Ao Ill.mo e Ex.mo Sr.
CONSELHEIRO
MIGUEL MARTINS DANTAS
Ministro de Portugal em Londres{VI}
Ill.mo e Ex.mo Am.o e Sr.
Ha dois ou tres annos, desejando eu obter de Inglaterra um livro que fôra citado no parlamento por um deputado da opposição ao ministerio Beaconsfield, dirigi-me a v. ex.ª, meu collega na Academia, perguntando-lhe se seria possivel alcançal-o. A resposta de v. ex.ª não se fez esperar. Enviou-me o livro pedido, que obtivera com summa difficuldade, e juntamente com elle quantos documentos officiaes se referiam á questão da escravatura, questão de que esse livro se occupava, e que então me captivava mais particularmente a attenção. Foi mais longe ainda a amabilidade de v. ex.ª; enviou-me um livrinho francez, de que eu não tinha conhecimento, intitulado Entretiens populaires sur l'histoire de France, perguntando-me se não seria possivel fazer, com relação{VIII} á historia portugueza, um livro n'esse genero.
Li o livro e achei-o encantador. Tempos depois, encontrei-me com v. ex.ª em Lisboa, e disse-lhe que ía tentar o emprehendimento a que v. ex.ª me incitára, e pedi-lhe licença para lhe dedicar o livro, que fosse o fructo d'essa tentativa. É o que faço agora. Como v. ex.ª verá, o plano da Historia alegre de Portugal é diversissimo do dos Entretiens populaires sur l'histoire de France, mas a Historia alegre vae escripta tambem no tom faceto, folgazão, singelo e popular que achei original, picante e util no livro francez que v. ex.ª me recommendava.
Folgo de ter ensejo de mostrar publicamente a minha gratidão a v. ex.ª pelas provas de estima e de consideração que me dispensou n'esta e n'outras{IX} occasiões, e o alto apreço em que tenho o talento e o saber do escriptor distinctissimo, que renovou completamente, com os seus Faux Don Sébastien, o estudo de uma época interessante da historia portugueza, que nos deu emfim n'esse primoroso livro um estudo profundamente moderno, um estudo, como Gachard os sabe fazer, de um dos episodios mais curiosos e mais romanescos da nossa vida nacional.
De v. ex.ª
Cruz Quebrada, 25 de outubro de 1880.
Att.o v.or e ob.o
INTRODUCÇÃO
O sr. João Martins, mais conhecido pelo nome de João da Agualva, porque morava na pequena aldeia d'este nome, que fica entre Bellas e o Cacem n'um sitio árido e feio, fôra mestre de instrucção primaria numa das freguezias do concelho de Cintra. Conseguira a sua aposentação, e viera para a sua aldeia natal amanhar umas terras que ali possuia, e cujo rendimento o impedira já de morrer de fome nos tempos, em que o Estado lhe pagava munificentemente os noventa mil réis annuaes, com que remunerava n'essa época os primeiros guias do homem nos ásperos caminhos da instrucção. Mas o João da Agualva era homem de uma illustração excepcional. Convivera muito tempo com o prior de Monte-lavar, padre instruido que emprestára{XII} ao bom do professor os livros da sua limitada bibliotheca; em Bellas tambem se relacionára com um engenheiro francez, empregado nas obras de agua de Valle de Lobos, de Broco e de Valle de Figueira, o qual tomára gosto em desenvolver o espirito intelligente e ávido de saber do velho professor. Apezar d'isto vivia modestamente na sua pobre casa, lidando com os saloios que o tratavam com verdadeiro respeito, e tinham por elle um affecto em que entrava um pouco de veneração.
Era no inverno, e o João da Agualva estava passando a noite em casa de uma boa velha, a tia Margarida, viuva de um caseiro do marquez de Bellas, e mãe do Francisco Artilheiro, que, depois de ter servido cinco annos em artilheria, como indicava o seu sobre-nome, viera para Bellas ajudar a mãe a cuidar de umas leiras de terra, que a velhinha herdára do marido. Um grupo de saloios de Bellas e das aldeias proximas, sabendo que o João da Agualva viera para ali seroar, tinham vindo tambem, desejosos de ouvir algumas das historias que o velho ás vezes contava e que entretinham agradavelmente a noite. N'essa occasião, porém, o professor estava macambusio, e, quando o velho Bartholomeu, irmão da tia Margarida, que era dos que mais gostavam de o ouvir, lhe pediu que contasse alguma das suas historias, o bom do João da Agualva abanou negativamente a cabeça.
—Não estou hoje com disposição para historias da{XIII} carochinha, disse elle, e sabem vocês? Tenho andado a matutar n'uma cousa. Não é uma vergonha que vocês saibam de cór as alteiadas historias de cousas que nunca succederam, nem podiam succeder, e não saibam ao mesmo tempo nem o que foram seus paes nem os seus avós, nem o que fizeram, nem como elles viveram, nem o que succedeu n'esta boa terra de Portugal, que nós todos regamos com o nosso suor, que hoje nada vale, mas que deu brado no mundo pelas façanhas que os nossos praticaram?
—Tomára eu saber tudo isso, sr. João da Agualva, disse o Manuel da Idanha, rapazote de cara esperta, moço de lavoura do sr. Garignan, o antigo dono de collegio, que hoje reside na aldeia da Idanha, a cousa de quinhentos metros de Bellas, tomára eu saber tudo isso, mas como ha de ser!? É verdade que, graças a Deus, sei ler e escrever, e lá o patrão emprestou-me uma vez uns livros de historia que eu lhe pedi, mas, mal os comecei a ler, deu-me o somno. Diziam á gente os nomes dos reis e os filhos que tinham tido, e as batalhas que tinham ganho, e mais umas lenga-lengas de que não percebi patavina. Ora, sr. João da Agualva, eu, para dormir, graças a Deus, ainda não preciso de ler historia.
—Mas que diriam vocês, tornou o velho professor, se eu, n'estes nossos serões, lhes contasse, em vez de contos de fadas, e de historias de Carlos Magno, a historia do que succedeu em Portugal? Talvez vocês me{XIV} entendessem, quer-me parecer que se não aborreceriam muito, e, em todo o caso, se se enfastiassem, diziam-m'o francamente, e eu não continuava, porque lá para massador é que não sirvo.
—Ah! sr. João, exclamou o Manuel da Idanha, isso é que era um regalo!
Os outros não disseram palavra, e o João, que os percebeu, riu-se para dentro, e fingiu-se desentendido.
—Pois então, vá feito, eu hoje estou cançado, porque já fui a pé ao Sabugo tratar da compra de um boi, mas amanhã é domingo. Venham vocês á noite aqui para casa da tia Margarida, e eu começarei a minha historia.
No domingo á noite ninguem faltou; mas, se vieram, foi pelo respeito que tinham ao João da Agualva, não porque esperassem divertir-se muito. O Bartholomeu já abria a bôca ainda antes do João da Agualva principiar. Mas o João chegou-se mais para o lume, porque a noite estava fria a valer, sorriu-se, e principiou como o leitor verá no capitulo immediato.{1}
PRIMEIRO SERÃO
O que era Portugal.—Os seus primeiros habitantes.—As colonias estrangeiras.—Os phenicios.—Os gregos.—Os carthaginezes.—Os romanos.—Viriato.—Sertorio.
—Meus amigos, começou o João da Agualva, é de saber que esta terra em que nós vivemos nem sempre foi Portugal, e, se alguem se lembrasse de fallar, aqui ha cousa de uns tres ou quatro mil annos ou mesmo só de mil annos, em Portugal e em portuguezes, havia de ver como todos ficavam embasbacados sem perceber patavina. Isto lá para os antigos era tudo Hespanha, desde os cocurutos dos Pyrinéus, que são uns montes que separam a Hespanha da França, até essas aguas do mar que cercam por todos os lados a nossa terra, mais a dos hespanhoes, e até por estar este pedação de terra cercado de agua por toda a parte, menos pela banda dos Pyrinéus, é que se chama a isto peninsula,{2} que quer dizer uma cousa que é quasi uma ilha, mas que o não vem a ser de todo.
—Bem sei, bem sei! peninsula é onde houve uma guerra em que entrou meu avô! exclamou o fallador do Manuel da Idanha.
—Mette a viola no sacco, Manuel, quem muito falla pouco acerta. Lá chegaremos á guerra da peninsula. Roma e Pavia não se fez n'um dia.
—Pois então, vá lá vocemecê contando a sua historia.
—Como eu ía dizendo, esta peninsula, a que se chama Hespanha e Portugal, era então só Hespanha. Hespanhoes éramos nós todos...
—Menos eu! acudiu o Bartholomeu, levantando-se todo furioso, hespanhol é que nunca fui, nem sou, nem serei. Vae aqui tudo raso, se...
—Espera, homem de Deus! Que tem que tudo isto fosse hespanhol se nunca mais o ha de ser? Tambem a Hespanha, e a França, e a Inglaterra, e a Italia, e a Grecia, e o Egypto foi tudo imperio romano, e vae lá dizer agora a essas nações todas que se sujeitem ao mesmo governo! Tambem a França d'antes se chamava Gallia e estendia-se pela Belgica fóra, e mais pela Suissa, e, se o Gambetta, ou quem é que governa lá na França, quizesse por isso empolgar a Suissa e a Belgica, ía ahi em toda a Europa uma berraria de seiscentos demonios.{3}
—Pois sim, resmungou o Bartholomeu sentando-se de mau humor, mas não me digam a mim que eu fui hespanhol.
—Ora, meus amigos, quem foram os que primeiro moraram cá n'este canto de terra é que ninguem sabe. Seriam uns iberos, que fallavam uma lingua arrevesada, assim a modo similhante á que fallam hoje os hespanhoes das Vascongadas que nem o demo entende? Isso é que lhes não posso dizer. O que sei é que, quando a Hespanha começou a ser conhecida, havia aqui uma sucia de povos que era uma cousa por demais, turdetanos para um lado, celtiberos para outro, ilergetas para aqui, bastetanos para acolá. Estava até ámanhã a dizer-lhes nomes estramboticos, se não preferisse fallar-lhes só nos nossos avós, cá nos que moraram na nossa terra.
—Isso é que é! bradaram todos em côro.
—Pois muito bem! Saibam vocês que não era um povo só. No Algarve e n'um pedaço do Alemtejo havia os cuneenses, no resto do Alemtejo, na Estremadura e na Beira moravam os lusitanos, e lá para cima para o Douro, para o Minho e mais para Traz-os-Montes moravam os gallegos.
—Os gallegos! exclamou o irritavel Bartholomeu, veja lá como falla, sr. João da Agualva, olhe que o pae de minha mulher veiu de Traz-os-Montes, e meus sogro não era nenhum gallego, ouviu?{4}
—Valha-te Deus, Bartholomeu, então tu cuidas que os gallegos andam todos com o barril ás costas, e são todos uns grosseirões como os aguadeiros dos chafarizes de Lisboa? Pois digo-te, e depois t'o mostrarei, que de todos os povos lá das Hespanhas foram os gallegos os que mais depressa se poliram. Mas, cala-te bôca, não vá o carro adiante dos bois, e, como tu não queres ser genro de um gallego, sempre te direi que os que moravam para cá do Minho não eram da mesma casta que os de lá. Os nossos chamavam-se Bracharos e os gallegos da Galliza chamavam-se Lucenses.
—Ainda bem! murmurou o Bartholomeu, isso de Bracharos até parece que dá idéa de Braga.
—E é verdade que dá, sr. Bartholomeu, lavre lá dois tentos.
Todos se riram, e o João da Agualva continuou:
—Mas não imaginem que os nossos antepassados eram assim como nós, que viviam em cidades, villas e aldeias, que andavam vestidos dos pés até á cabeça, que tinham espingardas para a caça e para a guerra. Qual carapuça! Eram uns selvagens, uns lapuzes. As armas eram lanças de cobre, e o amante pedregulho, mais uns dardos e uma especie de escudo para se defenderem; fato pouco havia, cabello comprido como o das mulheres, que atavam com uma fita quando tinham de ir para a guerra.{5} As mulheres é que tinham os seus enfeites e os seus bordados, os seus vestidos compridos, etc.
—Pois já se vê que lá as meninas nunca podem passar sem arrebiques! disse o Zé Caneira, relanceando um olhar malicioso para a boa tia Margarida que fiava na sua roca ao pé da lareira.
—Melhor para ellas, ouviu! redarguiu a velha. Que pena que não vivesses n'esse tempo para atares os cabellos com uma fita, quando fosses para a guerra!
Como o Zé Caneira era calvo, uma gargalhada geral acolheu a observação da tia Margarida.
—Em comidas não eram muito requintados, de carne de cabra é que elles principalmente se alimentavam, e o seu pão era cousa de pouca substancia. Bebiam agua, dormiam no chão, os seus barcos eram de couro, matavam gente em sacrificio aos seus deuses, quando tinham algum doente punham-n'o á beira da estrada, quem fazia algum roubo ou outro crime grave era apedrejado. Não passavam de ser uns selvagens. Então que querem? nem os homens nem os povos nascem ensinados. Todos começam assim. Valentes eram elles, isso sim, valentes como touros. Tiveram occasião de a mostrar, porque esta nossa terra foi na antiguidade uma espécie de California.
Por muito tempo ninguem soube d'ella, e os navios da gente civilisada que vivia lá para o Oriente{6} nunca passavam para cá do estreito de Gibraltar, até que um dia passaram os phenicios, gente atrevida, que queriam metter o nariz em toda a parte, e que sobretudo procuravam terras novas para commerciar. Acharam que lhes convinham a Andaluzia e o Algarve, e aqui fundaram algumas colonias, sendo Cadiz a principal. Como tinhamos por cá muitas minas de ouro, e os homens deram sempre o cavaquinho por este metal, estavam os phenicios nas suas sete quintas. Ao mesmo tempo outro povo civilisado do Oriente, os gregos, vieram na piugada dos phenicios, mas esses estabeleceram-se principalmente na Hespanha do lado de lá, onde hoje é a Catalunha, e o Aragão e Valencia, etc.
Os indigenas de cá não se deram mal com os phenicios, emquanto elles se limitaram a trocar as suas fazendas pelo nosso ouro e outras producções, mas, quando viram que os taes estrangeiros começavam a fazer casa, acabaram com o negocio, foram aos gaditanos e deram-lhes uma tareia real.
—Foi bem feito! observou Bartholomeu.
—Mas os phenicios, que estavam muito longe da sua terra, chamaram em seu soccorro os carthaginezes, que eram tambem uns phenicios, quer dizer tinham assim com os phenicios o mesmo parentesco que os brazileiros têem comnosco. Ora os cartagineses viviam aqui mais proximo, ali na Africa, ao pé de Tunis, não muito longe de Argel.{7}
—Argel! exclamou o Francisco Artilheiro, já lá estive.
—Já lá estiveste?
—Já, sim senhor. Quando eu andava ao serviço, e que fui para a India, o vapor que me levou arribou a Argel. É uma bonita terra.
—Já vês que não fica muito longe. Carthago era mais para o lado de lá. Vieram pois os carthaginezes em soccorro dos phenicios, mas gostaram da terra, pozeram fóra os que vinham soccorrer, e á força de bordoada, porque bons guerreiros eram elles, sujeitaram ao seu poder tudo.
—Mas então, tornou o Francisco Artilheiro, vocemecê diz que os nossos eram tão valentes?...
—Ora, que outro me fizesse essa pergunta, vá, mas tu que foste militar! Quem vence é quem tem disciplina. Por mais valentes que os homens sejam, em combatendo sem ordem, um por aqui, outro por ali, um regimento bem formado dá logo cabo d'elles.
—Isso é verdade.
—Estavam os carthaginezes senhores da Hespanha, e, como tinham posto fóra os phenicios, queriam tambem pôr fóra os gregos, quando estes se lembraram de pedir o soccorro dos romanos, que andavam ha muito tempo de rixa velha com os carthaginezes, e que eram dos povos mais pimpões d'aquelle tempo.
—Vieram então os romanos? perguntou o Francisco{8} Artilheiro que estava seguindo com interesse a narrativa.
—Não tiveram tempo de vir, porque um tal Annibal, rapasote dos seus vinte e cinco annos, e que dizem até que era filho de uma lusitana, succedendo no commando dos carthaginezes a seu pae Amilcar, não esperou que elles viessem, correu a Sagunto, uma das taes colonias gregas, tomou-a e queimou-a, e depois sae da Hespanha, atravessa os montes Pyrinéus e mais os montes Alpes, que parecia que tinha mesmo o diabo no corpo, bate os romanos aqui, derrota-os acolá, escangalha-os mais alem, e ás duas por tres, se continua assim de vento em popa, era uma vez Roma. Porém, os romanos, que eram tambem levadinhos da breca, nunca desanimaram, e, apesar de estarem de corda na garganta, tiveram artes de mandar para cá um exercito, de fórma que, emquanto Annibal saía por uma porta, entravam os romanos por outra. O atrevimento ía-lhes saíndo caro, isso é verdade, mas a fortuna virou, e o que é certo é que d'ahi a pouco tempo não havia nem um carthaginez na peninsula, e estavam os romanos senhores de tudo isto.
—Então os povos de cá estavam a olhar ao signal? perguntou Bartholomeu.
—Ora ahi é que bate o ponto. Effectivamente, os povos cá das Hespanhas acharam assim exquisito que os carthaginezes e os romanos andassem{9} a dispor d'elles, sem ao menos lhes perguntar a sua opinião, de fórma que, quando os romanos, julgando-se senhores da Hespanha, começaram a espreguiçar-se, os differentes povos da peninsula disseram-lhes d'esta maneira: «Ora esperem lá, senhores romanos, que nós somos duros para colchões!»
—Ah! boa rapasiada! observou, esfregando as mãos, o Francisco Artilheiro.
—Começou a pancadaria, e o povo que andou sempre na frente foram cá os nossos lusitanos, principalmente os serranos do Herminio (que era assim que se chamava d'antes a serra da Estrella). Não eram os romanos capazes de metter dente cá para este lado, até que uma vez um dos seus generaes, chamado Sergio Galba, apanhou os lusitanos á traição, e fez n'elles uma mortandade de que poucos escaparam.
—Ah! grande patife! exclamou o Manoel da Idanha.
—Isso era, mas alem de patife era tolo, porque isto de excitar muito dá maus resultados. Os lusitanos, que escaparam, ficaram como uma bicha. Ora um d'elles era um pastor chamado Viriato, homem decidido e esperto, que disse para os seus patricios: Façam vocês o que eu mandar, e deixem os romanos comigo. Assim foi, juntaram-se á roda de Viriato, e, quando appareceu um exercito romano commandado{10} pelo consul Vetilio, o nosso homem, que era das bandas de Vizeu, esconde n'uma emboscada uma parte da sua gente, e com o resto põe-se a fazer fosquinhas aos romanos, parecendo a modo medroso. O consul percebe que elle está assim com seu susto, e diz lá de si para si: «Vaes apanhar uma surra mestra.» Corre sobre elle, Viriato faz tres meia volta, e, pernas para que te quero, elle ahi vae. O consul Vetilio desata a correr atraz de Viriato, e vae-se mesmo metter na boca do lobo. Era uma vez um exercito romano. Depois de Vetilio vem outro e outro, e elle sempre zás, pásada de crear bicho. Em Roma havia terror, diziam que o luzitano lhes dava mais que fazer que o proprio Annibal. Em Hespanha então era um enthusiasmo por ahi alem. Se Viriato já nem se contentava em estar nas montanhas, entrava pelos povoados romanos, levantava contribuições, revolucionava os povos, era um vivo demonio, e cada novo exercito, que por cá apparecia, não lhes digo nada, sumia-se n'um abrir e fechar de olhos, até que emfim o consul Scipião apanha lá dois patifes que Viriato mandára para tratar de um negocio, e tantas endrominas lhes metteu na cabeça, e tantas promessas lhes fez que elles, quando voltaram para onde estava o seu chefe, apanharam-n'o a dormir e mataram-n'o.
—Oh! que grandes malvados! exclamou Bartholomeu.{11}
—E assim acabou esse homem que foi o que se póde chamar um homemzarrão! Ó senhores, eu sou um pateta, que não percebo nada d'estas cousas, mas, quando me ponho a pensar n'este Viriato, quando me lembro que era apenas um pobre pastor de cabras, um selvagem que não entendia nada de guerras, nem de manobras, nem de legiões para aqui, nem de centuriões para ahi, e que, apezar disso, em defeza da sua terra, fez andar os romanos em papos de aranha, e atarantou aquella poderosa Roma que mettia medo a todos, quando me lembro que elle era filho d'esta boa terra; que hoje se chama Portugal, ah! c'o a breca, sinto assim uns arripios pela espinha, e parece que é até uma vergonha para o paiz não se lhe ter levantado uma estatua de um tamanho por ahi alem, no alto da serra da Estrella, que aquillo é que se podia chamar a sentinella da nossa independencia.
E o bom do João da Agualva, no impeto do seu enthusiasmo, cerrava os punhos; faiscavam-lhe os olhos, e dava mostras de querer elle mesmo ir pôr nos fraguedos da serra da Estrella a estatua do seu heroe.
—Tem rasão, tem, observou o Bartholomeu, lá que o tal Viriato foi um homem de truz, isso foi.
—A morte de Viriato, como podem imaginar, continuou o João da Agualva, deixou ficar os lusitanos um pouco atrapalhados, mas continuaram{12} a defender-se, e os romanos viram uma bruxa com elles. Póde-se dizer que só Roma foi senhora da Lusitania, quando não ficaram nas nossas montanhas senão as mulheres e as creanças. Mas as creanças fizeram-se homens, e os homens estavam mortos por jogar as cristas com os romanos. Não tardou a apparecer-lhes uma boa occasião.
—Vamos lá a ver isso! exclamou o Bartholomeu, com um orgulho patriotico.
—É de saber que em Roma havia umas guerras civis, tal qual como nós tivemos cá por muito tempo em Portugal, assim umas cousas á moda da Maria da Fonte ou da guerra dos dois irmãos. Um fulano Sylla e um sicrano Mario andaram á pancadaria um com o outro, até que venceu um d'elles que foi Sylla. Era homem de cabellinho na venta este Sylla, e, apenas se viu no poleiro, começou a chacinar nos que eram do partido contrario, de fórma que parecia que não queria deixar vivo nem um só. Os amigos de Mario trataram de se escapulir, e um d'elles, homem desembaraçado, chamado Sertorio, safou-se cá para Hespanha, para os lados do Oriente. Ahi, n'um instante, revolucionou tudo, arranjou um exercito, mas os generaes de Sylla espatifaram-lh'o, e o amigo Sertorio tingou-se para a Africa. Souberam os lusitanos do caso, e disseram comsigo: «Este maganão é que nos faz conta.» Mettem-se uns poucos n'um barco, vão ali a Marrocos,{13} por onde o Sertorio andava aos paus; offerecem-lhe o vir commandal-os. Sertorio saltou logo para dentro do barco, e d'ahi a pouco estavam os lusitanos em campo com Sertorio á frente.
Este, porém, não era, como Viriato, um pastor de cabras, era homem civilisado, sabendo tudo o que se sabia no seu tempo, e que tratou de arranjar cá nas nossas terras uma especie de Roma. Pareceu-lhe que Evora servia para o caso, estabeleceu-se ali, e, como o tinham acompanhado muitos romanos, conseguiu perfeitamente o seu fim.
Que o Sertorio era uma grande cabeça, isso é que não tem duvida! Não só poz o sal na moleirinha dos seus patricios que se quizeram metter com elle, mas costumou os lusitanos a ser gente civilisada, e a imitar os romanos em tudo, de fórma que Viriato, se resuscitasse, não os reconhecia. E a final de contas, vejam como as cousas são! Este Sertorio deu lambada nos romanos por um sarilho! pois ninguem fez mais serviços a Roma do que elle! Introduziu aqui as artes, os usos e os costumes de Roma! de fórma que, depois, os nossos começaram a ter menos repugnancia aos estrangeiros, a confundir-se com elles. Isto de fallar a mesma lingua, de ter os mesmos habitos, sempre é uma grande cousa! Sertorio foi assassinado, assassinado tambem por um traidor, um patricio d'elle, um tal Perpenna! Pois senhores, quando morreu, já isto{14} por cá era tão romano como a propria Roma; de fórma que nunca mais houve revoltas, e os lusitanos como o resto dos habitantes de Hespanha, á excepção dos vasconsos que sempre foram mettidos comsigo, e nunca se deram com os visinhos, os lusitanos ficaram fazendo parte do grande imperio que vinha do Mar Negro ao Oceano Atlantico, e da bôca do Rheno até á foz do Guadalquivir, e ainda mais para baixo, do outro lado do estreito.
E com isto os não enfado mais, meus amigos, a Margarida já acabou a sua estriga, a luz do candieiro está assim a modo aos upas como quem se quer ir embora, e então domingo á noite continuaremos com esta conversa, visto que vocês parece que vão gostando.
—Ora se gostamos, sr. João de Agualva! bradaram todos em côro. Venha depressa o domingo para ouvirmos o resto.
E despedindo-se de Margarida, e de João, retiraram-se para as suas casas.{15}
SEGUNDO SERÃO
Cesar e os montanhezes do Herminio.—O imperio romano.—O christianismo.—Os barbaros.—Suevos, alanos e visigodos.—Os mouros.—O reino das Asturias.—O reino de Leão.—Portucale.—Os condados de Portugal e de Coimbra.
—Meus amigos, começou o João da Agualva, apenas todos fizeram roda no domingo immediato, e que a boa da tia Margarida, depois de carregar a sua roca, principiou a fazer girar o fuso nos seus dedos ageis, deixámos no outro dia os bons dos nossos lusitanos, depois da morte de Sertorio, costumados já á civilisação romana, e fallando o latim como se tivesse sido sempre a sua lingua, gostando de dar as suas passeatas até Roma, e provavelmente chamando barbaros aos que se lembravam com saudades dos tempos de Viriato. Nas serras continuavam a refilar o dente aos senhores do mundo, e o proprio Cesar, que veio a ser depois um grande homem,{16} estreiou-se nas guerras, tendo cá na Lusitania os seus dares e tomares com os montanhezes do Herminio, que vieram diante d'elle em rota batida até aqui ás proximidades de Peniche, pouco mais ou menos, e que, quando deram de cara com o mar, não estiveram lá com meias medidas, metteram-se n'umas jangadas, e foram merendar ás Berlengas, deitando a lingua de fóra ao sr. Cesar, que se foi embora de queixo caído. Mas isso eram barulhos lá de quando em quando. A verdade é que a Lusitania estava sendo devéras romana, e então, quando lá em Roma á republica succederam os imperadores, nem mais se pensou em independencias, nem meias independencias. As cidades com os nomes romanos ferviam por ahi, as estradas militares cortavam o paiz, e uma pessoa podia ir de Lisboa até Roma sem perguntar a ninguem. Hoje diz-se: quem tem bôca vae a Roma. Pois n'aquelle tempo, e com as estradas militares, bastava ter pés e olhos, ía-se lá direito como um fuso.
—Havia caminho de ferro? perguntou o Zé Caneira embasbacado.
—Qual caminho de ferro, bruto! Teu avô ainda nem sabia que vinha isso a ser, e já tu querias que o teu trigesimo ou quadragesimo avô andasse de wagon! Não senhor, eram estradas ordinarias, mas feitas com todo o cuidado e limpeza, e que, partindo de Roma, íam ter aos pontos mais distantes{17} do imperio! Lá que os taes romanos eram um grande povo, isso eram!
—Pois sim! mas regalaram-se de levar tapona cá na nossa terra, interrompeu o Bartholomeu.
—Quem vae á guerra dá e leva, respondeu o João da Agualva, e a final quem vence é quem mais sabe. Se os romanos venceram, não foi nem porque tinham mais força, nem porque eram mais valentes, foi porque sabiam mais. Tu verás ao depois. Olha que isto cá no mundo não se leva a poder de bordoada. Queres um exemplo? Ora ahi tens tu o mundo todo romano. O imperador está em Roma, e tudo governa. N'isto sáem da Judéa uns homens de bordão na mão, e de pés descalços, que começam a prégar por esse mundo, a dizer que Deus veiu á terra, que foi crucificado, que disse que todos os homens eram iguaes, senhores e escravos e grandes e pequenos, que a gente deve amar não só os seus amigos, mas tambem os seus inimigos, que ha mais alegria no céu pela volta de um peccador, que se arrepende, do que pela entrada de noventa e nove justos, e outras cousas assim que embasbacavam todos, e vae os imperadores romanos começaram a scismar que esta gente, que lhes fazia mal, que desorganisava tudo, e botam a chacinar n'esses sujeitos que se diziam christãos, e a queimal-os, e a deital-os ás feras, e a martyrisal-os, e quanto mais os desbastavam mais elles cresciam, e{18} tanto e tanto que lhes não digo nada. Ás duas por tres o mundo romano tinha sido conquistado, sem pau nem pedra, por esses soldados de Christo. Ora aqui tens tu como quem vence nem sempre é a força bruta.
—Essa agora é mais fina! accudiu o Manuel da Idanha. Esses, se venceram, é porque eram os santos apostolos, e porque prégavam a palavra de Deus.
—Pois assim é, Manuel, dizes tu muito bem, mas é que isto que se chama civilisação não é tambem senão a palavra de Deus. A civilisação é o que concorre para nos fazer melhores, mais dignos de ser homens. Umas vezes prégam-n'a os santos, outras vezes são os sabios, e ás vezes tambem são os soldados, porque Deus de todos os meios se serve para chegar aos seus fins. E é assim que o instrumento d'isto a que eu chamo civilisação umas vezes é o livro, outras vezes a cruz, e outras vezes a espada.
Os bons dos saloios ouviam boqui-abertos estas cousas todas, que só o Manuel da Idanha parecia perceber um bocadinho, por isso o João da Agualva, que não queria perder a attenção do auditorio, apressou-se a continuar:
—Isto quer dizer, meus amigos, que foi por este tempo que principiou a prégar-se no mundo a nossa santa religião, e foi cá a nossa terra uma das{19} primeiras que se converteram. Dizem até que veiu aqui o proprio apostolo S. Thiago, mas isso estou que são lérias; o que é certo, porém, é que ainda quasi não havia bispos por esse mundo de Christo, e já Braga era bispado, tanto assim que se chama ao arcebispo de Braga arcebispo primaz das Hespanhas, porque foi o primeiro que na Hespanha houve.
Mas, entretanto, meus amigos, grandes cousas se passavam pelo mundo. Fóra dos limites do imperio, do lado de lá do Rheno, do lado de lá do Danubio, havia povos que Roma não conseguira conquistar: gente selvagem como os luzitanos do tempo do Viriato; valentes como elles, e ao mesmo tempo gente inquieta que não parava n'um sitio e que não podia viver quasi senão de caça e de rapina. Tinham os romanos um trabalhão em os conter, mas, quando o imperio começou a fraquear, porque aquillo estava já sendo uma choldra, quando as legiões, que é como quem hoje diria as divisões e as brigadas, começaram cada uma a apregoar um imperador pela sua banda, desabam todos aquelles meus amigos sobre o imperio, e foi como quem diz uma verdadeira inundação. Ahi pelos annos quatrocentos e tantos caíram em cima de Hespanha, vindos das bandas dos Pyrenéus, nada menos de tres povos, os Alanos, os Suevos e os Vandalos. Nós, só á nossa parte, tivemos dois que tomaram conta de{20} tudo isto, que foram os suevos e os alanos. Mas aquillo! as florestas de alem do Danubio e do Rheno parece que se não fartavam de despejar povos que se empurravam uns aos outros. Atraz d'estes tres povos vieram os visigodos que expulsaram os outros e ficaram senhores da Hespanha toda. Mas agora ahi têem vocês como nem sempre quem vence é quem conquista. Julgam por acaso que se fallou na Hespanha o visigodo, e que as leis visigothicas é que governaram, e que a religião dos visigodos é que triumphou? Qual carapuça! os vencidos é que conquistaram os vencedores e deram-lhes a sua lingua, as suas leis e a sua religião. Porque? porque os mais civilisados eram os vencidos, e quem mais sabe é quem triumpha.
—Mas então, a final de contas, perguntou o Manuel da Idanha, sempre isto ficou sendo romano?
—Não, rapaz, não é assim. Ora dize-me uma cousa, quando tu deitas sal e carne para dentro de uma pouca de agua, o que é que fica? é agua, é carne ou é sal?
—Essa agora é mais fina, não fica nem uma coisa nem outra, o que fica é caldo.
—Ora pois ahi tens tu: a agua eram os lusitanos, os romanos foram o sal, e os visigodos a carne, e de tudo isso saíu uma cousa nova, um povo novo, este caldo que depois veio a chamar-se portuguez, que é no fundo lusitano, como o caldo é{21} agua, e a que Roma deu o sal que foi a idéa, e os visigodos a carne que foi a força.
Acharam graça á comparação os bons dos saloios e o João da Agualva proseguiu d'esta maneira:
—Mas as cousas não ficaram por aqui, porque no anno de 756 appareceu de repente em Hespanha gente nova. Eram os mouros. Esses, em vez de vir do norte, vinham do sul. Seguiam uma religião nova, a de Mafoma. Não eram uns selvagens, como tinham sido os visigodos. Traziam uma civilisação, e das mais apuradas. Por isso a lucta que se travou foi medonha: civilisação contra civilisação, Jesus contra Mafoma. Primeiro venceram os mouros. Na batalha do Guadalete foram os visigodos vencidos, e morto o seu rei Rodrigo. Em pouco tempo tinham os mouros tomado toda a Hespanha. A nossa terra lá foi tambem para elles. Só nos montes das Asturias, que são levados de quantos diabos ha, um punhado de visigodos continuou a resistir, commandados por um tal Pelayo, que foi o primeiro rei das Asturias. Metteram-se os mouros com elle, levaram para o seu tabaco. Deixaram-n'o lá estar no seu reino, que era como quem diz um ninho de aguia, encarapitado no cucuruto das montanhas, e c'o a breca, parece-me que uma aguia c'o as azas estendidas fazia-lhe sombra a elle todo. A pouco e pouco foi augmentando. Agora tomava-se{22} uma cidade, logo outra; a grão e grão, diz o proverbio, enche a gallinha o papo. D'ahi a duzentos annos já os visigodos tinham tirado aos mouros terras bastantes para formar não só um reino, mas uns poucos. A moda que havia de se dividir o reino pelos filhos de um rei que ía para o outro mundo, dava este resultado. Deixemos, porém, isso, e vamos a saber o que era feito de nós.
—Isso é que é, acudiu o Bartholomeu, os hespanhoes que tratem de si.
—Pois nós faziamos parte do reino que se chamou reino de Leão; quando digo nós, quero dizer de Coimbra para cima, porque, entre Coimbra e Lisboa, umas vezes era-se mouro e outras vezes christão, mas de Lisboa para baixo não havia duvida nenhuma, era tudo moirama.
—Mas então, vamos a saber, isto era já Portugal ou não era Portugal? perguntou o Zé Caneira.
—Ora com que tu vens! Sabes o que era Portugal? Era, para assim dizer, o Minho. Havia Portugal e havia o condado de Coimbra. Portugal chamava-se assim porque na foz do Douro havia uma terra que se chamava Cale, que depois se mudou em Gaya, e vae defronte mesmo á beira do rio, começou a levantar-se outra terra que se chamou Portus Cale ou Porto de Cale. Esta terra é o que se chama hoje simplesmente Porto, e o nome de Porto de Cale,{23} que se foi mudando em Portugal, dava-se a tudo o que ficava para o norte do Douro. E aqui está, meus amigos, como Portugal deve o seu nome ao Porto, exactamente como depois lhe veio a dever a liberdade.
—E então Coimbra já não era Portugal?
—Não, rapaz. Coimbra era outro condado, tambem christão, mas que tinha
existencia sobre si. Ora o que lhes digo, meus amigos, é que a corneta do
destacamento que chegou hoje está já a tocar a recolher, que são horas de se ir
chegando cada um para suas casas, e que no proximo domingo continuaremos a
nossa historia.{24}
{25}
TERCEIRO SERÃO
D. Affonso VI de Leão.—O conde D. Henrique.—D. Thereza.—O conde de Trava.—Batalha de S. Mamede.—Egas Moniz.—Fundação da monarchia.—D. Affonso Henriques.—Os cruzados.—D. Sancho I.—D. Affonso II.—D. Sancho II.—D. Affonso III.
—Viram vocês, meus amigos, tornou o João de Agualva, no domingo immediato, que o Portugal de agora, ahi pelo anno mil, pouco mais ou menos estava, do Mondego para baixo, quasi todo em poder dos mouros, e do Mondego para cima distribuido em dois condados, um que se chamava de Portugal, que era como quem diz do Porto, e o outro que se chamava de Coimbra, e ambos estes condados faziam parte do reino de Leão, onde governava um rei de cabellinho na venta, chamado o sr. D. Affonso VI. Ora, como D. Affonso VI tinha sempre guerra com os mouros, e como n'esse tempo o grande pratinho para um principe ou para um fidalgo, era jogar as cristas com elles, tanto que os íam buscar{26} a casa de seiscentos diabos, só para lhes dar tapona, aconteceu que dois francezes, chamados um Henrique e outro Raymundo, ambos primos, e ambos da casa de Borgonha, em vez de ir á Palestina, vieram aqui a Hespanha, que lhes ficava mais ao pé da porta, pedir para dar tambem as suas garfadas nos de Mafoma. Não havia duvida, a mesa estava sempre posta e podiam servir-se á vontade. Deram bordoada de crear bicho, e o D. Affonso VI, que viu que eram uns valentões, e que lhe podiam prestar para muito, casou-os com duas filhas que tinha, uma legitima filha do matrimonio, e outra cousas e tal etc. A primeira chamava-se Urraca e foi para o Raymundo, a segunda chamava-se Tareja ou Thereza, e dizem até que era uma rapariga de truz, para o Henrique. Ora ao primeiro, como era casado com a legitima, deu elle o governo de toda a parte do reino, que ficava á borda do mar, desde os altos da Galliza até ás proximidades do Tejo, e a D. Henrique deu especialmente os condados de Portugal e de Coimbra, ficando sempre sujeito ao primo. Ha quem diga que Portugal veiu como dote de D. Tareja! Tó carocho! N'esse tempo nem os paes davam dotes ás filhas, os que queriam casar com ellas é que ainda davam alguma cousa.
—E acho isso muito bem entendido! exclamou vivamente o Zé Caneira, que tinha uma filha casadoira.{27}
—Pois sim! redarguiu sorrindo o João da Agualva. O que é certo é que a moda não pegou. D. Henrique, porém, ficou sendo vassallo de Affonso VI, e empenhou-se em alargar os seus dominios, dando pancadaria nos mouros. Muito cedo deixou de ser sujeito a seu primo, e teve a sua capital em Guimarães, que por isso se chama o berço da monarchia. Mas este D. Henrique parece que tinha bicho carpinteiro, foi á Palestina, como se não tivesse por cá mouros com fartura, e, quando o sogro morreu deixando o throno á cunhada D. Urraca, que já então era viuva, o bom do conde metteu-se em todos os barulhos que lá íam por Hespanha, para ver se apanhava mais alguma cousa para si. Qual carapuça! não apanhou nada, e ía perdendo muito, porque os mouros, que se viram á larga, começaram a fazer-se finos, e já subiam por ahi acima, como quem estava com desejo de se espreguiçar o seu pedaço nos montes verdes de Coimbra.
No meio d'esta azafama toda, morreu em 1114 o honrado conde deixando uma viuva muito frescalhota ainda, e um filho pequeno que teria os seus tres annos, e se chamava Affonso Henriques, que é o mesmo que se dissesse Affonso filho de Henrique, assim como Sanches queria dizer filho de Sancho, Fernandes filho de Fernando, e Martins filho de Martim.{28}
—Ora essa! exclamou um que até ahi estivera silencioso, aqui estou eu que me chamo Antonio Martins, e mais meu pae chamava-se José.
—Pois isto que eu digo, tornou João, era n'aquelle tempo, depois os nomes ficaram, mas já sem se lhes saber a significação, como acontece a muitas outras cousas.
A mãe de D. Affonso Henriques, que era uma mulher bonita e desembaraçada, continuou a andar por cercos e batalhas, sempre a ver se isto cá em Portugal ficava independente, e, emquanto ella assim procedeu, correu tudo bem; mas isto de mulheres sempre são mulheres—não se zangue, tia Margarida—e D. Thereza lá teve o seu fatacaz por um conde gallego, Fernão Peres de Trava, que d'ahi a pouco era quem punha e dispunha em Portugal. Não agradava isso muito aos nossos fidalgos, e menos ao rapazelho, que era levadinho da bréca, esperto como um alho, valente como seu pae, e que fôra de mais a mais educado por um fidalgo ás direitas, um tal Egas Moniz, portuguez dos quatro costados. Já se vê que o aio não lhe ensinou a revoltar-se contra sua mãe, e até devo dizer que são verdadeiras patranhas muitas das cousas que a esse respeito se contam. Por exemplo, diz-se que o rapazote andava ás bulhas com a mãe, e que o rei de Leão, D. Affonso VII, viera em soccorro da tia contra o primo. Peta! D. Affonso VII veiu a Portugal,{29} é verdade, mas foi para obrigar a infanta-rainha (assim lhe chamavam) e o filho e os fidalgos e todo o povo a reconhecer a sua suzerania. Apanhou o rapaz em Guimarães, cercou-o, e pôl-o deveras em talas. Egas Moniz foi ter com elle, e disse-lhe que se fosse embora e que lhe empenhava a sua palavra que a sua suzerania seria reconhecida. Affonso VII assim o fez, e partiu d'ali contra D. Thereza, que essa reconheceu-o immediatamente por seu senhor e suzerano. Mas D. Affonso Henriques, livre do primo, pediu á mãe que fizesse favor de lhe dar o governo a elle, que sempre era mais portuguez que o conde de Trava. Este disse á rainha que não tivesse cuidado, que elle iria dar uma duzia de palmatoadas no pequeno. Foram boas as palmatoadas! Em S. Mamede, ao pé de Guimarães, e no anno de 1128, o conde gallego levou uma esfrega, e teve de se pôr a andar, levando comsigo D. Thereza. De fórma que nem D. Affonso Henriques prendeu a mãe, nem fez cousa que se parecesse com isso. Quiz apenas governar, porque tinha o direito de o fazer, e porque os barões portuguezes estavam fartos de aturar o gallego. E a vassallagem que promettera a D. Affonso VII? Boa vae ella! Mesmo agora D. Affonso Henriques pozera fóra o gallego para se sujeitar ao de Leão! Nem se pensou em tal. Mas Egas Moniz tinha dado a sua palavra, e não queria que um patife de um estrangeiro dissesse que{30} havia portuguezes desleaes. Não contou nada ao seu querido discipulo, e foi até dos primeiros a aconselhar que se mantivesse a independencia, mas agarrou em si, na mulher e nos filhos, e foram todos de corda ao pescoço ter com o rei de Leão, e dizer-lhe: «Para resgatar a minha palavra, só tenho a minha cabeça e a dos meus! Ellas aqui estão!» O rei ficou assombrado d'este acto de lealdade e mandou-os embora com palavras de muito louvor.
—Homem! isso agora parece-me asneira! acudiu o Zé. Que diabo de culpa tinha elle que esse D. Affonso Henriques não fizesse o que promettera?
—Nenhuma, bem sei! mas elle é que ficára por fiador. Outro seria que dissesse: Eu quiz, mas não pude. Elle foi mais franco e disse: Não pude e não quiz. O interesse da nação oppunha-se a isso, mas a minha vida ha de resgatar a minha palavra, e não se fundará n'uma deslealdade a nova monarchia.
—Aquillo é que eram homens! murmurou o Manuel da Idanha.
—Espera que tu vaes ver o que era um homem. Este Affonso Henriques digo-te que foi mesmo fadado para fundador de reino. Não parava um instante. No principio do governo, andou sempre á bulha com o primo, e com os gallegos, e tudo era ver se passava o Minho; mas um bello dia olhou para o sul, e percebeu que para ali é que havia muito que fazer. Os mouros começavam a dar signal de si, e{31} a romper de novo por ali acima. Em 1139, Affonso Henriques vae só n'uma galopada até ao Alemtejo, derrota os mouros em Ourique, e volta para casa. A respeito de Ourique tem havido mosquitos por cordas. Diz-se que appareceu Nosso Senhor a D. Affonso, que este foi ali acclamado rei pelos soldados, que aquillo foi uma batalha formidavel, etc. Eu cá não me metto n'essas cousas. Que Nosso Senhor Jesus Christo apparecesse crucificado a D. Affonso Henriques, é muito possivel, Deus póde fazer estes milagres, sempre que lhe aprouver, e milagre de Deus foi a nossa historia toda. Sem a ajuda de Nosso Senhor mal podia este pequeno povo fazer o que fez. Que a batalha fosse muito importante, não me parece, pelo menos não teve consequencias; ficou tudo como d'antes, e o que se não póde dizer é que o quartel general fosse em Abrantes, porque a Abrantes ainda nós não tinhamos chegado; que os soldados se lembrassem de acclamar D. Affonso Henriques rei n'essa occasião tambem me parece historia. Sou capaz de apostar que rei já lhe chamavam ha muito tempo, como chamavam rainha á mãe; de mais a mais, esse titulo de rei, que affirmava mais a nossa independencia, onde se deveria dar era n'uma batalha contra os leonezes, mas n'uma batalha contra os mouros, que tanto se importavam que Portugal fosse independente, como que fosse vassallo de Leão, a quem tanto convinha{32} que Affonso Henriques fosse rei como que fosse conde, não se percebe. Diz-se tambem que foi nas côrtes de Lamego que o titulo se confirmou. Ora adeus! Côrtes com clero, nobreza e povo ainda cá se não faziam. E de mais, quem diz isso parece que imagina que n'aquelle tempo se passavam as cousas como agora, e que isto de fazer rei um conde soberano era negocio que se não podia praticar sem grandes ceremonias e ajuntamentos. Boas noites, meus amigos. Oiçam vocês o que succedia! Morria o rei de Leão, por exemplo, e dividia os estados pelos filhos, e aqui ficava sendo um rei da Galliza, o outro rei de Leão e o outro de Castella. E depois juntavam-se os estados, e já não havia reinos nem em Galliza, nem em Castella, depois tornavam-se a separar, e assim andavam, sem maior massada. D. Affonso Henriques fizera-se independente, era o essencial, depois começaram a chamal-o rei, e rei se ficou chamando. O que elle fez, como era espertalhão, para garantir a conservação do reino, foi declarar-se vassallo do papa, e mandar-lhe pagar um pequeno tributo, para que o pontifice lhe valesse. A manha não era má; n'aquelle tempo quem tinha por si a côrte de Roma tinha tudo.
Mas o caso não era chamar-se uma pessoa rei, era ter um reino que merecesse o nome, e esse Portugalsito, que vinha apenas do Minho até ao Mondego, para fallar a verdade, não parecia lá um grande{33} reino. E vae D. Affonso Henriques disse então com os seus botões: Toca a alargal-o! Ora o que faz um de vocês quando se vê com uma terrola para seu grangeio? Cospe nas mãos, agarra na enchada, começa a fossar o chão, e ali está desde pela manhã até á noite. D. Affonso Henriques fez o mesmo, cuspio nas manoplas, arrancou do montante, e elle ahi vae para a faina em que andou desde pela manhã até á noite, quer dizer, desde que lhe apontou o buço até que a morte pregou com elle na sepultura. O montante era a sua enchada, rapazes, e, a cada enchadada, saía do chão sarraceno agora Santarem, depois Lisboa. Ah! meus amigos, que vida! Aquillo era um lidar continuado! Elle casou com uma princeza de Saboya, a sr.ª D. Mafalda, mas estou em dizer que não foram muitas as noites em que dormio muito bem aconchegado com ella nos seus paços de Coimbra. Alta noite lá ía elle tomar Santarem, de surpreza, e outra vez constava-lhe que ía uma gente do norte fazer guerra aos mouros na Palestina, para defender contra elles o sepulchro de Christo, e vae D. Affonso Henriques ía logo á beira-mar ter com os homens, e pedir-lhes que descançassem aqui um pedaço, e que o ajudassem ao mesmo tempo na sua tarefa de todos os dias. Elles não se fizeram rogar, desembarcaram, e d'ahi a pouco estava Lisboa no poder dos nossos. Muitos d'elles por cá ficaram, porque D. Affonso Henriques deu-lhes{34} terras, e até ha por ahi povoações que ainda se chamam com os nomes d'elles, por exemplo Villa Franca, que é como quem diz villa dos Francos, etc.
—Então os de Villa Franca são estrangeiros? perguntou o Manuel da Idanha.
—Qual carapuça, homem! Tu não te lembras da minha comparação do caldo? Não é sal, nem agua, nem carne; mas tem carne, agua e sal. A carne eram os godos, a agua os luzitanos e os romanos o sal; pois tambem no caldo se deita ás vezes o seu raminho de hortelã ou de segurelha, que sempre lhe dá assim um sabor mais cousas, tal, etc., pois esses raminhos de segurelha e de hortelã foram os estrangeiros, que aqui vieram a Portugal e por cá se deixaram ficar. Vieram tambem contribuir para fazer o nosso bom caldo portuguez.
—É bem achado, sim senhor, observou a tia Margarida.
—Pois assim mesmo é que é. Ora já vocês vêem que o pobre do D. Affonso não podia estar muito tempo socegado. Hoje tomava Cintra, amanhã Mafra, no outro dia Palmella, no outro Abrantes! Era um vivodemonio. Os mouros com elle andavam n'um sarilho. Por isso tambem tinham-lhe tomado um medo! Fallarem-lhes no Ibn-Errik, assim lhe chamavam elles na sua lingua, como quem diz filho de Henrique, fallarem-lhes em Ibn-Errik, era o mesmo{35} que fallarem-lhes no diabo. E que gente que elle tinha! homens como um Gonçalo Mendes da Maia, o Lidador, que morreu combatendo, e mais andava já pelos noventa annos, e um que tomou Evora, Giraldo sem Pavor, e outro que tomou Beja, cada qual por sua conta e risco. Gente levadinha da bréca, isso é que é fallar a verdade.
Mas, emfim, meus amigos, ainda que se diz «pedra movediça não cria bolor», sempre dá o caruncho n'uma pessoa, por mais que ella se mexa e trabalhe. D. Affonso envelheceu, mas antes d'isso já deitára um filho que era o seu retrato, valente como elle, e homem de grande talento, D. Sancho, que foi depois rei. Podia morrer descançado D. Affonso Henriques, deixava a sua espada em boas mãos e a sua corôa em boa cabeça. E com essa consolação morreu em 1185 el-rei D. Affonso Henriques, depois de ter não só tornado o reino independente, mas de o ter alargado até ao meio do Alemtejo, e principalmente de ter tomado Lisboa que era, como diz o outro, a menina dos olhos dos arabes, a cidade sem a qual não se podia fazer cá para estas bandas cousa que geito tivesse. Ah! meus amigos, se algum de vocês fôr alguma vez a Coimbra, e entrar na igreja de Santa Cruz, suba até á capella mór, e olhe para os dois tumulos que ali se vêem, pergunte qual é o de D. Affonso Henriques, e depois ajoelhe diante d'elles, porque, com seiscentos diabos,{36} se nós hoje não somos para ahi uns gallegos e uns andaluzes, se démos que fallar no mundo, e praticámos cousas que fazem com que uma pessoa tenha orgulho de se chamar portuguez, oh! com a bréca, é a elle que o devemos, porque, como lá diz o outro, de pequenino se torce o pepino», e este reino de Portugal era bem pequerrucho ainda, quando esse homem de ferro levou a sua vida inteira a costumal-o a fazer cousas grandes.
E o bom do João da Agualva limpou o suor, que lhe escorria pela testa com o enthusiasmo que o inflammava. Os seus companheiros escutavam-n'o silenciosos, e já não faziam interrupções nem observações. Estavam deveras interessados com a narrativa.
—Meus amigos, continuou o João da Agualva, no governo como na lavoura ha tempo para tudo, agora cava-se e depois semea-se. Primeiro compra-se a terra e depois é que se amanha. Pois assim foi em Portugal; D. Affonso Henriques ou D. Affonso I conquistára, D. Sancho tratou de povoar. Por isso a historia chamou conquistador ao primeiro e povoador ao segundo; e olhem que isso não quer dizer que D. Sancho não fosse tambem um guerreiro de truz. Tó carocho! Já na vida do pae elle dera que fallar. Apenas o pae morreu, começou elle a namorar uma terra do Algarve, que hoje está bem decaída, mas que n'esse tempo era, por assim dizer,{37} a Lisboa lá do sul—Silves. Não se lhe mettia dente, porém, com facilidade. Para ir lá por terra, era custoso como o demonio, para ir por mar, é de saber, meus rapazes, que o sr. D. Sancho I ainda não se lembrára de comprar nem a fragata D. Fernando, nem esse navio com que andam por ahi sempre os jornaes aos tombos, e a que uns chamam o Pimpão e os outros o Vasco da Gama.
Uma gargalhada geral mostrou que os bons dos ouvintes tinham apanhado facilmente o chiste do jovial anachronismo do narrador.
—Mas, meus amigos, isto de Portugal ficar no caminho da Palestina para os christãos que vinham lá das terras do norte, foi uma verdadeira pechincha. Descançavam aqui e sempre havia por cá algum biquinho de obra. Foi o que succedeu tambem d'esta vez. D. Sancho apanhou uma frota de cruzados...
—Novos? perguntou o Zé.
—Novos eram elles, que não costumavam vir para a guerra os carecas como tu; mas é de saber que se chamavam cruzados aos christãos que tinham ido tirar o sepulchro de Christo das mãos dos infieis, e que depois o defendiam. D. Sancho apanhou pois uma frota de cruzados, e disse-lhes d'esta maneira:
«—Vocemecês é que me podiam fazer um favor.
«—Se estiver na nossa mão!...
«—Lá isso está. É simplesmente acompanhar-me{38} ali a baixo a Silves, e ajudar-me a intimar mandado de despejo aos mouros que lá estão dentro. Eu fico com a cidade, e os senhores levam as riquezas que se apanharem.
«—Vá de feição.
E foi. Tomou-se Silves, tanto mais que lhes ficava na estrada, e não tinham de torcer caminho. Mas D. Sancho não poude continuar com essas funçanatas, porque os mouros cá da peninsula, que começavam a estar assim esmorecidos, receberam de repente uns reforços da Moirama, e... não lhes digo nada, vieram outra vez por ahi acima que parecia que tornava a haver invasão. Foi uma torrente que levou tudo adiante de si. O Tejo tornou a ser a fronteira de Portugal, e apenas no Alemtejo uma terra ou outra surgia ainda, como uma ilha, com a bandeira portugueza, d'entre as ondas da mourisma. Então D. Sancho pensou que primeiro que tudo era necessario tratar do que era seu, e começou n'uma lida abençoada: elle mandou vir gente do norte da Europa para povoar os nossos campos desertos, elle edificou, elle fez castellos, elle cuidou emfim de tudo, e não se esqueceu tambem de mostrar aos bispos que tinha muita contemplação por elles, emquanto se limitavam ás suas rezas, mas que lhes não permittia metter o nariz assim de muito perto nos negocios do estado. A final, este bom rei morreu, menos velho que o pae, em 1212. Tinha sido{39} casado com uma princeza chamada D. Dulce, filha do conde de Barcelona. De fórma que aqui temos pois já duas rainhas de Portugal, D. Mafalda e D. Dulce.
O filho mais velho de D. Sancho, que veiu a ser rei depois d'elle, não se parecia muito, valha a verdade, nem com o pae, nem com o avô, mas olhem que nem por isso foi menos util cá ao nosso paiz. É o que eu digo. Cada qual tem a sua tarefa. Uns cavam, outros semeam, outros põem fóra os pardaes e arrancam o joio, que podem dar cabo da ceara. Foi esta a tarefa de D. Affonso II. Ora vêem perfeitamente que, se este Portugal tão pequeno se começasse a dividir, pedaço para aqui, pedaço para acolá, ía-se tudo quanto Martha fiou. D. Sancho, que tivera uma sucia de filhos, pensára mais em os deixar bem arranjados do que em assegurar a conservação do reino. Por isso no testamento era umas mãos rotas. Esta e aquella villa para o senhor infante fulano, esta e aquella cidade para sicrano, e terras para este, e terras para aquelle. D. Affonso II arrebitou a venta, e disse d'este modo: Então vamos a saber, e eu com que fico? E ahi começa á bulha com as irmãs e com os fidalgos. Andava tudo em polvorosa com elle. Os fidalgos, por exemplo, tinham recebido de D. Affonso e de D. Sancho esta ou aquella terra, mas íam-se fazendo finos, e por sua conta e risco íam apanhando mais alguma,{40} os frades então nunca chegaram á cabeceira de um moribundo que não apanhassem algumas terras de bom rendimento. Isto assim não póde ser, berrava D. Affonso II, ás duas por tres fico a olhar ao signal. E elle ahi vae por essas provincias fóra, a obrigar os fidalgos a pôr para ali os titulos das suas propriedades, declarando que não valiam senão os que elle confirmasse, e foi a isso que se chamou confirmação. Ao mesmo tempo prohibia ás corporações religiosas que tivessem mais terras do que as que tinham. Emquanto ao testamento de D. Sancho I, cumpriu só o que lhe parecia bom, e, como as irmãs refilassem, houve pancadaria a menos de real.
—Então, por esse andar, os mouros deviam ter vida folgada com elle? observou o Francisco Artilheiro.
—Lá isso é verdade, e tanto assim que, quando se tomou Alcacer do Sal, os cruzados, que nos ajudaram, e que nunca pozeram a vista em cima do soberano, imaginaram que era uma rainha que governava em Portugal; mas, meus amigos, olhem que o nosso paiz não lhe deve menos por isso. Se as infantas começam a puxar para um lado, os fidalgos a puxar para o outro, e ainda os frades a arrancar tambem as terras, n'um abrir e fechar d'olhos tinhamos para ahi vinte reinos, e adeus Portugal. Mas o gordanchudo do Affonso II, apesar de se{41} não importar para nada com os mouros, tinha cabellinho na venta; e por isso os frades foram prohibidos de ter mais terras, as infantas tiveram de pôr para ali as cidades que o pae lhes tinha deixado, porque D. Affonso II disse-lhes que a respeito de corôa em Portugal não havia senão uma, e finalmente os fidalgos tiveram de receber d'elle as terras mas por favor e mercê real. De fórma que, a 25 de março de 1223, quando morreu apenas com trinta e seis annos de idade, Portugal era pequeno, mas estava todo na mão do rei, o que já era grande façanha.
—E o filho foi pelo mesmo caminho, sr. João? perguntou o Manuel da Idanha.
—Ora, meu amigo, eu te vou dizer o que succedeu ao filho, e por aqui tu verás se o que eu acabo de dizer não é verdade, e se não ha na historia exemplos para tudo. O filho era creança, quando subiu ao throno, por conseguinte foi necessario haver regencia. Chamava-se Sancho o pequenote, Sancho II, por alcunha o Capello, porque em creança andara com um capuz de frade, lá por promessa da mãe, ou cousa assim. Quem ficou com o governo foram os ministros do pae, e, ainda que eram homens de truz, sempre lhes faltava a auctoridade que tinha um rei. De fórma que toda aquella nobreza e fradaria, quando se viu assim á solta, livre da mão de ferro de D. Affonso II, começou{42} a alvorotar-se, e os ministros, para os terem quietos, íam dando o que elles pediam. As infantas apanharam as cidades, os frades foram juntando terras ás que já tinham, e parece que o rei andava umas vezes nas mãos de uns, outras vezes nas mãos de outros. Pouco se sabe d'aquelle tempo. Ia pelo reino todo uma confusão de seiscentos demonios. O que é certo é que, quando D. Sancho II chegou á maioridade, estava já tão costumado a não ser rei que não soube puxar pelos seus direitos. E não era que elle fosse fraco. Pois não! pelo contrario! Era da raça do avô, não estava bem senão a cavallo e com os mouros de volta. Tomou uma boa parte do Alemtejo e do Algarve, mas fidalgos e frades esses faziam o que queriam e sobrava-lhes tempo. Vêem vocês? Para uma pessoa governar não basta ser um valentão. Ás vezes um porta-machado, com umas barbaças por ahi alem, anda em bolandas nas mãos de um creançola, outras vezes uma fraca figura faz andar um regimento ali direitinho que nem um fuso. D. Affonso não queria nada com os mouros, o que o não impedia de governar como um homem; para D. Sancho as batalhas eram o pão nosso de cada dia, e em Portugal todos governavam menos elle. Cousas da vida! Como os fidalgos faziam o que lhes dava na cabeça, e os frades tambem, e os bispos a mesma cousa, parecia que deviam estar todos muito satisfeitos. Mas não succedia assim. Os{43} bispos queixavam-se dos fidalgos, estes queixavam-se dos frades, e todos do rei, os frades porque não reprimia os bispos, os bispos porque não tinha mão nos fidalgos, os fidalgos porque não puxava as orelhas ao clero. Quando elle saltava nos mouros, ainda as cousas não corriam mal. A fidalguia gostava d'aquillo, íam todos atrás do rei, e não se pensava em mais nada. Mas, quando uma hespanholita, chamada D. Mecia Lopes de Haro, caiu em graça ao rei, que casou com ella, e que passou os dias a namorar os olhos pretos da rainha, lá se foi tudo quanto Martha fiou. A desordem excedeu todos os limites, e os bispos foram ter com o papa a fim de lhe pedirem que tirasse a corôa a D. Sancho II. O papa, que era Innocencio IV, pulou de contente com o pedido. Era o mesmo que virem-lhe dizer que era elle quem dava e tirava as corôas n'este mundo, e que vinha a ser portanto o rei dos reis. Estava em França n'esse tempo um irmão de D. Sancho II, chamado D. Affonso, que saíra de Portugal para ir correr terras, encontrára em França uma condessa de Bolonha, viuva, e já durazia, ao que parece, que gostou d'elle e com elle casou, levando-lhe o condado em dote. Ora o tal condado era uma especie de reino, sujeito ao rei de França, que n'esse tempo era o rei santo que elles tiveram, a saber S. Luiz.
—S. Luiz rei de França, interrompeu a Margarida,{44} é uma igreja que fica ali para as bandas do Rocio.
—Pois é uma igreja e foi um rei, tia Margarida, respondeu o João de Agualva, como Santa Izabel é uma igreja que fica ali para as bandas da Estrella, o que a não impediu de ser tambem uma rainha e rainha de Portugal.
—Isso é verdade! confirmou a tia Margarida.
—Pois então, como lhes ía dizendo, reinava S. Luiz em França, e D. Affonso, seu vassallo, por ser conde de Bolonha, fôra com elle á guerra, e déra provas de ser homem desembaraçado. Lembraram-se d'elle para rei, e D. Affonso, que era ambicioso, acceitou. Os bispos e os fidalgos disseram comsigo que um rei feito por elles havia de ser um creado que tivessem ali no throno, e o papa entendeu tambem que aquillo era «senhor mandar, preto obedecer». Combinou-se tudo. D. Affonso prometteu quanto quizeram e ahi vae elle caminho de Portugal, fingindo que ía para a Terra Santa. Desembarca e principia a guerra civil. Tambem se não sabe muito do modo como as cousas se passaram. Parece que foi uma guerra levada do diabo como são sempre as guerras civis, queimaram-se villas e cidades, arrasaram-se muitas cearas, ficou muita gente na miseria, e o pobre D. Sancho viu-se abandonado por todos, dizem até que pela mulher, que fôra, a final de contas, o motivo de todas aquellas cousas.{45} Houve só um ou outro que se lhe mostrou fiel. D. Sancho teve de saír do nosso paiz, e foi para Hespanha, onde morreu em Toledo apenas com trinta e sete annos.
—Pobre do homem! acudiu compassiva a tia Margarida. Então que mal tinha elle feito áquella gente toda?
—Era um rei fraco, e, como se costuma dizer, não era nem para si nem para os outros. Até a mulher não fez caso d'elle, porque as mulheres são assim: em estando uma pessoa embasbacada a olhar para ellas, não fazem caso nenhum, e ás vezes de quem gostam é de quem lhes chega um calor ao corpo, como o outro que diz.
—Vae-te excommungado, bradou indignada a tia Margarida. Se um homem me batesse, eu até parece que era capaz de lhe arrancar os olhos.
—Pois sim, tia Margarida! não digo menos d'isso. Mas a rainha D. Mecia não era do mesmo parecer, e pagou bem as pieguices de D. Sancho!... Só de dois fidalgos se conta que se mostraram fieis ao desgraçado rei. Um foi o alcaide de Celorico, que até dizem que fez uma partida com graça. Estava-o cercando D. Affonso, e elle já não tinha nem uma migalha de pão, n'isto passa uma aguia por cima da praça com uma truta no bico, e deixa-a cair dentro da villa. O alcaide, em vez de a comer, manda-a cosinhar muito bem, e envia-a de presente aos cercadores.{46} D. Affonso, vendo que na praça havia petiscos d'aquelles, entendeu de si, para si que estava perdendo o tempo e o feitio, e foi-se embora. Póde ser que isto seja patranha, mas o que é verdadeiro, sem tirar nem pôr, é o caso de Martim de Freitas. Esse era alcaide de Coimbra, foi cercado tambem, não se rendeu. Disseram-lhe que já D. Sancho morrera, e que por conseguinte era D. Affonso o seu natural successor. Não acreditou. Affirmaram-lhe que morrera em Toledo. Pediu para ir ver. Deram-lhe um salvo conducto, e Martim de Freitas, mettendo na algibeira as chaves de Coimbra, foi de passeio até Toledo. Mostraram-lhe o tumulo do rei, mandou-o abrir; mostraram-lhe o caixão, quiz ver o corpo; e ao ver emfim o pobre cadaver do seu rei, que assim morrera aos trinta e sete annos, longe da sua terra e longe dos seus, ajoelhou e poz as chaves da cidade nas mãos do rei que lh'as entregára; depois, tirou-as d'essas mãos já frias que as não podiam segurar, e partiu para Coimbra, entregando-as ao novo rei, que louvou muito a acção.
—E tinha rasão para isso, tornou a tia Margarida, que estava sendo agora a interruptora, mas com o tal rei novo é que eu não engraço nada. Olhem que irmão! Sempre tinha uns figados!
—Não era muito boa rez, não, tia Margarida, mas então n'este mundo não são só as boas pessoas que servem. Que D. Affonso se importava tanto{47} com a familia como eu me importo com a familia do imperador da China, é o que não tem questão, mas que foi um grande rei, isso tambem é verdade.
—Era fresco o tal rei, que assim fazia guerra ao irmão sem mais nem menos!
—Ha mais exemplos d'isso, tia Margarida, e não vão elles tão longe que uma pessoa se não possa lembrar. Mas olhe que não param ahi as maldades de D. Affonso. Tambem não fez caso da mulher, a tal condessa de Bolonha, que nunca foi capaz de pôr pé em Portugal, e casou, em vida d'ella, com uma filha do rei de Hespanha.
—E ainda você o gaba, sr. João? perguntou a tia Margarida. Sabe o que eu lhe digo? Parece-me que você é tão bom como elle!
—Olhe, tia Margarida, não me rogue você nunca outra praga, que lá com essa não me hei de eu dar mal. O que lhe disse é que o sr. D. Affonso III foi um dos reis que fizeram mais bem ao pobre povo, e sabe vocemecê porque? Porque era homem de cabeça, e o que succedera com elle não tinha caído em cesto roto. Elle disse comsigo; Estes patifes d'estes fidalgos e d'estes bispos são capazes de me fazer a mim o mesmo que fizeram a meu irmão. Ora, eu sósinho não posso com elles. A quem me hei de encostar? Olhou em torno de si e vio o povo, o povo em quem ninguem fallava, e que era a final de contas quem pagava{48} as custas dos barulhos entre os grandes, o povo que pagava tributos a toda a gente, e que mesmo quando vivia em seus concelhos governando-se pelos seus foraes, que eram para assim dizer as suas leis, mesmo então era ralado pela fidalguia. E Affonso III disse comsigo: Ora ahi está quem me serve. E desata a fazer concelhos, e, quando reuniu côrtes que até ahi eram só de fidalgos e padres, chamou tambem procuradores do povo, e favoreceu o mais que poude o seu negocio, e deu-lhes socego e cousas e tal, de fórma que depois poude dar para baixo nos prelados, que berravam pelos contractos que tinha diabo, mas D. Affonso III, que era finorio, abanou-lhes as orelhas. E que os papas tinham deposto não só o rei D. Sancho II, mas tambem um imperador da Allemanha, de modo que aos chefes dos estados já ía cheirando a chamusco, e principiaram a fazer parede contra o papa. Assim os bispos, que levavam tapona de D. Affonso III, íam a Roma fazer queixas ao papa, e o papa naturalmente respondia-lhes contando-lhes uma fabula que lhes vou contar a vocês tambem.
—Conte lá sr. João da Agualva, exclamou o Manel da Idanha, ainda que eu, a dizer a verdade, não sei lá muito bem o que venha a ser isso de fava ou fabula ou o que é.
—Fabula é assim uma historia em que os animaes fallam como se fossem gente, e pelo que elles dizem tira a gente... sim... é como diz o outro {49} pelos domingos se tiram os dias santos... Eu lá, a estas explicações, não se póde dizer que seja um barra, mas em fim, em eu contando o caso, logo vos apercebem.
—É isso mesmo, tio João, conte lá, disse o Bartholomeu.
—Uma vez as rãs foram ter com Deus Nosso Senhor e pediram-lhe um rei, e Deus Nosso Senhor, que estava de maré, não quiz abusar das pobresinhas, e atirou-lhes para o charco um cepo; mas o cepo não fazia nada, andava á tona da agua, para aqui e para acolá, as rãs não lhe tinham respeito nenhum, e saltavam n'elle, qual debaixo qual de cima, e o cepo sempre um paz d'alma, que tanto valia terem rei como não o terem. Vae então as rãs voltaram a Deus Nosso Senhor, e disseram-lhe d'esta maneira: Dê-nos Vossa Divindade um rei que se veja, um rei que nos governe.—Pois então ahi vae um rei como vocês querem, respondeu Nosso Senhor, e atirou-lhes para o charco uma serpente, e a serpente, a primeira cousa que fez, foi engulir as primeiras vassallas que lhe pareceram mais gordas, e depois outras e outras, de fórma que as pobres rãs já se não atreviam nem sequer a coaxar para que sua magestade não desse com ellas. Percebem vocês agora porque é que o papa podia contar esta historia aos bispos que íam ter com elle?
—Percebo eu, acudiu logo o Manel da Idanha.{50} É que elles não descançaram emquanto não pozeram fóra um rei que era um paz d'alma, um cepo, o D. Sancho II, e foram buscar outro rei que era uma serpente e que deu cabo d'elles que foi um regalo.
—Ora, tal qual, sô Manel. Com gente assim é que eu me entendo. D. Affonso III bem se póde dizer que era uma serpente, porque as serpentes são manhosas, e elle tinha manha a valer. Mostrou-o em tudo, até no modo como se assenhoreou do Algarve, que era só o que faltava para Portugal chegar ao mar pelo lado do sul. Tomou-o aos mouros, e isso foi obra de pouco tempo; mas o rei de Castella começou a berrar que o Algarve lhe devia pertencer a elle. D. Affonso III nunca lhe disse o contrario, mas foi arrastando a entrega, e depois aproveitando tudo, de fórma que ás duas por tres estava senhor do Algarve, e, quando D. Affonso III morreu, que foi a 16 de fevereiro de 1279, estava Portugal completo e seguro, e, visto que chegámos ao fim d'esta primeira parte, parece-me que o melhor é irmos dormir, que para o outro domingo continuaremos.
—Mas ó sô João, disse o Manel da Idanha, já agora, faça favor, não deixe ir a gente embora, sem nos explicar uma cousa. Vocemecê diz que o rei, para esmurrar as ventas aos bispos mais aos fidalgos, começou a fazer concelhos por dá cá aquella palha, e lá{51} isso é que eu não percebo muito bem. Então que diabo tinham os fidalgos com o haver ou o não haver concelhos?
—Pois tem rasão, sô Manel da Idanha, e bom é que essas cousas fiquem explicadas, porque a mim parece-me cá no meu modo de ver que o que nos importa a nós, que somos do povo, não é tanto saber as batalhas que se deram, e mais os reis que houve; o que nos importa é saber como é que viviam os nossos paes, e como se governavam e cousas e tal. Ora pois, saibam vocês que muitos dos nossos paes eram a bem dizer escravos, não como os do tempo dos romanos que podiam ser vendidos como uns negros, mas faziam parte das terras que cultivavam, e com ellas passavam de dono para dono. Isto foi melhorando, e os servos passaram a ser gente livre, mas sem ter terras suas; pagavam foros e foros pesados, os senhores das terras eram os reis, os nobres, os bispos e os mosteiros. As terras dos reis chamavam-se terras da corôa, as dos fidalgos e as da igreja coutos, honras e behetrias. Ora os fidalgos, que só tinham obrigação de servir o rei na guerra e não pagavam mais nada, ou por herança de seus paes, ou por doações dos reis em recompensa dos seus serviços, íam mettendo em si o paiz todo, já se vê de embrulhada com os padres; e os reis pouco tinham de seu, porque, demais a mais, fidalgos, bispos e conventos apanhavam tudo quanto{52} podiam, o que se lhes dava e o que se lhes não dava. Por isso D. Affonso fez as taes inquirições, quer dizer, obrigou todos a porem para ali os seus titulos, para se saber se tinham as terras com direito ou sem elle, estabeleceu mais as famosas confirmações que punham a fidalguia sempre na dependencia da corôa, porque cada novo rei confirmava ou não confirmava as doações dos outros, e finalmente prohibiu aos conventos que arranjassem mais terras. E vae o povo o que fazia? Sempre que se podia livrar dos fidalgos e dos padres por qualquer modo e feitio, formava-se um concelho. Então continuavam a pagar tributo, e serviam nas guerras, mas não estavam sujeitos a ninguem, governavam-se elles por si, e tinham as terras muito suas. Ora, como os reis é que os podiam ajudar a ver-se livres da fidalguia, chegavam-se para elles, e os reis, que tinham nos concelhos gente que tambem ía á guerra e que lhes pagava tributos, encostavam-se para esse lado, para terem quem lhes valesse quando os barões ou os bispos se faziam finos. Aqui tens tu explicado pela rama como cada concelho, que se formava, era ao mesmo tempo um asylo de liberdade para o povo e um auxiliar para o rei contra as ameaças dos fidalgos.