Confiança
Quando o conde entrou na carruagem que o esperava á porta, deu ordem que o conduzissem para casa, e deixou-se cahir no assento rugindo de raiva.
—Ah! exclamou falando comsigo. Aquelle insensato julgou talvez que tive medo. E não conheceu o horrivel tormento que me causava o conter-me. Terei que matar outro homem? Não, não, mil vezes não. Consentirei antes que elle me esbofeteie, preferirei fazer saltar os miolos.
Quando o conde chegou a casa, situada na rua do Barquillo, entrou no quarto de vestir de Amparo, que o esperava inquieta e commovida.
—O tal senhor Ernesto, disse o conde, sentando-se n'um sofá, é menos generoso do que suppunhas. Nem quer vender-me o quadro, nem publicar uma communicação em que explique decentemente a natural curiosidade de todos que te conhecem.
—Mas elle não tinha nenhum direito para fazer o que fez, para me pintar n'um quadro com risco de me comprometter, exclamou Amparo tartamudeando.
O conde sorriu-se, e fazendo um movimento de hombros, disse:
—Não pódes calcular o quanto me fez soffrer esse homem. Durante a nossa entrevista, falei-lhe com doçura, com humildade, pedi-lhe que me vendesse o quadro, suppliquei-lhe, e julgando, sem duvida, que as minhas palavras eram dictadas pelo medo, que eu era um cobarde, teve o atrevimento de me{107} dizer que se não ficava satisfeito com a sua negativa, o assumpto liquidava-se d'outra maneira entre homens. Desgraçado! Necessitei de todo o valor, de toda a força do homem que se não póde bater, depois de ter morto cinco homens, para não o esbofetear na sua propria casa. Mas quem sabe se esse insensato me fará faltar ao meu juramento e terei de matal-o.
—Não, não, Fernando! Não quero que te batas! Não quero que te exponhas! A tua vida pertence-me!
—Mas se esse homem, depois de ter dado pasto a maledicencia com o seu importuno quadro, me insultar na rua, no theatro, n'um passeio, o que hei de fazer senão bater-me?
—Pensa que um duello não serviria senão para augmentar essa maledicencia que nos assusta, esse murmurio que receamos.
—Sim, concordo; mas não vejo outro caminho.
—Dize-me, Fernando, tens confiança em mim?
—Se a não tivesse, estaria como estou, aqui?
—Obrigada, meu amigo.
—Mas a que proposito veiu essa pergunta?
—Porque conheço o bello e nobre caracter de Ernesto.
—Vaes fazer-me algum elogio das suas qualidades moraes?
—Não; vou tranquilizar-te. Ouve. Uma casualidade fez com que eu conhecesse Ernesto em Roma. Depois acompanhou-nos a Florença. Bondoso e illustrado, levou-nos a toda a parte, e não demorou muito que não percebesse que eu lhe não era indifferente. Bem sabes, Fernando, que não tenho segredos para ti, porque o meu coração e a minha vida pertencem-te, porque te amo de toda a minha alma.
—Sim, sim, não tenho duvidas a esse respeito e comprehendo perfeitamente tudo quanto se póde passar entre uma menina e demais formosa como tu e um homem como Ernesto, que viajam juntos. Amou-te, fez-te uma declaração que não regeitaste, já por{108} coquettismo, já por compaixão. Isso é natural nas mulheres, não as censuro; mas ás vezes traz más consequencias. Agora, por exemplo: Ernesto ao voltar a Hespanha, encontra-te casada e julga-se com o direito de fazer a tua e a minha desgraça, e apezar d'isso não tenho a mais pequena duvida de que esse rapaz tem uma boa alma, um generoso coração.
—Dizes bem, é uma desgraça. Tomei aquelles passeios em Florença, por um passatempo, por uma distracção. Aborrecia-me. Ernesto, pelo contrario, julgou que eu o amava como Heloisa amou Abelardo... Lastimo tão funesto engano. E agora auctoriza-me para que meu pae compre o quadro, eu procurarei a maneira, sem faltar aos meus deveres de esposa, de liquidar este assumpto satisfatoriamente, porque nada me interessa tanto como a tua felicidade, meu Fernando.
—Repara, Amparo, que o que me propões é uma imprudencia. Ernesto para ceder aos teus pedidos, póde ser exigente.
—N'esse caso, dir-te-hei: «Fernando, sou tua; o teu amor é a minha vida. Mata esse homem, que me julgou capaz de faltar aos meus deveres.»
O conde soltou um grito, abraçou com enthusiasmo a mulher.
—Ah! disse Amparo, este abraço prova-me que te inspiro confiança, e que annues ao meu pedido.
—Faze o que quizeres; mas fica sabendo que se antes de vinte e quatro horas esse homem não explicar nos jornaes, de um modo satisfatorio para mim, a parecença da condessa de Loreto com a Esther do seu quadro, não me fica outro remedio senão matal-o.
E o conde cumprimentando a esposa, sahiu do quarto.
Amparo ficou por um momento como que oppressa sob o peso da ameaça que o marido acabava de proferir.
Pela primeira vez comprehendeu até onde podia{109} conduzil-a a imprudencia do seu coquettismo em Florença.
Rapidamente lhe passaram pela imaginação as recordações d'aquellas noites passadas com Ernesto no jardim do hotel do senhor Rosales.
—É preciso evitar a todo o transe que se batam. Um desafio entre meu marido e Ernesto produziria um escandalo, e a maledicencia, duvidando da minha honradez, poderia menoscabar na honra do conde. Se isto succedesse, toda a felicidade que agora disfructo desappareceria. Não, não, falarei com Ernesto e supplicar-lhe-hei se tanto fôr preciso.
Amparo deteve-se, como se tivesse commettido alguma imprudencia.
—Mas se lhe peço uma entrevista, continuou, ainda que esta seja com a nobre intenção de evitar uma desgraça, se se sabe que a mulher do conde de Loreto e o auctor do quadro de Esther se viram sem testemunhas, então...
Amparo escondeu o rosto entre as mãos, rompendo em amargo choro, porque comprehendia que por todos os lados sómente encontraria difficuldades.
N'aquelle momento entrou D. Ventura.
—Que é isso? Que tens? Porque choras? Acabo de encontrar o teu marido que me cumprimentou com uma frialdade um tanto importuna. Vou-me convencendo de que os aristocratas quando se casam com a filha d'um plebeu, embora este seja o mais honrado e o mais rico do mundo, sempre julgam que lhe fazem favor. E olha, como isto me desgosta, e caso continue assim, separo-me de vocês, ainda que o não te vêr me amargure a velhice e abbrevie os dias que me restam de vida.
D. Ventura falava rapidamente, dissimulando mal o desgosto que sentia e as lagrimas que lhe começavam a assomar aos olhos.
—Meu querido pae. Creio que nos ameaça uma grande desgraça.
Este grito sahido do peito de Amparo fez empallidecer o pae.{110}
—Uma desgraça! exclamou. E que desgraça é essa?
—Ernesto foi um imprudente ao tomar-me para modelo do seu quadro.
—E é só isso? perguntou D. Ventura que não via motivo para se sobresaltar d'aquelle modo. Se o motivo é o quadro, se não querem que elle continue exposto, comprem-lh'o, e é assumpto concluido.
—Mas elle não o quer vender.
—Ora! Porque não lh'o pagam bem.
—Não, meu pae, não. Ernesto não o vende ainda que lhe offereçam um milhão.
—Pateta! Nem tu nem Ernesto sabem o que é um milhão. Não ha quadro do mundo que valha essa quantia.
—O pae não conhece Ernesto.
—Mas entendamo-nos. Que é que tu queres? Que elle retire o quadro?
—Não é sómente que o tire da exposição, como tambem que publique nos jornaes um artigo, assignado por elle, dizendo que o quadro é do conde, o qual teve o capricho de que Esther fosse o retrato da esposa.
—Pois bem, falarei com Ernesto, e tudo se arranjará.
—Mas Ernesto recusa-se!
—Como! E porque recusa?
Amparo comprehendeu que era preciso revelar tudo ao pae, porque só elle podia valer-lhe n'aquelle apuro, e pegando-lhe carinhosamente nas mãos e olhando-o com doce expressão, disse-lhe:
—Porque Ernesto ama-me; porque tem ciumes, porque ao chegar a Hespanha e encontrando-me casada lhe fugiram todas as esperanças do seu generoso coração, e receio que commetta alguma loucura.
—Diabo! Diabo! Isso é muito differente! E teu marido sabe que Ernesto te ama?
—Suspeita-o, e jurou bater-se com elle, se antes de vinte e quatro horas não ficar completamente resolvida a questão do quadro.
D. Ventura deu um profundo suspiro.{111}
Começava a vêr a questão sob o seu verdadeiro ponto de vista, e receava que tivesse um desenlace fatal.
—Bem vê, meu pae que o meu sobresalto e o meu receio é fundado. Se Fernando e Ernesto se baterem, se algum d'elles morrer...
—Tudo, menos isso. É preciso liquidar esse negocio. Vou falar com Ernesto.
—Negar-se-ha; estou crente. Será mais conveniente que eu lhe fale, mas não na sua casa. É preciso que o papá o chame.
—Não vejo inconveniente. Mas onde? Amparo reflectiu um momento.
—Occupo o meu rez-do-chão d'esta casa; pois bem, escreva-lhe uma carta pedindo-lhe para vir aqui; não a casa do conde de Loreto, mas—á sua.
D. Ventura sentou-se a uma mesa, pegou na penna e disse:
—Dicta a carta.
Amparo pensou alguns instantes. Depois disse:
Senhor Ernesto Alvarez
«Meu bom amigo
«Peço-lhe para que tão depressa receba esta carta tenha a bondade de me vir procurar em minha casa pois desejo falar-lhe de um assumpto da maior importancia.
«Julgo inutil participar-lhe que moro no rez-do-chão, onde o espero, confiado em que se apressará em satisfazer o pedido de um amigo que tanto o estima.
Sempre seu amigo,
D. Ventura de Aguillar.»
Fechada a carta, enviou-a immediatamente por um creado.
Depois, D. Ventura e a filha desceram para o rez-do-chão.
—Agora, meu pae, disse Amparo, só lhe peço que{112} quando vier Ernesto me deixe a sós, com elle, mas é preciso que, detraz d'aquelle reposteiro, seja testemunha da nossa entrevista.
—Farei o que quizeres, porque estas questões apoquentam-me atrozmente.
—Preciso, para que se ámanhã tentarem debicar em mim, ao menos o meu pae saiba que não sou uma d'essas mulheres que faltam aos seus deveres com facilidade.
Uma hora depois Ernesto era introduzido no gabinete em que estava Amparo.
D. Ventura occultou-se precipitadamente no quarto contiguo.
CAPITULO XVIII
A golfada de sangue
Ernesto, de pé, com o chapéu na mão, pallido, e surprehendido por se encontrar com Amparo, não se atrevia a dar um passo.
Amparo que fazia grandes esforços para dominar a commoção que experimentava sorriu-se e extendeu-lhe a mão.
—Que é isso, meu amigo! Tão zangado está comigo que não quer apertar-me a mão?
—Senhora condessa, em verdade que a não esperava encontrar aqui, tartamudeou Ernesto.
—Porque a suspeital-o não teria vindo, não é verdade? Agora vejo que fiz bem em pedir a meu pae que escrevesse a carta. Mas, peço-lhe que se sente aqui, ao meu lado; tenho que lhe falar de um assumpto de que depende a tranquillidade da minha alma, o senhor que sempre foi tão bom para commigo creio que não deixará de sel-o neste momento.{113}
Ernesto sentou-se ao lado de Amparo, mas sentia-se muito commovido, agitado e quasi sem forças para fixar os seus olhos no formoso rosto da condessa.
—Conheço, senhor Ernesto, que me não assiste nenhum direito para lhe pedir algum favor por mais insignificante que seja, porque comprehendo que deve estar resentido commigo. Seria inutil desculpar-me; confesso-me culpada, e fui, se assim quizer, uma coquette que pagou esse tributo de vaidade de que poucas mulheres escapam, e por isso vou-lhe falar, não ao homem em cujo braço me appoiei para visitar o Colyseu de Roma e cujas palavras carinhosas resoaram nos meus ouvidos como uma embriagadora musica durante as noites de Florença, mas a um cavalheiro, a um homem generoso e desinteressado, em cujo nobre coração só se albergam sentimentos nobres, emfim, a si, senhor Ernesto, a quem não quero occultar a situação em que me encontro, a si de quem depende a paz do meu lar, a tranquillidade do meu espirito.
Amparo deteve-se, levou uma das lindas mãos aos olhos e enxugou as lagrimas que durante a conversa lhe assomaram.
—Não creia, senhora condessa, que os meus labios pronunciem uma só palavra que seja de recriminação, disse Ernesto. Desde que cheguei a Madrid, e assim que soube que a senhora pertencia a outro, que era a esposa do conde de Loreto, senti tão profunda dôr no coração, tão grande magua na alma, que só então pude avaliar a enorme paixão que me tinha inspirado. Não sou d'aquelles homens que se resignam a perder n'um momento as esperanças que durante muito tempo acariciaram. Será isto uma desgraça, concordo, porque não devemos encarar a sério esta vida.
Ernesto passou a mão pelo rosto, fez um esforço para se dominar e continuou:
—Sou um nescio! Estou falando de mim, a senhora condessa, em logar de lhe perguntar o que deseja e apressar-me a satisfazel-a. Peço-lhe desculpa{114} das minhas anteriores divagações, e ordene tudo quanto lhe aprouver.
—Não, senhor Ernesto, não; conheço todo o mal que o meu coquettismo lhe causou, e por conseguinte não podem ser-me indifferentes os seus soffrimentos. O que quero, o que lhe imploro é que me perdôe e me não odeie, o que lhe peço é que annua ao que esta manhã lhe foi pedir meu marido, porque só assim poderá a minha alma viver tranquilla e restabecer-se a paz n'esta casa.
—E... pensou bem no que me pede, minha senhora?
—Sim, sei que para si é um grande sacrificio. Se o senhor fosse outro homem nunca me resolveria a pedir-lhe tão grande favor, senhor Ernesto, mas do senhor espero tudo, porque se tanto fôr preciso, lançar-me-hei a seus pés até que o consiga, porque o senhor não quererá que nos meus olhos nunca mais sequem as lagrimas, nem vêr-me desprezada pela maledicencia e odeiada de meu marido a quem tanto amo; porque se o senhor não cede acontecerá indubitavelmente uma desgraça.
Ernesto fixou em Amparo um olhar intenso, profundo, como se pretendesse lêr-lhe no fundo d'alma, e depois disse:
—O senhor conde de Loreto é um homem valente, um dextro atirador que tem provado a sua habilidade e o seu valor em mais de uma occasião. Sei que se eu recusar terminantemente ao que me pede nos bateremos, e não sendo eu um espadachim, será d'elle o melhor partido. Tambem não terei grande trabalho para lhe provar, minha senhora, que a ideia de um duello de morte pouco me preoccupa. A vida só é preciosa para os que são felizes e a senhora destruiu toda a minha felicidade. De mais ha já algum tempo que goso de pouca saude, e por conseguinte é desnecessario pensar em mim. Só temo que em Madrid me tomem por um cobarde; é epitheto que não mereço e por isso me recusei a satisfazer os pedidos do senhor conde.{115}
—E quem ousará chamar-lhe cobarde? disse Amparo. Para que os seus amigos fizessem similhante apreciação, seria preciso que houvesse alguma cousa que não fosse natural. Acaba de chegar de Roma com o quadro de Esther; em Roma estive este verão e lá esteve tambem meu marido. Nada tão facil e tão interessante para a sublime obra que expôz n'um dos salões da Exposição de pintura, como inventar uma d'essas anecdotas que fazem na posteridade parte da historia de um quadro. Por exemplo: o senhor precisava de um modelo para Esther; encontrou-me com o conde, então meu noivo e seu amigo, e encontrando nas minhas feições tudo quanto sonhava para a figura de Esther, pediu a Fernando para que eu servisse de modelo. O conde annuiu com uma condição: a de comprar-lhe o quadro pelo preço em que o senhor o avaliasse; e effectivamente fechou-se o negocio por vinte e cinco mil duros. Tudo isto é o mais natural do mundo. Ninguem depois de lêr nos jornaes a historia da parecença de Esther com a condessa de Loreto, assignado por si, será capaz de dizer que semelhante declaração foi escripta pela mão de um medroso.
—Effectivamente, minha senhora, respondeu Ernesto, d'esse modo, na minha historia, haveria um episodio fabuloso, o de vender um quadro no seculo da photographia pela fabulosa quantia de meio milhão, e estou certo de que tão vantajosa venda produziria inveja a muitos. Mas ignorando todos que conheci em Roma e que acompanhei a Florença D. Amparo d'Aguillar, ninguem supporá qual a verdadeira historia da parecença de Esther com a condessa de Loreto; e para mim, basta-me que a senhora o saiba e que o não ignore o senhor conde. Tambem julgo que a senhora não quererá fazer-me o aggravo de me julgar interesseiro. O meu quadro não vale vinte e cinco mil duros e por isso não posso ceder aos seus desejos.
—Meu Deus! disse a joven juntando as mãos, e derramando abundantes lagrimas. Julgava que este homem me amava, mas enganei-me.{116}
Ernesto fez-se pallido até ficar livido, os olhos brilharam-lhe de um modo terrivel, pegou bruscamente em uma mão de Amparo, e disse:
—Senhora, o meu amor é tão grande, que não encontraria palavras com que podesse narrar-lh'o.
E pondo uma mão sobre o peito, continuou:
—Aqui, desde o momento em que perdi a esperança de realisar os meus sonhos, sinto como que uma tempestade infernal que rebentará em breve, despedaçando-me o peito. Oh! Como é insensato todo o homem que não sabe ser superior ás paixões que o dominam. Eu nunca amara senão minha mãe e a gloria. A que me deu o ser deixou de existir. Fiquei orphão, e a gloria desde esse dia foi minha mãe, minha amada, minha vida; mas um dia o destino ou a fatalidade collocou-a ante mim, e amei-a com toda a minha alma. Este amor então foi correspondido, sellado com um beijo que ainda me queima nos labios, que ainda abraza a alma, e depois...
Ernesto soltou uma gargalhada hysterica e ajuntou:
—Mas para que recordar-lhe o que a senhora esqueceu? Que deseja a senhora? Fiz-lhe o sacrificio da minha felicidade, talvez o da minha vida, farei tambem o da minha honra, estou disposto a tudo. O quadro é seu, minha senhora; escreverei a noticia, e entregarei ao senhor conde de Loreto o documento com que poderá retiral-o quando a Exposição terminar. Depois, se quizerem, podem queimal-o, pois era esse o fim a que o destinava.
Ernesto poz-se de pé, fazendo um esforço supremo, e como se as suas ultimas palavras tivesse esgotado as forças, dirigiu-se para a porta.
Amparo olhava-o absorta, commovida, sem coragem para detel-o. Viu-o partir, e notou que aquelle homem tremia como um ebrio.
Apenas sahira do gabinete, ouviu-se na antecamara um ruido como o que produz um corpo ao cahir desamparado. A condessa soltou um grito e D. Ventura sahiu da alcova.{117}
—É um rapaz que vale quanto pesa, disse o commerciante.
—Meu pae, corra, succedeu qualquer cousa a Ernesto.
D. Ventura foi por onde o pintor tinha sahido, e effectivamente encontrou-o estendido no chão.
Soltou um grito e pediu soccorro. Ernesto estava desmaiado com a cara e o peito manchados de sangue.
Quando Amparo chegou, julgou que Ernesto se suicidara; os creados levantaram-n'o e transportaram-n'o para a cama de D. Ventura, e quando chegou o medico, soube-se a verdade: Ernesto tivera um grande vomito de sangue que o obrigara a perder os sentidos.
Uma hora depois, quando voltou a si e abriu os olhos, o conde de Loreto, Amparo, Ventura e o medico estavam em volta da cama.
O pintor estava extremamente pallido, mas com essa palidez mate, melancholica, dos doentes de peito, e dirigindo um olhar vago e fatigado em volta de si, disse com voz debil:
—Quanto me penalisa, senhores, este contratempo. Senti-me mal repentinamente, como se se tivesse rompido qualquer cousa dentro do peito; quiz evitar á senhora condessa um desgosto, e retirei-me á pressa, mas ao chegar á antecamara, perdi os sentidos. Espero que me desculparão o susto que lhes causei.
—O mais importante, meu amigo, disse o conde, é a sua saude, e desejo que me faça o favor de permanecer em minha casa até que se encontre completamente restabelecido.
Havia tanta doçura, tanto interesse n'aquella voz, que Ernesto, fixando o conde com um olhar replecto de agradecimento, respondeu:
—Um doente nas minhas condições, senhor conde, é demasiadamente importuno. Agradeço-lhe reconhecidissimo o seu offerecimento, mas não devo acceital-o e peço-lhes que tão depressa o medico diga{118} que me encontro em estado de ir para minha casa, me concedam licença.
—Não será hoje nem ámanhã, respondeu o medico, e por conseguinte creio que não nos devemos occupar d'outra cousa que não seja fortalecer o nosso doente.
—Não se fala mais n'isso, disse D. Ventura, Ernesto é mais bem tratado aqui do que em sua casa. Eu, em nome da nossa amizade, prohibo-lhe que se levante da cama. Quando estiver restabelecido, quando estiver forte, fará então o que lhe aprouver. Hoje mando eu.
Ernesto fez um movimento d'olhos indicando que se resignava. Sentia-se tão fraco, que lhe seria impossivel ter-se de pé.
Ficou, pois, resolvido que ficaria no quarto de D. Ventura.
Quando o medico sahiu, Amparo deteve-o para lhe perguntar pelo doente.
—É grave, disse o facultativo. Mais tarde ou mais cedo morre. Deve ter soffrido muito.
Amparo retirou-se para os seus aposentos, e, fechando a porta, chorou.
O remorso começava a preoccupar-lhe o espirito.
CAPITULO XIX
Pagar a hospitalidade
D. Ventura mandou pôr uma cama no quarto de Ernesto.
—Serei o seu enfermeiro, disse, Amparo, e o conde ajuda-me n'esta tarefa. Animo, pois, amigo Ernesto, e não pense n'outra cousa que não seja em restabelecer-se.{119}
Desde aquella occasião o pintor encontrou uma familia carinhosa, solicita, que lhe prodigalizou todo o bem estar. Nem elle mesmo podia explicar o que se passava em redor de si.
Muitas vezes era Amparo quem lhe dava os remedios, limpando-lhe o copioso suor que com frequencia lhe inundava a fronte, e isto fazia-o mesmo deante do marido e com a amorosa solicitude de uma irmã.
D. Ventura logo ao segundo dia começou a tratar o enfermo por tu com a ternura e o interesse de um pae.
Assim se passaram cinco dias. Ernesto falava pouco, não só porque o medico lh'o prohibira, como tambem porque pensava muito em todos estes acontecimentos.
O seu amor por Amparo era immenso. O conde indubitavelmente conhecia esse amor, e comtudo, dedicado e obsequioso, consentia que sua mulher passasse horas inteiras sentada a cabeceira da sua cama.
Em vão Ernesto perguntava a si mesmo porque era que aquella familia se mostrava tão attenciosa, tão obsequiadora para com elle, e o seu coração generoso repellia algum pensamento pouco favoravel para ella. O conde parecia-lhe um homem digno e honrado, Amparo uma irmã, D. Ventura um pae, e até o medico era para elle um amigo.
Desde que recuperára os sentidos, durante os dias em que se achava n'aquella casa, ninguem lhe tornára a falar do quadro. Ernesto sentindo-se mais alliviado, aproveitou um momento em que estava só, pois desejava demonstrar áquella familia o seu reconhecimento.
Levantou-se da cama, chegou com algum custo a uma mesa onde estavam os apetrechos de escripta, e poz-se a redigir um artigo.
Passada uma hora tinha acabado.
Então, voltou para a cama, tocou a campainha e disse ao creado que se apresentou:{120}
—Faça favor de dizer ao senhor D. Ventura que desejo falar-lhe.
O creado obedeceu e poucos momentos depois entrava o commerciante, sorrindo como sempre.
—Bravo, bravo, disse elle. Já te vejo esse parecer mais animado e gosto d'isso. Mas, saibamos o que quer o meu doente.
—Que leia isto, que mande tirar copias e que as remetta aos jornaes que quizer.
E Ernesto entregou uns linguados de papel em que pouco antes escrevera. D. Ventura leu para si. Quando acabou a leitura lançou-se nos braços de Ernesto, exclamando com voz commovida:
—Obrigado, Ernesto, obrigado. Estas linhas trarão a paz a um lar e o socego a um pae; és o homem mais generoso do mundo.
D. Ventura tinha os olhos cheios de lagrimas.
Ernesto estava impressionado ante a profunda satisfação do velho.
—Demais, disse o pintor, fingindo grande naturalidade, essa declaração que destruirá por completo a maledicencia, vale bem pouco, e não vejo motivo para que o senhor m'o agradeca. Em poucos dias estarei completamente restabelecido, e sahirei de Madrid, e nem o senhor conde, nem a senhora condessa me tornarão a vêr. Tenho um plano de vida que me será proveitoso. Emquanto ás nossas excursões artisticas por Florença, e Roma só me resta julgál-as um encantador sonho, filho d'uma imaginação viva e impressionavel, e como os sonhos se esquecem procurarei esquecêl-as tambem.
—Oh! Tu não dizes o que sentes, Ernesto, soffres e tentas occultal-o.
—E quem não soffre n'este valle de lagrimas? Existe porventura homem feliz n'este mundo? Creio que não. A vida não é outra cousa senão um castigo que Deus impõe á humanidade pelo peccado original; resignemo-nos, pois e paguemos esse tributo ao Creador.
—Mas isso não me tranquillizou por completo. Dizes{121} no teu artigo que o quadro é propriedade do conde de Loreto, que o comprou em Roma, com a condição de que Esther fosse o retrato de sua futura mulher, e isso não é verdade.
—Meu amigo, ás vezes a mentira, que tem alguma cousa de santa, é indispensavel.
—Comtudo o conde não te comprou o quadro.
—Mas se eu lh'o offereço.
—Isso não póde ser. Tu és pobre e nos não consentimos...
—Mau! O quadro, dado o caso de ser premiado pelo governo, poderá render-me quando muito cinco ou seis mil duros. Com essa quantia é rico um homem como eu.
—Mas nós podemos dar-te pelo quadro vinte mil duros.
—Isso seria roubar o dinheiro, e não creio que o senhor me faça a offensa de me julgar interesseiro.
—Demais sei eu que todos os homens de talento desprezam o dinheiro.
—Pois então consinta que a minha pobre Esther salvando os filhos de Israel fique em paga da carinhosa hospitalidade que me concederam, e não se fala mais no assumpto. Mas não percamos tempo; é preciso que ámanhã saia em alguns jornaes o meu communicado.
D. Ventura não poude convencer Ernesto a que acceitasse qualquer quantia pelo quadro.
—Para todos, disse o pintor, o quadro foi comprado pelo conde de Loreto pela importancia que lhe aprouver dizer, e eu não o desmentirei; para nós, o quadro será uma offerta que eu faço ao esposo de D. Amparo de Aguillar.
No dia seguinte, ao levantar-se, Amparo, viu varios jornaes sobre uma pequena mesa de pau rosa.
—Que é isto? perguntou. Cuidam que me vou dedicar á politica?
—Não sei, minha senhora, mas o papá disse-me que os puzesse ahi e que dissesse da sua parte á senhora{122} condessa, quando se levantasse, que lesse um communicado que trazem os jornaes.
Amparo suspeitou do que tratava o communicado, pegou no jornal e leu em voz baixa o que se segue:
«Senhor director do...
«Espero da sua amabilidade que publicará esta carta no seu acreditado jornal que tão dignamente dirige, pois importa ao senhor conde de Loreto e ao que subscreve a presente carta, desvanecer certas equivocas apreciações que uma parte do publico que visita a Exposição de pintura tem feito sobre o meu quadro de Esther.
«Ha alguns mezes estava em Roma pintando o quadro de Esther quando tive a honra de ser visitado por Fernando del Villar, conde de Loreto, com a então sua futura esposa, hoje condessa de Loreto.
«Verdadeiro enthusiasta pela pintura, o conde de Loreto, protector dos artistas, propôz-me comprar o quadro por uma quantia bastante elevada; attendendo ao pouco ou nenhum merecimento da minha tela, acceitei o negocio e ficou desde então o quadro de Esther sendo propriedade do conde de Loreto.
«A partir d'ahi o conde passou a visitar-me todas as manhãs, passando algumas horas no meu atelier vendo-me pintar.
«Um dia, ao ter quasi terminada a minha obra, occupava-me em retocar a figura de Esther, quando o conde me disse:
—«Meu amigo, tenho um capricho de homem rico que desejava satisfazer. Se o senhor não se escandalizasse e quizesse, a cabeça da rainha Esther poderia ser o retrato da senhora que em breve será minha mulher. Ha algum inconveniente n'isso?{123}
—«Nenhum, senhor conde, lhe respondi. Nem conheci a celebre judia da tribu de Benjamin, a bondosa sobrinha de Mardoques, nem vi mesmo algum retrato d'ella, mas desde já aposto qualquer cousa em como a mulher do rei Assuero não foi mais bella do que a joven que d'entre em pouco será a condessa de Loreto.
«Poucos dias depois, a cabeça de Esther era um retrato bastante parecido da senhora D. Amparo de Aguillar, condessa de Loreto.
«Assim fica explicada a similhança que com a esposa do senhor conde de Loreto tem a figura principal do meu quadro.
«Peço-lhe me desculpe o incommodo que lhe causo, mas a rectidão do meu caracter e o agradecimento a isso me obrigam, e antecipadamente agradece, o que é
De V. S.ª
Att.º V.or Cr.º e Obrg.º
Ernesto Alvarez.»
Quando Amparo acabou a leitura ouviu a voz do marido que lhe pedia auctorização para entrar. Entrou com o jornal na mão.
—Entra, Fernando. Não precisas auctorização para entrar no meu quarto, lhe respondeu.
O conde approximou-se da mulher e depois de lhe ter dado um carinhoso beijo na face e dirigir-lhe um sorriso amoroso, disse:
—Bom dia, querida Amparo, bom dia. Vejo que ambos lemos o communicado de Ernesto.
—Sim; meu pae mandou-me estes jornaes.
—Tambem m'os mandou a mim, e vinha perguntar-te se sabes o que se passou entre teu pae e Ernesto.{124}
—Não sei.
—Fosse o que fosse, a conducta d'esse rapaz não póde ser mais nobre. Bem vês que nos offerece o quadro, porque tu bem sabes que lh'o não comprei.
—Sim, é um rasgo de generosidade pouco vulgar n'um homem que não tem outro patrimonio senão os pinceis.
—Mas nós não podemos consentir em similhante offerta.
—Ou pelo menos compensal-o com outra.
—Dizes bem. N'este assumpto convém proceder com toda a delicadeza. Vinha lêr-te isto mas como já lêste, retiro-me e vou vêr Ernesto. Almoçamos juntos?
—Sim, meu Fernando, espero-te aqui para me contares tudo o que resolveres.
Fernando tornou a abraçar a mulher e sahiu.
Amparo ao vêr-se só, deixou-se cair n'uma cadeira e leu pela segunda vez o jornal.
—Ah! exclamou, exhalando um suspiro que brotava do mais fundo da sua alma. Ernesto vale cem vezes mais do que eu. Causei toda a sua desgraça. O coração tambem me diz que serei a causa da sua morte. Que Deus me perdôe o mal que fiz a esse homem.
E, cobrindo o rosto com as mãos, deu livre curso ás lagrimas.
CAPITULO XX
Abnegação
Quando o conde entrou no quarto de Ernesto, acabava este de se vestir.
Pallido, com o parecer cadaverico, o semblante do{125} pintor tinha impressos os profundos vestigios da enfermidade que lhe minava o peito.
O conde admirou-se de o vêr levantado. Ernesto, sorrindo, veiu-lhe ao encontro.
—O medico já lhe deu auctorização para se levantar? perguntou Fernando.
—Os medicos são uns ignorantes. Se seguisse os seus conselhos, ficaria ainda um mez na cama, mas tenho esperanças de me restabelecer d'outra maneira sem auxilio da medicina.
—Senhor Ernesto, disse o conde com voz carinhosa, ignoro o que tenciona fazer para se curar, mas reprovo que abandonasse a cama.
—O meu plano de vida é muito simples, senhor conde, reduz-se a ir viver no monte, a respirar o ar puro e livre do campo, longe da balburdia da cidade, do bulicio dos homens; é o remedio mais efficaz para os doentes do peito. Em outros tempos fui um enthusiastico amador da caça. Quando o governo me fez seu pensionista, quando parti para Roma, offereci os meus cães e as minhas espingardas e abandonei a minha distracção favorita. Em poucos dias adquirirei todos os apetrechos e partirei para os montes de Toledo onde conheço um caçador de profissão, viverei com elle, caçando umas vezes, pintando outras, e quem sabe se a vida semi-selvagem que vou emprehender me restabelecerá a saude.
O pintor procurava dissimular o cansaço que a conversação lhe causava.
O conde, que o conhecia, disse com commoção:
—Ernesto, offender-se-ha commigo se lhe falar com a franqueza de irmão?
—Pelo contrario, senhor conde, julgar-me-hei muito honrado.
—Pois bem, o senhor crê que essa viagem, essa vida semi-selvagem, como acaba de dizer, lhe será tão proveitosa, como diz?
—Sem perceber de medicina, comprehendo que a vida do campo é muito proveitosa aos doentes do peito.{126}
—Comtudo a vida de caçador é agitada e precisa de corpos robustos e fortes.
—Quem sabe se o meu se fortalecerá?
—Duvido!
—É preciso dar-se tempo ao tempo.
—Mas ainda que assim seja o senhor não é rico e precisa trabalhar para viver.
—Tão pouco precisa um caçador de profissão! disse Ernesto sorrindo-se. Álêm d'isso pintarei quadros pequenos, que, vendendo-os baratos, sempre terei quem m'os compre; por exemplo, assumptos de caça, paisagens tiradas do natural. Oh! tenho esperanças que nada me faltará.
—Está então resolvido a emprehender essa nova vida e eu não me opponho, mas quero propor-lhe um negocio.
—Qual?
—O senhor precisa de quem lhe compre os quadros que pintar.
—Certamente.
—Pois bem, compro-lh'os eu. Como vê não tenho muitos quadros bons nas minhas paredes, e por isso espero que me permitta pagar-lhe o que está na Exposição das Bellas-Artes.
—Emquanto a esse creio que o senhor já leu a carta que enviei aos jornaes, e como digo que recebi em Roma antes de concluir...
—Mas isso não é verdade.
—Que importa? O quadro é seu, senhor conde, e não falemos mais de similhante assumpto. Emquanto á venda dos que pinte de futuro, isso é diverso e não vejo inconveniente em que o senhor m'os compre.
—Fixemos então desde já o preço, ficando assente que recebo todos quantos o senhor pintar.
—Isso é offerecer muito.
—Compro todos. Marque preço.
—Marcarei quando lh'os mandar, a não ser que o senhor me indique desde já os assumptos e os tamanhos.{127}
—Isso fica á sua escolha.
—Pois então fica desde hoje sendo o meu unico comprador.
—E o senhor o meu pintor. Mas repito que é uma loucura abandonar os recursos da capital quando a saude não esta sufficientemente restabelecida.
—Pelo contrario, senhor conde, é muito conveniente abreviar a minha partida.
Fernando encolheu os hombros conhecendo que Ernesto estava firmemente resolvido a sahir de Madrid.
—Não insisto mais, apezar de lamentar que nos deixe tão depressa, porque de amigos tão generosos, tão nobres como o senhor, é sempre custosa a separação.
—Senhor conde, antes de nos separarmos tomarei a liberdade de lhe falar com a rude franqueza de um homem que sempre foi dominado pelos impulsos do seu coração. Odiei-o de morte durante algum tempo. Então não conhecia o conde de Loreto mais do que de nome; hoje é diverso: tive occasião de tratar comsigo, de apreciar o que vale, e a minha alma, sempre generosa, arrepende-se de haver abrigado, ainda que por pouco tempo, sentimentos perversos. A carta que mandei aos jornaes não é outra cousa que o descargo da minha consciencia. Preciso, pois, partir e esquecer. O senhor sabe que amei Amparo, e tambem não ignora que ainda a amo. Tratou-me como a um bom amigo, e nada mais. Sei que são felizes, e que se amam muito. Uma imprudencia minha esteve a ponto de destruir toda essa felicidade, que não tem preço entre dois esposos. Reparei essa imprudencia e tranquillizou-se um tanto a minha consciencia. O passado será um sonho para mim, o presente, a soledade dos montes, até ao dia em que Deus queira apagar o meu nome do grande livro dos vivos.
Ernesto calou-se. O conde fixou n'elle um profundo olhar que demonstrava a admiração que sentia ouvindo expressar-se com tão nobre franqueza, julgando{128} inverosimil que na corrupta sociedade ainda se pudesse encontrar n'um homem um rival tão generoso.
—Vá, disse o conde, depois de uma pausa, parta, mas nunca esqueça que tem em todas as occasiões que precisar um irmão, em Fernando del Villar.
—Obrigado, senhor conde, não esquecerei o seu offerecimento. Peço-lhe me desculpe para com a senhora condessa, pois não me posso despedir d'ella, e que mande que uma das suas carruagens me leve a minha casa.
—Como! Partir sem apertar a mão a minha mulher, sem lhe dizer adeus? Não, senhor Ernesto. Julga porventura que sou um d'esses maridos zelosos e ridiculos que desconfiam da mulher a quem deram o nome? Julga-me capaz de lhe fazer a offensa de duvidar de si, o homem mais generoso que conheço, o melhor dos meus amigos? Não. Amparo virá despedir-se de si; peço-lhe que não deixe esta casa sem que assim succeda.
—Não insisto mais. Já que assim deseja despedir-me-hei da senhora condessa.
—Vou eu mesmo chamal-a.
O conde sahiu, murmurando em voz baixa:
—Este homem venceu-me á força de generosidade.
A condessa acabava de se pentear: estava vestida com uma simples bata branca.
Ao vêr entrar o marido exclamou:
—Tu, outra vez aqui!
—Sim, Amparo, venho annunciar-te a partida de Ernesto.
—Não é possivel, ainda está muito doente, segundo diz o medico.
—Isso mesmo lhe disse eu, mas insiste em se querer restabelecer no campo, e está resolvido a abandonar hoje mesmo a nossa casa. Pedi-lhe que se não fosse, sem primeiro se despedir de ti e de teu pae.{129} É preciso que meu sogro, que tem mais confiança com elle, o convença a que receba o valor do quadro que tão generosamente nos offerece.
—Será inutil; não receberá nada.
—Comtudo espero que teu pae insista pela ultima vez. Não pódes calcular o quanto me interessa esse pobre rapaz, pobre como Diogenes e generoso como Lucullo. Fala-lhe, fala-lhe sem perda de tempo; eu, entretanto vou á loja de Manuel Arenas fazer umas compras.
Fernando tocou uma campainha e disse ao creado:
—Avise o senhor Ernesto de que a senhora condessa deseja vêl-o.
E depois, abraçando Amparo, continuou:
—Adeus, minha amiga. Procura convencer esse tresloucado. Não me demoro. Vou comprar umas cousas para Ernesto. É preciso presenteal-o como a um principe que pensa em passar uma grande temporada no monte, dedicando-se a caça.
CAPITULO XXI
Abandonando Madrid
Amparo, depois do conde sahir, ficou immovel, preoccupada. Ia despedir-se de Ernesto, talvez para não mais o vêr; ia ter uma entrevista sem testemunhas com o homem a quem tão desgraçado fizera, e esta entrevista era proporcionada, pedida pelo marido.
Por um momento Amparo receou que aquillo fosse um laço, mas rapidamente affastou similhante pensamento, conhecendo a nobreza com que procederam Ernesto e o conde de Loreto.
—Não, não; Fernando não póde ter ciumes; tem{130} confianca absoluta, sabe que o amo com toda a minha alma, disse Amparo, falando comsigo. Comtudo quer que me despeça de Ernesto a quem tão desgraçado fez uma leviandade, filha do coquettismo. Devo obedecer-lhe, ainda que me seja dolorosa esta entrevista.
E como n'aquelle momento entrasse o creado para annunciar que o senhor Ernesto esperava a condessa, Amparo encaminhou-se para o quarto do pintor.
Ernesto, ao vêr entrar Amparo, pôz-se de pé, mas foi-lhe preciso encostar-se ao espaldar d'uma cadeira.
A condessa não se commoveu menos, vendo a extrema pallidez do seu antigo apaixonado.
—É verdade, senhor Ernesto, o que o meu marido acaba de me dizer? Pensa em deixar-nos?
—Senhora condessa, respondeu o pintor com uma tranquillidade que assombrou Amparo, sinto-me muito melhor, e resolvi restabelecer-me no campo. Dentro em pouco as brisas do outomno annunciarão o inverno, e creio que me é conveniente fortalecer-me primeiro.
—Se a sua resolução é inabalavel, não nos devemos oppôr, nem meu marido nem eu, mas creia, senhor Ernesto, que ambos sentimos do coração que o senhor deixe tão depressa esta casa, que podia considerar como sua.
Ernesto sorriu-se amargamente, fez um movimento de indifferença com os hombros, e ajuntou:
—Ha creaturas, minha senhora, para quem o mundo é um deserto, um campo de tristes saudades. Sósinhos na terra, vivem, sem uma affeição que os console, sem um peito carinhoso onde possam reclinar a fronte nas horas d'amargura. Para estes seres, a sociedade dos homens é demais, porque desconhecendo o embuste e a falsidade, são sempre enganados; eu talvez pertença a essa desgraçada familia de orphãos das grandes cidades. Por isso estou resolvido a nunca mais pisar as suas ruas, por isso me vou encerrar como um selvagem nos montes de Toledo esperando no meio d'aquelles agrestes barrancos o{131} ultimo momento da minha vida, que felizmente não se fará esperar muito.
Amparo inclinou tristemente a cabeça sobre o peito. As palavras eram uma terrivel accusação, um castigo ao seu coquettismo.
—Porque me não odeia, senhor Ernesto? tartamudeou Amparo. Porque me não despreza?
—Senhora, a minha alma não póde nem odiar, nem desprezar, nem esquecer. As noites de Florença e de Roma imprimiram n'ella uma impressão demasiadamente profunda.
A condessa comprehendeu que a conversa ia seguindo um rumo perigoso.
—Pois bem, senhor Ernesto, disse, peço-lhe em nome da amizade que apague da memoria essas noites.
—Impossivel; é uma recordação que faz parte da minha vida; e por assim dizer a minha segunda natureza. Quando der o ultimo suspiro, quando deixar de existir, então, sim, então é que se extinguirá do meu peito.
—Mas sente-se assim tão doente? perguntou Amparo, que, aturdida ante as sentidas recriminações do pintor, não sabia que dizer.
—Quem sabe se serei um d'esses ridiculos apprehensivos que á força de pensarem na morte sempre d'ella vão escapando!
E sorrindo com um ar triste, continuou:
—O ar saudavel das montanhas talvez me restabeleca.
E puxando o cordão da campainha, disse a um creado:
—Diga ao senhor D. Ventura que me vou embora immediatamente e que o espero para me despedir.
Amparo, ante aquella resolução inesperada, que punha fim á entrevista de uma maneira brusca, levou as mãos á cara para occultar as lagrimas que lhe fôra impossivel suster.
—Póde-me odear, se assim lh'o apraz, disse a condessa; mereço-o, porque não ha palavra com que possa desculpar o meu procedimento.{132}
E sahiu precipitadamente do quarto.
—Ah! exclamou Ernesto, vendo-a sahir. Não posso esquecer esta mulher!...
Deixou-se cair n'uma cadeira, como se o abandonassem as forças para suster-se de pé.
Em vão D. Ventura procurou persuadir Ernesto de que a vida de caçador montez, quando se carece de saude, é uma temeridade. O pintor estava resolvido, e sahiu de casa do conde.
Quando chegou a sua casa da rua do Prado, quando os seus amigos André e Marcial o viram entrar pallido como um cadaver e fraco como um convalescente, depois de oito dias de ausencia, não puderam conter um grito de assombro.
Ernesto explicou-lhes a ausencia e participou-lhes o plano que concebêra para se curar.
N'aquella mesma noite escreveu uma carta a Mauricio, caçador de profissão, que vivia nos montes de Toledo.
Tres dias depois, Mauricio respondeu a Ernesto, offerecendo-lhe a sua casa, participando-lhe que se casára, e que, por conseguinte, podia estar com alguma commodidade.
Ernesto fôra caçador n'outros tempos, antes de partir como pensionista para Roma. Era d'aquella epocha que conhecia Mauricio, com quem entrára em algumas caçadas.
Resolvido a emprehender a viagem, principiou a dispôr tudo, isto é, pôz n'um caixote alguns quadros, o cavallete, a caixa das tintas e os pinceis; n'outra metteu alguns livros de estudo e de recreio.
Só lhe faltavam os apetrechos de caça, quando uma manhã em que se dispunha a sahir para comprar todos esses artigos, viu entrar o mordomo do conde de Loreto, seguido de dois creados que traziam duas caixas e dois bellos cães inglezes, um Setter e outro Pointer.
O mordomo avançou com o seu costumado ar grave, e, entregando uma carta a Ernesto, disse-lhe:
—Meu amo, o senhor conde de Loreto, manda-me{133} entregar esta carta, estas caixas e estes cães, ao senhor, encarregando-me de lhe pedir o desculpe de não vir pessoalmente, mas é-lhe inteiramente impossivel.
A um signal do mordomo, os creados arriaram no chão as duas caixas e amarraram os cães ao pé de uma mesa.
—Creio que o senhor não deseja mais nada, ajuntou o mordomo, vendo que Ernesto guardava silencio.
—Diga ao senhor conde que lhe agradeço reconhecidissimo a offerta que se digna fazer-me, e que lhe falarei ou escreverei antes de partir.
O mordomo cumprimentou e sahiu seguido dos creados.
Então Ernesto fez uma caricia aos cães, que se acercaram, meneando a cauda, e exclamou:
—Aqui estão os meus novos amigos. Oh! Estes sim, que não me venderão!
E sentando-se n'uma cadeira, abriu a carta do conde e leu:
«Meu bom amigo