XI
Cezar
Caio Julio Cezar, consul romano, dictador e um dos maiores capitães da antiguidade, era sobrinho de Mario. Cresceu no meio das guerras civis e foi proscripto aos desoito annos, por Sylla, que viu n'elle varios Marios. A estatua d'Alexandre, o Grande, que elle viu, passando em Cadiz, fez-lhe derramar lagrimas de despeito, por vêr que na idade em que tinha morrido esse heroe, elle não tinha ainda realisado nada de notavel. Tinha uma ambição e uma actividade devoradoras e—«julgava não ter feito coisa alguma em quanto lhe restasse alguma coisa a fazer.»
O seu nome, como o de Alexandre, ficou como synonymo de grande guerreiro, de conquistador civilisador.
Vamos apontar por ordem chronologica, as differentes circumstancias da vida de Cezar, que originaram locuções proverbiaes.
1.º—A mulher de Cezar nem mesmo deve ser suspeitada.
Clodio, joven patricio, ambicioso e desmoralisado, amava Pompeia, mulher de Cezar. Uma noite, quando as mulheres celebravam os mysterios da boa-deusa, interdictos aos homens, elle introduziu-se, disfarçado com trajes femininos, nos aposentos de Pompeia. Mas foi surprehendido por uma escrava, que não era confidente.—«No dia seguinte, diz Plutarco, toda a cidade soube que Clodio commettera um sacrilegio horrivel.»
Julgado, como profanador dos santos mysterios, corrompeu os juizes e foi absolvido. Cezar contentára-se em repudiar sua mulher. Chamado, porém, como testemunha, elle depoz que não tinha nenhum conhecimento dos factos que se imputavam ao accusado. Este depoimento pareceu muito estranho e o accusador perguntou-lhe porque havia então repudiado sua mulher. Elle respondeu:
—É porque a mulher de Cezar nem mesmo deve ser suspeitada.
2.º—Gostaria mais de ser o primeiro n'uma aldeia, que o segundo em Roma.
Todos os actos, todas as palavras de Cezar, antes do seu advento ao poder, revelam o seu caracter e a natureza da sua ambição. Depois da sua pretura, tendo-o a sorte designado para o governo da Hespanha ulterior, elle partiu para a sua provincia. Quando atravessava uma pobre aldeia, perdida no fundo dos Alpes, alguns dos seus amigos perguntaram-lhe, gracejando, se a ambição do poder e o desejo das dignidades occasionavam tambem debates n'essa miseravel terra.
—«Não riam—respondeu o futuro dictador—eu gostaria mais de ser o primeiro n'esta aldeia, que o segundo em Roma.»
3.º—Passar o Rubicão.
Cezar vinha de concluir a conquista dos gaulezes, e tinha encontrado n'essas regiões thesouros bastantes para tudo comprar em Roma, onde tudo se tornára venal. Os seus successos, o seu poder, mais ainda que os seus conhecidos projectos, despertaram, emfim, a desconfiança de Pompeu, que começava a receiar ver-se o logro d'aquelle de que elle se tinha imaginado ser o protector. Desde então, poz tudo em acção para obter do senado um decreto que ordenava a Cezar o abandono do seu exercito e a resignação do commando. Este respondeu que estava prompto a obedecer, com a condição de que Pompeu entraria, pelo seu lado, na vida civil. Desde este momento, a guerra estava declarada. O senado encarregou os consules de proverem a segurança publica, e Cezar fez avançar o seu exercito para o Rubicão. Era uma pequena ribeira, que separava a Italia da Gallia cisalpina. O senado para assegurar Roma contra as tropas da Gallia, tinha, por um senatus-consulto celebre, declarado traidor á patria e dedicado aos deuses infernaes, todo aquelle que, com uma legião ou uma cohorte, passasse aquella ribeira. Prevenido na margem opposta, Cezar, dominado pelo perigo da resolução audaciosa que ia tomar, hesitou alguns instantes.
«Tinham-se visto revoluções d'imperios, diz Lacordaire, thronos mudando de senhores, e fôra isso, n'esse jogo de passageiras fortunas, o que tinha illuminado o genio dos maiores d'entre os homens. Cezar, no Rubicão, parára pensativo; a mão no peito e o olhar além do regato, elle se dissera:—«Eu, Cezar, faço uma coisa que nenhum romano fez ainda: desobedeço ao senado romano. Passando este ribeiro, faço um imperio d'uma republica, senhora do mundo: passemol-o.»
—«Vamos, pois, exclamou Cezar, como se cedesse á obsessão da sua fortuna; vamos aonde nos chamam as vozes dos deveres e a iniquidade dos nossos inimigos. Alea jacta est!—a sorte está lançada!»
Palavra irrevogavel, pronunciada depois por todos os homens que, não encontrando fundo no seu pensamento, e obrigados a escolherem entre dois perigos supremos, tomam resolução no seu caracter, não podendo tomal-a em outra parte, e se lançam a nado no Rubicão do acaso, para morrerem ou para se salvarem pela sorte.
4.º—Levas Cezar e a sua fortuna.
Pompeu, desesperando de defender a Italia com a approximação de Cezar, deixou Roma acompanhado d'um grande numero de senadores, magistrados e cidadãos e passou á Grecia, onde levantou um exercito. Cezar seguiu-o. Tendo desembarcado á frente de cinco legiões, soube que a frota que lhe levava viveres e reforços foi batida e dispersa pela de Pompeu. Na critica circumstancia em que se achava toma a resolução d'ir ao encontro d'Antonio, que devia soccorrel-o, e embarca elle só n'um barco de pescador. Durante a travessia levanta-se uma tempestade e ameaça submergir a fragil embarcação. O piloto espantado quer volver ao posto. É então que o heroe lhe diz essa famosa phrase, contada por Plutarco:
—«Que receias? levas Cezar e a sua fortuna!»
E alguns dias depois humilhava o seu rival nos campos da Pharsalia.
5.º—Soldado, fere no rosto!
Antes da batalha de Pharsalia, Cezar, no meio d'uma região dedicada ao seu rival, estava n'uma situação muito critica. Pompeu, cujo exercito estava bem munido e fornecido pela sua frota, resolvera reduzir á fome o seu inimigo. A perda de Cezar parecia certa, quando Pompeu, cedendo á impaciencia dos seus soldados, travou peleja com os velhos legionarios das Gallias, que bem podiam ser destruidos pela fome, mas que não podiam deixar-se vencer.—«Soldado, fere no rosto!» tinha gritado Cezar aos seus veteranos, vendo os brilhantes cavalleiros do exercito de Pompeu. Estes jovens patricios, espantados, pozeram-se em fuga para não serem desfigurados pelas lanças dos legionarios, e Cezar ficou senhor do campo de batalha.
A implacavel phrase de Cezar não encontra applicação alguma em circumstancias analogas, e emprega-se a respeito d'um adversario de que se quer tocar a fibra sensivel, que se deseja ferir á falta de couraça.
6.º—Cheguei, vi e venci.
Apoz a morte de Pompeu e a conquista do Egypto, e em quanto Cezar se engolfava no seio dos prazeres que lhe offerecia Cleopetra, o partido de Pompeu, mais disperso que destruido, erguia-se por toda a parte. Pharnacio, rei do Ponto, aproveitára a guerra civil para tentar reunir na Asia as antigas possessões de seu pae. Despertado pelo perigo, Cezar corre ao Bosphoro, esmaga o filho de Mithridates e termina essa guerra com uma tal rapidez, que pôde contal-a inteira n'estas tres palavras celebres, que elle dirigiu ao senado:
—Veni, vidi, vici; cheguei, vi, venci!
—Faz-se uso da phrase para exprimir a facilidade, a promptidão com que se executa uma empreza.
Lembra-nos a proposito o seguinte caso analogo. Depois da sua victoria sobre os turcos, Sobieski enviou ao Papa o estandarte de Mahomet, com estas palavras de Cezar a que deu um caracter de modestia christã:—«Cheguei, vi e Deus venceu!»
7.º—Idos de Março.
Cezar entrára em Roma, senhor do mundo inteiro. O senado conferiu-lhe honras extraordinarias e revestiu-o d'uma illimitada auctoridade. Foi nomeado consul por dez annos e dictador perpetuo; deram-lhe o nome de imperador, o titulo de Pae da Patria e erigiram-lhe uma estatua com esta inscripção:—Ao deus invencivel! A sua pessoa foi declarada inviolavel. Concederam-lhe o privilegio de assistir ao espectaculo n'uma cadeira dourada, com uma corôa na cabeça. Elle meditava projectos immensos; queria engrandecer Roma, ornamental-a de monumentos magnificos, fazer d'ella a rainha do Universo. Mas não lhe estava reservado o cumprimento de tão vastos designios. Debalde se exforçára por apagar todos os traços da guerra civil, debalde tinha cumulado de favores e elevado aos primeiros cargos os que o tinham combatido, debalde tinha erguido estatuas ao seu rival, porque nada podia desarmar os partidarios da antiga liberdade.
A sua clemencia parecia insultante; viu-se que não perdoava, mas que desdenhava punir. Afinal uma formidavel conjuração se tramou contra a sua vida. A conspiração devia explosir no meio do senado, e fôra fixada para os idos de Março. O caso transpirou no publico, mas Cezar recusou tomar qualquer precaução. Calpurnia, sua mulher, estava tão persuadida da realidade do perigo, que o conjurou, com as mais vivas instancias, a não sahir n'esse dia.
Conta Plutarco, que muito tempo antes, um adivinho tinha advertido o dictador de que devia desconfiar dos idos de Março. Quando sahia de casa para o senado, encontrou o adivinho e disse-lhe, rindo: «—Chegamos aos idos de Março.»—«É verdade—respondeu—mas ainda não passaram.»
Alguns passos adeante um homem entregou-lhe um bilhete que continha todas as particularidades da conspiração:—«Lêde—disse—e rapidamente!» Mas Cezar não teve tempo e entrou para o senado.
—Os idos de Março designam, por analogia, uma epocha perigosa de passar, e para a qual se fizeram incommodativos prognosticos.
8.º—E tu tambem, meu filho!
Apenas Cezar tinha entrado no senado, todos os conjurados o rodearam como para lhe prestarem honra. Cimber, um d'elles, apresentou-se, afim de lhe pedir o chamamento de seu irmão exilado, e como para lhe pedir com mais submissão, tomou-lhe a fimbria da toga e puxou-a com violencia. Era o signal combinado. Casca, tirando o seu punhal, feriu com elle o dictador no hombro. Cezar, no mesmo instante toma a arma do assassino e precipita-se sobre elle gritando:—«Que fazes, scelerado Casca?» Então todos os conspiradores desembainharam as suas espadas e lhe vibraram varios golpes. Cassio, mais animado que os outros, fez-lhe uma profunda brecha na cabeça; Cezar defendia-se ainda, quando avistando Bruto, com o punhal erguido sobre elle, exclamou:—«E tu tambem, meu filho Bruto!» Ao mesmo tempo cobriu o rosto com o vestido e cahiu atravessado com vinte e tres golpes, aos pés da estatua de Pompeu.
9.º—A tunica de Cezar.
O cadaver de Cezar abandonado no senado foi conduzido, todo cheio de sangue a sua casa por tres escravos. Alguns dias depois, Antonio appareceu na tribuna das harengas e leu á multidão o testamento do dictador. O povo, que elle não tinha esquecido nas suas generosidades fez explosir a sua indignação. Então, Antonio, desdobrando do alto da tribuna a tunica de Cezar, ensanguentada e crivada de golpes, tratou de parricidas os auctores d'aquelle assassinio. Esta scena levou ao cumulo a exasperação popular. E todos os assistentes fazendo logo uma fogueira com as mezas e os bancos que encontraram á mão, n'ella queimaram o corpo de Cezar; depois, tomando tições correram a casa dos assassinos para lhes lançarem fogo, e os atacarem a elles proprios.