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Historias das Ilhas

Chapter 22: O Aprendiz De Barbeiro
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About This Book

A collection of short narratives and reminiscences set in the Azores and Madeira, portraying island customs, landscapes, and the daily life of military garrisons and civilian communities. Stories revolve around personal episodes such as weddings, gossip, aging soldiers, and family tensions, revealing social codes, local humor, and generational contrasts. Sketches combine descriptive color of fortresses, parishes, and seaside settings with intimate character portraits and scenes driven by interpersonal exchange. The tone moves between nostalgic observation and wry detail, producing a varied mosaic of provincial life and social ritual.

O Aprendiz De Barbeiro

A Maria José saiu da Candelária de noite escura, e por isso quando chegou á Magdalena não estava ainda um unico freguez a fazer a barba na loja de João Cardoso.

O pequeno d’ella, o Antonio, apenas a viu, largou uma navalha que estava afiando no assentador e correu para a porta.

A mãe puxou-o para fóra, porque não queria que o mestre ouvisse o que ella tinha que dizer ao filho.

Vergonhas não se querem assoalhadas.

Olhou para o rapaz, e a voz prendeu-se-lhe na garganta. Tinha pejo, mas por fim decidiu-se. Ella bem queria lidar como as outras mulheres, que a bem dizer fazem por toda a ilha o dobro do trabalho dos homens, mas não podia, por causa d’aquella mão aleijada.

Já não sabia com que cara apparecesse ás visinhas. Tinham todas muita pena d’ella, é verdade, ajudavam-a a viver, mas ás vezes, por muita vontade que tivessem, tambem não podiam. Só Deus sabe das faltas, que cada um padece!

Pedir aos ricos, nem pensar n’isso... Quem nunca soube o que é não ter, menos acode aos que precisam.

E vae d’ahi lembrou-se, custando-lhe muito, de vir pedir alguma coisinha ao filho.

O Antonio bem queria fazer-lhe a vontade, mas como? A féria d’aquella semana já estava gasta n’um fato, que tinha ajustado dias antes, e por signal bem barato. O mestre João não queria ver em casa maltrapilhos, não tanto por si, mas por ’môr dos freguezes. Á sua loja iam os senhores mais ricos da villa.

—Não pódes então dar-me nada? perguntou a Maria José, com os olhos rasos de lagrimas.

—Posso, sim senhora, mas é tão pouco... A minha mãe bem sabe que se muito tivesse... Porque estou eu aqui? Para mais a míudo lhe poder fazer bem, e para ir vel-a de vez em quando. Mas um dia pego em mim e abalo n’uma d’essas baleeiras!

—Lá isso não, filho, só se queres matar-me! Bom de lei és tu. Excusas de m’o dizer! Saes todo a teu pae. Ah! Que se aquelle Caim do Gaspar Dutra não m’o tivesse matado!... Coitadinho! Ainda estou a vel-o a arquejar, com a cara toda suja de sangue—parecia um bicho!—os olhos já envidraçados a fincarem-se em mim ... como a querer falar, mas sem poder! Era para me dizer quem o tinha atirado do alto da rocha.

Mas a esse respeito não restavam duvidas á Maria José.

É verdade que na audiencia em que o Gaspar Dutra foi responder ao Caes do Pico, porque o suspeitaram do crime, visto andar ha muito de rixa com o Manoel Luiz, o absolveram por falta de provas, e não appareceu uma só testemunha de vista.

Mas d’ahi a dias, depois de o malvado embarcar para a America, por ter ficado muito arrastado com os gastos da justiça, appareceu em casa da viuva, já perto da noite, a tia Quiteria que tinha uma fazendinha na rocha, mesmo ao pé da outra por que o Gaspar Dutra e o Manoel Luiz andavam desavindos.

A velha tomou de parte a Maria José e depois de obrigal-a a jurar que não diria nada a ninguem, em quanto ella fosse viva, contou-lhe toda a historia do crime. Estava perto do sitio, mas nem um nem outro a tinham visto.

—O Gaspar Dutra é que começou a abregoir. O Manoel Luiz desesperou-se e disse-lhe uma má palavra.—Os santos estão no altar!—O outro poz-se fulo, correu para o Manoel e colhendo-o á falsa fé, tal geito lhe deu que o prantou pela rocha abaixo. O corpo a principio não levava muita força, mas depois caíu tão depressa, que nem uma bala de espingarda. Quando deu no chão da rocha, onde ficou estatelado e de braços abertos, vinha já de uma altura de tres ou quatro casas de sobrado. Rebentou-lhe de certo alguma coisa lá por dentro, tanto que o pobre do homem não disse mais palavra na meia hora que ainda viveu.

A Quiteria desculpou-se de se ter calado áquelle respeito, dizendo que o Gaspar Dutra e o irmão não eram boas folhas. Se o matador, por causa d’ella, fosse parar á costa d’Africa, o outro era muito capaz de lhe fazer alguma, que désse que falar. Era o Gaspar tão ruim, que andando embarcado tinha querido matar o cosinheiro de bordo, e levara n’essa occasião duas navalhadas, de que lhe resultou o signal em cruz, que tinha na barba, do lado esquerdo.

O Antonio ouvira dezenas de vezes a mãe contar a historia, mas nunca tinha sentido tamanha amargura, um desejo tão furioso de vingança.

Estivesse o pae ainda vivo e a mãe não precisaria de pedir esmola, e já elle teria ido para a America enriquecer, e não estaria alli a ganhar tão pouco.

E lembrou-se do pae—das festas que elle lhe fazia quando vinha á noite para casa, seguido pela Boníta, a cadella de gado. Ceiavam, e o pequenito para adormecer queria sempre que o pae o deitasse no collo. O Manoel Luiz fazia-lhe a vontade, e mal o Antonio estava pegado no somno, despia-o todo, deitava-o na cama, com um cuidado, um carinho, de que nem a propria mãe seria capaz.

Quando o pae morreu, o pequeno tinha oito annos. Mostrou pena, como se já fosse uma pessoa grande.

N’aquella manhã renascia a dôr.

A mãe com tanta precisão de dinheiro para matar a fome, e o filho tendo só um pataco que lhe dar!

O mestre João era muito agarrado ao dinheiro e não lhe emprestaria nada.

Metteu a mão na algibeira, levou-a muito fechada até á mão direita da Maria José, e deixou-lhe a moeda entre os dedos, escondida. Beijou a mão da mãe e poz-se a chorar.

N’isto a voz de João Cardoso, chamou de dentro imperiosamente:

—Antonio! Ó Antonio!

O rapaz entrou na loja, de corrida.

Já lá estavam dois freguezes.

* * * * *

A concorrencia foi grande n’aquelle domingo.

Todos queriam apresentar-se na missa conventual com a cara bem escanhoada, para que nada deslustrasse o fato de ver a Deus.

João Cardoso, sem perder a presença de espirito, ia desbravando os matagaes incipientes que, por ausencia da navalha, tinham brotado n’aquella semana.

Animou-se gradualmente a conversa. De um assumpto politico—a escolha do futuro regedor—saltou para o phylloxera, que tinha apparecido pouco antes n’uma vinha do Fayal.

—Aquillo—opinava o Estacio Manuel—é pelos modos um bicho que come a raiz da cepa, como o caruncho roe a madeira, e o gusano o costado dos navios.

—Bicho me pareces tu—atalhou o Amaro, do seu canto.—Se fosse bicho podia-se lá dizer que tinha apparecido uma nódoa d’elle!...

—Nódoa?

—É o que ainda agora li no Fayalense. Nódoa de bicho, não entendo.

O Estacio não se deu por vencido:

—É que as terras aonde elle chega ficam pretas como esses mysterios, que ahi temos por toda a ilha.

O mestre barbeiro ensaboava, n’esta occasião, a cara do terceiro freguez; suspendeu a operação e voltando-se para o auditorio, exclamou sentenciosamente:

—Sabem o que lhes digo? que se essa praga de nome tão arrevezado salta do Fayal para cá, adeus vinhas do Pico! É cada qual entrouxar a roupa e ala para Bastão![2]

Não tinham acabado ainda os applausos provocados pelo dito, quando entrou na loja um homem trigueiro, muito alto, largo de hombros e um tanto desmanchado no andar. Na orelha direita d’este colosso luzia uma arrecada lisa e pequena, e nos pulsos e nas costas das mãos alastravam-se, em prodiga tatuagem, ancoras e estrellas.

O sino da egreja proxima tocou passados instantes, chamando para a missa. Era a terceira vez.

Ficaram só dois freguezes na loja. Um, que o mestre começou a barbear, tinha ouvido a missa das almas. O outro, o da arrecada, coube ao Antonio, e não mostrou dar grande attenção ao chamar pressuroso do sino.

No entretanto pelo largo batido de sol passavam azafamadas e alegres as raparigas do povo, com os lenços de chita, de pontas desamarradas, presos á cabeça somente pelos chapeus de palha de abas largas e copa baixa, cingida por um cordão de lã encarnada. Para ellas a missa não é só uma devoção, é o repouso, o esquecimento momentaneo de uma existencia monotona e trabalhosa.

O Antonio não podia mais. Ainda bem que era aquelle o ultimo freguez! Depois da missa não viria mais nenhum. Não sabia como se tinha aguentado tanto tempo. O seu desejo era fugir d’alli, e, quando ninguem o visse, desatar a chorar desconsoladamente, para ver se lhe passava aquella ancia, que o affligia. Só por grande milagre não enchera de lanhos as caras dos freguezes. Felizmente aquella barba depressa se fazia. Não tinha menos de quinze dias, pouco resistia á navalha.

O rapaz teve de repente um deslumbramento. Na face esquerda do homem que estava alli, nas mãos d’elle, havia um signal, que a principio se não podera ver, porque a barba o escondia, e que era exactamente egual ao do Gaspar Dutra: duas cicatrizes em cruz!

Perguntou, com a voz algum tanto suffocada:

—O senhor é cá do Pico?

—Eu? Sou. E porque?...

—É da Candelária?

—Quem t’o disse?

—Quiz-me parecer. E chama-se?...

—Gaspar Dutra. Tens alguma herança para me entregar? Ha-de ter morrido muita gente minha, n’estes oito annos que estive na America.

Não havia duvida.

O rapaz sentiu nos ouvidos um zumbido ensurdecedor, faltou-lhe a vista, passou-lhe um calafrio por todo o corpo. Devia ser assim a approximação da morte!

Tornou a encarar toda a sua desgraça. Exerceu, porém, um esforço violento sobre si mesmo, e serenou apparentemente.

O Gaspar não suspeitou de nada. Via-o de costas, afiando a navalha. Por fim disse-lhe de repellão:

—Anda! Acaba com isto!

—Sim, senhor...

—Tu estás parvo! bradou-lhe o mestre, do outro lado da loja, sem largar a cara, que já tinha meio rapada.

O aprendiz poz machinalmente mais sabão na barba do freguez.

—És da Candelária? continuou este. Conheces lá muita gente?

—Conheço... Conheço a Maria José, viuva do Manoel Luiz... O senhor conhece-a?

E os olhos, que se fitavam no fio da navalha virado para a garganta do Gaspar, levantaram-se n’uma interrogação anciosa.

—Olá se conheço! E tambem conheci o marido... Um grande marau!

O Antonio teve um espasmo. Os nervos contrahiram-se-lhe medonhamente, e o gume do aço cortou bem fundo no pescoço bronzeado do assassino, abrindo uma ferida alongada, de onde o sangue espadanou com violencia.

O Gaspar ainda ergueu os braços, soltou um arranco, estrebuxou e caíu de lado, no chão. Na toalha, presa por baixo da barba, o sangue formava uma larga mancha vermelha, que se foi extendendo a mais e mais.

João Cardoso e o outro homem, extaticos, boquiabertos, transidos de pavor, não ousavam approximar-se. Por fim, em quanto o freguez corria para a porta a gritar «Aqui d’el-rei!», o mestre, vendo a navalha caída no chão, chegou-se ao pequeno, que estava de parte, todo a tremer, e a olhar com espanto para aquella massa enorme agitada pelas convulsões da agonia.

Agarrou-o por um braço e perguntou-lhe:

—Que foi isto, grandessissimo diabo?

E o Antonio, a gaguejar, como um bebedo:

—Foi ... foi elle ... que matou meu pae!