasião em que elle fechava a carta, recuou aterrada. Melchior estava pallido como um defuncto. Antes que nenhum, delles falasse, entrou Estacio na saleta. Melchior dirigiu-se a elle e entregou a carta. Leu-a Estacio e dizia assim:

«Minha boa filha. Sei pelo Vicente que alguma cousa ahi ha que te afflige. Presumo adivinhar o que é. O Estacio esteve commigo, logo depois que daqui sahiste a ultima vez. Entrou desconfiado, e deu como razão ou pretexto a necessidade de curar algumas feridas feitas na mão. Talvez elle proprio as fizesse para entrar aqui em casa. Interrogou-me; respondi conforme pedia o caso. Suppondo que elle soubesse de tuas visitas, não lhe occultei a minha pobreza; era o meio de attribuil-as a um sentimento de caridade. A virtude serviu assim de capa a impulsos da natureza. Não é isso em grande parte o theor da vida humana? Fiquei, entretanto, inquieto; talvez lhe não arrancasse o espinho do coração. Pelo que me disse o Vicente receio que assim acontecesse. Conta-me o que ha, pobre filha do coração; não me escondas nada. Em todo o caso, procede com cautella. Não provoques nenhum rompimento. Se fôr preciso, deixa de vir aqui algumas semanas ou mezes. Contentar-me-ha a ideia de saber que vives em paz e feliz. Abençoo-te, Helena, com quanta effusão pode haver no peito do mais venturoso dos paes, a quem a fortuna, tirando tudo, não tirou o gôsto de se sentir amado por ti. Adeus. Escreve-me.—Salvador

P.S. Recebi o teu bilhete. Pelo amor de Deus, não faças nada; não saias dahi; seria um escandalo.»

Estacio não comprehendeu desde logo o que acabava de ler. A verdade parecia inverossimil. Seu primeiro movimento foi sahir dalli e ter com Helena. Melchior deteve-o a tempo.

—Não precipitemos nada, disse elle. Socegue primeiro.

Estacio deixou-se cahir n'uma cadeira; Melchior communicou o conteudo da carta a D. Ursula, cujo pasmo foi ainda mais profundo que o do sobrinho, porque ella não soltou uma palavra, não fez um gesto; ficou a olhar estupidamente para o papel. Houve então entre aquelles tres personagens dez minutos de mortal silêncio. D. Ursula não pensava; olhava para a carta, logo depois para o sobrinho e o padre, como a esperar uma conclusão que seu proprio espirito não podia deduzir dos acontecimentos. Estacio ficára desorientado; em vão procurava um fio de deducção entre suas ideias; a revellação nova era uma complicação mais. Se a carta era sincera, como explicar a declaração testamentária de seu pae? Se o não era, como explicar a audacia de semelhante invenção? Elle não podia discernir o que era favoravel a Helena, nem ousava affirmar o que lhe era adverso.

No meio daquella familia, arriscada a dispersar-se, Melchior considerava a superioridade da morte sobre alguns lances terriveis da vida. Se o obito de Helena tomára o logar da carta, a dor seria violenta; mas o irremediavel desfecho e o consolo da religião teriam contribuido para sarar a alma dos que ficassem e converter o desespêro de alguns dias na saudade da vida inteira. Em vez disto, estava elle talvez diante de um destino aniquillado; via um abysmo possivel entre corações que a vontade de um morto vinculára. Qualquer que fôsse a veracidade da carta, o resultado era talvez esse.

Melchior foi dalli ter com Helena, para alcançar mais detida explicação do quê acabava de ler. Ella ergueu-se quando o viu, e pareceu reviver ao contemplar o gesto benevolo com que elle lhe falou. Um longo suspiro de alivio rompeu-lhe do coração; seus braços cahiram sobre os hombros do padre, em cujo seio escondeu o rosto e repousou emfim,—um minuto—das dores que a affligiam.

—Perdoaram-me? disse ella.

—Hão de perdoar; conte-me tudo.

—Oh! não posso, não sei; sei que é meu pae.

O capellão não insistiu; voltou aos outros dous, a quem achou na posição em que os deixára. Interrogaram-n'o com os olhos.

—Nada, disse elle. Seu coração não possue nesta occasião a necessaria fôrça para responder a quanto se lhe devia perguntar; demais não sabera tudo. Temos a primeira confissão da verdade....

—Da verdade? interrompeu melancholicamemte Estacio. Quem sabe se é verdade o que lemos nesse papel?

—É, deve ser. Faltam-nos, é certo, os fundamentos da asseveração; mas eu incumbo-me de ir buscal-os.

—Iremos ambos.

D. Ursula quiz dissuadir o sobrinho de ir á casa do homem, causa dos desastres da familia; não tanto por que lhe parecia que entre Estacio e elle nenhuma relação convinha estabelecer, mas sobretudo por que ella precisava de alguem que a acompanhasse em tão graves circumstâncias. Melchior inclinou-se ao alvitre de D. Ursula.

—Irei eu só, disse elle; depois conduzil-o-hei até ca, se fôr preciso.

—Não posso esperar, insistiu Estacio; preciso falar a esse homem, ouvil-o, ler-lhe a verdade ou o embuste nas linhas do rosto. Talvez o decoro da familia exigisse outra cousa; mas, padre-mestre, meu coração goteja sangue.

Era impossivel dissuadil-o; Melchior tratou somente de o moderar. De resto, a crise era violenta; cumpria resolvel-a sem demora nem hesitação. O padre animou D. Ursula, e sahiu acompanhado de Estacio, cujo coração, convalecido do primeiro abalo, deixava as regiões da dúvida para entrar na atmosphera da verdade,—pelo menos da esperança. Quaesquer que fossem as consequencias da nova revellação, vinha ésta como um balsamo, apos tão dolorosas commoções; era um rasgão azul no ceu tempestuoso daquelles dias. Ia elle pensando assim,—ou antes sentindo,—por que o pensamento não ousava regel-o, desde que a vida inteira do moço se lhe concentrára no coração.

Chegando em frente da casa, Estacio desviou os olhos; custava-lhe encaral-a, mas venceu-se. Houve demora em abrir a porta; abriu-se ésta emfim, e a figura do dono da casa appareceu aos dous. Vendo-os, empallideceu um pouco, mas um sorriso procurou disfarçar a impressão. Estacio foi direito ao fim.

—Supponho que se lembra de mim? disse elle.

—Perfeitamente.

—Sabe que motivo nos traz a sua casa?

—Não, senhor.

—Confessa a autoria desta carta?

Salvador estremeceu; depois respondeu com um gesto affirmativo.

—Pretende que Helena é sua filha, disse o moço depois de um instante. Confirma verbalmente o que escreveu?

—Helena é minha filha.

Melchior interveiu.

—Ha um anno, fallecendo, o meu velho amigo conselheiro Valle, reconheceu Helena, por uma clausula testamentária; recommendava á familia que a tratasse com affecto e carinho e designava o collegio em que ella estava sendo educada. O facto do reconhecimento e as circumstâncias que apontou dão toda a veracidade á palavra do morto. Que prova apresenta o senhor em contrário a ella?

—Nenhuma, disse Salvador; não tenho prova de nenhuma natureza.

—Na falta de provas, proseguiu o capellão, poderia dizer-nos como suppor da parte do conselheiro uma falsificação tratando-se de disposição tão grave como essa de introduzir uma pessoa extranha na familia?

Salvador sorria amargamente.

—Supponha,—disse elle,—que eu havia illudido a confiança do conselheiro, e que elle acreditava ser pae de Helena.

—Era isso?

—Não era. Na posição em que nos achamos já não ha logar para meias palavras. Fôrça é referir tudo. Dez minutos apenas.

Os tres sentaram-se. Melchior olhava para o dono da casa com a persistencia e a curiosidade naturaes da occasião. Salvador esteve alguns instantes calado; emfim voltou-se para o capellão.

—Estimo, disse elle, que o Sr. padre viesse; sua caridade temperará a legítima indignação deste mancebo; e eu farei as declarações indispensaveis na presença das duas pessoas a quem mais amo, abaixo de Helena.

—Queira falar, disse seccamente Estacio.




CAPITULO XXV


—A mãe de Helena, disse Salvador, cuja belleza foi a causa, a um tempo, da sua ma e boa fortuna, era filha de um pobre lavrador do Rio Grande do Sul, onde tambem nasci. Apaixonamo-nos um pelo outro. Meu pae oppoz-se ao casamento; tinha alguns bens, mandara-me estudar, queria ver-me em posição brilhante. Angela podia ser obstaculo á minha carreira, dizia elle. Oppoz-se, e eu resisti; raptei-a; fomos viver na campanha oriental, d'onde passamos a Montevideo, e mais tarde ao Rio de Janeiro. Tinha vinte annos quando deixei a casa paterna; possuia alguns estudos poucos, meio duzia de patacões, muito amor e muita esperança. Era de sobra para a minha edade, mas insuficiente para o meu futuro. A lua de mel foi desde logo uma noite de privações e trabalhos. Minha vida começou a ser um mosaico de profissões; aqui onde me veem, fui mascate, agente do foro, guarda-livros, lavrador, operario, estalajadeiro, escrevente de cartorio; algumas semanas vivi de tirar cópias de peças e papeis para theatro. Trabalhava com energia, mas a fortuna não correspondia á constancia, e o melhor dos annos gastei-o em luta aspera e desegual. Uma compensação havia, a mais doce de todas: era o amor e o contentamento de Angela, a egualdade de animo com que ella encarava todas as vicissitudes. Pouco tempo depois da nossa fuga havia outra compensação mais: era Helena. Essa menina nasceu em um dos momentos mais tristes da minha vida. Os primeiros caldos da mãe foram obtidos por favor de uma mulher da visinhança. Mas nasceu, em boa hora, e foi um laço mais que nos prendeu um ao outro. A presença de um ente novo, sangue do meu sangue, fez-me redobrar de energia. Trabalhava com alma, luctava resoluto contra todas as fôrças adversas, certo de encontrar á noite a solicitude da mãe e as ingenuas caricias da filha. Os senhores não são paes; não podem avaliar a fôrça que possue o sorriso de uma filha para dissolver todas as tristezas accumuladas na fronte de um homem. Muita vez, quando o trabalho me tomava parte da noite, e eu, apezar de robusto, me sentia cançado, erguia-me, ia ao berço de Helena, contemplava-a um instante e parecia cobrar fôrças novas, Se o proprio berço era obra de minhas mãos! Fabriquei-o de alguns sarrafos de pinho velho; obra grosseira e sublime: servia a adormecer metade da minha felicidade na terra.

Salvador interrompeu-se commovido.

—Perdoem-me,—continuou elle depois de alguns instantes, se éstas memorias me abalam o coração. Eu era pobre, tão pobre como hoje. Desse tempo só resta um echo doloroso e consolador. Crescia Helena e cresciam suas graças. Era o encanto e a esperança do meu albergue. Quando pôde aprender os rudimentos da leitura, dei-lhe as primeiras licções; assisti pasmado á aurora daquella intelligencia que os senhores veem hoje tão desenvolvida e lucida. Aprendia com facilidade, por que estudava com amor. Angela e eu construiamos os mais lindos castellos do mundo. Nós a viamos ja mulher, formosa como viria a ser, porque ja o era, intelligente e prendada, espôsa de algum homem que a adorasse e elevasse. Viviamos dessa antecipação, que era apenas um sonho, e não sentíamos os golpes da fortuna.

—Porque razão,—perguntou Melchior,—dado esse amor e nascida uma filha, não sanctificou o senhor a situação singular em que se achavam?

—A curiosidade é justa, replicou Salvador, mas a resposta é decisiva. Casar era a nossa justificação; era um argumento contra o resentimento de meu pae. Nos primeiros dias da nossa fuga do Rio Grande a propria embriaguez da felicidade desviou qualquer ideia de sanctificar e legalisar uma união consentida pela natureza. Depois vieram os trabalhos e as necessidades. Como eu tinha certeza de não fugir ao dever que tomára em meus hombros, ia adiando o acto de mez para mez, de anno para anno. Afinal o projecto esvaiu-se de todo. Estavamos ligados pela miseria e pelo coração, não pretendiamos o respeito da sociedade; triste desculpa, e ainda mais triste recordação, por que o casamento teria talvez obstado aos acontecimentos posteriores. Helena contava seis annos. Minha fortuna, adversa sempre, com intermittencias favoraveis, parecia abrandar um pouco. Ia encetar um novo meio de vida, quando uma circumstância grave me chamou ao Rio Grande. Meu pae adoecêra; mandava-me o seu perdão, ordenando-me que o fôsse ver sem demora. Obedeci promptamente. Do que elle me remetteu para as despezas dr viagem e outras, deixei alguma cousa a Angela e Helena, e parti. Vinte e quatro horas depois de ver meu pae, tive a dor de o perder. A liquidação dos negocios foi curta; os bens todos ficaram pertencendo aos credores; restavam-me alguns patações. Recebi esse golpe novo com a philosophia da insensibilidade. Quem sabe se não era eu o culpado do acontecimento? Os negocios entretanto, apezar de curtos, demoraram-me mais do que eu pretendia e convinha. A ancia de voltar cresceu desde que não recebi a resposta das últimas cartas que escrevi a Angela. Enfim, pude regressar ao Rio de Janeiro com um luto mais e uma esperança menos. Neste ponto entra a pessoa de seu pae.

Estacio desviou os olhos.

—Logo que cheguei,—continuou Salvador,—corri a casa; achei-a fechada. Um visinho, testemunha da minha afflicção, deu-me notícia de que Angela se mudára para S. Christovão. Não sabia nem o numero nem a rua; mas deu-me algumas indicações, que me guiaram. Ainda hoje tenho ante os olhos o sorriso com que aquelle homem me respondia. Era um sorrir de compaixão que humiliava. Sem nunca haver recebido de mim a menor offensa, vejo que elle tinha um prazer secreto com o meu infortunio. Porque? Deixo aos philosophos liquidarem esse enigma da natureza humana. Voei a S. Christovão; gastei tempo em procurar a casa, mas dei com ella. Quando a vi, duvidei de meus olhos ou das indicações. Era uma casa elegante, escondida entre o arvoredo, no meio de um pequeno jardim. Podia ser aquella a residencia da companheira de minha miseria? Receioso de ir bater alli, vi assomar ao portão um homem, que me pareceu ser o jardineiro. Perguntei pela dona da casa, a quem dei o seu proprio nome, dizendo que lhe desejava falar. «A senhora sahiu,» respondeu elle distrahidamente. Dispuz-me a esperar, mas o jardineiro observou-me que ia sahir e fechar o portão, e que a senhora só voltaria á noite. «Esperarei até a noite», redargui. O jardineiro mediu-me de alto a baixo, circulou um olhar cautelloso pela rua e disse-me baixinho: «Aconselho ao senhor que não volte; o patrão não hade gostar.» Não escrevo um romance; dispenso-me de lhes pintar o efeito que produziram essas palavras. O que senti excede a toda a descripção. Ha catastrophes mais solemnes, ha situações mais patheticas; mas naquella occasião parecia-me que todas as dores do mundo se tinham convergido para meu coração. O jardineiro era verdadeiramente compassivo; lendo em meu rosto o effeito de suas palavras, disse-me alguma cousa de que absolutamente me não lembro. Convidou-me com brandura a sahir; obedeci machinalmente. Podendo informar-me acerca de Angela, não o fiz. A febre reteve-me tres dias de cama, n'uma pobre cama alugada em pessima estalagem da Cidade Nova. No terceiro dia recebi uma carta de Angela. Pedia-me que lhe perdoasse o passo que dera; que uma paixão nova e delirante a havia guiado, e que, se viesse a arrepender-se, seria essa a minha vingança. Quando li a carta, tive impeto de ir ter com ella e esganal-a; mas o impeto passou, e a dor desfez-se em reflexões. Poucos dias antes, a bordo, um engenheiro inglez que vinha do Rio Grande para esta Côrte, emprestara-me um volume truncado de Shakespeare. Pouco me restava do pouco inglez que aprendi; fui soletrando como pude, e uma frase que alli achei fez-me estremecer, na occasião, como uma profecia; recordei-a depois quando Angela me escreveu. «Ella enganou seu pai, diz Brabantio a Otelo, há de enganar-te a ti tambem.» Era justo; pelo menos, era explicavel. Dous dias depois da carta de Angela, escrevi-lhe pedindo meia hora de conversação; nada mais. Angela concedeu-me a entrevista. Meu plano era arrebatar-lhe Helena; ela parece que o previu, recebendo-me sosinha, no jardim, ás nove horas da noite.

—Por que razão recorda todas essas minucias? interrompeu Melchior com brandura; nós desejamos somente saber o essencial.

—Tudo é essencial na minha narração, disse Salvador. Aquella entrevista mostrou-me a toda a luz o caracter de Angela. Que outra mulher se arriscaria, em taes circumstâncias, a affrontar a colera do homem desprezado? Angela era um complexo de qualidades singulares. Capaz de supportar as maiores angústias, forte e risonha no meio das maximas privações, esqueceu n'um instante as virtudes que tinha para correr atraz de uma fantasia do amor. Não foi a riqueza que a seduziu; ella iria, ainda que tivesse de trocar a riqueza pela miseria. Angela nasceu metade freira e metade bailarina; capaz das austeridades de um claustro, não o era menos das pompas da scena. E dahi... não fui eu mesmo que a desviei da estrada real para mettel-a por um atalho obscuro? Disse-lh'o naquella noite em que procurei ser tranquillo e superior aos acontecimentos. «Meu fim,—declarei eu,—é só um: levar Helena; Helena é minha filha, não quero deixal-a entregue a seus maus exemplos.» As lagrymas com que me banhou as mãos, as rogativas que me fez, ajoelhada a meus pes, para que lhe deixasse Helena, não ha negar que foi tudo sincero. Cedi apparentemente. Minha resolução estava assentada; sem Helena a vida parecia-me impossivel. Que outro vínculo me prendia ao mundo? A morte e a miseria tinham feito em redor de mim completa solidão. A unica felicidade sobrevivente era ella.

—Segundo rapto, observou o padre. O senhor condemnava-se a só adquirir um vislumbre de felicidade por meios violentos.

—Tem razão, respondeu Salvador com tristeza; um abysmo chamava outro abysmo... Felizes os que sabem o caminho recto da vida, e nunca se arredaram delle! Quiz arrebatar Helena; espreitei-a noite e dia. Não a via nunca; a propria casa rara vez tinha uma porta ou janella aberta. Havia alli o recato e o mysterio. Um dia resolvi ir ter com o protector de Angela. A noticia que me deram do conselheiro Valle era a mais honrosa do mundo. Assentei que me ouviria e cederia a meus justos rogos. O demonio do orgulho impediu a execução do plano. Quasi a entrar em casa do conselheiro, recuei. Decorreram assim cêrca de dous mezes. Emmagreci; as longas vigilias fizeram-me pallido; o trabalho não me attrahia; cheguei a padecer fome. O poeta que disse que a saudade é um pungir delicioso não consultou meu coração. Acerbo o achei eu; é certo que a ella misturava-se a colera, a colera da impotencia e o desgôsto mortal do abandono. Um dia, dirigi-me para S. Christovão, disposto a empregar a violencia, com tanto que trouxesse Helena ou fôsse dalli para o Aljube. Era á tardinha. Approximei-me do jardim de Angela, ouvi a voz de minha filha. Era a primeira vez depois de longos mezes! Parou-me o sangue todo. Passado o primeiro abalo, caminhei cautelloso encostado á cêrca, Helena falava a alguem. Por uma abertura da cêrca, pude espreital-a. Estava ao collo de um homem. Esse homem era o conselheiro. Olhei para um e outro; ora para o meu rival, ora para a minha Helena. Helena acariciava as barbas delle; este sorria para ella com um ar de ternura, que o absolvia quasi da offensa a mim feita. O coração porém apertou-se-me, ao ver dar a outro, affagos a que só eu tinha direito. Era um roubo feito á natureza; mas, se meu proprio sangue me repudiava, que podia eu exigir de alheios corações? Dahi a algum tempo,—não sei se foi curto ou longo, por que eu ficára a olhar para ambos, pasmado de amor e de colera, ouvi que falavam de mim. «Mas, olhe,—dizia Helena,—papae quando vem?» O conselheiro deu um beijo na menina, e falou de uma borboleta que nesse momento pairara sôbre a cabeça della. As creanças porém são implacaveis; aquella repetiu a pergunta. «Papae não volta» respondeu o conselheiro. Helena ficou muito séria. «Não volta? porque?» «Tua mamãe disse hontem que papae está ao ceu.» Helena levou as mãos aos olhos, donde lhe rebentaram lagrymas copiosas. Uma nuvem passou-me pelos olhos, tentei dar alguns passos, entrar no jardim, dizer quem era e exigir minha filha. Os musculos não corresponderam á intenção; senti fraqueza nas pernas; achei-me de bruços. Quando dei accôrdo de mim, volvi de novo os olhos para o logar onde os víra. Ainda alli estavam, mas a attitude era differente. O conselheiro erguera-se, tendo nos braços Helena, que ja não chorava. Elle beijava-lhe as mãosinhas e dizia-lhe: «Se papae foi para o ceu, fiquei eu no logar delle, para dar-te muito beijo, muito doce e muita boneca. Queres ser minha filha?» A resposta de Helena foi a do náufrago; estendeu-lhe os braços em volta do pescoço, como se dissesse; «Se não tenho ninguem mais no mundo!» O gesto foi tão eloquente que eu vi borbulhar uma lagryma nos olhos do conselheiro. Essa lagryma decidia do meu destino; vi que elle a amava, e de todos os sacrificios que o coração humano póde fazer, aceitei o maior e mais doloroso: eliminei a minha paternidade, desisti da unica herança que tinha na terra, fôrça da minha juventude, consolo de minha miseria, coroa de minha velhice, e voltei á solidão mais abatido que nunca!

Salvador interrompeu a narração; levou a mão direita aos olhos; por entre seus dedos escorreram algumas lagrymas, que elle, de envergonhado, enxugou rapidamente.

—Essas recordações são penosas, disse o padre; não convem despertal-as de uma vez; seria abrir feridas que o tempo cicatrisou. Sabemos o essencial...

—Não, resta ainda alguma cousa, disse Salvador.

Estacio erguera-se. Visivelmente commovido, procurava luctar contra o sentimento que o dominava, afim de conservar a necessaria independencia de espirito para julgar da narrativa e do alcance que ella podia ter. Tinha involuntariamente apertado a mão de Salvador, ao escutar-lhe as últimas palavras; e arrependera-se desse primeiro movimento, que podia parecer uma absolvição summaria. A verdade é que elle não reflectia nem sentia claramente; sua mente e seu coração eram um campo de ideias e commoções contrárias.

—Vou acabar,—disse Salvador depois de alguns minutos. Resta explicar o procedimento de Helena.




CAPITULO XXVI


—Seu pae,—continuou Salvador dirigindo-se a Estacio, que, para acabar de compor o rosto, tinha ido até á janella e voltára a sentar-se, seu pae era honrado e cavalheiro. Arrebatando-me Angela, não me trahiu, por que não me vira nunca; não contribuiu directamente para a traição della, por que suppunha cortadas nossas relações. Soube depois que Angela, quando elles se apaixonaram um pelo outro, lhe occultára completamente o motivo da minha viagem; dera-se como separada de mim. Mentiu, como mentiu mais tarde, dizendo que eu havia morrido, O conselheiro não sabia sequer o meu nome. A mentira no primeiro caso, não teve fim nenhum; não houve cálculo; foi uma suggestão de amor ou um esquecimento; foi talvez um modo de respeitar-me: no segundo caso, houve cálculo; era o de redobrar o affecto que o conselheiro tinha a Helena. Assim aconteceu, por que o conselheiro sentiu-se pae de Helena, e assumiu esse caracter desde aquella tarde. Do contracto, feito alli entre o homem e a creança, cumpriu elle toda as clausulas com generosa pontualidade. Póde crer que lhe fiquei profundamente grato. Uma vez, passando por uma lithographia, vi um retrato delle; comprei-o e conservo-o alli ao lado do de Helena.

Melchior e Estacio olharam para a parede, onde pendiam dous quadrinhos, ainda cobertos, conforme Estacio os vira, no primeiro dia em que alli foi.

—Os mezes e os annos passaram,—continuou Salvador,—Helena deu entrada em um collegio de Botafogo, onde recebeu apurada educação. O conselheiro a levou alli, dando-a como orphã de um amigo, de Minas; Angela, que se dera por sua tia, ia buscal-a aos sabbados. Omitto mil circumstâncias intermediarias, e as vezes, poucas, em que pude ver minha filha, de passagem e a occultas. Se o tempo houvesse produzido em mim os seus naturaes effeitos, se a natureza não se ajustasse em fazer contraste com a fortuna, conservando-me o vigor e o viço da mocidade, é possivel que eu achasse meio de empregar-me no collegio ou nas immediações, afim de ver mais frequentemente Helena. Mas eu era o mesmo: passado o primeiro abalo, voltaram-me as carnes, voltou-me a côr, e eu era e mesmo que antes de partir para o Rio Grande. Helena podia reconhecer-me; e eu faltava á convenção tacita que fizera com o conselheiro. Um sabbado, porém, tinha Helena doze annos, vindo ambas do collegio, parou o carro defronte do Passeio Publico. Vi-as descer e entrar. Levado por um impulso irresistivel, entrei tambem. Queria contemplal-as de longe sem lhes falar; mas a resolução estava acima das minhas fôrças. Que pae não faria outro tanto? No logar mais solitario do Passeio, corri para Helena. Vendo-me, a menina pareceu não reconhecer-me logo; mas attentou um pouco, recuou espavorida e agarrou-se á mãe, abraçando-a pela cintura. Conheci que não estava alli um pae, mas um espectro que regressava do outro mundo. Ia affastar-me, quando ouvi a voz de Helena perguntar á mãe: «Papae?» Voltei-me. Angela envolvêra o rosto da creança entre seus vestidos. O gesto equivalia a uma confissão; mas ésta foi ainda mais clara quando a mãe, cedendo á boa parte da sua natureza, ergueu resoluta os hombros, descobriu o rosto da filha, pousou-lhe um beijo na testa, fitou-a e fez com a cabeça um gesto affirmativo. A menina não exibiu mais; correu para mim e atirou se me nos braços. Angela não se atreveu a impedir o movimento da filha; o passado e o sacrificio falavam em meu favor. Abracei Helena e beijei-a como doudo. Angela interveio: «Basta!» disse ella. Pegou na mão da filha e estendeu-me a sua. Apertei-a machinalmente; meus olhos estavam pregados na creança. Era tão gentil, com o vestido rico que trazia, os cabellos enlaçadas com fitas azues, um chapellinho de palha e os pesinhos calçados com botinas de seda! «Fez bem, disse eu a Angela, depois de alguns instantes; deu-lhe um pae melhor do que eu.» Reparei então que ella propria se transformára; trajava com elegancia e estava superiormente bella. A abastança aperfeiçoára a natureza. Olhei-a sem inveja nem colera,—mas com saudade,—dessa vez deliciosa, porque rememorei os bons tempos da nossa ebriedade e loucura. O passado é um peculio para os que ja não esperam nada do presente ou do futuro; ha alli sensações vivas que preenchem as lacunas de todo o tempo. «Fez mal,»—disse-me ella baixinho. E suspirou. «Sei que morri,—disse eu, e não pretendo resuscitar.» Depois voltei-me para Helena:—«Minha filha, faze de conta que me não viste; morri, para ti e para o mundo. Teu pae é outro. Promettes que não dirás nada?» Helena fez um leve signal de cabeça e beijou-me a mão a furto, como se não quizesse ser vista de Angela. Nesse simples gesto reconheci que ella ia obedecer-me; mas a tristeza que lhe ficou foi o castigo de sua mãe. Pediamos á natureza mais do que ella podia dar.

Salvador fez uma pausa, ergueu-se foi à commoda, e de uma das gavetas tirou uma caixinha, que collocou sôbre a mesa. Melchior e Estacio trocaram um olhar de curiosidade. Salvador sentara-se de novo.

—Angela morreu,—proseguiu elle,—dahi a um anno. Seu pae e alguns amigos poucos foram leval-a á sepultura. Tambem eu la me achei. A differença é que elle enterrava uma aventura, e eu via enterrar o meu passado. Vi-o triste e taciturno, como sinceramente pezaroso da creatura que perdéra. Helena, entretanto, não podendo estar só na mesma casa, foi removida para o collegio, onde ficou residindo definitivamente. O conselheiro ia visital-a todas as semanas. Pela minha parte, certo da discrição de minha filha, encetei com ella uma correspondencia que era toda a consolação que me podia caber. Uma escrava do collegio servia de intermediaria entre nós. Então, como hoje, achei uma alma compassiva que me ajudou a ser feliz com mysterio; a differença é que naquelle tempo era precisa a intervenção pecuniaria. Eu tinha pouco, mas dava o jantar de um dia para ler cartas de Helena. Conservo-as todas, tanto as de outr'ora, como as destes últimos mezes; estão fechadas aqui.

Salvador mostrou a caixinha que collocára sôbre a mesa.

—Um dia, almoçando em um botequim, li a notícia da morte do conselheiro. O facto consternou-me; mas eu peço licença para lhes dizer tudo; de envolta com o sentimento, de pezar, houve em mim alguma cousa semelhante a uma satisfação. Respirava enfim! O contracto expirava com elle; eu ia entrar na posse de minha filha. Não escrevi desde logo a Helena; fil-o ao cabo de alguns dias. Tive duas respostas: a primeira era no sentido da minha carta; a segunda annunciava-me que o conselheiro a reconhecêra por testamento. Podia procurar e ler-lhes a segunda carta: é um documento da elevação dos sentimentos daquella menina. Exprimia-se com a maior gratidão e saudade a respeito do conselheiro; mas negava-se a aceitar o favor posthumo. Sabendo a verdade, não queria escondel-a ao mundo. Acceitando o reconhecimento, entendia que prejudicava direitos do terceiro, além de repudiar-me solennemente, o que não queria fazer desde que adquiria a liberdade de acção. Entre a herança e o dever, dizia ella, escolho o que é honesto, justo e natural. Esta carta tirou-me o somno uma noite inteira, perplexo como fiquei entre o acto do finado e a resolução da herdeira. Que mão invisivel tocára no coração do conselheiro essa corda de sensibilidade? Melhor fora que elle houvesse traduzido era uma simples lembrança a affeição que tinha a Helena. Longo tempo reflecti nisso; o pae luctava com o pae. Tel-a commigo era a minha ventura, o meu sonho, a minha ambição; era a realidade que eu chegára a tocar com as mãos. Mas podia atal-a ao carro decrepito da minha fortuna, dar-lhe o pão amargo, que era o meu lote de todos os dias? A familia do conselheiro ia afiançar-lhe futuro, respeito, prestigio; a lei ia amparal-a. Perguntei a mim mesmo, se depois de haver morrido para o mundo, me era licito resuscitar para reclamar e rehaver um titulo de que me havia despojado; finalmente se possuia ja o direito de fazer um escandalo. Éstas reflexões, se viessem sos, teriam triumphado desde logo; mas, em opposição a ellas, vieram as suggestões do coração. Adverti que, cedendo á vontade do morto, cavaria um abysmo entre mim e Helena, e que não mais, ou só raramente e a o occultas, podia desfructar, a felicidade de lhe dizer que a amava, de ouvir a mesma palavra de seu coração. Nessa lucta gastei tres longos dias. Helena escreveu-me outra carta, insistindo na resolução que dizia haver tomado. Urgindo responder-lhe, fil-o sacrificando-me, não a convenci. Procurei ter uma entrevista com ella. Não era facil; mas o interesse venceu tudo; a escrava intermediaria augmentou o preço da complacencia. O que se passou entre nós não o poderei repetir agora; curto era o prazo concedido, mas a lucta foi renhida e longa. Busquei persuadil-a com reflexões e súpplicas; ella resistiu com indignação e lagrymas. Sua nobre alma repudiava a complicidade e o lucro de uma usurpação. Eu não via usurpação, por que a meus olhos nem os interesses da familia do conselheiro, nem as noções da simples moral prevaleciam: eu via minha filha e seu futuro: nada mais. Talvez os culpados desse meu proceder fossem somente Angela e seu bemfeitor. Elles me acostumaram a amal-a de longe, a não disputar a outrem o beneficio que ella recebia. Emfim, meu coração, egoista e ulcerado, entendia que o reconhecimento daquella pobre creança era o simples retorno das caricias de que eu havia sido defraudado; taes foram os motivos da minha consciencia. Helena resistiu até á ultima; cedeu somente á necessidade da obediencia, á imagem de sua mãe que eu invoquei, como um supremo esfôrço, á fiança que lhe dei de que a acompanharia sempre, de que iria viver perto della, onde quer que o destino a levasse; cedeu exhausta, sem convicção nem fervor. Se nesse acto decisivo de Helena ha culpa, é toda minha, por que eu fui o o autor unico; ella não passou de simples instrumento, instrumento rebelde e passivo. Seu êrro foi não ter a prudencia necessaria para não transpor o abysmo que nos separava. Eu devia contar com na resoluções subitas e promptas dessa menina; ha alli uma costella de sua mãe. Mandando-lhe dizer com as indicações precisas, onde morava, estava longe de esperar que ella viesse ver-me. A principio fiquei atterrado com as possiveis consequencias; mas se o homem se habitua ao mal e á dor, por que se não hade acostumar ao prazer e ao bem? Helena veiu mais vezes; o gôsto de a ver fez olvidar o perigo, e eu bebi, em horas escassas e furtivas, a unica felicidade que mo restava na terra, a de ser pae e a de me sentir amado por minha filha.




CAPITULO XXVII


Tinha acabado; grossas lagrymas, retidas a custo, emfim lhe rebentaram dos olhos e rolaram pelo rosto abaixo do narrador. A commoção não ficou só nelle; seus dous ouvintes a sentiram tambem. Acabára; e o peor que podia acontecer era isso mesmo. Uma vez finda a narração, ficaram os dous calados e perplexos, sem que ousassem contradizel-o. Depois de curta pausa, Salvador rematou assim:

—De tudo o que lhes disse não tenho outras provas, além destas cartas, que seriam bastantes, o de minhas lagrymas, que hão de ser eternas. Mas ainda quando haja outras, creio que não serão precisas. Na situação em que estamos só ha duas soluções possiveis; ou nada se altera do que o conselheiro estatuiu, e somente eu carregarei as consequencias da sorte, desaparecendo; ou a familia regeita Helena, e eu a levarei commigo. Dir-se-ha que a lei a protege a todo trance? Pois ella assignará todas as desistencias necessarias.

Estacio cortou-lhe a palavra dizendo que opportunamente lhe dariam sua resolução. Sahiram elle e Melchior logo depois; não trocaram uma só palavra; cada um delles ia absorto. Comtudo, o padre observava de quando em quando o sobrinho de D. Ursula, buscando adivinhar-lhe os pensamentos.

Chegando á porta da chacara, o padre perguntou ao moço:

—Que pretende fazer?

—Não sei ainda.

—Sei eu o que deve fazer: nada.

—Conservar ésta situação?

—De certo. Helena obedeceu á vontade de seus dous paes, aceitando o equívoco em que ambos a vieram collocar. Obedeceu á fôrça. Agora, está reconhecida; é um facto que não podemos discutir nem alterar.

Estacio esteve silencioso alguns instantes.

—Mas posso eu, á vista do que acabamos de ouvir, conservar a Helena um titulo que rigorosamente lhe não pertence? Helena não é minha irmã; é absolutamente extranha á nossa familia; o titulo que nos ligava desaparece. Por que motivo continuariamos nós uma falsificação...

—De seu pae? atalhou Melchior.

—Padre-mestre!

—Aquelle homem falou verdade; mas nem a lei nem a Egreja se contentam com essa simples verdade. Em opposição a ella, ha a declaração derradeira do um morto. A justiça civil exige mais do que palavras e lagrymas; a ecclesiastica não extingue, com um traço de penna, a affirmação posthuma. Demais, não espere que esse homem reproduza perante ninguem as declarações de ha pouco; só o fará quando perder a ultima esperança. É evidente que elle nada quer alterar do que seu pae estabeleceu, e antes se sacrificará do que envergonhará a filha. Sente-se disposto a fazer o que elle recusa?

Estacio não respondeu; tinham entrado na chacara, e caminhavam lentamente na direcção da casa. Melchior deteve-o.

—Estacio! disse o padre depois de olhar para elle um instante. Eu leio no fundo de seu pensamento; quizera despojar Helena do titulo que seu pae lhe deixou para lhe dar outro, e ligal-a á sua familia por differente vínculo...

Estacio fez um gesto como protestando.

—Esquece duas cousas graves; o escandalo e o casamento de um e outro; ja se não pertence, nem ella se pertence a si. Vamos la; seja homem. Sepultemos quanto se passou no mais profundo silêncio; e a situação de hontem será a mesma de amanhã.

Quando Estacio e Melchior entraram era casa, ja D. Ursula sabia tudo; lográra desatar a lingua de Helena. Abatida com a leitura da carta, não lhe levantára o ânimo a narração verbal da moça; seu coração preferia talvez que Helena fôsse verdadeiramente filha do conselheiro. Alguns mezes de espaço e a convivencia affectuosa produziram a differença de sentimento entre o primeiro e o último dia.

—Nada podemos fazer ja agora, disse o padre; provocariamos um escandalo sem esperança do resultado.

D. Ursula fez um gesto de assentimento. Chamada a ouvil-os. Helena desceu dahi a alguns minutos. A côr da vergonha tingiu-lhe a face logo que ella deu com Estacio, que a esperava, ao lado de Melchior, ambos calados, mas sem nenhum vislumbre de irritação. Apos um silêncio longo e abafado, Estacio communicou a Helena a resolução da familia e seus sentimentos de generosidade e confiança; concluiu dizendo que sôbre todas as cousas prevalecia a vontade derradeira de seu pae. Helena empallideceu e cerrou os olhos; D. Ursula correu a amparal-a. O organismo debilitado pelas vigilias e commoções das últimas horas não pudera resistir; mas o deliquio foi leve e curto. Voltando a si, Helena beijou ardentemente as mãos de D. Ursula e as do padre, estendeu a dextra a Estacio, que a apertou; depois, com voz trémula, mais firme resolução, disse:

—Meu coração ficará eternamente grato ao resto de estima que não perdi; mas a situação mudou, e fôrça é mudar com ella. Não quero a protecção da lei, nem poderia receber a complacencia de corações amigos. Commetti um erro, e devo expial-o. Emquanto a vergonha vivia só commigo, era possivel continuar nesta casa; eu atordoava-me para esquecel-a; mas agora, que é patente, vel-a-hei nos olhos de todos e no sorriso de cada um. Peço-lhes que me perdoem e me deixem ir! Não devêra ter entrado, é certo. Expio a fraqueza de um coração que eu me habituára a amar de longe, com o prestigio de mysterio, e o encanto do fructo prohibido. De hoje em diante, amal-os-lei de longe ou de perto, mas extranha... e perdoada!

Dizendo isto, Helena abraçou D. Ursula como a pedir o beneficio da sua intervenção. D. Ursula abraçou-a egualmente, mas fez com a cabeça um gesto negativo. Melchior observou que a repulsa era pelo menos um symptoma de desprendimento pouco explicavel em relação á familia, que, sem embargo dos ultimos successos, não lhe retirára nem a estima nem a protecção.

—Herdou o orgulho de seu pae! murmurou Estacio.

A phrase foi dita em voz baixa, mas Helena ouviu-a, e seus olhos fulgiram de momentanea satisfação. Attribuir a orgulho, o que era vergonha e remorso, dava-lhe certa superioridade que a moça julgava não ter naquelle lance. Protestou em favor de seus sentimentos de gratidão, com a palavra viva, animada, cordial que todos tres lhe conheciam, mas interrompida a intervallos pela commoção interior, e pelos lagrymas que lhe escorriam dos olhos, quasi exhaustos de chorar. Estacio poz termo a todas as hesitações.

—Pois bem, disse elle, será isso mais tarde; a lei é por nós; e nossa vontade é que nos obedeça.

Helena mordeu o labio com desesperação, mas não respondeu. A cabeça descahiu-lhe lentamente como ao pêso de uma ideia a mais e mais oppressora. Depois ergueu-a; seus olhos tristes, mas animados dos ultimos raios de uma esperança, dirigiram-se para os de Estacio, que nessa occasião pareciam falar as dores todas da paixão suffocada e rebelde. Ambos elles os baixaram á terra, medrosos de si mesmos.

—Não creio que ella aceite facilmente a sua decisão,—disse Melchior a Estacio, logo que pôde achar-se só com elle. Acautele-se: é capaz de fugir-nos.

—Cre?

—Não a conhece ainda? A posição em que estes acontecimentos a deixaram repugna-lhe mais que tudo. Prefere a miseria á vergonha; e a ideia de que interiormente não a absolvemos, é o verniz que lhe fica no coração.

De noite, recebeu Estacio uma carta de Salvador, acompanhada de um pacote.

«Reflecti muito durante éstas duas horas,—dizia elle,—e cheguei a uma conclusão unica. Elimino-me; é o meio de conservar a Helena a consideração e o futuro que lhe não posso dar. Quanto ésta carta lhe chegar ás mãos, terei desaparecido e para sempre. Não me procure, que é inutil. Irei abençoal-o de longe. Recaia, entretanto, sobre mim todo o resentimento; eu só o mereço, porque só eu o provoquei. Vão as cartas de Helena; guardo tres apenas, como recordação da felicidade que perdi.»

Estacio teve vontade de ler as cartas de Helena; mas a tempo recusou; mandou-a dar á moça. Helena, que estava com D. Ursula, entregou-as a ésta.

—São a minha história, disse ella; peço-lhe que as leia e me julgue.

Havia em seus olhos uma expressão que não era usual. Recolheu-se immediatamente a seu quarto, onde jazeu longo tempo, calada, quieta, sinistra, o corpo atirado em um sopha, a alma sabe Deus em que regiões de infinito desespêro.




CAPITULO XXVIII


Naquella noite, a segunda de tão singulares successos, foi que Estacio sentiu toda a violencia do amor que lhe inspirára Helena. Em quanto os detinha um vínculo sagrado, amára sem consciencia; e ainda depois de esclarecido pelo padre, o esfôrço empregado em vencer-se, e a propria natureza da catastrophe, não lhe permmittiram ver a extensão do mal. Agora, sim: roto o vínculo, restituida a verdade, elle conhecia que a voz da natureza, maia sincera e forte que as combinações humanas, os chamava um para o outro; e que a mulher destinada a amal-o e ser amada, era justamente a unica que as leis sociaes lhe vedavam possuir.

Durante as primeiras horas seu coração mordeu rebelde o freio da necessidade. A vigilia foi longa e crua; e a reflexão veiu emfim dominar a tempestade interior, ou antes alumiar seus destroços. Elle viu que o padre tinha razão; que era fôrça desfolhar a esperança de um dia. Ao mesmo tempo, o exemplo de Helena deu-lhe ânimo. Senhora do segrêdo de seu nascimento, e consciente de amar sem crime, a moça apressára, não obstante, o casamento de Estacio e escolhêra para si um noivo estimado apenas. Se uma vez a palavra delatora lhe rompeu dos labios, ella a retrahiu logo, fazendo o mais obscuro dos sacrificios.

Não quiz Estacio ser menos generoso. Logo de manhã escreveu a Mendonça, pedindo-lhe que não deixasse de os ir visitar nesse dia. Não o fez sem custo, mas fel-o sem arrependimento. Tinha por fim apressar o casamento de Helena e o seu, condemnando-se a soffrer calado os golpes do avêsso destino.

A manhã, entretanto, não trouxe a Helena o esquecimento e a paz. A noite não lhe serviu de remedio, antes legou á aurora toda a sua mortal angústia. Debilitada, nervosa, impaciente, não podia a moça vencer-se nem supportar-se. Ora repellia com sequidão as boas palavras de D. Ursula; ora lhe pedia intercedesse com Estacio para a resolução que ella admittia como unico meio de a poupar á vergonha. A excitação moral era grande; cumpria aquietal-a por meios persuasivos. Helena fugia a todos: não encarava Estacio e D. Ursula sem que o pêjo lhe colorisse a face, mudança tanto mais visivel, quanto que a vigilia e a dor a tinham empallidecido singularmente. Diziam-lhe que a vontade do conselheiro estatuira uma lei na familia, segundo a qual ella continuava a ser parenta como d'antes, e tão amada como era. A moça agradecia a generosidade, mas não podia fugir á ideia de haver contribuido para uma usurpação. Seu desejo capital era que a deixassem ir ter com o pae, ao pe de quem a natureza e sua consciencia lhe indicavam que poderia estar sem remorso. Estacio e D. Ursula respondiam-lhe com affagos e protestos; mas quando viram que estes eram inuteis, não houve mais que revellar-lhe a carta de Salvador.

O padre Melchior incumbiu-se de lhe fazer essa delicada communicação.

—Seu pae, disse elle, praticou em seu favor um acto heroico; fugiu para lhe não fazer perder a consideração e o futuro. Leia ésta carta, e veja se ella lhe dá a fôrça necessaria para resistir.

Helena pegou na carta com soffreguidão; leu-a de um lance d'olhos. O gemido que lhe rompeu do coração mostrou bem a profundez da ferida que acabava de receber. O padre acolheu-a lacrymosa e esvaecida em seus braços; disse-lhe palavras de conforto e de esperança. Nos primeiros minutos, Helena nada pôde ouvir; o golpe ensurdecêra a alma. Melchior fel-a sentar ao pe de si; ella obedeceu sem consciencia. Apos alguns minutos de silêncio e concentração, a moça dirigiu a palavra ao padre, e agradeceu-lhe a caridade. Depois referiu-lhe os acontecimentos de sua infancia, os mesmos que o capellão ouvira. A sagacidade natural de seu espirito cedo lhe fizera ver que a posição de sua mãe não era a mesma das outras mães; essa descoberta porém não teve outra virtude mais que communicar a seu amor de filha uma intensidade e energia capazes de affrontar os mais fortes obstaculos, como se ella quizesse reunir em si toda a somma de affectos e respeitos que a sociedade afiança ás situações regulares. Melchior ouviu-a commovido; seu coração, nutrido da medulla do Evangelho, reconheceu um effeito da graça divina nesse amor immaculado, que valia por todas as absolvições da terra. Elle a applaudiu e confortou; falou-lhe do futuro, do carinho de sua familia,—sua, a despeito de tudo; emfim da obrigação em que ella estava de corresponder a tanta confiança.

Talvez Helena, em sua razão, correspondesse aos conselhos de Melchior; mas a razão é o que menos a dirigia naquellas circumstâncias afflictivas. Ella deixou o padre para recolher-se a seus aposentos, Quando D. Ursula alli foi, meia hora depois, achou-a profundamente abatida; a violencia da crise passára. A linguagem que lhe falou foi maternal, ungida de amor e perdão; Helena ouviu-a agradecida, mas um sorriso descorado e sem convicção lhe entre-abria os labios. Suppunha ler commiseração onde havia affecto e respeito; e seu orgulho rebellava-se de inspirar o unico sentimento que a consciencia lhe dizia merecer.

As instancias de D. Ursula para que Helena se alimentasse foram inuteis; ella apenas recebia o que bastava para não sucumbir á fome. A companhia repugnava-lhe; assim, poucas vezes a viram desde os dias que se seguiram áquella funesta manhã. Mendonça não conseguiu mais do que os outros. A familia teve o cuidado de annunciar que Helena se achava enferma. A afflicção do noivo foi grande; mas todos buscaram tranquilizal-o. Nada havendo transpirado do acontecimento, facil foi sustentar aquella explicação.

Melchior encommendára muito á familia que vigiaste a moça, cujo espirito lhe parecia atrevido e tenaz; elle receiava que Helena ou fugisse de casa, ou recorresse a algum acto de desespêro. O summo padre desvellou-se em trazer a alma de Helena ao sentimento da resignação, A autoridade de seu caracter religioso, a influência que elle tinha no espirito de Helena eram armas poderosas, temperadas como amor verdadeiro e paternal que o ligava á donzella. Nada poupou; mas seus esforços não tiveram mais fructo, que os da familia. Helena mal podia tolerar a situação.

Uma vez, como ella descesse á chacara, sahiu Estacio a procural-a, não a encontrando senão ao cabo de alguns minutos. Achou-a ao pe do tanque, no lugar em que lhe falára poucos dias antes, sentada no mesmo banco de pau. Vendo-o, estremeceu; elle approximou-se contente de a haver encontrado emfim. O dia estava feio; grossas nuvens negras pejavam o ar, humidas de temporal proximo. Estacio convidou-a a recolher-se.

—Deixe-me estar aqui um instante mais, respondeu ella.

—Dous minutos apenas.

Sentou-se ao pe della e ficaram calados. Helena tinha uma taquara na mão; Estacio quiz tomar-lh'a; ella arremessou-a para longe. Ergueu-se então o moço e foi buscal-a; só então viu que estava molhada até certa altura; calculou que seria o fundo do tanque. O tanque era raso; não poderia dar a morte; mas a suspeita de que Helena não recuaria deante do suicidio aterrou naturalmente o espirito de Estacio. Parecendo-lhe que a causa não comportava o effeito, perguntou a si mesmo se os successos daquelles dias não teriam velado a consciencia da moça. Sentou-se de novo e falou-lhe com brandura.

Ao escutal-o, sentiu Helena como uma ressurreição de outras horas, que ella julgava escoadas para sempre; um sorriso lhe animou os labios sem côr, ao passo que os olhos doridos e murchos pareciam reviver de um resto de luz. Estacio falou-lhe de si, da tia, do padre e de Mendonça, dos proximos casamentos, da felicidade futura. Depois insistiu com ella para que entrasse. Uma brisa mais forte começava a agitar as árvores, e a tempestade ameaçava cahir de repente.

—Ainda não,—disse a moça; alguns minutos mais.

—Mas póde adoecer...

—Talvez, se todos quizerem a minha saude. Ha creaturas tão malfadadas, que aquelles mesmos que as desejam fazer venturosas não alcançam mais do que preparar-lhe o infortunio. Tal foi o meu destino. Seu pae e minha mãe não tiveram outro pensamento; meu proprio pae foi levado do mesmo impulso, quando me obrigou a ser complice de uma generosa mentira. Agora mesmo que elle me foge, com o fim unico de me não tolher a felicidade, arranca-me o ultimo recurso em que eu tinha posto a esperança.

—Helena! interrompeu Estacio.

—O ultimo, repetiu a moça.

Esvaira-se-lhe o sorriso, e o olhar tornara a ser opaco. Estacio teve medo daquella atonia e concentração; travou-lhe do braço; a moca estremeceu toda e olhou para elle.

A princípio foi esse olhar um simples encontro; mas dentro de alguns instantes era alguma cousa mais. Era a primeira revellação, tacita mas consciente, do sentimento que os ligava. Nenhum delles procurára esse contacto de suas almas, mas nenhum fugiu. O que elles disseram um ao outro, com os simples olhos, não se escreve no papel, não se póde repetir ao ouvido; confissão mysteriosa e secreta, feita de um a outro coração, que só ao ceu cabia ouvir, por que não eram vozes da terra, nem para a terra as diziam elles. As mãos, de impulso proprio, uniram-se como os olhares; nenhuma vergonha, nenhum receio, nenhuma consideração deteve essa fusão de duas creaturas nascidas para formar uma existencia unica.

O vento tornara-se mais rijo; uma lufada os despertou,—em ma hora, por que ha sonhos que deviam acabar na realidade do outro seculo. Estacio ergueu-se; sacudiu valorosamente o torpor da felicidade, e reassumiu o papel que seu pae lhe assignára ao pe de Helena. Ésta desviou os olhos e cravou-os na agua, fascinada e absorta. A ideia do suicidio roçaria devéras sua aza invisivel pela fronte da moça? Estacio foi a ella, pegou-lhe nas mãos e convidou-a a sahir dalli.

—Entremos,—disse elle pela terceira vez, olhe que vae chover.

Helena deixou-se levantar; um calafrio percorreu-lhe o corpo todo, e as mãos, que o moço ainda tinha entre as suas, estavam muito mais quentes que o natural.

—Ande repousar, continuou Estacio; póde adoecer, e não tem direito para tanto; nossa affeição não o consentirá nunca. Vamos.

—Amar-me-hão sempre? perguntou Helena.

—Oh! sempre!

—Impossivel! Ha uma voz no fundo de seu coração, que lhe dirá, de quando em quando, ésta triste palavra: aventureira!

—Helena!

—Não posso ser outra cousa a seus olhos, proseguiu a moça tristemente. Quem o convencerá de que a declaração de seu pae não foi obtida por artificios de minha mãe? Quem lhe dará a prova de que, cedendo aos rogos de meu pae, não fiz mais do que executor ura plano preparado ja? São dúvidas que lhe hão de envenenar o sentimento e tornar-me suspeita a seus olhos. Resista quem puder; é me impossivel encarar semelhante futuro!

Helena cahíra offegante no banco. Estacio falou-lhe com abundancia e ternura; jurou-lhe que sua familia era incapaz da minima suspeita; pediu-lhe por seu pae que não julgasse mal delles. Ella sorriu, mas foi um sorrir de incredula.

Grossos pingos de chuva começavam a rufar nas árvores. Estacio pegou na mão de Helena para conduzil-a a casa. A moça fugiu-lhe, indo collocar-se alguns passos adeante, onde a chuva lhe cabia mais em cheio na cabeça nua e no corpo levemente coberto. Quando Estacio, desvairado de terror, correu para ella, Helena affastou-se delle; mas nem seus pes o poderiam vencer nunca, nem lh'o permittiam agora as fôrças quebradas por tantas e tão profundas commoções. Elle alcançou-a; estendeu o braço em volta da cintura da moça, dizendo:

—Que capricho é esse? Vamos embora; eu quero que venha commigo para dentro.

Ao sentir o braço de Estacio, Helena estremeceu e fez um movimento para arredal-o de si; mas a fraqueza trahiu-lhe o instincto de seu melindroso pudor. Ella fitou no moço uns olhos de corça moribunda; as pernas fraquearam, e o corpo esmorecido iria a terra, se lh'o não sustivessem as mãos de Estacio.

—Deixe-me morrer! murmurou ella.

—Não! bradou o mancebo.

Com um gesto rapido, tomou nos braços, estendida, o corpo exhausto de Helena, e caminhou na direcção da casa. O vento flagellava-os; a chuva, que subitamente cahia a jorros, alagava-os sem misericordia; elle ia andando, o mais depressa que lhe permittia o pêso de Helena, cuja cabeça pendia para a terra, e de cujos labios brotavam trechos soltos de phrases sem sentido.

D. Ursula viu entrar aquelle doloroso expectaculo; correu a receber Helena, que Estacio depositou em um sopha, donde foi transferida ao leito. A febre, ja começada antes della sahir, tomára conta emfim da pobre moça. Um médico foi chamado á pressa; o padre Melchior correu por baixo d'agua até a casa de Estacio. As primeiras horas foram de anciedade e susto; o estado da doente era grave; assim o disse o médico; assim o tinham já sentido os corações amigos.

D. Ursula pagou naquella occasião os serviços que, em caso analogo, lhe prestára Helena, mau grado e pêso dos annos, que lhe não permittiam longas vigilias nem aturado trabalho. Velou a boa senhora á cabeceira da enferma, durante essa primeira noite de incerteza e terror. Mendonça, que alli fôra sem suspeitar nada, por que a doença que lhe disseram ter padecido Helena, suppunha elle ser passageira, e em tudo caso, estar quasi extincta, Mendonça recebeu essa triste notícia com a morte no coração.

Durante sete dias o estado de Helena apresentou alternativas que lançavam na alma dos seus a confiança e a desesperação. Algumas horas houve de delirio, durante o qual dous nomes volviam frequentemente aos labios da enfêrma,—o de Estacio e o de seu pae. Nas horas da razão, falava pouco, não proferia nenhum nome, salvo o de Melchior que ella queria ver juncto de si. O capellão obedecia docilmente. Ao pe della, via-a com pena, mas sem desesperação; primeiramente, por que elle aceitava sem murmurio os decretos da vontade divina; depois, porque não sabia ao certo se, em tal situação, era a vida melhor do que a morte. Em todo o caso consolava-a; e suas palavras cahiam no coração de Helena como um orvalho do ceu.