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Historia de um beijo

Chapter 51: CAPITULO XXVI
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About This Book

A narrativa centra-se em Amparo, jovem de beleza e coquettismo cuja intensidade afetiva provoca sentimentos profundos em Ernesto, um pintor sensível que encontra na arte e no desejo um ideal inatingível. A história examina como um beijo ou uma palavra afirmativa podem transformar esperança em tortura, descrevendo encontros, pequenas cenas cotidianas e a angústia interior que dilacera um coração entregue. Temas recorrentes incluem desejo não correspondido, idealização amorosa e o preço emocional da incerteza.

«Ja que meu marido o auctoriza a fazer os tres retratos, e julgando que d'elles um será o meu, peço-lhe, (queira perdoar este capricho de mulher), que se não esqueça do vestido que tinha em Roma quando veiu offerecer-me o que fizera, e que ainda conservo sobre o fogão do meu gabinete.

«Trate-se, porque desejamos em breve vêl-o completamente restabelecido.

Amparo.»

 

A condessa fechou a carta e foi entregál-a a Mauricio, que já tinha acabado de almoçar.

—Entregue esta carta ao senhor Ernesto, mas só a elle, disse-lhe.

—Sim, senhora condessa.

Amparo ia a sahir, mas deteve-se.

—É casado? perguntou.

—Sim, minha senhora.

—Então faça favor de dar da minha parte este annel a sua mulher, e recommendar-lhe que trate do senhor Ernesto com todo o carinho.

E Amparo como que envergonhada por aquelle arranco, tirou um annel do dedo, entregou-o a Mauricio e sahiu, dizendo para comsigo:

—Assim comprehenderá que me não é indifferente o seu soffrimento e que a sua morte me ha de custar algumas lagrimas.

Mauricio ficou um momento immovel. Pensava se aquella mulher tão formosa teria alguma coisa que vêr com os padecimentos do seu hospede.



Á hora indicada pelo conde, Mauricio estava na{159} estação, onde um creado lhe entregou uma guia do caminho de ferro.

—Que é isto? perguntou elle.

—Da parte de meu amo, o senhor conde de Loreto. Com esta guia lhe entregarão em Toledo, pois que foram expedidas em grande velocidade, duas caixas e um caixote grande. N'ellas vae tudo quanto o senhor Ernesto encommendou.

Mauricio guardou a guia na carteira e entrou para a gare, tomando então logar n'um compartimento de terceira classe.

Durante a viagem, o caçador olhou muitas vezes para o annel, e pensava em quem lh'o dera, dizendo de si para comsigo:

—Parece-me que vou descobrindo alguma cousa do segredo!

CAPITULO XXV

O regresso de Mauricio

Quando Ernesto sahia só, afastava-se pouco da habitação de Mauricio.

Muitas vezes pendurava a espingarda no ramo de um azinheiro, e, subindo com difficuldade ao mais alto monte, sentava-se ahi, ficando largas horas a contemplar a paisagem; outras, sem temer o perigo, descia ao mais fundo dos barrancos, agarrando-se ás plantas, gozando tambem n'aquella silenciosa soledade, onde o menor suspiro faz na concavidade das rochas um echo como se repetisse a voz humana.

Então esquecia os cães, a espingarda e a caça, e a recordação inolvidavel de Florença preenchia-lhe por completo a sua imaginação.{160}

O seu amor por Amparo era tão constante, tão verdadeiro, tão grande, que, enchendo todo o seu ser, formára n'elle uma segunda natureza tão poderosa que era impossivel separar-se d'elle sem perder a vida.

Conhecia, comtudo, toda a loucura da sua paixão, e acceitára-a como se acceita uma d'essas doenças que se não procura e que nos causa a morte.

Se Ernesto tivesse encontrado uma Heloisa, a terra para os dois amantes teria sido um paraiso, mas encontrára uma coquette que lh'a converteu em pantanoso charco, que lhe envenenou o sangue ao aspirar os maleficos miasmas que exhalava.

O seu mal era irremediavel. O amor tem muitas vezes a sua dose de veneno que causa a morte.

Mas, apezar d'isso, o coração de Ernesto era tão grande, tão nobre, tão generoso, que não odiava aquella que era seu tormento, antes pelo contrario, amava-a cada vez mais.

Talvez que ainda lhe restasse um pouco de esperança, e d'essa esperança emanava a doce compaixão que sentia por Amparo.

Por outro lado, o conde de Loreto era um homem digno de ser amado. Quão doloroso teria sido para Ernesto vêr-se preferido por um homem indigno, por um ser desprezivel, como acontece tantas vezes na vida!

Quantos exemplos se podem citar de levianas mulheres que espesinham a honra de homens illustres nos braços de amantes despreziveis!

Ernesto reconhecia no conde grandes qualidades, e isto fazia-lhe menos culposa a conducta de Amparo. Conhecia tambem que, se o conde não fosse um homem superior e menos conhecedor do mundo, sabendo os antecedentes de Roma e Florença e a parecença de Esther com a mulher, tomaria isso por uma grave offensa e o assumpto não teria ficado assim. Talvez um duello, e, por conseguinte, o escandalo que segue casos d'esta natureza, teria augmentado as difficuldades a Ernesto para chegar até Amparo,{161} para ser talvez amado por ella com a vertiginosa paixão do adulterio.

Com a conducta prudente, digna e sabia do conde, evitou todos os perigos que ameaçavam o marido, a mulher e o amante, cortando com um só golpe a cabeça á repugnante maledicencia, que já comecava a levantar-se, sorrindo-se de uma maneira satanica.

Por isso, Amparo e Ernesto admiravam o procedimento do conde de Loreto, e este por seu lado, podia dormir tranquillo, com a segurança de que sua mulher não o trahiria. E emquanto a Ernesto, sabia que de rival intransigente se convertêra em amigo leal.

Amparo, comtudo, passou mal algumas noites. Amava com delirio o marido, mas convencida de que ella era a causadora da doença de Ernesto, temia o momento em que uma carta participasse a sua morte, isto é, que em seu peito entrasse o remorso, que tira o somno, que entristece a alma, que põe uma nuvem no coração.


Mauricio chegou ao monte ao amanhecer do dia seguinte; Petra acabava de se levantar, e ouvindo assobiar correu a abrir a porta.

O caçador não vinha só. Acompanhava-o um homem com tres burros carregados com os objectos que o conde enviára a Ernesto.

—Tudo isto é para nos? perguntou Petra, depois de abraçar o marido.

—É para o senhor Ernesto, que lh'o manda um amigo de Madrid. Mas tambem trago um presente para ti.

—Isso já eu esperava porque os bons maridos não se esquecem das mulheres quando vão ás grandes cidades.

O homem começou a descarregar as caixas e o caixote, deixando tudo junto da porta.

Mauricio entretanto metteu dois dedos da mão direita no bolso do collete e tirou a onza que o conde lhe dera, dizendo em voz baixa:{162}

Pega: isto offereceu-me aquelle senhor a quem levei o javali e os quadros como gorgeta. É para comprares o que quizeres.

—Uma onza! Fizeste bem em a não trocares, porque a mulher cuidadosa pensa sempre no dia de ámanhã, e, quando apanha á mão uma moeda d'estas, guarda-a como um remedio contra as necessidades da vida.

—E o senhor Ernesto? perguntou Mauricio.

—Ainda dorme.

—Hontem sahiu?

—Sim, um boccadito de manhã. Voltou muito cançado e comeu pouco. Coitado! está cada vez mais triste. Esta noite entrei no quarto para vêr se queria tomar alguma coisa, e encontrei-o com os olhos inchados, enegrecidos, como se tivesse chorado. Muito grande deve ser o seu desgosto.

Mauricio guardou silencio; e como o homem já tinha descarregado todos os objectos pagou-lhe, dizendo:

—Petra, dá a este homem alguma coisa de comer e de beber.

Mauricio entrou em casa, dirigindo-se ao quarto de Ernesto, e, como reinava o mais profundo silencio, pensou que se não respondesse, chamando baixinho, seria melhor deixal-o dormir.

Chamou, pois, á porta suavemente, mas a voz do hospede respondeu:

—Quem é?

—Sou, eu, senhor Ernesto.

—Ah! Mauricio! Espera que vou abrir.

Ernesto saltou da cama, abriu a porta e tornou a deitar-se.

—Bem vindo sejas, Mauricio. Não te esperava tão cedo. Abre a janella e dá-me conta da tua missão.

—O conde de Loreto é um sujeito muito generoso, disse Mauricio. Depois de me receber muito bem e de me dar de almoçar como a um principe, deu-me uma onza em ouro.{163}

Mauricio continuou contando tudo quanto se passára em casa do conde e terminou:

—Emquanto a senhora condessa entregou-me esta carta para si e perguntando-me se era casado, disse-me: Pois dê este annel da minha parte a sua mulher para que tratem com muito cuidado o senhor Ernesto.

O pintor sentiu-se commovido até ao fundo d'alma. Mauricio comprehendeu o effeito das suas palavras, e, tirando a carta e o annel, entregou tudo ao hospede.

—Mas este annel é para tua mulher, disse Ernesto, fixando-o com um olhar penetrante.

Mauricio sorriu-se e disse:

—Isso é uma joia bôa de mais para quem está todo o dia a trabalhar. Póde guardal-a. E de mais, Petra não sabe de nada, e olhos que não vêem coração que não sente.

Ernesto não poude conter a sua alegria e lançou-se nos braços de Mauricio, cujo procedimento delicado lhe causou profunda admiração.

—Ah! já me esquecia, disse Mauricio. Tambem os seus amigos da rua do Prado me deram esta carta para si.

E, entregando a carta, sahiu do quarto afim de deixar só o seu hospede, de quem começava a descobrir o segredo.

Ernesto, ao vêr-se só, beijou repetidas vezes o annel, apertando-o depois com delirio de encontro ao peito.

Leu a carta do conde e o post-scriptum da condessa, guardou-a juntamente com o annel n'uma gaveta da commoda, e, procurando serenar, disse:

—Ella não me esqueceu; isto sempre serve de consolação para o meu peito. Vejamos o que me dizem Marcial e André, os meus bons amigos.

Ernesto então leu:{164}

 

«Illustre Robinson dos montes de Toledo

«Recebemos a tua cabeça e o teu lombo. e ámanhã brindaremos á tua saude no restaurant do Armiño.

«Não deves admirar-te de que te tenhamos na conta de um animal feroz, pois que outro nome não merece o homem que deixa as delicias de Madrid pelos selvagens barrancos dos montes de Toledo.

«Agora outro assumpto. Tens todas as probabilidades que te concedam o primeiro premio ao teu celebre quadro de Esther. Se assim fôr, iremos entregar-te a medalha de ouro, e beber comtigo uma duzia de garrafas de Champagne.

«Procura, comtudo, restabelecer-te rapidamente e voltares, porque nós preferimos comer sentados em volta de uma mesa, pisando alcatifas, recebendo o calor de fogões e a luz do gaz, do que comer no campo sobre o duro chão, acariciado pelas formigas e outros animaes importunos.

«Estimando-te sempre e admirando como nunca.

«Somos teus amigos

«Marcial e André.»

 

Ernesto sorriu-se tristemente quando acabou a leitura da carta.

—Ah! exclamou. Que feliz que é o mortal que encontra uma mulher que o ama e dois amigos leaes e carinhosos! Mas a felicidade nunca é completa para o homem. Só encontrei os amigos. Onde acharei a mulher?

E deixando cahir a cabeça sobre o peito melancholicamente, ficou immovel como uma estatua.{165}

CAPITULO XXVI

Uma caçada ás raposas

Se nos entretivessemos detalhando dia a dia a vida de Ernesto desde que chegou a casa de Mauricio até ao dia em que deixou de existir, fariamos um livro interminavel. Procuraremos, pois, tocar sómente nos pontos que julgamos mais importantes.

Ernesto, como dissémos, cançava-se muito a subir as encostas, e o ponto que escolhera para caçar não era dos mais commodos.

Um doente de peito pode caçar sem perigo, mas em terrenos planos que não cancem os pulmões; porêm os montes de Toledo, os de Almenara e outros não têem nada de hygienicos para um caçador de pouca saude.

Poder-se-ha matar muita caça, respirar-se ar puro mas são fatigantes em demasia! Ernesto, pois, escolhêra mau sitio para se restabelecer, mas, como a vida lhe importava pouco, era o mais apropriado para lhe dar cabo dos seus arruinados pulmões.

Ernesto tratava-se pouco. Quando sentia a mente cheia de ideias tristes, pegava na espingarda, chamava os cães e sahia. Se tropeçava com um bando de perdizes, segui-as até que, cançado, se deixava cahir no chão, permanecendo ás vezes mais de uma hora soffrendo angustias de morte.

Muitas vezes a noite surprehendeu-o nos barrancos, e Mauricio, sobresaltado, sahia em sua procura; e então o honrado caçador trazia-o ás costas até casa. Petra e Mauricio lamentavam em voz baixa a teimosia de Ernesto em não querer que se chamasse o medico do povoado proximo.{166}

—Está claro, dizia Mauricio. A dôr que o afflige é tal que deseja acabar depressa com a vida, e quando menos pensarmos encontramol-o morto no monte.

Demais Ernesto, cuja fraqueza era em extremo, ia perdendo as forças e o appetite, e tinha caprichos extraordinarios que faziam estremecer Mauricio.

Certa manhã do mez de março (nevára muito durante a noite anterior e o sol que começava a elevar-se no horisonte convertia o gelo em brando rócio que tornava difficil o transito pelas ladeiras dos barrancos). Mauricio e Ernesto estavam no cume de um monte, quando se aperceberam de que andava uma raposa n'um monte proximo. Ernesto disparou, e o arisco animal soltou um grunhido.

O tiro ferira a raposa nas patas trazeiras; mas com o instincto da conservação arrastou-se até a borda de um barranco, deixando-se cair para a frente.

Ernesto correu até chegar á mesma borda do precipicio.

Mauricio gritou-lhe:

—Cuidado, cuidado, senhor Ernesto. Por ahi não ha passagem.

Ernesto dirigiu um olhar para o abysmo, viu a raposa que fazia esforços desesperados para chegar a uma toca, onde por fim se metteu.

—Indubitavelmente tem alli a femea e os filhos. Se pudessemos descer... disse Mauricio.

—E porque não? respondeu Ernesto, avançando intrepidamente até a abertura do abysmo.

—O terreno está escorregadio; é uma temeridade descer por este despenhadeiro. Um pé em falso, uma tontura, precipital-o-hia a quinhentas varas de profundidade, sobre um leito de pedras.

Ernesto inclinou-se, e, agarrando-se a uma matta que vegetava na borda do abysmo, começara descendo, procurando appoio para os pés nas saliencias da rocha e nos arbustos que cresciam entre as fendas.

Mauricio advertiu segunda vez do perigo imminente que o seu hospede corria, mas Ernesto, detendo-se na{167} sua descida e levantando a cabeça, disse sorrindo-se:

—Não receies, meu bom Mauricio, ninguem morre sem que Deus queira; e se succeder faltar-me o appoio que procuro tranquillamente, e precipitar-me no abysmo, previno-te de que na minha carteira acharás um testamento que te livra de toda a responsabilidade.

E continuou descendo.

Mauricio sustinha com trabalho os cães, olhando com admiração para Ernesto.

Não faltava valor ao caçador para descer por aquelle difficil e perigoso caminho; mas isto teria sido uma imprudencia, pois, descendo atraz, augmentava muito o perigo do pintor.

Mauricio era um bom christão, acreditava nos destinos da Providencia, e, calculando que d'aquelle perigo só Deus podia salvar Ernesto, encommendou-o com fervor ao Altissimo.

A descida de Ernesto até chegar ao penedo onde se havia refugiado a raposa ferida, durou quatro minutos.

O pintor dirigiu um olhar sereno para o abysmo, murmurando em voz baixa:

—Mais profunda é a soledade da minha alma.

Mauricio fechou os olhos muitas vezes, julgando que o seu amigo ia despenhar-se, quando ao pôr o pé ou a mão em algum appoio este cedia.

Por fim Ernesto chegou a uma especie de plataforma. Alli estava seguro, mas era extremamente difficil subir, visto necessitar para isso de muita força nos pulsos.

De repente Mauricio, que se dispunha a descer, viu que as pernas de Ernesto se dobravam e que caia desamparado sobre as rochas que o sustentavam, dando com a cabeça n'um sovereiro, que providencialmente o salvou de uma queda fatal.

Mauricio soltou um grito. Ao principio julgou que o seu hospede rolasse para o abysmo, e então era indubitavel que o seu corpo, feito em mil pedaços, não pararia senão quando chegasse ao fundo. Com{168} grande surpresa sua, viu que o mesmo sovereiro que crescia na fenda da rocha deteve o corpo da queda mortal, mas observou tambem que o corpo estava immovel e como morto e que da bôcca sahia algum sangue.

Mauricio, deixando-se levar pelo seu generoso coração, confiado nas suas herculeas forças desceu rapidamente até onde estava Ernesto, completamente desmaiado.

Durante dez minutos fez todos os esforços imaginaveis para o tornar a si; ora lhe chegava a garrafa do rhum ao nariz, ora lhe banhava as fontes com agua fria. Nada: Ernesto parecia um cadaver.

Então, desprezando o perigo que o cercava, tirou a cinta, atou Ernesto a ella, prendendo-o pela cintura, e, com o desespero do naufrago, começou a trepar pela ladeira levando suspenso á cintura o inanimado corpo do seu hospede, que oscillava sobre o abysmo como a pendula de um relogio.

Se a bôa Petra tivesse chegado n'aquella occasião e visto o perigo que o marido corria, certamente morreria de susto. Deus, evidentemente, que vê e premeia as bôas-acções, deu n'aquelle momento forças a Mauricio para chegar ao cume, salvando o hospede e salvando-se elle proprio.

Quando se viu fóra do abysmo, soltou um d'esses suspiros que dilatam o peito e, ajoelhando-se junto ao corpo inanimado do seu companheiro, deu graças á Providencia, que os salvara de tão imminente perigo.

O pintor continuava sem voltar a si.

Mauricio pôz depois as duas espingardas ao hombro, levantou com os seus robustos braços Ernesto e encaminhou-se precipitadamente para casa, que não ficava muito longe.

Petra ao vêl-o entrar pallido, coberto de suor, a respiração offegante e com Ernesto desmaiado nos braços, cujo rosto estava manchado de sangue, soltou um grito de espanto e disse:

—Que foi, Mauricio? Que succedeu? Morreu o senhor Ernesto?{169}

—Não, não morreu, respondeu Mauricio, está apenas desmaiado. Não te assustes e ajuda-me a mettêl-o na cama.

Um quarto de hora depois Ernesto abriu os olhos, dirigiu um olhar vago em redor, e vendo Mauricio e Petra juntos de si, extendeu-lhes as mãos e disse com difficuldade:

—Obrigado, meus amigos, devo-lhes a vida e agradeço-lhes de toda a minha alma, porque não quero morrer emquanto não concluir os tres retratos que prometti ao conde de Loreto.

—Mau! mau! disse o caçador. É verdade que o perigo foi grande, mas já lá vae. Que maldita raposa.

Ernesto não respondeu, mas, pegando na mão de Mauricio, apertou-a de encontro ao peito com fraternal carinho.

CAPITULO XXVII

O anjo da morte

Durante quinze dias, Ernesto não sahiu de casa; pintava de manhã e de tarde. Só alguns curtos momentos deixava a sua tarefa, para dar um passeio em frente de casa.

Vendo pintar aquelle joven febril com os olhos encovados e a respiração fatigante, dir-se-hia que tinha esse afan do homem de genio que presente a morte e que quer concluir a obra que o deve immortalizar.

Estavam concluidos os retratos do conde, e de D. Ventura e tinha entre mãos o de Amparo.

Ás vezes chamava Mauricio e perguntava-lhe:

—Conhécel-os? Parecem-se?

—Oh! Muito! São elles por uma penna.{170}

Depois dava um charuto a Mauricio, accendia outro, apezar da tosse que o fumo lhe causava, e continuava pintando.

No quarto do pintor, graças ás offertas do conde de Loreto, encontravam-se todas as commodidades apetecidas. Quatro pelles de leão almofadavam o sobrado; duas commodas cadeiras de braços forradas de marroquim recebiam o pintor quando se sentia fatigado.

Muitas vezes dizia o pintor, sentado junto do fogão e tomando uma chavena de café:

—Isto não é viver n'um monte: é ter um oasis no meio d'um deserto.

Certa manhã recebeu uma carta dos seus amigos Marcial e André, dizendo-lhe que lhe haviam conferido o primeiro premio e que lhe iam levar a medalha: que mandasse um homem á estação de Toledo para os acompanhar ao monte.

Ernesto chamou Mauricio e disse-lhe:

—Ámanhã devem chegar a Toledo uns amigos de Madrid que veem passar alguns dias commigo. É preciso que os vás esperar á estação, que arranjes cavallos para o que fôr preciso e que os tragas para aqui. Tambem seria bom que trouxesses da cidade o que tua mulher precisar.

Ernesto guardou os retratos para que os seus amigos não vissem. Era avaro do seu thesouro, não queria que o profanasse a publicidade.

Marcial e André não eram caçadores; mas a caça é agradavel a todos os homens, sem duvida porque os coelhos não usam revólver para se defenderem, nem as perdizes disparam dardos contra os seus perseguidores.

Dizem que a caça é a imagem da guerra, sem duvida porque se queima polvora e se derrama sangue; mas a mim parece-me que da guerra á caça vae muita differença e bem crente estou de que o governo não passaria todos os annos trinta e seis mil licenças de caça se o caçador corresse tanto perigo como o soldado deante do inimigo.{171}

Mas se todos gostam de disparar contra os inoffensivos coelhos, as ladinas perdizes e as ligeiras lebres, não é para admirar que qualquer habitante da cidade, ao encontrar-se n'um monte, povoado de caça e tendo á sua disposição uma espingarda, não tente derramar sangue, ainda que não seja senão para se baptisar com a cruz de Santo Eustachio.

Chegaram os amigos de Ernesto e depois dos abraços e das exclamações ante o selvagem panorama, falou-se do quadro de Esther; almoçaram, tomaram café, beberam tres garrafas de Champagne e pensaram em caçar visto haver espingardas e caça.

Mauricio propoz uma batida e se bem que os caçadores não fossem muito felizes, em compensação viram correr e voar muita caça.

Á noite, Petra serviu uma ceia, senão muito variada, pelo menos muito abundante.

A mocidade tem bom estomago. Comeram bem e beberam muito melhor. Falou-se de Ernesto chegar a Madrid e este disse:

—Não penso por emquanto em abandonar estes montes, porque estou aqui perfeitamente. Convenci-me de que a solidão do campo e o ar saudavel d'estas serras me são muito mais proveitosas do que a vida agitada da cidade.

Todas as reflexões de Marcial, todos os conselhos de André não conseguiram demover Ernesto. Os amigos convenceram-se de que seria inutil falar em similhante assumpto.

Os amigos do pintor ficaram com elle mais tres dias. Chegou a hora da partida. Marcial tinha em ensaios uma comedia e não podia retardar o seu regresso a Madrid. Despediram-se promettendo fazer outra visita no mez de maio, se Ernesto até então não tivesse abandonado os montes.

Ernesto, n'um ponto elevado, viu-os afastarem-se montados nos cavallos e cantando o côro das bruxas de Macbeth.

—Aquelles são felizes, disse com tristeza, porque em seus corações vive a alegria da juventude, a esperança{172} da gloria. Ide em paz, meus amigos, a quem nunca mais verei, a não ser que exista alguma cousa da vida occulta ao olhar do homem para lá d'esse céu azul que se extende sobre a minha cabeça.

Ernesto sentou-se. Uma volta do caminho tinha occultado os amigos, a quem, como acabava de dizer, não tornaria a vêr.

Durante uma hora ficou immovel como o penedo que lhe servia de appoio.

Depois levantou-se, vagarosa e tristemente, dirigiu-se para casa, tirou o retrato de Amparo, collocou-o no cavallete e pôz-se a pintar.



Quando algum conhecido de Mauricio ia caçar aos montes, Ernesto fechava-se no seu quarto e poucas vezes sahia. Pintava, lia, e bebia rhum.

Estava muito doente, mas continuava regeitando os conselhos dos amigos e os auxilios da sciencia.

Durante os mezes da primavera, pareceu fortalecer-se alguma cousa. Passou o verão um tanto alliviado, trabalhava pouco, e ainda por duas vezes mandára Mauricio a Madrid levar quadros de caça ao conde, ficando em seu poder os retratos completamente concluidos, dizendo:

—Isto será a minha despedida, o meu testamento. Chegou o mez de outubro, e Ernesto com os primeiros frios, apanhou uma recahida e perdeu por completo o appettite; apenas se levantava para se sentar na cadeira e d'esta para se metter na cama. Mauricio e Petra insistiram varias vezes com elle para o convencer a que chamasse o medico.

—É inutil, meus amigos, dizia-lhes, talvez que em breve me faça mais falta um sacerdote.

Uma noite, Ernesto peorou a tal ponto, que Mauricio, sem o consultar, montou a cavallo, foi ao povoado de Orgaz e trouxe um medico.

Ernesto, ao vêl-o entrar, ao perceber a que vinha, encolheu os hombros, dirigiu um olhar de gratidão a Mauricio, e disse:{173}

—Tudo isso é inutil. O que preciso ámanhã é de um sacerdote.

O medico viu effectivamente que a doença de Ernesto era incuravel, receitou por simples formalidade e disse que o chamassem se houvesse mais alguma novidade.

Ao sahir, disse a Petra:

—Chamem o padre com urgencia, porque este homem apenas tem tres dias de vida.

Petra chorou, e contou ao marido o que o medico lhe dissera.

Estavam verdadeiramente impressionados.

Quando Mauricio á noite entrou com a luz no quarto de Ernesto este estava sentado n'uma cadeira proximo da mesa.

Ardia um bom fogo no fogão e, apezar do frio não ser muito, Ernesto queixava-se de que se sentia gelado; era a morte, que avançava a passos gigantescos para se apoderar do coração, para extinguir a vida n'aquelle corpo, para separar a alma da materia.

—Mauricio, poe ahi a luz, approxima uma cadeira, senta-te aqui a meu lado, disse o pintor, porque temos muito que conversar e não temos tempo a perder.

Mauricio obedeceu sem dizer uma palavra. Só de quando em quando olhava para o cadaverico semblante do seu hospede, pensando que já tinha visto defuntos com muito melhor parecer.

—Tudo n'este mundo tem o seu fim, meu amigo, ajuntou Ernesto com voz fraca e pausadamente. O dia nasce e morre como a planta e o homem. A vida, como o canto do passaro, como as folhas das arvores, está sujeita á vontade do Creador. Rebellarmo-nos contra tal, é uma loucura, uma temeridade ou uma cobardia. Ninguem se salva da morte, ainda que diga com toda a força do seu desespero: «Não quero morrer.» Assim, pois, é preciso resignarmo-nos. Toda a sabedoria, toda a sciencia, toda a grandeza do homem não é sufficiente para prolongar um segundo sequer a sua vida. Alexandre como Cesar,{174} Aristoteles como Cicero, morreram quando soaram as suas horas, apezar de serem quem foram. A minha approxima-se e é preciso preparar tudo para a minha ultima viagem.

Ernesto deteve-se, respirou, levou a mão ao peito e fixou os olhos em Mauricio, cujo semblante compungido, manifestava a profunda magua da sua alma, porque as palavras sentenciosas e tristes do seu hospede, a quem estimava como a um pae, o affligiam.

—Quero, pois, meu bom Mauricio, inteirar-te do que tens a fazer no dia seguinte ao da minha morte, que não está longe. Por isso, te pedi para te sentares e que me prestasses attenção. Dei grandes incommodos tanto a ti como a tua mulher; têem sido bons amigos para mim, devo-lhes muitos favores, e é por conseguinte meu dever não os esquecer na hora da minha morte. Quizera ser rico como um nababo para lhes deixar toda a minha fortuna, pois bem sabes que não tenho herdeiros forçados; mas, apezar de ser muito pobre, farei tudo quanto possa para os recompensar em parte de todos os beneficios que recebi.

—Mas, senhor Ernesto, nós é que devemos estar agradecidos ao senhor, disse Mauricio, porque desde que tivemos a fortuna de o vêr entrar para nossa casa, têem sido muito maiores as recompensas que temos recebido do que os insignificantes serviços que lhe temos prestado. Por isso não temos que falar sobre esse assumpto.

—O interesse e o carinho que têem dispensado a este pobre doente, nunca o pagarei sufficientemente. Mas deixemos esse assumpto, e ouve.

Ernesto fez uma pausa, pegou n'um rolo de papeis e n'uma carta, e disse:

—Quando eu morrer, e depois do meu enterro, vaes a Madrid onde tens duas commissões a desempenhar da maior importancia. Esta carta para os meus amigos da rua do Prado, e os tres retratos e esta outra carta para o senhor conde de Loreto. Indubitavelmente{175} todos, ao saberem que deixei de existir, querem saber pormenores da minha morte. Dize-lhes o que vires, a verdade. E agora só me falta dizer-te que encontrarás escripto e assignado n'esta folha de papel, que te deixo como herança, como livre senhor que sou de tudo, que me pertence; isto é, tudo isto que nos rodeia, inclusivamente o pouco dinheiro que eu tiver na gaveta da commoda, é teu e de tua mulher.

Mauricio que havia já um boccado luctava para suster as lagrimas, levou as mãos aos olhos.

—Vamos, não te afflijas; da-me um abraço e vae-te deitar. Só tenho ainda a pedir-te para que ámanhã cedo me tragas um padre, porque é bom pensar em Deus alguns minutos antes de morrer, quem esteve tantos annos occupando-se sómente dos pygmeus da terra.

Mauricio precisava sahir d'aquelle quarto para chorar desafogadamente; entrou na cosinha, contou a Petra tudo quanto se passára e acabaram por desatar em amargo pranto.

N'aquella noite nem Petra nem Mauricio puderam dormir.

De quando em quando vinham em bicos de pés até a porta do quarto de Ernesto, e espreitavam pelo buraco da fechadura.

Ernesto continuava sentado na cadeira, ora escrevendo, ora com os cotovellos encostados na borda da meza, e a cabeça appoiada nas mãos.

Pouco antes de amanhecer, Mauricio montou a cavallo e foi chamar o padre.

Ás sete da manhã, Ernesto viu entrar um velho de rosto bondoso e cabellos brancos. A batina preta, a sobrepeliz, e sobretudo a doce expressão d'aquelle rosto, fel-o comprehender que tinha na sua presença o pastor das almas d'algum povoado proximo.

O sacerdote e o pintor estiveram fechados tres horas. O que disseram pertence ao segredo inviolavel da confissão.

Quando o padre sahiu, entrou Mauricio.{176}

Ernesto disse-lhe:

—Faze favor de pôr uma tela no cavallete e de o levares bem como esta cadeira para proximo da janella. Vou fazer o meu ultimo trabalho.

Ernesto pegou na paleta, nos pinceis e sentou-se porque não podia trabalhar de pé, principiando a esboçar uma Nossa Senhora das Dôres.

Apezar do seu estado, pintava com incrivel ligeireza.

A febre da morte guiava-lhe a mão.

Em dia e meio pintou uma formosa mãe do Nazareno, de corpo inteiro; mas aquella virgem, apezar da doce melancholia do seu semblante, era um perfeito retrato da condessa de Loreto.

Evidentemente aquella obra feita de momento, aquelle trabalho feito ás portas da morte, era uma das melhoras obras de Ernesto.

Mauricio e Petra ficaram assombrados ao verem-no concluido.

—Ah! Que pena um homem assim morrer tão novo! exclamou o rude caçador n'um arranco de sublime enthusiasmo.

—Mauricio, disse Ernesto, quando eu morrer entregarás este quadro ao sacerdote que me ouviu em confissão, e diras que, já que os francezes roubaram de uma capella da sua modesta egreja uma formosa Senhora das Dôres, eu offereço-lhe esta para que a ponha no seu logar, apezar de não valer, estou certo, nem a quinta parte do que valia a outra.

No dia seguinte, Ernesto conheceu que lhe restava poucos minutos de vida.

O sol entrava pela janella.

O enfermo permaneceu cêrca de meia hora com o olhar fito no céu e as mãos postas em religioso recolhimento.

Petra e Mauricio, que estavam a seu lado, não se atreviam a interrompel-o d'aquelle doce extasis.

—Meus amigos, disse Ernesto, extendendo os braços e, pegando nas mãos de Petra e de Mauricio, vêem aquella nuvemsinha branca que está suspensa no espaço?{177}

Os dois olharam para o céu, mas não viram nuvem nenhuma, contudo Petra respondeu com voz fraca:

—Sim.

—Pois bem, no meio d'essa nuvem vem o anjo da morte buscar-me. Oh! É mais bello do que eu o suppunha. Os seus trajes são brancos como o disco da lua, brilhante como a prata polida. Os seus olhos são negros e de um brilho raro. O seu rosto, pallido e cheio de bondade, sorri-se com um sorriso frio que penetra até a medulla dos ossos. Sobre a fronte lê-se a palavra Perdão, e os seus braços extendem-se até mim como para me receber. Ah! Se eu pudesse retratal-o!... Mas experimentemos. Dá-me a paleta e os pinceis! Põe uma tela no cavallete!

Ernesto apertava as mãos de Petra e Mauricio; mas subitamente soltou-os e dando um debil gemido, levou-as aos olhos e disse:

—Não posso!... Não posso!... Perdi a luz dos olhos!... Estou cego!... Amparo!... Amparo!... Amo-te como sempre!... Meu Deus!... Recebei-me!...

Os braços do pintor cairam sem forças, estremeceu todo o corpo, abriram-se-lhe e fecharam-se-lhe tres vezes as palpebras, e um debil suspiro se lhe escapou do peito.

Depois ficou immovel na cadeira e reinou o silencio frio da morte.

A alma do pintor abandonára a materia.

Ernesto já não existia.

Pobre filho do genio! Pobre sonhador que trocou a sua gloria, o seu futuro, por um beijo.

Mauricio e Petra ajoelharam junto da cadeira onde jazia o seu hospede, e com os olhos cheios de lagrimas, resaram pelo eterno descanço d'aquelle desventurado moço que tinha deixado de existir, e em cujos pallidos e entreabertos labios julgavam ver um sorriso triste, lamentoso, como a morte que lh'o produzira.{178}

CAPITULO XXVIII

Conclusão

O sacerdote, que ouvira o pintor em confissão, em signal de agradecimento pela bellissima Senhora das Dôres que elle offerecera á sua egreja, resou uma missa cantada pelo descanço da alma do artista.

Mauricio deu sepultura ao corpo de Ernesto no cemiterio da villa de Orgaz.

Depois de cumpridos estes tristes deveres, Mauricio dispôz-se a cumprir as ultimas vontades do seu hospede.

Preparou tudo para a viagem e disse á mulher:

—Ámanhã vou a Madrid desempenhar-me das commissões de que me encarregou o senhor Ernesto. Durante a minha ausencia se não queres ficar só levar-te-hei até Toledo. Calculo não me demorar mais de tres dias.

—Vae socegado e sem pressa; eu não deixo a casa onde estão os nossos haveres. Demais, os pastores têem as choças aqui perto, e se tivesse necessidade, bem sabes que me prestariam qualquer auxilio.

Mauricio partiu.

A carta que Ernesto escrevêra aos seus amigos da rua do Prado, resumia-se a uma terna despedida.

Sigamos, pois, Mauricio, a casa do conde de Loreto.

Fernando del Villar, por quem uma carruagem esperava á porta, descia a escada do seu palacio quando viu entrar Mauricio com os tres quadros perfeitamente empacotados.

O conde parou ao reconhecer o caçador dos montes de Toledo.{179}

—Ah! É o senhor? lhe disse. Como está Ernesto?

—Morreu! respondeu Mauricio.

—Como? Morreu?

—Ha quatro dias, senhor conde.

—Pobre rapaz! Mas suba, suba.

O conde começou a subir precipitadamente, seguido de Mauricio, atravessou varias casas e por fim entrou n'um elegante e luxuoso escriptorio.

—Morreu!... repetiu o conde deixando-se cair n'uma cadeira. Pobre Ernesto! Não esperava similhante noticia. Sente-se, sente-se, meu amigo, e diga-me qual o fim da sua vinda, porque creio que ha mais alguma cousa do que annunciar-me tão irreparavel desgraça.

—O senhor Ernesto encarregou-me na vespera da sua morte de trazer ao senhor conde estes tres retratos e esta carta.

O conde levantou-se, desatou o cordão que prendia os quadros, e, collocando cada um em sua cadeira, levantou o estore da janella para que entrasse mais luz.

Quando os olhos se fixaram nos retratos, e em especial no da condessa, não poude conter uma exclamação, um grito de assombro.

—Isto é admiravel! Isto é admiravel! Que pena que homens assim vivam tão pouco!

E ficou immovel como que extasiado deante do retrato da mulher.

O conde era um conhecedor de pintura. Viajára muito e vira muitissimo; conhecia toda essa collecção de retratos celebres, que honram os seus auctores, pendurados em exposição nas paredes dos museus; mas nenhum ainda lhe produzira tanta admiração como a tela que tinha ante si.

O retrato de Amparo era uma obra-prima, pelo desenho, pelo colorido e sobretudo pela parecença.

Demais a bôcca d'aquella mulher, perfeitamente modelada, tinha uma expressão tal que parecia ter vida. Dir-se-hia que aquelles labios humidos, de uma côr bella, um pouco entreabertos, palpitantes de amor e de ternura, iam dar um d'esses beijos que inflammam{180} para sempre a alma do homem que o recebe.

Os olhos, de belleza irresistivel, meio velados pelas compridas pestanas exprimiam tambem amor e melancholia.

Ao conde de Loreto nunca parecêra tão formosa a mulher como n'aquelle momento em que comparava o original com o retrato; mas aquelle retrato, onde a mão do pintor, sem se servir da adulação, possuia alguma cousa mais do que a frialdade immovel da pintura, tinha por assim dizer a alma do artista occulta atraz dos olhos e atravez aquella bôcca encantadora.

Ninguem, ao vêr o retrato, duvidaria de que estava um beijo suspenso dos divinos labios d'aquella mulher, e, comtudo, o pintor não violára nem uma só linha, nem na mais delicada sombra, a posição natural d'aquella incomparavel bôcca.

O conde, que assim o comprehendeu, teve o retrato por uma obra-prima, e, amante da arte que immortalizou Raphael, não podia desviar os olhos do quadro.

Durante um quarto de hora Fernando permaneceu como um extasiado. Mauricio estava triste e silencioso a seu lado.

Quando se cançou de contemplal-o, viu que tinha uma carta na mão. Era a que pouco antes lhe entregára o honrado Mauricio.

Rasgou o envellope e leu:

 

«Senhor conde de Loreto.

«Prestes a entregar a alma a Deus e o corpo á terra, pego na penna com mão fraca para lhe enviar as minhas despedidas.

«Quando receber a minha carta já terei deixado de existir. Um sêr a menos na terra, uma particula de pó a mais em algum ignorado cemiterio d'estas regiões; mas em compensação, outros seres nascem, emquanto o vento levanta o pó dos que morrem. O mundo{181} segue o seu caminho: esta é a cadeia da humanidade.

«Remetto-lhe os tres retratos offerecidos. São as minhas ultimas obras; depois d'ellas os meus pobres pinceis não offenderão mais a arte inutilisando telas, estragando tintas. O unico merito que se lhe poderá attribuir será a parecença, e isso, sem duvida por que eu, durante o meu voluntario e penoso desterro, me não esqueci nem um só instante dos meus amigos.

«Vou concluir pedindo-lhe, senhor conde, um favor. Mauricio e Petra, isto é, o portador d'esta e sua mulher, foram durante a minha doença dois irmãos carinhosos. Se eu fosse tão rico como Salomão, deixar-lhes-hia toda a minha fortuna e creio que assim mesmo não lhes pagaria quanto lhes devo; mas sou pobre, e só posso pagar-lhes com amor e agradecimento os beneficios recebidos.

«Assim, pois, senhor conde, peço-lhe que entregue a Mauricio o valor que der aos tres retratos para que tenham com essa importancia uma recompensa do muito que lhes devo.

«Mauricio é um honrado caçador de profissão que me serviu com desinteresse e sem esperança de recompensa: não sabe portanto que me occupo d'elle n'esta carta.

«Desculpe-me, senhor conde, a liberdade que tomo, e não se esqueça de que ao soltar o meu ultimo suspiro bemdirei os meus amigos.

«Apresente os meus respeitos á senhora condessa e dê um abraço de eterna despedida ao meu bom amigo D. Ventura.

Ernesto.»

 

O conde acabou a leitura da carta commovido, dobrou-a e guardou-a na algibeira.{182}

Nos olhos havia uma certa humidade, devida ás lagrimas.

Mauricio, vendo que o conde guardava silencio, e desejando acabar com aquella visita, disse:

—Se o senhor conde m'o permitte, retiro-me, pois preciso ainda esta noite regressar a Toledo.

O conde dirigiu-se para o cofre, abriu-o, e, depois de pensar um momento, começou a contar notas de banco.

—Mauricio, disse Fernando, ignora sem duvida qual a missão de que o meu amigo Ernesto me encarrega n'esta carta.

—Só me disse para a entregar ao senhor conde juntamente com os retratos.

—Pois bem; Ernesto encarrega-me de lhe entregar seis mil duros que lhe devo.

—A mim? disse admirado o caçador.

—Sim, a si.

—Mas que devo fazer a esse dinheiro? Porque elle nada me disse ao morrer.

—Guardál-os para si.

—É impossivel! Seis mil duros é uma fortuna para um pobre como eu.

O conde, admirado da honradez d'aquelle homem, teve um nobre pensamento, e ajuntou:

—Desculpe-me; enganei-me.

—Eu logo vi que não podia ser, disse Mauricio quasi contente.

—Enganei-me na importancia, continuou o conde: em logar de seis mil duros são dez mil.

Mauricio empallideceu. Era uma fortuna.

O conde entretanto contou dez mil duros em notas do banco de quatro mil reales, e, collocando-os depois n'uma bandeja, approximou-se de Mauricio, dizendo:

—Isto é o que Ernesto Alvarez deixa como herança a Mauricio e Petra pelo seu generoso comportamento, pelos seus bellos sentimentos. Agora eu, o conde de Loreto, offereço a Mauricio, quando se fartar de ser caçador, o logar de administrador{183} em um monte nas Asturias, com vinte e cinco reales por dia, casa, lenha e mais vantagens que me não recordam agora.

E o conde, apertando a mão ao honrado montanhez, ajuntou:

—Vá a Toledo, diga a sua mulher o que o senhor Ernesto dispôz na sua ultima carta, pense socegadamente o que mais lhe convêm, que aqui me encontrará sempre disposto a cumprir a minha palavra.

Mauricio pegou com a mão trémula nos dez mil reales, apertou depois de encontro ao peito a mão do conde e, com olhos marejados de lagrimas e o parecer bastante commovido, disse:

—Mas que fiz eu para merecer tantos favores?

—Foi um homem de bem, um homem justo, respondeu o conde.

—Ah! a minha pobre Petra vae enlouquecer de alegria. Ella que dentro em pouco vae ser mãe! Ella, que nunca viu cem mil reales! Ella que é tão boa! Todos os nossos filhos aprenderão a bem dizerem os nomes do senhor Ernesto e do senhor conde de Loreto.

Fernando acompanhou Mauricio até á porta, depois voltou para o escriptorio e, sentando-se em frente do retrato da mulher, disse:

—Ernesto não existe, mas nos labios d'este retrato, n'aquella bôcca doce, apaixonada, amorosa como um beijo, deixou escripta a historia da sua morte.

 

 

FIM

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