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Historia Pitoresca: Palavras e frases celebres

Chapter 60: XXXVII Linguas d'Esopo
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About This Book

Coletânea de anedotas históricas e locuções célebres reunidas e explicadas num tom pittoresco; cada texto reconstrói episódios, personagens e circunstâncias que originaram frases ou provérbios, oferecendo contexto, interpretação e, por vezes, comentários morais. A organização privilegia pequenas vinhetas narrativas e notas esclarecedoras, visando conciliar o gosto pelo entretenimento com finalidade instrutiva, através de leituras breves destinadas a ilustrar usos e significados de expressões notórias.

XXXVII
Linguas d'Esopo

Esopo, escravo do philosopho Xantus, recebeu um dia do seu senhor, que tinha convidado varios amigos para jantar, ordem de comprar no mercado, tudo quanto houvesse de melhor, e nada mais.

—«Eu te ensinarei a especificares o que desejas, sem te entregares á discrição d'um escravo»—dissera o phrygio comsigo mesmo.

E comprou só linguas, que fez cosinhar de todos os modos possiveis, de maneira que o principio, o meio e o fim do banquete, foram linguas. Os convidados louvaram a principio a escolha d'Esopo, mas, afinal, desgostaram.

—«Não te ordenei,—disse Xantus—que comprasses o que houvesse de melhor?»

—«E que ha melhor que a lingua?—respondeu Esopo.—É o laço da vida civil, a chave das sciencias, o orgão da verdade e da razão; por ella se construem e policiam cidades; por ella se instrue, se persuade e se reina nas assembleias; por ella se satisfaz ao primeiro dos deveres, que é louvar os deuses.»

—«Pois bem—replicou Xantus, que pretendia apanhal-o—compra amanhã o que houver de peior. Os mesmos convidados virão a minha casa e quero variar.»

No dia seguinte Esopo só fez servir linguas, dizendo que a lingua é a peior coisa que ha no mundo.

—«É a mãe de todas as questões, a alimentadora de todos os processos, a origem das divisões e das guerras. Se ella é o orgão da verdade, é tambem o do erro, e, o que peior é, da calumnia. Por ella destroem-se as cidades; e se por um lado louva os deuses, por outro é o orgão da blasphemia e da impiedade.»

—As linguas d'Esopo ficaram celebres, para designarem o que, podendo ser encarado sob dois aspectos oppostos, dá egualmente occasião ao louvor e á critica.