XXV
Festim de Balthazar
Cyro, rei dos persas, cercava Babylonia á frente d'um exercito formidavel; Balthazar, confiando na força das suas muralhas, ria dos vãos exforços do seu inimigo e esquecia, nos festins, os enfados d'um longo cêrco. Uma noite em que celebrava uma orgia com os grandes da sua côrte e todas as suas mulheres, fez trazer, por uma fanfarronada de impiedade, os vasos sagrados que Nabuchodonosor tinha outr'ora subtrahido ao templo de Jerusalem. Realisada aquella profanação, o impio monarcha viu com espanto uma mão que traçava na parede, em traços ardentes, caracteres mysteriosos, que nem Balthazar nem ninguem da côrte pôde traduzir.
O propheta Daniel tendo sido chamado, disse ao rei.
—«Foi Deus que enviou aquella mão, e é isto o que está escripto: Mané, Thécel, Pharés;—Mané, Deus contou os dias do teu reino e lhe marcou o fim; Thécel, foste collocado na balança e achado muito leve; Pharés, o teu reino será dividido!»
Na mesma noite, com effeito, Cyro, tendo conseguido desviar o curso do Euphrates, penetrou na Babylonia pelo seu leito secco. Balthazar foi morto e a Babylonia reunida ao imperio dos persas.
—Por allusão a este festim celebre, chama-se festim de Balthazar a toda a orgia ruidosa, ou, por uma hyperbole familiar, a todo o banquete copioso e prolongado.