Mais um
Quando Francisco ficou só, não poude conter as lagrimas; deixou-se cahir n'uma cadeira e chorou.
A dôr do mordomo era tão profunda, tão verdadeira que ao entrar o creado para o serviço, nem sequer deu pela sua presença.
O creado que servia seis quartos do corredor do segundo andar era um rapaz tão diligente como desembaraçado, e ao vêr o profundo pesar do velho creado do conde e que este sahira tão cedo, acompanhado de dois amigos, suspeitou tudo, mas em vez de dirigir a palavra a Francisco, julgou que era mais conveniente confiar as suas supposições ao hespanhol que occupava o quarto n.º 14, intimo do conde de Loreto. Assim, dirigiu-se para o quarto de D. Ventura e chamou-o.
D. Ventura ainda não perdera o costume de madrugar;{72} estava levantado e disposto a barbear-se. Abriu a porta, julgando que fosse o conde a propor-lhe algum passeio para aquelle dia, e encontrou-se com o creado e o seu eterno sorriso.
—Que ha? perguntou D. Ventura.
O creado falava, ainda que mal, o hespanhol, mas o sufficiente para se fazer comprehender pelos hospedes.
—Cavalheiro, disse elle, sei que sou um tanto indiscreto e importuno batendo tão cedo á porta de um hospede...
—Bem, bem. Que é? perguntou D. Ventura.
—Mas sei tambem, continuou o creado, que o senhor é o amigo intimo do senhor conde de Loreto.
—Sim, homem, sim, acaba.
—Pois bem, o senhor conde deve correr algum perigo, porque o vi sahir acompanhado de dois inglezes; e o mordomo do conde assim que elle sahiu, pôz-se a chorar amargamente. Não quero equivocar-me, mas julgo que o senhor conde vae bater-se.
—Diabo! Bater-se? Isso é grave!
—É muito, cavalheiro.
—Mas não sabes porquê?
—Só vi metter no trem os floretes.
D. Ventura sahiu precipitadamente do quarto, e entrou no do conde.
Francisco continuava prostrado na cadeira e com o rosto occulto entre as mãos.
—Que novidades temos? perguntou em voz alta D. Ventura.
O mordomo levantou a cabeça. Aquelle rosto veneravel estava decomposto pelas lagrimas e pela dôr: tinha uma expressão de profunda tristeza.
—É certo o que me acabam de dizer? É certo que Fernando foi bater-se?
—Desgraçadamente é certo, senhor D. Ventura.
—Diabo! Não sei para que se expõe a vida assim com tanta facilidade. Eu tive pelo menos, cincoenta mil questões, e nunca tive necessidade de me bater com pessoa alguma. Para que temos os tribunaes, se{73} fazemos justiça por nossas mãos? E demais, o que deu origem ao duello, valeria a pena?
—Não sei detalhes; só me disse que se ia bater; mas ia apostar em como o meu amo o não provocou, pois que o conde é incapaz de offender alguem. Oh! se o seu adversario o matasse era uma desgraça.
—Era, era! Mas tenho esperança em que não será assim. Ora o diabo do rapaz!...
E como o mordomo continuasse gemendo e suspirando, D. Ventura pôz-se a passear pelo quarto.
Assim se passou meia hora. Nenhum dos dois falava. D. Ventura pensou, por fim, que seria mais conveniente esperar o resultado no seu quarto do que junto do mordomo, cuja dôr o affligia duplamente.
—E a que horas saberemos o resultado? perguntou D. Ventura.
—Creio que ás nove, pouco mais ou menos.
—E são só oito! Mas, não se poderia dar parte ás auctoridades para evitar o duello?
—Se tal fizessemos, o senhor conde nunca nos perdoaria.
—Diz bem; não ha outro remedio senão esperar e conformarmo-nos com a sorte. Ora o diabo do rapaz! Vou vêr se a minha filha já se levantou, e peço-lhe que tão depressa saiba alguma cousa me avise.
O quarto de Amparo era separado do de seu pae por uma debil parede communicando por uma porta.
Amparo ouvira entre sonhos parte do que o creado dissera a D. Ventura.
Quando este entrou já estava levantada.
—Não me occulte nada, disse, quero saber tudo quanto se passa.
—Pois, filha, o que se passa é pouco agradavel. Fernando a esta hora bate-se em duello.
Amparo empallideceu e como se lhe faltassem as forças, sentou-se n'uma cadeira.
—Que é isso? Estás doente? Era só o que faltava.
—Não se assuste; não tenho nada.
—Nada! nada! Não me capacitas de que é sem{74} motivos que perdes as côres, commoveste-te, e isso é natural, muito natural, sim, senhora; porque demais, o conde é um joven que se faz estimar; e se tivessemos a desgraça de o perder, se o seu inimigo o matasse...
—Cale-se, papá, cale-se! exclamou Amparo estremecendo. Não diga isso nem a brincar.
—Sim, bôa brincadeira, não haja duvida! Ora o diabo do rapaz!
D. Ventura, depois de barbeado, assomava á porta a cada momento.
Nunca o tempo lhe parecera tão comprido.
Quando o relogio do quarto deu as nove horas, disse:
—Já se não póde demorar.
Como se estas palavras fossem como um amuleto magico, ouviram-se os passos de varias pessoas no corredor.
D. Ventura chegou á porta e não poude conter um grito.
—É elle? perguntou Amparo.
—É.
—E como vem? perguntou a medo.
—Perfeitamente, andando pelo seu pé. Ah! Louvado seja Deus!
E dizendo isto, sahiu precipitadamente do quarto, entrando no do conde.
—Venha um abraço, venha um abraço, exclamou.
O conde deixou-se abraçar.
—Com que então, foi feliz? perguntou D. Ventura com infantil alegria. Muito folgo, muito folgo.
Fernando dirigiu um olhar de censura ao mordomo, e deixando assomar aos labios um amargo sorriso, disse:
—Sabe então que me bati. Pois, visto isso, só me resta dizer-lhe que o lance foi desgraçado; teve graves consequencias.
—Como? Está ferido? exclamou D. Ventura.
—Não, infelizmente.{75}
—Não o comprehendo.
—Senhor D. Ventura, quando por uma d'essas nescias exigencias de decoro se batem dois homens e um d'elles morre no que chamamos campo da honra, o que sobrevive, o que torna para casa vencedor, traz uma espinha cravada na alma que permanece ahi toda a vida. Indubitavelmente alguma maldição está suspensa sobre a minha cabeça. Tenho má mão para desafios.
E o conde deixou-se cair n'uma cadeira, dando mostras do mais profundo abatimento.
—Conheço, senhor conde, que se deve ter um remorso muito grande em matar um homem, disse D. Ventura, mas, que remedio? Quando se tem em frente um inimigo armado que cubiça a nossa vida temos o dever de disputál-a.
Lord Rutheney pronunciou algumas palavras para tranquillisar o conde que parecia vivamente incommodado.
—Agradeço o interesse que lhes inspirei, disse Fernando; mas ao mesmo tempo, desejava que fizessem o favor de me deixarem só, pois estou fatigado e preciso descançar.
Era evidente que uma grande fadiga do espirito se apoderára do conde e os seus amigos retiraram-se.
D. Ventura entrou no quarto da filha a quem contou tudo quanto se passára, que com esse natural egoismo da mulher se alegrou profundamente ao saber que o conde se tinha sahido bem do lance de honra, visto ella não conhecer o infeliz Heitor morto no desafio, e unirem-na a Fernando relações de amizade que iam tomando o caracter de uma paixão verdadeira.
Entretanto, o conde de Loreto fechava-se no quarto, permanecendo o resto do dia sentado n'uma cadeira. Nem elle mesmo poderia dizer se o somno se assenhoreou d'elle algum momento.
Quando a obscuridade da noite se espalhou por todo o quarto, levantou a cabeça e disse:
—É uma desgraça que já não tem remedio; tenho{76} uma mão fatal. Esta é a quinta vez que causo a morte ao proximo e uma profunda dôr a um pae.
E passando a mão pela fronte, como se quizesse livrar-se dos tristes pensamentos que o preoccupavam, levantou-se e tocou a campainha.
Francisco, o mordomo, tão pallido, tão commovido como o amo, entrou com uma luz na mão.
—Bôas noites, senhor conde, disse deixando a vella sobre uma mesa.
—Bôas noites, Francisco. Já sabes; matei um homem.
—E todavia o senhor tinha-me dito que não mais se bateria ainda que o insultassem.
—É verdade; jurei não me bater, mas para que ninguem duvidasse de que sei defender o meu decoro, não me pude conter, e agora arrependo-me. Ah! se fosse em Hespanha não me tinha batido.
—O remedio que ha, disse Francisco, é esquecer o passado.
—Isso é mais difficil do que parece. Na memoria, como n'uma chapa d'aço, grava o buril do tempo todos os acontecimentos da vida. Só a morte tem o privilegio de os apagar. Mas tu disseste: já não tem remedio. Prepara tudo, que ámanhã sahiremos de Paris. Necessito, pelo menos, afastar-me d'esta terra.
—E para onde vamos, senhor?
—Para Hespanha.
—Está bem.
Fernando del Villar exhalou um suspiro e sahiu do quarto dirigindo-se ao de Amparo.{77}
CAPITULO XII
Como se pede
O piano é um grande recurso para aquelles que possuem e sentem na alma as doces e gratas impressões da musica, essa linguagem universal a que renderam tributo até os proprios deuses.
Amparo estava tocando. Tinha na estante a partitura da Estrangeira, mas os dedos percorriam machinalmente o teclado, e os olhos fixavam-se distrahidamente nas notas.
A musica para ella n'aquelle momento não era mais do que um grato ruido, adormecedor, como o sussurro cadencioso de uma fonte que convida á meditação.
Não pensava quasi nada no piano, muito pouco na partitura que tinha ante si, mas muito no conde de Loreto.
De Florença a Paris, isto é, trinta e seis horas de comboio, foram sufficientes para a formosa hespanhola se enamorar.
Antes d'esta viagem a casualidade collocára, ainda que momentaneamente, no palacio de Médicis, Fernando e Amparo; depois em Paris as corridas de cavallos e o duello reforçaram a ideia fixa que começava a dominál-a.
N'este momento Amparo estava só. D. Ventura sahira, depois de lhe contar tudo quanto sabia referente ao desafio do conde.
Tocava, pois, piano, pensando no seu companheiro de viagem, quando ouviu passos atraz de si; voltou a cabeça, e encontrou-se com Fernando que lhe dirigiu um cumprimento respeitoso e um sorriso cheio de tristeza.{78}
—Bôas noites, senhora D. Amparo. Talvez a venha incommodar, disse o conde.
—Incommodar-me? respondeu ella, parando de tocar. Pelo contrario. Bem vê que estou só... Meu pae é um valdevinos; abandona-me e então o piano é o meu recurso. Mas que tem? Está mais pallido que de costume, e noto-lhe uma expressão de tristeza na physionomia.
—Suppunha que não ignorava a desgraça que me succedeu hoje, e venho despedir-me.
—Como? abandona Paris?
—Ámanhã.
—Tão depressa.
—Pensava passar aqui alguns mezes, mas agora é-me impossivel; necessito vêr outro sol, respirar outro ar.
—E para onde vae?
—Para Hespanha.
—Então, sr. conde, não tardará muito que nos vejamos lá, porque, apezar de tudo, creio que o céu de Hespanha é o melhor de todos.
—Diz muito bem, e sobretudo quando no céu de Paris a imaginação preoccupada vê algumas manchas de sangue que perturbam o socego e roubam a paz de espirito.
—Verdadeiramente, é uma desgraça que as leis da honra imponham aos homens deveres tão desagradaveis. Meu pae contou-me tudo, e posso garantir-lhe que tão desgraçado acontecimento me penalizou bastante.
O conde sentou-se n'uma cadeira proximo do banco de Amparo.
—Não parece senão que me persegue algum genio fatal, disse elle, como se falasse comsigo. Quando o destino me colloca ante um homem com a arma homicida na mão, juro-o pela memoria de meu pae, sempre preferi morrer a matar, e expuz generosamente o peito ante o perigo, sem me preoccupar em evitál-o. Mas indubitavelmente uma força superior á minha vontade guia a minha mão, e sempre vejo{79} cahir sem vida o meu adversario. Só a primeira vez que me bati tive desejos de sahir vencedor; era uma creança, e a vaidade e o amor proprio cegavam-me. Então tive a desgraça de matar um amigo intimo, um antigo condiscipulo. Pobre Arthur! E sobretudo, pobre mãe aquella, em cujos olhos não mais se lhe sêccaram as lagrimas, até que a dôr a conduziu ao sepulchro!
O conde deteve-se. Bastava vêr-lhe o semblante, ouvir-lhe o timbre da voz para comprehender o estado do espirito. Amparo escutava-o interessada e sem se atrever a interrompêl-o.
O conde, mudando de tom, continuou.
—Com franqueza, não sou ridiculo? Vim despedir-me de V. Ex.ª, e estou-lhe contando historias que só a podem commover; mas ha dias em que se apodera de mim uma tristeza tão grande que não sei falar de outra coisa senão da minha vida passada, ou o que é o mesmo, dos meus remorsos, porque os sinto, senhora D. Amparo, e a minha sorte é duplamente desgraçada porque não tenho uma pessoa, que sendo depositaria das minhas amarguras, me console com os seus conselhos.
—Senhor Fernando, exclamou a joven verdadeiramente commovida, receando que só o desespero fosse o motivo da melancholia do conde; senhor Fernando, se julga que posso ser essa amiga, apezar da minha pouca experiencia do mundo, não me occulte nada e honre-me com a sua confiança.
—Senhora D. Amparo, ajuntou o conde com vehemencia, póde ser para mim o anjo salvador que me arranque do antro escuro em que me revolvo, conduzindo-me ao reino da luz e da felicidade; porque eu, qual judeu errante vagueando pelo mundo, necessito d'uma alma sensivel que me comprehenda, um coração bondoso que palpite com o meu e que se compadeça de mim. De que serve a mocidade e a riqueza? Preciso amar e ser amado. O bulicio do mundo não é sufficiente para distrahir a tenacidade do meu pensamento, a soledade da minha alma. Para{80} esquecer o passado necessito que comece para mim uma vida nova; é indispensavel regenerar o meu coração, porque não póde calcular a persistencia com que me persegue o infortunio. Um anno depois do meu desgraçado lance com Arthur a quem matei, estava na Italia, precisamente em Florença, no palacio de Médicis, defronte do grupo de Niobe onde a vi pela primeira vez...
O conde deteve-se, fez um brusco movimento com a cabeça, e exclamou:
—Só uma creança ou um louco seria capaz de entabolar similhante conversação; e talvez eu seja uma e outra coisa. Desculpe-me, minha senhora, e perdôe-me todas as loucuras commettidas esta noite; mas parto ámanhã, talvez que nos não tornemos a vêr mais, porque, já lhe disse, como o judeu errante percorro o mundo em busca de uma alma que me comprehenda, que se una á minha e que me dê parte da sua paz, da sua tranquillidade, da sua seiva. Ao vêl-a, disse: «É este o anjo que cubiço.» Mas creio-me indigno de merecêl-o; e já que o segredo do meu coração assomou aos labios, ainda que lh'o quizesse occultar, a senhora teria já comprehendido que a amo, e só me resta supplicar-lhe que não me guarde rancor por tanto atrevimento, e que me permitta antes de partir apertar-lhe a mão como amigo.
Se Amparo não tivesse verdadeira sympathia pelo conde, se não estivesse disposta a amal-o, necessariamente ter-lhe-hia parecido tão rara como incoherente a declaração que o conde lhe acabava de fazer.
Mas Amparo amava o conde, e não se enganava ao pensar que era amada por elle. Por isso, aturdida, trémula, com voz commovida e pouco firme, o olhar fixo no chão, extendeu a mão a Fernando e disse:
—Pois bem; se o senhor julga que depende de mim a sua felicidade, confie a meu pae, logo que elle volte, o seu segredo e partamos juntos para Hespanha.{81}
O conde soltou um grito, pegou na mão que Amparo lhe offerecia, e cobriu-a de beijos.
N'aquella noite o conde pediu a D. Ventura a mão da filha.
O honrado millionario mal poude dissimular a alegria que similhante pedido lhe causava. Era-lhe tão agradavel ouvir chamar á filha condessa!... Fraqueza por certo muito natural n'um homem nas condições de D. Ventura.
Mas, ainda assim, não se precipitou: ouviu com apparente serenidade o pedido, e concedeu o seu consentimento, depois de ouvida a opinião da filha.
Quando o conde sahiu, D. Ventura foi ao quarto de Amparo.
—Venho dar-te uma noticia surprehendente, inesperada, talvez agradavel.
—O que é papá?
—Que o conde parte para Hespanha.
—Já sabia.
—Já sabias?! E quem t'o disse?
—Elle proprio.
—Mas sabes que quer partir ámanhã, se isso lhe fôr possivel?
—Sim.
—E sabes tambem que me pediu a tua mão?
—Calculava tambem, meu pae, accrescentou Amparo, sorrindo-se.
—Por conseguinte atraiçoaram-me?
—O que perdoará, porque é muito generoso.
—Será possivel que todos os paes sejam malucos?
—Malucos só no preciso, isto é, d'alma e coração.
—Sim, sim. Mas, dize-me que lhe hei-de responder.
—Responda-lhe que sim, é o mais logico.
—E o casamento.
—Celebrar-se-ha em Madrid.
—Claro. Quem se casa em França residindo em Hespanha?
—Pois então já sabe; quando o conde lhe perguntar{82} pela resposta definitiva, diga que sim e é assumpto concluido.
—Mas olha, Amparo, agora que já se póde dizer que és a promettida esposa do conde de Loreto, vou contar-te uma cousa. Em Florença, suppuz que tu e Ernesto se amavam; mas assim é melhor; enganei-me, com o que muito folgo, porque, minha filha, n'estes tempos é mais acceitavel para marido um conde rico, do que um artista pobre. Ernesto pinta muito bem, mas não tem uma peseta.
Amparo ao recordar-se de Ernesto commoveu-se; mas a commoção foi passageira, como a ave que cruza sobre a nossa cabeça para não mais voltar.
Dois dias depois, um compartimento de primeira classe conduzia a Hespanha com a velocidade da locomotiva os nossos conhecidos. Era o dia 28 de junho.
CAPITULO XIII
Os tres amigos
Dois mezes depois dos ultimos acontecimentos que acabamos de narrar, isto é, no dia 1 de setembro ás seis horas da manhã, dois rapazes passeavam na gare da estação do sul, esperando o comboio correio de Alicante.
—Garanto-te, dizia um d'elles, que Ernesto traz um grande quadro.
—E eu concedo-lhe o primeiro premio, ainda antes de o vêr.
—Tem muito talento.
—Sim, mas segundo pude perceber nas suas ultimas cartas, está enamorado.
—O amor abre muitas vezes o caminho.{83}
—Quando nos não conduz a precipicios horriveis.
—Isso tudo depende da mulher que o inspira.
—Dizes bem; ella faz do homem ou um heroe ou um parvo, mas quasi sempre o segundo caso.
—Não te concedo voto no assumpto.
—Como! Collocas-me fóra das leis do sentimento humano?
—Sim, porque és um exaggerado e odeias o sexo fraco.
—Tenho motivos para isso. Procurei estudar a mulher e estou convencido de que para ellas o mais importante é a exterioridade. Uma gravata bem posta, brilhante e bem feita bota de polimento; n'uma palavra um dandy adamado e escravo da moda, e que tenha o cabello sempre bem apartado, tem muitas probabilidades de ser amado; emquanto que um homem de verdadeiro merito, que cuide mais da sua intelligencia do que do seu traje, fica sempre derrotado em questões de amor. A historia apresenta-nos milhares de exemplos: todos os homens que honraram a sua patria não tiveram a quinta parte das aventuras amorosas de Lovelace, cuja arte se reduzia em fazer olhares ternos e trazer magnificas fivellas de prata nos sapatos.
—Ovidio foi amado por uma princeza.
—Quase esqueceu d'elle ao vêl-o n'uma masmorra.
—Tasso foi amado por uma fidalga.
—Que lhe não mandou nem um simples coto de vela quando por sua causa estava no calabouço escrevendo, Jerusalem libertada. Mas tu só me dás dois exemplos. Olha, André, Cesar foi o primeiro da sua epocha, a grande figura de Roma, e comtudo, a sua mulher, Pompeya, preferiu-lhe um imberbe creançola, Publio Clodio, que se vestia de mulher para pôr ao conquistador do mundo, uma corôa que não era por certo de louro. Pobre Cesar! Como era calvo, a sua cabeça estava sempre ameaçada.
Os que assim matavam o tempo esperando o comboio, era um poeta a quem conheceremos pelo nome de Marcial e um pintor que se chamava André, ambos{81} amigos intimos de Ernesto e a quem este remettêra de Alicante um telegramma avisando-os da sua chegada.
Marcial e André viviam juntos n'uma mansarda da rua do Prado, tinham um creado para ambos e comiam no café Suisso.
O unico patrimonio de Marcial era a penna; a fortuna de André, os pinceis. Os dois amigos tinham passado a fatal epocha de bohemios e tanto Marcial com os seus dramas; como André com os seus quadros, ganhavam o sufficiente para viver bem e serem muitas vezes a Providencia de alguns companheiros.
Mas continuemos na gare, que não tardará que visitemos a mansarda da rua do Prado.
O agudo silvo da locomotiva annunciou aos dois amigos que o comboio entrava nas agulhas; deixaram, pois, a discussão e dispuzeram-se a abraçar Ernesto.
Effectivamente chegou o comboio, e n'elle Ernesto, que se lançou nos braços dos seus amigos.
—Agora que já te abracei, digo que te acho muito abatido, disse Marcial.
—Effectivamente, estavas melhor quando partiste de Madrid, ajuntou André. Roma continúa a ser uma cidade doentia.
—Pois estou bom, completamente bom, e com um appetite devorador, respondeu Ernesto; mas, quando se vôa de Roma a Civita-Vecchia, de Civita-Vecchia a Marselha, de Marselha a Alicante, de Alicante a Madrid sem descançar nem uma noite, e quando de mais temos a infelicidade de enjoar no mar, creio que se não póde exigir a um corpo como o meu, magro e doente, que se apresente ante os seus amigos com as bochechas e a barriga de Sancho.
—Mas porque não vieste por Paris?
—Tinha pressa de chegar a Madrid, e receei demorar-me na capital do visinho imperio mais do que podia. E bem sabes que breve se fecha o praso para a apresentação dos quadros; chego, pois, a tempo. Arranjaram-me casa?{85}
—Tens a nossa. Nós temos casa.
—Tenho quarto?
—Viverás como um principe desthronado, não te apoquentes.
—Conduzam-me, então, para onde quizerem.
—E a tua bagagem?
—Reduz-se a uma mala, dois caixotes com quadros, e a tela que venho expôr, que vem enrolada em um cylindro de madeira. Aqui está a guia.
—Dá-m'a. Pepe encarrega-se de tudo. É um rapaz muito esperto.
Os tres amigos sahiram da estação, entregaram a guia ao creado que se chamava Pepe, e subiram para um trem.
Para chegar á mansarda dos artistas era necessario subir noventa e seis degraus.
Uma vez vencida a difficuldade dos noventa e seis degraus, a mansarda occupada pelo pintor e pelo poeta era alegre como uma manhã de maio.
Alli respirava-se o ar puro; d'alli o céu parecia mais azul e a vista espairecia contemplando as arvores do Retiro e do Prado.
André fizera da sala o seu atelier, onde tudo se encontrava n'uma desordem encantadora e propria do genio.
Marcial reservara a saleta para escriptorio. Ficava ainda a casa de jantar bastante grande, outra sala, dois quartos e a cosinha.
A segunda sala estava adornada com moveis alugados para receber Ernesto.
Devemos advertir que era uma d'essas mansardas decentes, que têem fogão em todas as casas, e que rendem ao senhorio oito mil reales por anno.
Quando os tres amigos se installaram na sala que servia de atelier a André, este disse:
—Aqui tens o nosso palacio, que de hoje em deante será tambem teu, se é que desejas viver comnosco.
—Está claro! Acceito uma parte da casa, porque{86} vejo que têem um grande atelier e admiraveis luzes para trabalhar.
—O que quer dizer que vens disposto a continuar com os pinceis.
—Bem sabes que são elles o meu unico patrimonio.
—Ai! Ernesto, por desgraça, em Hespanha a pintura pouco rende.
—Bem sei; mas trabalhando muito, espero não morrer de fome.
—Morrer de fome, estando comnosco!? exclamou Marcial. Isso não é facil; aqui os bens são communs e d'esse modo nunca nos falta nada. Demais o teu quadro será premiado, tu ficas rico, garanto-t'o eu.
—Não confio em promessas de poetas.
—O tempo te convencerá de que laboras n'um erro. Mas tratemos de outra coisa. Que tal te déste em Roma?
—Bem como sempre. Roma é a minha patria.
—Sim, é a patria dos artistas. Mas agora dize-me com franqueza, tu tiveste o mau gosto de te enamorares?
—Meu caro Marcial o amor não é outra cousa do que uma contribuição que todos pagamos, mais tarde ou mais cedo.
—Em boa hora o fosse. Eu procurarei pagál-o o mais tarde possivel. Mas com o direito que me concede a boa amizade, permitte-me que te continue a interrogar.
—Pergunta o que quizeres.
—Amas?
—Creio que sim.
—Vamos vêr. Quantos graus attinge o teu amor?
—Muitos, respondeu Ernesto, sorrindo-se.
—E quem é ella?
—Se me permittem, guardarei segredo.
—Não ha inconveniente; mas sem dar nome ao santo, creio que nos pódes dar alguns pormenores.
—Isso é diverso.
—É nova?{87}
—Vinte annos.
—Formosa?
—Como o mais bello sonho d'um pintor.
—Bem, bem, a arte deve ser irmã da belleza. É rica?
—Sim, por meu mal.
—Diabo! Isso não se explica.
—Digo por meu mal, porque se fosse pobre como eu, já seria minha mulher.
—Tão enamorado estás?
—Para que negál-o? Não tenho segredos para vocês, que são os meus unicos amigos: amo-a com toda a minha alma.
—De fórma que, quando terminar a exposição, regressas a Roma.
—Não, porque ella vive em Madrid.
—Anh! Isso é diverso; do mal o menos. Esperamos que nol-a apresentarás quando já não fôr segredo o teu amor.
—Prometto-o, tão depressa alcance o consentimento do pae. Por agora só lhes peço uma cama onde me deite algumas horas, porque estou muito moido.
—Tens razão, vem. Nós mesmo te vamos acompanhar ao quarto que te reservámos, mas não consentimos que durmas até muito tarde, porque convidámos uns amigos para almoçar.
—Acordem-me quando quizerem.
Um quarto de hora depois dormia docemente emballado pela gloria e pelo amor.
Pobre Ernesto! Como estava longe de imaginar a volubilidade da creatura a quem entregára toda a sua alma n'um só beijo!{88}
CAPITULO XIV
Curiosidade não satisfeita
Emquanto Ernesto dormia, os seus amigos collocaram convenientemente a tela que o pintor trouxera de Roma.
—Magnifico! exclamou Marcial ao vêl-a. Estou crente que na Exposição não apparecerá nada melhor.
—É uma grande obra, ajuntou André, contemplando o quadro com olhos de entendedor. Ernesto obtem o primeiro premio.
—Mas espera. Já vi esta cabeça de mulher em alguma parte, disse o poeta fixando uma das figuras do primeiro plano, que representava a rainha Esther.
—Eu tambem, ajuntou o pintor.
—Recordemo-nos onde.
Mas de repente deu uma palmada na testa, e exclamou:
—Espera, já sei! Esta cabeça não é outra senão a de uma menina que conheço e que mora em Madrid. É a filha do milionario D. Ventura d'Aguillar.
—Ah! Sim! Aquelle sujeito que vem muito ao Suisso e que é tão amigo dos artistas.
—Esse mesmo.
—E que faz esse senhor?
—Não o vejo desde o inverno passado. Deve andar viajando.
—Preoccupações dos ricos durante o verão.
—Sabes que examinando este magnifico retrato me assalta uma suspeita?
—Qual é?{89}
—Que seja a linda Amparo o amor de Ernesto.
—Tambem me parece que tens razão em o suspeitares, visto que não ha muito ainda nos disse que ella era rica.
—Decididamente está decifrado o enigma.
—Sendo assim, sou de opinião que Ernesto deve dar, o mais breve possivel, o nó gordio.
—Nunca! Um artista de merecimento, um homem de talento deve ser solteiro toda a vida; o matrimonio é um obstaculo para a sua gloria.
—Seja como fôr, o quadro é admiravel.
—E devemos confessar que Ernesto será uma gloria nacional.
—O quadro produzirá um effeito grandioso; tambem eu não esperava menos.
—Se Ernesto encontrasse um Cosme de Médicis, tinha a fortuna feita.
—Desgraçadamente para os pintores aquelles tempos passaram.
—Sim, dizes bem.
Ás onze horas chegaram tres amigos de Ernesto, pintores tambem, que estavam convidados para almoçar com Marcial e André.
Ernesto continuava dormindo, somno que se respeitou durante meia hora que passaram entretidos a contemplar o quadro.
Por fim decidiram-se a despertar o hospede, e Ernesto deixou a cama entre applausos, felicitações e abraços dos amigos.
Tudo sorria em volta de Ernesto, e elle pensava de si para si:
—Hoje estou com os meus amigos; ámanhã... oh! ámanhã irei vêl-a ao seu palacio de Caramanchel.
Ernesto ignorava que Amparo tivesse morrido para elle.
Os seis amigos foram para o restaurant do Arminho, onde estava encommendado o almoço.
Os poetas e os pintores são tão pobres de dinheiro como ricos de imaginação. Quando a venda de um{90} quadro ou a estreia de uma peça lhes rende algum dinheiro, gastam-no alegremente com o mesmo desprendimento de principes. Ao acabar-se o ultimo centimo puxa-se pela intelligencia e cria-se outra obra. Assim passam a vida esses sonhadores, esses filhos do genio que vivem acariciados pelo sopro da gloria e pela interminavel melodia das suas illusões.
O restaurant do Arminho hoje já não existe; ha ainda pouco tempo que fechou as suas portas, convertendo-se no de Madrid. Mas seja como fôr, occupemo-nos do primeiro.
O Arminho no seu pequeno, mas elegante recinto, não era frequentado por pobres ou economicos. O serviço era á lista, e os pratos caros, mas bons.
Os frequentadores sabiam que um simples almoço lhes custava um par de duros, mas sabiam tambem que era preciso pagar, não só os manjares que depositavam no estomago, como as gravatas brancas dos creados e o serviço de prata em que eram servidos.
N'uma grande cidade como Madrid ha o costume de se atirar o ouro por um lado, emquanto que do outro alguns desgraçados morrem de fome.
Marcial encarregára-se do almoço. N'aquelle dia os estomagos dos amigos estavam á sua disposição. Escreveu n'um papel os quatro pratos fortes de que devia compôr-se, deixando ao gosto do cosinheiro do restaurant as sobremezas e os vinhos.
Os seis jovens, alegres e cheios de illusões, tinham bom apetite; comeram como quem não sente remorsos na consciencia, falaram de pinturas, de theatros, de mulheres.
Ernesto ouvia com certa satisfação os seus amigos; fallava menos do que elles sem duvida, porque tinha a imaginação mais preoccupada.
Quando chegou o Champagne, o vinho da alegria, do amor, quando começaram os brindes e os epigrammas picantes. Marcial levantou-se com um copo na mão, e disse:
—Brindo pelo original que serviu de modelo ao{91} nosso amigo para pintar a formosa figura de Esther no quadro que será a admiração de Madrid.
Todos esvasiaram os copos.
—E se essa figura que tanto celebras fosse uma creação minha? disse Ernesto, sorrindo-se.
—Então, respondeu Marcial maliciosamente, brindo pellas bellas creações do teu genio, e se alguma vez tiver a triste ideia de me casar, pedir-te-hei primeiro que pintes uma mulher a teu gosto, e juro-te que não consumarei o sagrado laço do matrimonio sem que encontre uma de carne que seja egual á do teu retrato. Mas, que queres, parece-me que já vi a tua Esther com trajes á moderna.
—Estás enganado, respondeu Ernesto com embaraço.
—Senhores, disse André, levantando-se, eu, em nome da fraternal amizade que nos une, peço que respeitem o silencio do nosso amigo.
—Pois eu, pelo contrario, peço que nos conte todos os seus segredos, exclamou um dos convidados. Entre amigos como nós, tudo é commum, até os segredos.
—Tem razão. Ernesto não deve ser avarento dos seus segredos, já que nunca o foi da sua bolsa.
—Fala!
—Conta-nos o que fizeste em Roma desde o dia em que pisaste a cidade eterna, até ao momento em que partiste para nos trazeres o melhor quadro que verão os contemporaneos.
—Sim, conta-nos a historia dos teus amores.
—Basta, senhores! exclamou Ernesto, estendendo os braços para restabelecer a ordem. Quem diabo lhes disse que estou enamorado?
—Foi Marcial.
—É uma calumnia.
—Podemos provar-te o contrario.
—De que maneira?
—Apresentando-te o original da tua Esther.
Ernesto estremeceu.
—N'esse caso, só se poderia attribuir a uma casualidade, disse inquieto.{92}
—A amizade não deve ser exigente, disse André desejoso de livrar o seu amigo d'aquelles apuros. Visto que Ernesto não conta, respeitemos o seu silencio, e tomemos café.
—Sim, sim; tomemos café, ajuntou Marcial, e com pouco assucar, para que allivie um pouco a cabeça, dissipando os vapores do vinho!
—Isso é um insulto; chamas-nos piteireiros.
—Póde ser que tenhas razão, disse outro. Apesar de tudo, o piteireiro é um ser feliz.
—Que seria dos homens se não existisse o vinho?
—Uma sociedade de paes graves.
—Um vasto cemiterio.
—Viva o vinho!
—E os homens despreoccupados, que se não importam de se embriagarem!
—Viva a Inglaterra, onde a embriaguez é respeitada.
—E está na ordem do dia.
—Ah! Nós, os hespanhoes, somos uns hypocritas; criticamos os piteireiros, mas bebemos vinho.
Desde aquelle momento a conversa dos seis rapazes foi tão animada, tão alegre, que nos seria difficil reproduzil-a.
Contos, anecdotas, escandalos da capital, tudo serviu de assumpto, em redor d'aquella mesa, onde fumegava a digestiva moka e o estomacal cognac.
Ás seis da tarde abandonaram o restaurant, e dirigiram-se para Castelhano. Necessitavam respirar o ar fresco do campo.{93}
CAPITULO XV
Carta interrompida
Penetremos na encantadora quinta que D. Ventura possuia em Carabanchel de Arriba; mas não nas elegantes e luxuosas habitações, pois que Amparo que é quem procuramos, está n'um caramanchão situado no extremo de uma recta e larga rua formada por altos e copados castanheiros da India.
Para que o leitor se inteire de tudo o que succedeu desde que perdeu de vista a formosa herdeira de D. Ventura, bastará dar-se ao incommodo de lêr a carta que Amparo escreve a uma amiga intima e antiga condiscipula.
Leiamos, pois:
«Minha querida Luiza
«Desde o dia do meu casamento com o conde de Loreto, isto é, ha um mez, nem tu sabes o que tem sido de mim nem eu sei nada de ti. Agora que meu marido me deixou, pois alguns negocios o prendem todo o dia em Madrid, vou dar-te parte da minha vida.
«Escrevo-te, ouvindo o canto das aves sobre a minha cabeça, e aspirando o perfume do jasmim e da madresilva. A minha alma necessita da doce quietação que me rodeia, para poder expressar-te toda a immensa felicidade que sinto.
«Ah! Luiza, já sei que amas um homem, e que és egualmente amada por elle. Porque{94} se não casam? E porque não veem para o campo?
«Ignorava que no coração d'uma creatura o amor infundisse uma felicidade tão ineffavel como a que experimento. É bem verdade que Fernando, meu marido, é o melhor dos homens.
«Se visses a maneira amavel e obsequiosa que tem sempre para commigo! Eu sou, por assim dizer, a rainha absoluta d'este pequeno paraizo. Meu pae ri-se do que chama caprichos de menina amimada, e Fernando approva immediatamente, tendo por logico e natural até o mais estranho e excentrico.
«Muitas vezes pergunto a mim propria se esta felicidade poderá durar muito. Mas porque não ha de durar? Quando o amor é verdadeiro, dura tanto como a vida. Que digo? Mais do que a vida, pois acompanha a alma até á eternidade.
«Mas vou-te falar de Fernando a quem só conheces superficialmente. Imagina, querida Luiza, um rapaz bonito, com um coração de anjo, a quem os genios da musica e da pintura bafejaram em creança, pois que Fernando é musico e pintor.
«Toca orgão de uma maneira admiravel, e desenha quasi tão bem como Gustavo Doré, cujos bellos trabalhos conheces.
«Junta a isto uma bondade sempre disposta a comprazer e poderás imaginar quem é o homem que me coube por sorte para companheiro de toda a minha vida.
«Demais, Fernando tem uma conversação que fascina.
«Quando de noite passeamos pelo jardim de braço dado, deleita-me ouvir-lhe os planos que formulou para que a minha felicidade seja mais duradoura.
«Se soubesses as viagens encantadoras que projecta para a proxima primavera!...»{95}
Estava a carta n'este ponto, quando Amparo ouviu pronunciar o seu nome; levantou a cabeça e não poude conter um grito.
Tinha na sua frente, seu pae e Ernesto.
D. Ventura, alegre e risonho como sempre; o pintor pallido como um cadaver.
Amparo ao vêl-o, deixou cair a penna da mão, exclamando:
—Ah! é o sr. Ernesto!
—Elle proprio, respondeu D. Ventura, collocando familiarmente uma mão no hombro do pintor. Surprehendeste-te, não é verdade? Pois olha que a mim tambem me succedeu o mesmo, apezar de o esperar mais dia, menos dia, visto a exposição abrir em meados do mez.
Durante este curto dialogo, Ernesto guardou silencio. Os olhos tinha-os fixos em Amparo e os labios entre-abertos deixavam assomar um sorriso tão amargo como doloroso.
Amparo por sua parte, parecia perturbada. A presença inesperada de Ernesto produzira-lhe um effeito desagradavel. Nos olhos d'aquelle homem estava o ameaçador olhar do amante offendido.
Aquelle homem era para ella um terrivel presagio, um vivo remorso. Desejava estar a cem leguas d'alli.
—Sem duvida, que viemos importunar esta senhora, disse Ernesto procurando dominar-se.
—Não, senhor Ernesto; escrevia a uma amiga, e tenho tempo. Só á noite é que parte o correio.
—Demais, disse D. Ventura, o senhor não é uma visita importuna para nós, mas um bom amigo a quem tratamos com o maior prazer e recebemos sempre com satisfação. Se assim não fosse commetteriamos uma ingratidão. De fórma nenhuma se esquecem facilmente as nossas excursões por Florença e Roma.
Innocentemente D. Ventura feriu no mais recondito o coração da fllha.
—Creio, senhor Ernesto, que concluiu o seu quadro que vimos começado em Roma, disse Amparo.
—Sim, minha senhora, concluio-o, e espero depois{96} de ámanhã, requerer um logar para a proxima exposição.
—Onde iremos admiral-o e orgulharmo-nos, porque somos amigos do pintor, ajuntou D. Ventura.
—Quem o duvida?
—Mas dize-me: onde está o teu marido. Desejava apresentar-lhe Ernesto.
—Fernando foi esta manhã a Madrid e não volta senão á tarde.
—É pena; mas tudo se póde remediar, ficando Ernesto e almoçando comnosco.
Decididamente D. Ventura parecia disposto a atormentar a filha.
Ernesto comprehendeu que Amparo desejava vêr-se livre da sua presença, mas a noticia inesperada do seu casamento, causára-lhe tão terrivel effeito, que acceitou o almoço que lhe offerecia D. Ventura, só pelo prazer de atormentar aquella coquette que brincára com o seu coração para depois o despedaçar.
O almoço ia ser egualmente terrivel para os dois, mas Ernesto devorado pelo ciume, pela raiva, pelo desespero, estava resolvido a soffrer tudo.
Acceite o convite, D. Ventura, que não sabia estar quieto em parte alguma, teve ainda outro ensejo mais lamentavel para atormentar a filha do que os anteriores.
—Ernesto é como da familia e como fica para almoçar, vou dar as ordens necessarias e escrever duas cartas; passeiem pelo jardim, que eu venho buscal-os depois.
E dizendo isto dirigiu-se precipitadamente, para casa.
N'aquella occasião Ernesto daria a D. Ventura, a vida, e até a gloria; tinha necessidade de falar com Amparo sem testemunhas, de ouvir uma explicação da sua conducta; e demais, continuar o fingimento, a dissimulação, seria impossivel.
Quando n'um peito cheio de juventude e apaixonado se levanta essa terrivel tempestade do ciume, é difficil{97} dominál-a, chega o momento em que, esquecendo-se dos deveres sociaes, estala e produz um conflicto.
Ernesto, ao vêr-se só, suspirou com força.
Amparo comprehendeu a sua situação e conhecendo o generoso coração de Ernesto, juntou as mãos, deixou assomar aos olhos duas claras e transparentes lagrimas e com voz commovida, disse:
—Pela memoria de sua mãe, pela recordação d'aquellas noites imprudentes de Florença, rogo-lhe, Ernesto, que se esqueça de tudo e me perdôe.
O pintor fixou um olhar intenso, sinistro, n'aquella mulher que nunca lhe parecêra tão bella, e dominando-se, mas estremecendo ao mesmo tempo, como se o fosse a acommetter um ataque nervoso, disse:
—Perdoar, é facil; basta ter um coração grande e generoso; esquecer é impossivel, senhora, quando se tem uma alma como a minha, quando se sente na bôcca o fogo de um beijo que ha de causar a minha desgraça e a minha morte.
E levando a mão á cabeça, em tom desesperado, exclamou:
—Tudo isto é um sonho! É impossivel que isto seja realidade! Que mal fiz a esta mulher, para que depois de mostrar-me o céu, me lance no abysmo do desespero?
—Ernesto, senhor Ernesto, por piedade. Conheço que fui uma imprudente, que sou culpada, mas que quer...
—Senhora, exclamou Ernesto com dignidade, ha procedimentos, que nem Cicero com toda a sua eloquencia, poderia explicar satisfatoriamente, e o seu, é um d'elles; e, se eu, vendo-me enganado, me quizesse vingar, se eu n'este momento em que a vida me é indifferente, commettesse um d'esses crimes que lança o desespero nos homens, seria mais desculpavel ainda ante os homens do que a senhora ante a sua consciencia.
—É verdade, é verdade! murmurou Amparo, escondendo{98} o rosto nas mãos. Póde-me matar se lhe apraz.
—Não tenha medo; tenho bastante coragem para receber a morte sem me defender. Até ainda ha pouco a esperança, essa bella flôr da vida que tudo embelleza, esse grato perfume da alma, acariciou o meu coração, porque a luz d'uns olhos que outr'ora se fixaram nos meus cheios de ternura, illuminava todo o meu sêr; mas, agora, encontro-me subitamente mergulhado na mais profunda escuridão. Foi tudo um sonho, tudo uma mentira; a senhora nunca me amou; as noites de Florença foram momentos passageiros de delirio, entretenimento de mulher coquette, esmola concedida por uns labios lisongeiros, falso ouropel que tive a veleidade de receber por ouro puro; e emquanto recebia um beijo falso, dava a minha alma inteira. Ah! Que louco fui! Se ao menos tivesse tido compaixão de mim, se se tivesse dignado escrever-me uma carta, dizendo-me: «Ernesto, esqueça tudo quanto se passou entre nós; vou casar-me com o conde de Loreto, meu pae exige-o, é um compromisso que não posso evitar...» uma desculpa qualquer, uma mentira ao menos, porque ha mentiras desculpaveis porque nos fazem bem... Mas não; a senhora, pelo contrario, guardou silencio, e eu continuava alimentando as minhas illusões. Hoje chego a esta casa com a alma repleta de amor e de esperança e o seu pae diz-me com a mesma frieza e indifferença como se me falasse de um dos seus negocios: «Amparo casou com o conde de Loreto.» Comprehende, senhora, o effeito que em mim produziu esta noticia? As palavras não matam porque eu ainda vivo.
Amparo chorava. Só então comprehendeu a gravidade da sua imprudencia. O conde de Loreto fascinara-a: desde o dia das corridas em Paris amava-o de toda a sua alma, mas se antes de casar ouvisse as justas recriminações que lhe dirigia Ernesto, não teria pronunciado o sim de esposa junto ao altar.
Mas o coquettismo, essa arma terrivel da mulher, quando esgrimida contra um coração enamorado e{99} sensivel, dera os seus terriveis fructos e jé era tarde para retroceder.
Por isso Amparo não encontrava palavras com que se defendesse, com que se justificasse.
N'estes casos, a mulher tem dois caminhos; ou rir-se do amante enganado, ou confiar na sua generosidade e pedir-lhe perdão.
Amparo nem por sonhos pensou no primeiro caso; conhecia bem o amor de Ernesto e a bondade do seu coração; por isso appellou para o segundo recurso, e, levantando a cabeça, apresentou ante os olhos do pintor o seu rosto interessante, formoso e pallido, e, derramando lagrimas, disse:
—Pois bem, sim, Ernesto; fui uma coquette, uma imprudente, uma leviana. O meu procedimento não tem desculpa; mas amo o meu marido e preferiria cem vezes a morte a faltar ao que a minha honra e os meus deveres de esposa me impõem. Se não é bastante generoso para perdoar, mate-me, antes que Fernando conceba a menor suspeita, e antes que a mais pequena nuvem empanne a sua felicidade, prefiro morrer. Mas o senhor é bom e terá dó de mim.
Ernesto começava a sentir-se enternecido. Amava tanto aquella mulher que não se sentia com coragem para lhe negar fosse o que fosse. Amparo aproveitava-se das vantagens que ia conquistando.
—Sejamos, pois, amigos, como nos primeiros dias em que nos conhecemos; irmão, se quizer, mas perdôe-me e esqueça-me... não será tão cruel que m'o negue.
—Amparo, a senhora não póde imaginar o sacrificio que me pede; mas faz bem em confiar em mim. Como poderei ser a causa da desgraça da mulher que amo de toda a minha alma? Perdôo-lhe todo o mal que me fez, mas esquecer... é impossivel. Para amar não é preciso ser correspondido. Mas para que prolongar por mais tempo uma scena que me despedaça o coração? Adeus, minha senhora, seja feliz, viva socegada, porque entre os dois abriu-se, desde hoje, um abysmo, no fundo do qual estão sepultadas{100} todas as minhas illusões, toda a minha felicidade.
E Ernesto sahiu do caramanchão como o demente que arrebatado pela vertigem do seu doente cerebro não sabe para onde caminha.
O primeiro movimento de Amparo foi detêl-o; porém conteve-se, calculando que ia commetter uma segunda imprudencia, e de mais graves consequencias do que a primeira.
Uma vez só procurou serenar-se.
—Pobre Ernesto! disse ella, enxugando as lagrimas. Nunca imaginei que fosse tão grande o seu amor. Ah! Tem muita razão para me odiar. Foi uma imprudencia.
E, recordando-se de que uma só palavra de Ernesto poderia perturbar a sua felicidade, exclamou:
—Meu Deus! Permitti que esse homem não seja assaltado pela terrivel paixão da vingança.
Amparo fixou o olhar na carta que escrevia tão alegre, poucos momentos antes, á sua amiga, e não tendo paciencia nem socego n'aquelle momento para concluil-a, guardou-a na carteira do seu estojo de viagem.
Quando o pae voltou, Amparo estava quasi socegada, ou pelo menos fingia, para que se não suspeitasse nada da scena que acabára de dar-se n'aquelle logar.
—Aonde está Ernesto? perguntou D. Ventura.
Rapidamente imaginou uma desculpa que motivasse a precipitada fuga do pintor.
—Ernesto, disse, acaba de sahir.
—Mas, volta para almoçar?
—Não; disse-me para lhe pedir desculpa de se retirar, mas havia-se esquecido de que tinha uma entrevista importante em Madrid ás duas horas da tarde.
—Todos os artistas têem a cabeça á razão de juros. Mas emfim que remedio! Almoçaremos sósinhos.
E offerecendo o braço á filha, dirigiram-se para casa.{101}
CAPITULO XVI
Propostas
Ernesto chegou a casa e deixou-se cahir desesperadamente na cama; sentia-se fatigado, um desejo irresistivel de chorar, um calor immenso nas fontes e um frio glacial no coração.
Deitou a cabeça nas almofadas e chorou.
Ás cinco horas da tarde, Marcial e André foram buscal-o para irem jantar, e ao verem-n'o pallido, com o parecer decomposto e os olhos avermelhados, perguntaram sobresaltados:
—Estás doente? Que tens?
—Nada, meus amigos, nada; quero estar só. Deixem-me; esta tarde não tenho appetite.
—Mais uma prova de que estas doente, e por isso não te abandonaremos.
—Por Deus, não me obriguem a levantar. Um boccado de socego far-me-ha bem. Repito-lhes que não tenho nada. Vão tranquillos que lhes peço eu.
Depois de meia hora de inuteis perguntas, Marcial e André sahiram afflictos do quarto de Ernesto.
—Indubitavelmente ha alguma cousa, disse o poeta.
—Que diabo succederia? ajuntou André.
—Parece-me que anda n'este mysterio o original da formosa Esther do quadro.
—Tambem o creio.
—Não te disse elle esta manhã, que ia a Carabanchel?
—Sim.
—Em Carabanchel tem D. Ventura uma casa de campo.{102}
—Que lhe succederia?
—Quem sabe! Talvez algum desengano.
—Seja o que fôr, procuremos indagar. É uma desgraça ter um coração impressionavel como o de Ernesto; vae dar-lhe muitos desgostos.
Marcial e André recolheram n'aquella noite mais cedo que de costume.
Ernesto continuava deitado; no quarto não tinha luz. Marcial approximou-se da cama com um phosphoro acceso para vêr se o seu amigo ainda dormia.
O pintor tinha os olhos abertos.
O poeta accendeu a vela que estava na mesa de cabeceira, puxou uma cadeira e sentou-se proximo da cama do amigo.
—Olha, Ernesto, a dissimulação só tem logar entre pessoas que se não estimam. É em vão que procuras occultar-me o que te succedeu. Soffres, tens uma d'essas dôres immensas que opprimem o coração. Basta olhar-te para a cara para te adivinhar. Comprehendes que, estimando-te como a um irmão, não me posso retirar tranquillo, só porque me dizes: «Não tenho nada». Confia, pois, na minha amizade, deposita em mim as tuas maguas. Quem sabe se poderei servir-te de consolação?
Ernesto apertou carinhosamente a mão do amigo e disse:
—Sei quanto me estimas; sei de quanto é capaz o teu generoso coração. Somos amigos ha muito tempo, e nunca tive o mais leve motivo para duvidar da tua amizade. Em nome, pois, d'essa amizade, peço-te que respeites o meu silencio e que me deixes só.
—Está bem, obedeço; mas não esqueças nem um só momento de que me encontro disposto a fazer o sacrificio da minha vida, se com ella posso evitar-te algum desgosto.
Marcial sahiu do quarto de Ernesto na occasião em que ia a entrar André.
—Onde vaes? lhe disse.
—Vêr Ernesto.{103}
—Deixa-o, está dormindo; o que precisa é de socego.
No dia seguinte Ernesto levantou-se de melhor parecer, e os tres amigos tomaram juntos uma chavena de chá e alguns biscoitos inglezes.
Nem André, nem Marcial tornaram a perguntar a causa da sua tristeza, mas elles tambem estavam tristes e desgostosos.
N'aquelle mesmo dia ficou o quadro de Ernesto na exposição. Á noite reuniu-se com os amigos no café. Todos respeitaram a taciturnidade do pintor, porque todos o estimavam e se compadeciam da sua incomprehensivel tristeza.
Assim se passaram quinze dias. A exposição de pintura abriu as portas ao publico, e o quadro de Ernesto arrancou um grito de admiração aos espectadores.
A figura de Esther era uma obra tão perfeita como a Virgem de Murillo. O quadro tinha sempre um grupo de admiradores, que o contemplavam com verdadeiro extasi.
Uma manhã Ernesto acabava de se levantar quando José, o creado, entrou participando-lhe que um cavalheiro lhe desejava falar.
Esse cavalheiro não era outro senão Fernando del Villar, Conde de Loreto.
Ernesto procurando simular uma serenidade que não sentia, offereceu-lhe uma cadeira, e perguntou tranquillamente o que desejava.
—Vi e admirei o precioso quadro que tem na exposição de pintura, disse o conde. É na verdade uma obra-prima. Tenho a absoluta certeza de que alcança o primeiro premio, e venho vêr se o senhor m'o quer vender.
—Senhor, disse Ernesto, creia que concede ao meu trabalho mais merecimentos do que os que realmente tem. Mas de modo nenhum desejo desfazer-me d'elle emquanto o jury não resolver.
—Entretanto póde confiar, disse o conde, que o jury lhe concede o primeiro premio, e eu compro-lhe o quadro{104} como uma obra-prima. Póde pedir-me quanto quizer sem receio de que me pareça exaggerado o preço. Felizmente sou rico, e sei avaliar o valor das obras como a tela de Esther.
—Tenho tambem que advertir-lhe, senhor conde, de que um correspondente da casa de Rotschild já me fez proposta sobre o quadro.
—Rotschild é mais rico do que eu, disse o conde, sorrindo-se, mas tenho mais direitos do que elle ao quadro a que nos referimos.
—O senhor tem mais direito?! exclamou Ernesto, comprehendendo o ponto para onde o conde desejava levar a conversa.
—Sim, porque o senhor não ignora que a cabeça de Esther tem uma grande parecença, parecença de retrato perfeito, com uma mulher que tenho em muita conta, e cujo bom nome me importa mais do que e vida.
—Não serei eu que o contradiga na sua opinião, senhor conde, mas se é retrato, é por pura casualidade, pois foi pintado de imaginação.
—Creio, senhor, ajuntou o conde manifestando a sua importancia, que n'estas coisas o melhor é falar com a maxima franqueza.
—Nada ha de que eu mais goste.
—Assim, pois, começarei por lhe dizer o que o senhor não ignora, e é que a cabeça de Esther não é outra cousa senão o retrato de minha mulher, a quem o senhor conheceu em Roma e em Florença.
—Pois bem, senhor conde, ainda que assim seja, ainda que visse e tratasse em Roma e Florença com a senhora que hoje é sua esposa, ainda que a minha memoria tivesse sido tão feliz que retivesse as suas feições e as transportasse á tela, tudo isso não é mais do que uma liberdade que tomei, e se o offende essa liberdade, a questão, entre pessoas de bem, tem uma solução que o senhor não ignora.
Ernesto pronunciára estas palavras com a altivez de quem provoca. O conde ouviu-o tranquillamente e sem demonstrar a mais leve agitação.{105}
Quando o pintor concluiu, o conde fez um movimento de olhos e de rosto, manifestando o desgosto que lhe causava similhante provocação.
—Senhor, disse pausadamente, primeiro que tudo, previno-o de que não vim aqui ao som de guerra e julgo por tanto fóra de proposito a solução que acaba de me propôr. Que conseguiriamos batendo-nos? Justamente o contrario do que desejo e do que o senhor desejará ámanhã. Poderia provar-lhe, sem que lhe ficasse duvida alguma, que não sou um cobarde, e que me tenho batido mais de uma vez.
Ernesto sorriu-se.
—Perdôo-lhe essa nova provocação, ajuntou o conde, e torno a pedir-lhe não só que me venda o quadro, como tambem que espalhe a noticia de que eu lh'o encommendei em Roma, pedindo-lhe que este fosse o retrato de Amparo.
—Nunca!
O conde estremeceu, augmentou de uma maneira terrivel a sua pallidez, os seus olhos brilharam momentaneamente de uma fórma sinistra, e fazendo um esforço violento para dominar-se, continuou sem levantar a voz, com humilde entoação.
—Creia, meu amigo, que está em completo erro se julga que vim aqui com exigencias; longe do meu espirito toda a ideia de ameaça; só supplico. Se o senhor se nega a vender-me o quadro, mas se deseja evitar a minha mulher graves desgostos, creio que por fim cederá a publicar um artigo nos jornaes em que explique satisfatoria e convincentemente para todos, a similhança que tem a figura de Esther com Amparo.
E o conde, levantando-se ajuntou:
—Pense, e pense tambem nas graves consequencias que a todos podem trazer a sua negativa. Espero até ámanhã a sua resposta em minha casa. Este cartão indica-lhe a minha residencia em Madrid.
E deixando sobre uma mesa um bilhete de visita, cumprimentou-o e sahiu.
Ernesto permanecia sentado com o olhar provocador,{106} sem se dignar corresponder ao cumprimento que o conde lhe dirigira ao sahir.