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Helena

Chapter 36: FIM
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About This Book

The narrative opens with the sudden death of a respected elder and the reading of a will whose unexpected clause brings a young woman into his household. Her arrival unsettles his son and sister, provoking questions of inheritance, legitimacy, and social reputation while entangling private affections and restrained romantic interest. Through close domestic scenes and careful psychological observation, the work examines family secrets, honor, and tensions between public standing and private desire, gradually revealing characters' motives and moral ambiguity as relationships and social expectations evolve.

No quarto dia chegou a familia de Camargo, sabendo da doença de Helena apressou-se a ir a Andarahy. Ao ver Eugenia, a moça sorriu tristemente, lampejo de inveja, que para logo se apagou e morreu no coração.

Estacio mal ousava entrar na alcova da doente e não podia viver fóra della. Sua afflicção era patente. Elle promettia a si mesmo todos os sacrificios em troca da vida de Helena, espreitava uma esperança no rosto do médico, e interrogava o coração da tia e do padre. Na noite do setimo dia da scena do jardim, D. Ursula, que ficára ao pe de Helena, mandou chamar á pressa o sobrinho e o padre Melchior, que estavam na sala contigua. Accorreram os dous. Helena tivera uma syncope, que D. Ursula cuidára ser a morte. Voltando a si, leu a moça a sua sentença no rosto de todos tres.

—Ainda não, murmurou ella: ainda não é a morte.

D. Ursula chegou-se-lhe mais perto, beijou-a, disse-lhe algumas palavras de conforto.

—Deixe estar, respondeu ella, deixe que eu não morro; estou só muito doente.

Estacio buscou animal-a, mas a voz morreu-lhe ás primeiras expressões, e elle sahiu. Melchior acompanhou-o.

—Uma cousa poderia talvez saval-a, disse afflicto o moço; era o presença do pae. Vou mandal-o procurar por toda a parte. Havemos de achal-o; é preciso que o achemos.

Melchior approvou a ideia do mancebo: e não lhe disse que o remedio viria talvez tarde, se viesse. Estacio ordenou as cousas para a seguinte manhã. Voltaram á alcova da enferma. Ésta fechara os olhos como se dormisse. Houve então entre aquellas quatro paredes meia hora de silêncio, interrompido apenas, de quando em quando, pelos movimentos que a doente fazia, como a querer mudar de posição. No fim desse tempo, abriu os olhos e murmurou algumas palavras. Chegou o médico, viu-a e desenganou a familia.

Em quanto Melchior dava as ordens precisas para que Helena tivesse os socorros espirituaes, Estacio sahiu dalli, para ir, longe, desabafar seu desespêro; desceu á chacara, vagou por ella delirante, a soluçar como uma creança, ora abraçado a uma árvore, ora ajoelhado e pedindo a Deus a vida de Helena. Seu coração não conhecia o fervor religioso; mas a imagem da morte deu-lhe o que a vida lhe levára, e elle rezou, rezou sosinho, sem hypocrisia nem dúvida. Mendonça veiu achal-o nessa lucta derradeira entre a realidade e a esperança. Não o consolou; seu peito não tinha consolações que distribuir, porque tambem a dor lhe devastára o coração. Nos braços um do outro, choraram o mesmo bem que se lhes ia embora.

Um escravo veiu chamar Estacio á pressa; elle subiu tropego as escadas, atravessou as salas, entrou desvairado no quarto, e foi cahir de joelhos, quasi de bruços, juncto ao leito do Helena. Os alhos desta, ja volvidos para a eternidade, deitaram um derradeiro olhar para a terra, e foi Estacio que o recebeu,—olhar de amor, do saudade e de promessa. A mão pallida e transparente da moribunda procurou a cabeça do mancebo; elle inclinou-a sobre a beira do leito, escondendo as lagrymas e não se atrevendo a encarar o final instante. Adeus!—suspirou a alma de Helena rompendo o envolucro gentil. Era defuncta.

A noite foi cruel para todos. D. Ursula, profundamente abatida pela dor e pelas vigilias, não consentiu, ainda assim, que outras mãos amortalhassem Helena; ella mesma lhe prestou esse derradeiro e triste obsequio. A morte não diminuíra a belleza da donzella; pelo contrário, o reflexo da eternidade parecia dar-lhe um encanto mysterioso e novo. Estacio contemplou-a com os olhos exhaustos, o padre com os seus humidos. Melchior supportára a dor até o momento da definitiva separação; agora, que a moça se ia de vez, deixou-se abater emfim, ao pe daquelles pallidos restos, despôjo último de generosas illusões.

No dia seguinte, prestes a sahir o entêrro, as senhoras deram á donzella morta as despedidas derradeiras. D. Ursula foi a primeira que lhe prestou esse dever; seguiu-se Eugenia e seguiram as outras. Estacio viu-as subir, uma a uma, o estrado em que repousava a eça. Depois, quando ia fechar-se o feretro, caminhou lentamente para elle; trepou ao estrado, e pela ultima vez contemplou aquelle rosto,—séde ha pouco de tanta vida,—e a coroa de saudades que lhe cingia a cabeça, em vez de outra, que seu coração tinha direito de pousar nella. Emfim inclinou-se tambem, e a fronte do cadaver recebeu o primeiro beijo de amor.

Fecharam o feretro; ao moço pareceu que o encerravam a elle proprio. Sahindo o entêrro, deixou-se Estacio cahir n'uma cadeira, sem pensar nada, sem sentir nada. Pouco a pouco despovoou-se a casa; os amigos sahiram; um só de tantos ainda alli ficou, a lastimar consigo a noiva, tão cedo promettida e tão cedo roubada. Esse mesmo sahiu, emfim, não ficando mais do que a familia, cujo pae espiritual era Melchior.

Sosinho com Estacio, o capellão contemplou-o longo tempo; depois, alçou os olhos ao retrato do conselheiro, sorriu melancholicamente, voltou-se para o moço, ergueu-o e abraçou com ternura.

—Animo, meu filho! disse elle.

—Perdi tudo, padre-mestre! gemeu Estacio.

Ao mesmo tempo, na casa do Rio Comprido, a noiva de Estacio, consternada com a morte de Helena, e aturdida com a lugubre cerimonia, recolhia-se tristemente ao quarto de dormir, e recebia á porta o terceiro beijo de seu pae.




FIM