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Historia de um beijo

Chapter 46: Uma caçada
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About This Book

A narrativa centra-se em Amparo, jovem de beleza e coquettismo cuja intensidade afetiva provoca sentimentos profundos em Ernesto, um pintor sensível que encontra na arte e no desejo um ideal inatingível. A história examina como um beijo ou uma palavra afirmativa podem transformar esperança em tortura, descrevendo encontros, pequenas cenas cotidianas e a angústia interior que dilacera um coração entregue. Temas recorrentes incluem desejo não correspondido, idealização amorosa e o preço emocional da incerteza.

«Deixou-me com o quadro de Esther uma recordação que conservarei emquanto viver; permitta-me que lhe remetta tambem como uma lembrança, os meus melhores cães e algumas armas e objectos que podem ser de muita utilidade no campo.

«Carlos I de Inglaterra offereceu a Rubens, em pleno parlamento, a espada que levava cingida á cinta, um diamante que trazia no dedo e uma banda de diamantes que lhe cruzava o peito. Tudo isto foi a paga do magnifico retrato d'aquelle monarcha que mais tarde tão maus boccados fez passar a Luiz XVI. Permitta, pois, que eu, sem ser rei, tome a liberdade de offerecer alguns apetrechos de{134} caça, de pouco valor, e não esqueça que espero com anciedade noticias da sua saude e algum quadro dos que me prometteu.

«Minha mulher e meu sogro cumprimentam-n'o e desejam vêl-o brevemente em Madrid restabelecido da sua doença

Seu amigo

Fernando del Villar.»

 

Ernesto leu duas vezes a carta, e, soltando um suspiro, murmurou em voz baixa:

—Eis-me amigo do conde de Loreto, de um homem com quem estive a ponto de me bater.

Ernesto abriu as caixas, encontrando n'ellas tudo quanto póde necessitar no campo um caçador de dinheiro.

Só a mão de uma pessoa intelligente teria sido capaz de reunir todos aquelles objectos.

Ernesto encontrou duas espingardas, uma de Scotte de dois canos, do systema Lefaucheux, outra de Greener para tiro de bala, uma excellente botica de viagem, uma barraca de campo, uma mala de couro da Russia com quinhentos cartuchos carregados com chumbo, e outra com duzentos carregados com bala; um fato completo de camurça, botas de cautchouc, facas de matto, um rewolver Flaubert de doze tiros, com ornamentações de ouro, um estojo com todas as peças em prata, duas mantas inglezas e varios artigos todos diversos e uteis.

Indubitavelmente o conde de Loreto gastára mais de cinco mil duros com o presente.

Ernesto contemplou tudo com profunda melancholia.

—É preciso acceitar, disse. Ia para Toledo com um equipamento mais modesto. Emfim, tanto melhor para o pobre Mauricio, que se se portar bem, será o meu herdeiro no dia em que eu morrer.{135}

Como se vê, Ernesto, não deixava nem um só momento a ideia da morte.

N'aquella noite Ernesto escreveu a seguinte carta:

 

«Senhor conde

«A opportunidade produz sempre bom resultado no animo impressionavel das creaturas. Dispunha-me a sahir de casa com tenção de comprar alguns apetrechos de caça, quando vi entrar o seu creado com o que me enviou.

«Sem ter nada de Pedro Paulo Rubens, não agradecerei menos os presentes que me fez, do que agradeceu o pintor flammengo os donativos de Carlos I.

«Obrigado, pois, senhor conde, pela sua delicada offerta. Ámanhã parto e talvez nos não tornemos a vêr, apezar dos bons desejos que têem pelo meu restabelecimento. Ha doenças que cada hora qua passa nos leva uma parte da existencia, são as incuraveis; e a minha é d'essas que se chamam de morte.

«Não é o medo nem a apprehensão que me fazem dizer isto; sei bem qual é o mal que me consome, e só terei illusões, quando tiver sido tocado pelos dedos gelados da morte. Deus quer que os doentes do peito sonhem com a vida nos ultimos momentos.

«Adeus, senhor conde. Em breve lhe enviarei por pessoa da minha confiança o primeiro quadro que pintar, e assim o irei fazendo successivamente, mas não receio, que a collecção seja muito grande.

«Cumprimentos á senhora condessa e ao senhor D. Ventura, e não esqueça este desterrado voluntariamente, que prefere a solidão do campo ao ruido e bulicio dos homens.

«Sempre seu amigo

Ernesto Alvarez.»{136}

 

No dia seguinte, Ernesto, depois de fazer varias compras, entre as quaes se contava um vestido para a mulher de Mauricio, despediu-se dos amigos e entrou n'uma carruagem de primeira para Toledo.

Ernesto possuia por uma unica fortuna, ao partir de Madrid, dez mil reales que lhe produziram os objectos e quadros que vendeu.

Álêm dos quinhentos duros e dos presentes do conde de Loreto, levou uma grande caixa com garrafas de champagne, rhum, cognac, aguardente e bom café.

—Esta caixa será a minha alegria, disse Ernesto, sorrindo-se para os amigos. O rhum concilia o somno e o champagne alegra os pensamentos.



Mauricio esperava-o em Toledo.

Carregou-se toda a bagagem em varios animaes e partiram para os montes, onde o caçador morava.

CAPITULO XXII

Vida de recordações

A mulher de Mauricio não conhecia Ernesto; mas vendo-o chegar com o marido e toda aquella bagagem, disse:

—É um principe que entra para nossa casa.

E effectivamente, o pintor foi para aquelle honrado casal tanto como um principe, a julgar pela generosidade com que pagava os serviços que recebia.

Petra ficou louca de contentamento, vendo sobre uma cadeira o presente que Ernesto lhe trouxera, e que constava de um vestido de lã, um lenço de seda e uns brincos de ouro e coral.

Mauricio examinava tambem com satisfação uma{137} espingarda de dois canos, de fabrico belga, e uma forte e boa faca de matto.

—Mauricio, disse Ernesto, depois de entregar os presentes; estou muito doente e venho passar algum tempo comtigo. Sei que vives da caça. Nomeio-te meu caçador, e dou-te um duro por dia. Aqui tens adeantadamente dois mezes.

Ernesto pôz na mesa sessenta duros.

Mauricio e Petra olharam para o dinheiro, sem comprehenderem uma palavra de tudo aquillo.

—A caça que matarmos, exceptuando algumas peças que Petra cosinhará, é tua e pódes vendêl-a e guardar o dinheiro. Eu comerei com vocês. Nada de cerimonias, o modesto cosido e uma vez por outra uma perdiz com molho de villão ou um coelho á caçadora, de que muito gósto, e por isso para prato darei doze reales diarios. O café e o vinho ficam por minha conta. Por agora aqui têem esse caixote, onde estão varias garrafas. Preciso que me cedam a sala, porque tenciono pintar alguns boccados. Tambem virei a precisar que de vez em quando vás a Madrid levar os quadros que pintar e comprar varias cousas que me tornem mais ameno este deserto. Emfim, meu caro Mauricio, sei que vou dar-te muitos incommodos, que vaes ter muitos carinhos para commigo, mas eu procurarei recompensar-te o melhor que puder.

—Offerece-me muito, disse o caçador, visto poder vender uma parte da caça que matarmos, e então com o senhor que atira tão bem ou melhor do que eu!...

—Mas estou doente, e já não tenho as infatigaveis pernas d'outros tempos; e muitos dias deixaremos de matar por causa d'ellas.

Durante aquelle dia, Ernesto, Mauricio e Petra occuparam-se em arrumações, transformando a sala em atelier para o pintor.

—Agora, meus amigos, só me falta advertil-os d'uma cousa, disse Ernesto. Estou doente, e como todos os doentes tenho as minhas rabugices. Quando{138} estiver no meu quarto, depois de me chamarem duas vezes para comer e eu não vier, comam sem esperarem por mim.

Mauricio e Petra notaram que Ernesto estava muito pallido e com mau parecer, que tinha uma tosse tão sêcca e importuna que não prophetisavam nada de agradavel para o seu hospede.

Quando Mauricio e sua mulher recolheram ao quarto, ella disse:

—Uhn! Parece-me que o senhor Ernesto não viverá por muito tempo.

—O mesmo penso eu.

—Sabes, Mauricio, que me parece que deve haver algum mysterio em tudo isto?

—Anh! As mulheres não pensam n'outra cousa. Aqui não ha outro mysterio senão que o senhor Ernesto está doente e que se vem restabelecer.

—Seja como fôr, que seja bem vindo, porque com elle veiu a fortuna.

Mauricio não respondeu. Como a mulher, suspeitára que algum desgosto atormentava o seu hospede, mas mais prudente que Petra, disse de si para comsigo:

—Dêmos tempo ao tempo que saberemos a verdade. Emfim, seja como fôr, Ernesto é bom rapaz e sinto-me satisfeito por vêl-o em minha casa.



Ernesto estava fechado no quarto. Seriam onze horas da noite. O luar entrava pela janella que se conservava aberta. A brisa nocturna levava até elle, de envolta com as suas invisiveis pregas, o perfume das silvestres plantas do monte.

Aos pés da cama, sobre duas pelles de carneiro, dormiam os dois cães que Ernesto baptisára com os nomes de Roma e Florença.

O pintor, sentado junto de uma mesa, tinha na sua frente uma garrafa de cognac e um copo.

Não illuminava o quarto outra luz senão a do astro da noite.{139}

De vez em quando Ernesto bebia um gole de cognac e levava a mão ao peito, respirando com difficuldade.

—Ah! Sim, sim, dizia, falando comsigo. A solidão dos montes, é o que me convêm, porque longe da importuna charlatanice dos homens poderei dedicar a ella todos os momentos da minha vida. Quizera apagar da minha alma a recordação d'aquellas noites de Florença e arrancar dos meus labios o beijo de fogo que me queima o coração. Mas é impossivel! Cada vez a amo mais. Que seja feliz já que eu o não posso ser!

Ernesto bebeu de um só trago o conteúdo que ainda tinha no copo e encheu-o novamente.

—A embriaguez sempre me repugnou, continuou, mas é o meu unico recurso para esquecer. Que feliz é o homem que esquece!

E Ernesto esvasiou o segundo copo, fazendo um gesto de repugnancia; mas dominando-se a si mesmo encheu-o pela terceira vez, despejando-o rapidamente.

—Abraza-se-me a garganta, murmurou, mas é preciso que durma e que esqueça.

E, levantando-se tirou uma garrafa de champagne do armario onde as arrumára, fez-lhe saltar a rolha, e bebeu com avidez, dizendo:

—Este é que é o grande vinho! Vinde, sonhos côr de rosa! Vinde, ainda que seja uma mentira, uma illusão, fumo que desappareça ao sopro terrivel da realidade!

E depois de exgotar a garrafa, deixou-se cahir na cama, onde não tardou muito que adormecesse, porque estava completamente embriagado.



Mauricio e Petra levantaram-se com o sol, e viram, com grande assombro, ao passarem pelo quarto de Ernesto, que as janellas estavam abertas.

—Sahiria tão cedo? disse Mauricio.

E entrou no quarto.

Ernesto dormia. Mauricio fechou a janella e sahiu{140} nos bicos dos pés para o não despertar, mas toda a precaução foi inutil, porque Ernesto abriu os olhos e viu-o.

—Ah! És tu? disse elle. Bons dias, Mauricio. Que bem que dormi.

Mauricio reparou então que o seu hospede não se despira, e que sobre a mesa estavam duas garrafas despejadas.

—Sabes, Mauricio, que estou com vontade de experimentar os meus cães?

—Podemos dar uma volta, se quizer.

—Mas é preciso ter alguma contemplação.

—Andaremos só o que quizer.

—Então vamos.

E Ernesto poz a cartucheira, pegou na espingarda e chamou os cães.

A uns quinhentos passos de casa, Roma e Florença levantaram os focinhos e moveram a cauda com mais viveza do que a usual.

—Parece que os cães se sentem satisfeitos, disse Ernesto.

—Têem bom faro. Já sabem que este terreno é muito abundante de caça; e estou crente que algum dia vou encontrar as perdizes dentro de minha casa.

Os cães deram signal: Roma todo curvado com o focinho junto ao matto, Florença extendido. Roma encontrára uma peça de surpreza e Florença o rasto verdadeiro.

Um bando de perdizes levantou-se então com estrepito do meio do matto á investida dos cães.

Mauricio disparou, matando com o segundo tiro um perdigoto. Ernesto ia tão distrahido que não teve tempo de fazer fogo.

Desde o rei ao batedor, desde o caçador ao armador, todos quantos abandonam as commodidades da sua casa e se dedicam aos prazeres da caça, são inimigos irreconciliaveis da perdiz; por isso a natureza a dotou com uma vista melhor que a do lynce, de um ouvido superior ao da lebre, e de um instincto de conservação tão grande que não ha animal que lhe ganhe.{141}

Se a perdiz fosse tão dorminhôca como o arganaz e tão indolente como a codorniz, teria desapparecido do reino animal antes de se inventar a polvora.

O arganaz tem, comtudo, tanto engenho como somno; diga o ardil maravilhosamente inventado por elle para apanhar o incauto passarinho que vae pôr sobre elle, satisfeito por ter encontrado um ninho onde guardar os ovos.

Mas deixemos esta digressão. Se algum dia as minhas occupações permittirem, escreverei um livro para os caçadores que contenha a parte agradavel e ridicula da caça, consignada na pratica de muitos annos de experiencia passados na agreste e grata solidão dos montes.

Voaram as perdizes, surprehendidas no seu doce bem-estar, á sombra de um sobreiro, e como o violento e rapido vôo da perdiz excita e põe nervoso o caçador aficcionado, Mauricio exclamou:

—Vamos a ellas, senhor Ernesto.

—Sim, sim, vamos, já que não disparei.

Mauricio esqueceu n'aquelle momento que levava por companheiro um doente fraco, e foi depressa, ou melhor dizendo, a correr pela encosta de um barranco.

Ernesto fez esforços para o seguir mas a meio caminho largou a espingarda, extendeu os braços e cahiu desamparado. Tinha desmaiado.

Mauricio deteve-se assustado, pegou no seu hospede ao collo e deitou a correr até casa, que não era longe. Petra ao vêl-o entrar, trazendo Ernesto nos braços, não poude conter um grito.

Mauricio continuou o seu caminho e deitou Ernesto na sua cama, o qual, pouco depois, abriu os olhos, enviando um sorriso de agradecimento ao caçador.

—Diabo! Que susto que me pregou, senhor Ernesto! Julguei que se despenhava pelo barranco.

—Bem vês, Mauricio, que não presto para nada, nem mesmo para caçar. Já estou melhor. Mas em quanto não estiver em estado de te acompanhar, dedicar-me-hei{142} a caça de espera. Agora tranquilliza-te, hoje em vez de caçar, pintarei. É preciso matar o tempo.

Uma hora depois, Ernesto mais alliviado, tomava algum alimento e punha uma tela n'um cavallete.

Pensou alguns minutos qual o assumpto de que trataria primeiro, e acabou por decidir-se, esboçando a scena que pouco antes succedêra no barranco.

CAPITULO XXIII

Uma caçada

Durante oito dias Ernesto não tornou a pegar na espingarda. De manhã, pintava, á tarde, seguido pelos cães dirigia-se a um monte proximo de casa, sentava-se na parte mais alta e como gozava disfructando o panorama que aquelle sitio apresentava, passava largas horas immovel como uma estatua.

Algumas vezes, já noite, Mauricio ia buscal-o e ambos regressavam a casa.

Ao nono dia, Ernesto chamou Mauricio.

—Desejo que vás a Madrid, disse-lhe, entregar este quadro á pessoa que te indicarei, mas preciso primeiro que matemos um javali, para offerecer á mesma pessoa.

—Para isso é preciso fazermos uma espera toda a noite, e como o senhor está muito fraco...

—Não te inquietes com a minha fraqueza; esperaremos. Preciso de um javali.

—Posso matal-o sósinho, se quizer.

—Não, não; quero acompanhar-te. Quando póde ser?

—Esta noite; sei onde se vae banhar uma manada d'elles, e é infallivel matar-se algum.{143}

—Um só chega.

—Pois matar-se-ha.

—Então prepara tudo para esta noite.

—Devo advertil-o de que o sitio onde vamos fazer a espera, fica a tres quartos d'hora de caminho d'aqui.

—Não faz mal, iremos com antecedencia. Sahiremos cedo.

—Bem, bem.

Mauricio sahiu do quarto de Ernesto, meneando a cabeça em signal de desgosto, chegou á cosinha, onde estava sua mulher, e disse-lhe:

—Petra, esta noite o senhor Ernesto quer que vamos á espera dos javalis: tem desejos de matar um. Por isso cearemos uma hora antes de pôr o sol. Talvez não voltemos em toda a noite.

—Mas isso é uma loucura. O sr. Ernesto não está em estado de passar tantas horas ao relento da noite.

—Então que queres, embirrou que me ha de acompanhar!

—Mas não acho bôa a vida que leva para quem precisa restabelecer-se.

Mauricio encolheu os hombros, e, sentando-se num banco, enrolou um cigarro.

—Estamos em quarto minguante. Para matar uma ou duas peças é preciso ir aos charcos do barranco da Culebra, pois vão ali de noite beber agua e fossar no barro. O caminho não é dos melhores. Queira Deus que possa lá chegar.

—Já lhe disseste isso? Porque não vae a cavallo?

—Já, mulher, já; mas diz que quer ir a pé e quando elle teima não ha outro remedio senão obedecer.

Petra approximou-se do marido, e, baixando a voz, disse:

—Dize-me, Mauricio. Tu conhécel-o ha muito tempo?

—Sim, cacei com elle muitas vezes e sempre foi o melhor e o mais generoso homem do mundo.

—E tinha o vicio que tem agora?{144}

—Não, Petra, antigamente não bebia bebidas brancas, bebia sómente vinho, e isso mesmo pouco. Hoje, como sabes, quasi todas as noites...

Mauricio deteve-se, dirigiu um olhar para a porta, e depois continuou:

—Hontem reprehendi-o amigavelmente, dizendo-lhe que não lhe podia fazer bem beber tanto rhum, e elle, pondo-me uma mão no hombro, e sorrindo-se com expressão bondosa, respondeu-me:

—Caro Mauricio, ha dôres tão terriveis, desgostos tão profundos, que para os esquecer algumas horas é preciso embriagarmo-nos. A minha doença não tem cura; deixa-me, pois, beber, esquecer, dormir.

—Quando eu disse que havia aqui algum mysterio!... disse Petra.

—Tambem me parece que tens razão; aqui deve haver mysterio.

—Sabes o que calculo? Que tudo isto deve ser obra de mulher.

—E porque calculas que seja obra de saias?

—Vaes vêr. Outro dia entrei no quarto para o tratar, como de costume, e encontrei debaixo da almofada uma fita de seda, e um boccado de tela, onde estava pintada uma cabeça de mulher extremamente formosa. Não tive tempo para mais do que olhar rapidamente para estes objectos e tornal-os a pôr no mesmo sitio em que os encontrei quando o vi entrar, precipitadamente, dirigir-se para a cama, pegar n'elles e sahir do quarto do mesmo modo, olhando-me de um modo estranho, como se quizesse adivinhar se eu tinha visto. Fiz-me desentendida, e continuei arrumando o quarto.

—Que curiosas são as mulheres.

—Juro-te que só por casualidade...

—Emfim, seja como fôr, visto que elle nada nos disse, nos não lh'o devemos perguntar.

Como se vê a conducta de Ernesto causava viva curiosidade ao honrado casal.{145}

Ao cair da tarde Ernesto e Mauricio levantaram-se da mesa.

—Levamos Roma e Florença? perguntou o pintor.

—Parece-me melhor deixal-os em casa, respondeu Mauricio; não estão costumados ás esperas, e poderão espantar-nos a caça. Levarei antes o meu podengo para que procure a presa no caso de ficar ferida. Currito (assim se chamava o cão de Mauricio) deita-se a meus pés e não se move d'ahi.

—Vamos quando quizeres.

Mauricio carregou com escrupuloso cuidado a espingarda e guardou um frasco de rhum no bolso. Ernesto pegou na sua e sahiram.

O sol começava a declinar.

—Temos tempo, disse Mauricio. D'aqui até aos charcos levaremos quando muito tres quartos de hora. Reconheci esta manhã o terreno e calcúlo pelas pégadas que são uma femea com sete a oito filhos, e dois machos que não devem ter menos de dez annos. Os machos veem sós, antes ou depois da femea. Parece-me que nos divertiremos, mas é preciso ter muita paciencia, porque apezar de todas as rezes abandonarem as tocas quasi á mesma hora, umas estão mais longe do que outras do barranco e chegam por conseguinte mais tarde. Tenha cuidado em fazer fogo sobre a peça antes d'ella entrar n'agua. Se cair morta fique quieto, porque quando o charco estiver silencioso, em poucos minutos apresentar-se-nos-ha outra, e assim successivamente se podem disparar alguns tiros durante a noite. O sitio onde vamos é bom, e estaremos perfeitamente collocados.

Ernesto ouvia satisfeito as lições que lhe dava aquelle homem experimentado.

Mauricio que como todo o caçador de profissão tinha uma vista privilegiada, deteve-se, inclinou-se para reconhecer o caminho, e disse:

—Ola! Por aqui passou um veado de dez pontas novas; aqui ha pégadas recentes; os córtes na herva{146} são frescos. A femea caminhava mais á direita: passou por aqui.

—Mas como diabo conheces se é femea ou macho? perguntou Ernesto, admirado da certeza com que Mauricio falava.

—Isso salta bem a vista. Um montanhez practico nunca se engana. O veado tem o passo maior do que a corça, e deixa a pégada mais profunda, caminha com mais regularidade, e colloca a pata trazeira sobre a pégada da pata deanteira. A corça tem o pé mal feito, os seus passos são mais curtos, e por conseguinte, não chega com as patas trazeiras ás pégadas das patas deanteiras. Emquanto ao conhecimento pelas pégadas, é unicamente devido á grande practica. Quando se segue um rasto pelas pégadas, o caçador deve conhecer se o veado que persegue é estaquero, isto é, se lhe começam a sahir os paus, tem um anno; enodis, tem tres a quatro annos, diez condiles nuevos, se entrou nos seis annos, ou ciervo viejo, se tem mais de dez annos. A estes conhece-se facilmente; têem os pés deanteiros mais desenvolvidos do que os trazeiros.

Depois d'estas explicações que deixaram Ernesto satisfeito, receou não as poder pôr em practica sem commetter grandes erros.

De vez em quando o caçador dirigia um olhar furtivo ao seu companheiro, cuja pallidez e difficil respiração o inquietavam.

A meio da ladeira, que tinham que transpôr para chegarem aos charcos, situados em um dos barrancos, Mauricio deteve-se e disse com manifesto interesse:

—Senhor Ernesto, vejo que está muito cançado. Quer encostar-se ao meu braço?

—Não preciso, mas vamos mais devagar, se te parece.

Como quizer.

Quando chegaram ao cume, Ernesto teve necessidade de se sentar e, encostando os cotovellos sobre os joelhos, deixou cahir a fronte entre as mãos.{147}

O caçador não disse nada; de pé, immovel, ficou contemplando Ernesto com tristeza.

Mauricio não tinha palavras, mas sobrava-lhe coração para compadecer-se do seu hospede, a quem julgava gravemente enfermo.

—Podemos continuar, disse Ernesto, levantando-se.

—Agora o caminho é mais facil, respondeu Mauricio. Os charcos estão n'esse barranco; antes de um quarto de hora estaremos commodamente sentados nos nossos postos.

Mauricio seguiu por uma vereda aberta entre a matta. Ernesto caminhava atraz.

De vez em quando o caçador voltava a cabeça para vêr se o seu companheiro o seguia.

Quando chegaram aos charcos ainda restavam alguns instantes de dia. As magestosas sombras da noite avançavam com rapidez, mas a lua ia rapidamente tornal-as menos escuras, pois o seu disco despontava já no horisonte.

—Parece-me conveniente que fiquemos juntos, porque assim quando estiver cançado voltaremos para casa, disse Mauricio.

—Mas mataremos menos caça.

—Quem sabe! Podem entrar juntas e então cada qual escolhe a sua.

Mauricio conhecia varios esconderijos em torno do charco e escolheu, pelas recentes pégadas dos javalis, o que lhe pareceu melhor; dobrou o capote, e estendeu-o no chão para que Ernesto estivesse mais commodamente e esperaram calados.

A noite é mais magestosa, mais imponente, mais bella no meio do Oceano ou n'uma montanha, do que nas ruas de Madrid. Nas grandes cidades vê-se por toda a parte a mão do homem, mas no mar ou na montanha vê-se a de Deus.

Ernesto e Mauricio esperavam no mais profundo silencio. O pintor entretinha-se contemplando o magnifico astro da noite que subia magestosamente pelo céu enchendo o espaço de poetica e melancholica luz,{148} que cahindo como chuva de perolas sobre as armadas das arvores e sobre as silenciosas aguas do charco, dava um tom encantador á paisagem.

Ernesto, como pintor, pensava em fazer um estudo d'aquelle logar e pintar depois um quadro; mas ao mesmo tempo pensava na mulher do homem que se compromettera a comprar-lhe tudo quanto pintasse durante a sua estada nos montes de Toledo.

A presença da lua, o imperceptivel movimento das ramadas dos azinheiros, o silencio da noite que o rodeava, fizeram-lhe recordar Florença. Fechou os olhos para sonhar acordado, e os seus labios entreabriram-se em doce extasis, como se fôsse a dar e receber um apaixonado beijo de amor.

N'aquelle momento para elle não existia mais do que o presente. A sua vida era uma recordação; a sua alma apaixonada apresentava-lhe com todas as côres da verdade as scenas apaixonadas e perdidas para sempre, causa da sua desgraça, origem da sua morte.

Se tivesse entrado no charco um bando de cincoenta rezes, Ernesto não ouviria; mas, felizmente tinha ao seu lado Mauricio, caçador de profissão, que sem ter a imaginação preoccupada com outra cousa que não fosse o fim para que fôra até alli, estava com o olhar fixo, o ouvido attento e a espingarda prompta a despedir a morte e como o verdadeiro caçador que quando faz uma espera tem o ouvido e a vista tão perspicaz como a da perdiz, e por isso sem duvida Ernesto sentiu que o seu companheiro lhe tocava no braço.

Ernesto abriu os olhos.

—Acorde, que já as ouço.

—Não estou a dormir, respondeu o pintor, mas não ouço nada.

—Pois já se approximam, tenha a certeza, ainda estão longe, e são femeas; conhecem-se pelo barulho que fazem. Os machos veem sempre mais silenciosos.

Ernesto applicou o ouvido, e, depois de um segundo{149} de immobilidade, meneou a cabeça dizendo:

—Pois eu não ouço nada.

—Sim? Pois tenha paciencia que não tardará muito que tenha de tapar os ouvidos, porque a musica d'ellas, quando andam em manadas, não é por certo das mais agradaveis. Veem a entrar por aquella clareira que está na nossa frente. Antes de se metterem n'agua, de que tanto gostam, param para conhecerem o terreno. Então deve fazer fogo, apontar á maior que ficar a sua esquerda; eu entreter-me-hei com a direita a vêr se, disparando ao mesmo tempo, matamos duas.

E Mauricio, collocando o bico do pé esquerdo sobre o de Ernesto, disse:

—Quando carregar com o meu pé, faça o gosto ao dedo e faça fogo. E agora silencio que já estão perto.

Dois minutos depois, Ernesto ouvia a algazarra que Mauricio lhe annunciára.

Esperaram, pois, pelo momento opportuno que se não devia fazer esperar muito.

No sitio que Mauricio indicára appareceu de repente uma femea muito grande seguida de seis javalis pequeninos cujas desegualdades de tamanho indicavam ser de duas ninhadas differentes.

Ernesto pudéra ter feito fogo á femea; estava uns cinco passos afastada dos filhos, levantando a cabeça em direcção aos charcos.

O pintor olhou para o seu companheiro como que a interrogál-o, mas o caçador indicou com um movimento de olhos que esperasse. E effectivamente a uns vinte metros de distancia do logar em que estava a femea, abriu-se uma clareira e appareceu um javali quasi do dobro do tamanho da femea.

A lua estava tão clara que os caçadores viram perfeitamente os animaes.

Ernesto sentiu o pé de Mauricio comprimir o seu, e como tinha a espingarda apontada, disparou.

As duas detonações produziram no espaço um só echo.{150}

A bala de Mauricio foi tão bem apontada que o javali deu um salto, caindo sem vida depois de soltar um grunhido de raiva. A femea, a que Ernesto apontára foi ferida na cabeça; deu duas voltas, quiz fugir, mas foi cair junto ao charco; depois fez um esforço supremo, levantou-se novamente, entrou na agua para tornar a cair revolvendo-se nas ancias da morte, soltando grunhidos desesperados que pouco a pouco foram enfraquecendo.

Os demais tinham desapparecido como por encanto.

Mauricio ouvia as palpitações do coração de Ernesto cujo ruido e precipitação o assustaram.

—Está peor? lhe perguntou.

—Não, não; é o prazer que experimento n'este momento. Se tornasse a renascer em mim a paixão da caça, talvez esquecesse uma historia que me assassina, que será a causa da minha morte.

O pintor revelára a Mauricio n'um arranco de enthusiasmo, a causa da sua melancholia, a origem da sua doença.

—E que fazemos agora? perguntou Ernesto.

—Primeiro que tudo castrar o macho para que sangre e a carne perca o gosto a bravo.

Mauricio levantou-se, tirou a faca de matto da bainha, e sahiu do esconderijo, dirigindo-se para o sitio onde estava o javali.

Ernesto segui-o, examinando com o mais particular interesse todas as operações que Mauricio fazia ás duas peças mortas.

O caçador depois de lhe abrir todo o ventre e de lhe tirar os intestinos, pendurou-os pelos pés para que sangrassem e ficassem limpos. Depois lavou as mãos na agua do charco, e disse:

—Agora diga-me se quer dar por terminada a caçada ou quer fazer nova espera, apezar de me parecer melhor, o primeiro caso, pois é preciso esperar pelo menos duas horas até que volte outro javali.

—Vamos para casa. E as rezes?{151}

—Ficam ahi. Venho logo buscal-as com o meu cavallo.

—Então dá-me um gole de rhum, e a caminho. Passei um bom boccado.

Ernesto bebeu e deu o frasco a Mauricio. Depois dirigiram-se para casa onde o pintor chegou bastante fatigado.

CAPITULO XXIV

Uma carta e um annel

Ernesto deixou-se cahir na cama, e como sempre, o seu pensamento occupou-se de Amparo.

—Ámanhã, disse, falando comsigo, ouvirá pronunciar o meu nome, e no fundo da sua alma renascerá a recordação das noites de Florença. Os seus labios, vermelhos como bagos de romã, recordar-se-hão tambem d'esse beijo fatal que me fez o mais desgraçado dos homens, e pela mente do conde de Loreto cruzará debil, mas ameaçador, o phantasma de uma duvida, a sombra de uma suspeita.

Ernesto tinha sempre na mesa de cabeceira uma garrafa de rhum; extendeu o braço, pegou na garrafa e bebeu um gole.

—Ha quasi um mez sem a vêr, continuou, e comtudo a ausencia não apagou o fogo devorador d'esta paixão que me abraza. O conde de Loreto tinha mais direito do que eu para ser amado, mas indubitavelmente não a ama tanto. E que importa isso ás mulheres? O conde é rico, nobre, e a vaidade é o dominio tentador do bello sexo. Se o amor é o fogo d'alma que transmitte calôr ás ideias dos homens de genio, devo fazer grandes quadros.

E Ernesto soltou uma gargalhada, pegou novamente{152} na garrafa, e quasi a despejou de um trago.

Na sua physionomia, no seu olhar, assomaram os symptomas da embriaguez produzida pelo alcool.

Com a lingua, presa e balbuciante, começou a falar em voz alta.

—A luz dos seus bellos olhos é o unico reflexo que illumina as profundas trevas da minha alma, a que acompanha a fria soledade do meu coração; as seis lettras do seu nome, as notas mais harmoniosas que resôam no fundo do meu peito. Insensato! A tua vida não é mais do que um sonho, que se desvanece ante o sopro da realidade. Tu recebeste tres beijos, durante tres noites de luar; aquelles beijos encerravam o veneno do teu sangue. A tua vida não é vida; o teu amor é só uma recordação. Onde está a morte? Porque tarda tanto? Porque não chega, quando a espero de braços abertos?

Ernesto fechou os olhos. Os seus labios entreabriram-se para deixar passar um suspiro, e ficou dormindo pensando em Amparo.



Mauricio entrou no quarto do seu hospede ás cinco da manhã.

Ernesto levantou-se.

—Está tudo prompto para partires? perguntou.

—Sim senhor; tenho o javali grande preso convenientemente ao cavallo. Á femea, segundo as suas ordens, tirei-lhe a cabeça e o lombo; o resto fica em casa.

—Espera, disse Ernesto.

E pegando n'uma carta que estava sobre a mesa e n'uma tira de papel, continuou:

—Entregas esta carta, o javali grande e estes dois quadros ao senhor conde de Loreto, rua do Barquillo, n.º..., e comprarás tudo o que vae mencionado n'esta lista.

Ernesto abriu uma gaveta da commoda, tirou dez moedas de cinco duros e entregou-as a Mauricio.

Depois escreveu rapidamente n'uma folha de papel:{153}

 

«Meus bons amigos

Marcial e André

«Remetto-lhes uma cabeça de javali que cosinharão no restaurante do Armiño para almoçarem com alguns amigos, bebendo por este caçador selvagem que se não esquece de vocês.

«Sempre amigo

«Ernesto.»

 

—A cabeça e o lombo da femea entrega-os onde diz este envellope, rua do Prado. Vae com Deus e vem ámanhã, se te fôr possivel.

Mauricio sahiu, despedindo-se da mulher, e encaminhou-se para Toledo, onde devia tomar o comboio de Madrid.

Ernesto pegou na espingarda, chamou os seus cães Roma e Florença, e sahiu tambem em busca de perdizes, prevenindo Petra de que não viria almoçar antes do meio dia.



O conde de Loreto, Amparo e D. Ventura estavam almoçando quando entrou um creado dizendo-lhes que estava á porta um homem que parecia um montanhez, que trazia uma carta, um javali e uns quadros.

—Ah! exclamou o conde, Ernesto cumpriu a sua palavra. Dize a esse homem que suba e tragam vocês o javali para o vêrmos.

Dois creados trouxeram o javali para cima de uma mesa.

—Soberbo animal! exclamou Fernando. Pelas cerdas e pelos dentes bem se vê que deve ser velho.

—Oito annos, respondeu Mauricio. Vale bem a onça de chumbo que lhe deu a morte.

—Pelo que vejo, Ernesto diverte-se pelos montes?

—Diverte-se, exclamou o caçador, tudo menos isso;{154} está muito doente, dorme pouco e não tem appetite. A bem dizer que se alimenta só com café e rhum. Tenho cá um palpite em que não morrerá de velho.

Todos escutavam com interesse as palavras de Mauricio.

—Disseram-me que traz uma carta e uns quadros, disse Fernando.

—A carta está aqui: os quadros deixei-os n'aquella casa.

O conde leu em voz alta o seguinte:

 

«Senhor conde de Loreto

«Ignoro ainda se é proveitosa ao meu corpo esta soledade em que vivo ha vinte dias, mas conheço que é ao espirito.

«No cume d'estas montanhas não se vêem homens, não se encontra a animação nem o bulicio das grandes cidades, mas o ar é mais puro, o horisonte mais limpido, o ambiente mais perfumado e respira-se com mais facilidade.

«Seja como fôr, espero sem sobresalto que se resolva o problema da minha enfermidade, sem me occupar muito se será ou não vantajoso o desenlace.

«Com o portador d'esta, caçador infatigavel e amigo leal, em casa de quem vivo no meio d'estes barrancos solitarios, remetto-lhe o primeiro javali que matámos e dois quadros sobre assumptos de caça, genero a que tenciono dedicar-me emquanto tiver forças para sustentar o pincel.

«Não marco preço aos quadros que lhe envio, porque d'isso falaremos depois de lhe mandar doze. Demais, ainda que pobre, hoje não preciso de dinheiro, mas avisál-o-hei quando precisar. Seja, portanto, o meu banqueiro.{155}

«Para lhes provar que não os esqueço, desejava que me concedessem auctorização para fazer trez retratos de memoria, ainda que se admire ao vêl-os, o meu leal amigo D. Ventura.

«Deponha aos pés da senhora condessa os meus respeitos, dê um abraço em seu sogro e não esqueça que n'este deserto fica esperando occasião de lhe ser util

«o seu amigo e obrg.º

«Ernesto Alvarez.»

 

Amparo ouvira lêr a carta sem descerrar os labios, mas agradecia do fundo da alma a fórma delicada como estava escripta.

Só lhe prendeu a attenção a auctorização que pedia para pintar os tres retratos, entre os quaes devia figurar o seu.

—Quando tenciona voltar para Toledo? perguntou o conde ao caçador.

—Desejava ir esta noite no comboio das sete e quarenta. Os meus affazeres em Madrid, depois de sahir d'esta casa, resumem-se apenas a algumas compras de que o senhor Ernesto me encarregou, e entregar uma cabeça de javali e um lombo a uns senhores que moram na rua do Prado.

—Tem algum inconveniente em me dizer que objectos o senhor Ernesto o encarregou de comprar.

—Não, senhor; aqui está a relação.

E Mauricio entregou-a ao conde que depois de lêr, disse:

—Meu amigo, tenho em casa tudo quanto Ernesto deseja; não precisa, pois, ir comprar cousa alguma. Agora vá almoçar emquanto escrevo uma carta, depois irá levar a cabeça a esses senhores, e meia hora antes do comboio partir encontrará na estação, despachado para Toledo, tudo quanto Ernesto pede.{156}

Mauricio com sinceridade natural, ia entregar ao conde o dinheiro que Ernesto lhe dera.

—Não, esse dinheiro entregue-o a quem lh'o deu, e demais, far-me-ha o favor de acceitar esta onza,[2] para comprar um presente a sua mulher.

Mauricio tentou recusar a onza, mas o conde obrigou-o a acceitál-a.

Depois, conduziram-n'o a outra casa onde lhe serviram o almoço.

O conde escreveu entretanto a seguinte carta.

 

«Amigo Ernesto

«Os quadros são bellos e o javali soberbo. Quando os homens têem talento trabalham em todos os generos. Obrigado pela sua boa memoria, obrigado, porque se não esqueceu de nós, apezar do mal que lhe temos feito.

«Pede-me auctorização para fazer tres retratos; concedo-lh'a satisfeito não só por lhe ser agradavel a si como tambem ás pessoas que vão ser retratadas nas telas.

«Desejava passar uma temporada na sua companhia para caçarmos juntos, e para vêr se o convencia a abandonar essa vida solitaria, principalmente durante os quatro mezes de rigoroso inverno.

«Até então veremos o que posso conseguir. Hei de fazer a diligencia.

«Fico esperando os doze quadros que me annuncia na sua carta, o que me prova que se sente animado para o trabalho.

«Adeus, meu amigo, e não esqueça que lhe desejamos todas as propriedades.

«Sempre seu amigo,

«Fernando del Villar.»{157}

 

O conde leu a carta á mulher e disse:

—Agora, minha querida, escreve quatro linhas ao nosso amigo; talvez isso lhe faça bem.

Amparo olhou o marido, receando que aquelle desejo envolvesse uma intenção pouco agradavel.

O conde sorriu-se porque comprehendêra a duvida da mulher. Mas rodeando-lhe a cintura, e, dando-lhe um beijo apaixonado, disse-lhe:

—Leio nos teus olhos, minha querida, a desconfiança, e sinto-o; isso indica-me que me amas muito, mas que me conheces pouco. Escreve a Ernesto, sou eu que t'o peço. Quatro palavras tuas far-lhe-hão bem, o desgraçado ama-te de toda a sua alma. Muito desgraçado o fizemos. Não sejamos egoistas até ao ponto de sermos malvados gozando com a sua agonia, com a sua dôr, que só terá fim com a morte. Escreve-lhe, pois, o que quizeres, Amparo.

O conde sorrindo-se com bondade, e dando segundo beijo na esposa, continuou:

—Não lerei o que escreves. Adeus. Quando acabares fecha a carta e entrega-a tu mesma a esse homem.

E o conde sahiu.

Amparo ficou com a carta na mão e como que pregada ao chão.

Aquella confiança que o marido acabava de mostrar era verdadeira ou um laço?

Amparo não podia crêr na hypothese de um laço n'um homem tão generoso como Fernando.

O conde de Loreto não era um homem vulgar. Amava a mulher, perdoára-lhe o seu coquettismo com Ernesto antes de o conhecer a elle, calculava as dôres e os soffrimentos do pintor a quem estimava devéras e por isso disséra á mulher que escrevesse.

Amparo sentou-se, pegou na penna e durante dez minutos não soube como começar.

De subito teve uma ideia. Os olhos brilharam-lhe, o semblante reanimou-se-lhe: dir-se-hia que receava{158} transmittil-a ao papel, mas fazendo um esforço, e com mão mal segura, escreveu:

 

«Senhor Ernesto