LX
Thebaida
A Thebaida, uma das tres grandes divisões do antigo Egypto, e que tinha Thebas por capital, era famosa pelos desertos que a éste e oéste cercavam a sua parte habitada. Foi n'uma destas solidões que nos primeiros seculos do christianismo se refugiaram muitissimos christãos, já para fugirem á perseguição, já para se esquivarem ás seducções do mundo, entregando-se ao jejum, á oração e a todas as austeridades da vida ascetica.
O mais illustre d'entre elles, Santo Antonio, dera o exemplo, distribuindo a sua fortuna aos pobres, para viver do trabalho das suas mãos. A sua reputação de santidade espalhou-se ao longe, e a breve trecho, milhares de discipulos se gruparam em volta d'elle. Durante algum tempo, foi, d'algum modo repovoado de monges e anachoretas. Mas afinal a despovoação geral do Egypto produziu a extincção de quasi todos os mosteiros, que se haviam creado.
Hoje, só as cellas vasias, marcadas com o symbolo dos christãos, indicam a assistencia d'esses religiosos nos templos pagãos arruinados, bem como as grutas dos sepulchros da Thebaida.
—Na linguagem ordinaria, Thebaida, diz-se d'um deserto, d'uma solidão profunda, em que se vive retirado do mundo; mas esta palavra está longe de ser tomada sempre n'este sentido. Faz-se muitas vezes uso d'ella, em poesia, especialmente para designar um retiro favorito, que propositadamente se escolhe, longe do bulicio, para o goso das doçuras da amisade, ou dos encantos do amor.
Lembra-nos até que Theophilo Gautier disse já n'uma das suas esplendidas poesias:
«Um bom cottage inglez, eis a Thebaida sua!»