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Historia Pitoresca: Palavras e frases celebres

Chapter 108: LXXXVI Annel de Gyges
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About This Book

Coletânea de anedotas históricas e locuções célebres reunidas e explicadas num tom pittoresco; cada texto reconstrói episódios, personagens e circunstâncias que originaram frases ou provérbios, oferecendo contexto, interpretação e, por vezes, comentários morais. A organização privilegia pequenas vinhetas narrativas e notas esclarecedoras, visando conciliar o gosto pelo entretenimento com finalidade instrutiva, através de leituras breves destinadas a ilustrar usos e significados de expressões notórias.

LXXXVI
Annel de Gyges

Gyges era um moço pastor da Lydia. Um dia vendo entreabrir-se a terra, desceu pela abertura, e viu, entre outras maravilhas um cavallo de bronze, completamente ôcco, com portas nas ancas. Abriu-as e encontrou um cadaver de grandeza mais que humana, tendo em um dedo um annel d'ouro. Esse annel, desde que se voltava o engaste para o lado interior da mão, tinha o poder de tornar invisiveis aquelles que o usassem. Gyges apoderou-se d'esse precioso talisman e dirigiu-se á côrte, aonde o annel foi a origem d'uma brilhante fortuna, porque o possuidor não tardou a tornar-se favorito e primeiro ministro.

—Não são raras as circumstancias em que cada qual desejaria ter no dedo o annel de Gyges. Qual é o que nunca se viu collocado n'alguma d'essas situações criticas, que fazem desejar, como vulgarmente se diz, «estar a cem braças pela terra dentro»? Por outro lado, que não daria a gente, em determinadas occasiões, para se encontrar invisivel, em certos logares, em que se debatem os nossos mais caros interesses, e o nosso destino?

D'aqui a frequente applicação que se faz do annel de Gyges, em litteratura e na conversação.

O espirituoso Alphonse Karr quiz ver no annel de Gyges uma allegoria que explicou a seu modo n'estes versos:

«Quem de Gyges o annel, conta, maravilhoso
«Nos casos falsos, ou na pura phantasia,
«—Agora o sei—a si se engana em demasia,
«Porque o frisante exemplo é grande, é numeroso.
«Se sois feio e sois mau, sem genio e já d'idade
«Ponde, á noite um annel, no vosso indicador,
«Com um brilhante que tenha um subido valor,
«E vereis como faz a sua claridade,
«Sob os raios da luz, em ponto bem escolhido,
«Dar-vos genio e belleza, e juventude, e encanto.
«Se sois mau e imbecil, elle vos faz um santo,
«Dizei quanto quereis, que já sois applaudido!»