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Historia Pitoresca: Palavras e frases celebres

Chapter 39: XVI Dôr, tu não és um mal
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About This Book

Coletânea de anedotas históricas e locuções célebres reunidas e explicadas num tom pittoresco; cada texto reconstrói episódios, personagens e circunstâncias que originaram frases ou provérbios, oferecendo contexto, interpretação e, por vezes, comentários morais. A organização privilegia pequenas vinhetas narrativas e notas esclarecedoras, visando conciliar o gosto pelo entretenimento com finalidade instrutiva, através de leituras breves destinadas a ilustrar usos e significados de expressões notórias.

XVI
Dôr, tu não és um mal

O stoicismo, fundado por Zenon, fórma uma das mais illustres philosophias da antiguidade. Simples no seu principio e nas suas deducções, frisante pelo seu caracter heroico e paradoxal, de tal modo se fez conhecer, ao menos, pelos traços mais salientes da sua moral, que os nomes de stoicismo e stoico, entraram na applicação usual da lingua, como expressão d'uma grande impassibilidade. Os stoicos faziam consistir a virtude e a ventura na posse d'uma alma egualmente insensivel á voluptuosidade e á dôr, liberta de todas as paixões, superior a todos os receios, a todas as fraquezas. Admittindo como mal apenas o vicio, como bem sómente a virtude, e considerando o resto como indifferente, elles negavam que a dôr fosse um mal. Zenon, seu illustre chefe, foi o primeiro que proclamou a lei do dever e que d'ella lançou os fundamentos com uma abundancia de provas que tinha a sua origem n'uma profunda convicção, independentemente de toda a argumentação dialectica. As paixões não são elementos necessarios da nossa condição; são doenças da alma: a saude, a apathia, a ausencia das paixões. Foi por causa d'esta severidade d'opiniões moraes, pelo menos entre os primeiros stoicos, que se deu, em geral, o nome de stoicismo a toda a opinião severa em moral.

Esta doutrina, que se allia perfeitamente com todas as grandes virtudes, e que tendia a fazel-as nascer, logrou grande credito entre os romanos, apesar da sua pequena inclinação pela philosophia; adoptaram-na com enthusiasmo, porque se concertava admiravelmente com a sua energia intellectual e a sua severidade. Notou-se, em honra da seita dos stoicos, que os personagens mais virtuosos de Roma a tinham adoptado:—Bruto, Catão d'Utica, Thrasêas, Seneca, Tacito, Epictecto, Antonino e Marco Aurelio. A moral ficou como gloria dos stoicos, e tirando-lhe o que encerra de paradoxal e exaggerado, ella assegura-lhes o primeiro logar entre os percursores mais puros e mais directos do christianismo.

A divisa principal dos stoicos era:—«Soffre e abstem-te!»

Conta-se que um discipulo de Zenon, exclamava no meio dos maiores soffrimentos causados pela gôtta:

—«Dôr, tu não és um mal!»

Havia, por sem duvida, ostentação n'estes principios da doutrina do stoicismo, mas nem por isso ella deixou de produzir as virtudes mais heroicas.