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Historia da litteratura portugueza [Vol. I] cover

Historia da litteratura portugueza [Vol. I]

Chapter 12: NOTAS DE RODAPÉ:
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About This Book

Apresenta uma panorâmica crítica da produção literária desde as origens medievais até os movimentos do século XIX, articulando teoria e história literária. Analisa a poesia trovadoresca, a tradição épica e as novelas cavaleirescas, investiga o surgimento do teatro e as escolas renascentistas, e examina correntes barrocas, clássicas e neoclássicas, com estudos de autores representativos, biografias, críticas de obras e bibliografia especializada. Discute influências externas, mudanças de gosto e procedimentos críticos, encerrando com recapitulações e índices que sistematizam o desenvolvimento e os problemas centrais da tradição literária abordada.

PRIMEIRA ÉPOCA
(SECULOS XII A XV)

Preponderancia dos elementos tradicionaes e estheticos da Edade media, e começo de transição para o estudo da Antiguidade classica

1.o Periodo (Seculos XII a XIV):

Trovadores portuguezes.—A poesia provençal entrou na peninsula hispanica especialmente pela Galliza, quando Portugal se achava ainda incorporado no seu territorio. Eram da Gasconha, pertencente á eschola poetica da Aquitania, os trovadores que aqui penetraram, entendendo-se pela homogeneidade da tradição, dos costumes e da linguagem. Pelo casamento de D. Affonso Henriques, o primeiro monarcha portuguez, com uma princeza italiana, assim como nos apropriámos das fórmas municipaes (o Podestariado) tambem conhecemos a poesia dos trovadores que em grande numero se haviam refugiado na Italia por causa da absorpção monarchica da França do norte. Peire Vidal, Marcabrun e Gavaudan o velho, que vieram a Portugal ou a elle se referiram, tinham passado a parte principal da sua vida na Italia. No Cancioneiro da Vaticana determina-se esta phase de iniciação italo-provençal: ha importantes referencias a Sordello, de Mantua, e abundantes italianismos, como: Cajon, Mensonha, Mentre, Pelegrin, Toste, Ledo, Nozir, Solaz, Guirlanda, Dolçor, Vergonça, Potestade, etc. No Cancioneiro Colocci-Brancuti acham-se em portuguez canções assignadas por Bonifazio Calvo, de Genova.

O desenvolvimento completo da poesia trobadoresca deu-se na côrte de D. Affonso III por circumstancias implicitas nas transformações politicas portuguezas. Contra o systema administrativo de D. Sancho II insurgiram-se o clero e a nobreza, e depois da escaramuça violenta da Lide do Porto, os bispos mais audaciosos foram para Roma conspirar para a deposição do monarcha, e a nobreza emigrou para França, refugiando-se junto do princepe D. Affonso, que se distinguia pela sua estremada bravura na côrte de San Luiz. Então estava o lyrismo provençal em moda no norte da França, e o conde de Champagne com outros senhores serviam-se das subtilezas das allegorias trobadorescas para cortejarem a formosa rainha viuva Branca de Castella. N’essa côrte cavalheiresca residira D. Affonso desde 1238 a 1246; para junto d’elle é que emigraram os fidalgos das familias dos Bayões, Porto-Carreros, Valadares, Alvins, Nobregas, Mellos, Sousas e Reymondos, appellidos dos principaes trovadores que assignam as composições dos nossos trez valiosos Cancioneiros fragmentarios. Apoiado n’esse partido de revolta dos grandes vassallos, D. Affonso fez um desembarque furtivo em Portugal, e foi recebendo a homenagem dos principaes Alcaides dos castellos; refugiou-se o irmão em Toledo, e só depois da morte d’este é que D. Affonso se acclamou rei. Uma Satyra violenta contra os Alcaides traidores, revela-nos que já no reinado de D. Sancho II se cultivava e reconhecia a importancia da poesia trobadoresca. Nas Canções dos codices da Ajuda e da Vaticana verifica-se a influencia directa do norte da França: uma traz o retornello Que je soy votre ome-lige, outra imita as fórmas épicas e chama-se Gesta de Maldizer, outra seguindo o gosto das pastorellas falla no Caminho francez. E nos costumes da casa real ordenava-se que só houvesse trez jograes na côrte.

Dom Affonso III deu os principaes cargos da nação aos seus partidarios, e tratou de desfazer o seu casamento com a Condessa de Bolonha, para casar com uma bastarda de D. Affonso o Sabio. Assim se aproximaram as duas côrtes, principalmente quando D. Diniz tambem se mostrou apaixonado da poesia provençal como seu avô. Ou para lisongear Affonso o Sabio ou pela propria predilecção, D. Affonso III deu a D. Diniz uma educação litteraria completa; o fragmento de uma Poetica provençalesca do principio do Cancioneiro Colocci-Brancuti, mostra-nos quanto eram estudados os segredos da metrificação limosina; com intuitos de arte é que são imitados os Lais bretãos, e as Pastorellas aquitanicas com as Serranilhas gallezianas. O conhecimento da arte trobadoresca fez renascer a dignidade do que inventava a canção, do trovador sobre o jogral, que só cantava mercenariamente. A influencia do meio-dia da França resente-se no subjectivismo exagerado das canções de D. Diniz, em contradicção com as suas aventuras amorosas. O gosto elevado que o monarcha mantinha pelo lyrismo provençal foi causa da extraordinaria actividade poetica da sua côrte, que se tornou o centro de concorrencia dos jograes e trovadores da Galliza, de Leão, de Castella e de Aragão, aos quaes distinguia com grande liberalidade. Até os seus dois bastardos D. Affonso Sanches e D. Pedro figuram entre os trovadores.

Modificou-se o gosto poetico, oppondo aos typos limosinos os varios generos gallezianos, como dizeres, serranas e cantares de amigo, de uma belleza inimitavel. O motivo d’esta corrente era devido ao encontro dos jograes gallegos, mas principalmente á concorrencia dos jograes da Catalunha, Aragão, Leão e Castella, que inconscientemente faziam renascer as fórmas tradicionaes do lyrismo peninsular, hoje definidas pelo phenomeno da irradiação poetica da Aquitania. Ao fallar d’esta corrente galleziana, escreveu o Marquez de Santillana: «d’estas resçevimos los nombres del arte, asi como maestria mayor e menor, encadenados, lexapren e mansobre.» No Cancioneiro de Baena, em que ha uma forte influencia gallega, se lê: «Sin doble-mansobre, sensillo ó menor

Nas luctas de D. Affonso II com suas irmãs, e nas de D. Affonso III com a aristocracia, muitos fidalgos portuguezes refugiaram-se na Galliza, explicando-se por esta circumstancia esse esplendor poetico da Galliza, quando ella já não tinha autonomia politica nem acção historica. A imitação do trovar gallego, tanto em Portugal como em Castella no tempo de Affonso o Sabio, indica que a Galliza se tornaria uma Provença peninsular se a posse d’esse estado não fosse duramente disputada pelos diversos reinos unificados da Hespanha. A Galliza perdeu a sua autonomia com a constituição das novas monarchias; e a lingua, tornando-se uma especie de dialecto occitanico para a peninsula, decaíu por falta de vitalidade nacional. O grande vigor poetico d’este povo tornou a reflectir-se em Portugal e Castella no fim do seculo XIV e XV, com Villasandino, Rodrigues del Padron e Vasco Pires de Camões.

Com a morte do rei D. Diniz, o centro da actividade poetica deslocou-se para Castella, agrupando-se os trovadores das outras côrtes peninsulares junto de Affonso XI, que tambem era trovador. Os cavalleiros portuguezes continuaram a frequentar a côrte poetica de Affonso XI, e são admiravelmente bellas as Barcarolas compostas por occasião da batalha do Salado, em que elles tão generosamente figuraram. D. Affonso IV detestava seus irmãos bastardos, e parece não ter protegido a cultura trobadoresca, estimando mais as fórmas da Novella em prosa; por este despeito o Conde D. Pedro deixou em testamento o seu Livro das Cantigas a Affonso XI.

A poesia trobadoresca portugueza-galleziana parecia cahir outra vez no automatismo popular, mas um facto politico, a tendencia separatista, suscitou um novo fervor litterario como manifestação do seu individualismo; brilham Macias, Rodrigues del Padron e Villasandino, e os documentos d’esta lucta da eschola galleziana contra a imitação do gosto italiano enchem o Cancioneiro de Baena, e explicam-nos a natureza do conflicto que se repetiu no seculo XVI, quando Castillejos se oppunha á invasão do lyrismo italiano propagado por Garcilasso e Boscan. Em Hespanha a influencia petrarchista prevaleceu pela acção da eschola sevilhana; em Portugal desconheceu-se essa influencia. Muitas cidades da Galliza tendo abraçado o partido de D. Fernando contra Henrique II de Castella, na esperança de alcançarem a antiga independencia, ao perderem a causa varios fidalgos gallegos tiveram de refugiar-se em Portugal. O principal d’entre esses emigrados politicos era Vasco Pires de Camões, terceiro avô do grande épico portuguez; perdeu-se uma boa parte das composições poeticas anteriores ao Infante D. Pedro, como o confessa Resende no prologo do Cancioneiro geral. O nome de Macias tornou-se em Portugal synonimo de apaixonado; conservaram-se com grande vitalidade as fórmas trobadorescas gallezianas, (em Gil Vicente, Sá de Miranda, Christovam Falcão e Camões), e não será indifferente indicar que são descendentes d’esses fidalgos emigrados da Galliza alguns dos nossos principaes poetas quinhentistas.

Novellas de Cavalleria:—O Amadis de Gaula.—Quando as Canções de Gesta iam recebendo a fórma litteraria, decahia ao mesmo tempo a organisação da sociedade feudal, e a lucta dos grandes vassallos contra a realeza terminava pela impotencia diante de um elemento poderoso pelo seu numero, o proletariado. A Gesta já não podia ser mais do que a expressão de saudade pelo que acabava; e essa aspiração do passado era um ideal, a Cavalleria, em que a individualidade do heroe faz lei á sua vontade motivada por impetos de justiça. Porém, as virtudes do cavalleiro tornaram-se quixotescas, desde que disciplinada a força no exercito permanente, e convertida a justiça em ministerio publico, o heróe comprimido entre as communas e a realeza, estava egualado no mesmo codigo. A litteratura reflectiu esta instabilidade; a Gesta não tendo que idealisar, decahiu na prosa e achou um novo interesse na aventura amorosa da Novella. Segundo Victor Le Clerc e Léon Gautier, nenhuma Canção de Gesta apparece reduzida á prosa antes do seculo XV; é em Portugal que se inicia essa transformação na côrte de D. Diniz. A politica do reinado de D. Diniz e a situação de Portugal explicam-nos o phenomeno. Com a conquista do Algarve sob D. Affonso III acabaram as expedições militares contra os sarracenos, e por tanto a intervenção do poder senhorial. D. Diniz tirou as consequencias do facto, fazendo renascer o direito romano na restauração dos direitos magestaticos segundo o Digesto, e submettendo a Nobreza ao fôro de el-rei, pelo estabelecimento do cadastro dos Livros de Linhagens. Á situação subalterna da nobreza corresponde a maior intensidade dos divertimentos palacianos, no lyrismo dos Cancioneiros trobadorescos, e na paixão com que se liam as Novellas amorosas, como as de Tristão e Brancaflor. Entre essas novellas figura uma mais ou menos rudimentar de um typo da absoluta fidelidade no amor, o Amadis; era celebrado em França no poema de Amadas et Ydoine, na Inglaterra no Sir Amadace, na Hollanda, Italia e Hespanha citava-se a Chacone de Amadis. Vê-se por tanto que a invenção d’este argumento novellesco não pertence a Portugal, mas em Portugal é que recebeu a fórma em prosa litteraria definitiva. No texto castelhano do Amadis de Gaula ainda se conserva uma canção, que se acha assignada por João Lobeira no Cancioneiro Colocci-Brancuti, como vestigio da primitiva redacção portugueza.

D. Affonso IV, quando princepe e em dissidencia com seu pae, proferiu ao subjectivismo trobadoresco as narrativas das Novellas amorosas; este facto determinou uma nova redacção no Amadis de Gaula: no capitulo 40 do livro I, do actual texto castelhano, conservou-se a sigla da emenda mandada fazer por este princepe na estructura da Novella em relação ao episodio de Briolanja. Esta sigla no texto castelhano de Montalbo manifesta uma primitiva redacção; e pelo retoque imposto pelo princepe se estabelece a relação da Novella em prosa para com um texto poetico d’onde saíu e ao qual em outros poemas da Edade media ha numerosas referencias. Varios poetas castelhanos do Cancioneiro de Baena referem-se aos trez livros do Amadis de Gaula; a existencia do quarto livro, que não foi escripto por Montalbo, é que pertencerá a Vasco de Lobeira, do tempo do rei D. Fernando, como o affirma Azurara, attribuindo a esse tempo a redacção da novella. Na nobreza de Portugal eram frequentes no seculo XIV os nomes de Oriana e de Idana (do francez Ydoine), o que revela a influencia profunda da Novella antes da sua vulgarisação pela paraphrase castelhana.

Talvez em nenhum outro povo a imitação da Cavalleria, ou propriamente o Quixotismo, penetrasse mais nos costumes do que em Portugal, onde o nosso typo comico contraposto ao Ratinho é o do Fidalgo pobre. Davam-se no principio do seculo XV duas fortes correntes antagonicas na civilisação portuguesa: a burguezia tendia á preponderancia politica pelas magistraturas e pelas descobertas maritimas; a nobreza imitava acintosamente os feitos de armas segundo a Cavalleria, que tinha passado. Partiam as caravellas para as expedições das costas da Africa e Ilhas oceanicas, e ao mesmo tempo os Paladins sahiam em desaggravo das damas, como os Doze de Inglaterra, e os cavalleiros Gonçalo Ribeiro, Vasco Annes e Fernão Martins de Santarem que foram correr aventuras por Hespanha e França. As cerimonias da vida cavalheiresca caracterisam as práticas da côrte de D. João I e de D. Duarte, e simultaneamente domina a predilecção litteraria pelas Novellas. Para a lingua portugueza se traduziu e paraphraseou a Demanda do Santo Graal; lia-se o Galaaz, a ponto do Condestavel o tomar por modelo; e na sua opulenta livraria o rei D. Duarte guardava o Tristão e a Historia de Troia. O Amadis de Gaula exerceu certa influencia no enthuziasmo de um renascimento tardio da cavalleria, por via da traducção franceza. Fez-se uma vasta série de novellas em sua continuação desde as Sergas de Esplandian até Leandro o Bello. Mas a corrente do renascimento erudito da Antiguidade, quando a egualdade civil minava o feudalismo, desviava a actividade litteraria que punha em novella um ideal ridicularisado. Montaigne fallando da sua educação litteraria do mais exagerado classicismo, diz com entono que nem sequer conhecia pelo titulo as principaes producções da Edade media: «car des Lancelot du Lac, des Amadis, des Huon de Bordeaux, et tel fatras de livres à quoy l’enfance s’amuse, je ne connessoys pas seulement le nom, ny ne foys encores le corps; tant exacte estoit ma discipline.»[204] E em outra passagem refere-se com mais desdem ao Amadis: «Quant’aux Amadis, et telles sortes d’escripts, ils n’ont pas eut le credit d’arrester seulement mon enfance.»[205] Dos humanistas da Renascença e dos moralistas catholicos poderiamos extraír condemnações analogas. O enthuziasmo das obras primas da civilisação greco-romana envolveu em um desprezo mortal todas as tradições, poemas e novellas da Edade media. No primeiro quartel do seculo XVI já o Dr. João de Barros, nas Antiguidades de Entre Douro e Minho, fallando do desprezo em que decahira o original portuguez do Amadis de Gaula, de cuja redacção os hespanhóes se apoderaram, lamenta—que estas cousas se sequem nas nossas mãos.—Era a consequencia do esplendor dos estudos humanisticos, de que fomos corypheos no seculo XVI. A persistencia do ideal cavalheiresco em Hespanha explica-se por uma mais numerosa e opulenta aristocracia e por um intenso catholicismo que lhe tornára antipathica a civilisação polytheica, e suspeitos de heresia os humanistas.

2.o Periodo (Seculo XV):

Os Poetas palacianos.—Com o desenvolvimento da erudição augmenta dia a dia a separação entre os escriptores e o povo. Com o predominio da realeza que avança para a dictadura, a côrte torna-se centro de todas as manifestações artisticas, reduzidas a imitações banaes. Desde o reinado de D. Affonso IV até ao de D. Duarte, dá-se uma grande mudez na poesia portugueza: duas poderosas correntes disputavam a predilecção dos espiritos; era uma a do lyrismo da eschola gallega, e a outra a das ficções do cyclo da Tavola Redonda propagadas pelos aventureiros do bretão Du Guesclin, e tambem pelo casamento de D. João I com uma filha do duque de Lencastre. Absorvidos nos primeiros alvores da Renascença, e mais apaixonados da erudição da antiguidade do que das tradições medievaes, estacámos na imitação do que estava mais no gosto palaciano. Separados de Castella por interesses dynasticos que visavam a unificação politica, ficámos, depois da victoria de Aljubarrota, vacilantes entre o lyrismo galleziano e as aventuras novellescas do genio celtico, ao passo que os Castelhanos avançaram na poesia continuando a tradição provençal reanimada com o platonismo da Italia e com as allegorias dantescas. Ainda a tradição provençal pura procurou manter-se nos costumes, como se vê pela fundação do Consistorio del Gay-saber, em Barcelona, em 1393; mas a nova transformação dantesca e petrarchista seguida pelos poetas Jordi de Saint Jordi, André Fever, traductor da Divina Comedia em catalão, Ausias March, Rocaberti, como precursores de Bocan e Garcilasso, determinou a superioridade do lyrismo hespanhol no seculo XV.

Quando terminaram os odios politicos entre Portugal e Castella, reconheceu-se que nos passára desapercebida a evolução operada na poesia desde Micer Imperial até Juan de Mena. Começou pois a influencia da poesia castelhana sob a regencia do Infante D. Pedro, duque de Coimbra.

Antes porém do influxo de Juan de Mena, amigo pessoal do regente, a tradição provençalesca avivára-se um pouco e indirectamente na côrte portugueza, pelas relações com a côrte de Aragão motivadas pelos casamentos do rei D. Duarte e infante D. Pedro com princezas aragonezas. Na Livraria do rei D. Duarte, guardavam-se traducções aragonezas da Historia de Troya e de Valerio Maximo.

O Condestavel de Portugal, que foi rei de Aragão, por 1464, possuia entre os seus livros as poesias de Petrarcha, e escrevia os seus versos no gosto allegorico. São d’este desgraçado princepe e rei deposto, as outavas em fórma castelhana do Menosprecio do mundo, attribuidas erradamente a seu pae o infante D. Pedro, e as pequenas elegias que sob a rubrica de Elrei D. Pedro (sc. de Aragão) foram attribuidas a D. Pedro I. Póde bem considerar-se o Condestavel de Portugal o chefe d’esta eschola allegorica, a que pertencem os poetas que no tempo de D. Duarte e D. Affonso V floresceram na ilha da Madeira, então centro da aristocracia insulana. O Condestavel D. Pedro escreveu no genero allegorico a Satyra de felice e infelice vida, em que as paixões e os pensamentos são personificados em figuras de mulheres.

Nos poetas do Cancioneiro de Resende, em que prevalece a imitação castelhana, distingue-se essa eschola allegorica perfeitamente caracterisada em Duarte de Brito, que começa a sua visão perdido e embalado pelo canto de um rouxinol; como reminiscencias da Divina Comedia descreve minuciosamente o inferno dos namorados, veste a figura da esperança com todos os seus ornatos symbolicos, adopta as figurações mythologicas da astronomia, e já desenvolve as imagens como que em pequenos poemas a que chama comparação. Na poesia castelhana o Inferno de Amor de Garci Sanches de Badajoz tornou-se o modelo d’este genero de idealisação; o mesmo typo foi tambem imitado por Fernão Brandão na formosa poesia Fingimento de amores. Os caracteres do gosto allegorico manifestaram-se livremente nos processos amorosos dos serões do paço, como o do Cuidar e suspirar, pallido arremedo das Côrtes de Amor da tradição provençalesca. Esta eschola extinguiu-se, por que não foi fecundada pelo influxo do neo-platonismo com que Dante e Petrarcha converteram os rudimentos trobadorescos no esplendido lyrismo italiano que dominou todas as litteraturas romanicas desde o seculo XV.

Depois de acabadas as luctas com Castella, e que se conheceu o esplendor da poesia nas côrtes de Juan II e Enrique IV, já não era possivel attingir-se aquella altura; deslumbrados, imitámol-a e escrevemos em castelhano. O infante D. Pedro escrevia em verso a Juan de Mena, e pedia-lhe a collecção das suas obras; em Portugal, já no principio do seculo XVI, ainda era citado Juan de Mena como o exemplo do poeta de côrte, medrado pelo favor dos reis. As obras do Arcipreste de Hita foram traduzidas em portuguez, como se conhece pelo fragmento da Bibliotheca do Porto; as obras do Marquez de Santillana eram enviadas para Portugal ao Condestavel D. Pedro, a quem dirigia uma Carta com a filiação das escholas poeticas. Os Cancioneiros aristocraticos encerram documentos da communicação das duas côrtes, que avançavam para a unificação politica por casamentos reaes; no Libro de Cantos, manuscripto da Bibliotheca de Madrid, acham-se composições de cinco fidalgos portuguezes; no Cancionero general de Hernan de Castillo figuram bastantes poetas portuguezes, e foi essa collecção o modelo que seguiu Garcia de Resende. No Cancioneiro portuguez já apparecem traducções do latim, como as Heroides de Ovidio, e já se tiram comparações da mythologia.

Dava-se no seculo XV na Europa um phenomeno politico, que acabou de tirar á poesia a sua expansão natural, tornando-a uma insignificativa bajulação dos aulicos; fixára-se o poder real por uma forte dictadura, e acabára a lucta dos grandes vassallos que procuravam manter a independencia senhorial do regimen feudal. O infante D. Pedro foi a nobre victima n’esta lucta, que se renovou sob D. João II, e terminou pela execução do duque de Bragança e pelo assassinato do duque de Vizeu. A imitação exclusiva da poesia castelhana era uma especie de reacção da nobreza, tendendo para a unificação politica sob Fernando e Isabel; a poesia era um passa-tempo da côrte, que servia para celebrar as anecdotas da occasião e encher a inanidade da vida aulica. O numero pasmoso dos poetas aristocraticos revela a frivolidade da inspiração, que se explica pelo desconhecimento do lyrismo italiano, em que nos conservavamos, apezar das relações litterarias e commerciaes que Portugal desenvolveu com a Italia n’este tempo.

Os Historiadores portuguezes.—Com o poder real creava-se tambem a nova fórma litteraria da Historia, á imitação dos antigos, que deixaram memoria dos grandes feitos; era natural que se preferisse para a sua redacção a linguagem latina, pela illusão da sua universalidade. Por 1434 encarregou o rei D. Duarte a Fernão Lopes de reduzir a Chronica as memorias dos antigos reis de Portugal; é um narrador ingenuo como Froissart ou Villani; do seu trabalho se foram apropriando Azurara, Ruy de Pina, Duarte Galvão e Duarte Nunes do Leão. O prurido da erudição começa propriamente em Gomes Eannes de Azurara, que deturpa assim a fórma pittoresca das suas impressões directas das pessoas e dos logares. Em Ruy de Pina ha já o intuito politico, narrando os successos como convinha ao monarcha que o assoldadára, que elles fossem conhecidos. Em uma carta de João Rodrigues de Sá a Damião de Góes lê-se: «o estylo de Ruy de Pina pelos muitos adjectivos e epithetos que se usavam n’aquelle tempo, he muito affeitado.» Cahira-se na imitação do peior modelo da antiguidade, tomando por norma a rhetorica de Tito Livio.

NOTAS DE RODAPÉ:

[204] Essais, liv. I, cap. 25.

[205] Ibid., liv. II, cap. 10.