III
Vamos porém á historia do casamento da infanta D. Beatriz de Portugal com Carlos III, duque de Saboya.
São conhecidos os pormenores da viagem da infanta pelo opusculo de Garcia de Rezende, que anda nas suas obras, intitulado Hida da infante D. Beatriz pera Saboya; e pelo capitulo LXX, quarta parte, da Chronica de D. Manuel, por Damião de Goes.
Já tivemos tambem occasião de referir-nos ao auto de Gil Vicente que tem por assumpto a viagem de D. Beatriz.
No tomo II das Provas da Historia Genealogica encontra-se a pag. 439 o Contrato do casamento, e a pag. 445 a longa enumeração dos objectos que constituiam o opulento enxoval da infanta.
Até aqui o que conhecemos dos livros portuguezes.
Agora passemos a soccorrer-nos da Memoria do barão Gaudenzio Claretta, a fim de a divulgarmos em Portugal, por ser realmente muito pouco conhecida entre nós.
O casamento realisou-se no 1.º de outubro de 1521, na igreja dos dominicanos de Niza, lançando a benção nupcial o bispo de Vercelli, Bonifacio Ferrero, que mais tarde se tornou conhecido pelo nome de cardeal de Ivrea.
Realisaram-se pomposos festejos publicos, primando entre elles, pelo seu luzimento, o torneio celebrado junto á porta Marina, no qual cavalleiros hespanhoes, portuguezes e italianos quebraram lanças em honra dos augustos esposos.
O codice citado por Herculano conta que a infanta, tendo chegado a Villa Franca pela uma hora da tarde do dia de S. Miguel (29 de setembro), não queria sahir da nau, o que fizera a instancias do duque de Saboya.
D'ahi inferiu Herculano que a a «má vontade com que ella desembarcou mostra que este casamento não lhe era demasiadamente grato.»
Vejamos porém o que diz o texto da Memoria de Claretta:
«Seguendo ora il racconto del Revelli, narra questo storico che il giorno 29 verso le tre ore di notte sbarcó la principessa a Villafranca, dove di comandamento del Duca eransi portati per riceverla e complimentarla Lodovico dei Malingri, Gioanni d'Orliè, il vescovo Geronimo d'Arsagis, Onorato Cays ed i consoli seguiti dai primi gentiluomini del paese. L'ora era già avanzata, ma pur volle l'infante Beatrice la sera medesima recarsi a Nizza traversando il colle di Montalban al chiaror di molte faci, ed assisa su di una sedia soppannata di velluto e d'armellino, sostenuta da quattro gentiluomini portoghesi. Giunta la comitiva ai molini di Riquieri le acclamazioni più vive degli astanti annunziarono l'incontro del Duca, il quale era giunto quella sera all'abbazia di San Ponzio e non aveva voluto far l'ingresso nella città prima che fosse arrivata la sposa.»
Vão grifadas as expressões que contrariam a versão do codice publicado por Herculano.
Como vimos, Claretta apoia-se na narração de Revelli, e não podêmos suppôr que Claretta occultasse a verdade, por isso que elle a patenteia com inteira franqueza em varios lances da sua Memoria, especialmente, como veremos, quando se refere á decadencia da côrte de Carlos III.
O condado de Niza offereceu á duqueza, como brinde de casamento, a somma de cinco mil florins.
Pier Leone di Cavaglià, conego de Santa Maria della Scala de Milão, recitou uma oração e um epithalamio, de que existe um exemplar na bibliotheca real, sendo o opusculo que contém as duas peças litterarias muito raro na Italia. Oggidi assai raro, diz em parenthesis Claretta.
A oração é em latim. Claretta dá alguns extractos, e commenta-os. Por exemplo:
«... habes uxorem pulcherimam (ei gli dice) venustissimamque ut cernere est virtutis lacte et cura ut scimus nutritam (e questo era vero) fæcundam ut optamus.»
Claretta publíca na integra o epithalamio, tambem latino, que foi recitado pela menina Veronica Leone, de quatro annos de idade apenas—giovinetta di quattro anni.
N'esse epithalamio são grandemente exaltadas a belleza e castidade da infanta D. Beatriz.
Claretta ainda cita outras congratulações poeticas que por essa occasião foram publicadas.
A tres de outubro fizeram os duques de Saboya a sua entrada solemne na cidade de Niza pela porta Pairoliera.
Segundo Revelli, cerca de tres mil portuguezes, ricamente vestidos, tomaram parte no cortejo. Mas outros muitos, não menos ricamente vestidos, assistiram como espectadores ao desfilar do prestito.
Agora vem algumas linhas de Claretta, que reproduzimos no texto para que n'ellas sobresaia a impressão profunda, conservada pela tradição, que causára em Niza o apparato que os portuguezes exhibiram n'esse acto:
«Soggiunge il citato storico (Revelli) che i Portoghesi sommarono a ben cinque mila, e che fu cosa ammirabile il vedere tanti ornamenti d'oro, gemme, selle de cavalli com briglie, staffe, speroni e cose simili tutte formate di lame e piastre di puro oro, uccelli ed animali peregrini, quantità incredibile de aromi di specie diversa, in una parola, tutto che di prezioso dall' Africa e dalle Indie, con l'occasione dell' navigazioni alle più remote parti, era stato apportato al re di Portogallo.»
Ahi fica mais essa recordação do nosso passado esplendor n'um tempo em que a riqueza dos cavalleiros igualava a dos arreios dos cavallos, tudo constellado do ouro e pedrarias, que o descobrimento da India nos permittia exhibir por entre nuvens de exquisitos perfumes orientaes.
Segundo Claretta, foi no dia 8 de outubro que os noivos partiram de Niza para o Piemonte.
Esta indicação confere com a do codice publicado no Panorama.
É porém durante a jornada que o author do codice se refere a violencias praticadas contra os portuguezes que acompanharam a infanta.
Claretta cita os nomes dos personagens italianos que fizeram séquito aos noivos até Vigone, um dos quaes personagens era o governador de Niza, com o seu logar-tenente. Parece natural que aquelle funccionario e alguns mais retrocedessem depois de haverem acompanhado os duques por algum tempo. Accrescenta Claretta que em Vigone se despediu o cortejo, ficando ahi os noivos, podendo suppôr-se que no gôso da sua lua de mel, livres finalmente das impertinencias officiaes, que durante oito dias os tinham rodeado.
A 10 de fevereiro de 1522 expedia Carlos III patente de assentamento, a favor de D. Beatriz, da quantia de nove mil e setecentos florins, com hypotheca sobre diversos rendimentos publicos, e a 22 de abril passava quitação ao rei de Portugal da somma de cento e cincoenta mil ducados, com que a infanta fôra dotada por seu pai.
Os duques demoraram-se em Vigone até ao mez de março, recebendo ahi D. Beatriz, por parte do estado do Piemonte, um donativo de cincoenta mil florins, e o duque outro de duzentos mil.
Claretta diz que a entrada dos noivos em Turim fôra saudada pela população, mas que as festas publicas bem depressa tiveram de ser ensombradas pela noticia da morte do rei de Portugal, occorrida no mez de dezembro, e pela peste que os portuguezes haviam deixado em Niza, cujos habitantes flagellára por longo tempo.
A scena da ponte, descripta no codice do Panorama, quando uns cem alabardeiros pozeram as alabardas aos peitos dos portuguezes, que queriam acompanhar a infanta, teria uma explicação inverosimil pela versão de Herculano, visto como o duque não havia ainda regulado a situação financeira de um casamento que tanto lhe convinha e por que tanto instára.
Sendo tamanha, como refere Claretta, a multidão de portuguezes que assistiram á recepção da infanta D. Beatriz, explica-se facilmente o acto de violencia praticado pelos alabardeiros como medida prophylatica adoptada pelo duque contra a invasão de uma epidemia que desde longos annos não tinha deixado de fazer grande numero de victimas em Portugal. Póde mesmo ter acontecido que um ou outro caso de peste se houvesse manifestado entre os cinco mil portuguezes que por occasião das festas do casamento se encontravam em Niza, incluindo os marinheiros dos dezoito navios que constituiam a frota portugueza. É porém natural que os portuguezes se offendessem com essa precaução, e desfigurassem as intenções de Carlos III tomando-as á conta de descortezes para com a infanta, e de hostis para com elles.
As condições hygienicas de Portugal eram realmente deploraveis então. A peste tinha devastado o reino annos antes, e, referindo-se á morte de D. Manuel, diz Garcia de Rezende na Miscellania:
N'este anno se finou
o gran rei D. Manoel,
quantos comsigo levou
a morte triste, cruel?
que rei, que gente matou?
duzentos homens honrados,
em que iam muitos d'estados,
vivos que então se finaram
de modorra, e escaparam
muitos já quasi enterrados.
IV
É certo que em torno da infanta D. Beatriz se levantaram desde o principio algumas recriminações. Mas não partiam do duque de Saboya nem procediam de ciumes. Partiam do povo.
D. Beatriz tinha sido educada na opulencia e, como era natural, não perdêra facilmente esse habito. Os saboyanos achavam-na altiva, orgulhosa, e criticavam n'ella os costumes de Portugal.
O duque, bem ao contrario dos sentimentos que lhe attribue o codice citado por Herculano, transigia com a esposa.
Elle proprio, quando a côrte se dirigiu a Genova, seguia o coche rico que conduzia a duqueza, montando uma mula, acompanhado pelo abbade de Beaumont.
Os genovezes, segundo o testemunho de Spon, censuravam que Carlos III dispendesse em pompas, para honrar sua esposa, o dinheiro que melhor seria empregado em fortificar a cidade.
Não obstante estas censuras, as festas continuaram.
Por sua parte, a duqueza devia sentir-se contrariada porque, tendo sido educada no esplendor dos Paços da Ribeira, via-se agora condemnada a viver n'uma côrte pobre e endividada, não sem que o povo murmurasse á menor despeza que ella fazia.
Mas, é Claretta quem o confessa: a experiencia não devia tardar em corrigil-a. D. Beatriz inteirou-se das circumstancias, como mostra a sua correspondencia, que Claretta examinou com cuidado, e que elle proprio divide em politica e particular.
Desprendida de todos os defeitos de educação, mostrando um espirito desassombrado, como o de quem não está impressionado por a saudade de um amor infeliz, como teria sido o de Bernardim Ribeiro, Beatriz de Portugal principia a cuidar seriamente dos negocios internos do paiz.
Logo em 1524 escrevia ao marquez de Pescara para que fizesse cessar as violencias que os soldados do imperador Carlos V, depois da victoria de Pavia, commettiam no ducado de Saboya com grande vexame para os habitantes. Carlos III implorava tambem no mesmo sentido.
A 13 d'agosto d'esse mesmo anno, D. Beatriz instava de novo, dirigindo-se ao capitão imperial Fernando d'Alençon para que deixasse de opprimir os povos do Piemonte, em particular os de Borge e Bognolo in maniera che li nostri subdicti li quali gia tanto hano patito non seano in tutto ruynati.
O imperador, cada vez mais solicitamente instado pelos duques de Saboya, respondia com boas palavras apenas: em carta, datada de Toledo a 7 de fevereiro de 1526, diz a Carlos III que tem por elle e por a duqueza sua cunhada a maior consideração; que os vexames commettidos no Piemonte o contrariam tambem; mas que espera pôr-lhes termo logo que vá a Italia.
A 12 d'esse mesmo mez de fevereiro, a duqueza de Saboya, D. Beatriz, escrevendo ao commendador de Murel, dizia-lhe: Vous n'aues pas a ignorer les insultes et peilleages que alcuns souldars estantz dans Carmagnole auecques leurs complices ont fait sur le pays de Monseigneur de maniere que tous les chemins sont rompuz qui est grant scandalle por tout le pays ce qui ne voulons plus en durer.
Mas os vexames, as humilhações continuavam.
A 22 de fevereiro, a duqueza energicamente recommendava á communa d'Ivrea que lhe enviasse duzentos homens, dos melhores, a fim de policiarem os logares vexados pelos soldados do imperador.
Em abril, como continuassem as coisas no mesmo pé, D. Beatriz escrevia ao marquez del Guasto, pedindo-lhe que fizesse retirar as tropas que devastavam Racconigi.
Sempre valeram as supplicas repetidas e instantes de D. Beatriz junto de Carlos V.
O imperador calmára um pouco a sua vingança, pois que tivera contas a ajustar com Carlos III, ao qual em 1521 havia escripto, tratando-o não por principe italiano, mas por seu visinho d'Italia, pedindo-lhe que obstasse á passagem do exercito de Francisco I: no que fareis o vosso dever, e a mim me dareis singular prazer, que não será esquecido.
O duque de Saboya não só não obstou á passagem do exercito francez, senão tambem o forneceu de viveres e munições.
D. Beatriz, logo que pôde inteirar-se dos negocios politicos do paiz, e intervir n'elles, procurou corrigir o desacerto do marido. Como vimos, dirigia-se supplicante ao imperador ou aos seus capitães, e tanto captivára Carlos V, que elle, comquanto sempre dissimulado, acabou por attender-lhe as supplicas.
Em 1524 D. Beatriz dera á luz um filho.
Os seus deveres de mãi não a inhibiam comtudo de interferir solicitamente nos negocios politicos do ducado,—com tal zelo, com tal dedicação, que não deixa no nosso espirito sombra de suspeita de que ella, no caso de ter sido amada por Bernardim Ribeiro, podesse lembrar-se ainda do infeliz trovador portuguez.
O duque de Saboya tinha fixado a sua residencia em Chambery, cujo clima molestava D. Beatriz, nascida e educada nas regiões temperadas do occidente. Além do que, conservando-se no Piemonte, podia Carlos III observar de mais perto os acontecimentos da Italia.
Esta ausencia obrigada contrariava muito D. Beatriz, como se vê de uma carta sua escripta ao duque a 21 de fevereiro de 1526: ... votre retour qui mest si long que plus ne pourroit. Já não podia supportar a ausencia do marido. Como estaria esquecido Bernardim Ribeiro, se alguma vez tivesse sido lembrado! No fim da carta falla-lhe do filho. Du surplus votre filz se porte tres bien, etc. Deixou para o fim, como as mulheres sempre fazem, o pensamento que mais podia attrahir o marido.
Carlos III, reconhecido á intervenção de sua mulher junto do imperador, escreveu-lhe de Chambery para Turim, em 19 de junho, uma carta que completamente esmaga a suspeita de qualquer resentimento amoroso.
Diz a carta:
«Ma femme. J'ay receu toutes vos lettres par Chasteaufort et par luy entendu de vos nouuelles que me sont a tel aise et plaisir que plus me porrient mesmes vous voyant en bonne santé et les afferez reduitz a souhet dons auons a louer notre seigneur et de tant plus quaues heu si bon heurt que de faire vne si belle oeuure au bien et soulagement des subgectz et a votre gros honneur et reputation. Que vous sera succes et accroissement de vertu. Jay ausplus veu vos aduys et vous asseure que estre ces gens entierement vuydes ie ne tarderay a vous aller veoir et cependant ie men vey des demain Annessy car a... se fait le baptesme qui na este retarde que pour attendre les ambassadeurs des ligues et ne fault au demorant quaye nul soucy de ma personne car aidan Dieu elle vos sera conseruee et de notre fils. Je vous asseure quil fait graces a Dieu auquel ie prie qui vous donne ma femme le bien que ie vous desire De Cambery le XVIIII jour de juins—Votre bon mary, Charles.»
A situação era realmente difficil para Carlos III. Precisava um Cyrineu dedicado, e encontrou-o em sua mulher, D. Beatriz de Portugal.
A duqueza acompanhava, de Turim, todos os acontecimentos importantes, e aconselhava resolutamente o marido.
Citaremos um trecho de uma carta sua, varonilmente energica, escripta ao duque:
«Quant a la ligue de sept cantons suisses quoy que le pape saiche dire ie vous conforte si vous la pouvez conclure a la fere car la nature du marchant n'est que de voir a grandir vos voisins et sa mayson pour ruiner s'il pouvait la votre ou votre etat et tous les aultres quelque dissimulation quil face au contraire.»
Como se sabe, depois do tratado de Madrid, tão vexatorio para a França, recomeçára a lucta entre Francisco I e Carlos V.
Foi pela Italia que as hostilidades principiaram, sangrentamente. Toda a gente conhece as crueldades commettidas pelo exercito de lutheranos, que o duque de Bourbon commandava. E toda a gente sabe que pelo desastre de Landriano foram os francezes expulsos da peninsula italica.
Carlos V, victorioso, entrou na Italia, realisou a sua annunciada visita, que tinha por fim fazer com que os senhores dos pequenos estados italianos reconhecessem a sua suzerania e com que o papa Clemente VII o coroasse rei de Italia e imperador.
Então, a França teve de assignar um novo tratado pouco menos vexatorio que o de Madrid: o de Cambrai.
Todavia, a situação do Piemonte não melhorára. As devastações continuavam. Carlos III lembrou-se de recorrer á intercessão de D. João III de Portugal. Para isso solicitou uma carta de sua mulher, para o irmão, carta de que foi portador um cavalleiro saboyano, de nome Honorato Cays,
O resultado d'esta missão diplomatica, em que D. Beatriz interveio, não o conheceu Claretta.
Mas era esse o momento em que Carlos V devia realisar a definitiva submissão da Italia.
Todos os principes d'aquella peninsula rodeiaram o imperador suzerano: Carlos III, teve, junto de Carlos V, um logar de honra. D. Beatriz offereceu ao imperador uma coberta de leito, do valor de dez mil escudos, e Carlos V presenteou-a, em troca, com quatro vestidos de igual valor.
Terminada a ceremonia da coroação, D. Beatriz regressava a Turim, sempre intendendo all'amministrazione e buon governo dello statto, diz Claretta.
Mas D. Beatriz não havia perdido politicamente o tempo que estivera em Borgonha. Induzira o imperador a ceder-lhe, e aos seus descendentes, o condado de Asti e o senhorio de Chevasco e Ceva, que, pelo tratado de Cambrai, a França havia cedido a Carlos V.
A carta de doação, escripta em latim, e assignada pelo imperador, tem a data de 3 de abril de 1531. Carlos V encarregou o gentilhomem D. Gutierres Lopes de Padilla de legalisar a investidura, que foi celebrada solemnemente.
Os habitantes do condado de Asti festejaram este acontecimento com demonstrações de grande jubilo, e resolveram fazer á duqueza D. Beatriz uma doação de dez mil escudos de ouro.
Em verdade, bem precisada estava de auxilios pecuniarios D. Beatriz.
N'uma carta ao duque dizia ella:
«Touchant ma despense Monseigneur j ay prins le premier payement de ceulx de Cargnan pour contenter partie de ce quest deheu tant seullement du vin et vous plaira nen estre marry vous asseheurant que la crierie et lextremité y estoit plus grosse que je ne vous ay jamais escript...»
Parece mais uma carta de uma boa mãi de familia burgueza, informando seu marido, com uma grande dedicação conjugal, do mau estado das finanças domesticas, do que a carta d'uma princeza, bella e joven, dirigida a um marido pobre e um pouco azumbado, como lhe chama o author do codice citado por Herculano.
A figura lacrimavel do desditoso trovador Bernardim Ribeiro apaga-se lentamente, até diluir-se no esquecimento, se procuramos enxergal-a através da dedicação politica e domestica com que D. Beatriz de Portugal encarou os seus deveres de esposa de Carlos III de Saboya.
Ahi tem o leitor a plena confirmação de quanto lhe haviamos annunciado.
N'essa mesma carta refere-se D. Beatriz aos disturbios que occorriam entre os habitantes de Fossan, sendo que os banidos da povoação tinham derrubado uma grossa muralha. E accrescentava:
«Mais la difficulté y est quil ny a moyen d'auoir argent por leuer gens pour y enuoyer et sans y fere quelque bonne entreprinse et demonstration de iustice la chose ne peult tomber que a pis.»
As circumstancias pecuniarias da côrte de Saboya tornaram-se cada vez mais apertadas, a ponto de não haver dinheiro para pagar aos fornecedores.
D. Beatriz, filha do opulento rei D. Manuel, não tinha uma palavra de queixume ácerca da má situação financeira da sua casa, como seria natural que tivesse, especialmente n'essa conjunctura, se, contrariando uma paixão mallograda, houvesse sido compellida a um casamento que lhe repugnasse.
Oiçamol-a:
«Au regard du duc d'Albanie sil treuue peu pour bien trecter et par faulte d'argent et mon poullalier ne voult plus fournir a cause qui lui est deheu pres de mil florins et a mon bouchier environ quatre ou cinq cens escuz auquel j ay rebattu sa part de la composition du Carignan tousiours en deduction de ce quen luy doibt et por non auoir argent soue constrainte dacheter sur la place de ceste ville a mespris.»
Devendo ao fornecedor de aves e até ao talho—oh prosa vil das realidades do mundo!—a bella princeza de Portugal via-se obrigada a mandar comprar á praça, como toda a gente!
Tendo de receber como hospedes alguns capitães do imperador, que a encontraram em Rivoli e a acompanharam por distincção palaciana até Turim, dizia D. Beatriz ao marido:
«Reste Monseigneur que ie suis assez mal en ordre de caddretz dune naugiere potz flascons platz chandelliers et aultre veisselle dargent. Et ne scay si le duc de Millan viene comme le pourray recepuoir a votre honneur et myen. Semblablement nya icy aulcune tappisserie ny donzelletz de soy combien que iay fait accoustrer le chasteau au myeulx que ma este possible.»
Nem baixella, nem tapeçaria, nada! A isto estava reduzida uma filha de D. Manuel de Portugal, forçada aliás, pela sua alta posição social, a receber como hospedes os generaes de Carlos V.
Mas não era só a falta de dinheiro a unica difficuldade que tinha a vencer.
No dia 15 de agosto de 1532, foi D. Beatriz, com seu filho, á igreja de S. João. Ahi travou-se uma grave rixa entre os senhores de Racconigi, de Masino, o governador de Asti e o conde de Tenda. Houve quem dissesse á duqueza que essa rixa seria um pretexto para ferir o principe, seu filho, que tinha comsigo. D. Beatriz, mostrando uma intrepidez admiravel, mandou suspender a missa, e retirou-se para o côro com o filho, com o prior de Lombardia, com o abbade Capris, e alguns mais personagens. Acudindo alguns cidadãos armados, que guardaram as pessoas da duqueza e do principe, D. Beatriz ordenou que o templo fosse evacuado e, com a intervenção do bispo de Niza, fez reconciliar os contendores.
Ella propria deu noticia d'este acontecimento a seu marido dizendo-lhe:
«... et le commancement du debat a tyrer les epes ont este les vallets de sorte quy sont venus aus meytres tant quy ly auet byen synt sans espes desgenes dedans le glisse et de sorte quy la faglu layser de dyre ma messe pour me retirer et jey heu peur pour ce que tous me disoynt que je retyrasse mon fys cuydant quy fut este fet tout espres totefoys ce na este synon chosse quy tochet a tus memes...»
Quando a gente deletrea á luz d'esta realidade cruel a biographia de D. Beatriz de Portugal, como que sente em torno de si um esvoaçar de aves que fogem amedrontadas, para não mais voltar.
Sao as ficções da sua lenda poetica—a lenda com que a nossa infancia foi embalada—que debandam, espavoridas e batidas, para o paiz azul d'onde vieram...
Emquanto Carlos III, que continuava no Piemonte, via escapar-se-lhe das mãos a alliança dos genovezes, a duqueza de Saboya, esposa dedicada, estremecia de cuidados pela saude do duque: «... quil vous plaise ne trauailler tant votre personne que tomberiez en aulcune malladie car le plus gros malheur qui sceust venu et a vos enfants seroit qui fussiez mal desposé.»
N'uma outra carta da duqueza ha ainda um trecho mais expressivo do seu carinho conjugal: «... si devan lundy ie nen ay nouuelles je deslivre me mectre en chemin que ne sera encoures bien au long iusquez ie soie aupres de vous quest la chose que plus ie desire en ce monde.»
Se não recebesse noticias, que a tranquillisassem, a respeito da saude do duque, D. Beatriz dar-se-ia pressa em partir para reunir-se ao marido, pois que era essa a felicidade que mais desejava n'este mundo.
No coração da infanta portugueza não podiam existir, em face d'estes documentos authenticos, vestigios de qualquer paixão, absorvente e mallograda, sobredourada pelo encanto com que a saudade costuma revestir a imagem dos ausentes queridos. Não se vê, através d'estas cartas, a amante lendaria de Bernardim Ribeiro; o que se vê é a esposa carinhosa do duque de Saboya.
Sempre envolvido nas agitações politicas da Italia, Carlos III viu-se a braços com uma nova controversia. Disputava agora com o duque de Mantua a successão do Monferrato pela extincção da linha masculina dos Paleologos. A solução foi favoravel ao duque de Mantua, e os partidarios de Carlos III aconselhavam-no a empregar a força das armas, a recorrer á violencia.
D. Beatriz de Portugal, que, de longe, acompanhava todas as questões politicas em que o marido se via lançado, revelava o heroismo do seu animo apoiando o conselho com resoluta firmeza: «le vrai expedient et moyen de vostre affere et ni ayez respect ni regard a personne ni a chose du monde.»
Uma dama de tão rija tempera, como D. Beatriz se mostrou em Saboya, não só nos negocios politicos, mas tambem nos domesticos, não menos apertados e difficeis, se se houvesse apaixonado por Bernardim Ribeiro, se tivesse acceitado os galanteios do famoso trovador portuguez, haveria tido a coragem de resistir a todas as vicissitudes que combatessem os designios do coração amoroso.
Ao contrario de sua mulher, Carlos III, sempre vacillante, continuava hesitando entre a França e a Hespanha, entre Francisco I e Carlos V.
D. Beatriz tinha, a este respeito, opiniões definidas, e expunha-as com clareza ao marido. Ella era pela Hespanha. E n'este sentido aconselhava ao duque: «... mais que si vous aviez deliberé vous entretenir envers France comme aviez faict jusqu'ici que ce vous serait chose bien difficile pour vivre avec tous deux neanmoins j espere selon votre accoutumée prudence vous y scaurez bien conduire.»
Todavia as circumstancias eram de geito para entibiar qualquer animo menos forte que o de D. Beatriz de Portugal.
Longe do marido, soffrendo pela saude e pela situação politica d'elle continuados sobresaltos; luctando com a falta de recursos pecuniarios cada vez mais aggravada; tendo perdido seu filho Luiz, que expirára em Hespanha, na companhia de Carlos V, em dezembro de 1536; compromettida, no anno seguinte, a sua delicada saude pelo extremo estado de gravidez em que se encontrava; D. Beatriz de Portugal luctára, emquanto pudera, com animo varonil e esforçado, mas, presentindo a morte, que se avisinhava, preparou-se serenamente para a viagem eterna, ditando as suas disposições testamentarias.
Era, nas circumstancias em que se encontrava, uma princeza pobre.
Mas, pela leitura do testamento, reconhece-se toda a humildade dos seus sentimentos religiosos, na recommendação que faz ácerca da modestia dos funeraes, e nos pequenos legados, nas ultimas recordações com que testemunha o seu affecto pelas pessoas que a rodeavam, as suas criadas particulares, taes como a ama do fallecido principe Luiz e a mulher do barbeiro do duque.
Herdeiro universal o marido. Aos filhos legava a terça. E recommendava que se do proximo parto nascesse uma filha, não a casassem sem consentimento de Carlos V; e sempre com um principe igualmente illustre em nascimento. De contrario, preferiria que fosse freira.
Legitimo orgulho de uma princeza portugueza que, alongando os olhos para além do tumulo, procurava evitar que uma filha sua desposasse um d'esses pequenos principes que enxameavam na Italia. Mãi dedicada, queria que a sua prole estremecida tivesse um destino mais tranquillo do que ella tivera.
O testamenteiro nomeado por D. Beatriz foi Francisco de Carvalho, embaixador portuguez junto á côrte de Saboya.
A duqueza déra á luz uma creança do sexo masculino, que recebeu o nome de João Maria. Mas a saude de D. Beatriz estava de tal modo damnificada, a sua fraqueza era tamanha, que rendeu a alma ao Creador no dia 8 de Janeiro de 1538.
O duque não assistiu ao passamento de D. Beatriz; o duque, a quem ella sempre cosi teneramente aveva amato, diz Claretta. Sendo informado do perigo que corria a vida da duqueza, Carlos III dera-se pressa em partir para Niza, mas foi no caminho, em Genova, que recebêra a fatal noticia.
O duque ficou fulminado. Dicesi che il dolore da cui il buon Carlo III era oppresso fosse talmente profondo che dava non poco a dubitare della sua esistenza. É o testemunho de Claretta.
Comquanto fossem precarias as circumstancias da côrte de Saboya, Carlos III ordenou pomposos funeraes. Mas, aggravadas com esta despeza as finanças do duque, não foi possivel dar inteiro cumprimento á ultima vontade de D. Beatriz, quanto aos legados que ordenára em testamento.
Para memoria eterna de saudade conjugal, Carlos III mandou gravar em honra de D. Beatriz, como já dissemos, duas medalhas.
Do casamento de Carlos III com a infanta de Portugal nasceram nove filhos: seis do sexo masculino, sendo um d'elles o celebre Manuel Felisberto, o vencedor de S. Quintino, e tres do sexo feminino.
Aqui fica pois reconstruida, graças á monographia de Claretta, a vida da infanta D. Beatriz depois que sahiu de Portugal.
É o proprio Claretta quem confessa que a duqueza de Saboya tem sido apreciada por modos diversos; mas a sua opinião exalça-lhe a memoria. Notando que Brantome faz referencia á altivez de D. Beatriz, diz que, tendo a duqueza seguido a causa de Hespanha, este facto explica o resentimento de Brantome. Dueros, na sua Histoire d'Emmanuel Philibert, explica essa altivez pela firmeza de caracter, que contrastava com a indecisão do marido, e entende que D. Beatriz deve ser collocada a par das mulheres fortes que a historia celebra.
Hoje, conhecidos os importantes documentos que Claretta deu á estampa, a lenda d'essa paixão contrariada, em que D. Beatriz e Bernardim Ribeiro durante tantos annos figuraram como victimas, recebeu por certo mais um golpe.
Se o trovador tivesse sido amado pela infanta, se, como suspeitava Alexandre Herculano, houvesse chegado até Saboya o segredo d'esses amores infelizes, de que Carlos III quereria tirar represalias, o caracter de D. Beatriz, em vez de se dobrar em carinhosas demonstrações de affecto para com o marido, haveria reagido pelo desdem, e até pelo desprezo.
Mas não é isso o que vemos das proprias cartas da infanta.
E, se por hypothese, D. Beatriz se soube algum dia amada de Bernardim Ribeiro, a noção do dever apagou completamente no seu coração a recordação d'esse amor infeliz. Seria, n'esse caso, um idyllio que tivera a duração de um meteoro, e cujas proporções a historia, rigorosamente descarnada, não póde avultar.
A nossa convicção, pelos factos que longamente indicamos, é que a tradição dos amores de Bernardim Ribeiro e D. Beatriz pertence aos dominios da lenda; que se alguma paixão vehemente infernou a existencia do poeta da Menina e Moça, não foi D. Beatriz que a inspirou; mas não achamos sufficientes os elementos até agora apurados para nos determinarmos pela opinião de Varnhagem ou pela opinião do snr. Theophilo Braga, quanto ao nome da dama que deve occupar o lugar em que a lenda collocou, no coração do poeta, a infanta D. Beatriz.
IV
Rei e Pastor
«O rei James V, que morreu de trinta e tres annos em 13 de dezembro de 1542, era um joven rei, tunante e maganão, que se disfarçava em trajos de mendigo, de adello, ou que taes, para andar correndo baixas aventuras pelas aldeias ou pelos bairros escusos das cidades.»
Garrett.
I
Ao pé do freixo umbroso e da sonora fonte,
Que dão sombra e frescura ás boninas do monte,
Glycera, a moça loira, Amyntas, o pastor,
Juravam-se um ao outro o seu eterno amor.
Sobre a relva assentada, a formosa Glycera
Tecia de jasmins e verdes folhas de hera
Grinaldas e festões, cantando uma canção
Em que menos cantava a voz que o coração.
Assim tambem se eleva o cantico suave
De uma ave que estremece á espera de outra ave
Nas alcôvas em flôr que tece o mez de abril.
Não tardou que chegasse, á volta do redil,
Amyntas, o pastor, já recolhido o gado.
—«Grinaldas! Para que?»
—«Para o nosso noivado»
Córando de pudor, Glycera respondeu,
E emquanto elle a fitava, ella os olhos desceu.
—«Disseste muito bem, minha amada Glycera,
Vamos ambos colhêr jasmins e folhas de hera.
Sim!... Tu não serás de outro? É minha a tua mão?
De mais ninguem será?»
—«Eu te juro que não.»
—«Agora sou feliz! Vou dar-te, porque és minha,
Aquella ovelha branca, ess'outra malhadinha
Que valem um milhão! Iguaes inda não vi!
Mas, porque tu és minha, eu dou-t'as para ti.
Olha, que lindas são! Valem um bom rebanho
Na côr, na timidez, no pello e no tamanho!
Só teu, de mais ninguem, é o fresco laranjal,
Que dá tão dôce sombra ao meu... ao teu casal.
Dou-te do meu redil os dois novilhos bravos,
E as colmêas que tenho, e todo o mel dos favos,
As arcas, o bragal, peculio do pastor,
E, acima d'isto tudo, o meu eterno amor.»
E, sorrindo enlevada, a formosa Glycera
Alternava jasmins com verdes folhas de hera.
II
Era o rei James V um joven rei feliz,
Que de lendas de amor encheu todo o paiz
Da sua bella Escocia, alcantilada e fria,
Onde o seu coração a neve derretia.
Soam trompas de caça, e em célere tropel
Passa o rei cavalgando o seu veloz corcel
Entre nuvens de pó; e seguem-no monteiros
E pagens de libré e mastins e rafeiros.
Do freixo á verde sombra, assentada no chão,
Glycera, de medrosa, ouvia o coração.
—«Bons dias, pegureira.»
—«Os mesmos vos desejo.»
Disse-lhe ella córando ou com medo ou com pejo.
—«Que fazes por aqui? Esperas teu pastor
N'este ermo pinheiral?!»
—«Não espero, senhor.»
—«Como te chamas tu?»
—«O meu nome é Glycera.»
—«Que linda e que gentil! Tu és da primavera
A mais formosa irmã!...»
—«Mercê que me fazeis.»
—«Se alguem te rouba aqui?»
—«Sou pobre, bem sabeis.
Ninguem rouba á pobreza. Ella de si é escassa.»
—«Excepto quando é o rei que n'estes sitios passa...»
—«Piedade!»
E o louco rei, sem resposta volver,
Aos monteiros bradou:—«Prendei-me essa mulher,
Conduza-m'a um de vós sentada na garupa
Do cavallo. A galope! Ávante, corceis! Upa!»
E tudo se perdeu n'um turbilhão de pó
Ao longo do caminho. O pinhal ficou só.
III
Em noites de luar, noites de primavera,
Ouvia-se dizer:—«Onde estás tu, Glycera?»
N'esse ermo pinheiral, e um longo choro após.
Finda a verde estação, calou-se a triste voz,
E nunca se ouviu mais sahir d'entre os pinheiros.
Um dia, por acaso, um rancho de vaqueiros
Passou alli, e viu estendido no chão
Amyntas, o pastor. Chamaram-no em vão,
Que elle não respondeu. Era gelado, frio.
Dizem que succumbiu ao vêr chegar o estio
Sem Glycera voltar. E tinha a luz do sol
Por cirio funeral, e folhas por lençol.
Mas o rei James V, em seu palacio bello,
Ao pé do lago azul, que espelhava o castello,
Estranhava a Glycera esse tão louco amor,
Que nos braços de um rei pranteava um pastor.
V
Mãi e Filhos
I
A Mãi
Domingo, 23 de dezembro de 1888, á hora em que um bello sol de inverno doirava pallidamente o céo de Lisboa, convidando a despreoccupada população a fazer o trottoir da Avenida, achava-me eu na igreja do extincto convento de Agostinhas Descalças, no sitio do Grillo, em frente do caixão onde têm repousado esquecidos os restos mortaes de D. Luiza de Gusmão, rainha de Portugal.
Não vão suppôr que me estou dando ares de poeta funebre da realeza ou de philosopho merencorio dado a scismar no problema da morte: to be or not to be. Nada d'isso. Sou apenas um dilettante de estudos historicos; tenho por vezes o mau gosto de preferir os dramas do passado aos do presente, e as epopêas da historia ás partituras de S. Carlos.
Sabendo que se tratava de remover para S. Vicente de Fóra os restos mortaes da rainha D. Luiza de Gusmão, e que o feretro ia ser aberto para se verificar se havia sido violado como constava ás justiças da Boa Hora, não quiz perder a occasião de examinar por meus proprios olhos os ultimos despojos d'essa notavel dama do seculo XVII, tão energica junto de seu marido, tão resoluta na fragilidade do seu sexo, mas tão sincera na firmeza da sua justa ambição.
Fui.
Antes que o acto judicial principiasse, aproveitei o tempo visitando o convento, a que D. Luiza de Gusmão se recolheu a 17 de março de 1663, e onde tres annos depois fallecêra.
É vasto o convento, sem que todavia nada tenha de monumental. As Agostinhas Descalças não ostentavam pompas monasticas. Ha no interior do convento todo o aspecto de uma clausura severa: longos corredores sombrios, cellas estreitas e mal allumiadas, tendo sobre a porta e o fundo da parede alguma legenda biblica, alguma inscripção religiosa, por exemplo—Da cella ao céo—Não póde o servo servir a dois senhores.
A abundancia de altares—pois vimos n'um a designação de 193—denuncía que o culto era alli fervoroso, e que não se podia dar um passo no interior do convento sem ter diante dos olhos a imagem de um santo, de uma santa ou do Redemptor.
Mas os nichos dos altares estão vazios, as imagens e as reliquias desappareceram; convento e igreja foram brutalmente despojados; diz-se que até o sino, apesar do campanario ser alto, desapparecêra!
A rainha D. Luiza de Gusmão, afastada duramente da côrte pelos conselheiros de seu filho D. Affonso VI, acabou por decidir-se a entrar n'aquelle convento, mas nada ha alli que denuncie grandeza de aposentos reaes. Pareceu-nos que esses aposentos seriam uns que ficam voltados ao Tejo—por serem um pouco melhores do que os outros—constando de uma sala com chaminé e uma pequena cella, contigua á sala, da qual recebe luz por uma janella interior.
D. Luiza de Gusmão vivêra pois modestamente entre as Agostinhas Descalças.
Poucos conventos, porém, teriam uma claustra mais vasta do que o do Grillo; todo o pavimento terreo, que é enorme, serve hoje de deposito de artilheria, está cheio de peças de campanha.
Algumas freiras, como as inscripçoes tumulares indicam, jazem sob as carretas.
Havia no Grillo só um côro, pequeno e modesto.
Mas, em compensação, a igreja, comquanto não seja grande, é boa, coberta de azulejos de valor e de quadros, hoje completamente estragados pela humidade. A teia do cruzeiro é magnifica, de ébano e mosaico florentino, com as armas de Portugal e da casa de Medina-Sidonia.
Era dentro da teia que estava o caixão da rainha, coberto com um rico panno, deteriorado pelo tempo, e encimado pela corôa real, sobre almofada de estofo igual ao do panno.
Levantada esta cobertura com as formalidades judiciaes que o acto exigia, reconheceu-se que o caixão, de pau Brazil, excellentemente conservado, tinha sido violado nas fechaduras lateraes, pelo menos em duas que estavam encravadas com pregos de arame.
Aberta a tampa do caixão, forrada interiormente de sêda branca lavrada, apenas emergia de uma espessa camada de cal a caveira, a cuja fronte havia adherido a renda preta do véo, dando a impressão, á primeira vista, de que uns restos de cabello a povoavam ainda. A illusão era completa.
A cal estava remexida junto do hombro direito da rainha, e na altura da mão esquerda.
Verificou-se que o craneo se achava desarticulado da columna vertebral.
A cal afogava completamente as vestes do cadaver, e só por uma estreita orla, que ficára a descoberto na extremidade inferior do caixão, se pôde conhecer que o vestido era de seda côr de castanha.
Da energica e virtuosa rainha de outro tempo restava apenas aquillo!
A renda do véo dava a illusão, como já disse, de que a testa da rainha era de uma estreiteza simiana, quando em verdade D. Luiza de Gusmão, como se sabe pelo retrato existente na Bibliotheca Nacional de Lisboa, reproduzido por Benevides nas Rainhas de Portugal, fôra uma bonita mulher, de feições muito regulares: testa espaçosa, olhos grandes e pretos, bocca pequena, rosto redondo.
O que nós hoje podêmos apenas estranhar n'esse retrato são as exaggeradas dimensões dos bandeaux, que eram moda n'esse tempo, sendo costume adornal-os com murabuths e estrellas de pedras preciosas.
D. Luiza de Gusmão não morrêra de idade que a velhice a tivesse podido deformar: tinha apenas 53 annos. E a proposito citarei um documento, por ser pouco conhecido entre nós: é a certidão de idade, que encontrei, segundo os meus apontamentos, na Huelva Illustrada, por D. Juan Agustin de Mora (Sevilha, 1762):