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Historias das Ilhas

Chapter 13: O Primeiro Desengano
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About This Book

A collection of short narratives and reminiscences set in the Azores and Madeira, portraying island customs, landscapes, and the daily life of military garrisons and civilian communities. Stories revolve around personal episodes such as weddings, gossip, aging soldiers, and family tensions, revealing social codes, local humor, and generational contrasts. Sketches combine descriptive color of fortresses, parishes, and seaside settings with intimate character portraits and scenes driven by interpersonal exchange. The tone moves between nostalgic observation and wry detail, producing a varied mosaic of provincial life and social ritual.

O Primeiro Desengano

Vestiu pela primeira vez fatos de senhora, no dia em que fez quatorze annos.

Ainda estou a vel-a entrar pela sala dentro muito envergonhada, tropeçando na fimbria do vestido comprido, não sabendo se devia rir ou zangar-se com os gracejos que lhe choviam de todos os lados.

Afinal foi sentar-se ao pé de uma meza, e tirou da floreira uma rosa, que tratou de desfolhar e de triturar, persuadida talvez de que escapava assim á attenção geral. Tivesse mais dois ou tres annos e desejaria prolongar o sentimento de admiração excitado pela sua formosura juvenil, em que transparecia a candura e singeleza da creança, da baby da vespera, alliadas á fascinação da mulher que despontava.

Do meu canto, observava aquella esplendida adolescencia, que assim desabrochava de subito, e quasi não podia acreditar que os poucos mezes, que a Georgina tinha estado longe da Madeira, assim houvessem transformado a minha antiga companheira de brinquedos.

E ao vel-a tão differente, sentia em mim o que quer que fosse novo e estranho, e, desejando aliás approximar-me d’ella e contemplal-a muito tempo, tinha a dubia percepção de que alguma coisa nos separava agora, tornando completo impossivel o falarmo-nos como d’antes, quando, n’aquellas manhãs de julho tépidas e luminosas, iamos com um rancho enorme para o banho do mar, e a Georgina, alegre e buliçosa como um passarinho, pulava na frente do bando, com as suas perninhas brancas e rosadas, que appareciam abaixo do vestido de cambraya.

Em quanto ella e as senhoras entravam para as barracas enfileiradas a curta distancia da babugem da maré, nós, os homens—eu já me incluia no rol—enfiavamos cá fóra os horriveis fatos de banho, quasi sempre á direita das barracas, para nos livrarmos do sol, que surgia por traz do cabo Garajao e começava a faiscar nas vidraças do Funchal.

Que bons aquelles banhos!

Era um alvoroço enorme, uma exuberante alegria, quando entravamos de corrida pelo mar dentro, e, passada a primeira sensação de frio, gosavamos a deliciosa frescura, fluctuando ao impulso da onda, de mãos dadas, divisando atravez da limpidez da agua, as pedrinhas brancas semeadas entre os calhaus do fundo ... e as formas tremulas, fugitivas das banhistas. Sobre o mar, levemente encrespado pela brisa, formava-se para o lado do nascente uma esteira luminosa, coruscante. De quando em quando um de nós fazia repuxar a agua em myriades de gotas, que cahiam como chuva de fogo, até irem perder-se na espuma branca de neve.

Uma vez a Georgina apanhou um grande susto. Presumindo excessivamente das suas aptidões de nadadora principiante, quiz afastar-se da terra, mas lembrou-se de repente de que já não teria pé, de que ia afogar-se, imaginou-se até levada por uma resaca, e poz-se a bracejar desordenadamente, gritando, bebendo agua, como se lhe tivessem dado uma enterra. Soffreria provavelmente a morte da Virginia de Bernardin de Saint-Piérre, sem o acompanhamento grandioso e bulhento do temporal, se eu não a tivesse agarrado a tempo e conduzido á praia, Deus sabe com que difficuldade.

Imagine-se a ufania que me causava a recordação da façanha, no momento em que a Georgina me apparecia sob aquelle aspecto novissimo!

—Ah! Se podesse tornar a salval-a, trazendo-a apertada nos braços!... Formulava mentalmente este desejo, que parecia de certo uma enormidade ao meu pudor dos quinze annos, quando notei que a Georgina olhava fixamente para o meu lado.

Desviou a vista, quando a encarei, mas d’alli a pouco estava a olhar outra vez.

Senti então um dos maiores prazeres da minha vida. Comprehendi o motivo por que a julgava outra, adivinhei o que era o sentimento novo que me dominava.

Valeu-me para a descoberta o andar a ler o Visconde de Bragelonne, no ponto em que se descreve a seducção de La Vallière. Lembrei-me até de que o maroto do Alexandre Dumas torna quasi cumplices na queda da pobre Luiza uns passarinhos, que havia na sala e que no momento em que Luiz XIV cae aos pés da namorada, chilream dentro das douradas gaiolas uma toada de indizivel concupiscencia, o que ainda mais entontece a futura carmelita. Ora emquanto eu olhava para a Georgina, tambem cantava um passaro, um melro, empoleirado n’uma magnolia do jardim. Achei de bom agouro a coincidencia.

É claro que não emparelhava a Georgina com a La Vallière—via-a como aquella a quem havia de ser unido para sempre, visto que o amor assim nos destinara um para o outro.

Com uns restos de duvida, olhei em roda de mim.

No lado da sala onde eu estava, não havia mais nenhum homem, a não ser o escrivão de fazenda, sujeito de grande bigodeira e voz soturna, que recitava pelas salas o Noivado do sepulchro e a Doida de Albano.

Era solteiro, mas tinha mais de tres vezes a edade de Georgina. Fiquei radiante. Era para mim com certeza, que estava olhando. D’alli a pouco fomos jantar.

Não comi nada, porque ella, apesar de ter ficado ao pé de mim, não me deu a minima attenção.

Como já tambem conhecia a existencia das coquettes, perguntei a mim mesmo se a Georgina seria uma d’ellas, e resolvi provocar o mais cedo possivel uma explicação decisiva.

Deparou-se-me o ensejo n’aquella mesma tarde.

Achavamo-nos os dois no extremo do mirante sobre o Caminho do Monte, vendo os romeiros que voltavam de festejar a Senhora de agosto.

Os mais não podiam ouvir-nos, entretidos como estavam por um dos espectaculos mais pittorescos dos costumes populares madeirenses. O som dos machetinhos de Braga, machetes de rajão e violas francezas, e o sussurro dos descantes e falatorio dos romeiros abafariam alguma palavra que me escapasse em voz mais alta.

Depois de lhe disparar uma declaração, fiz-lhe não sei quantas recriminações, pelo que me tinha feito soffrer durante o jantar.

A Georgina escutou-me cheia de pasmo, desviou-se um pouco, e medindo-me dos bicos dos pés até á cabeça, disse-me com um supremo desdem:

—O menino endoideceu! Não sabe que é ainda um fedelho e que eu já sou uma senhora! Isso ha de ser somno, por força. O que o Luizinho deve fazer, é pedir á sua mamã que o metta mais cedo na cama!

Fulo de raiva, ia dizer-lhe uma insolencia, quando se approximaram de nós a mãe d’ella e a minha.

* * * * *

D’alli a dois mezes casava a Georgina com o escrivão de fazenda, e d’alli a dois annos ... estava eu vingado.