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Historia Pitoresca: Palavras e frases celebres

Chapter 111: LXXXIX Bandeira da Misericordia
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About This Book

Coletânea de anedotas históricas e locuções célebres reunidas e explicadas num tom pittoresco; cada texto reconstrói episódios, personagens e circunstâncias que originaram frases ou provérbios, oferecendo contexto, interpretação e, por vezes, comentários morais. A organização privilegia pequenas vinhetas narrativas e notas esclarecedoras, visando conciliar o gosto pelo entretenimento com finalidade instrutiva, através de leituras breves destinadas a ilustrar usos e significados de expressões notórias.

LXXXIX
Bandeira da Misericordia

D'antes, por um privilegio, fundado, decerto, n'um principio caritativo, as irmandades da Misericordia eram obrigadas—e no Estatuto d'algumas se acha consignada esta obrigação—a acompanhar com a respectiva bandeira, os condemnados a pena ultima, desde o carcere ao local do supplicio.

Alli, tanto que a victima era executada cobria-a immediatamente essa bandeira, o que equivalia a tomar a Misericordia conta do cadaver, a fim de prevenir ou evitar profanações no corpo, por parte dos populares, arrastados, muitas vezes, a scenas bem pouco edificantes, pela excitação de odios e de paixões violentas e desordenadas.

Quando acontecia que a corda se quebrava—no supplicio da forca—e o paciente cahia com vida, desde que a bandeira o cobrisse, estava salvo.

Nas ultimas execuções d'este genero, realisadas em Vizeu, no largo de Santa Christina, no tempo das luctas do absolutismo, aconteceu que um dos pacientes, graças a um convenio com o carrasco, cahiu com vida e foi coberto com a bandeira da Misericordia.

Uma mulher, porém, que ainda morreu ha poucos mezes, e que tinha a triste e original mania de assistir a todos os actos lugubres e a todas as scenas mais contristadoras, por um assomo de curiosidade feminina foi levantar uma ponta da bandeira. O desgraçado, que se fingia morto, imaginando que era algum dos que conhecia o convenio para a sua salvação, abriu os olhos, e tanto bastou para que a original mulher começasse a gritar que elle estava ainda vivo.

A populaça desenfreada cahiu sobre o infeliz e cevou as suas iras.

D'esta vez a bandeira não valeu.

—Do privilegio d'esse estandarte nasceu a locução de—bandeira da Misericordia,—d'um grandissimo emprego, sobretudo, na conversação familiar, servindo para designar toda a intervenção caritativa para a suspensão ou allivio d'uma pena ou d'um castigo.


A critica poderá encontrar motivo para exercer-se, no delineamento e execução d'esta despretenciosa obra, mas a benevolencia será a bandeira da Misericordia, que ha-de abrandar a dureza das apreciações.