—O que! estavamos hespanhoes? perguntou furioso o Bartholomeu.
—Estavamos hespanhoes, sim, meu amigo, e eu te vou explicar como é que tinhamos chegado a isso em tão pouco tempo. Em primeiro logar, creio que já sabem que D. João II abaixára a prôa de todo á nobreza, e d'ahi por diante os fidalgos ficaram sendo simplesmente criados do paço. O povo ajudára o rei a fazer essa obra necessaria, mas o rei, apenas se viu servido, deu-lhe para baixo, e el-rei D. Manuel começou a dizer que os foraes, que eram as leis por que se governavam os concelhos, não estavam muito claros, e para os aclarar, reformou-os, quer dizer, deu cabo d'elles. Em côrtes já se não fallava senão de longe a longe. D'antes, pelo menos,{113} para se lançarem tributos novos, sempre se reuniam as côrtes. D. Manuel não quiz que ellas se incommodassem por tão pouco, e, para lhes poupar trabalho, começou elle a deitar os tributos por sua conta. Ora isto é muito bom, emquanto as cousas vão correndo bem. O rei tem ali o seu povo manso como um leão domesticado, com as unhas cortadas e os dentes limados, mas, quando vem as occasiões, o povo mette o rabinho nas pernas e não tuge nem muge. Para mais ajuda, a inquisição concorria para terem todos pouca vontade de se mexer. Os jesuitas, que tanto podiam fazer pela influencia que possuiam, não se importaram para nada com isso. Frades como elles eram, muito ligados entre si, e muito escravos do seu geral que estava em Roma, não tinham patria, a sua patria era a Companhia. Depois, vocês bem vêem que o reino não podia deixar de estar sem forças. Era um saír de gente todos os annos para a Africa, para a India, para o Brazil, que era uma cousa por demais. No meio de tantas riquezas o paiz achava-se pobre. Havia muita gente rica e vadia, mas não havia lavoura, não havia fabricas, não havia nada, o dinheiro entrava por um lado para saír pelo outro. Demais a mais tudo era pandiga rasgada. Os portuguezes vinham do Oriente descançar das suas fadigas. Tinham escravos para o serviço, passavam os dias na amante vadiagem. Não ha cousa que mais deite a perder os{114} homens. Por isso D. Filippe e o seu embaixador Christovão de Moura encontraram tudo podre.
Hão de vocês dizer: Pois então, só porque um rei morreu, e só porque se perdeu um exercito, que não era grande cousa, perdeu-se Portugal? É assim mesmo. Faltou o rei, faltou tudo, porque o povo nem já sabia de si, e as côrtes, quando não havia quem mandasse alguma cousa, nem sabiam o que haviam de fazer. Soldados portuguezes, os bons, estavam na India, e não bastavam; os que tinham voltado não pensavam senão na pandiga. Tudo estava alluido na nação portugueza, veio o empurrão de Alcacer-Kibir, foi tudo abaixo, e eu, meus amigos, não vou para baixo, vou para cima que são horas de me ir chegando ao pouso. Domingo continuaremos, porque já agora havemos de acabar, que lá dizer que eu tenho muita vontade de lhes contar a historia do que se passou no tempo dos Filippes, isso não tenho. Então é que Portugal perdeu a esperança de se levantar.{115}
SETIMO SERÃO
Portugal durante o dominio hespanhol.—Filippe I.—Os falsos D. Sebastião.—Ultimos esforços do prior do Crato.—Os inglezes e hollandezes no ultramar.—A invencivel armada.—D. Filippe II.—Perda e restauração da Bahia.—Filippe III.—O conde-duque de Olivares e os privilegios das provincias.—Perda de Pernambuco.—Tumultos de Evora.—O duque de Bragança.—A conspiração dos fidalgos.—Revolução de 1 de dezembro de 1640.
—Meus amigos, disse o João da Agualva no domingo immediato, demorei-me e o resultado foi apanhar uma constipação, que ainda mal me deixa fallar. Não quiz comtudo deixar de vir para se não perder este bom costume dos domingos, mas pouco tempo me demoro, e não farei mais do que contar-lhes a historia do que passou Portugal com o dominio dos hespanhoes.
Se nós ao menos tivessemos passado para uma nação forte, com vida e com sangue, alguma cousa lucrariamos, mas a Hespanha estava peor do que nós. Parecia muito poderosa por fóra, mas só havia podridão lá dentro. Depois andava em guerra com{116} a Europa toda, e n'essa guerra nos embrulhou para nossa desgraça.
Apesar dos pesares, não cuidem vocês que tudo foram rosas para o nosso rei Filippe I, que era em Hespanha Filippe II. Elle veio com pésinhos de lã, prometteu respeitar as liberdades portuguezas, nunca nos dar por governadores senão portuguezes ou principes da familia real, jurou quanto quizeram, mas o povo não andava satisfeito, e, como não tinha a quem se encostar, pensava em D. Sebastião, o Desejado, como lhe chamam. Assim que apparecia um homem que tinha alguma parecença com o rei fallecido, diziam logo que era elle, de fórma que os hespanhoes estavam sempre em sobresalto. Por isso o rei de Penamacor e o rei da Ericeira, uns pobres homens que o povo embirrou em querer que fosse cada um d'elles D. Sebastião, e que tomaram o caso a serio, provocaram os seus tumultos, sendo os da Ericeira um poucochinho graves. Passados tempos, ainda appareceram lá fora, em Hespanha e em Italia, dois homens que diziam ser D. Sebastião, e que lograram muita gente, mas esses eram verdadeiros intrujões que nem mesmo pensavam senão em comer á barba-longa, á custa dos freguezes. O tal amor ao D. Sebastião foi-se pegando a ponto que começou a formar-se uma seita que ainda ha pouco tempo durava, a seita dos sebastianistas, que acreditavam que D. Sebastião havia de apparecer{117} n'um dia de nevoeiro para governar em Portugal. Eu ainda conheci um sebastianista.
—E eu tambem, acudiu o Bartholomeu.
—Já vêem que não minto. Mas d'esse D. Sebastião não ha de vir mal ao mundo, nem bem que é o peor. D. Antonio tambem trabalhava pela sua banda, e, como a ilha Terceira o acclamára rei, foi-se lá metter e arranjou soccorro de França, mas os hespanhoes bateram a esquadra franceza, e tomaram a ilha. Depois arranjou soccorros da rainha de Inglaterra, que mandou uma esquadra a Lisboa, mas os inglezes foram repellidos, e D. Antonio, descoroçoado de todo, foi morrer a Paris em 1595.
Mas querem vocês ver o que nós ganhámos com o estar juntos á Hespanha? Foi termos á perna os inglezes e os hollandezes, que principiaram a sacudir-nos da India, e que então aos nossos navios faziam guerra mortal. Ia tudo pela agua abaixo, e, para mais desventura, Filippe lembra-se de mandar contra a Inglaterra uma esquadra immensa, a que chamou «a invencivel armada», e que saíu do porto de Lisboa. A armada perdeu-se e lá se foram os nossos melhores navios. Filippe morria em 1598, e succedia-lhe Filippe II aqui e III em Hespanha. Se as cousas tinham ido mal até ahi, então foram peor. A Hespanha ía a Deus e á ventura, e nós atraz d'ella. O governo hespanhol, que mal cuidava de si, não cuidava nada de nós. Os inglezes e os hollandezes{118} tomavam-nos quasi tudo o que tinhamos na India, e estes ultimos tambem se mettiam no Brazil comnosco. Grandes façanhas ainda se faziam, é verdade, e da Bahia, por exemplo, foram os hollandezes expulsos, mas, quando Filippe II morreu em 1621, já o nosso poder não era nem a sombra do que tinha sido.
Succedeu-lhe Filippe III, e esse tinha um primeiro ministro chamado conde-duque de Olivares, que imaginou que havia de acabar com os privilegios das provincias, principalmente com os de Portugal. Não pensava n'outra cousa, de fórma que deixava ir as colonias, e no Brazil já os hollandezes tinham tomado raizes, e estavam senhores de Pernambuco. Mas os portuguezes começaram a achar a brincadeira pesada e a refilar ao Olivares. Em 1637 rebentou uma revolta em Evora, foi logo apagada, mas com muito sangue. Peor para o caso. Os fidalgos, que andavam tambem damnados, principiavam a conversar com o duque de Bragança, D. João, e a apalpal-o para ver se elle quereria a corôa. O duque não dizia nem que sim, nem que não. Mas n'isto a Catalunha, que tambem não perdoava ao Olivares a sem-ceremonia com que elle lhe queria tirar os seus antigos privilegios, revolta-se. Boa occasião! Os fidalgos, em Lisboa, sentiam-se cada vez mais dispostos a mandar os hespanhoes para o diabo. O Olivares não fazia senão{119} desesperal-os e atiçal-os. Tinha-lhes dado por governador a duqueza de Mantua, e para secretario do governo um portuguez, Miguel de Vasconcellos, que era mais damnado contra os seus patricios do que se fosse hespanhol. Emquanto deixava perder as colonias portuguezas, Olivares levava os nossos fidalgos e os nossos soldados para as guerras de Flandres e da Catalunha. Lembra-se emfim de dar ordem ao duque de Bragança para que vá para Madrid. Então é que já se não podia estar com pannos quentes. Os fidalgos dizem ao duque de Bragança: Ou acceita a corôa, ou nós pomo-nos em republica. O duque, a final, disse que sim. Com a bréca! aquillo foi um momento. Era um punhado de homens, os que andavam assim a conspirar; elles não sabiam se podiam contar com o povo, nem se não podiam, conspiravam ás claras, que parece que em Lisboa todos sabiam da conspiração menos os hespanhoes; reuniam-se umas vezes em casa de João Pinto Ribeiro, outras vezes em casa de D. Antão de Almada, no jardim. No dia 1 de dezembro de 1640 saem todos para o meio da rua. Eram quarenta, pouco mais ou menos. Chegam ao paço, matam o Miguel de Vasconcellos, agarram na duqueza de Mantua e fecham-n'a á chave, desarmam a guarda, abrem as janellas, e dizem a quem ía passando: Viva o duque de Bragança, rei de Portugal! viva o sr. D. João IV! O povo diz-lhes cá de baixo: Viva!{120} e viva, e viva! e eram uma vez os hespanhoes, e d'ahi a pedaço estava tudo tão socegado como se não tivesse havido cousa nenhuma, e os hespanhoes tinham desapparecido; e aqui têem vocês como se faz uma revolução quando ella está na vontade de todos. Digo-lhes, rapazes, que este dia 1 de dezembro consola uma pessoa. Parecia que o paiz não tinha feito senão acordar de um pesadello. Aquillo foi só saltar da cama abaixo, e elle ahi estava de pé, todo pimpão como em outros tempos. E sabem vocês porque isto foi? É porque as nações são como as espadas, onde enrijam é na bigorna.{121}
OITAVO SERÃO
Unanimidade da revolução.—Preparativos de resistencia.—Organisação militar do paiz.—As allianças.—Relações de Portugal com a Hollanda.—Restauração de Pernambuco e de Angola, e perda de Ceylão.—Conspirações contra D. João IV.—Guerra da Restauração.—Batalhas de Montijo e de Telena.—D. Affonso VI.—A sua educação e a sua indole.—Regencia da rainha D. Luiza.—Antonio Conti.—O conde de Castello Melhor.—Continuação da guerra.—Cerco de Badajoz.—Batalha das Linhas de Elvas.—Paz entre a Hespanha e a França.—Campanhas de D. João de Austria.—Schomberg.—Victorias do Ameixial, Castello Rodrigo e Montes Claros.—Planos do conde de Castello Melhor.—Intrigas do Paço.—Casamento, desthronamento e divorcio vergonhoso de D. Affonso VI.—Regencia do infante D. Pedro.—Casamento com a cunhada.—Tratado de Methwen.—Guerra da successão de Hespanha.—D. João V.—As minas do Brazil.—Desperdicios, beaterio e immoralidades.
—Meus amigos, principiou no outro domingo o João da Agualva, e já ninguem o interrompia, tal era o interesse com que todos seguiam a sua narrativa; o que succedeu na capital, succedeu no reino todo. Aquillo foi chegar a noticia do que se passava em Lisboa, e de um momento para o outro desappareciam os hespanhoes, e tornava tudo a ser Portugal. Poupámos-lhes muita despeza em correios, porque logo souberam pelo primeiro que Lisboa se tinha revoltado, que tinha vencido, que reinava em Portugal D. João IV, e que a Hespanha,{122} do Minho para baixo e do Caya para o occidente, já não possuia nem um palmo de terra. Querem vocês saber como o conde-duque de Olivares deu a noticia ao patrão? Foi d'esta maneira:—Dou os parabens a Vossa Magestade; acabam de lhe entrar uns poucos de milhões no bolso.—Como assim? perguntou o rei que estava a jogar, e que não desgostaria de que lhe saisse d'essa maneira a sorte grande de Hespanha.—Porque o duque de Bragança, tornou o ministro, acaba de se revoltar, e de se fazer rei de Portugal, e, como temos de lhe tirar os bens e de lhe cortar a cabeça, fica Vossa Magestade mais rico. O rei não gostou muito d'esse modo de enriquecer, e ainda olhou para os parceiros a ver se algum lhe dava quatro vintens pela herança. Nenhum caíu n'essa.
Isso era muito bom, mas Portugal é que não vivia de cantigas. A Hespanha era então ainda maior do que hoje é, e, se ella nos caísse em cima, estavamos promptos. De que precisavamos nós? De dinheiro, de soldados e de allianças. Tratou-se logo de tudo. Dinheiro votaram as côrtes quanto se quiz; para arranjar soldados fez-se uma obra fina que nunca ninguem até ahi tinha feito, e que foi pôr toda a gente em armas. E como? dividiu-se o reino em tres linhas; a primeira de soldados, que se chamavam pagos, a segunda de milicianos, e a terceira, que era a dos velhotes, de ordenanças. Uns íam{123} á guerra, os outros ajudavam-nos em sendo preciso, saíndo, o menos que podesse ser, dos seus sitios, e finalmente os ultimos defendiam as suas terras, porque isso, atraz de um muro, todos fazem figura. Digo-lhes, rapazes, que aquillo é que foi uma idéa, e olhem que não nos serviu só então, tambem na guerra da peninsula foi o que nos valeu, e, aqui para nós, não me parece que fizessem muito bem em deitar abaixo aquella historia. Estava já tudo costumado, e quando vinha uma guerra, saltava toda a gente para o meio da rua; e olhem que isto de estar um homem dentro de casa, de espingarda na mão, dá que fazer aos mais pintados. E logo se viu.
Emquanto a allianças tambem não faltaram; é verdade que não serviram de muito, porque cada um cuidava de si. A França, prompta, o que ella queria era abaixar a prôa á Hespanha, mas, como tambem lá andava em guerra com os hespanhoes, o mais que fez foi consentir que arranjassemos officiaes francezes pelo nosso dinheiro; a Inglaterra, a mesma cousa, muita festa para a festa, mas andava embrulhada em guerras civís, não mandou para cá nem um navio. Então a Hollanda ainda foi peor, isso... recebeu o nosso embaixador de braços abertos, poz luminarias, achou que tinhamos feito muito bem, mas, quando o embaixador lhe disse: «Então agora que estamos amigos, venham para cá as{124} nossas colonias, que são nossas e não dos hespanhoes», a Hollanda exclamou: «As colonias! ah! sim! nós somos tão amigos d'ellas! Estão já acostumadas comnosco! até tinhamos pena de as deixar». E acrescentava o embaixador: «Mas então, c'os diabos, ao menos não nos tomem mais nenhuma».—«Não tomamos, dizia a Hollanda, isso nunca. Ora agora sabem vocês? as colonias são como as cerejas. O caso é apanhar uma». Ah! elle é isso! disseram os portuguezes comsigo, pois então vamos a ellas. E, zás, rebenta uma revolta em Pernambuco, e os brazileiros a berrarem: Viva D. João IV! A Hollanda chamou o nosso embaixador: «Então que diabo é isso? nós somos amigos e fazem-nos uma partida d'estas!»—«Patifes! dizia o embaixador. Aquillo é do sol! esquenta-lhes a cabeça, e dão por paus e por pedras. Mas, aqui para nós, se elles dizem: Viva D. João IV, não havemos de lhes ir dizer: Morra D. João IV! Não nos ficava bem.»—«Pois sim, mas digam-lhes que estejam quietos.»—«Pois isso dizemos nós.» E D. João IV mandava para lá armas e officiaes, e dizia-lhes: «Ahi vae isso, que é para vocês estarem quietos.» E em poucos annos estavamos senhores de Pernambuco, e os hollandezes na rua.
D'ahi a tempos, Salvador Correia de Sá ía a Angola e punha fóra os hollandezes que nos tinham tomado esse reino.—«Então isto que vem a ser?{125} bradaram os hollandezes, então os senhores vão de proposito do Brazil a Angola para nos sacudir!»—«Quem é que fez isso?» perguntava o embaixador.—«Salvador Correia de Sá.»—«Sim! pois estejam vocês descançados, que lhe vamos já perguntar pelo correio, que diabo de lembrança foi essa. Em vindo resposta cá lh'a mandamos. E a proposito, sr.ª Hollanda, vocês tomaram-nos Ceylão?»—«Tomámos Ceylão, mas que defeza! Antonio de Sousa Coutinho defendeu-se maravilhosamente. Os nossos generaes são todos accordes que nunca encontraram resistencia tão desesperada! Quando escreverem para lá, mandem os nossos parabens ao sr. Antonio de Sousa Coutinho e recommendações aos amigos.»
E era assim que nós estávamos com a Hollanda: abraços na Europa e lambada lá por fóra.
Houve só duas côrtes que não quizeram nunca reconhecer a independencia de Portugal; uma foi a côrte de Roma que estava toda nas mãos dos hespanhoes, e a outra a da Allemanha, cujo imperador era da mesma familia que a do rei Filippe. E fizeram-nos transtorno: a primeira porque estávamos assim a modo excommungados, a segunda por uma patifaria que praticou o imperador, mandando prender sem mais nem menos o principe D. Duarte de Bragança, irmão de D. João IV, que andava por lá na guerra contra os turcos, e que tanta conta nos{126} faria em Portugal. Morreu na cadeia o pobre rapaz por causa de nós e da traição do tal imperador.
Em Portugal, ao principio, tinha ido tudo bem, mas, assim que passou aquelle primeiro fogo, houve muitos que começaram a pensar no caso e que disseram comsigo: «Isto foi uma grande asneira. Vem ahi os hespanhoes e dão cabo de todos nós. O melhor é pormos as costas no seguro, e, antes que elles venham ter comnosco, vamos nós ao encontro d'elles, que sempre apanharemos alguma cousa.» E n'isto desatam a conspirar contra D. João IV. Foram castigados cruelmente. Morreram muitos com a cabeça cortada, e mais nem todos eram culpados. Mas que querem vocês? A mania de D. João IV era que o não tomariam a sério como rei em Madrid, emquanto não mandasse cortar a cabeça a alguem.
Pois em primeiro logar visse bem a quem matava, e em segundo logar eu sempre ouvi que os reis, quando são mais reis, é quando perdôam. E, alem d'isso, os hespanhoes quando tomaram a sério D. João IV não foi quando elle mandou cortar a cabeça a fidalgos portuguezes, mas quando os soldados portuguezes lhes começaram a esfregar as costas a elles.
Lá que os taes conspiradores tinham rasão em estar com medo, isso tinham, porque parecia mesmo{127} impossivel que Portugal resistisse. Tambem o que nos valeu foi a asneira dos hespanhoes, que nos primeiros dois annos não fizeram senão dar um rebate falso a uma praça, atacar outra, escaramuçar aqui, disparar uns tiros alem. Parecia que estavam incumbidos por D. João IV de fazer andar os nossos soldados na recruta. Em 1644 é que, pela primeira vez, fizeram assim movimento mais serio, mas já tinhamos então soldados velhos, commandados por um bom general, Mathias de Albuquerque, e os amigos hespanhoes levaram a primeira sova mesmo lá na sua terra, em Montijo; em 1646 nova batalha em Telena, mas n'essa perdemos nós mais do que lucrámos, ainda que os hespanhoes com isso nada ganharam tambem, porque voltaram á costumeira antiga. Emfim, para encurtar rasões, quando D. João IV morreu, em 1656, estavamos havia dezeseis annos n'aquella brincadeira, hoje íamos nós á Hespanha e apanhavamos gado, ámanhã vinham elles cá e levavam-nos o nosso. Mas quem lucrava com isso? Éramos nós, porque os nossos milicianos, e as nossas ordenanças íam-se costumando á guerra, e cada vez este bocadinho de Portugal se ía tornando para a Hespanha mais duro de roer.
Em 1656 morreu pois D. João IV, como eu lhes disse, e succedeu-lhe seu filho D. Affonso VI, a quem chamaram o Victorioso, como chamaram a D.{128} João IV o Restaurador, mas emfim a este com mais um bocadinho de rasão.
D. Affonso VI não era o filho mais velho, mas o mais velho, um rapazito que dava esperanças, Theodosio, morrera em 1653. D. Affonso VI fôra desde creança muito doente, nunca podéra aprender cousa nenhuma e tivera uma educação muito descuidada. O seu gosto era brincar com os garotos que íam para debaixo das janellas do paço, e, quando foi homem, andava em pandigas pela cidade, com uma roda de facinoras que faziam tudo o que queriam á sombra d'elle, a ponto que até havia mortes nas ruas de Lisboa! Como ainda era pequeno quando seu pae morreu, ficou regendo o reino sua mãe D. Luiza de Gusmão, uma hespanhola muito decidida, que diziam até que fôra quem mais concorrera para o marido acceitar a corôa. A regente lá foi governando com acerto, emquanto o rapazote andava ao laré com um tal Antonio Conti, que lhe soubera conquistar a amisade. A rainha um dia pegou n'esse Antonio Conti, e ferrou com elle desterrado no Brazil. Ó diabo que tal fizeste! o pequeno zanga-se, e, quando o conde de Castello Melhor lhe disse que era bom que começasse a governar por si, porque tinha já chegado á maioridade, D. Affonso, para pregar pirraça á mãe, acceitou; eu não louvo o conde de Castello Melhor por ter aconselhado esta acção, mas a verdade é que D. Affonso{129} VI já estava em idade de governar, e que, se não podia dirigir os negocios, sempre era melhor que por elle os dirigisse um homem como o conde de Castello Melhor, que tinha uma excellente cachimonia, do que a rainha, que, apezar de ser esperta, sempre era senhora, e por isso menos capaz de governar o reino em tempo de guerra.
Bem conheço que D. Affonso VI era um mau rei, que não tinha juizo, que se entregava a divertimentos indecentes e até criminosos, mas uma qualidade tinha elle, percebia perfeitamente que não sabia cuidar do reino, e deixava o Castello Melhor fazer tudo quanto queria. Ora o Castello Melhor era uma das melhores cabeças que têem governado o nosso paiz, como vocês vão ver, porque é bom que saibam o que se passára na guerra.
Logo depois da morte de D. João IV, um general portuguez, João Mendes de Vasconcellos, fizera grande asneira. Vendo que os hespanhoes andavam só a fazer fosquinhas, disse comsigo: Não nos hão de conquistar, e havemos de ser nós que os conquistaremos a elles. Junta um exercito magnifico, e vae cercar Badajoz. Ainda ali ganhámos uma batalha, que foi a do Forte de S. Miguel, mas a final tivemos de levantar o cerco, depois de havermos perdido inutilmente a flor dos nossos soldados. Ora o que succedeu? Foi que, no anno seguinte, quer dizer em 1659, os hespanhoes, picados{130} com o nosso atrevimento, saíram da sua pachorra, juntaram um exercito formidavel commandado pelo proprio ministro do rei, D. Luiz de Haro, vieram sobre Portugal e cercaram Elvas. A cousa esteve phosphorica, porque os nossos melhores soldados tinham ficado estendidos diante de Badajoz, e andava isto por cá muito desarranjado. Mas para alguma cousa haviam de servir os dezenove annos de guerra. Em primeiro logar Elvas, governada por D. Sancho Manuel que foi depois conde de Villa Flor, defendeu-se admiravelmente, em segundo logar o conde de Cantanhede, depois marquez de Marialva, como não tinha outra gente, reuniu um exercito quasi todo de milicianos e saltou nos hespanhoes que cercavam Elvas. Foi no dia 14 de janeiro de 1659 que se deu a batalha, conhecida pelo nome de batalha das linhas de Elvas, e nunca os hespanhoes apanharam tamanha pilota. Os prisioneiros foram aos milhares, artilheria, bagagens, tudo nos caío nas mãos, e o proprio D. Luiz de Haro escapou-se por um fio. Tambem nunca mais nos perdoou aquella sova, e, quando n'esse mesmo anno foi fazer a paz com a França, deu aos francezes tudo quanto elles quizeram, só com uma condição—a de se não fallar em Portugal. Era patifaria graúda do ministro francez, um padre, um tal cardeal Mazarino, porque as tareias que davamos nos hespanhoes tinham feito muita conta aos francezes.{131} Mas o Mazarino foi apanhando o que poude, e pouco lhe importou mandar-nos á fava.
Vêem vocês a situação em que ficámos. Quando começámos a guerra com a Hespanha, estava ella em guerra tambem com quasi toda a Europa, o que não era mau para nós. Em 1648 fez a paz com muitas nações, e isso não foi lá muito bom, porém, como a França continuava em guerra, e essa só por si dava mais que fazer á Hespanha do que todas as outras juntas, ainda a cousa não ía mal; mas agora? A França fazia a paz, quasi que se alliava com os hespanhoes, porque o rei de França, Luiz XIV, casava com uma princeza hespanhola, e nós é que ficavamos em campo, com a Hespanha ás costas. Ella ainda esteve dois annos a apalpar-nos, mas em 1662 rompeu o fogo com alma. Poz um dos seus melhores generaes, D. João de Austria, filho bastardo do rei, á frente dos seus exercitos, e caíu em cima de nós com todo o seu peso.
Ora foi exactamente em 1662 que entrou no poder o conde de Castello Melhor, e foi sobre elle que desabou esse temporal desfeito. Nunca Portugal se vira em tão maus lençoes. D. João de Austria tomava praças sobre praças, e na campanha do anno immediato, 1663, quasi que chegava ás portas de Lisboa. Mas o ministro fizera o diabo, parece que até das pedras tinha feito soldados. Depois, como Mazarino era um finorio, que não desgostava{132} de jogar com pau de dois bicos, ao passo que contentava a Hespanha, mandava-nos para cá os officiaes que podia, entre elles o conde de Schomberg, que era um general de mão cheia. Não commandou nunca em chefe, porque os nossos não gostavam, e tinham rasão, que elles já haviam dado provas de que não precisavam de tutores; mas foi um excellente conselheiro. O que é certo, meus amigos, é que, em tres annos successivos, em que os hespanhoes fizeram todos os esforços para dar cabo de nós, levaram tres sovas mestras; a primeira deu-lh'a em 1663 o conde de Villa Flor na batalha do Ameixial, a segunda em 1664 Pedro Jacques de Magalhães na batalha de Castello Rodrigo, a terceira em 1665 na batalha de Montes Claros o marquez de Marialva. D'ahi por diante nunca os hespanhoes levantaram cabeça, e não pensaram mais em tomar conta outra vez de Portugal.
Ora o conde de Castello Melhor tinha uma grande idéa; dizia elle comsigo: os hespanhoes levaram tanta pancadaria, que, se fazemos a paz com elles, ficando nós simplesmente com o que tinhamos ao principio, póde-se dizer que fomos logrados. Demais a mais Portugal é pequeno, a Hespanha é grande; em qualquer bulha que tivermos estamos de mau partido. É necessario fazer Portugal maior e a Hespanha mais pequena. E toda a sua tineta era obrigar os hespanhoes a dar-nos a Galliza. E o{133} que fazia elle então? Encostava-se a Luiz XIV, rei de França, que andava namorando umas provincias hespanholas lá de Flandres. Casava D. Affonso VI com uma princeza franceza, e dizia comsigo: Mais dia menos dia, Luiz XIV pega-se com a Hespanha. Nós vamos com elle. A Hespanha leva para o seu tabaco a valer. Elle fica com as provincias que quizer, até com a Flandres toda, se isso lhe fizer conta, e nós com a Galliza, e com mais alguma cousa se podér ser.
—E era bem pensado, sr. João da Agualva, observou o Bartholomeu, porque é que não havia de ser nossa a Galliza?
—Tens rasão, e já vês que, se nós tivessemos a Galliza tambem, não estavamos sempre com medo de ser engulidos pelos visinhos. Mas que queres tu? Entretanto íam grandes intrigas no paço. A rainha, que era uma princeza toda liró e toda costumada ás janotices da côrte de Luiz XIV, achando-se casada com um homem que só se dava bem com moços de cavallariça, e que de mais a mais era tão doente que nem marido podia ser, principiou a desgostar-se, e ao mesmo tempo a agradar-se do infante D. Pedro, rapaz desempennado, que tambem não desgostava da francezita. Pensaram em se juntar e governar o paiz. Principiaram as intrigas. Tanto fizeram que conseguiram pôr fóra o conde de Castello Melhor. Desamparado, o pobre D. Affonso VI não{134} tardou a ser expulso do throno, e até o descasaram, coitado! Foi necessario para isso um processo que é uma vergonha, e realmente não posso perceber como foi que uma rainha se deixou assim andar nas bôcas do mundo!... Emfim, o que é certo é que desterraram o pobre D. Affonso VI, mandando-o para a ilha Terceira; prenderam-n'o depois em Cintra, onde morreu, e a rainha casou com o cunhado, e este ficou a governar o reino. Eu já lhes disse, rapazes, que bem conheço os defeitos de D. Affonso VI; mas o pobre homem, que era mesmo uma creança, que se não importava para nada com a politica, que tivera a fortuna de acertar com um bom ministro que governava por elle e governava bem, não merecia que lhe fizessem similhante entrega! Mette dó, porque elle nem sabia defender-se, andava ali como o menino nas mãos das bruxas.
E o irmão, que lhe tirára a corôa, e que lhe tirára a mulher, nem ao menos lhe dava a sua liberdade, nem lhe consentia que espairecesse. Tinha-o preso n'um quarto em Cintra, e ali o deixou morrer de aborrecimento e de desgosto, a elle que nunca fizera mal a ninguem senão com as suas tolas rapaziadas!
Emfim, passemos adiante! O que é certo é que isto succedeu em 1667, e logo no anno seguinte de 1668 fazia-se a paz com a Hespanha, sem lucro nenhum para nós, porque nem ao menos apanhavamos{135} a praça africana de Ceuta, que era tão nossa, por causa da qual morreu no captiveiro o infante santo, e que em 1640 não conseguira livrar-se dos hespanhoes.
Tanto se empenhára em governar o reino o sr. D. Pedro II, que desde 1667 até 1683, anno em que morreu D. Affonso VI, só tomou o titulo de regente, e a final de contas não fez senão tolices. Demais a mais algumas cousas boas que deixou fazer, logo as desmanchou. Um ministro que elle teve, o conde da Ericeira, quiz ver se fundava fabricas em Portugal, mas em 1703 um tratado com a Inglaterra, conhecido pelo nome de tratado de Methwen, que este era o nome do embaixador que o assignou, deu cabo da nossa industria. Conservou-se em paz, tanto que lhe deram o nome de Pacifico, e vae no fim do seu reinado mette-se sem mais nem menos na guerra da successão de Hespanha, favorecendo D. Carlos da casa de Austria contra D. Filippe da casa de Bourbon. Como tinhamos então um excellente general, que era o marquez das Minas, deu-nos este o gostinho de entrar victorioso em Madrid, e de proclamar ali D. Carlos rei de Hespanha; mas esse gostinho não tardámos a amargal-o, porque, morrendo D. Pedro II no dia 1 de dezembro de 1706, logo no dia 25 de abril de 1707 era o marquez das Minas batido na batalha de Almanza com graves perdas para nós, tanto que até ao fim da guerra{136} póde-se dizer que nunca mais levantámos cabeça.
Subio ao throno D. João V, e eu, para lhes dizer a verdade, o que não posso perceber é como ha historiadores que gabam aquelle rei. Cá para mim foi um dos peores que nós tivemos. Possuia algumas qualidades que não eram de todo más, era porém o mesmo que se as não tivesse, porque não pensava senão no beaterio, e em obras grandes e magnificas, que a maior parte das vezes para nada serviam. Logo por desgraça foi n'esse reinado que começaram a render rios e rios de dinheiro as minas do Brazil, e tudo era pouco para o rei que não cuidava senão de si e nada do reino. Por exemplo, achou-se embrulhado com a Hespanha e com a França n'uma guerra que no seu tempo não foi senão desastrosa. Uns corsarios francezes deram-nos cabo do Rio de Janeiro e levaram-nos umas riquezas espantosas. Pois não encontrou aquelle homem uns poucos de navios para saltarem tambem nas colonias francezas, ou para protegerem as nossas! Emfim! se os não tinhamos, paciencia! Mas d'ahi a pouco saíu de Lisboa uma excellente esquadra em soccorro do papa, commandada pelo conde do Rio Grande, esquadra que foi bater os turcos no cabo Matapan! Ora vejam se ha um patarata assim! Annos depois, por causa de uns insultos feitos em Madrid ao nosso embaixador, está para rebentar a guerra com a{137} Hespanha. Fazem-se preparativos, e vê-se que não temos nem exercito, nem marinha. De que tratou logo D. João V? De comprar armamento? Qual historia! De mandar fazer em Paris, para si, uma barraca de campanha muito rica, e tão luxuosa que toda a gente a ía ver!!
Não tinhamos estradas, não tinhamos rios canalisados, não tinhamos desentulhados os portos, não tinhamos nada do que nos era necessario, mas tinhamos aquella monstruosidade do convento de Mafra que custou 120 milhões de cruzados, que não serve para cousa nenhuma, e que nem ao menos é bonito. Dizem que gostava muito de imitar Luiz XIV, mas o que me dizia o engenheiro francez que esteve aqui em Bellas, é que Luiz XIV mandava ir sabios para França, dava pensões aos sabios estrangeiros, e este o que dava era dinheiro para igrejas, e o que mandava vir era de Roma bullas e capellas. Dizem que nunca deixou ás nações estrangeiras pôr pé em ramo verde comnosco. Quem lhe valeu para isso foram os diplomatas que teve, que nunca em Portugal os houve tão bons, e tambem o ser tão orgulhoso que ía aos ares só com a idéa de que mangavam com elle.
Mas no mais não me fallem em D. João V, que até me sobe o sangue á cabeça. Pois vocês conhecem cousa que mais indigne do que ir um homem ali para Lisboa, no campo da Lã, ver os inquisidores{138} queimarem gente de bem, ou porque não gostavam de toucinho, ou porque nem sempre íam á missa, e depois montar a cavallo, para se metter em Odivellas na cella de uma freira e passar ali a noite? Eu digo que me chega a parecer nem sei o que uma malvadez assim.
Morreu em 1750 esse rei que não fez nada bom em Portugal, a não ser as Aguas-Livres. Pouco mais dinheiro gastou que se podesse dizer que fosse bem gasto. E digo-lhes que, se vocês olharem para o paiz, até lhes ha de fazer pena. A nobreza já não se compunha senão simplesmente de criados do paço, o clero immenso e corrompido enchia o reino com os seus padres e os seus conventos, e conservava o povo n'uma ignorancia completa, o povo, miseravel, vadio, ou emigrava para o Brazil, ou pedia esmola ás portarias dos conventos, ou sentava-se ao sol. Tinhamos chegado ao mais baixo a que podiamos chegar. Felizmente, quando uma nação desce a tal ponto, sempre apparece alguem que a levante e esse, eu, para o outro domingo, lhes direi quem foi. Por hoje basta. Quando fallo no sr. D. João V, o Magnifico, e penso no mal que elle fez ao paiz, fico sempre macambusio, e então o melhor é ir-me deitar.{139}
NONO SERÃO
D. José I.—As transformações sociaes.—O marquez de Pombal e a revolução.—Terramoto de 1 de novembro de 1755.—As grandes reformas de Sebastião de Carvalho.—Expulsão dos jesuitas.—Reforma da universidade.—Reorganisação do exercito.—Agricultura.—Industria.—Inquisição.—Christãos novos e christãos velhos.—Politica estrangeira.—Energia com Roma e com Inglaterra.—Reconstrucção de Lisboa.—Estatua de D. José.—Attentado contra o rei.—Supplicio dos Tavoras.—D. Maria I.—Reacção contra as medidas do marquez de Pombal.—Processo do grande ministro.—Pina Manique, Francisco de Almada.—Martinho de Mello.—Loucura da rainha.—Regencia do principe D. João.—A republica franceza.—Campanha do Roussillon.—Campanha de 1801.—Napoleão e o tratado de Fontainebleau.—Fuga da familia real para o Brazil.—Guerra peninsular.—Congresso de Vienna.—D. João VI.—Conspiração de 1817.—Revolta de Pernambuco.—Revolução de 1820.
Hão de vocês notar, rapazes, observou o João da Agualva mal todos se sentaram no domingo seguinte em torno da lareira, que, em estando para haver uma grande mudança na sorte dos homens, parece que todos, sem o querer e sem o saber, trabalham para essa mudança, desejando fazer muitas vezes exactamente o contrario. Por exemplo, lembram-se vocês que ali por 1500 é que os reis se fizeram senhores absolutos, porque acabaram com os privilegios da nobreza, e com os foraes do povo. Quem{140} é que contribuiu para isso? O povo, que ajudou o rei a dar cabo dos nobres. Agora encaminha-se tudo para a liberdade e para a igualdade, e quem é que no nosso paiz vae concorrer mais para similhante cousa? O marquez de Pombal. Dir-me-hão vocês: Então o marquez de Pombal era algum liberalão por ahi alem como os de vinte? Qual historia! Era um tyranno e dos mais ferozes que nunca houve, mas, sem o querer e sem o saber, ninguem mais do que elle trabalhou pela liberdade.
Em primeiro logar hão de vocês saber que o rei D. José, que subiu ao throno por morte de seu pae D. João V, quasi que nem conhecia o marquez de Pombal, que já era homem dos seus cincoenta annos, e que tinha andado por fóra como embaixador, ora em Londres, ora em Vienna de Austria, onde casára com a filha de um figurão austriaco. Quem metteu empenhos para que elle fosse ministro foi a mãe de D. José, D. Marianna se chamava ella, archiduqueza de Austria, e por isso amiga da mulher do marquez, que então se chamava simplesmente Sebastião José de Carvalho e Mello. Era um ministro como os outros, e o rei não fazia mais caso d'elle do que fazia dos seus collegas, quando de repente acontece uma grande desgraça em Lisboa, que veio a ser o terramoto do dia 1 de novembro de 1755. A cidade foi quasi toda a terra, morreram muitas mil pessoas, outras ficaram a pedir esmola,{141} e sobretudo reinava um terror tamanho que ninguem sabia o que havia de fazer nem para onde se havia de virar. O Sebastião de Carvalho não perdeu a tramontana. Toma elle a direcção de tudo, arranja sustento, enforca ás portas da cidade quantos ladrões apanha, porque isso então era uma praga, trata do desentulho, e logo em seguida de reconstruir a cidade, isto com uma actividade, com um desembaraço, com um acerto, que D. José disse comsigo: Temos homem! D'ahi por diante quem governou foi elle, e é de uma pessoa pasmar ver o que fez. Até ahi os governos, para fallar a verdade, em quem menos pensavam era no povo e no paiz. O dinheiro do estado não servia senão para elles fazerem o que lhes agradava, e por felizes se podiam dar os povos quando lhes dava o capricho para cousas uteis. Sebastião José de Carvalho e Mello tratou do paiz e mais nada. Ora de que é que o paiz precisava?
Precisava, primeiro que tudo, de acabar com as despezas no gosto das que fazia el-rei D. João V, que era umas mãos rotas com fidalgos e com igrejas.
Precisava de poder pensar e estudar, sem ser sempre debaixo da palmatoria dos frades e dos jesuitas.
Precisava de acabar com a inquisição, porque era uma vergonha que ainda se queimasse gente em Portugal só porque não ía á missa.{142}
Precisava de ter exercito e de ter marinha.
Precisava de ter industria.
Precisava de ter lavoura.
E nada d'isto elle tinha.
Sebastião de Carvalho via estas cousas e disse comsigo: Mãos á obra. Ora digam-me vocês: Quando chegam a uma quintarola que compraram e vêem tudo estragado: os pardaes a darem cabo da fructa, as cearas a morrerem á sede, a terra fraca por falta de estrume, as hervas ruins a afogarem o trigo, o que é que fazem? Arregaçam as mangas e dizem: Vamos a isto. E sacham as hervas, sem dó nem piedade, e saltam ao tiro nos pardaes até os pôrem fóra, e deitam estrume na terra, e levam a agua da rega para as cearas, e levantam os muros arrasados, e enxotam os porcos que lhes vinham fossar nas batatas, e sacodem as gallinhas que lhes depinicavam tudo, e até vocês se riam se os accusassem de crueldade porque matavam os pardaes, ou porque arrancavam e deitavam fóra as hervas ruins.
Pois Sebastião José de Carvalho e Mello tratou Portugal exactamente como vocês tratariam a tal quintarola. Olhou para tudo e disse comsigo: Eh! com os diabos, como isto está. No paço ha um bando de pardaes que dá cabo da melhor fructa dos pomares da nação. Toca a enxotar os pardaes, e, como os pardaes refilaram, saltou ao tiro n'elles. As cearas{143} da intelligencia, que tambem são trigo porque dão o pão do espirito, não podiam medrar porque os affogava por toda a parte o joio do jesuitismo. Toca a sachar os jesuitas. Os muros da quinta estavam arrasados, quer dizer, estavam as fronteiras a descoberto, e em vez de haver fortes o que havia era igrejas, e elle mandou fazer o forte da Graça em Elvas, e poz o exercito a direito, mandando vir para isso um militar estrangeiro, o principe de Lippe, que era da escola de um rei da Prussia que foi o primeiro militar do seu tempo. Não havia lavoura nem havia industria, porque ninguem lhe dava a protecção da rega e do adubo, e Pombal deu-lhe tudo isso á moda do seu tempo, que elle tambem não podia adivinhar o que hoje se sabe. Elle reformou os estudos e a universidade, elle fundou companhias e fabricas, elle partiu os dentes á inquisição, elle poz fóra os jesuitas, elle tirou a censura dos livros aos padres, elle acabou com distincções de christãos-novos e christãos-velhos, e na India e no Brazil acabou tambem com todas as tolices das raças, elle arreganhou os dentes a Roma, e soube pôr o papa no seu logar, elle bateu o pé á Hespanha, elle fez-se respeitar da Inglaterra, elle acabou com os morgados pequenos que só faziam mal á lavoura, elle não deixou que entrassem para padres e frades todos quantos o queriam ser, porque, se as cousas continuassem assim, ás duas por tres não{144} havia senão cabeças rapadas em Portugal, emfim, meus amigos, é de uma pessoa pasmar ver que aquelle diabo de homem, que ao mesmo tempo fazia de Lisboa uma cidade nova e levantava uma estatua ao seu rei no Terreiro do Paço, em tudo poz a mão, tudo melhorou, tudo reformou, tudo arranjou, e póde-se dizer que virou a nação de dentro para fóra. Já se vê que fez tudo isto com o «posso, quero e mando.» Mas a quem é que prestou verdadeiros serviços? Foi á liberdade, porque tirou o povo da miseria e da ignorancia em que vivia, porque o livrou de ter os jesuitas por tutores, e assim o animou a cuidar dos seus direitos, e o preparou para um bello dia reclamar a liberdade. Foi cruel, bem sei, não digo menos d'isso. Tratou os homens como se fossem pardaes, e praticou mesmo barbaridades escusadas; mas que diabo! não sei que sina é esta: reforma graúda sem muito sangue parece que não ha modo de se fazer; uma vez são os reformadores que derramam o seu proprio sangue, e então é que a reforma vem de Deus, como acontece com o christianismo; outras vezes os reformadores derramam o sangue dos outros, e então é que a reforma vem dos homens, como aconteceu com a revolução franceza; porque lá isso de regar as arvores do bem com o sangue das nossas proprias veias, Deus é que o ensina, que os homens só por si não são capazes de chegar a tanto.{145}
—Ó sr. João, exclamou o Bartholomeu, mas parece-me que tenho ouvido dizer que os Tavoras, o duque de Aveiro e os mais fidalgos soffreram tormentos do diabo ali na praça de Belem. Ora, ainda que fosse necessario dar cabo d'elles, acho que não era preciso atormental-os, e que o marquez de Pombal tinha na verdade cabellos no coração.
—Não digo menos d'isso, Bartholomeu, mas ouve lá uma cousa: tu sabes porque é que os fidalgos foram executados, não sabes? Foi por darem uns tiros no rei. Elles queriam livrar-se do ministro, o rei não largava o ministro, cada vez se lhe agarrava mais, como depois mostrou, fazendo-o conde de Oeiras e marquez de Pombal, e então lembraram-se de dar cabo de D. José. Ora sabes tu como fôra castigado em França, pouco tempo antes, um homem que tinha querido matar o rei Luiz XV? Foi posto a tormentos, depois nas feridas abertas deitaram-lhe chumbo a ferver, e a final ataram-n'o aos rabos de quatro cavallos, e esquartejaram-n'o. E comtudo ninguem diz que Luiz XV tivesse cabellos no coração. As cousas faziam-se assim no seu tempo, não foi o marquez de Pombal que as inventou.
Hão de vocês dizer: Este diabo gaba sempre as tyrannias por toda a parte. Já defendeu D. João II, agora defende o marquez de Pombal. Eu não as louvo, rapazes. Se vivesse n'esses tempos e podesse, havia de berrar contra ellas; mas cá de longe, vendo{146} as cousas com socego, digo que ninguem é perfeito, e que todos os homens têem, como dizia o tal engenheiro francez que esteve em Bellas, os defeitos das suas qualidades. Ali está o Francisco Artilheiro que foi soldado: havia de ter servido com muitos coroneis. Encontrou algum que fosse teso a valer e que ao mesmo tempo desatasse a chorar, no tempo das varadas, quando tinha de mandar chibatar algum soldado? Não póde ser. Estes pimpões que quebram todos os abusos, que põem um joelho de ferro em cima de todas as revoltas, fazem aos homens o mesmo que fazem ás cousas, e o dever de quem depois conta a historia é perceber isso tudo, e não estar a berrar contra aquelles que fizeram serviços ao seu paiz, só porque nem sempre paravam onde seria melhor que tivessem parado.
Mas vamos nós ao resto da historia que d'aqui a pouco já as noites são mais pequenas, e mal chega o tempo para dormir a quem tem de se levantar com o sol. D. José morreu em 1777, e, apenas elle fechou os olhos, rebentou o odio que havia contra o grande ministro; ninguem quiz lá pensar no bem que elle tinha feito, e todos clamaram contra as suas crueldades. Demais a mais quem succedia a D. José era sua filha a rainha D. Maria I, muito beata, embirrando muito com o marquez, porque desconfiava que elle quizera fazer passar o throno para o filho{147} d'ella, um rapazito muito esperto, chamado D. José; e então o rei a morrer hoje e o ministro a ser demittido ámanhã. Não houve picardia que lhe não fizessem. Mandaram-n'o para a sua quinta do Pombal, e, estando elle já doente e amargurado, moeram-n'o com perguntas porque lhe armaram um processo. Se podessem desfazer tudo o que elle fizera, desfaziam, mas a final só soltaram os presos, porque emquanto ao mais tiveram medo de dar bordoada no finado rei, que a final de contas respondia pelos actos do ministro, porque elle é que assignava as ordens. Tiraram o retrato do marquez da memoria do Terreiro do Paço, qué só em 1834 se tornou a pôr como era justo; em vez do retrato pozeram as armas de Lisboa que são um navio á véla, e foi então que o marquez de Pombal disse, ao saber do caso: Ai! Portugal que vaes a véla!
Bem quizera D. Maria I admittir os jesuitas outra vez, mas não podia ser, porque o marquez de Pombal não só os expulsára de Portugal, mas fizera uma liga contra elles em toda a Europa, e conseguira que o papa Clemente XIV acabasse com a Ordem. Muito trabalharam os parentes dos Tavoras para conseguir que se désse uma sentença a declarar que era peta o que se dissera a seu respeito, e injusta a sentença que os condemnava; mas a final não conseguiram isso, porque a rainha percebeu que, condemnando o marquez de Pombal, a quem condemnava era ao pae.{148}
No mais tudo andou para traz, a não ser na marinha, que teve um bom ministro, Martinho de Mello, e n'isto de escolas que sempre se foram desenvolvendo. Houve alem d'isso dois homens que fizeram muito bem a Lisboa e ao Porto, a saber, o intendente da policia Pina Manique e o corregedor do Porto Francisco de Almada. É que já se não podia deixar de cuidar de melhoramentos; mas o que deu cabo de nós foi a birra que tivemos em nos metter na bulha contra a republica franceza. Isso, fallar em Portugal nas idéas novas, era o mesmo que fallar no diabo, e D. Maria I, em vez de tratar da sua vida, seguio o caminho de D. João V. Este ía-se metter com os turcos que lhe não faziam mal nenhum, D. Maria I foi-se metter com a republica franceza, que estava lá tão longe e que nada tinha com Portugal.
O que resultou d'aqui é que mandámos uma divisão ao Russilhão a ajudar os hespanhoes, e uma esquadra a Toulon a ajudar os inglezes. A divisão do Russilhão portou-se o que se chama bem, mas depois? A Hespanha fez a paz com a França, e nós ficámos a olhar ao signal, a Inglaterra mettia-nos na dança, e depois punha-se de palanque. Tivemos de andar a pedir a paz á republica franceza, quasi de joelhos, e o Napoleão, que já n'esse tempo começava a governar em França, e que nos tinha jurado pela pelle, teve a habilidade de açudar a Hespanha{149} contra nós, resultando d'ahi a guerra de 1801. Foi uma guerra vergonhosa. Tinhamos o exercito escangalhado, não fizemos senão levar bordoada, e, para alcançarmos paz, tivemos de pagar bom dinheiro, e de dar aos hespanhoes Olivença que nunca mais apanhámos. De nada nos valeram todas as humilhações. Em 1807, Napoleão, que já era imperador, e que andava n'uma lucta de morte com a Inglaterra, quiz que fechassemos os portos aos nossos antigos alliados. Andámos a hesitar, até que Napoleão, que não gostava de perder tempo, declara que a casa de Bragança deixára de reinar, e mette-nos cá dentro um exercito commandado pelo Junot. A familia real não teve senão tempo de fazer as malas e de partir para o Brazil, por conselho dos inglezes. Devo-lhes dizer uma cousa: a rainha D. Maria I endoidecera havia muito tempo, e quem governava em seu nome como principe regente desde 1792, era o principe D. João, seu filho mais velho, porque aquelle D. José, de quem lhes fallei, e que dava tantas esperanças, tinha morrido em 1788.
Imaginem vocês como ficaria o povo com esta partida, e agora é que é o caso de se lhe chamar partida.
Abandonado pela familia real, viu o Junot tomar conta do governo, agarrar no exercito portuguez, que não tinha ordem para resistir, e mandal-o para França servir no exercito de Napoleão, lançar contribuições{150} pesadas como o diabo, e emfim tratar isto como terra conquistada. E, para maior vergonha, Junot invadira o paiz, no coração do inverno, com meia duzia de gatos, e entrára em Lisboa á frente de quatro soldados estropiados e esfarrapados. A vergonha de todas estas humilhações começou a fazer ferver o sangue aos portuguezes, e um bello dia rebentou a revolta no Porto. Foi como quem diz um rastilho de polvora. Desde o Minho até ao Algarve, não houve terra em que se não pegasse em armas contra os francezes. O Junot mandou as suas tropas esmagar as revoltas, e os francezes fizeram então cousas do arco da velha, mataram, roubaram, queimaram...
—Ah! pae do céu! exclamou a tia Margarida, eu era bem pequenina então, havia de ter sete ou oito annos, mas lembra-me do que minha mãe me contava. Havia um que ella chamava o Maneta, que isso parece que era o diabo em pessoa.
—Era o general Loison, que não tinha um braço. Em Evora fez elle o demonio, mas, por mais que fizessem, não conseguiam acabar com a revolta. Era pobre gente do povo, sem armas, sem disciplina, sem chefe, que assim se levantava contra os francezes, e estes davam-lhe para baixo facilmente, mas a gente levava aqui em Bellas, levantava-se em Cintra, íam os francezes a Cintra, levantavam-se os de Bellas. Demais a mais, cada qual faz a guerra{151} como póde. Lá em batalha não podiam os nossos medir-se com os soldados de Napoleão. O que faziam? Davam-lhes caça; em os apanhando separados, carga para cima d'elles. Era facada, era paulada, era tiro de bacamarte, era o que podia ser, com os diabos! que um povo é como uma pessoa, quando o querem pisar aos pés, defende-se com unhas e dentes. Mas n'isto os inglezes, que andavam á tóca de ver se podiam saír da sua ilha e desembarcar n'algum sitio onde podessem incommodar Napoleão, assim que viram que Portugal estava revoltado, desembarcaram aqui um exercito commandado por um sugeito chamado Wellington, que, se não era tão bom general como Napoleão, pelo menos parece-me que ainda seria mais feliz do que elle. O Junot, que não passava de ser um valentão, foi batido pelos inglezes na Roliça e Vimeiro, onde os nossos, já se vê, tambem combateram ao lado das fardas vermelhas, que é, como vocês sabem, o uniforme inglez, e, para se safar de Portugal, teve de capitular. É verdade que o patife apanhou uma capitulação, que a não podia ter melhor se fosse elle que houvesse dado a tunda nos inglezes. Levou-nos tudo o que nos tinha roubado, e nem se fallou nos nossos soldados que lá andaram, contra vontade sua, a servir no exercito de Napoleão.
—Ó sr. João, acudiu o Manuel da Idanha, vocemecê{152} ha de desculpar uma pergunta, mas parece-me que ninguem póde vir por terra de França a Portugal, sem passar pela Hespanha, não é verdade?
—É sim, rapaz; mas que queres tu dizer com isso?
—Quero dizer que não percebo como foi que o Junot cá veio. Então os hespanhoes deixaram-n'o passar?
—Fizeram mais alguma cousa, vieram com elle, porque n'esse tempo estavam ainda muito manos com os francezes, tanto que repartiram entre si Portugal como quem reparte um melão, uma talhada para este, outra talhada para aquelle, etc. Mas o Napoleão surripiou aos hespanhoes a sua familia real, e fez rei de Hespanha um seu irmão chamado José, de fórma que, quando nós nos revoltámos, revoltaram-se elles tambem, e começámos uns e outros á lambada aos francezes.
Entretanto cá se arranjára um governo; tratou elle de organisar o exercito, que ainda era á moda de 1640, e que só precisava de um general como o principe de Lippe para ficar uma joia. Esse general appareceu, foi um inglez chamado Beresford, que n'um abrir e fechar de olhos poz tudo a direito. O que é certo, meus amigos, é que na guerra da Peninsula, que durou seis annos, os nossos soldados, combatendo ao lado dos soldados inglezes, passavam{153} por ser tão bons como elles e talvez melhores. Já se vê que tinha sido necessario virem muitos officiaes inglezes para os nossos regimentos, porque a officialidade portugueza estava toda dispersa, uns tinham ido para França, outros para o Brazil, e outros, diga-se a verdade, não prestavam para nada.
—Ó sr. João, dá licença que lhe faça uma pergunta? interrompeu de novo o Manuel da Idanha.
—Faze, rapaz, podéra! Pois então para que estou eu aqui?
—Porque é que se chamou a essa guerra a guerra da Peninsula?
—Não te disse eu, rapaz, no principio d'esta conversa, que Portugal e a Hespanha juntos formavam uma peninsula, quer dizer quasi uma ilha, porque a cérca o mar por toda a parte menos por um lado, que é onde pega com a França pelos Pyrenéus?
—Disse, sim senhor.
—E não te acabei de dizer que, quando nos revoltámos contra Napoleão, revoltaram-se tambem os hespanhoes, e que desatámos uns e outros á pancada aos francezes?
—Tambem é verdade.
—Pois então ahi tens tu: a guerra era de Hespanha e de Portugal, por conseguinte era a guerra da Peninsula.{154}
—Ora tambem quero fazer uma pergunta, disse a tia Margarida.
—Pois então, tia Margarida! Era o que faltava era que as mulheres não tivessem a palavra.
—O que você precisava era de um puxão de orelhas, mas emfim lá vae a pergunta. Eu, sempre que minha mãe fallava n'essas cousas, ouvia-lhe dizer que os francezes eram muito maus, mas que os inglezes talvez ainda fossem peores. Ora você diz que os inglezes vieram ajudar-nos...
—Dizia muito bem a sua mãe, tia Margarida, mas eu tambem não digo mal. Soldados inglezes sempre foram abrutados, principalmente em estando com o vinho. Nunca vieram a Portugal senão ajudar-nos, e nunca tambem cá vieram que não ficasse tudo a berrar contra elles. Olhem no tempo de D. Fernando. Parece-me que lhes contei que, vindo elles combater ao nosso lado contra os hespanhoes, fizeram o que o demonio não fez. E, agora que já respondi ás suas perguntas, vou continuar a minha historia.
O Junot foi posto fóra em 1808, os inglezes então viraram-se contra os francezes que estavam na Hespanha, e metteram-se pela Galliza dentro, mas o Soult, apanhando-os lá, deu-lhes uma tareia formidavel, e depois veio sobre Portugal e entrou no Porto. A gente do Porto, a fugir dos francezes, metteu-se na ponte de barcas que então havia sobre o{155} Douro, para passar para o outro lado; a ponte abateu e morreram milhares de pessoas.
—Ah! bem sei! interrompeu a tia Margarida, diz que foi o dia de juizo.
—Ora se foi! os francezes pararam no Porto, mas nós e os inglezes fomo-nos a elles d'ahi a tempo e pozemol-os fóra. O Napoleão, embirrando com o caso, mandou um exercito commandado pelo marechal Masséna, um dos seus melhores generaes, com ordem de atirar o Wellington ao mar; mas o Wellington, que era homem avisado, e que não gostava de tomar banhos de choque, aproveitára o tempo a arranjar as linhas de Torres Vedras, de traz das quaes se metteu. O Masséna bateu com as ventas nas linhas, vio que não podia fazer nada, foi-se embora, e nós logo atraz d'elle.
Para encurtar rasões, em quatro annos de campanha, fomos a pouco e pouco empurrando os francezes pela Hespanha fóra, em 1814 entrámos em França de embrulhada, e, como os russos, os austriacos e os prussianos tambem entraram por outro lado, levando o Napoleão adiante de si, caíu aquella caranguejola toda, o Napoleão teve de dar a sua demissão de imperador, e nós ficámos livres dos francezes.
Dois annos depois, em 1816, morreu a rainha D. Maria I no Brazil, sem que ninguem, por assim dizer, désse por isso. O principe regente tomou o{156} nome de D. João VI e continuou tudo como até ahi.
Entretanto em Portugal estava tudo descontente. O povo levantára-se contra os francezes por sua conta e risco, e parecia-lhe historia que o rei, que fugira, continuasse a não fazer caso nenhum d'elle.
Em Hespanha tinham-se reunido côrtes e arranjára-se uma constituição pela qual se acabava com o poder absoluto dos reis. Em Portugal, se não se fizera o mesmo, não fôra por falta de vontade, mas os inglezes não deixavam. Todos percebiam, porém, que se não podia voltar á antiga, como se não se tivesse passado cousa nenhuma no intervallo. Por outro lado a teima do rei em ficar no Brazil já nos ía fazendo chegar a mostarda ao nariz, tanto mais que, ao passo que havia por cá muita miseria, estava sempre a ir dinheiro para o Brazil, e não só dinheiro mas tropa tambem, porque D. João VI, em 1817, lembrára-se de juntar Montevideu ao Brazil, como se o Brazil ainda fosse pequeno, aproveitando para isso a revolta das colonias hespanholas. Emfim, a conservação de Beresford e dos coroneis inglezes no quadro do exercito portuguez incommodava os nossos officiaes, e descontentava a nação.
Em 1817, descobre-se ainda por cima uma conspiração liberal, dão como implicado n'ella, com provas{157} de cá cá rá cá, um general muito estimado, Gomes Freire de Andrade, de quem diziam que Beresford tinha ciumes, e enforcam-n'o. Tudo isto ía fazendo ferver o sangue aos portuguezes, e, quando em 1820 começou a haver revoluções liberaes por toda a parte, rebenta tambem uma revolução liberal no Porto, espalha-se logo por todo o reino, chega a Lisboa, e pega-se ao Brazil. D. João VI é obrigado a acceital-a, e a vir para Portugal, a mandar embora os officiaes inglezes, e a assignar uma constituição que as côrtes fizeram; mas os governos lá de fóra, e logo os mais poderosos, acharam perigoso que se tornasse a fallar em liberdade e constituições, e decidiram que viesse um exercito francez pôr a mordaça na boca aos liberaes da Hespanha, emquanto um exercito austriaco ía fazer o mesmo aos da Italia. Apenas cá chegou a noticia, os amigos do absolutismo, que tinham por chefe o infante D. Miguel, segundo filho do rei, levam este para Villa Franca, e deitam abaixo a constituição. Mas o que a fez caír não foram elles, foram os passos dos soldados francezes que já a essas horas andavam por Hespanha.
Entretanto o Brazil, onde ficára governando o principe D. Pedro, que era o filho mais velho do rei, fazia-se independente. Antes d'elle tinham feito o mesmo as colonias visinhas que pertenciam á Hespanha, e cincoenta annos antes as que pertenciam{158} á Inglaterra. No Brazil já houvera duas tentativas de revolta, e ambas tinham sido afogadas em sangue, uma em 1789, outra em 1817. A final venceram. Accusam muito D. Pedro de se ter feito imperador do Brazil, e de se haver revoltado contra seu pae. Elle não se revoltou, mas só podia fazer uma de duas cousas, ou ir com os brazileiros, ou pôr-se no andar da rua. Então esses figurões imaginavam que um paiz rico, grande e forte, está agora para receber ordens de outro mais pequeno, ou maior que elle seja, e que fica de mais a mais do outro lado do mar? Ora, historias da vida! e não se queixem d'isso. É ordem das cousas. As colonias são como os filhos. A gente educa-os, trata-os, deixa-os ir crescendo. Quando são maiores emancipam-se. E ninguem tem que estranhar. Foi o que aconteceu com o Brazil. Estava maior, emancipou-se. Perdemos o Brazil em 1825, em 1826 morreu D. João VI. Os seus ultimos dias foram amargurados. Tivera guerra com o filho mais velho que se revoltára com o Brazil; estivera para ser desthronado pelo filho mais novo, D. Miguel, que o chegára a prender na Bemposta, e que elle depois tivera que mandar para fóra do reino; a mulher, D. Carlota Joaquina, que estava sempre ás turras com elle, nunca lhe déra senão desgostos. Falleceu ralado o pobre do rei, que era uma excellente pessoa, amigo de tomar o seu rapé com socego, e que para sua desgraça governára no tempo{159} da revolução franceza, no tempo de Napoleão, e no tempo da revolução de 1820. E ha de a gente acreditar no rifão: Dá Deus o frio conforme a roupa.
E, como eu tambem estou com frio, rapazes, vou até casa á procura de roupa,
e no proximo domingo acabaremos com isto.{160}
{161}