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Historia da Grecia

Chapter 21: CAPITULO IX
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About This Book

Um panorama conciso da Grécia antiga que articula noções geográficas e mitológicas com uma sequência cronológica de eventos e instituições. Explora os tempos lendários e heroicos, a legislação e organização de cidades como Esparta (leis de Licurgo) e Atenas (reformas de Sólon, tiranias e democracia), as Guerras Médicas, a hegemonia e o apogeu ateniense no século de Péricles, a Guerra do Peloponeso, a tirania dos Trinta, a supremacia espartana e tebana, a ascensão da Macedónia, a fragmentação pós‑alexandrina e a integração final na província romana. Cada capítulo apresenta, de modo sucinto e acessível, análises de política, legislação e conflitos que moldaram a região.

Os periecos tinham-se submettido voluntariamente, e foram-lhes deixadas as suas cidades e uma parte dos campos. Tiveram 30:000 lotes na partilha attribuida a Lycurgo. Pagavam tributo, não tinham direitos politicos; eram, comtudo, de condição livre, e tomavam parte nos jogos olympicos. Dedicavam-se ao trabalho, ao commercio, á industria: teciam ricos mantos de purpura, faziam calçado luxuoso, fabricavam armas magnificas, obras cinzeladas, etc. Houve entre elles alguns artistas muito notaveis. Nos exercitos, formavam as guardas ligeiras; nas armadas eram marinheiros peritos,—e alguns periecos houve que as commandaram, nas guerras maritimas com os Athenienses. Finalmente, os periecos tinham escravos seus para os trabalhos agricolas.

Os hilotas eram verdadeiros escravos; não constituiam uma sociedade áparte e vivendo a sua vida propria, como os periecos. Eram inteiramente submettidos aos Espartanos. Cultivavam as terras, guardavam os rebanhos, trabalhavam nos serviços domesticos, e, na marinha, eram remadores. Desprezavam-n'os, tratavam-n'os barbaramente, chegando a ponto não só de serem açoitados todos os annos para se lhes lembrar a sua abjecção, como tambem de serem caçados e mortos (eryptia), em verdadeiras correrias pelos campos, como bestas-feras. O numero dos hilotas dos dois sexos, que havia na Laconia, elevava-se a 200:000, os quaes juntos com 120:000 periecos formavam uma população dez vezes maior que a dos Espartanos.

Estes ultimos tinham tambem escravos extrangeiros dos dois sexos. O direito de alforria era exclusivo do Estado. Os libertos não eram elevados á categoria de cidadãos; ficavam em differentes condições particulares, com os nomes de epeunactas, cructeros, aphétas, neodamodos, etc.

Em Creta, onde o regimen era o mesmo que em Esparta, incontram-se as mesmas fórmas de servidão: populações submettidas analogas aos periecos; escravos do Estado sob o nome de mnoítas; escravos empregados na cultura dos campos e no serviço dos cidadãos (aphamiotas e clarotas), bem como escravos comprados no estrangeiro.{33}

Incontram-se egualmente, as mesmas fórmas em todas as regiões, onde se estabeleceram os Dorios, taes como nos orneatas e nos gymnetas «homens nus» da Argolida; nos cynophylos «raça de cães» de Corintho; nos conipodos «de pés impoeirados» de Epidauro; nos craulidas de Delphos; nos callicyrios de Syracusa, etc.

Em Athenas o tratamento dado aos escravos era mais benigno, sem comtudo deixarem estes de ser considerados coisas, e, como taes, estavam submettidos ás leis que regem a propriedade.

Havia, tambem nos templos, em diversas cidades da Grecia, bandos de escravas que, com o nome sagrado de hierodulas, eram votadas ao culto de Venus. O templo de Venus, em Corintho, incerrava mais de mil d'essas cortezans, as quaes desfructavam grande consideração publica por concorrerem para a prosperidade da cidade, attrahindo a esta um grande numero de estrangeiros.

 

CAPITULO V

AS GUERRAS MEDICAS

Sublevação dos Gregos da Asia-Menor.—Quando a Persia, na expansão do seu ingrandecimento, attingiu os seus limites naturaes na Asia, só lhe restava aberto o lado de noroeste (isto é, a Europa) para a dilatação das suas fronteiras.

Começou por incontrar as ricas cidades gregas disseminadas pelas ilhas e pelo littoral do Mediterraneo, e submetteu-as. Mileto intregou-se sem resistencia; outras oppuzeram-se tenazmente ao jugo, mas porfim todas foram absorvidas pelo colosso asiatico. Annexadas ao imperio, carregadas de impostos, conservaram, no emtanto, uma tal ou qual autonomia sob a auctoridade absoluta de chefes escolhidos pelo vencedor no partido aristocratico de cada uma, responsaveis pela obediencia e fidelidade dos seus concidadãos e dependentes do satrapa da respectiva provincia.

Isto durou pouco mais de meio seculo. Porém, no tempo de Dario, manifestou-se uma sublevação geral contra o poderoso imperio.

Histieu, principe de Mileto, estava em Suza, capital da Persia,—e deixára Aristágoras, seu genro, com o governo da cidade. Parece que este, humilhado pela altivez do governador{34} da Asia-Menor, e receoso do castigo com que os Persas procurariam punil-o, por ter aconselhado e dirigido uma impresa contra Naxos, que a facção aristocratica queria intregar aos Persas afim de se apoiar n'elles para consolidar a sua preeminencia, quiz experimentar a sorte das aventuras provocando uma revolta entre os Gregos descontentes. Sublevou a Jonia (501),—e a sublevação propagou-se como um incendio por toda a costa da Asia, desde a Caria até Chalcedonia sobre o Bosphoro.

Os revoltosos mandaram pedir soccorros a Esparta e a outros Estados poderosos da mãe-patria; mas só Athenas e a pequena cidade de Erétria na Eubéa inviaram um pequeno numero de navios. Ao principio as vantagens foram todas do lado da sublevação; os Gregos conquistaram e incendiaram Sardes, capital da Asia-Menor. Mas dentro em breve a sorte das armas mudou: o exercito nacional grego foi derrotado em Epheso pelo governador persa; e porfim a desproporção das forças, a falta de unidade entre os confederados, e a traição, lançaram-n'os outra vez sob o jugo que pretendiam sacudir. Em 494 foi destruida Mileto. Dos Milesianos foram uns passados á espada, outros levados captivos para o Tigre inferior. Aristagoras fugiu para os Thracios da margem do Strymon, onde foi morto. Histieu, que, voltando á Jonia, se tinha ligado com os revoltosos, morreu crucificado; a Caria e a Jonia foram reduzidas e severamente castigadas; e Dario jurou tirar uma vingança cruel das duas cidades, Athenas e Eretria, que tinham auxiliado os revoltosos.

 

Primeiras expedições dos Persas.—Resolvido a pôr em práctica os seus projectos de vingança contra os Gregos, Dario, excitado tambem pelas instancias do antigo tyranno de Athenas, Hippias, deu a seu genro Mardonio (492) o commando de um exercito, que devia penetrar na Europa pela Thracia, seguindo a esquadra ao longo das costas. Ao mesmo tempo os arautos do grande rei reclamavam dos diversos Estados gregos a terra e a agua, symbolos de submissão.

Mardonio, por uma habil medida politica, assegurou a sua retaguarda e as suas bases de operações, acabando de pacificar a Jonia por meio de uma concessão singular: depoz em todas as cidades os tyrannos, e restabeleceu o regimen democratico, ou pelo menos o governo das cidades pelos seus proprios cidadãos.

Nada lhe valeu, porque todas as circumstancias conspiraram contra elle. A esquadra submetteu a ilha de Thasos,{35} mas foi despedaçar-se quasi toda por uma tempestade ao dobrar o promontorio do monte Athos. Perderam-se trezentas galeras e vinte mil homens; e Mardonio, que tinha já subjugado parte da Macedonia, reconhecendo que não podia continuar a conquista, voltou para a Asia (492), com o resto do seu exercito.

Os arautos que, em nome de Dario, se adeantavam reclamando a terra e a agua, segundo a formula de homenagem que os Persas exigiam dos povos que subjugavam, não foram melhor succedidos. Egina e muitas outras cidades obedeceram-lhes; mas, quando elles se apresentaram com a mesma exigencia deante de Esparta e de Athenas, a indignação dos habitantes d'estas cidades foi tão grande que, olvidando o direito das gentes, mandaram-n'os matar. Os Espartanos atiraram-n'os a um poço, dizendo que procurassem no fundo d'elle a terra e a agua que quizessem.

Dario, cheio de indignação com um tal insulto, inviou logo segunda esquadra, com muitas tropas de desimbarque, sob o commando de Datis e de Artaphernes. Esta atravessou o Archipelago, onde obrigou Naxos e as outras Cyclades a submetterem-se, e chegou em seguida á Eubéa, onde bloqueou Eretria, capital da ilha, a qual lhe foi intregue pela facção aristocratica. A cidade foi arrasada e os habitantes remettidos como escravos para o interior da Asia (490). Em seguida os Persas, conduzidos por Hippias, desimbarcaram nas costas da Attica, e acamparam, a algumas leguas de Athenas, na planicie de Marathona, habilmente escolhida como favoravel para as grandes evoluções de cavallaria.

 

Batalha de Marathona.—Mandou Athenas, n'este grande aperto, pedir o auxilio de Esparta; mas os Espartanos, detidos por um uso supersticioso, que lhes não permittia partir para a guerra antes da lua-cheia, pediram dez dias de espera. Os Athenienses, a quem a difficuldade das circumstancias não permittia delongas, marcharam ao incontro do inimigo. As dez tribus forneceram cada uma mil homens e um stratégo ou general, sendo o commando em chefe conferido a Milciades. O exercito dos Persas era dez vezes mais consideravel, o que não obstou a que a sua derrota fôsse completa. A batalha de Marathona (490) inaugurou com gloria o imperio e o prestigio da democracia atheniense.

 

Morte de Milciades.—Em seguida, Milciades convenceu os Athenienses a armarem uma esquadra para conquistarem as{36} ilhas do Mar Egeu que tinham prestado homenagem aos Persas. Foi sitiar Paros; mas teve de levantar o bloqueio com perdas, regressando com a esquadra a Athenas. Ahi foi accusado por Xantippo, um dos primeiros personagens da cidade, pae de Pericles, de ter inganado o povo, lesado o thesouro publico, e causado a morte de um grande numero de cidadãos. Milciades não poude comparecer no tribunal, por estar gravemente doente de uns ferimentos recebidos em Paros, e foi condemnado ao pagamento de uma multa equivalente ao dispendio que tinha feito a expedição. Morreu da sua ferida pouco depois,—e seu filho pagou a multa, para não ficar incurso na incapacidade legal para o exercicio de qualquer cargo publico.

 

Aristides e Themistocles.—Athenas subiu ao primeiro logar entre as nações gregas, e no seu seio travou-se em breve o conflicto de duas ambições rivaes. Dois homens, Aristides e Themistocles, disputavam um ao outro a influencia e o credito:—Aristides, dotado de tal rectidão que recebeu o nome da Justo; Themistocles, homem de genio militar o politico, tendo as mais altas qualidades, infelizmente maculadas por grandes defeitos. Themistocles era o chefe do partido popular. Quando se tratou de dar successor a Milciades no commando da esquadra, elle obteve a preferencia sobre o seu rival. Submetteu algumas das ilhas do Mar Egeu; mas, quando voltou a Athenas, incontrou Aristides á frente de um grande partido (o aristocratico) que o apoiava. Romperam grandes desintelligencias entre as duas parcialidades, e porfim Themistocles conseguiu obter a expulsão de Aristides, por meio do ostracismo. O povo não teve em vista, com esta medida, castigar um homem cujas virtudes apreciava; o que pretendeu foi enfraquecer o partido da nobreza, tirando-lhe o chefe.

Themistocles, ficando chefe da republica, e comprehendendo, ao contrario de todo o povo, que a derrota dos Persas em Marathoha não era o termo da lucta, mas sim o começo de guerras novas, viu com admiravel penetração que o futuro da Grecia dependia do seu ingrandecimento maritimo, e não deixou um momento de pugnar pela creação da marinha atheniense, afim de oppôl-a um dia a novas invasões dos Asiaticos, e ao mesmo tempo para garantir a Athenas o senhorio do mar e a preponderancia sobre os outros Estados gregos.

Para conseguir a realização dos seus projectos, obteve de Delphos uma sentença que o favorecia. O oraculo declarou que a salvação dos Athenienses dependia de se abrigarem cobertos{37} por «muros de madeira». Por estes muros o povo intendeu «navios». O producto das minas de prata do Laurion era até então consumido em festejos publicos ou distribuido pelos cidadãos. Themistocles obteve que fosse empregado na construcção de cem triremes de guerra, e para melhor fazer acceitar a sua proposta valeu-se do profundo rancor que os seus concidadãos tinham á ilha de Egina, por se haver rendido espontaneamente aos Persas, e levou-os a approvarem o augmento das forças navaes com a mira no castigo dos Eginetas.

 

Expedição de Xerxes.—Dario, o orgulhoso monarcha persa, humilhado com o desastre de Marathona, estava preparando os elementos para uma desforra memoravel quando a morte o surprehendeu. Seu filho e successor, Xerxes, herdeiro do seu odio e dos seus sentimentos de vingança, adoptou os projectos paternos e proseguiu nos armamentos que, em larga escala, se estavam accumulando havia tres annos. Segundo a narrativa de Herodoto, fundada na tradição popular e poetica, o exercito asiatico attingiu o numero de 1.700:000 homens, sendo a esquadra de mais de 1:200 navios de alto bordo.

Em 481, depois de ter atravessado o territorio de Ilion, chegou aquella immensa mole de gente ás praias do Hellesponto. Septe dias, sem interrupção, levou o exercito a passar sobre duas pontes de barcos. Era um mixto de povos e nações diversas: Persas, Médos, Assyrios, Arabes, Sacios, Indios, Mongoes, Ethiopes, etc. Depois da passagem do Hellesponto, dirigiu-se do Chersoneso para a Macedonia e para a Thessalia atravez da Thracia. Os povos das differentes regiões atravessadas, taes como os montanhezes da Dorida, do Pindo, do Ossa, do Pélion, do Olympo, os Thessalianos, uma parte doa Beocios, correram a offerecer ao grande rei as suas homenagens. A esquadra, n'este meio tempo, ia avassallando os mares e apossando-se das ilhas.

Themistocles conseguiu, com os seus esforços patrioticos, fundar uma liga composta dos restantes Estados gregos, que o terror do inimigo não abalára de todo. Formou-se uma dieta, sob a hegemonia de Esparta, no isthmo de Corintho. Por um momento foram esquecidas todas as dissensões internas.

 

As Thermopylas.—Em Julho de 480, exactamente quando se celebravam os jogos olympicos, appareceram as avançadas do exercito de Xerxes em frente do desfiladeiro das Thermopylas. Ahi as esperava Leonidas, um dos dois reis de Esparta, o qual, segundo o plano de defesa combinado, tinha por{38} missão deter os Persas n'essa estreita garganta, que conduzia da Thessalia para a Locrida, cobrindo ao mesmo tempo a Grecia central. Ao mesmo tempo o exercito naval dos Gregos esperava as esquadras de Xerxes no estreito de Artemision. Para defender o Peloponeso, ultimo refugio da independencia hellenica, estava um exercito de reserva acampado no isthmo.

O rei lacedemonio commandava septe mil homens, entre os quaes se distinguiam trezentos Espartanos. Foi com estes que Leonidas se postou no desfiladeiro, prompto a fazer frente a toda a inundação asiatica. Intimado a intregar as armas, Leonidas respondeu:—«Vem buscál-as!» Quando o inimigo appareceu á vista, disse um grego:—«Os Persas estão ao pé de nós», a que Leonidas replicou:—«Porque não dirás antes que nós estamos ao pé dos Persas?» Os soldados valiam tanto como o chefe. Disse um d'elles, atemorizado, que os inimigos eram em tão grande numero, que as suas flechas escureceriam o sol.—«Tanto melhor, respondeu outro, combateremos á sombra». Leonidas desejava salvar dois mancebos espartanos; deu a um d'elles uma carta, a outro uma commissão para os éphoros.—«Não estamos aqui para levar recados; estamos para combater».

Durante muitos dias procurou o Rei dos Persas forçar a passagem; e já quasi desesperava de conseguil-o, quando um traidor grego lhe ensinou um atalho por meio do qual se podia tornear a inexpugnavel posição.

No dia seguinte, os Gregos de Leonidas vêem-se cercados pelo inimigo. Os trezentos Espartanos, e septecentos habitantes da cidade de Thespia, resolveram sacrificar-se pela patria. Alli succumbiram todos, combatendo como leões. Xerxes, que tinha perdido vinte mil dos seus melhores soldados, sentiu a humilhação da sua victoria. Pelo contrario, o sentimento nacional dos Gregos exaltou-se com esta derrota gloriosa, e decidiram-se a defender a liberdade e a independencia até á morte.

 

Batalha de Salamina.—Durante este tempo, conservava-se no estreito de Artemision a esquadra grega, commandada superiormente pelo espartano Eurybiades, commandando Themistocles as galeras athenienses. Fazia-lhe frente a immensa esquadra dos Persas, e entre pequenas fracções das duas armadas haviam-se travado já algumas escaramuças e combates parciaes.

Quando se soube que tinha sido forçado o desfiladeiro das Thermopylas, e que Xerxes, depois de devastar a Phocida e{39} a Beocia, avançava sobre Athenas, determinado a destruil-a, os Athenienses esperavam que todas as forças alliadas tentariam defender a Attica. Mas os outros Gregos, cuidando especialmente em cobrir o Peloponeso, só pensavam em fechar o isthmo de Corintho, já fortificado por uma formidavel muralha.

Themistocles fez então revogar a lei de exilio contra Aristides, e determinou o povo a abandonar Athenas para se não expôr á lei do vencedor; as mulheres e as creanças foram para Trezena, para Egina e para Salamina; os homens recolheram-se á esquadra; e a cidade foi incendiada e devastada.

A esquadra persa ancorou na enseada de Phalera. Os Gregos, assustados, deliberam abandonar o estreito de Salamina e aproximar-se do isthmo onde estão reunidas as forças de terra. Contra esta deliberação insurgiu-se Themistocles, por intender que o combate sería mais favoravel n'umas aguas apertadas, onde a grande esquadra persa, não podendo mover-se á vontade, perderia parte das vantagens do numero. No conselho dos chefes, foi tal a energia da sua opposição, que o almirante-supremo, Eurybiades, levantou contra elle o bastão de commando.—«Bate, mas ouve!» replicou imperturbavel Themistocles, contendo assim o impeto do fogoso espartano.

De nada lhe valeu a perseverança com que procurou dissuadir os outros chefes. Recorreu então a um estratagema que, se não sortisse effeito, poderia ser tomado por uma traição horrorosa. Inviou a Xerxes um mensageiro secreto, a informál-o das divisões dos Gregos e do projecto de retirada, e lembrando-lhe que os fechasse no estreito, onde poderia aniquilál-os com facilidade.

Immediatamente Xerxes deu ordem para bloquear a ilha e a esquadra grega. Foi Aristides quem, regressando do exilio e tendo atravessado a esquadra inimiga, deu aos Gregos a noticia de estarem involvidos. Só restava combater desesperadamente. Foi o que se fez.

O papel de Themistocles, quaesquer que sejam as suspeitas que a Historia tenha de reservar sobre a fidelidade e boa fé d'este homem estranho, é incontestavel que foi decisivo n'esta batalha memoravel. A victoria dos Athenienses foi completa, e salvou a Grecia. Xerxes retirou-se abatido e com precipitação, atravez da Thessalia, da Macedonia e da Thracia, onde grande numero dos seus soldados morreram de fadigas, de frio e de fome; e tornou a atravessar o Hellesponto.{40} Os Espartanos, tão ciosos das glorias alheias, deram espontaneamente uma corôa de oliveira a Themistocles.

 

Batalhas de Platéa e de Mycale.—Na Thessalia ficaram trezentos mil homens, sob o commando de Mardonio, para effectuarem a submissão da Grecia. Passado o inverno, desceram atravez da Beocia; devastaram a Attica, de novo abandonada pelos confederados; e occuparam Athenas, quasi completamente em ruinas e deshabitada. Mas, na grande batalha de Platéa (479), os Gregos, commandados pelo espartano Pausanias, o qual tinha sob as suas ordens Aristides, general dos Athenienses, obtiveram sobre o exercito inimigo, tres vezes superior em forças, uma victoria tão completa que a maior parte dos inimigos, incluindo o seu general, ficaram no campo de batalha. Apenas 40:000 homens tornaram a atravessar o Hellesponto.

No mesmo dia d'esta assignalada batalha, a esquadra grega, commandada pelo rei espartano Leotychidas, derrotou a esquadra persa em frente do promontorio de Mycale, na Asia-Menor. Xantippo, pae de Pericles, commandante dos navios athenienses, teve uma parte importante na gloria d'esta grande acção naval.

 

CAPITULO VI

HEGEMONIA DE ATHENAS

Reacção da Grecia sobre a Asia.—Depois d'estas victorias, Aristides fez acceitar aos alliados a idéa de uma liga permanente contra a Persia; e decidiu as ilhas e os portos gregos a concluirem uma alliança com os Athenienses (476), obrigando-se a fornecerem dinheiro e navios para a continuação da guerra. O centro da Liga estabeleceu-se em Delos, e aos Athenienses coube a gerencia financeira da associação e o commando da esquadra commum.

Uma tendencia irresistivel impellia os Gregos para a Asia. Apenas a invasão fôra repellida e logo os Athenienses retomaram Sestos e o Chersoneso da Thracia. Em 477, a esquadra, commandada por Pausanias, apoderou-se de Chypre e de Byzancio, e chamou á liberdade as cidades gregas da Asia.

O contacto com os povos do Oriente causou a perda do general{41} espartano Pausanias. Este, quando tomou Byzancio, aprisionou alguns persas de elevada gerarchia, entre os quaes se contavam alguns parentes do Rei. Pausanias restituiu-os a Xerxes, contra vontade dos outros confederados, e mandou prometter ao Rei da Persia que o auxiliaria a combater Esparta e a dominar a Héllada, mediante a condição d'elle lhe dar uma filha em casamento e de o fazer governador do Peloponeso. O Rei da Persia acceitou a proposta, e Pausanias tornou-se tão arrogante que chegou a esquecer as leis e os costumes de Esparta. Adoptou o uso de vestuarios magnificos, intregou-se a excessos de mesa, tomou para seu serviço creados médos e egypcios, tornou-se odioso pela sua altivez, fazendo a auctoridade espartana detestada. Chamado a Esparta, continuou a manter intelligencia com Xerxes e a preparar os meios de se apoderar do poder absoluto. Sendo descoberta a sua traição, refugiou-se no Templo de Minerva Chalciœcos, d'onde não era possivel arrancál-o sem commetter sacrilegio; e por isso os Ephoros mandaram tirar o tecto ao edificio, e intaipar as portas, deixando-o alli morrer de fome.

Emquanto isto succedia com Pausanias, que, pela sua defecção, fazia perder a Esparta o commando supremo dos alliados,—Themistocles ingrandecia Athenas, cercando-a de muralhas, construindo o porto do Pireu que se tornou uma cidade, e que posteriormente foi unido a Athenas, que lhe ficava á distancia de 7 kilometros, por dois longos muros concluidos no tempo de Pericles. Attrahiu á Attica, por meio do offerecimento de grandes vantagens, excellentes operarios extrangeiros, e fez decretar que todos os annos se construisse um certo numero de triremes, para assegurar a supremacia maritima da sua patria. Em 474, os seus inimigos politicos conseguiram exilal-o por dez annos, por meio do ostracismo; e os Espartanos, que o detestavam, pelo modo como elle ingrandecêra Athenas, accusaram-n'o de ter tomado parte na traição de Pausanias, por não o haver denunciado, e citaram-n'o a comparecer perante um tribunal da confederação, cuja presidencia pertencia a Esparta. Themistocles, perseguido, conseguiu a muito custo e atravez dos maiores perigos, retirar-se para a Asia (466) onde o Rei da Persia o recebeu com a maior consideração dando-lhe por apanagio tres cidades da Asia-Menor. O fim da sua vida foi obscuro.

 

Cimon e a grandeza maritima de Athenas.—A Pausanias succedeu Cimon, filho de Milciades, no commando em chefe{42} dos confederados. Era da facção dos Eupatridas, que o oppunham a Themistocles. Comtudo, apezar de aristocrata e apoiado por elles, estava-lhe reservado o fazer triumphar por toda a parte a influencia da democracia atheniense; imbora adversario de Themistocles, coube-lhe o papel de realizar o pensamento patriotico d'este grande homem.

Começou por expulsar os Persas da sua ultima estação na Thracia, e conquistou o littoral onde os Athenienses então fundaram Amphipolis; expulsou os piratas da ilha de Scyros dividindo a ilha por colonos athenienses; percorreu como vencedor as costas da Caria e da Lycia, libertando do dominio asiatico as cidades gregas. Ganhou (em 466) duas batalhas no mesmo dia (uma terrestre, outra naval), nas margens do Eurymédon, o que assegurou a Athenas o imperio do mar, e tentou uma brilhante expedição contra a ilha de Chypre (460), para arrancál-a aos Persas. Em 458 foi votado ao ostracismo, pelas suas opiniões aristocraticas, que o levaram a oppôr-se ao movimento progressivo da democracia na cidade. Morreu em Chypre, em 449.

 

Athenas até á paz de Pericles.—Na lucta com a Persia crescia o poder atheniense, sem proveito particular para os outros povos alliados. Começaram estes a mostrar o seu descontentamento, que Cimon explorou com habilidade summa. Levou-os a substituir o seu contingente de soldados e de marinheiros por um augmento de contribuição para o cofre da Liga em Delos, e a intregarem-lhe as suas galeras vazias. D'este modo desarmou-os, transformando-os de alliados e de confederados em tributarios e em vassallos. Deixou até de os consultar, transportou para Athenas o thesouro hellenico, e dilatou a sua influencia energica até ao governo interno das cidades.

Naxos revoltou-se (463), mas foi castigada e teve de supportar o estabelecimento de uma colonia atheniense; a ilha de Thasos perdeu os seus navios, as suas ricas minas de oiro nas costas da Thracia, e a sua independencia; Egina foi conquistada (457) depois de uma grande lucta, os seus habitantes expulsos e ella repovoada por colonos atticos; Mégara cahiu tambem na dependencia de Athenas; Carystos, na Eubéa, teve a mesma sorte.

Os Espartanos, ciosos da preponderancia dos seus rivaes, preparavam-se para guerreál-os, apezar da lucta em que andavam com Argos e outras cidades do Peloponeso, quando uma serie de calamidades os feriu. Um espantoso terramoto,{43} que abalou, a Arcadia e a Laconia, precipitou sobre Esparta um grande desmoronamento do monte Taygeto (465). A maior parte da cidade ficou em ruinas, perecendo vinte mil pessoas.

Os hilotas, crendo favoravel o momento para a sua emancipação, atacaram os sobreviventes, mas foram repellidos. Dispersando-se e fugindo, ligaram-se com os Messenios que, revoltando-se de novo, se intrincheiraram no monte Ithoma, começando uma terceira guerra de Messenia, a qual durou dez annos (464-454).

Foi só depois de finda esta guerra, que os Espartanos puderam voltar as suas attenções para Athenas. Invadiram a Héllada com um formidavel exercito, sendo o seu fim contrabalançar a influencia de Athenas com o restabelecimento da hegemonia de Thebas sobre as cidades beócias, a qual tinha sido anniquilada durante as Guerras Persicas.

Ganharam a victoria de Tanagro (456) contra os Athenienses, commandados por Pericles. Mas, dois mezes depois, Myronidas inutilizou todas as vantagens adquiridas pelos Espartanos, ganhando a batalha de Œnophyta,—batalha que tornou os Athenienses senhores da Phocida, da Locrida e da Beocia.

Chegára, assim, Athenas ao apogeu da grandeza, d'onde em breve tinha de cahir, porque a propria extensão das suas possessões lhe havia de ser fatal. Romperam dissidencias entre Athenas e Esparta, por causa da intendencia no Templo de Apollo. Os Espartanos queriam-n'a para os de Delphos, seus alliados; os Athenienses, alliados dos Phocidios, sustentavam as pretenções d'estes, os quaes as fizeram triumphar pelas armas. Um exercito espartano restituiu o templo aos primeiros; um exercito atheniense, commandado por Pericles, retomou-o para os segundos (448). Estas excursões guerreiras dos dois povos dominantes, atravez da Beocia, accenderam os odios dos partidos; e os exilados beocios da facção aristocratica puzéram-se em campo, chegando a apossar-se de várias cidades. Tolmidas, general atheniense, atacou-os com pequenas forças, e foi completamente desbaratado na batalha de Choronea (447). A Beocia cahiu, de novo, sob o poder de Thebas; Mégara e a Eubéa revoltaram-se, e um exercito espartano, atravessando o isthmo, chegou ameaçador ás fronteiras da Attica. Pericles comprou a pezo de oiro o general lacedemonio; e concluiu com elle um tratado em virtude do qual Athenas, para não perder a Eubéa, restituiu todos os pontos de que se havia apossado nas costas do Peloponeso.{44}

As duas cidades rivaes ajustaram uma tregua de 30 annos (445), garantiram mutuamente as suas hegemonias. Assim ficou Esparta com a preponderancia continental; Athenas, com o dominio do mar.

 

CAPITULO VII

O SECULO DE PERICLES

Pericles, grande estadista e guerreiro, que nasceu em 494 A. C., era filho de Xantippo, o vencedor dos Persas em Mycale. Apezar da sua ascendencia nobre, adoptou os principios democraticos e poz-se á frente do partido popular.

Em 461 começou a apparecer nos negocios publicos, e induziu o orador Ephialtes a propôr um decreto que arrancava ao areopágo as suas mais importantes attribuições para as transferir para o povo, despojando assim aquelle supremo conselho da nobreza, de todo o seu poder moral e dos seus privilegios aristocraticos, transformando-o n'um simples tribunal de jurisdicção muito limitada. O decreto foi approvado; e quando Cimon, ao regressar de uma das suas expedições, tentou operar uma contra-revolução a favor da aristocracia, o povo votou-o ao ostracismo, como já dissémos.

Foi discipulo, em dialectica, de Zénon d'Eléa; e de Anaxagoras, nas altas concepções philosophicas,—adquirindo nos habitos serios de um estudo profundo e de uma reflexão aturada, uma certa majestade grave e serena, que em todas as suas palavras e em todos os seus actos transluzia, a ponto dos seus contemporaneos lhe darem o qualificativo de Olympico.

Pela morte, de Cimon, Pericles ficou em Athenas com um ascendente incontestado e absoluto. O seu governo foi uma verdadeira dictadura. Sob o titulo de stratégo (general) annualmente eleito, sem nenhuma outra dignidade (pois ha duvidas até sobre se alguma vez foi archonte), tomou a direcção de todos os negocios, e exerceu com nobreza e rectidão uma auctoridade cuja extensão podia ser um perigo.

Conservou as fórmas republicanas do governo e não reprimiu os habitos da liberdade. Os poetas comicos e muitos philosophos, todos partidarios da aristocracia, chegavam a diffamar{45} Pericles, nas suas peças e nas suas licções, sem nenhum receio de repressão para os abusos da sua critica. As magistraturas, em logar de serem dadas pelo suffragio, como até ahi, passaram a ser distribuidas pela sorte, processo mais democratico, porque deixava os cargos abertos a todos, ao passo que a eleição, imbora exercida pelo povo, os fazia recahir sempre nos grandes. Este systema de sorte não tinha inconvenientes em uma sociedade constituida como o era a atheniense. Aqui, os cidadãos (isto é, os athenienses de condição livre) não passavam de uns vinte mil, e constituiam uma verdadeira aristocracia popular, na qual todos os membros tinham sensivelmente a mesma educação politica, e estavam nas circumstancias de desimpenhar os mesmos cargos. Conservou-se, porêm, o processo da eleição para a nomeação dos stratégos, cujas funcções eram muito importantes, e comprehendiam todos os negocios militares, e todas as relações da politica externa. E, com respeito aos archontes e aos senadores, a sorte só podia exercer-se entre os que se apresentavam candidatos, os quaes se submettiam a um rigoroso exame prévio.

Attribuiu a gratificação de tres óbolos diarios a todo o cidadão que nas assembléas judiciarias e nas politicas tomasse assento, consagrando o seu tempo ao estudo e á regularização das questões ahi apresentadas e debatidas. Augmentou o estipendio dos soldados e dos marinheiros; ordenou distribuições gratuitas de trigo ás classes pobres; tomou a cargo da cidade a educação dos filhos d'aquelles que morriam pela patria; arbitrou soccorros periodicos aos invalidos e infermos; etc. Inviou colonos para muitos pontos da Asia e das ilhas, dando-lhes terras e conservando-lhes os seus direitos de cidadãos de Athenas; decretou grandes solemnidades nacionaes, festejos publicos para regosijo e illustração do povo; finalmente, cobriu Athenas com os mais sumptuosos e bellos monumentos que jámais se edificaram, alguns dos quaes estão ainda de pé, attestando a sua magnificencia primitiva debaixo das mutilações que os tempos lhes trouxeram.

Como os rendimentos da Attica não podiam chegar nem para o centesimo do custo de tantas obras primas, Pericles não hesitou em lançar mão das contribuições que os alliados derramavam no thesouro commum, e cujo fim era assegurarem, em caso de ataque, a defesa dos interesses geraes das cidades confederadas. Este proceder infiel, que a posteridade quasi não teve animo de estigmatizar, em vista das maravilhas artisticas a que deu origem, foi um aggravo que as{46} cidades juntaram a muitos outros já recebidos de Athenas, e que com elles concorreu para a queda d'esta potencia oppressora.

Pericles commetteu um grande erro mandando fazer o recenseamento dos verdadeiros cidadãos da Attica, excluindo d'esta classe todos os que não eram filhos de pae e mãe athenienses. Cinco mil habitantes perderam assim os seus direitos politicos.

É prodigioso o esplendor das artes na Athenas de Pericles. Atravez dos seculos ficou deslumbrando o mundo o sol de civilização que d'alli irradiou. Nomes immortaes, como os de nenhum outro povo, attestam a preeminencia da raça hellenica em todas as concepções do espirito, e dão lustre inolvidavel aos tempos que, por toda a posteridade, ficaram consagrados com o nome de seculo de Pericles.

Nas bellas artes monumentaes e decorativas basta citarmos os nomes de Phidias, de Ietino, de Mnesicles, de Zeuxis e de Parrhasio; na poesia dramatica Sophocles e Euripides (Eschylo foi um pouco mais antigo); na comedia politica e satyrica Aristophanes; na historia, na philosophia, etc., Herodoto, Socrates, Anaxagoras, Hippocrates, e tantos outros, logo pouco depois seguidos de Aristoteles, Platão, Xenophonte, Thucydides!

 

CAPITULO VIII

GUERRA DO PELOPONESO

Desde a revolta de Corcyra até á paz de Nicias.—A tregua de trinta annos celebrada, em 445, entre Esparta e Athenas, não poude durar mais de quatorze. Em 436, rebentou uma guerra entre Corintho e Corcyra, sua colonia, na qual Athenas tomou o partido d'esta contra a metropole. Ao mesmo tempo, os Athenienses tinham tornado tributaria a colonia corinthia de Potidéa, na Macedonia, e n'esse momento lhe estavam pondo cêrco por ella, confiada no apoio do Peloponeso, negar-se a pagar-lhe tributo (432).

Corintho, Esparta e as cidades do Peloponeso accusaram Athenas de ter rompido as treguas, e de opprimir os seus alliados. Estavam em presença duas ligas hostis: uma, a liga atheniense,{47} na qual intravam as colonias jonias e a maior parte das ilhas (Lesbos, Chios, Samos, etc.), apoiada pelo partido democratico de todas as cidades e firmando o seu poder material principalmente na sua marinha; outra, a liga peloponesica, a cuja frente estava Esparta, e que se compunha dos Estados doricos e da maior parte dos Estados eolios (Beocia, Phócida, etc.), tendo pelo seu lado o partido aristocratico das differentes cidades, e contando, como principal recurso material, com a bravura do exercito de terra.

Reunida a dieta geral do Peloponeso, em Esparta, os Corinthios apresentaram as suas recriminações, em virtude das quaes os Lacedemonios reclamaram de Athenas o levantamento do cêrco de Potidéa, o da interdicção pronunciada contra Megara, e a restituição da liberdade a todos os confederados, mórmente aos Eginetas. Como os Athenienses não satisfizessem nenhuma d'estas exigencias, um exercito espartano invadiu a Attica e devastou-a.

Ao principio a lucta foi-se protrahindo n'uma série de escaramuças e surpresas de saque. Todos os annos, pela primavera, os de Esparta vinham devastar a Attica, e a esquadra atheniense andava exercendo as suas rapinas pelas costas do Peloponeso. Ao terceiro anno de guerra, uma peste horrivel, vinda das bandas da Ethiopia, dizimou a população accumulada em Athenas. Pericles, depois de perder dois dos seus filhos, cahiu, tambem, fulminado pelo flagello (429).

O partido popular deu-lhe para successor Cléon, por nenhum modo capaz de se comparar a Pericles,—mas dotado, ainda assim, de talentos administrativos, e de patriotica energia. A guerra continuou. Athenas viu a destruição de Platéa, sua fiel alliada, pelos Espartanos e pelos Beocios, os quaes assassinaram os habitantes capazes de pegar em armas e reduziram á escravidão as mulheres e as creanças. Os Athenienses tomaram a ilha de Lesbos onde exerceram represalias crueis: no primeiro momento queriam matar todos os habitantes de Mitylene (427), reduzindo á escravidão as creanças e as mulheres; depois, reconsideraram, e condemnaram á morte mil revoltosos. A lucta tomára o caracter de uma vingança horrorosa.

No sexto anno da guerra, a peste reappareceu, e houve, grandes terremotos na Attica, na Beocia, e nas ilhas. Em 424, Brasidas, illustre general lacedemonio, consegue intrar em Amphipolis e faz pender as vantagens para o lado de Esparta; mas Demosthenes (não é o orador), general atheniense, contrabalança este exito do seu adversario, apoderando-se da{48} importante posição de Pylas (Navarino), na costa da Messenia, onde se mantêm, apezar dos ataques de Brasidas, o qual não poude conseguir mais, para inquietar o inimigo, do que desimbarcar quatrocentos e vinte Espartanos na pequena ilha de Sphacteria, onde, depois de uma defesa pertinaz, foram uns mortos, outros aprisionados por Cléon (425).

Admittia-se, desde as Thermopylas, que os Espartanos podiam ser mortos, mas nunca aprisionados, de modo que o resultado da lucta em Sphacteria produziu um grande effeito moral nos Athenienses. Os Espartanos começam a sentir uma série de revezes: perdem Cythera e outras posições importantes, vêem devastada a Laconia, teem de reprimir as insurreições dos Messenios e dos Hilotas, assistem a novas vantagens ganhas pelos Athenienses, e, vendo o Peloponeso como que bloqueado por estes, perdem a força moral e mandam implorar a paz, que lhes é affrontosamente recusada.

Em breve, porêm, a fortuna das armas muda de rumo. Os Athenienses são vencidos pelos Beocios em Delio; Brasidas, apoiado pelo Rei da Macedonia, Perdiccas, foi combater as colonias athenienses á Thracia e á Chalcidica, para ferir Athenas no seu poder maritimo, cortando-lhe as suas relações com os povos que lhe forneciam a cordoalha dos seus navios e as madeiras de construcção. O partido da paz, isto é, o partido aristocratico, tendo á sua frente Nicias, começou depois d'isto a crear preponderancia. Mas Brasidas e Cléon eram intransigentes e apoiavam a guerra a todo o transe. Em 421, Brasidas tomou Amphipolis, que os Athenienses perderam pela negligencia de Thucydides, tão mau general como grande historiador.

Cléon apresenta-se deante da praça para reconquistál-a aos Lacedemonios. Dá-se uma batalha, em que os Athenienses são vencidos, mas na qual os dois generaes perdem a vida, terminando assim os dois principaes obstaculos que havia contra a paz. Então os partidarios da paz adquirem de novo a superioridade, e conclue-se a paz de Nicias, pela qual foi garantida uma tregua de armas de cincoenta annos.

A tregua foi observada na apparencia durante uns septe annos, mas de facto rompida um anno depois da conclusão do tratado.

 

Alcibiades.—Os Corinthios, vendo que se concluira a paz entre Esparta e Athenas, sem contar com elles nem com os outros Estados secundarios, indignaram-se contra Esparta, e, ligando-se com Argos e algumas cidades da Arcadia, resolveram{49} tirar a Esparta a hegemonia do Peloponeso. Deu-lhes o seu apoio o atheniense Alcibiades, sobrinho de Pericles e discipulo de Socrates, homem com admiraveis dotes naturaes, riquissimo, formoso, espirituoso, sabio, eloquente, mas tambem ambicioso, desleal, corrompido, sem fé nem convicções, indifferente para tudo,—n'uma palavra, o mais brilhante, mas tambem o mais immoral e o mais perigoso cidadão de uma republica.

Logo que se involveu nos negocios do Peloponeso determinou uma guerra entre os Espartanos e os confederados. D'esta lucta sahiu Esparta victoriosa na batalha de Mantinéa (418). Apresentando-se como adversario de Nicias, chefe da aristocracia e do partido da paz, fez isso menos por suggestão da consciencia do que para explorar em proveito da propria ambição os sentimentos bellicosos das classes mais baixas.

Decidiu, com a sua eloquencia, os Athenienses a imprehenderem uma expedição contra a Sicilia, da qual teve o commando juntamente com Lamacho e Nicias. O pretexto era soccorrer Segesto contra Selinonte e Syracusa; o fim verdadeiro da expedição, ferir as colonas doricas e cosquistar as ricas cidades gregas da Sicilia. A impresa malogrou-se. Na vespera da partida da esquadra (415) appareceram mutilados durante a noite, em toda a cidade, os Hermes ou bustos de Mercurio. Os inimigos de Alcibiades atribuiram-lhe este sacrilegio, bem como o de ter profanado os mysterios de Elensis; e, transformando as suas suspeitas n'uma accusação capital, revocaram-n'o, mal elle tinha chegado á Sicilia, afim de ser julgado no tribunal. Segundo o relatorio apresentado pelo orador Andocides, aquelle sacrilegio fôra uma conspiração secreta contra a constituição democratica, e como suspeitos de cumplicidade n'elle foram presos e condemnados á morte muitos cidadãos respeitaveis. Alcibiades, temendo a mesma sorte, expatriou-se, e, sendo condemnado, retirou-se para Esparta, onde, por vingança, premeditou a ruina da sua patria, e determinou os Espartanos a renovarem a guerra. Por conselhos d'elle, os inimigos de Athenas apossaram-se da forte posição de Decelia, na Attica, e resolveram-se a soccorrer os Gregos da Sicilia, onde Nicias, contrario á guerra, conduzia as operações frouxamente. Gylippo, habil general espartano, foi em soccorro de Syracusa e deu um golpe fatal nos Athenienses, que cercavam a cidade. Lamacho morreu (414) com uma grande parte dos hoplitas; a propria esquadra atheniense foi toda destruida pelos navios mais poderosos dos Syracusanos{50} e dos Corinthios; Nicias e Demosthenes foram decapitados em Syracusa ás mãos do algoz; os que não morreram com as armas na mão, foram condemnados a uma escravidão durissima (413).

Em Athenas, ao saber-se d'estes desastres, quasi todas as familias vestiram lucto; os confederados athenienses desligaram-se da cidade feliz e procuraram o apoio de Lacedemonia; um exercito espartano, intrincheirado em Decelia, fechava as communicações; uma esquadra espartana, commandada por Tissaphernes, governador da Asia-Menor, em nome dos Persas, atacava as forças navaes de Athenas; a Eubéa cahiu no poder das forças do Peloponeso; e, dentro de Athenas, um partido oligarchico, dirigido por Pisandro, procurava derrubar a constituição democratica, de intelligencia com Esparta. Para isso, instituiu um conselho dos quatrocentos que a si mesmo se elegia, limitou a communidade do povo a cinco mil cidadãos, que nunca foram convocados para o exercicio dos seus direitos civis.

A esquadra atheniense, do commando de Thrasybulo, que estava em Samos, pronunciou-se contra esta revolução e manteve a antiga ordem de coisas. Alcibiades, a esse tempo descontente com os Espartanos, retirou-se para a Asia, chamou aos seus interesses Tissaphernes, tomou o commando da esquadra de Samos, ganhou proximo de Cyzico (410) e em mais dois combates gloriosas victorias contra os Lacedemonios, apoderou-se de Byzancio, de Chalcedonia, e de outros pontos da costa, e estabeleceu no Hellesponto um direito de navegação que fez affluir um novo rendimento para Athenas.

Alcibiades, amnistiado e glorificado por um decreto publico, introu em Athenas como triumphador, foi nomeado generalissimo do exercito e da esquadra, e o povo atirou ao mar as tábuas onde as suas faltas estavam inscriptas. Partindo para a Asia, afim de completar a submissão das antigas possessões athenienses e de bater a esquadra inimiga, foi infeliz n'uma impresa contra a ilha d'Andros. Durante uma ausencia sua, um de seus immediatos foi derrotado nas alturas de Epheso (407) pela esquadra de Lacedemonia, commandada por Lysandro. Os Athenienses, tristemente impressionados com estes revezes, retiraram o commando a Alcibiades e nomearam, para o substituir, dez generaes, entre os quaes se contava Conon. Então Alcibiades, reunindo alguns mercenarios extrangeiros, retirou-se para as fortalezas que mandára construir na Thracia, e d'alli começou a fazer guerra por sua propria conta, como um aventureiro.{51}

Os Espartanos, commandados por Callicratidas, atacaram Lesbos e bloquearam os navios athenienses no porto de Mitylene. De Athenas foi uma nova armada em soccorro da primeira. Travou-se um grande combate naval proximo das ilhas Arginusas (406), onde Callicratidas, successor de Lysandro, ficou morto. A victoria decidiu-se afinal pelos Athenienses.

Seis dos generaes vencedores foram condemnados á morte pelo povo, não só por terem deixado de recolher os cadaveres dos seus mortos (o que era um sacrilegio para as idéas religiosas dos Gregos), como tambem por terem deixado perecer sem soccorro as tripulações de 25 triremes desamparadas durante o combate e batidas pela tempestade.

 

Queda de Athenas.—Depois da derrota e morte de Callicratidas, Esparta restituiu a Lysandro o commando da esquadra. O almirante espartano soube conciliar habilmente o favor de Cyro «o Moço» governador da Asia-Menor, e com o auxilio dos Persas augmentou as forças navaes de Lacedemonia. Percorreu audazmente todo o Mar Egeu, tomou Lampsaco, e surprehendeu a esquadra atheniense ancorada em Ægos-PotamosRio das Cabras»); na costa do Hellesponto, não longe de Sestos. Só pudéram escapar oito navios athenienses que Conon salvou em Chypre, e um bom veleiro, o Paralos, que levou a triste noticia a Athenas (405). Assim acabou o predominio maritimo e a grandeza politica d'esta cidade.

A batalha de Ægos-Potamos foi uma horrorosa carnificina. Os marinheiros e soldados athenienses estavam na maior parte desimbarcados, em jogos e distracções, quando foram surprehendidos. Os navios eram capturados e destruidos quasi sem resistencia. Tres mil Athenienses, com muitos dos seus chefes, foram, em seguida, conduzidos a Lampsaco e sacrificados á vingança dos Espartanos.

Lysandro percorreu em seguida todas as cidades maritimas da obediencia de Athenas, nenhuma das quaes ousou resistir-lhe, destruindo n'ellas os governos democraticos e substituindo-os por oligarchias. Depois atacou Athenas pelo lado do mar, emquanto pelo lado de terra a cercavam os reis espartanos Agis e Pausanias. A grandiosa cidade, digna de melhor sorte, dilacerada internamente pelo furor dos partidos, prolongou quanto poude a sua defesa heroica; mas, porfim, nos apertos da fome, teve de render-se sem condição (404).

Os vencedores impuzéram-lhe:—a demolição dos seus muros e das fortificações do Pireo; a intrega de todos os navios, exceptuando{52} doze galeras, limite maximo a que ficava reduzida a sua marinha; a evacuação de todas as cidades conquistadas; o regresso dos exilados amigos de Esparta; o pagamento de um tributo annual; a abolição da constituição democratica, e a sua substituição pela oligarchia dos trinta tyrannos.

Para a humilhação ser mais completa, as galeras athenienses foram queimadas, e as muralhas bem como as fortificações foram arrasadas ao som de flautas, no meio de chascos grosseiros, e em presença de todos os alliados de Esparta coroados de flores.

 

CAPITULO IX

TYRANNIA DOS TRINTA EM ATHENAS. RESTABELECIMENTO DA DEMOCRACIA

A administração do governo atheniense foi confiada por Lysandro a 30 membros da nobreza, alliados de Esparta, os quaes receberam a missão de organizar o Estado no sentido aristocratico por meio de leis novas. Estes oligarchas, a cuja frente estava Critias, ficaram conhecidos pelo nome de trinta tyrannos; e o seu governo foi um verdadeiro periodo de terror; tantas foram as crueldades e prepotencias por elles practicadas, não só contra os democratas, mas até mesmo contra os aristocratas mais moderados. Só tres mil cidadãos gozavam do direito de burguezia, e os trinta chegaram a decretar que só os tres mil poderiam habitar em Athenas, sendo banidos os outros cidadãos. As diversas cidades regurgitavam de proscriptos athenienses.

Thrasybulo, chefe dos democratas, e um dos heroes da grande guerra, imprehendeu libertar a cidade. Sahiu de Thebas com um punhado de proscriptos, e intrando na Attica, onde se apossou de uma pequena fortaleza, repeliu dois ataques dos Trinta e dos Lacedemonios, surprehendeu de noite o Pireu e conseguiu chamar os oligarchas ao combate. Critias morreu combatendo; os outros tyrannos retiraram-se para Eleusis, com permissão de Thrasybulo, que restabeleceu a constituição democratica e promulgou uma amnistia, restituindo d'este{53} modo a tranquillidade ao Estado. Athenas offertou ao seu libertador a corôa de oliveira.

 

Socrates.—N'estes desgraçados tempos viveu o grande philosopho Socrates, um dos maiores nomes da historia da humanidade. Nascido em 469, pagou á patria o seu tributo de sangue combatendo em Potidea, em Amphipolis e em Delion. Na primeira d'estas batalhas salvou a vida a Alcibiades, na ultima ao moço Xenophonte. Não é aqui logar para expormos as suas idéas philosophicas, na manifestação das quaes empregava um methodo interrogatorio, que ficou celebre com a designação de ironia socratica.

Em 399, a democracia atheniense, usando de uma intolerancia que para sempre a maculou, instaurou processo a Socrates pelas suas opiniões religiosas e pela sua propaganda politica; e este grande homem foi condemnado a beber a cicuta, morrendo com admiravel serenidade.

 

CAPITULO X

HEGEMONIA DE ESPARTA

Vencida Athenas, os Espartanos procuraram completar a sua hegemonia sobre as ilhas e as cidades do litoral, conquistando a soberania do mar. Apoderaram-se de Samos, obrigando os cidadãos a emigrar e a abandonarem as suas riquezas; tiraram aos habitantes de Chio os seus navios, e mataram por traição 80 democratas de Mileto; subjugaram Elis; expulsaram novamente de Naupacta os infelizes Messenios; lançaram pezadissimos impostos ás cidades maritimas e substituiram em toda a parte as constituições democraticas pela sua organização aristocratica. Com as contribuições formaram o seu thesouro publico; as populações do Peloponeso forneciam-lhe soldados; as das cidades do litoral e das ilhas, esquadras e marinheiros.

O seu dominio era mais oppressor para os povos subjugados do que fôra o de Athenas, mais duro, mais cruel, e sem ter ao menos a compensação de manter n'uma alta esphera intellectual a cultura dos espiritos. Era a prepotencia da força,{54} o desprezo da justiça, o anniquilamento do direito. Era a decadencia inexoravel, sem remedio.

Decadencia em tudo, rapida, nas instituições, na grandeza, na civilização, no prestigio! Os éphoros tinham usurpado a auctoridade toda; os reis estavam reduzidos á condição de uns simples generaes hereditarios; uns mil cidadãos, quando muito, constituiam toda a oligarchia soberana. A propriedade estava em meia duzia de mãos; as classes servis, cada dia mais numerosas, principiaram a conhecer a força de que poderiam dispôr contra os seus oppressores, se conseguissem unir-se.

De toda a Grecia, apenas Argos, Corintho, Thebas, e a Etolia, não reconheciam o jugo terrivel de Esparta, e em breve haviam de ser o nucleo de uma formidavel coalisão.

 

A retirada dos Dez Mil.—No throno da Persia tinham-se succedido, a Xerxes, Artaxerxes Longomano (465-424), Xerxes II e Sogdiano (424), Dario II Nothos (ou o Bastardo) (423-404), e Artaxerxes II Mnémon, que deu a satrapia da Asia-Menor a seu irmão Cyro «o Moço». Este, pretendendo ter mais direitos ao throno do que seu irmão, intentou arrancar-lhe o poder; e, para isso, juntou um formidavel exercito, no qual tomou a seu soldo treze mil mercenarios gregos, tropas que lhe foi facil juntar, pois com o termo da grande guerra muitas forças militares estavam desoccupadas.

Esparta, pelo seu lado, tinha interesse em favorecer a guerra civil na Persia, como uma garantia da sua propria tranquilidade e segurança do seu dominio; e por esse motivo não só permittiu o levantamento das tropas, como tambem poz á disposição de Cyro 25 galeras e um corpo de septecentos hoplitas.

Cyro invadiu a Persia, penetrou até ás portas de Babylonia; e ahi, na planicie de Cunaxa, travou-se uma grande batalha, na qual os Gregos ficaram victoriosos, mas onde o régio aventureiro foi morto (401).

Cercados por todos os lados, os Gregos começaram a sua famosa retirada. Clearoo, seu general, e outros officiaes, foram aleivosamente assassinados n'uma conferencia a que os Persas os convidaram; mas o atheniense Xenophonte, que tinha tomado parte, como voluntario, na campanha, poz-se á frente das tropas, e, de accordo com o espartano Cheirisopho, conduziu-as; no meio das mais incriveis difficuldades, atravez de quatrocentas leguas de paiz inimigo, por meio das montanhas impracticaveis da alta Mesopotâmia, da Armenia e do{55} Ponto, até ás praias do Mar Negro. Quinze mezes durou esta extraordinaria operação militar, assignalada por cem combates, realizada por um punhado de homens, sem conhecimento do paiz nem da lingua, sem guias, passando a vau torrentes impetuosas, subindo cerros escalvados, atravessando vastidões inhospitas, cobertas de neve espessa, soffrendo toda a especie de privações, acossados de perto pelos inimigos, inquietados a todo o momento pelos habitantes.

A retirada dos Dez Mil foi um dos maiores feitos militares da Antiguidade, e immortalizou duas vezes Xenophonte, como capitão e como historiador. A Anabasis (ou a narrativa da expedição de Cyro «o Moço» contra a Persia e do regresso do exercito grego sob o commando do proprio historiador) é a melhor obra de Xenophonte.

 

Expedição de Agesiláu.—Os Persas, irritados com os factos que acabamos de narrar, e pretendendo vingar-se, procuraram submetter de novo as cidades jonias do littoral, que eram então tributarias dos Espartanos. Estas pediram auxilio a Esparta, que lhes mandou um exercito, cujas vantagens ao principio foram insignificantes; mas depois mudaram as coisas de feitio quando o rei Agesiláu (398-361) tomou o commando da expedição.

Agesiláu devastou a Phrygia, a Bithynia, a Caria, a Lydia; venceu perto de Sardes (396) o satrapa Tissaphernes, e outros governadores persas em diversos combates; inriqueceu de magnificos despojos os seus soldados. E preparava-se para chegar até ao coração do Imperio pelo caminho traçado pelos Dez Mil, quando recebeu ordem terminante de regressar a Esparta. Eram os Persas que tinham suscitado a Esparta uma guerra no interior da Grecia, e Agesiláu tinha de correr em auxilio da patria ameaçada.

 

Guerra Corinthia.—Incitada pelo oiro dos Persas, mas principalmente pela tyrannia espartana, Thebas foi a primeira cidade a insurgir-se contra a supremacia de Esparta; com ella se ligaram Corintho, Argos, Athenas, e a Thessalia. Lysandro, que partiu immediatamente para a Beocia, afim de remover o perigo imminente, foi vencido e morto na batalha de Haliarte (395). N'isto chegou Agesiláu, a tempo de ganhar sobre os alliados a batalha de Coronea (394).

A Persia deu ao atheniense Conon uma esquadra phenicia, com a qual foi destruida, em frente de Cnido, a armada lacedemonia. Esparta perdia o dominio do mar, e Athenas concebia{56} a esperança de rehavêl-o, sendo esse o pensamento de Conon. Este restituiu a independencia ás ilhas de Chios, de Lesbos, de Samos, expulsou os governos oligarchicos impostos pelos Espartanos, e, auxiliado pela Persia, effectuou o restabelecimento das fortificações da cidade e do porto de Athenas, e a construcção de mais navios.

A republica atheniense, sentindo-se renascer, inviou Thrasybulo com uma esquadra para reduzir Byzancio, o que elle fez, sendo, porêm, morto na Pamphylia; mas, ao mesmo tempo, Athenas commetteu um grande erro, soccorrendo Evagoras, rei de Chypre, contra os Persas, o que lhe retirou a protecção d'estes, inclinando-os de novo para o lado de Esparta.

Por outro lado, Iphicrates, atheniense, general muito habil, fundou uma tactica nova, servindo-se de soldados armados á ligeira e dando aos hoplitas uma organização e um armamento mais nacionaes. Assim conseguiu derrotar completamente n'um recontro a infantaria, até ahi invencivel, de Lacedemonia.

Esparta atemorizada com as vantagens dos Athenienses, tanto no mar como na terra, negociou com o grande rei o vergonhoso tratado d'Antalcidas.

 

Paz d'Antalcidas.—Por este tratado (387) foram submettidos aos Persas os Estados Gregos do continente asiatico com a ilha de Chypre, conservadas a Athenas as ilhas de Lemnos, de Imbros e de Scyros, e reconhecidas como independentes umas das outras todas as cidades da Grecia. Argos e Thebas, que se recusavam a obedecer ao tratado, foram a isso constrangidas por Esparta.

Por este tratado, imposto á Grecia por um monarcha extrangeiro, as costas occidentaes da Asia-Menor foram para sempre arrancadas ao dominio hellenico, todas as ligas foram dissolvidas, todas as confederações desmembradas, ficando assim destruidos todos os centros de força e de vida collectiva.{57}

 

CAPITULO XI

DECADENCIA DE ESPARTA. HEGEMONIA DE THEBAS

Pela paz d'Antalcidas tornou a affirmar-se a preponderancia de Esparta, mas por pouco tempo. A orgulhosa cidade, oppressora e despotica, principiou por conquistar e destruir Mantinéa (386) qua se não submettia ao jugo com a exigida complacencia; depois inviou novamente para todas as cidades os seus partidarios aristocraticos, carregando-os de honras e poder. A cidade grega de Olyntho, na Macedonia, formava com outras cidades proximas uma liga, a confederação chalcidica. Os Espartanos prohibiram essa liga como contraria á paz d'Antalcidas.

Os Olinthos não quizeram dissolvêl-a (382); e por isso viram o seu territorio invadido pelos Espartanos que lhes puzéram cêrco á cidade e os obrigaram a submetter-se depois da uma lucta de tres annos.

Em 380, o general lacedemonio, Phebidas, atravessando a Beocia, ligou-se com os chefes do partido aristocratico de Thebas para os ajudar a derrubar o partido democratico, e tomou de surpresa a Cadmea ou a cidadella, com desprezo de todos os direitos. Tres annos depois, Pelopidas surprehendeu a seu turno a Cadmea, libertou-a, e reuniu toda a Beocia n'uma alliança commum (379).

Os Athenienses alliam-se então com as Thebanos, e uns e outros conseguem tirar grandes vantagens contra Esparta, na terra e no mar. Na recontro de Tegyra (375), forças inferiores dos alliados derrotam a temivel infanteria dos Lacedemonios. Um certo numero de ilhas e de Estados maritimos, taes como Chios, Rhodes, Samos, Mitylene, formam uma segunda liga atheniense; a victoria do atheniense Chabrias, proxima de Naxos, em que toda a esquadra espartana foi anniquilada, restituiu a Athenas a supremacia maritima.

Juntamente com Pelopidas dirigia os negocios em Thebas um dos maiores homens da Antiguidade, Epaminondas. Pelopidas tinha estabelecido o batalhão sagrado, corpo em que os guerreiros eram unidos pelos laços da amizade mais apertada; e Epaminondas introduziu uma nova tactica, a ordem de{58} batalha obliqua. Graças aos seus esforços combinados, foram reduzidas á submissão as cidades menores da Beocia e destruidas Thespia e Platéa (374).

Athenas, descontente com o Engrandecimento e a ambição de Thebas, concluiu pazes com Esparta. Thebas foi intimada a dissolver a sua liga recente e a libertar as cidades confederadas. Epaminondas, negando-o formalmente, viu os Lacedemonios invadirem o territorio thebano. Marchou ao incontro d'elles, levando Pelopidas debaixo do seu commando, e derrotou-os completamente na memoravel batalha de Leuctra, na qual terminou todo o prestigio militar dos Espartanos (371).

Epaminondas ingrossou o seu exercito com as forças que lhe inviaram quasi todos os povos do norte da Grecia, atravessou o isthmo de Corintho em 369, penetrou na Laconia, desceu o valle do Eurotas e chegou até á planicie de Esparta a apresentar batalha ao velho rei Agesiláu. Este conservou-se habilmente na defensiva, com as suas tropas em posições fortissimas, d'onde o general thebano não poude desalojál-as. Epaminondas satisfez-se com esta humilhação imposta ao orgulho de Lacedemonia; e, depois de ter devastado toda a Laconia até ao mar, voltou para a Beocia com o seu exercito.

No seu regresso, chamou á liberdade os Messenios, e restituiu aos descendentes dos antigos habitantes o paiz de seus paes, o que fui um golpe mortal para Esparta. Estes conseguem levantar, contra Thebas, Athenas, a Persia e Diniz de Syracusa. Epaminondas invade segunda vez o Peloponeso, mas é forçado a retirar abandonando os seus alliados de Argos e de Mantinéa, os quaes perdem contra Esparta a batalha a que os Espartanos, por não terem perdido n'ella nenhum dos seus homens, ficaram chamando a batalha sem lagrimas.

Ainda Epaminondas invadiu o Peloponeso, pela terceira vez, em 366, e pela quarta vez, em 362, avançando direito sobre Esparta. Agesiláu reune todas as suas forças e corre ao incontro d'elle, apoiado pelos Athenienses e pelos aristocratas da Arcadia. Dá-se a batalha de Mantinéa em que a victoria é ganha pelos Thebanos á custa da vida de Epaminondas. Pelopidas tinha morrido, dois annos antes (364) n'uma expedição a Thessalia. Com a morte d'estes dois grandes homens, Thebas recahiu de novo na sua obscuridade. Mas nem Esparta nem Athenas puderam tambem levantar-se mais.{59}

 

CAPITULO XII

SUPREMACIA DA MACEDONIA

Os antigos reis da Macedonia haviam sido tributarios dos Persas. Alexandre I (498-454) ora alliado dos Persas, ora alliado dos Gregos, atacou e desbaratou parte do exercito persa, quando este fugia atravez da Macedonia, depois da batalha de Platéa. Os reis que se lhe seguiram, taes como Perdiccas II (425), introduziram nas altas classes do paiz os costumes civilizados dos Gregos. Archeláu (413-399) deu hospitalidade a Euripides e convidou Zeuxis a pintar-lhe o palacio e o templo de Pella. A este succedeu Amyntas II (399-369), cujo reinado foi muito tempestuoso. O filho mais novo d'este monarcha, Philippe, viveu algum tempo, como refens, em Thebas, em casa de Epaminondas, e ahi se familiarizou com a organização e os costumes dos Hellenos, estudando ao mesmo passo o segredo da força e da fraqueza das republicas gregas.

Chamado ao throno, por morte de seus irmãos, bate os seus competidores, compra a alliança de Athenas, estabelece amizade com os Thracios, derrota os barbaros Peonios e Illyrios, e consegue restituir á Macedonia as suas fronteiras naturaes (358). Feito isto, pensa logo em alargál-as. Começa por conquistar umas apoz outras as colonias gregas assentes no littoral dos seus Estados, e organiza uma esquadra. Penetra na Thracia e chega até ás proximidades de Byzancio; involve-se nos negocios da Thessalia onde então lavrava a guerra sagrada, e transforma insensivelmente este paiz n'uma provincia macedonica. Avança, em seguida, para as Thermopylas; mas ahi os Athenienses, cuja vigilancia era despertada pela eloquencia do grande Demosthenes, oppõem-se-lhe á passagem, desconcertando-lhe os projectos, e Philippe tem, prudentemente, o cuidado de retirar-se (352).

Demosthenes redobra de energia, solta do alto da tribuna grega as suas vigorosas Philippicas, e durante quinze annos lucta com toda a força do seu genio e com toda a sua penetração contra os designios do seu temivel adversario. Mas se a palavra do maior dos oradores impunha respeito á astucia do monarcha ambicioso, não teve força para conjurar a catastrophe.{60} Em 348, Philippe vibrou o seu grande golpe, tomando Olyntho, a poderosa metropole das cidades gregas da Chalcidica, que Athenas protegia e que Demosthenes tinha querido salvar.

Athenas, ameaçada na Eubéa e até mesmo na Attica, teve de assignar um tratado de paz. Mas Philippe, deixando de cumprir as clausulas juradas, ataca as Thermopylas, termina a guerra sagrada que lavrava entre os Phocidios e os Thebanos, subjuga os primeiros arrasando-lhes as cidades, e toma assento no conselho amphictyonico onde se arroga os dois votos que os Phocidios alli possuiam (346).

Eis, pois, Philippe, arbitro da Grecia, pela posse da Thessalia, das Thermopylas, e da influencia no conselho amphictyonico. Sabendo esperar, não quiz precipitar-se na conquista definitiva, afim de evitar qualquer reacção geral perigosa. Dirigiu-se para a Thracia, onde o atheniense Phocion, aliás seu partidario, o impediu de se apoderar das colonias gregas do Hellesponto; chegou até ao Danubio e ahi assentou os limites septentrionaes do seu reino; levou a guerra á Illyria, ao Epiro, ao Chersoneso, sitiou Perintho e Byzancio, que Phocion defendeu efficazmente. Os Athenienses apoderam-se da Eubéa, emquanto Demosthenes organizava ligas das diversas cidades, sublevando-as contra o inimigo commum.

Mas o orador atheniense Eschines, rival de Demosthenes, subornado pelo oiro de Philippe, consegue no conselho amphictyonico a investidura do rei da Macedonia no commando e direcção de uma nova guerra sagrada contra os Locrios. Philippe volta immediatamente á Grecia (338), esquece o pretexto da sua intervenção, apodera-se de Elatéa e dos desfiladeiros que conduziam á Beocia, e chega quasi ás portas de Athenas.

Demosthenes realiza então um supremo esforço, e obtém, á força de eloquencia, a alliança de Thebas. As duas cidades apresentam-se unidas no ultimo campo de batalha da liberdade e da independencia grega. Esparta conservou-se isolada no seu perpetuo egoismo. Incontraram-se os exercitos junto a Cheronéa, na Beocia. Os hoplitas athenienses, o batalhão sagrado dos Thebanos, despedaçaram-se contra a phalange macedonica. Demosthenes tomou parte na acção. A victoria de Philippe foi decisiva e completa.

O vencedor foi de uma desusada e honrosa moderação; reuniu uma assembléa geral dos povos em Corintho, e, para legitimar até certo ponto o seu dominio sobre a Grecia, renovou o projecto de uma grande expedição nacional contra os{61} Persas, e fez-se nomear generalissimo de todas as forças gregas. Quando estava a ponto de realizar os seus vastos designios, um dos seus guardas assassinou-o, crê-se que por suggestões da rainha repudiada, Olympias.

 

Alexandre Magno.—Philippe legava a seu filho, Alexandre, mancebo de vinte annos apenas, elementos preciosos para este levar a cabo a impresa por elle concebida. Deixava-lhe um exercito numeroso e aguerrido, generaes habeis e thesouros accumulados para aquelle fim.

Demosthenes conseguiu sublevar de novo as cidades á noticia da morte de Philippe. Alexandre, que tinha acabado de submetter as tribus illyricas, atravessou a Macedonia, a Thessalia, e chegando em frente de Thebas atacou a cidade e tomou-a, arrasando-lhe em seguida os muros. Os Gregos, aterrados, declaram-n'o, em Corintho, generalissimo e dão-lhe soccorros para a invasão da Asia. Não o acompanharemos na sua marcha triumphal, que determinou a destruição perpetua do Imperio dos Persas. A morte surprehendeu-o em Babylonia (328) no meio dos seus ambiciosos sonhos de grandeza e de monarchia universal. Este homem assombroso, que ao expirar contava apenas 33 annos incompletos, intregou, no leito da morte, o seu annel a Perdiccas. E quando os seus generaes lhe perguntaram a quem deixava a corôa, respondeu:—Ao mais digno.