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Historia de um beijo

Chapter 19: CAPITULO X
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About This Book

A narrativa centra-se em Amparo, jovem de beleza e coquettismo cuja intensidade afetiva provoca sentimentos profundos em Ernesto, um pintor sensível que encontra na arte e no desejo um ideal inatingível. A história examina como um beijo ou uma palavra afirmativa podem transformar esperança em tortura, descrevendo encontros, pequenas cenas cotidianas e a angústia interior que dilacera um coração entregue. Temas recorrentes incluem desejo não correspondido, idealização amorosa e o preço emocional da incerteza.

Um beijo

Os nossos viajantes foram varias vezes aos theatros mais importantes de Florença; ao de Pergola que comporta duas mil e quinhentas pessoas, que tem cinco ordens e cento e dez camarotes, ao de Los Intrepidos e ao de Alfieri.

O tempo passava-se sem se sentir.

D. Ventura disse uma manhã:

—É preciso pensar na nossa volta para Hespanha, e contando que sempre nos demoraremos quinze dias em Paris, não temos muito tempo para permanecer em Florença.

Isto foi um grito de alarme para Ernesto. Era tão feliz ao lado de Amparo!

Os vinte cinco dias passados em Florença tiveram para elle a duração de um minuto. Milhares de vezes durante esse periodo esteve a ponto de lhe assomar aos labios o segredo que se lhe occultava no coração.

O receio detinha-o. Amava Amparo com tão firme, tão pura paixão, que o medo de um desengano lhe emmudecia a bôcca.

Uma tarde D. Ventura sahiu para receber uma lettra. Amparo, sentada proximo da janella, entretinha-se em colleccionar e guardar um grande numero de desenhos, feitos pelo seu companheiro, das bellezas artisticas que juntos tinham admirado.

Ernesto entrou no gabinete. Amparo extendeu-lhe a mão sorrindo-se:

—Bem vê, senhor Ernesto, que como a nossa partida se approxima, occupo-me em colleccionar convenientemente estes preciosos desenhos, que conservarei{39} toda a minha vida, pois encerram a historia d'esta viagem encantadora, viagem que, como todas as cousas terrestres, tem que acabar em breve.

Ernesto julgou ouvir sair um debil suspiro dos labios de Amparo. O seu coração bateu com violencia, fez-se pallido e como receasse que as forças o abandonassem, sentou-se n'uma cadeira ao lado da joven.

—Para que a vi em Roma?!

Esta exclamação que se lhe escapou do coração fez estremecer Amparo; mas serenando immediatamente disse:

—Tem pena que a casualidade nos tivesse feito amigos?

Ernesto deixou cair a cabeça sobre o peito. A sympathica physionomia do pintor tinha n'aquelle momento a expressão da mais profunda tristeza.

Amparo compadeceu-se d'aquelle amante respeitoso que se não atrevia a declarar-lhe o seu amor.

A compaixão, essa bella e delicada qualidade da alma da mulher, apoderou-se do coração da joven, e com uma doçura infinita, perguntou:

—Mas, meu Deus. O que tem, Ernesto? Nunca mais nos tornaremos a vêr?

Ernesto, que sentia penetrar no fundo do seu coração a doce voz de Amparo, levantou a cabeça, fixou n'ella um amoroso olhar, e disse:

—Irei a Madrid antes do fim de setembro; mas durante esses tres mezes que faltam, a minha alma viverá em eterna solidão, rodeada de triste melancholia porque vae partir, e eu amo-a como um louco.

Amparo córou. As suas formosas faces cobriram-se d'esse encantador carmim que tão bem assenta ás jovens e que tanto arrebatam e enlouquecem os homens.

—Sim, para que occultar-lh'o por mais tempo? continuou Ernesto. Deve tel-o comprehendido. Se os meus labios ainda lh'o não disseram, os meus olhos têem-lh'o confessado infinitas vezes. Quando se ama pela primeira vez, com a vehemencia filha de um{40} amor tão firme como verdadeiro, é trabalho em vão dissimulal-o. Os olhos revelam o sentimento da alma e atraiçoam-nos. Não é verdade, Amparo, que já tinha adivinhado que eu desde Roma a amava com toda a minha alma? Oh! isto certamente não era segredo para si.

Amparo suspirou. Os seus olhos bellos, cheios de melancholica expressão, fixaram-se com certo receio no joven, e com voz tremula e doce, respondeu:

—Sim, Ernesto, adivinhei-o e, não obstante, fui a causadora d'esta viagem. Se em Roma nos tivessemos separado, talvez que a estas horas já não pensasse em mim.

—Não pensar em si! Isso para mim é tão impossivel como seria a Tasso não pensar em Leonor, a Raphael esquecer a Fornarina, cujo retrato contemplámos os dois de mãos dadas em Roma, e cuja copia admirámos tambem em Florença. Para certos homens é um passa-tempo, uma nuvem de verão carregada de mais ou menos electricidade, mas que passa e que rapidamente desapparece; para outros, o amor é a vida, é a luz, é o ar que dá vida, força á imaginação, alegria á alma, porque o amor é para elle a unica luz que lhe embelleza tudo; tirando-lhe esse amor, ficam rodeados das mais profundas trevas e morrem de tristeza.

Ernesto ia continuar quando se ouviu a voz de D. Ventura, que falava na sala anterior com o senhor Rosales.

—Por Deus, Ernesto, disse Amparo com voz supplicante, que meu pae não suspeite nada!

—Esteja descançada, Amparo. Não receie que a importune; para amar não é preciso ser correspondido. Esta noite estarei á meia-noite no caramanchão do jardim. Espero-a até que amanheça: se vier, a bella flôr da esperança renascerá na minha alma, perfumando a minha existencia, se não vier, ámanhã, com qualquer pretexto, partirei para Roma e não nos tornaremos a vêr.

Amparo guardou silencio. Ernesto poz-se a arranjar{41} os desenhos, procurando dissimular a sua commoção.

Quando entraram Rosales e D. Ventura, os dois jovens occupados com os desenhos, não inspiraram a menor suspeita ao honrado commerciante.

—Fazem muito bem em dispor tudo, disse D. Ventura. Entre quatro ou cinco dias tomaremos o caminho de França.

—Com que então decididamente partimos, papá? perguntou Amparo.

—Filha, ha cêrca de tres mezes que sahimos da nossa casa, é preciso voltarmos a ella.

—Em verdade, senhor D. Ventura, que esta viagem tem um tanto de traiçoeira, respondeu Ernesto esforçando por rir-se. Emfim, brevemente nos veremos em Madrid.

—Diga que é a melhor terra do mundo.

—Assim a reputo.

—Creio que hoje não temos nada que fazer, proseguiu D. Ventura.

—Esta noite, se quizerem, iremos ao theatro. Estreia-se uma opera em Pergala.

—Não, estou muito cançado, e esta noite quero-me deitar cedo; mas se quizer não se prenda por nossa causa.

—Convem-me ficar em casa. Temos que aperfeiçoar alguns desenhos, tirados tanto á pressa, que apenas são quatro traços. Tambem fico em casa.

—Ah! esquecia-me dizer-te que estive falando com o visinho do primeiro andar.

—Com o conde de Loreto?

—Sim.

—Dizem que é um sujeito que deu muitos desgostos á mãe... disse Amparo.

—Em Madrid está sempre em ordem do dia a mexeriquice: O conde de Loreto é um rapaz como muitos outros, que se divertem quanto podem, porque teve a sorte de herdar dos paes uma grande fortuna. Imagina que esse rapaz tem agora 28 annos, possue uma fortuna de quinze milhões. Demais, dizem que{48} é muito instruido. O nosso hospedeiro não se cança de o gabar.

—É um bom hospede, disse Amparo, sorrindo-se.

Ernesto não tomava parte na conversa: desagradava-lhe ouvir elogios do conde.

Mas deixemos correr as horas, e com a rapidez do pensamento transportemo-nos ao jardim da casa que occupavam os nossos conhecidos.

Os relogios de Florença acabam de dar as onze e tres quartos, quando Ernesto saltou da janella para o jardim dirigindo-se para o caramanchão, coberto de madresilva, lupulo e hera.

Dentro do caramanchão haviam quatro bancos e uma mesa. Ernesto sentou-se n'um disposto a esperar toda a noite como tinha dito a Amparo.

A lua estava em quarto minguante, o céu limpido e de um azul escuro carregado onde as estrellas brilham de uma maneira extraordinaria.

A brisa nocturna roubava a essencia perfumada das flôres, e, sempre prodiga, espargia pelo ambiente como se tivesse envergonhado d'aquella usurpação.

N'um relogio de torre soou a meia-noite.

Ernesto levantou a cabeça, poz-se de pé e foi pôr-se em uma das entradas do caramanchão. O coração dizia-lhe que Amparo vinha.

A noite é em todos os paizes a protectora carinhosa dos namorados, porque o amor, vulgarmente timido á luz do sol, cobra valor e energia antes esses tibios reflexos que a lua envia do céu.

Ernesto, de pé junto da entrada do caramanchão, com uma das mãos sobre o coração e a outra languidamente caída, dirigia olhares cheios de inquietação para o silencioso edificio d'onde devia vir a sua felicidade, a sua dita, o anjo dos seus sonhos.

Passou-se um quarto de hora. Amparo não vinha, e os segundos passavam com um vagar, com uma monotonia aborrecedora para Ernesto.

Por fim os labios entreabriram-se-lhe, sem duvida para dar um grito de prazer, mas conteve-se. Vira desenhar-se entre as sombras das arvores a encantadora{43} silhueta de um corpo para elle conhecido, e em seguida uns passos se ouviram na areia das ruas que conduziam ao caramanchão, e o ligeiro frou-frou de um vestido que se approximava.

Ernesto sahiu ao encontro de Amparo, porque era ella; pegou-lhe n'uma mão e conduziu-a até ao caramanchão.

A joven tremia; estava nervosa e pallida.

Ernesto sentou-a n'um dos bancos procurando tranquilisal-a.

—Obrigado, Amparo, obrigado por tanta bondade. Tranquilise-se, os homens honrados que amam como eu, sabem respeitar o objecto do seu amor.

—Ernesto, respondeu a joven, commetti uma imprudencia. Nunca devia ter vindo.

—Tão pouca confiança lhe inspiro?

—Sim, muita, meu amigo, muita; de contrario não teria vindo. Mas sou franca, não pude resistir, porque as ultimas palavras que me disse esta tarde pareciam recriminar-me. Bem vê: aqui estou, apezar de tudo. Tive um susto terrivel. Para vir ao jardim era preciso passar pelo quarto de meu pae; receei despertal-o. E sabe o que fiz? Pois bem, vou-lhe dizer: saltei pela janella. Nem eu mesmo posso explicar como tive coragem para tanto: tratava-se de me despedir de um amigo bom e leal, e não tive animo para faltar.

Ernesto tinha entre as suas as mãos de Amparo, que apertava docemente, escutando ao mesmo tempo aquella voz encantadora que tão suavemente lhe vibrava no coração.

Nunca experimentára um prazer tão completo, uma felicidade tão ineffavel.

O perfume das flôres, o aroma da madresilva que se espalhava n'aquelle recinto; a luz tibia da lua, que penetrava no caramanchão pelos intervallos das folhas; aquella mulher, bella como o mais perfeito e encantador sonho da sua alma de artista, tudo contribuia para que Ernesto se julgasse arrebatado da terra pelos anjos e transportado a esse paraizo{44} de amor que tanto embriaga as pobres creaturas.

—Ha momentos de felicidade, exclamou Ernesto, que nunca deviam acabar. Se ao homem fosse dado escolher o momento da sua morte sem passar por suicida, eu escolheria este.

—Está louco, Ernesto?

—Quem sabe! Talvez. O amor não é outra cousa senão uma loucura sublime que conduziu Raphael aos pés de uma moleira, Tasso a uma prisão e Ovidio a uma masmorra. A historia conta-nos tantas loucuras de amor, que seriam necessarios muitos volumes para a descrever. Mas, feliz o que ama e é correspondido! Ditoso o que ao dar metade da sua alma, recebe em troca outra metade que lhe envia um peito agradecido em mutua correspondencia.

Amparo suspirou em silencio. Ernesto, julgando que esse suspiro era uma confissão, levou aos labios a mão da donzella, imprimindo n'ella um beijo.

Amparo estremeceu sem retirar a mão.

Esta condescendencia animou o pintor.

—Vamo-nos separar, Amparo; não nos veremos durante tres mezes; necessito ouvir antes uma palavra que inunde de felicidade o meu peito, que deposite o perfume da esperança em meu coração. Tambem me ama?

—Ernesto, Ernesto, tudo isto me parece uma loucura, respondeu debilmente Amparo.

—Não, não é essa a resposta que desejo, é outra, meu anjo. Ama-me, sim ou não?

—Pois bem, sim. Ha muito que o devia saber; desde a noite do Colyseu de Roma.

Ernesto não poude conter um grito de immensa felicidade, e enlaçando com o braço a cintura da donzella exclamou:

—Juro pelas cinzas de minha mãe amar-te emquanto viva, e conquistar um nome tão glorioso que te sintas orgulhosa chamando-te minha.

Este juramento, esta exclamação, brotaram de uma alma de artista, cheia de fé, de enthusiasmo, de amor.{45}

Amparo assim o comprehendeu, e, agradecida por tão grande paixão, achava-se n'um d'esses momentos de fraqueza em que a mulher não tem forças para resistir, momentos perigosos, dos quaes só se aproveita o homem para satisfazer um desejo, causando a infelicidade d'aquella a quem jura um amor eterno e por quem n'esse instante faz os maiores sacrificios.

Mas Amparo rapidamente serenou; conheceu que era uma imprudencia permanecer á beira de tão grande precipicio, e ainda que Ernesto lhe inspirasse absoluta confiança, como elle mesmo acabava de dizer, amor não é outra cousa senão uma loucura sublime; por isso poz-se de pé e disse:

—Separemo-nos, Ernesto, estou desassocegada e por enquanto convêm que o nosso amor seja um segredo.

—Já? disse o pintor, tornando a cingil-a pela cintura. Pensa, querida, que em poucos dias nos vamos separar.

—Ámanhã nos tornaremos a vêr aqui, se eu puder vir; mas hoje... hoje não devo ficar mais tempo.

—Pois bem, sim, separemo-nos, não quero que estejas inquieta; sou demasiado feliz para te desgostar; mas se te inspiro confiança, se queres que seja esta a noite mais bella da minha vida, permitte-me que selle com um beijo a mutua promessa que acabamos de fazer.

—Meu Deus, Ernesto, por compaixão! Ah! Para que vim?

O pintor estreitou docemente o desfallecido corpo de Amparo de encontro ao seu. Aquellas duas cabeças jovens, apaixonadas, uniram-se; aquellas duas boccas tocaram-se e o doce som de dois beijos confundidos n'um fugiu nas azas da brisa nocturna.

Pobre Ernesto! Elle tinha dado toda a sua alma n'aquelle beijo, emquanto que Amparo só lhe tinha feito uma esmola como paga de agradecimento que a sua deferencia para com ella inspirava.{46}

Amparo desprendeu-se dos braços de Ernesto, sahindo rapidamente do caramanchão.

Ernesto deixou-se cahir n'um dos bancos, murmurando em voz baixa:

—Meu Deus! Esta felicidade que sinto é demasiadamente grande para que seja duradoura!

CAPITULO VII

Separação

No dia seguinte quando Ernesto appareceu no quarto de D. Ventura, este disse-lhe:

—Que pallido que está? Que é isso? Não se sente bem? São más as aguas de Florença?

—Pallido? respondeu Ernesto. Estou como sempre, estou bom.

—Não, não, está com muito má côr. Não achas, Amparo?

—Acho-o na mesma, papá, respondeu Amparo de um modo natural.

—Seja como fôr, disse Ernesto sorrindo-se, não pensemos n'isso e tratemos de aproveitar o tempo que nos resta.

D. Ventura, que não tinha vontade propria, pegou no Guia, Ernesto e Amparo nos seus carnets de desenho e sahiram de casa com a incançavel curiosidade dos viajantes.



N'aquella noite foram ao theatro de Alfiere, onde se representava O pae de familia, do celebre poeta cómico Carlos Goldoni, a quem chamavam o Molière italiano.

Ao começar o primeiro acto abriu-se o camarote{47} fronteiro ao dos nossos amigos e entrou um joven vestido de rigoroso luto.

—Olhem, disse D. Ventura. É o nosso visinho do primeiro andar, o conde de Loreto.

Amparo dirigiu o olhar machinalmente até ao camarote.

Ernesto, como sempre, ao ouvir pronunciar aquelle nome sentiu uma vaga inquietação.

O conde de Loreto teria vinte e oito annos. Era alto; não podiam vêr-se com facilidade as suas feições, mas de longe parecia muito pallido, elegante e sympathico. Era um d'esses typos distinctos que fazem com que se fixe n'elles a attenção. Como o panno acabára de levantar, o conde sentou-se. Durante o acto esteve ouvindo com grande attenção. Ao acabar sahiu do camarote para não tornar.

A mais de metade do terceiro acto, D. Ventura que parecia gosar falando do seu visinho, disse:

—Que homem tão extraordinario!

—Quem? perguntou a filha.

—O conde de Loreto. Durante o primeiro acto, nem pestanejou, ouvindo com attenção os versos de Goldoni, e durante o segundo e terceiro não tornou a entrar, mostrando a indifferença irritante dos nossos elegantes de Madrid em noite de estreia.

Amparo nada respondeu. Ernesto guardou silencio.

Depois da comedia representava-se uma d'essas farças em um acto que tanto agrada aos italianos em que toma parte a figura de Polichinello; farças vulgarmente improvisadas pelos actores que as representam.

Como D. Ventura era um bom hespanhol, não sabia passar sem o cigarro, e sahiu do camarote para satisfazer o innocente vicio.

Ernesto e Amparo ficaram sós.

Durante alguns segundos ficaram silenciosos; ella parecia preoccupada, elle triste.

Por fim Ernesto rompeu o silencio.

—Que tem, Amparo? Noto nos seus formosos olhos uma melancholia que me entristece.{48}

—Penso que em breve nos vamos separar.

—Ah! sim! É verdade! Mas esta noite...

—Não, Ernesto, não; esta noite não vou ao jardim, receio que meu pae saiba.

—Pois bem, não quero ser exigente; não sáias, mas ao menos abre-me a janella para que possa vêr o luar sem testemunhas importunas; que possa dizer-te no silencio da noite o que sente o meu coração.

—Ámanhã, Ernesto, ámanhã, prometto-te abrir a janella para me despedir de ti; hoje sinto-me mal; necessito descançar.

—Mas é uma crueldade roubar-me uma noite quando tão poucas nos restam.

Amparo fixou os seus olhos no pintor, e compadecida da triste e apaixonada expressão de Ernesto, disse:

—Bem, abrirei.

Ernesto fez um movimento como para se apoderar de uma mão da Amparo, mas esta conteve-o com o olhar, exclamando:

—Que vae fazer? Que imprudencia!

Ernesto conteve-se, e só então se recordou que se achava no theatro.

Durante a farça, D. Ventura riu-se muito. Ao acabar dirigiram-se para casa.

Á uma da madrugada, Ernesto estava junto á janella do quarto de Amparo. Chamou suavemente. A janella abriu-se. Amparo apagara a luz; assomou á janella e começaram um d'esses dialogos, doces, apaixonados, cheios de encantadoras trivialidades, que só têem valor aos ouvidos dos namorados.

Quando eram tres horas. Amparo disse:

—Separemo-nos já, Ernesto.

—Bem, separemo-nos, mas dá-me outro beijo de despedida.

Amparo inclinou a cabeça e como na noite anterior, duas boccas se juntaram, e um beijo cheio de amorosa ternura interrompeu o silencio da noite.

Ernesto e Amparo, durante aquellas duas horas de{49} amoroso colloquio, fizeram mil promessas de amor e fidelidade.

—Não me esqueças nunca, disse o pintor; pensa sempre em mim.

Amparo tirou uma fita de seda com que prendia os cabellos e deu-a a Ernesto.

—Esta fita será a que une os nossos corações. Pega, conserva-a.

Ernesto cobriu de beijos aquella fita, que jurou conservar toda a sua vida como uma recordação de tão feliz noite.

Quando o pintor entrou no seu quarto, pegou na penna e escreveu na fita: «Florença, 2 de Julho de 186...».

Depois deitou-se, e não demorou muito em gosar um d'esses sonhos de que não quizera despertar.



Dois dias depois, Amparo, seu pae e Ernesto entravam na sala de espera da estação. O comboio estava preparado para partir; faltavam alguns minutos para se pôr em andamento.

O pintor esforçava-se por se mostrar satisfeito, mas uma enorme tristeza lhe opprimia o coração.

Nunca Amparo lhe parecera tão bella como n'aquella occasião, mas era preciso resignar-se á separação.

Os olhares furtivos que ella lhe dirigia pareciam dizer-lhe:

—Confia e espera. Em breve nos tornaremos a juntar.

Rapidamente D. Ventura pôz a sua mala de mão sobre um banco da estação e disse:

—Oh! Aquelle não é o conde de Loreto?

Ernesto e Amparo voltaram-se.

Effectivamente, o conde estava sentado a um canto com um livro na mão, e falando em voz baixa com um velho de cabellos brancos, gravata branca e sobrecasaca preta que o ouvia em respeitosa attitude.

O velho era um d'esses typos proprios para mordomo{50} de casa rica; de parecer carregado, severo e completamente barbeado.

O conde de Loreto parecia dar-lhe algumas ordens; o velho cumprimentou e sahiu do salão e foi para o local destinado aos despachos na estação.

Ernesto poude vêr então perfeitamente aquelle rapaz, que parecia seguil-o como uma sombra.

Era, em verdade, bello e distincto, notando-se-lhe na pallida e sympathica physionomia uma profunda melancholia que interessava.

A julgar pelo traje, o conde ia emprehender alguma viagem.

—Irá para Paris, tambem? pensou Ernesto, sentindo-se inquieto, mau grado seu, ante o conde de Loreto.

A sineta deu o signal. Os passageiros dirigiram-se para a gare afim de escolherem logares.

D. Ventura, que caminhava á frente, deteve-se junto de um compartimento de primeira classe, e disse:

—Aqui.

E subiu adeante para dar a mão a Amparo.

N'um canto do compartimento e sobre um banco estava uma mala de viagem; no da frente o velho que pouco antes estivera falando com o conde de Loreto.

Era por acaso ou propositadamente a escolha de D. Ventura? Quem sabe? Talvez que o honrado commerciante, vendo n'um compartimento de primeira classe o mordomo do conde de Loreto, escolhesse aquella carruagem com o firme proposito de viajar com um compatriota de sangue azul, ou talvez não reparasse senão depois no silencioso e sympathico ancião.

Mas a escolha causou um profundo desgosto a Ernesto, que pela primeira vez sentiu no peito a terrivel punhalada do ciume.

O pintor apertou a mão do commerciante e depois a de Amparo, enviando-lhe toda a sua alma n'um olhar.

—Até setembro, lhe disse.{51}

N'aquelle momento ouviu-se uma voz varonil, mas doce e respeitosa, que disse em castelhano:

—Dá-me licença, cavalheiro?

Ernesto deixou-o passar. O conde de Loreto cumprimentou e subiu para a carruagem, indo sentar-se em frente do seu mordomo.

Apitou a locomotiva, e começou o comboio a mover-se e a sahir pausadamente da estação.

Amparo e D. Ventura assomaram á janella e acenaram com um lenço ao seu bom amigo.

Um momento depois, o comboio tinha desapparecido; mas Ernesto como se estivesse pregado ao chão permanecia immovel e preoccupado.



N'aquella noite, Ernesto partiu para Roma, levando a duvida na alma e o ciume no coração.

Pobre sonhador! Infeliz artista, que tinha trocado por um beijo, a felicidade, a paz do seu espirito e todos os seus sonhos de gloria!

CAPITULO VIII

Caminho de Hespanha

Ernesto encerrou-se no atelier. Era preciso ganhar o tempo perdido; era preciso acabar o seu quadro quanto antes e regressar a Hespanha e sobretudo era indispensavel fazer uma obra-prima que cobrisse o auctor de gloria, que fosse falada em todo o mundo, e que Amparo se sentisse orgulhosa. Mas ai! o pobre artista tinha a imaginação demasiadamente occupada, a alma pouco socegada para conseguir o seu fim.

Comtudo, fez esforços heroicos, trabalhava emquanto{52} tinha luz, e durante as noites, fechado no quarto, passava longas horas, escrevendo as impressões da sua alma no meio da soledade em que vivia.

—Ámanhã, quando nos tornarmos a reunir, pensava elle, entregar-lhe-hei estas folhas de papel em que diariamente escrevo os meus pensamentos, e ella verá que a não esqueci nem um só instante, que a continuo amando como nunca.

Ernesto pintára um pequeno quadro, representando a scena do caramanchão, no momento de dar e receber o beijo de Amparo. Os dois jovens, docemente abraçados, estavam illuminados pela debil luz da lua.

O grupo era encantador; respirava amor, ternura, poesia.

Era aquelle quadro uma grata recordação que a sua alma sensivel transportára á téla.

Em volta do quadro collocou a fita que lhe dera Amparo.

Durante a noite, Ernesto passava ás vezes um quarto de hora contemplando o pequeno quadro, pendurado n'uma parede do seu quarto.

Depois pegava na penna e escrevia. Isto consolava-o.

O pintor acabou por fim o seu quadro e convidou para almoçar alguns amigos para que vissem a sua obra e dessem a sua opinião.

A opinião geral foi de que ganharia o primeiro premio.

Ernesto meneou a cabeça em signal de duvida.

—Parece-me que podia fazer mais do que o que fiz, e duvido muito que o meu quadro tenha o merito que suppõem.

Os seus companheiros trataram de convencêl-o de que o seu desalento, a sua falta de confiança eram infundados.

No dia seguinte, Ernesto escreveu uma carta ao judeu Daniel.

O negociante de quadros, como sempre que se tratava de fazer algum negocio, apresentou-se com pontualidade.{53}

—Vou para Hespanha, disse Ernesto.

—O que quer dizer que precisa de dinheiro.

—Sim, vou expôr o meu quadro; por conseguinte escolha o que gostar.

Daniel passou revista aos quadros com a sua tranquillidade costumada, e escolheu a maior parte das pequenas telas que o pintor possuia.

Depois de ajustar e ao entregar o dinheiro, disse Daniel:

—São os artistas tão pouco agarrados ao dinheiro!... E comtudo, o dinheiro é a alma da vida. Com que então vae para Madrid?

—Sim, senhor. Ámanhã saio de Roma.

—No museu de Madrid ha quadros de muito merito, como tambem em varias egrejas; e se o senhor fosse um homem de palavra...

Ernesto sorriu-se.

—Se eu não soubesse o quanto me aprecia, respondeu, quasi teria direito a offender-me com as suas palavras.

O senhor Daniel que nunca abandonava a caixa de rapé, tomou uma pitada com gravidade, e disse:

—Em Madrid existem preciosos originaes dos melhores auctores. Temos ahi sobretudo os da escola hespanhola, e se quizesse tirar-me algumas copias feitas com consciencia, não teria inconveniente em ficar com ellas.

—Isso depende do trabalho que tiver na minha patria.

—Será pouco. Em Hespanha não ha costume de proteger as artes. A politica, os touros e a bolsa absorvem a attenção dos hespanhoes. As artes e a agricultura encontram-se em completo abandono. Para ser artista em Hespanha, precisa ter a força de vontade de Aristoteles, a paciencia de Job, e o estomago privilegiado dos arabes; e para ser agricultor a resignação de Santo Isidro, com a desvantagem de que no tempo d'aquelle santo, os anjos desciam á terra e lavravam para que o santo dormisse, e hoje os anjos não lavram. Mas, emfim, o senhor pensará{54} o que lhe convém e n'esse sentido me escreverá indicando-me os tamanhos e o preço por que m'os vende.

Ernesto comprehendendo que o judeu tinha razão, não o contradisse, porque sabido é que sendo Hespanha um paiz agricola, não tem outra protecção senão a da Providencia. Quando chove muito succede como no Egypto, têem boa colheita. Quando chove pouco, os pobres lavradores pagam o mesmo ao protector governo que não se occupa d'elles e morrem de fome; mas isso pouco importa, comtanto que se receba a contribuição, porque n'essa desgraçada nação chegou a ser impossivel encontrar-se um governo bom e barato.

Resumindo: Ernesto partiu de Roma, no dia seguinte, levando no quadro uma esperança de gloria; no beijo que abrazara a sua alma uma esperança de amor.

Tres mezes tinham decorrido desde o dia em que se separou de Amparo. Durante este tempo, nem uma só carta recebêra.

Ernesto levava, sem saber porquê, a tristeza na alma. Ha presentimentos que perseguem o homem com a tenacidade da sombra. O conde de Loreto fôra para Ernesto, desde o primeiro dia, uma ave de mau agouro.

Deixemol-o viajar até Hespanha, e encontremo-nos novamente com a formosa Amparo.

O coração da mulher é insondavel; não se póde definir, porque é vario e caprichoso como a mesma natureza. Por isso Amparo, que indubitavelmente sahiu de Florença enamorada do pintor, chegou a Paris pensando muito no seu companheiro de viagem, o joven conde de Loreto.

Vejamos o que succedeu.{55}

CAPITULO IX

De Florença a Paris

Fernando del Villar, conde de Loreto, depois de cumprimentar respeitosamente com um movimento de cabeça os seus companheiros de viagem, accomodou-se do melhor modo possivel no canto, e pôz-se a lêr. Em frente d'elle, grave e immovel como El banquero de Cera, de Paulo Féval, estava o velho mordomo. D. Ventura pensou que com uns companheiros tão graves se iria aborrecer extraordinariamente, mas restando-lhe a consolação de lêr até que se apresentasse melhor occasião, tirou o Guia que lhe offerecêra Ernesto.

Amparo, alguma cousa preoccupada com a recente despedida do homem a quem julgava amar, fechou languidamente os olhos e entregou-se a essa doce vida das recordações em que o passado é o presente da imaginação.

Durante a primeira hora tudo se passou da fórma por que acabamos de descrever. Depois, como se prolongasse o silencio, Amparo, olhava dissimuladamente o joven aristocrata que tão embebido estava na leitura.

O conde de Loreto era um d'esses homens a quem as mulheres não podem olhar impunemente, porque o seu rosto pallido e formoso, a triste expressão do seu semblante, convida o bello sexo a fazer esses terriveis commentarios que lhe são tão peculiares.

Porque seria que sendo o conde de Loreto immensamente rico, estava tão triste? Isto pensou Amparo. E vendo atravéz aquella melancholia impropria da juventude, uma historia interessante, teve empenho em conhecel-a.{56}

Desde aquelle momento a felicidade de Ernesto estava ameaçada da morte.

D. Ventura, que tinha passado a maior parte da sua juventude atraz de um balcão, com os olhos alegres, o sorriso nos labios, a lingua disposta a entabolar conversação com os freguezes, aborrecia-se extraordinariamente no meio d'aquelle silencio enfadonho e do ruido da trepidação que a machina transmitte aos vagons.

Não podendo supportar aquella situação por mais tempo, deixou o livro e dispôz-se a falar com a filha, pensando que talvez assim conseguisse interessar o conde na conversa.

—Olha, Amparo, que delicioso panorama apresenta essa povoação collocada assim na falda d'esse monte, exclamou Ventura. Oh! decididamente a Italia é um paiz encantador.

—Que povo é este? perguntou Amparo.

—Diabo! É difficil de t'o dizer porque me esqueci de comprar o Guia dos Caminhos de Ferro.

O conde levantou a cabeça e assomando-a á portinhola, disse com voz harmoniosa e clara.

—Este povoado, chama-se, se me não engano, Santa Maria della Spina.

Amparo cumprimentou com a cabeça, como dando os agradecimentos ao conde pela sua deferencia.

—Obrigado, senhor conde, disse D. Ventura, no tom mais amavel que lhe foi possivel.

O conde tirou um livro da sua mala de mão, e dando-o a D. Ventura, continuou:

—Possuo por casualidade dois Guias Geraes dos Caminhos de Ferro de Italia e França. Se o senhor quer acceitar um...

—Bem vês, Amparo; isto é o que se chama viajar com sorte. Em Roma encontrámos o bom Ernesto, que foi para nós o melhor dos cicerones; aqui o senhor conde de Loreto offerece-nos um Guia que tirará pelo caminho todas as duvidas.

Fernando sorriu-se, e respondeu:

—O favor é tão insignificante, que não merece a{57} pena falar n'elle; sobretudo, entre compatriotas e visinhos, pois creio que somos visinhos ha um mez.

—Sim, senhor, em casa de Rosales.

—Tive o prazer de ouvir esta senhora tocar piano algumas noites; toca admiravelmente.

—E o senhor conde, segundo me disse minha filha, toca muito bem orgão.

Amparo se pudesse teria tapado a bôcca a seu pae. Mas já dissémos que D. Ventura tinha muita vontade de falar, e sobretudo fazer-se amigo do conde.

—Ah! incommodei com o meu orgão algumas noites esta senhora?

—Pelo contrario, pelo contrario, senhor conde; ouvimol-o com muito prazer. Abriamos as janellas para o ouvir melhor, ajuntou D. Ventura.

—O orgão, disse Amparo, tomando parte na conversa, receando sem duvida que seu pae commettesse alguma imprudencia, é um dos instrumentos que, quando bem tocado, expressa melhor o sentimento da musica.

—Sim, minha senhora, quando seja bem tocado, accrescentou o conde, deixando assomar aos labios um sorriso imperceptivel: mas, desgraçadamente, não succede isso commigo; toco por curiosidade, e nada mais. Apaixonado pela musica até ao exaggero dedico-lhe alguns momentos d'ocio. Admiro os grandes mestres, mas em mim a musica, como em tantos outros, não é mais do que um adorno, uma parte da educação. Toco, é verdade, mas toco muito mal, o que é o peior.

D. Ventura estava encantado com a singeleza e naturalidade com que se expressava o conde.

—Quizera, comtudo, disse o pae de Amparo, saber tanto como o senhor.

—Saberia muito pouco, meu amigo; sobretudo, na Italia que estamos atravessando, onde todos são musicos.

—O senhor conde chamar-me-hia indiscreto se lhe fizesse uma pergunta? disse D. Ventura.

—Entre compatriotas que viajam juntos na mesma{58} carruagem deve reinar a maior franqueza. Póde perguntar o que quizer.

—Vae directamente para Paris, ou pensa detêr-se em alguma cidade de Italia?

—Vou para Paris; já percorri tres vezes toda a Italia.

—Então faremos a viagem juntos.

—Pelo que me considero extremamente feliz.

—Paris é o povo mais alegre da Europa.

—E tem a vantagem de que os estrangeiros em Paris encontram-se quasi tão bem como na sua patria.

—O caracter parisiense é a reunião da alegria e da amabilidade; gostam de ser amaveis, e esforçam-se para o conseguir.

—Sempre que d'isso lhes resulte alguma vantagem, continuou o conde, mas seja como fôr, passa-se admiravelmente uma temporada n'aquelles modernos boulevards, onde o luxo reuniu todas as encantadoras loucuras. Oh! Só para cear uma noite no café Tortoni, almoçar na Maison Dorée e passear uma tarde no boulevard dos Italianos vale a pena fazer-se uma viagem a Paris.

—E vae estar muito tempo na capital de França? perguntou D. Ventura.

—Tenho muito que fazer, disse Fernando, sorrindo-se; primeiro ouvir a Patti na Somnambula, depois correr uma egua arabe nas proximas corridas de cavallos. Quero ganhar o premio que offerece a Imperatriz, que é uma rosa de brilhantes.

Amparo, que ouvia com prazer a conversa, ainda que não tomasse parte n'ella, ás ultimas palavras do conde, pensou que não seria pelo valor da rosa de brilhantes que elle desejava ganhar o premio, mas para fazer com elle uma offerta a alguma pessoa querida.

Desde aquelle momento Fernando del Villar, conde de Loreto, era para ella um homem que começava a espicaçar-lhe a curiosidade.

—Ah! disse D. Ventura. Tem em Paris a egua que vae correr?{59}

—Tenho em Madrid os meus cavallos, mas mandei vir para Paris a minha invencivel Rabeca. Creio que assistirão ás corridas.

—Teremos muito gôsto desde que se effectuem dentro d'um mez, e ao mesmo tempo uma grande alegria em que seja vencedor.

Quando se começa uma viagem, durante os primeiros momentos, mais ou menos prolongados, segundo o caracter dos viajantes, só reina o maior silencio; cada um pensa quem será o companheiro da frente ou lado, mas uma vez entabolada a conversa estabelece-se uma certa intimidade agradavel que dura toda a viagem e ás vezes toda a vida.

Durante a viagem dos nossos conhecidos, reinou a maior harmonia. Amparo e o conde falavam de musica; o mordomo e D. Ventura, de numeros. O honrado millionario estava satisfeito por ter encontrado tão bons companheiros.

Uma vez em Paris, como D. Ventura era um homem rico que viajava por prazer e não tinha casa na moderna Babylonia, deixou ao conde de Loreto a escolha do hotel onde deviam hospedar-se.

Fernando optou pelo Hotel do Louvre, e installaram-se em dois quartos contiguos no segundo andar com toda a commodidade que offerece aos passageiros o citado estabelecimento.

O conde quiz que se collocasse um orgão no quarto de Amparo, offerecendo-se para lhe dar algumas lições.

—Sou muito pouco habilidosa, disse Amparo, agradecendo-lhe com um olhar aquella deferencia.

—Ora, respondeu o conde. Para uma mestra de piano como Vossa Excellencia nada mais facil que aprender orgão. Creia que em quinze dias póde tocar perfeitamente.

—O que me vae custar uns oito ou dez mil reales, disse D. Ventura, porque terei de comprar um.

—E nunca em melhor occasião do que agora que estamos em Paris, onde os constructores mais afamados têem os seus armazens. Ámanhã visitaremos{60} alguns, com tres mil francos na carteira.

—Vejo, que tanto o senhor conde como Amparo, conspiram contra a minha bolsa.

No dia seguinte compraram um orgão, precioso instrumento de doze registos, incrustado em madreperola; uma verdadeira obra de arte que custou a D. Ventura seis mil francos, e que foi escolhido pelo conde, e o ex-commerciante não quiz deixar mal o joven aristocrata.

Pagou D. Ventura, encarregando o fabricante de lh'o remetter para Hespanha, e não se tornou mais a falar no assumpto.

Todas as tardes Fernando dava lição de orgão a Amparo. Ao principio estas lições foram curtas, depois prolongaram-se a duas horas.

Quando cantava a Patti iam juntos ao theatro; sómente o conde ia para as cadeiras e D. Ventura para um camarote, mas durante os intervallos o conde visitava o millionario.

Assim se passaram vinte dias. Amparo começava a pensar muito no conde e pouco em Ernesto.

Quando a mulher faz comparações, a derrota de um dos comparados é infallivel. Vejamos como o conde de Loreto cahiu a fundo sobre o pintor.

Tudo estava preparado para as corridas.

A Imperatriz Eugenia, com toda a sua côrte, devia assistir.

D. Ventura tinha conseguido a peso d'ouro, alugar uma luxuosa caleche. Amparo mandára fazer uma elegantissima toilette. A festa promettia ser das mais brilhantes. Toda a aristocracia de sangue e de dinheiro se reunia n'aquellas corridas. Amparo desejava vivamente que Fernando ganhasse o premio. D. Ventura, pela sua parte, dizia:

—É uma questão de honra nacional.

Ao meio dia appareceu Fernando: estava pallido, nervoso; no rosto tinha marcados signaes de desgosto.

—Succedeu uma grande desgraça, exclamou.

—Morreu Rabeca? perguntou D. Ventura.{61}

—Não, respondeu, esforçando-se por se rir.

—Mas o que é? disse Amparo.

—O meu jockey que está doente e que não póde correr.

—É verdade que é um contratempo. Mas não se encontrará outro?

—Outro? exclamou o conde assombrado. E quem me responde pela sua habilidade, pelos seus dotes, pela boa fé de um jockey alugado? Todos os leões de Paris, todos os afficionados de equitação, que não são poucos, que frequentam á noite a Maison Dorée e á tarde o boulevard dos Italianos conhecem Rabeca e têem grande interesse em que fique vencida; e seriam capazes de comprar o jockey que n'ella corrresse, para que a sopeasse e perdesse. Demais isso é sériamente grave para mim. Se não corre a minha Rabeca perco cinco ou seis mil francos que apostei a noite passada com um lord que traz tambem um dos seus cavallos para a corrida de hoje. A aposta está feita com as seguintes condições: «Se por qualquer casualidade um dos cavallos não puder correr dá-se por perdida a aposta.» É preciso portanto que Rabeca corra, e por isso venho dizer-lhes que não os posso acompanhar, pois que sou eu quem a vae correr.

—O senhor? disseram ao mesmo tempo pae e filha.

—Sim, eu. Sei que é uma desvantagem para mim. O jockey do meu adversario pesa escassamente tres arrobas: é um liliputiano, um homem em miniatura, é o rei dos jockeys, emquanto eu péso muito mais. Mas não quer dizer nada: a minha egua fará um esforço e vencerá.

—Permitta-me que lhe diga, disse D. Ventura, que se expõe...

—Isso é o menos. Quando chegar á terceira volta, saltarei já affoitamente. Tenho confiança na egua.

E o conde, depois de algumas respostas dadas aos argumentos que lhe apresentavam os seus amigos, sahiu, despedindo-se d'elles.

Como se póde calcular o interesse de Amparo cresceu uns setenta e cinco por cento.{62}

CAPITULO X

A rosa de brilhantes

Uma hora depois, a caleche de D. Ventura estava parada quasi ao fim da pista.

D'aquelle ponto tinha a vantagem de vêr perfeitamente o cavallo que chegasse em primeiro logar á meta e estar proximo do camarote imperial onde o vencedor devia ir receber o premio.

Amparo, de pé sobre as almofadas da carruagem, com a mão esquerda appoiada no hombro do pae, percorria com o binoculo o pittoresco panorama que a rodeava.

Parecia-lhe impossivel que se pudesse reunir tanto luxo, tanta riqueza n'uma cidade.

Dizem os francezes que Paris é a capital do mundo civilizado, e em verdade assim é.

Quando a imperatriz Eugenia entrou no camarote, fez um signal com o lenço para que começassem as corridas, e ouviu-se então o sonoro som dos clarins.

Amparo sentia palpitar o coração com violencia; deixou de olhar para o camarote e viu na pista, no ponto por onde deviam entrar os concorrentes, o conde de Loreto.

N'aquelle momento daria tudo quanto lhe exigissem para conceder a victoria ao seu companheiro de viagem.

Pouco depois, ouviu-se o tropel que vinha do lado para onde se fixaram todos os olhares, e o precipitado e forte galope de muitos cavallos chegou aos ouvidos de Amparo como surdo rumor da tempestade que avança com rapidez.{63}

Começaram por admirar os cavallos; de todos os lados se ouviam bravos e gritos de enthusiasmo, misturados com exclamações de raiva.

Quando um cavallo passava adeante de outro, ouvia-se um rugido de raiva que exhalava o peito do vencido.

Entretanto aquella quantidade de cavallos, deitando espuma pela bôcca, fogo pelas narinas, avançava com uma velocidade vertiginosa até ao sitio onde estava Amparo.

Aquillo era um furacão de carne, empenhado pelo amor-proprio; parecia que arrebatava tudo.

Amparo tremia; estremecia, mau grado seu, procurando avidamente o conde de Loreto entre aquelles bonets de variadas côres.

Subitamente soltou um grito e fez com que D. Ventura, que contemplava boquiaberto aquelle soberbo espectaculo, voltasse a cabeça.

—Que é? perguntou elle.

—Alli, alli! exclamou Amparo. Vem á frente e traz n'uma mão o bonet e na outra o stick.

—Oh! meu Deus! Que loucura! Póde cahir.

N'aquelle momento o conde de Loreto passou pela frente da caleche de Amparo com velocidade de um raio. Mas apesar d'isso, cumprimentou-a com o bonet.

Amparo levou a mão ao peito como para conter as palpitações do coração.

Fernando levava pelo menos quarenta metros de avanço a todos os outros concorrentes.

Quando chegou á ultima valla, Rabeca saltou com tanta facilidade como se aquelle fosse o primeiro obstaculo. Um applauso geral resoou dedicado ao cavalleiro e cavallo.

O conde de Loreto ganhára a rosa de brilhantes e os cincoenta mil francos, e não tardou que não estivesse rodeado de admiradores e curiosos.

Fernando del Villar apertava a mão de alguns desconhecidos e cumprimentava os espectadores.

O lord approximou-se montando um soberbo cavallo de pura raça arabe.{64}

—Ganhou, senhor conde, disse apertando-lhe a mão. Esta noite espero-o para cear na Maison Dorée, não só para lhe pagar o que lhe devo, como tambem para lhe propôr um negocio, ácêrca da sua preciosa egua.

N'essa occasião approximou-se um dignitario da côrte a dizer-lhe que a imperatriz Eugenia esperava o vencedor.

O conde não esperou segundo convite: dirigiu a egua para o camarote real. Grande quantidade de cavalleiros o acompanharam.

Ao chegar, Fernando desmontou-se e foi introduzido no camarote pelo fidalgo.

—Disseram-me que era hespanhol, disse Eugenia em castelhano.

—Nasci na Andaluzia, senhora, respondeu o conde inclinando-se respeitosamente.

—Ainda bem, somos compatriotas. Aqui tem o premio que ganhou.

A imperatriz entregou-lhe um estojo de velludo. O conde ajoelhou-se para o receber, beijou a mão e sahiu do camarote.

Amparo não perdera o conde de vista nem um só momento. Quando viu que se dirigia para a sua carruagem, sentiu uma commoção desconhecida, como nunca tinha experimentado.

Fernando foi até ella, sorrindo-se.

—Bravo! bravo! exclamou D. Ventura, enthusiasmadissimo. Fazia o senhor muito bem, caro conde, em ter toda a confiança na valente Rabeca.

—É invencivel, disse elle. Tinha inteira segurança, de que, a não me succeder uma desgraça, o triumpho era meu.

E extendendo o braço, apresentou o estojo a Amparo, dizendo-lhe:

—Senhora D. Amparo, como sei que pedia a Deus para que me concedesse a victoria, como sei o interesse que tomou, ouso pedir-lhe que acceite como uma recordação d'este dia o premio que me acaba de offerecer a imperatriz dos francezes.{65}

Amparo pegou com mão trémula no estojo, e antes de ter tempo para responder uma só palavra de agradecimento por aquella amabilidade, o conde partiu a galope em direcção a Paris.

D. Ventura estava louco de alegria.

Amparo commovida, pallida, seguiu o conde com a vista.

—É um cavalheiro, disse o commerciante.

—Sim, papá; não se póde ser mais delicado.

—Mas, vamos vêr isso que tens na mão. Parece que não estás em ti.

E D. Ventura, notando que a filha corava, sorriu-se maliciosamente.

Amparo abriu o estojo: tinha um broche de brilhantes. Não se podia exigir mais gosto n'uma joia d'aquella natureza.

—Em verdade, é um bonito premio, disse D. Ventura, fixando os olhos no broche.

Amparo guardou silencio.



Sigamos o conde de Loreto, que, entregando a egua ao creado, tomou um trem de praça que o conduziu ao hotel do Louvre.

—Pódes dar-me os parabens, meu leal Francisco, disse o conde, abraçando o velho mordomo.

—Quer dizer que ganhou o primeiro premio!

—Não só o primeiro premio como tambem a aposta que tinha feito com lord Rutheney.

—Que grande alegria me dá, senhor conde, disse Francisco sem perder um só momento a sua peculiar gravidade. Temos gasto tanto dinheiro durante a viagem!

—Ahi vens tu com os teus malditos numeros.

—Senhor, o interesse que tomo pela casa faz com que muitas vezes tenha certas liberdades...

—Vamos, Francisco, não comeces a attribuir a ti faltas que não commetteste. Quando o meu pae morreu disse-me: «Nunca deixes Francisco; viu-te nascer, estima-te com idolatria e é honrado e leal.»{66} Desde então ainda não tive de que pense que não é tão grande como devia ser, em relação ao que gasto; mas que queres... quando estiver arruinado, quando me vir como vulgarmente se diz com a corda na garganta, então seguirei o teu conselho e casarei. E a proposito: Que tal te parece a filha do nosso companheiro de viagem?

—É extremamente formosa!

—E nada mais? perguntou o conde, sorrindo-se.

—E que tem doze milhões de dote.

—O que te traz preoccupado. Emfim, até lá veremos. Quem sabe se terás razão, aconselhando-me a que case! Mas, dá-me algum dinheiro; vou cear com alguns amigos á Maison Dorée e talvez se jogue.

—Hontem dei ao senhor conde tres mil francos.

—Sim, e hoje não tenho nem um centimo,

Francisco exhalou um suspiro, abriu a gaveta e deu tres notas de mil francos ao amo, dizendo:

—O tal inglez não pagará esta noite?

—É natural; mas não devo acceitar um convite com sentido no que me devem.

Fernando calçou as luvas, pôz o chapéu, pegou n'uma delicada bengala de canna da India, e sahiu.

A Maison Dorée é um dos taes estabelecimentos que só se encontram em Paris. Ponto de reunião da elegante e louca mocidade, centro d'esses seres felizes, sempre occupados em não fazer nada; come-se, joga-se e murmura-se, gastando dinheiro ás mãos cheias.

Ahi tudo se sabe, tudo se commenta; e mais de uma vez têem ficado a honra das mulheres da moda, de mistura com o Champagne e o Rheno sobre aquellas elegantes mesas.

O conde de Loreto estava convidado para jantar com o lord que fizera a aposta, que o esperava com pontualidade britannica.

Depois de cumprimentar, lord Rutheney tirou a carteira e entregou friamente os cincoenta mil francos que perdera.

—Senhor conde, antes que comecemos a jantar, e{67} segundo o costume inglez, de não fazer nada depois de nos levantarmos da mesa, vou propôr-lhe um negocio. Quer vender-me Rabeca? Dou-lhe por ella egual quantia á que me fez perder.

—Mylord, desejo conservál-a.

—Então não falemos mais no assumpto.

E pediu que lhes servissem o jantar.

Durante este, lord Rutheney fez elogios á egua do conde.

—É um precioso animal, dizia. Se me pertencesse, nas proximas corridas annunciadas em Londres, jogaria duas ou tres mil libras esterlinas com certeza de ganhar. Pena será se soffrer algum desastre.

Depois de jantar lord Rutheney e o conde de Loreto entraram no café.

Depois passaram á sala do jogo e o conde sentou-se proximo ao banqueiro.

Fernando jogava forte, mas com pouca sorte.

Meia hora foi sufficiente para perder quanto trazia comsigo.

Então voltou-se para o inglez que estava a seu lado ganhando mais de mil francos e disse-lhe sorrindo-se:

—Mylord, fica fechado o negocio: Rabeca é sua.

Lord Rutheney inclinou a cabeça em signal de approvação, e entregou ao conde cincoenta notas de mil francos.

Depois, tirou tranquillamente a charuteira e d'ella um havano e dirigiu-se pachorrentamente para a sala de fumo.

Sentou-se n'um commodo divan, e começou a saborear o delicioso charuto.

Proximo do sitio em que se achava o conde, fumavam quatro rapazes, conversando em voz alta.

Nenhum d'elles reparára, em Fernando.

—Desengana-te, Heitor, dizia um d'elles, o teu cavallo está muito longe de ser o que é a egua do hespanhol, e o arabe de lord Rutheney.

—Pois apezar da tua opinião, respondeu com voz alterada Heitor, garanto-te que se o meu jockey não tivesse sido um parvo, ganhava o primeiro premio.{68}

—A ti succede o mesmo que a Marco Antonio quando os seus gallos iam combater com os de Octavio Augusto, que perdia e para consolação á sua pouca sorte arranjava sempre uma desculpa. O cavallo de lord Rutheney levava ao teu mais de vinte metros de avanço. Emquanto ao do hespanhol não se fala, esse não era um animal, era um raio: nem mesmo o vento corria mais do que elle.

—Os hespanhoes, respondeu Heitor, em tom desdenhoso, têem nas veias um sangue mixto de godo e arabe, e não é para estranhar que saibam dar vantagens aos cavallos nas corridas. O conde de Loreto parecia um cigano correndo d'aquella maneira.

Fernando ao ouvir estas palavras, pôz-se de pé e pallido, com o olhar turvo e ameaçador, dirigiu-se para o grupo que falava de si e encarando o que acabava de falar, disse-lhe:

—O conde de Loreto sabe correr como um cigano e bater-se como um cavalheiro.

E dizendo isto, atirou uma luva ao rosto de Heitor, que se lançou sobre o seu antagonista.

Fernando extendeu o braço e deteve-o com incrivel facilidade.

Todos o rodearam.

Da parte do conde foi um creado chamar lord Rutheney.

—Que foi? perguntou elle.

—Quer ser meu padrinho?

—Como? Tem alguma pendencia?

—Sim, senhor. Este cavalheiro acaba de me insultar e tenho de me bater.

—Tem a escolha das armas.

—Cedo-a ao meu adversario: espero-o no café.

Pouco depois lord Rutheney reunia-se ao conde de Loreto.

—Já está tudo combinado, disse o inglez. Batem-se ao florete, ámanhã, ás oito horas da manhã, no bosque de Bolonha.

—Perfeitamente. Espero-o ás seis no hotel do Louvre.{69}

—É sufficientemente forte ao florete para se pôr na frente de um adversario que o escolhe para se bater?

—Manejo-o regularmente, e tenho pouco amor á vida; com estes dois requisitos não me devo arrecear d'um lance. Mas se me permitte, retiro-me. São dez horas: esta noite canta a Patti, e desejo ouvil-a, porque ámanhã mata-me o meu adversario.

Lord Rutheney conduziu-o na sua carruagem á Opera.

Quem visse Fernando na sua cadeira applaudindo com enthusiasmo a celebre Patti, não supporia que elle se ia bater no dia seguinte.

Á meia noite entrou no seu quarto do hotel do Louvre, sentou-se, accendeu um charuto, e dirigindo um olhar tranquillo a Francisco, disse-lhe:

—Ámanhã bato-me ás oito horas da manhã.

O mordomo recuou dois passos, e exclamou assombrado:

—Outra vez?!

—Sim, é a quinta. Quem sabe se será a ultima? Não é vontade minha; quando menos se pensa, um insolente ou um enfatuado atravessa-se-nos no caminho, insulta-nos, e a honra exige que nos batamos. Cinco vezes me tem succedido isso. Prepara, pois, os meus floretes, e deita-te. Ah! Esquecia-me. Ámanhã cedo, mandarás por um creado Rabeca a lord Rutheney; vendi-lh'a; e, verdade verdade, que isso me desgosta mais do que o duello.

Francisco fez um gesto como se fosse para falar.

—Não te inquietes, não te inquietes com reflexões inuteis; o duello é inevitavel. Quero dormir para estar fresco. Bôa noite. Acorda-me ás cinco e tres quartos.

E o conde principiou a deitar-se.

Francisco sahiu triste e preoccupado.

Alguns minutos depois o conde de Loreto dormia profundamente.

O honrado mordomo não se deitou: ser-lhe-ia impossivel dormir, e preferiu estar levantado.{70}

Ás cinco horas e meia entrou no quarto do amo.

O velho esteve-o contemplando por alguns momentos. Notava-se-lhe na triste expressão do rosto o estado do seu espirito. Receava pela vida do amo.

Por fim disse em voz alta:

—Senhor, são horas.

O conde abriu os olhos, bocejou, e, fixando um olhar somnolento no mordomo, disse:

—Nunca perdoarei ao meu adversario este delicioso sonho que me rouba. Que mau costume baterem-se de manhã!

Fernando vestiu-se com esmero, como se fosse fazer uma visita de cerimonia, com a differença de que em vez do frack ridiculo e incommodativo, vestiu uma sobrecasaca preta.

—Querido Francisco, disse o conde, dando o ultimo toque na gravata em frente ao espelho, se o meu adversario me matar, o que é provavel, mas não impossivel, tu te arranjarás como puderes, com os meus crédores; e visto o remanescente da minha fortuna ser para a avarenta da minha tia, a marqueza del Ramo, aconselho-te que fiques com tudo quando te seja possivel, porque não é justo que ao cabo de tantos annos de bons serviços, tenhas que procurar um novo amo, que indubitavelmente te não trataria como mereces. Agora faze o favor de dizer ao creado que me sirva o chá. Mylord não se póde demorar; são já seis horas, e é pontual até ao exaggero.

Effectivamente lord Rutheney, acompanhado de outro amigo, entrou no quarto.

—Creio, senhores, que temos tempo de tomar uma chavena de chá, disse o conde.

Rutheney olhou para o relogio.

—Os meus cavallos conduzir-nos-hão em menos de uma hora: temos tempo, isto é, podemos dispor de sessenta minutos.

—Creio que este cavalheiro, ajuntou o conde, indicando o companheiro do lord, será o meu segundo padrinho.

—É mister Carlos Bobbe, meu medico e meu{71} amigo; servirá, pois, de medico e de testemunha.

—Tanto melhor. Mas vamos ao chá.

O creado entrou trazendo uma bandeja com chavenas e pratos, que deixou sobre uma meza.

Mister Bobbe bebeu cinco chavenas de chá; lord Rutheney tres e o conde uma.

—Quando quizerem, meus senhores, disse Fernando, vendo que os padrinhos collocavam as chavenas na bandeja, como prova de que não queriam beber mais.

Fernando abraçou o mordomo, cujo rosto circumspecto e os olhos arroxeados o fizeram sorrir.

—Não receies, lhe disse; sahir-me-hei bem como das outras vezes. E partiu.

CAPITULO XI