—Muito obrigado, sô João da Agualva, tornou o Manel; mas sempre lhe digo
que quem não sabe é como quem não vê. Ora quem me havera de dizer
que{53} esta historia de ter uma
terra, um pelourinho no meio da praça, era de tanta vantagem cá para o povo!
Pois até domingo, e tomára eu que passasse depressa a semana porque
divertimentos como este é que ha muito tempo a gente não apanha.{54}
{55}
QUARTO SERÃO
D. Diniz.—A universidade de Coimbra.—Os Templarios.—Santa Isabel.—D. Afonso IV.—A batalha do Salado.—Morte de Ignez de Castro.—D. Pedro I.—D. Fernando I.—Leonor Telles.—Estado de Portugal no fim do reinado de D. Fernando.
—Meus amigos, principiou o João da Agualva, corriam os annos, e lá por esse mundo de Christo íam todos abrindo os olhos. Os romanos, como lhes disse, eram um povo que sabia o nome aos bois. Elles faziam estradas, elles faziam edificios que ainda hoje, arruinados, deixam ficar uma pessoa embasbacada, elles tinham escolas, o diabo! Mas, depois, vieram os barbaros dos bosques da Allemanha e da Russia, e zas, tras, catatras, lá se foi tudo pela agua abaixo. Por muito tempo não se pensou senão em pancadaria. Tudo era gente rude, os reis não sabiam ler nem escrever, os povos fallavam uma lingua assaralhopada que nem era latina, nem deixava de o ser. Mas a pouco e pouco foram-se aclarando as{56} cousas, foi havendo estudos, e D. Diniz, que subiu ao throno, depois da morte de D. Affonso III, era já um sabichão. Elle fazia os seus versos de pé quebrado, que a gente hoje quasi que não entende, mas que eram já escriptos n'uma lingua com termos, elle emfim vio que havia escolas por esse mundo onde se ensinava tudo o que então se sabia, e quiz tambem ter uma que foi a universidade de Coimbra. Depois tratou de fazer do reino alguma cousa com geito. Já não tinha que pensar em mouros, e então pensou na lavoura, pensou na marinha, pensou em tudo o diabo do homem! Mandou vir capitães de navios, de Italia, para ensinarem os nossos, e ajudou os navegantes do Porto, que sempre foram gente desembaraçada, a crear uma especie de companhia de seguros, e não se descuidou tambem de dar para baixo na nobreza e nos padres para elles se não fazerem finos, e dava-lhes de modo que elles não tinham rasão de queixa, porque era sempre com justiça. Ora, por exemplo, d'antes havia uma especie de frades que se chamavam freires militares, que eram, como quem diz, frades e soldados ao mesmo tempo. Em vez de fazerem voto de rezar e de jejuar, faziam voto mas era de dar bordoada nos mouros. Havia umas poucas de ordens n'esse gosto, a ordem dos Templarios, a de S. Thiago, a de Aviz e outras. Ora, como é de ver, esses templarios, por exemplo, que se fartavam de tomar terras aos mouros,{57} com algumas haviam de ficar para si. E depois tinham doações, emfim eram ricos a valer. O que acontecia por cá, tambem acontecia lá por fóra. Succedeu, pois, que um rei de França e um papa acharam excellente apanhar para si essas riquezas todas, e acabaram com a ordem dos Templarios em toda a parte; mas D. Diniz, que era um homem serio, não esteve pelos ajustes, e entendeu que seria um roubo tirar aos homens o que elles tinham ganho á custa do seu sangue, e então, como não havia de desobedecer ao papa, abolio a ordem dos Templarios, mas passou todos os bens para outra que pediu ao papa que creasse e a que chamou ordem de Christo.
—Ó sr. João, perguntou o Francisco Artilheiro, esse D. Diniz não era marido da rainha Santa Isabel?
—Era sim, rapaz, e já vou fallar n'essa rainha, que foi tambem uma das bençãos de Portugal n'esse tempo. Era filha do rei de Aragão, e bem se póde dizer que aquella é que foi uma verdadeira santa. Pobre senhora! Não lhe faltaram desgostos, não. Primeiro houve grande bulha entre o marido e um cunhado, D. Affonso Sanches, que embirrou em que lhe pertencia a corôa, apesar de ser mais novo; depois, e isso foi o peor, o filho, que veio a ser D. Affonso IV, revoltou-se contra o pae, e porque? Porque el-rei D. Diniz, que era frecheiro, e que se fartou de{58} ter filhos bastardos, parecia que olhava mais por elles do que pelos proprios filhos do matrimonio. Imaginem o desgosto da rainha! Primeiro porque emfim não havia de gostar muito de ver o marido sempre ao laré com esta e com aquella a arranjar filhos por fóra de casa, e depois por ver assim a guerra accesa entre seu marido e seu filho. E ainda por cima o rei desconfiou que ella ía de accordo com o filho, e chegou até a tratal-a mal, e a mandal-a saír da côrte. Pobre senhora! aquillo era o que ali estava. Ella tudo supportou com resignação—as infidelidades e as injustiças do marido, só o que queria era ver tudo em paz. E sempre o conseguio. Tanto pediu, tanto chorou, que o filho e o pae vieram ás boas. Mas d'ahi a pouco torna a haver intrigas, e o D. Affonso, que era um vivo demonio, torna á pancadaria com o pae. Pois senhores, a batalha estava para ser aqui ao pé de Lisboa, no Campo Grande; mas quando já começavam á lambada, apparece no meio d'elles a boa rainha, que foi mesmo o anjo da paz, e depois que ella appareceu ninguem mais se atreveu a levantar uma lança. Oh! rapazes! digo-lhes que até me parece que não era necessario que o papa a fizesse santa para que o povo a adorasse! Pois então se aquella não fosse santa quem é que o havia de ser? Dizem que mudava o ouro em rosas, e rosas em ouro. Isso creio eu, que aquellas bentas mãos haviam de mudar{59} em flores tudo em que tocassem, porque eram, como o outro que diz, mãos puras e boas, como a aragem de maio! Mas milagres maiores fazia ella ainda, porque as lagrimas que chorava em segredo caíam depois sobre a cabeça do pai e do filho como orvalho de paz e como chuva de amor! Sim! Sim! continuou o bom do João da Agualva, com voz tremula, e meio a chorar, digam lá vocês que ella não mudava tudo em que tocava em rosas, quando agora mesmo, que diabo! só de fallar n'ella, parece que até as palavras na minha bôca se estão mudando em flores!
—Ai! a minha rica Santa Isabel! exclamou a tia Margarida, pondo as mãos, n'um enlevo. Coitadinha da minha rica santa que foi logo casada com um homem tão mau!
—Não era mau, não senhora, tornou o João da Agualva, foi até um dos melhores reis que nós tivemos, mas como elle ás vezes lá escorregava o seu pedaço, e nem sempre tratou a santa como ella merecia ser tratada, bastou isso para que o povo começasse a inventar cousas, que elle que era um sovina, um desconfiado, um unhas de fome, e até os pintores, quando fazem o quadro do milagre das rosas, põem-n'o com uma carantonha de metter medo, que ninguem dirá que está ali o rei poeta, o rei a quem chamavam o pae do povo, o rei que não quiz roubar os templarios, o rei que fundou a universidade{60} de Coimbra, o rei que tanto se desvelou pelo bem do paiz! E que as injustiças, por mais pequenas que sejam, sempre vem a pagar-se, e D. Diniz, esses peccados que teve, pagou-os bem caro, primeiro com a revolta de seu filho, depois com a injustiça do futuro, e agora vão vocês ver como o filho tambem pagou o que fizera ao pae, porque em 1325 morreu el-rei D. Diniz e subiu ao throno seu filho D. Affonso IV, a quem chamaram o Bravo.
—Ora vamos lá a ver o que fez esse senhor, disse uma voz.
—D. Affonso IV, meus amigos, tinha muito boas qualidades. Era, por exemplo, um homem de muito bons costumes, e foi isso até que o levou a praticar uma acção... emfim, depois fallaremos. Era homem serio, mas arrebatado e vingativo. A primeira cousa que fez, assim que subiu ao throno, foi vingar-se dos irmãos, por cuja causa tivera as bulhas com o pai. D'ahi guerra. Quem acudiu? A rainha Santa Isabel.
Casou uma filha com o rei de Castella, Affonso XI. Este, que era do feitio de D. Diniz, começou a largar a mulher e a metter-se com uma tal D. Leonor de Gusman. D. Affonso IV, que ficára embirrando deveras com esses arranjos depois das turras com o pai, começou a criar má vontade ao genro, e zas, toma que te dou eu, ao primeiro pretexto que teve, ahi começam as bulhas. Foi uma guerra de cá{61} cá ra cá, que não prestou para nada, mas que sempre fazia mal ao povo. No mais seguiu á risca o exemplo do pae. Tratou do povo, teve os fidalgos muito na mão, mais os padres tambem. E então com esses não foi lá só por causa das terras a que deitavam a unha, foi tambem por causa dos maus costumes, porque elles gostavam de passar vida airada e outras cousas que D. Affonso IV lhes não levou a bem. Por isso apanharam uma vez uma rabecada, n'uma carta que D. Affonso escreveu ao papa, que foi de ficarem de cara a uma banda.
—Bem feito! acudiu a tia Margarida. Esse rei sim! esse é que me quadra. Bem se vê que era filho da rainha Santa Isabel!
—Espere lá, tia Margarida, não falle antes de tempo que, como diz o outro, até ao lavar dos cestos é vindima. Houve no reinado de D. Affonso IV duas cousas famosas: primeiro a batalha do Salado, depois a morte de D. Ignez de Castro.
—Foi com os hespanhoes a batalha do Salado?
—Não homem, foi dada até para os ajudar. Já lhes disse, meus amigos, que nós desde o reinado de D. Affonso III tinhamos posto os mouros na rua. Mas os hespanhoes ainda não tinham conseguido o mesmo, os mouros estavam reduzidos apenas ao reino de Granada, mas sempre isso era alguma cousa. Ora agora ali em Marrocos estava, como sabem, a moirama toda. Imaginem que um bello dia o tal miramolim{62} de Marrocos, ou como diabo se chamava elle, desaba em Hespanha com o poder do mundo e junta-se ao rei de Granada para darem cabo do rei de Castella. Era este D. Affonso XI, genro do nosso D. Affonso IV. Aterrado com o perigo, pediu soccorro ao sogro, apesar de estar mal com elle; mas o nosso rei, homem ajuizado, vio que a occasião não era para dize tu direi eu, que não era só Castella que estava em perigo, estava em perigo a Hespanha toda; se Affonso XI levasse uma tareia e perdesse algumas provincias ficavam aqui os mouros de raiz, e tinha de se começar outra vez a pôl-os fóra. Por isso não esperou por mais nada, ajuntou quanta gente poude, e foi em soccorro do genro. O nosso rei era homem de pulso, os nossos soldados tambem eram pimpões. O soccorro não foi nada mau. Na batalha do Salado os mouros levaram uma sova de primeira ordem, e nunca mais os de Marrocos vieram cá metter o nariz d'este lado do mar. D. Affonso IV voltou para a sua terra sem ter querido acceitar cousa nenhuma da grande preza que fizeram.
—E isso de D. Ignez de Castro o que foi, ó sr. João da Agualva? perguntou a tia Margarida. Não foi essa Ignez de Castro que esteve aqui em Bellas, que até ali na quinta do marquez ha uma arvore a que chamam de Ignez de Castro?
—Ora adeus, tia Margarida! esteve agora em{63} Bellas! quer dizer, eu, como não andei com ella por toda a parte, não sei se por cá passaria alguma vez, mas onde viveu principalmente foi em Coimbra. Era uma hespanhola esta Ignez de Castro, linda como os amores, loura como o sol, e com um pescoço tão bonito, que lhe chamavam o collo de garça. Veio para Portugal como dama da infanta D. Constança que foi mulher do principe D. Pedro, filho de D. Affonso IV, mas o principe parece que gostou mais da dama que da mulher. Tristes amores foram aquelles, rapazes! Ella tinha pelo seu Pedro um fatacaz lá de dentro, que estou em dizer que mais gostaria ella de que elle fosse um pastor de cabras do que filho de um rei. A princeza D. Constança morreu, e para isso não deixaria de concorrer a paixão do marido, que, por mais que elle a quizesse esconder, rebentava por todos os lados. Coitada da princeza! tudo fez para arredar o marido d'aquelles mal-aventurados amores. Mas então! vão lá fugir ao seu destino! Pediu a Ignez de Castro que fosse madrinha de um filho que ella teve, porque n'esse tempo haver amores entre compadre e comadre quasi que era maior peccado que havel-os entre irmãos. Nada! aquillo era como um fogo valente que tanto mais se accende quanto mais agua lhe deitam. Em fim, morreu a princeza, e D. Pedro e D. Ignez ficaram á vontade, porque até ahi tinham guardado respeito á pobre senhora. Casariam?{64} D. Pedro assim o jurou depois, mas eu estou em dizer que não, porque para casarem era necessaria dispensa graúda, que o papa não daria assim sem mais nem menos e com tanto segredo como o principe quereria. Mas, ou casassem ou não, é certo que tiveram tres filhos, e que o principe D. Pedro não queria saber de mais nada senão da sua loura Ignez.
D. Affonso IV não viu isso com bons olhos. Sabem como elle era. Vivia só para a sua mulher, queria tudo em boa ordem, e não gostava d'essas fraquezas. Os fidalgos tambem não gostavam, mas esses por outras rasões. Tinha D. Ignez muita parentella, e diziam comsigo que, apenas D. Affonso IV fechasse os olhos, eram os Castros que davam as cartas em Portugal. Começaram a ferver as intrigas, e chegaram a aconselhar o rei que, visto que não havia forças humanas que arrancassem D. Pedro á sua Ignez, o melhor era darem cabo d'ella. D. Affonso IV torceu o nariz, mas lá por dentro estava em braza. Ora, imaginem vocês! D. Affonso, no principio da sua vida, tivera os maiores desgostos por causa dos bastardos de seu pae. Tambem o tinham feito de fel e vinagre os amores de seu genro com D. Leonor de Gusman. Morria pelo neto, um rapazinho bonito como a aurora, que tinha de ser depois D. Fernando o Formoso. Lembrou-se das amarguras que viriam a causar ao rapazito os filhos da amante{65} querida, que talvez até lhe roubassem a corôa. Subiu-lhe a mostarda ao nariz com a teima do filho, e deu ordem aos seus tres conselheiros, Alvaro Gonçalves, Diogo Lopes Pacheco e Pedro Coelho para que o livrassem de D. Ignez. Ahi vão todos até Coimbra, onde estava muito socegada a triste da rapariga. Ella, apenas suspeitou do caso, veiu com os filhos lançar-se aos pés do rei. O pobre D. Affonso enterneceu-se, mas os conselheiros é que viram o caso mal parado. «Se elle perdôa, disseram comsigo, nós é que pagamos as favas.» Não esperaram que D. Affonso resolvesse as cousas de outro modo. Foram-se á pequena, e, emquanto o diabo esfrega um olho, ferraram com ella no outro mundo!
—Ai que malvados! bradaram todos.
—Isso eram, tornou o João da Agualva. Sim! que eu não desculpo D. Pedro, nem a desculpo a ella. Se uma mulher, só porque gosta de um homem, não está lá com mais ceremonias e passa a viver com elle, sem a benção do padre, aonde irá isto parar? mas tambem matal-a sem mais nem menos, matal-a no meio dos seus filhos, matar uma pobre menina, que não fazia senão chorar, ah! só uns malvados eram capazes de fazer similhante cousa. Por isso tambem, vêem vocês? D. Affonso foi um bom rei, um homem de bons costumes, um valente, tudo quanto quizerem, mas a final de contas perguntem ahi a um pequeno:—Quem era D, Affonso IV?{66} Cuidam que elle que lhes responde: Era um bom rei, isto, aquillo e aquell'outro. Não, senhores, diz logo: Foi o rei que matou Ignez de Castro. E como assassino é que a gente o conhece, e no seu manto real não se vê o sangue das batalhas, vê-se mas é o sangue de Ignez! E esta? Se a não matassem, o que dizia a historia? Foi a amante de um rei. Olhem que gloria! E assim? Todos choram por ella, como a tia Margarida, que está ali a limpar os olhos com a ponta do seu avental.
—E o que fez D. Pedro? perguntou o Manuel da Idanha.
—O que fez D. Pedro? Ah! com os diabos! Imaginem! Elle ainda tinha peior genio que o pae. Apenas soube do que succedera, aquillo parecia um leão ferido. Saltou logo para o campo em som de guerra, e D. Affonso pagou o que fizera ao pae, porque teve tambem o filho revoltado contra si. Correu muito sangue por esse reino, até que emfim se fez a paz, mas D. Affonso IV pouco tempo sobreviveu, morrendo em 1359, dois annos depois da morte de Ignez.
—Subio ao throno D. Pedro, não é verdade? perguntou com muito interesse o Manuel da Idanha.
—É verdade que sim, e, meus amigos, então é que se viu o amor lá de dentro que elle tinha á sua Ignez. Apenas subio ao throno, os assassinos da{67} Castro safaram-se para Hespanha, mas D. Pedro lá fez o seu negocio com o rei de Castella, de fórma que apanhou os criminosos, menos um, Diogo Lopes, que conseguiu fugir. Assim que os teve em seu poder, fez-lhes torturas. A um mandou arrancar o coração pelo peito e a outro pelas costas.
—Credo! exclamou a tia Margarida.
—Por isso lhe chamavam D. Pedro o Cruel, assim como tambem lhe deram o nome de D. Pedro o Justiceiro. Justiça fez elle, porque bradava aos céus a morte de D. Jgnez, mas uma crueldade assim é de se porem a uma pessoa os cabellos em pé! Que mais querem? D. Pedro parece que não pensava n'outra cousa senão na sua Ignez, elle trasladou-a, com um estadão nunca visto, de Coimbra para Alcobaça, onde lhe mandara fazer um tumulo que era mesmo uma lindeza. Elle declarou que tinha casado com ella, e até se diz que a sentou, depois de morta, no throno, e mandou que todos lhe beijassem a mão. Mas isso parece-me patranha, ainda que D. Pedro era capaz d'essas extravagancias e de muitas mais. Porque effectivamente, meus amigos, parece que elle tinha endoidecido com a morte de D. Ignez. Tinha assim de repente umas furias que era livrar quem estivesse diante. Era justiceiro, é verdade, mas fazia justiça á doida e á bruta. Outras vezes entrava por essa Lisboa dentro a dançar, muito contente da sua vida. Governava bem, não ha{68} duvida, punia pelo povo, abaixava a prôa aos bispos, conservava o reino em paz, e juntava bom dinheiro nos cofres para uma occasião de apuros, mas era ao mesmo tempo umas mãos rotas com os fidalgos, que tornaram a fazer-se finos, como se viu depois.
Foi em 1367 que D. Pedro morreu, e logo subiu ao throno D. Fernando, a quem chamavam o Formoso, de bonito que era. Lá que elle tinha telha, isso é que não padece duvida, porque nunca se viu uma ventoinha assim. Aquillo era mesmo um gallo de torre de igreja. Primeiro deu-lhe na tonta o querer ser rei de Castella, de mais a mais não tendo geito nenhum para a guerra, e não gostando de batalhas. D'ahi, o que resultou? Gastou o que tinha, levou pasada de crear bicho, e teve de fazer as pazes. Mas vejam vocês que cabecinha! Quando fez guerra a Castella, alliou-se com o Aragão, mandou-lhe para lá bom dinheiro, e prometteu casar com a filha do rei, que se chamava D. Leonor. Faz as pazes com o de Castella, e, sem se lembrar já do primeiro casamento, promette casar com a filha do rei castelhano, que tambem se chamava Leonor. O de Aragão não fez caso, metteu o dinheiro portuguez, que lá tinha, nas algibeiras, e nunca mais deu contas. Mas o peor não é isso, o peor é que D. Fernando tambem não casou com D. Leonor de Castella, porque n'este meio tempo namorou-se de uma dama do{69} paço, chamada D. Leonor Telles, e desposou-a! Ao menos n'uma cousa era elle constante, é que não saía das Leonores.
Esta Leonor Telles foi o que se chama uma mulher de truz, bonita como as que o são, manhosa como a serpente, e dando, como a nossa mãe Eva, o cavaquinho pelo fructo prohibido. Quando casou com D. Fernando já era casada com um D. João Lourenço da Cunha, mas lembrou-se á ultima hora de que ainda eram parentes, e o rei arranjou do papa que desfizesse o casamento. João Lourenço da Cunha deu graças ao céu por se ver livre da mulher que estava para lh'a pregar mesmo na menina do olho, e D. Fernando levou D. Leonor Telles para casa. Mas o povo é que não esteve pelos autos e gritou e berrou e fez tumulto, tanto que el-rei safou-se de Lisboa. Houve mosquitos por cordas por esse reino todo, e a final acabou tudo em paz. D. Leonor ficou sendo rainha, os de Lisboa apanharam para o seu tabaco e D. Fernando não tardou a levar a paga.
O rei de Castella achou que D. Fernando o tratara com tal ou qual sem-ceremonia, e quiz-lhe dar uma lição de bem viver. Veio a Portugal, chegou a Lisboa, entrou por ahi dentro, fez um estrago de seiscentos demonios, e dava cabo da capital se D. Fernando lhe não vem pedir pazes, que, já se vê, custaram caras. Aqui ficámos finalmente em socego,{70} e então D. Fernando parecia outro homem. Sabia governar aquelle rapazote, quando as mulheres lhe não faziam andar a cabeça á roda, ou quando se não lembrava de ter outros reinos. Era economico e arranjado. Sabia pôr as cousas no seu logar. Foi elle que cercou Lisboa de fortificações, que depois não serviram de pouco ao seu successor.
Mas, coitado, acertára mal, em todos os sentidos, com a tal D. Leonor Telles, que era mesmo o demonio em pessoa; quando se enfastiou d'elle, tomou amores com um gallego que vivia em Portugal, chamado conde Andeiro. El-rei, entretanto, metteu-se outra vez em guerras com Castella, e pediu auxilio aos inglezes. Oh! rapazes, que tristes tempos foram aquelles! A vida do paço era um desaforo. Estava ali aquella mulher, aquella... não sei que diga, a pôr na cabeça a corôa da rainha Santa Isabel, a corôa que não podéra pôr nos seus cabellos louros a pobre Ignez de Castro, que, apesar de todos os pezares, era mil vezes mais capaz do que essa rainha de contrabando, que andou de um para outro, sem vergonha de qualidade nenhuma! E ainda por cima era malvada! vingativa! e para ella a vida de um homem valia tanto... como... a honra do marido, que é o mais que se póde dizer!
O povo desgraçado, porque tudo se juntava. As guerras com Castella sempre
infelizes! os inglezes,{71} como
sempre, apesar de amigos, muito peores do que se fossem inimigos. Os fidalgos
de Castella, que tinham tomado o partido de D. Fernando, tratados aqui á
grande! e ainda por cima D. Fernando sem ter filhos, e com a filha unica já
casada com D. João I de Castella. D. Fernando, apesar da sua cegueira, já ía
percebendo as cousas, e tinha lá por dentro um desgosto que o ralava. Tambem em
1383, tendo apenas trinta e oito annos de idade, esticou a canella, depois de
um reinado que podia ter sido muito proveitoso, e que assim foi uma desgraça
para todos. E eu tambem me vou chegando para a cama, não sem lhes dizer que
houvera mudança completa no modo de viver da nossa gente n'estes ultimos
reinados. Os fidalgos tinham levado para baixo, e estavam já em grande parte,
por assim dizer, ás sopas dos reis. Os concelhos do povo tinham-se feito
fortes, e batiam o pé á fidalguia, e ao clero, principalmente, nas côrtes, em
que entravam. O resultado de tudo isso é o que vocês hão de ver de hoje a oito
dias.{72}
{73}
QUINTO SERÃO
Interregno.—Regencia de Leonor Telles.—Morte do conde Andeiro.—O cerco de Lisboa.—Nuno Alvares Pereira e João das Regras.—As côrtes de Coimbra.—D. João I.—A batalha de Aljubarrota.—Os filhos de D. João I.—Tomada de Ceuta.—Os descobrimentos.—D. Duarte.—Expedição de Tanger.—Menoridade de D. Affonso V.—O infante D. Pedro.—Batalha de Alfarrobeira.—Tomada das praças africanas.—Guerras com Hespanha.—Batalha de Toro.—Ida de D. Affonso V a França.—Continuação dos descobrimentos.
—Meus amigos, disse o João da Agualva no outro domingo, o que eu agora vou contar ha de parecer assim a vocês grande patranha, e a todos pareceria se não houvesse tantas provas da verdade. É caso de uma pessoa ficar pasmada ver o que fez este paiz só, ao canto do mundo, pequeno como é. Oiçam, pois, rapazes, com attenção. Apenas morreu el-rei D. Fernando, tratou logo D. Leonor Telles de fazer proclamar rainha de Portugal a sua filha D. Beatriz, que era uma pequenota casada com o rei de Castella D. João I, e ao mesmo tempo fez-se regente. O povo, que não queria ser castelhano, ou hespanhol como hoje diriamos, nem que o matassem, começou a levantar-se por toda a parte. Mas{74} o que faltava era um chefe. Os filhos de D. Ignez de Castro andavam fugidos por fóra de Portugal, um por isto, outro por aquillo, mas quem estava em Lisboa era um rapaz muito sympathico, filho bastardo de el-rei D. Pedro, que este fizera mestre de Aviz, e a quem D. Leonor Telles sempre tivera muito odio. A elle se dirigiram. O mestre vio que não havia remedio senão fazer o que o povo queria. Toma logo a sua resolução, vae ao paço e mata elle mesmo o conde Andeiro, põe-se á frente do povo de Lisboa, põe no meio da rua D. Leonor Telles, e proclama-se defensor do reino. O povo toma todo, sem excepção, o seu partido, e por todas as provincias; mas uma grande parte dos fidalgos foram para o rei de Castella. Entre os que ficaram figurava um rapaz sympathico tambem, valente como as armas, leal como a sua espada, amigo intimo e dedicado do mestre de Aviz, Nuno Alvares Pereira.
Sabedor do que se passava, desce a Portugal o rei de Castella com um exercito poderoso; mas pára deante de Lisboa já fortificada. Os lisboetas, commandados pelo mestre de Aviz, defenderam-se como homens, e o rei de Castella teve de se pôr na pireza; entretanto Nuno Alvares Pereira, que estava no Alemtejo, ganhava a batalha dos Atoleiros, e começava a estabelecer um systema de guerra que havia de dar muito de si. Como os concelhos estavam todos com o mestre de Aviz, a força do exercito{75} era principalmente infanteria. Pois Nuno Alvares Pereira aproveitou isso para ensinar os nossos a combaterem a pé. Formava uma especie de quadrado, ou como é que se chama, com os seus soldados, quadrado onde a cavallaria fidalga vinha sempre despedaçar-se.
—Ah! se elles calavam bayoneta, observou o Francisco Artilheiro, não entrava lá para dentro nem um cavallaria só que fosse.
—Não calavam bayoneta, respondeu o João da Agualva, porque era cousa que então não havia, mas fincavam as lanças no chão, e fossem lá entrar com elles.
Acabado o cerco de Lisboa, reuniram-se os dois amigos, e foram conquistar todas as terras de Portugal em que os fidalgos tinham levantado a bandeira de Castella. Ao mesmo tempo reuniram-se côrtes em Coimbra, para se escolher um rei. Ahi teve D. João I outro amigo, advogado de mão cheia, fino como um coral, chamado João das Regras, que foi quem lhe fez ganhar a eleição. Assim, o mestre de Aviz tinha a felicidade de ter dois amigos particulares que o serviam excellentemente, e cada um segundo o seu officio. Para cousas de penna e parlenda João das Regras, para batalhas e mais bordoada correspondente Nuno Alvares Pereira.
—Mas então as côrtes é que escolheram quem havia de ser rei? perguntou o Manuel da Idanha.{76}
—Tal e qual.
—E eram côrtes como as de agora? acrescentou o Bartholomeu.
—Não, senhor, havia os tres braços, como então se dizia, clero, nobreza e povo. Os bispos e os conventos mandavam os seus escolhidos, os fidalgos mandavam os seus e o povo tambem, quer dizer cada concelho mandava o seu procurador. Antes de D. Affonso III, íam só os padres e os fidalgos, depois é que o povo tambem começou a figurar n'essas festas; mas n'estas côrtes, que se reuniram em Coimbra, como muitos fidalgos estavam mettidos com o rei de Castella, póde-se dizer que foi o povo quem escolheu, e que o mestre de Aviz, isto é, D. João I, foi verdadeiramente o eleito do povo.
—E ahi lhe valeu o João das Regras? acudiu o Manoel da Idanha.
—Isso mesmo, porque lá para fallar não havia outro como elle. Mas d'ahi a pouco tornou-se necessario fallar outra lingua, a lingua das espadas, e n'essa, quem lia de cadeira era Nuno Alvares, que o novo rei fez logo condestavel. Os castelhanos, que tinham ido de cara á banda, voltaram á carga, e d'essa vez com um exercito immenso, porque o D. João I de lá tinha resolvido acabar de todo com o D. João I de cá. Antes de vir o rei com toda a sua fidalguia, já um corpo hespanhol tinha entrado pela Beira dentro, mas em Trancoso levou uma tareia{77} de primeira ordem. Não se emendaram e disseram comsigo: Agora é que vão ser ellas. A fallar a verdade tinham rasão. D. João I de Portugal teria, quando muito, uns oito ou nove mil homens, D. João I de Castella não tinha menos de trinta mil, e alem d'isso trazia comsigo peças de artilheria que era a primeira vez que se viam em Portugal. Encontraram-se os dois exercitos em Aljubarrota, que fica entre Alcobaça e Leiria, a 14 de agosto de 1385, grande dia, rapazes! Eu não sei que diabo tinham os nossos, mas parece que os animava um esforço sobrenatural. E elles não eram nenhuns fracalhões, os castelhanos, era tudo gente valente e destemida, mas os nossos estavam todos resolvidos a morrer ali mesmo. Depois tinham cabos de guerra que sabiam da poda, emquanto os de lá eram valentes, e mais nada. De lá, eram tudo fidalgos muito bem montados, com as suas espadas a luzir ao sol; de cá, gente do povo, soldados de pé, mas que todos queriam ser portuguezes com o seu rei que elles tinham feito, e que tambem com elles queria vencer ou morrer. E por isso Nuno Alvares dizia: Rapaziada, pé terra! e zás! lanças no chão, e venha para cá a fidalguia castelhana, mais os traidores portuguezes que se uniram ao estrangeiro. E não é dizer que não houvesse fidalgos tambem de cá. Oh! se os havia, e dos bons e dos melhores, porque eram todos os que tinham preferido morrer com{78} um rei portuguez a receber do estrangeiro honras e castellos, gente briosa e valente, e aventurosa, que combatia pelo seu rei, e pela sua dama, e pela sua honra e pela sua patria. Tambem, não lhes digo nada, nunca levaram os hespanhoes tão formidavel refrega. Por muito tempo lhes ficou lembrada, e o rei, que fugio a toda a brida para Santarem e de Santarem para a sua terra, não se podia consolar de similhante desastre. D. João I mandou fazer, no sitio da batalha, uma igreja e um convento maravilhoso, a igreja e o convento da Batalha, para agradecer a Deus a sua victoria,—e rasão tinha para isso, porque foi Deus decerto quem deu aos portuguezes o esforço e a galhardia que então mostraram, que, eu, meus amigos, não sou dos que acreditam que Deus se mette n'estes barulhos dos homens, mas quando um povo combate pela sua terra, que é como quem diz quando um filho combate pela sua mãe, então, meus amigos, ha uma cousa cá dentro em nós, que vem a ser a consciencia a bradar-nos que Deus, que é a justiça e a bondade, ha de querer a victoria do que é justo e do que é bom.
—E a padeira de Aljubarrota, sr. João da Agualva? perguntou o Francisco Artilheiro.
—Deixemo-nos lá de padeiras. Eu não sou muito amigo de mulheres que se mettem n'estas danças. A padeira era melhor que amassasse pão. Se é verdade{79} o que se diz, quando os castelhanos já íam de rota batida, a padeira foi-lhes no encalço e deu cabo de sete com a pá do forno. Olhem que grande façanha: matar quem vae fugindo! Aquillo era mulher de faca e calhau, e eu torço sempre o nariz a essa gentinha. Vamos adiante. A batalha de Aljubarrota decidio a sorte de Portugal. Ainda durou a guerra muito tempo, ainda o condestavel deu nova tareia nos hespanhoes em Valverde, mas a verdade é que estava tudo acabado. D. João I governou então com socego, casou com uma senhora ingleza muito virtuosa e muito boa, D. Philippa de Lencastre, teve muitos filhos que educou muito bem, e que foram todos homens de saber e alguns d'elles grandes homens, chamou muitas vezes as côrtes para ouvir o que ellas tinham que lhe dizer ácerca dos negocios do Estado, e governou tão bem, que se lhe chama, com toda a justiça, o rei da Boa Memoria. Já em idade adiantada, trinta annos depois da batalha de Aljubarrota, sentiu D. João I um appetite de tentar alguma empreza grande. Quem o metteu n'isso foram os filhos, tudo rapazes decididos que andavam mortos por se metter n'alguma cousa que lhes désse gloria. O que haviam de fazer? Foram-se aos mouros. Passaram o estreito, e tomaram Ceuta que fica ali mesmo defronte de Gibraltar. Vêem vocês? Aquillo era uma raça que não podia estar quieta. Emquanto jogavam as cristas com{80} os visinhos, ía tudo bem, mas depois? Os aragonezes viravam-se para Italia, os castelhanos lá tinham os mouros granadís, nós o que tinhamos? Os mouros de Marrocos e as ondas do Oceano. Pois foram as ondas e os mouros que pagaram as favas. D. João I tomou Ceuta, e D. Henrique, seu filho, deliberou tomar o desconhecido.
—Ó sr. João, exclamou o Francisco Artilheiro, devo confessar que lá isso é que eu não percebo muito bem.
—Pois eu te explico, rapaz. Julgava-se d'antes que do outro lado do mar não havia cousa nenhuma, ou antes que as ondas lá para longe eram um verdadeiro inferno ou um paraizo tambem, porque uns diziam que tudo para alem eram ilhas de santos e jardins do céu, e outros que eram ilhas do diabo e terras de maldição; que havia umas estatuas encantadas que não deixavam passar ninguem, e um mar de pez que engolia os navios. Ora vocês hão de saber que póde uma pessoa ser muito valente, e ter medo de almas do outro mundo, e de feitiços e do diabo. Ali está o Francisco Artilheiro, que, quando foi na expedição á Africa, se atirou ao Bonga como gato a bofes, que é capaz de varrer uma feira, e que, se lhe disserem que vá de noite ao palacio do marquez, lá ao corredor onde dizem que falla a voz do Roque...
—Tarrenego! exclamou o Francisco Artilheiro,{81} um homem é para um homem, mas lá uma alma do outro mundo!...
—Ora ahi está! era o que acontecia aos soldados de D. João I. Com mouros e castelhanos tudo o que quizessem, mas com as aventesmas do mar... arreda! Pois imaginem vocês se D. Henrique não fez um milagre conseguindo que os marinheiros do Algarve, porque elle, desde que poz o fito em querer saber o que o mar escondia, foi-se estabelecer em Sagres, mesmo na ponta do cabo de S. Vicente, conseguindo que os marinheiros do Algarve se mettessem ás ondas, sem medo de phantasmas, nem de avejões. E foram aquelles valentes, que fizeram tão grande no mundo este paiz tão pequeno, e partiram por esses mares fóra, sem saber o que por lá havia, e sempre a tremer da perdição da vida e da perdição da alma, e foram, e encontraram a Madeira e encontraram os Açores, e Gil Eanes dobrou o cabo Bojador, que era onde diziam que estavam as taes estatuas encantadas, e, como não encontrou estatuas nenhumas, lá foi tudo atraz d'elle, e, de repente, Portugal poude desenrolar diante do mundo um outro mundo ignorado, a costa da Africa toda, com os seus grandes rios, os seus bosques verdes, o seu povo de pretos, como eu vi, n'um theatro de Lisboa, desenrolar-se diante da platéa pasmada um panno pintado com cidades e quintas e ilhas e rios, que era de uma pessoa ficar de boca aberta. Ah! meus{82} amigos, podem agora não fazer caso de nós, e podemos nós tambem dizer mal de nós mesmos, mas um povo que assim se atreve a arcar com o que mette medo aos mais valentes, e abre aos outros as portas de um mundo maravilhoso, é um grande povo, digam lá o que disserem.
—E D. João I é que fez tudo isso? perguntou o Manuel da Idanha.
—Não foi elle, mas foi o filho, D. Henrique, que era um sabio, e que a seu pae deveu a educação que recebera; e o grande rei, que salvára Portugal do estrangeiro, teve a gloria, antes de morrer em 1433, de ver começada essa obra que havia de tornar para sempre grande no mundo o seu nome e o nome de Portugal.
Succedeu-lhe seu filho, D. Duarte, a quem chamaram o Eloquente, pelo bem que fallava e que escrevia, porque tambem fazia livros como o rei D. Diniz, e livros muito bem feitos. Coitado! não merecia a sorte que teve. Os irmãos, D. Henrique e D. Fernando, quizeram continuar a obra do pae, e foram tomar Tanger. Não o conseguiram, perderam muita gente, e para se salvar o exercito das garras dos mouros, teve de ficar preso na Moirama o infante D. Fernando. Para o livrar era necessario entregar Ceuta, mas o infante D. Fernando, que bem mereceu o nome de Santo que lhe pozeram, não quiz nunca ouvir fallar em similhante cousa, e preferiu{83} morrer atormentado nas masmorras de Fez a consentir que dessem por elle aos mouros uma terra, que tanto sangue nos custára. Tudo isto foram desgostos grandes para o pobre D. Duarte, que morreu, depois de cinco annos de reinado, em 1438, da peste que então assolou o reino, porque não houve desgraça que n'esse tempo não acontecesse.
Succedeu-lhe um filho pequeno que tinha, e que foi D. Affonso V, e, como D. Duarte era muito amigo da mulher, foi a ella que nomeou regente. Ora, na verdade, tendo o pequeno uns poucos de tios que seriam todos grandes reis, como D. Pedro, D. Henrique e mesmo D. João, dar a regencia a uma mulher, e de mais a mais hespanhola, era tolice graúda, por isso o povo não gostou, e as côrtes convidaram D. Pedro a tomar conta da regencia. A rainha, que era levada da bréca, e que nunca podéra ver os cunhados, deu pulo de corça com esta resolução, a que foi obrigada a ceder, e, com o partido que tinha, agitou o reino de tal maneira, que D. Pedro não teve remedio senão tomar providencias, e uma d'ellas foi tirar o filho á rainha, porque o pequeno estava sendo nas mãos d'ella um instrumento de revolta. A final, a rainha foi para Hespanha, mas eu estou convencido, rapazes, que o odio que D. Affonso V sempre teve ao tio veio d'ahi. Ora imaginem vocês! D. Affonso era uma creança n'esse tempo, agarrado á mãe como são todas as creanças; não percebia cousa nenhuma{84} de politica nem de meia politica, viu-se arrancado dos braços da sua mamãsinha, que se agarrava a elle a chorar, e arrancado por quem? Por seu tio. Depois, quando fosse maior, podia reconhecer que o tio era o que se podia chamar um grande homem, que lhe tinha governado o reino como ninguem seria capaz de o governar, que era tão pouco amigo de vaidades, que nem quizera que lhe fizessem uma estatua, mas o rancor da creança nunca se foi embora. Pois o tio, apenas elle chegou á maioridade, logo lhe entregou o governo, sem a mais pequena demora, e foi viver para Coimbra com o maior socego. Apesar de tudo isso, e apesar de ser muito amigo da mulher que era filha de D. Pedro, o rei tal odio tinha ao tio e ao sogro que deu ouvidos a todas as intrigas dos inimigos d'elle, e principalmente ás do primeiro duque de Bragança, seu tio tambem, filho bastardo de D. João I; chegou o duque a levantar tropas para ir contra o pobre D. Pedro, que, espicaçado e ralado por todas as fórmas, teve de tratar da sua defeza. Emquanto o duque de Bragança levantava tropas por sua conta e risco, achava o rei isso muito bem feito; apenas o infante D. Pedro juntou alguns soldados para não atravessar esse reino ao desamparo, logo D. Affonso V entendeu que era caso de rebeldia e traição, e marchou contra elle. Na Alfarrobeira, ali ao pé de Alverca, se encontraram as tropas de um e as tropas{85} do outro. Não houve batalha, mas travaram-se de rasões os soldados, e, quando mal se precatavam, achou-se tudo embrulhado na bulha, e lá morreu o pobre do infante D. Pedro, tão sabio, tão bom, tão justiceiro.
Quem ouvir isto, ha de dizer que D. Affonso V era um malvado, pois não era; cabeça de vento sim, nunca houve outra igual! Sympathico e bondoso, um mãos-rotas, principalmente para os fidalgos que apanhavam d'elle quanto queriam, enthusiasmava-se todo por cousas que já não importavam a ninguem, e quiz até fazer uma cruzada contra os turcos. Os outros principes christãos não estiveram pelos autos, e vae elle então voltou-se contra os mouros da Africa, e é certo que juntou a Ceuta as praças de Tanger, Arzilla e Alcacer Ceguer. Por isso lhe chamaram o Africano. Emfim, bom seria que nunca tivesse pensado n'outra cousa, mas deu-lhe na veneta querer tambem ser rei de Hespanha, e, quando lá houve grande bulha para se saber quem havia de succeder ao rei que morrera, se havia de ser D. Isabel que era irmã, se D. Joanna que era filha, o nosso D. Affonso, apezar de já não ser novo, casou com esta, que vinha a ser tambem sua sobrinha, ao passo que D. Fernando de Aragão casava com a outra. D'ahi veio uma guerra levada dos demonios; mas, a final, D. Affonso deu a batalha de Toro, que ficou indecisa, mas foi o mesmo que se{86} a perdesse, porque não poude continuar a guerra. De que se ha de lembrar então o nosso D. Affonso V? De ir em pessoa pedir soccorro ao rei Luiz XI de França, que era o mais manhoso de todos os principes, e que não fazia nada sem interesse. Luiz XI andou a cassoar com elle, até que D. Affonso V mandou dizer ao filho, que ficára a governar o reino, que subisse ao throno, porque elle abdicava, e ía para a Terra Santa; mas depois muda de tenções, e, quando já ninguem o esperava, apparece em Portugal. O filho é que não quiz saber de mais nada; entregou-lhe logo a corôa, que D. Affonso acceitou, morrendo quatro annos depois, em 1431.
—Ó sr. João, interrompeu o Bartholomeu, e essa historia de descobrir terras novas tinha parado?
—Qual tinha parado, homem! Emquanto D. Henrique viveu, e só expirou em 1460, quando já D. Affonso V era homem, não pensou n'outra cousa; todos os annos se ía descobrindo mais alguma porção da Africa, e já não havia quem acreditasse em carapetões de estatuas. Os portuguezes, o que faziam era sempre seguir para baixo, até ver se topavam com a India, ou então se davam com um rei que diziam que era christão, e a quem chamavam o Prestes João das Indias.
—E quem era esse rei? perguntou o Manuel.
—Eu depois lhes digo, rapazes, agora não me fallem á mão. O que é certo é que estava já descoberta{87} uma boa porção da Africa, e já por lá se fazia muito bom negocio, tanto que D. Affonso V, que andava embrulhado com outras cousas, e que não podia cuidar dos descobrimentos como o tio, arrendou o commercio da costa da Mina a um tal Fernão Gomes, com a condição d'elle continuar a descobrir terras. Felizmente, quem ía subir ao throno era um rei de outra laia, que tinha lume no olho, e que havia de levar as cousas pelo rumo que devia de ser, para gloria do nosso paiz.
Foi D. João II esse rei, e com rasão lhe chamaram o principe perfeito, porque não houve nenhum que entendesse tão bem do seu officio; mas, antes de fallar n'elle, meus amigos, deixem-me vocês explicar-lhes o que é que se tinha passado no tempo d'esses tres primeiros reis da dynastia que se chamou de Aviz.
Viram vocês como os reis se encostaram ao povo para dar cabo da nobreza e do clero, e como lhe deram força para que os fidalgos e padres se não fizessem finos. Por isso tambem se póde dizer que foi o povo quem fez rei D. João I, e este nunca se esqueceu d'isso. Comtudo, padres e fidalgos, continuavam a ser muito poderosos, e, se D. Duarte, com a lei chamada mental, e o infante D. Pedro lhes tinham dado para baixo, D. Affonso V quasi que desfizera tudo, porque com elle não havia parente pobre, dava aos fidalgos o que elles queriam, e com{88} rasão dizia o filho que seu pae o deixára rei das estradas de Portugal, o que, valha a verdade, não devia ser um grande reino. Ora agora acontecia tambem o seguinte: é que o povo, nas côrtes, estava sendo mais um servo do rei do que outra cousa. Já não podia dizer aos reis: «Toma lá, dá cá.» Já não era cada concelho que mandava um procurador, juntavam-se uns poucos de procuradores para mandar um deputado a que chamavam definidor, e o rei sempre os podia ter mais na sua mão do que á turbamulta dos antigos procuradores. Alem d'isso, os doutores, o que aprendiam nas escolas eram as leis de Roma, o direito romano, e ahi o que se dizia era que o rei podia fazer o que quizesse. O que resultava? Resultava que o clero e a nobreza haviam de levar para baixo, mas que o povo depois... esperasse pela pancada. É o que vocês saberão para o domingo que vem, porque a tia Margarida está a caír com somno, e eu não quero que digam de mim, como de alguns prégadores, que sou bom para quem anda com falta de dormir.{89}
SEXTO SERÃO
D. João II.—As côrtes de Évora.—Morte do duque de Bragança.—Morte do duque de Vizeu.—Continuação dos descobrimentos.—O cabo da Boa Esperança.—Christovão Colombo.—Entrada dos judeus.—Morte do principe D. Affonso.—D. Manuel.—Descobrimento da India e do Brazil.—Os conquistadores da India.—Fernão de Magalhães.—D. João III.—A inquisição e os jesuitas.—Decadencia do nosso dominio na India.—D. Sebastião.—A batalha de Alcacer-Kibir.—D. Henrique, o cardeal-rei.—A successão do throno.—D. Antonio, prior do Crato.—Batalha de Alcantara.—Perda da independencia:—Causas da decadencia de Portugal.
—Estou morto por saber, porque é que chamaram a D. João II o principe perfeito, principiou o Manuel da Idanha no domingo immediato, quando estiveram todos sentados á roda da lareira, porque, emfim, vocemecê já nos fallou n'uns poucos de reis de quem se não póde dizer mal: D. Diniz, por exemplo, D. João I, etc.
—Eu te digo, rapaz, é porque não houve nenhum que percebesse tão bem o seu tempo, nem soubesse tão bem como é que se governa. Era homem de cabellinho na venta, mas só dava cabo de quem lhe fazia transtornar os seus planos, era valente como os que o são, mas, depois de ser rei, nunca mais foi á guerra. Calculava tudo, combinava tudo,{90} e, como quem joga bem a bisca, sabia de cór os trunfos, e o que queria era marcar bons pontos, désse lá por onde désse. Subiu ao throno, na firme resolução de acabar com os privilegios da nobreza e do clero. Para isso, como de costume, serviu-se do povo. Chamou côrtes a Evora, ahi entendeu-se com os procuradores do povo para elles se queixarem dos fidalgos. Então o rei põe-se no seu logar, e toca a deitar abaixo privilegios. Se vocês querem ver o que é berraria! O primeiro que se levantou foi o duque de Bragança, e esse então metteu-se com os castelhanos. D. João II não esteve com ceremonias, mandou-lhe cortar a cabeça. O duque de Vizeu, seu proprio primo e cunhado, fez-se tambem chefe de conspiração. O mesmo rei deu cabo d'elle com uma boa punhalada, e depois foi tudo raso com o diabo do homem. Prendia uns, desterrava outros, mandava matar este, confiscava os bens áquelle... um inferno.
—Então por isso é que era principe perfeito? perguntou a tia Margarida indignada.
—Ó mulhersinha, espere lá. Diz o proverbio: cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso. Pois eu digo tambem: cada tempo com os seus costumes. O tempo d'elle não era como o nosso. Hoje matar um homem é, com rasão, uma cousa por ahi alem. N'aquelle tempo parecia a todos perfeitamente natural que se castigassem com a morte, mesmo á{91} punhalada, todas as conspirações. Ora D. João II só escapou por milagre a muitas que houve contra elle.
Mas D. João II não era homem que se assustasse. Estreiara-se em Arzilla, ao lado de seu pae, e logo mostrára um grande esforço; na refrega de Toro, em Hespanha, foi elle quem ganhou a batalha pelo seu lado, emquanto o pae a perdia pelo outro. Nas conspirações, que se faziam contra elle, mostrou sempre uma coragem por ahi alem, mas tambem não perdoava nenhuma. E tanto fez, tanto fez, que a final todas as cabeças se abaixaram, e quem ficou governando a valer e devéras foi elle.
Eu não lhes digo, rapazes, que approvo todas aquellas crueldades, e que acho bonito que D. João II matasse sem dó nem piedade até os parentes. Conheço que era preciso ter cabellos no coração para fazer o que elle fez, mas que querem vocês? É sina que nunca se fizeram as grandes mudanças politicas sem correr muito sangue. Dizia aquelle engenheiro francez, que aqui esteve em Bellas na obra da agua, quando ás vezes se punha a conversar commigo: «João, não se faz omeleta sem se quebrar ovos.» E dizia bem. Aquillo entre D. João II e a nobreza era guerra de morte. Atiravam á cabeça; eu bem sei que era mais bonito perdoar. Mas, meus amigos, perdoar aos seus inimigos só o fez Nosso Senhor Jesus Christo, e isso bastava para{92} que todos conhecessem que elle era Deus e não homem.
Em todo o caso, rapazes, sempre lhes quero confessar que, para gostar deveras de D. João II, preciso de desviar os olhos d'aquella sangueira toda, e ver o que elle fez por outro lado. Ah! que rei aquelle, rapazes! Nos descobrimentos foi um segundo infante D. Henrique, porque não foi só dizer aos pilotos: «Vão vocês andando por ahi abaixo, e quando toparem a India mandem cá um recado.» Não, senhores! Agarrou em dois judeus que eram homens de sabença, e mandou-os por terra ao Egypto, para que fossem do Egypto ver se topavam a India e se sabiam como é que se podia lá ir ter por mar. Foram estes Pedro da Covilhã e Affonso de Paiva. Ao mesmo tempo não deixára de mandar navios pela Africa abaixo. Um sujeito, chamado Bartholomeu Dias, tanto andou, tanto andou sempre com a terra á esquerda, até que um bello dia, por mais que tocasse á esquerda, não via senão agua: «Mau, disse elle comsigo, o diabo da costa virou de rumo.» Vira elle tambem e dá com a terra que ía para cima em vez de ir para baixo como até ahi. «Eu cheguei ao fim da Africa, disse comsigo o Bartholomeu Dias, eu passei algum cabo sem dar por isso.» E, já todo contente, queria ir seguindo para diante a ver onde iria dar comsigo. Mas a marinhagem estava cançada e quiz por força voltar{93} para traz. Não houve remedio, e á volta effectivamente deram com o tal cabo que vinha a ser a ponta da Africa, e apanharam tantos temporaes que Bartholomeu Dias chamou a esse cabo, cabo Tormentorio; mas, quando chegou a Lisboa e contou a D. João II o que succedera, este, que logo percebeu que estava dado o grande passo na descoberta da India, não quiz para tamanha descoberta um nome de mau agouro, e mudou ao cabo Tormentorio o nome em cabo da Boa Esperança, como quem diz: Agora sim, agora é que me parece que vamos por estrada direita.
Ora hão de vocês saber, rapazes, que por esta occasião vivia em Portugal um sujeito genovez chamado Christovão Colombo, que era homem entendido em cousas de mar, e que se occupava tambem muito de descobrimentos de terras e tal etc. Foi até por isso que elle veio para Portugal, porque isto aqui era a forja, onde, para assim dizer, se fabricavam terras novas, e todos os que se enthusiasmavam com essas cousas vinham para cá assoprar aos folles. Christovão Colombo estivera na Madeira, ouvira fallar em signaes de terra para os lados do pôr do sol, e começára a embirrar que, indo atraz do sol, havia de esbarrar com a India. Fallou n'isso a D. João II, este consultou os sabios, e os sabios desataram a rir. Colombo então foi-se embora e começou a offerecer os seus serviços a quem lhe désse{94} uma casca de noz; acceitou-os a Hespanha, depois de massar muito o pobre do homem. Christovão Colombo partiu seguindo sempre para o occidente, e a final deu com uma terra povoada de selvagens, que vinha a ser nem mais nem menos do que a America, emfim um mundo inteiro muito maior que a Europa toda. Ora, tudo isso podia ter vindo para nós, e não nos fazia mal nenhum, se D. João II não cáe na asneira de não acreditar no Colombo, que todos sabiam que era um homem esperto, e de lhe não querer dar dois ou tres navios para tentar a sua descoberta, elle que tinha navios a rodo por esses portos todos!
—Sim! lá isso! acudiu o Manuel da Idanha coçando na cabeça. Vocemecê diz que o homem era tão espertalhão, mas essa parece-me de cabo de esquadra!
—Achas, meu palerma? Diz um proverbio: Quem adivinha vae para a casinha. E eu já te mostro que outro qualquer, no caso de D. João II, fazia o mesmo. Tu imaginas que Christovão Colombo chegou ao pé de D. João II e lhe disse: Saiba Vossa Alteza (que então ainda se não dava magestade aos reis) saiba Vossa Alteza que ali defronte dos Açores está um paiz muito rico, onde ha muito ouro, e muita prata e muitos diamantes, e, se Vossa Alteza quizer, eu chego ali n'um instante e cá lh'o trago? Estás tu muito enganado. O proprio Colombo nem sabia{95} que havia ali similhante paiz. Toda a sua mania era que, sendo a terra redonda, e n'isso tinha elle rasão, indo uma pessoa para o occidente, havia de dar volta e chegar ao oriente. Mas o que elle não sabia é que a terra era tão grande como lhe saíu; e, se não lhe apparece a America, o homem via-se grego, e ainda tinha de comer muito pão antes de arribar, onde elle queria ir, tanto que provavelmente não levava no porão farinha que lhe chegasse. Ora agora, pensem vocês tambem, rapazes, no seguinte: Havia um bom par de annos que Portugal andava a teimar em seguir pela Africa abaixo á procura da India. Teimou, teimou, até que a final chegou ao fim da Africa, e percebeu que a terra seguia para cima, e ía com toda a certeza parar á India. E é exactamente quando se consegue o que se procurava havia tanto tempo, quando se descobre o cabo da Boa Esperança, quando se tem a certeza de que se encontrou o caminho da India, que vem um sujeito ter com o rei de Portugal, que está todo alegre com a descoberta, e dizer-lhe: Faça favor de apagar tudo isso, e de começar outra vez a procurar a India por outro lado. O rei, é claro, mandou-o pentear macacos. Ora agora confesso tambem que se não põe assim no meio da rua um homem como Christovão Colombo. Procurar a India pelo occidente não impedia que se continuasse a procurar pelo caminho que até ahi se seguira, e nós já tinhamos{96} topado tanta terra que não esperavamos, que não era cousa do outro mundo que fossem mais duas caravellas a Deus e á ventura ver o que o mar dava de si.
Emfim não se fez isso; os hespanhoes ficaram com a America, e principiaram ao desafio comnosco n'isso de descobrimentos, tanto que foi necessario que o papa dividisse entre elles os novos mundos ao meio, dizendo: Para aqui descobrem os hespanhoes, e para aqui descobrem os portuguezes, o que fazia com que um rei de França dissesse depois: Ora sempre eu queria ver o artigo do testamento do pai Adão que deixou a terra aos hespanhoes e aos portuguezes!
Todos se riram, e o João da Agualva continuou:
—Muito mais provas de juizo deu el-rei D. João II, e felizes seriamos nós se os reis que se seguiram fossem como elle. Na Africa, tratou de chamar a si os pretos, de os mandar baptisar, mas ás boas, e de fazer por ali fortalezas para se assenhorear do commercio. Na Europa então houve uma cousa que mostra que elle sabia ser rei. Os soberanos de Hespanha, todos devotos, mandaram pôr fóra do seu paiz os judeus, que eram, como foram sempre, uma raça trabalhadeira e esperta, que se enriquecia e ía enriquecendo a terra onde vivia. Mas a rainha de Hespanha, lá por beaterios tolos, não os quiz consentir no seu reino, e intimou-lhes mandado de despejo.{97} Sempre quero que vocês me digam porque? Porque tinham crucificado Jesus Christo? Mas isso foram uns malandrins de Jerusalem, e nem os filhos tinham culpa do que os paes fizeram, e até os paes de muitos d'elles talvez nem em Jerusalem estivessem n'esse tempo. Porque não acreditavam na religião christã? O peor era para elles. Pois se não se póde salvar quem não for christão, no outro mundo torceriam a orelha, e não era necessario já n'este mundo ir-lhes torcendo pescoço. Porque não comiam toucinho? Tanto melhor para os bons christãos, que sempre ficava mais barata a carne de porco. Mas fossem lá dizer estas cousas n'aquelle tempo aos reis catholicos! Corria uma pessoa risco de ir parar a uma fogueira. D. João II riu-se da devoção dos visinhos, recebeu os judeus na sua terra, e tirou proveito do caso, obrigando-os, em troca do asylo que lhes dava, a pagar-lhe um bom tributo. Elles estavam com a corda na garganta, pagaram com lingua de palmo, ainda que isso lhes havia de custar, porque sempre foram sovinas. Mas, como diz o outro, para judeu, judeu e meio.
—Olhe lá, ó sr. João de Agualva, e então quem diz que a inquisição cá em Portugal queimava os judeus? perguntou o Manuel da Idanha.
—Lá chegaremos, sr. Manuel da Idanha, lá chegaremos. Não ha só muitas Marias na terra, ha tambem{98} muitos Joões, e nós então tivemos seis, cada um do seu feitio.
Tudo se paga, meus amigos, e um homem póde ser principe perfeito; quando ultraja a lei de Deus, derramando o sangue de seus irmãos, ha de o pagar com lagrimas que tambem são sangue ás vezes. Tinha D. João II um filho chamado Affonso, a quem queria como ás meninas dos seus olhos. Casára com a filha dos reis de Hespanha, e as festas com que se celebrou o casamento tinham sido das mais pomposas. Morreu, e morreu de um desastre. Quem pôde imaginar a dôr d'aquelle pae! Chorou esse homem de ferro, que tantas lagrimas tambem fizera derramar, chorou lagrimas de sangue, do sangue do seu coração, e, lá nas horas mortas da noite, quando estivesse sósinho a pensar no filho, havia de ver muitas vezes os espectros d'aquelles que matára sem ter piedade da orphandade de seus filhos, como Deus não tivera tambem compaixão da orphandade da sua alma. Morreu quatro annos depois, em 1495, sem poder deixar a corôa a um filho seu, porque debalde quizera legitimar um bastardo que tinha, e assim, altos juizos de Deus! quem lhe havia de succeder, e não é só isso, quem havia de colher para si a gloria de realisar a conquista da India, que D. João II tão cuidadosamente preparava? Um irmão d'aquelle duque de Vizeu, que elle assassinára, D. Manuel, o Afortunado.{99}
Afortunado ou Venturoso lhe chamou a historia, e com rasão, porque não teve senão bamburrice, o que não quer dizer que fosse um palerma, e que não tivesse mesmo bastante tino, mas fazia tanta differença de D. João II como uma larangeira de um carvalho. Encontrou a papinha feita. Estavam preparados os navios para a descoberta da India, poz á frente d'elles Vasco da Gama, e em 1497 chegava Vasco da Gama á India, que era o paiz mais rico d'esse tempo. Mandou atraz d'elle Pedro Alvares Cabral, este chega-se mais para o occidente do que devia ser, e esbarra com o Brazil em 1500; bom! Põe ambos de parte, que lá ingrato como aquelle não havia nenhum, e manda para a India uma esquadra, onde ía Duarte Pacheco, homem que parece mesmo um d'aquelles sujeitos da antiguidade, que eram meios homens, meios deuses, e de quem se contam muitas patranhas, que foram excedidas pelas verdades d'este nosso patricio. Querem vocês saber? Na India havia muitos reis, como ainda hoje ha, apesar que estão agora todos sujeitos aos inglezes. Vasco da Gama tinha chegado a uma terra chamada Calicut, onde residiam muitos mouros, que eram quem fazia n'esse tempo o negocio todo da India. Viram a bolsa em perigo, e não descançaram emquanto não pozeram ao rei de Calicut de mal com os portuguezes. Palavra puxa palavra, elle matou-nos um homem, apanhou uma lição mestra, e de{100} vingança em vingança ficámos inimigos para sempre. Mas havia outro rei, o rei de Cochim, que era e foi sempre nosso amigo. D'ahi, barulho entre os dois. Como o rei de Calicut era muito mais poderoso, esperou que não estivessem lá navios nossos, e, sabendo que tinha ficado apenas Duarte Pacheco e mais uns cincoenta portuguezes, disse comsigo: «Agora é que tu m'as pagas.» E arranjou um exercito forte, e marchou contra o pobre rei, nosso amigo. Os soldados de Cochim tinham medo que se pellavam, e fugiam que era um louvar a Deus; mas Duarte Pacheco, mais os seus cincoenta homens, com a sua habilidade e a sua valentia, conseguiu tomar o passo ao de Calicut, e dar-lhe tareias monumentaes. Ó rapazes, pois uma pessoa não se hade ás vezes ufanar de ser portuguez? Quando é que se viu uma cousa assim? Meia duzia de gatos bastaram para dar cabo de exercitos immensos! Eu bem sei que era a disciplina, que eram as armas, que era tambem a fraqueza d'aquelles bananas, que o sol da India faz uns mollengas, mas era necessario que fossem de aço e de ferro, em vez de ser de carne e osso, esses valentes que assim viam, sem descorar, marchar contra elles um exercito formidavel! Era necessario que se tivessem disposto a morrer para não deixarem que fosse pisada aos pés a bandeira de Portugal! E, a final de contas, por muito molles que os outros fossem, sempre eram mil contra{101} um, e, com certeza, nenhum dos nossos pensava que saíria com vida de similhante combate. Depois acções d'essas eram mais faceis, não só porque os nossos já tinham tomado confiança em si, e sentiam-se capazes de levar aos pontapés quantos indios houvesse na India, mas tambem porque elles tinham-nos tomado medo; mas isso tudo a quem o devemos senão a Duarte Pacheco? Pois, meus amigos, imaginam vocês que Duarte Pacheco foi feito governador da India, ou teve algum titulo, ou alguma recompensa grande? Qual carapuça! D. Manuel nem mais pensou n'elle, e era tão feliz que logo encontrou para ser primeiro vice-rei da India um homem como D. Francisco de Almeida, que em toda a parte do mundo seria digno de exercer os primeiros logares.
Com effeito, D. Manuel, que primeiro quizera apenas que os seus seus navios viessem carregados de mercadorias da India, que depois cá se vendiam na Europa, entendeu que devia tomar raizes, e encarregou D. Francisco de Almeida de governar os portuguezes que por lá estivessem, fundando ao mesmo tempo fortalezas. D. Francisco de Almeida entendia, porém, e não deixava de ter rasão, que Portugal era um paiz muito pequeno para estar assim a mandar soldados para a India, e o que elle queria era ser senhor do mar para que ninguem mais ali podesse fazer negocio. Emquanto só teve os indios{102} pela prôa íam as cousas bem, mas os turcos, que viam diminuir os seus rendimentos com o novo caminho das Indias, começaram a metter-se na dança, e os turcos não eram tropa fandanga, eram gente de quem tremia a Europa. Tambem, quando se encontraram primeiro com os portuguezes, levaram a melhor e até mataram um filho de D. Francisco de Almeida, que o vice-rei adorava. Foi a sua perdição, porque D. Francisco de Almeida não descançou emquanto não vingou a morte do seu estremecido Lourenço. Os turcos levaram uma sova de primeira qualidade, e na India ficou-se sabendo de uma vez para sempre que casta de homens eram os portuguezes.
Pois, rapazes, parecia que d'esta vez D. Manuel se daria por muito feliz em ter no Oriente um homem como D. Francisco de Almeida, que tinha posto os indios a pão e laranja, e dado uma esfrega tal nos turcos que se não atreveram por muito tempo a tornar á India. Enganam-se. Apenas acabou o seu tempo, foi chamado a Portugal, e naturalmente el-rei nem pensaria mais n'elle, ainda que não tivesse morrido no caminho. Mas continuava a ser tão feliz que encontrou, para substituir D. Francisco de Almeida, um homem que ainda valia mais do que elle, porque era o grande Affonso de Albuquerque. Ah! meus amigos, apparecem de vez em quando no mundo uns homens, que são capazes de revolver a{103} terra, como os Napoleões e outros assim, Affonso de Albuquerque foi um d'esses.
A respeito das cousas da India não pensava como D. Francisco de Almeida, mas não era porque visse as cousas de outro modo, era porque achára maneira de as concertar. Sim, elle bem sabia que Portugal não podia estar a encher a India de soldados, mas o que elle queria era que os Indios se misturassem com os portuguezes, e, para o conseguir, ao passo que era cruel com os mouros, com os indios era tão bom e tão justo que, depois da sua morte, íam elles resar ao seu tumulo, como quem vae resar ao tumulo de um santo. Escolheu elle tres pontos, em que estabeleceu, para assim dizer, os seus quarteis generaes, e todos muito bem escolhidos: Ormuz, ao pé da Persia; Goa, no meio da India; Malaca, para os lados da China e das ilhas a que se chamava das Especiarias ou das Molucas. Primeiro tomou Goa, depois Malaca que tinha dente de coelho, porque os malaios são levadinhos da bréca, depois Ormuz, e, quando acabou de fazer tudo isto, estava já demittido, e sabendo que ía ser nomeado para o seu logar o seu peor inimigo! Morreu com esse desgosto.
Tambem d'essa vez tinha-se acabado o fornecimento de grandes homens, e os dois ultimos governadores da India, no tempo de D. Manuel, não foram lá grande cousa, mas tambem não estragaram nada.{104} Aquillo então ía n'um sino. Os portuguezes espalhavam-se por toda a parte, de um lado chegavam á China, do outro á Persia, do outro ás Molucas, do outro a Cambaya. Tinham fortalezas por toda a parte; elles recebiam a boa canella de Ceylão, o bom cravo das Molucas, a boa pimenta da India, os bons cavallos da Persia, as sedas da China, o incenso da Arabia, os diamantes de Golconda, e traziam estas riquezas todas para a Europa e vinham aqui a Lisboa, que estava sempre cheia de navios, os hollandezes e os inglezes comprar tudo isto para o vender por esse mundo. Do Brazil não se fazia caso porque nem valia a pena; na Africa sempre se íam tomando praças, que era para n'aquellas constantes guerras com os mouros se exercitar a fidalguia, que depois fazia o diabo a quatro na India. Emfim, quando D. Manuel mandou ao papa uma embaixada com presentes vindos de todas as suas conquistas, Roma ficou embasbacada, e não se fallava em todo esse mundo senão na grandeza de Portugal. Bons tempos, meus amigos, mas que duraram pouco!
No reino, D. Manuel logo mostrou que, se não era tolo, tambem não tinha o entendimento de D. João II. Poz fóra os judeus; é verdade que depois, quando em Lisboa o povo fez uma matança nos que tinham ficado a titulo de se terem convertido, mostrou-se muito zangado e castigou a cidade. Grande{105} não foi elle, mas viu-se cercado de gente que o fez grande, e teve a esperteza de os saber conhecer. Depois, punha-os de parte com a maior facilidade, mas atinava com elles; só não percebeu o que podia esperar de Fernão de Magalhães, que, zangando-se com uma picardia que lhe fez, passou para Hespanha, e assim nos deixou ficar sem a gloria de termos sido nós os primeiros que deram volta ao mundo, como fizeram os hespanhoes commandados pelo tal Fernão de Magalhães, porque isso, n'aquelle tempo, não havia por esses mares uma onda que não marulhasse em portuguez...
—Em portuguez porque? perguntou o Francisco Artilheiro. Eu nunca percebi o que ellas diziam.
—Então é que têem a cabeça tão dura como tu, porque foi sempre o portuguez a primeira lingua que ouviram, e até lá para a terra dos bacalhaus, para o norte, onde faz um frio de rachar, lá mesmo foi Gaspar Cortereal que primeiro descobriu a Terra Nova. Emfim, meus amigos, depois de ter casado tres vezes, e sempre com princezas hespanholas, morreu em 1521 el-rei D. Manuel, e, verdade verdade, com elle se póde dizer que morreu a grandeza de Portugal.
Succedeu-lhe o filho D. João III, que era o beato mais beato que tem vindo a este mundo. D. Manuel já lá tinha as suas manias, mas, como eu lhes contei,{106} quando os de Lisboa desataram a matar os judeus, ou antes os christaos novos, deu-lhes com o basta. D. João III, esse, não descançou emquanto não metteu em Portugal a inquisição. O papa não queria, fazia-se rogado, e D. João III é que insistiu com elle para apanhar essa prenda. Chegou a gastar rios de dinheiro para o conseguir!! Ora, realmente, metter cá um tribunal que, apenas um sujeito se esquecia de ir á missa, ferrava com elle na cadeia, quando não era na fogueira, só lembrava a D. João III. Até os estrangeiros fugiam, e então o resto dos judeus, que ainda por cá havia, e que por amor á nossa terra se tinham feito christãos, com medo da inquisição, se foram safando logo que poderam. E, não contente com isso, introduziu tambem a companhia de Jesus, que era uma ordem nova de frades mais disciplinados que um regimento, e que tinham jurado ser elles que haviam de governar o mundo. Ora, lá para prégar aos herejes, e aos gentios da India, e aos selvagens do Brazil, eram muito bons, porque não recuavam nem diante da morte, e houve jesuitas, como S. Francisco Xavier, que não ficaram a dever nada aos doze apostolos; mas em Portugal mettiam-se em toda a parte: elles ensinavam, elles confessavam, e estou em dizer que não podia ser bom. Eu não sou contra os padres, nem contra a religião, pelo contrario, mas tambem não se hão de metter em tudo. Ora vejam vocês como{107} havia de viver um dos nossos avós d'esses tempos! Os jesuitas a apertarem-lhe o freio, e ao mais pequeno desmando, zás, fogueira da inquisição com elle. Até se fizeram macambuzios os pobres homens, que eram até ahi gente alegre. Não se podia escrever cousa nenhuma, que não viessem logo os jesuitas: Corte-se isto porque parece contra a religião, não se represente aquillo porque se faz troça a um frade, e porque torna e porque deixa. O que é certo, meu amigos, é que, emquanto lá por fóra se andava para diante, e se faziam invenções, e se estudava, nós não passavamos da cepa torta, e o mal que isso fez vão vocês vêl-o.
Na India parecia que ía tudo muito bem, mas via-se que não podia durar muito. Valentes eram os nossos, mas, em vez de fazerem o que Albuquerque queria, em vez de accommodarem os Indios, e de se porem ás boas com elles, não senhor, faziam crueldades que era uma cousa por demais, e o que queriam era apanhar dinheiro. Passavam o tempo, ora em guerra com o rei de Calicut, ora com o rei de Cambaya, ora com o rei de Achem, ora com o rei de Bintam, ora com o rei de Kandy, ora com todos ao mesmo tempo. Isto não era vida. Obravam prodigios de valor, isso é verdade, como por exemplo nos dois cercos de Diu, em que Antonio da Silveira e D. João de Mascarenhas se defenderam de um modo maravilhoso, mas, á força de{108} dar cutiladas, o braço ía cançando, e o paiz estava esfalfado. Não havia nem um instante de socego. Se apparecia um governador como D. João de Castro, o da Penha Verde de Cintra, que era honradissimo e justiceiro, os outros não pensavam senão em roubar. Já se pegavam uns com os outros, como fez Lopo Vaz de Sampaio com Pedro Mascarenhas, e quando D. João III, o Piedoso, como lhe chamaram os frades, morreu em 1557, todos previam que isto ía para baixo. O filho mais velho de D. João III morrera ainda em vida do pae, e quem lhe succedeu foi um neto, creança de cinco annos, que tinha o nome de D. Sebastião. Ficou regente a avó, senhora de bastante juizo, que governou bem, mas que em 1562 teve de ceder a regencia ao cunhado, o cardeal D. Henrique, todo dominado pelos jesuitas, e que cercou de padres o principe. O que resultou d'ahi? Resultou que D. Sebastião, que gostava de guerras e batalhas, fez-se ao mesmo tempo beato. Parecia um d'aquelles antigos frades militares, que tinham concorrido tanto para expulsar os mouros de Portugal. Não quiz casar, e até fugia das mulheres. Não pensava senão em dar cabo dos mouros. Ora, se nós que já tinhamos tanto trabalho para nos sustentarmos na India, que fôramos obrigados a largar umas poucas de praças na Africa, que tinhamos precisado de um grande esforço para salvar Mazagão, cercada pelos mouros,{109} nos mettiamos em grandes guerras com elles, aonde iria isto parar! Pois foi o que succedeu. Na India o trabalho era cada vez maior; um governador, chamado D. Constantino de Bragança, parente da casa real, fizera por lá grandes cousas, mas pouco tempo depois juntavam-se quasi todos os reis da India e vinham sobre nós. O que nos valeu foi termos um novo Affonso de Albuquerque, um general de mão cheia, D. Luiz de Athayde, que a tudo acudiu e tudo salvou; mas vocês bem vêem que isto não podia continuar assim. Quando as cousas estavam n'este bonito estado, quando nós tinhamos ás costas a India, o Brazil para que D. João III principiára a olhar, onde precisávamos de nos defender contra os aventureiros francezes que achavam a terra a seu gosto, de que se ha de lembrar el-rei D. Sebastião? De ir conquistar Marrocos! Eu já tenho ouvido dizer que mais valia termos conquistado Marrocos, que nos ficava á porta, do que irmos á India que ficava tão longe. Pois sim, mas o que era necessario era escolher. Ou uma cousa ou outra. Mas D. Sebastião, com aquella embrulhada, que elle tinha na cabeça, de idéas religiosas e de idéas guerreiras, não attendia a cousa nenhuma, nem fazia calculos nenhuns. O que elle queria era dar lambada nos mouros, e, apesar dos conselhos de toda a gente, levanta um pequeno exercito, e para o levantar custou-lhe, porque já não havia braços no{110} paiz... co'a breca, que elles não chegavam para tudo! e abala-se para a Africa a pretexto de ir soccorrer um principe mouro que tinha sido expulso do throno por seu tio!
Ah! meus amigos, aquillo era mesmo um doido que ali ía. A gente gosta de ver um rapaz que tem o sangue na guelra, e que se atira para diante, embora faça asneira, mas é que D. Sebastião estava perfeitamente maluco. Era maluquice a empreza, foi maluquice o modo como a preparou, foi maluquice o modo como a dirigiu. Parecia que Deus, por umas poucas de vezes, o quizera salvar, e elle sempre a atirar comsigo de cabeça para baixo. Emfim, no dia 4 de agosto de 1578, deu-se a batalha á moda de seiscentos diabos, porque nem houve commando, nem houve nada. D. Sebastião atirou-se aos mouros e não quiz saber de exercito, nem de cousa nenhuma. Emquanto poude dar cutilada, deu. A flor da fidalguia portugueza ali morreu, a que não morreu ficou prisioneira. Os soldados fugiram, uns por aqui outros por ali, e, quando a noticia chegou ao reino, imaginem que afflicção! Não se perdera só um rei, perdera-se a corôa, porque não havia herdeiros, e quem subiu ao throno foi o velho cardeal D. Henrique, tio avô do fallecido, que nunca fôra esperto e que estava então meio apatetado. Ainda houve quem dissesse que D. Sebastião não morrera, porque ninguem o vira caír morto, e o cadaver que{111} appareceu, e que se disse que era d'elle, estava tão desfigurado que se não podia conhecer. Assim lá ficou D. Henrique a governar, mas para que? Todos sabiam que a corôa era herança que não tardava. Quem a havia de apanhar? Quem tinha direito verdadeiro era a duqueza de Bragança, por ser filha de um irmão de D. João III, D. Duarte; quem era mais sympathico ao povo era D. Antonio, filho bastardo de outro irmão de D. João III, D. Luiz; quem tinha mais força era D. Filippe II, rei de Hespanha, filho de uma irmã de D. João III, D. Isabel. Ainda havia outros que se diziam herdeiros, mas entre aquelles tres é que a lucta era séria. Ferviam as intrigas. D. Filippe tinha em Portugal um embaixador, e até por signal era portuguez, D. Christovão de Moura, que comprava todos quantos se queriam vender, e bem parvos eram os que não íam ao mercado. As côrtes, chamadas por D. Henrique para decidir a questão, estavam já tão pouco costumadas a metter o seu bedelho n'essas questões, que disseram ao rei que decidisse como quizesse, apesar de berrar muito contra isso um portuguez ás direitas, procurador de Lisboa, e que se chamava Phebo Moniz. O rei não decidiu cousa alguma. Morreu em 1580, e deixou o quartel general em Abrantes, tudo como d'antes. Nomeou governadores do reino uns sujeitos que se tinham já vendido aos hespanhoes, e que de certo íam escolher D. Filippe II.{112} Mas, como se demorassem, este não esteve para os aturar, e mandou-nos cá um exercito commandado pelo duque de Alba. Vendo os hespanhoes, o povo virou-se para D. Antonio, prior do Crato e bastardo do infante D. Luiz, e acclamou-o rei. Valente era elle, mas não era mais nada. Quiz resistir aos hespanhoes com um punhado de gente que nunca pegára em armas. Batido em Alcantara, ás portas de Lisboa, depois de algumas horas de combate, fugiu para o Minho, por onde andou escondido, até que poude safar-se para o estrangeiro. Filippe II entrou socegadamente em Lisboa, e era uma vez a independencia de Portugal.