O Marraxo
Um calor de rachar pedras, quanto os quatro rapazes descansaram do trabalho. Já na vespera á tarde se tinha annunciado a léstia pelos tons vermelhos do horisonte para as bandas do nascente.
Os ricos e remediados podiam fugir-lhe, mettendo-se em casa, com as portas e as janellas bem fechadas; mas elles, coitados!...
Cá fóra chegavam a toda a parte as breves lufadas do vento abrasado do Sahara, que parecia não ter perdido um atomo da sua ardencia com o atravessar centenas de leguas do Atlantico, desde a costa de Africa até á pequena ilha do Porto Santo. N’aquelle ambiente de forno, as plantas mirravam-se de tal sorte, que se alguem apertasse entre os dedos as folhas mais tenues, facilmente as reduziria a pó.
Mas o mar ficava a dois passos do logar do trabalho.
—Que rico banho, graças a Deus! pensavam os quatro.
Atravessaram de corrida o areal a escaldar, e foram-se despir á sombra de uma saliencia de rocha, junto ao Penedo do Somno.
Na extensa praia que borda o sul da ilha, o ar, como ao de cima de uma fogueira, trepidava rarefeito. Augmentava-se ainda mais a impressão do calor, com os offuscantes clarões d’aquella areia amarella e fina. Ninguem podia respirar, nem que fosse até lá acima, ao pico do Castello, que muito no alto, ao noroeste, desenhava no ceo baço e pardacento o perfil regular da sua pyramide.
O mar estava alli ao pé. Todo frescura, espreguiçava-se na praia, encrespado pelo sopro da léstia: ao largo, porém, com o sol dardejando-lhe a pino, lembrava um extenso e irrequieto lençol de metal fundente.
—Sabem vocês uma coisa? disse um dos quatro. A modos que o mar tambem está encalmado!
E a rir do proprio dicto, o José desceu até ao mar, molhou a mão direita e benzeu-se devotamente.
Os outros fizeram o mesmo, e investiram para a agua todos a um tempo, no meio de cachões de espuma, e soltando guinchos com a repentina impressão do frio.
O Francisco seguido por mais dois nadou para fóra, mas o José, que no mar nunca tinha sido afoito, deixou-se ficar no sitio onde quebravam as ondas. A agua nem lhe dava pela cintura.
—Larga-te d’ahi, calaceiro! berrou o Antonio, ao vel-o na occasião em que virava rapidamente a cabeça, para sacudir da testa os cabellos gotejando agua.
—Vá quem quizer, que eu cá tenho pouco folego.
—Ah! Tu não vens? Eu já te vou escarmentar.
Mergulhou, e reappareceu ao cabo de poucos segundos: trazia na mão uma pedra de cal e atirou-a para o José.
—Ah! Vocês querem fazer-me reinar? disse este ultimo, deveras amuado, e correu para o logar onde estava a roupa. Tirou a agua da cabeça passando-lhe a mão com força, enfiou a camisa e veiu enxugar á torreira do sol, empoleirado no rochedo que avançava pelo mar dentro.
A umas cem braças de terra, os outros voltaram para traz. Não eram da mesma força a nadar e por isso vinha mais fóra o Francisco, logo adiante o Antonio e na frente de todos o Luiz.
Com a mão direita estendida sobre os olhos, á guisa de pala, e segurando com a outra a fralda da camisa, que o leste sacudia, o José seguia os movimentos dos amigos com olhares invejosos.
Mas o que viu elle subitamente?...
Atraz do Francisco, a umas quatro ou cinco braças a agua mexia-se, e divisava-se como que uma sombra escura seguindo os banhistas.
—O que seria aquillo?
Mal tinha formulado mentalmente a pergunta, deu um grito fortissimo.
Ao de cima da agua avistava-se distinctamente uma galha escura e delgada.
—É um marraxo!
Tremulo de medo, bracejando muito, desatou a chamar os outros, com gritos entrecortados.
O Luiz, que se tinha deitado de costas para descansar, ouviu-o e olhou na direcção que os gestos indicavam. Como descobriu a galha do tubarão, bradou logo:
—Nada com ancia, Francisco, nada com ancia, e não pares!... E tu tambem, Antonio!... Olhem o que vem lá atraz!
O Francisco voltou a cabeça e passou-lhe pelo corpo um arrepio, como se a agua tivesse gelado de repente.
Em quanto elle nadasse—estava farto de o saber—o marraxo não atacava, porque não pode morder sem parar primeiro e virar-se, a fim de voltar para cima a bocca immensa, armada com sete ordens de dentes cortantes como aço!
E acudiu-lhe á memoria o triste fim d’aquelle rapaz, que um marraxo rolara pelo meio, ao pé do ilheo da Cal.
Mais rapidos que as ideias que lhe estuavam no cerebro, só os movimentos que fazia nadando, e que, desordenados, o iam extenuando a mais a mais.
Um dos companheiros havia no entretanto chegado a terra.
Como é que o terrivel animal o não tinha já alcançado?... Devia estar quasi a tocar-lhe nos pés!... Não tardava a rilhar-lhe os ossos!...
Perguntassem-lhe se preferia que um raio o fulminasse, a continuar n’aquella agonia tremenda, e pediria que no ceo limpido, testemunha impassivel da tragedia, se formasse de prompto uma nuvem de tempestade, para lançar-lhe a fita de fogo, que o matasse instantaneamente.
Já não podia mais. O coração batia-lhe no peito, como se quizesse arrombar-lh’o.
Tambem já tinha chegado á praia o João.
—Só para elle estava guardada aquella morte horrenda!...
O José lembrou-se de que no sitio onde se despiram tinham visto um madeiro roliço, que parecia resto de um mastro. Correu a buscal-o. Despiu a camisa e amarrou-lh’a bem, pelas mangas. Sobre o penedo e com o corpo inclinado para o mar, não perdia de vista o perseguido nem o perseguidor.
O Francisco já podia tomar pé, mas fazia bem continuando a nadar, pois o maior perigo estava exactamente no instante em que parasse, e assentasse os pés no fundo, para desatar a fugir.
Ia o Luiz atirar uma pedra ao tubarão, mas o José prohibiu-lh’o com um gesto imperioso, e bradou:
—Nada sempre, ó Francisco, e não tenhas medo!
Um pouco debruçado do penedo, acompanhava com os olhos esgazeados os movimentos do peixe, tal qual o trancador de baleias no momento de arpoar. Mas o banhista chegou á babugem da maré e logo o madeiro caíu entre elle e o marraxo.
—Foge, Francisco! bradaram-lhe os tres, como se fosse preciso o conselho.
Vendo caír-lhe diante e estacionar ao lume da agua aquella massa branca, o marraxo voltou-se e fincou-lhe os dentes com ancia.
—Ahi podes tu morder, cachorro! gritou-lhe o João. Surriada!
E contentissimos, os tres atiravam-lhe pedras, em quanto o Francisco se deixou caír na praia, extenuado e offegante.
Sem dar pela aggressão, o enorme esqualo queria desforrar-se do logro estracinhando a madeira, mas como a areia já lhe penetrava nas guelras, mudou de rumo e dirigiu-se para o largo, a galha escura surgindo sempre ao lume de agua.
Desde aquelle dia o Francisco, por mais calor que fizesse, nunca mais se metteu no mar.