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Historias de Reis e Principes cover

Historias de Reis e Principes

Chapter 29: VIII
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About This Book

Reúne vinhetas históricas centradas em soberanos e príncipes, alternando anedotas de corte, conspirações, casamentos e desventuras pessoais. Traça relatos portugueses e estrangeiros — intrigas palacianas, rupturas religiosas motivadas por uniões matrimoniais, exílios, amores e mortes — apresentados em tom narrativo e anedótico. Cada capítulo focaliza um episódio ou figura concreta, privilegiando comportamentos, motivações e consequências individuais mais do que análises políticas profundas, e transporta o leitor por variados cenários, dos salões europeus a cortes exóticas e episódios de íntima gravidade.

D'aldeia o cemiterio era modesto,

Sem pompa e sem lavores:

Ao centro, a cruz a dominar c'os braços

O recinto dos mortos e os espaços...

De resto... algumas flôres!

Isto, ou então os tumulos aereos da Australia, que o infeliz poeta portuense Pedro de Lima descreveu por esse tempo:

São bellos os tumulos

D'Australia, suspensos

Nos plainos immensos

Á beira do mar.

Alli o cadaver

Pacifico dorme

E a lua—olho enorme—

O vem contemplar.

Para contrastar com a pagina melancolica em que discretêa sobre a morte, dá-nos Maximiliano a descripção de uma burricada em Cacilhas, a pretexto de um lunch, em que certamente foram convivas os officiaes da fragata Novara, porque o archiduque diz-nos que nem elle nem os seus companheiros de equitação sabiam uma palavra de portuguez.

Maximiliano não occulta os tormentos por que passaram as azemolas cacilheiras apertadas sob os joelhos dos cavalleiros austriacos. Era, diz elle, um steeple-chase furibundo, de collegiaes em gazeio. Volteavamos a galope—a galope! que sacrificio para um burro de Cacilhas!—punhamo-nos em pé sobre a sella (queria dizer albarda) fazendo proezas de equilibrio mais ou menos gracioso.

Os pobres burros é que não acharam decerto graça nenhuma á patuscada furiosa dos austriacos. Mas vingaram-se, olá! porque um burro vinga-se sempre. Cada burro de Cacilhas tem na vingança, mal comparado, o coração de D. Pedro I. Pregaram com os austriacos no chão, enrodilharam-n'os na poeira do caminho, fizeram d'elles, incluindo o archiduque, gato-sapato. Oh! triumpho do patriotismo asinino sobre a tyrannia estrangeira! Desconfio que os austriacos se deram finalmente por vencidos; pois que, desistindo da perigosa equitação, se agruparam n'um pinheiral para almoçar,—sur la verdure.

Quem imaginam os senhores que pretendeu estorvar-lhes o almoço? Os burros? Parece á primeira vista, attendendo a que almoçavam sobre a verdura, e os burros deviam ter fome. Não, senhores: foi uma velha, uma megera, diz Maximiliano, que os descompoz e ameaçou. Faço idéa das bonitas coisas que a velha lhes disse, e que elles decerto entenderam se a philippica da heroina foi acompanhada dos respectivos gestos... philippicos.

Ora, naturalmente, a velha era a burriqueira, que vinha desaffrontar os sendeiros escalavrados. N'aquelle tempo não estava ainda organisada, com uma succursal em Cacilhas, a sociedade protectora dos animaes. A velha demosthenava pro domo sua: domo é synonymo de burro.

O que aconteceu? Os austriacos ouviram tudo a pé quedo, com a impassibilidade de sphynges de Memphis, e então a velha, reconhecendo que os estrangeiros não tinham... sangue nas veias, entendeu que seria cobardia, deshonrosa para a Lusitania, correl-os a pau ou a pá, como fez a sua compatriota Brites d'Almeida em Aljubarrota.

Mas quem sabe se a derrota soffrida em Cacilhas não contribuiu para azedar a impressão com que Maximiliano sahiu de Lisboa!

As suas ultimas palavras são accentuadamente pessimistas. Acha que Lisboa não tem caracter proprio. As edificaçoes apresentam aspecto allemão; as toilettes são parisienses; a educação nacional é ingleza. Lisboa, emfim, é uma cidade de Marrocos, morta e triste. Culpa de tudo isto: os nevoeiros frequentes, a frialdade do ar, e os capotes das mulheres! Uma verdadeira descoberta do infeliz archiduque.

Achou-nos colonialmente decadentes, e n'isso não exaggerou. Mas, de descoberta em descoberta, pareceu-lhe que o abatimento nacional provinha da gordura hydropica dos nacionaes, que degenerava em lympha, e que nos arrastava á doença e á morte.

«Quando a decomposição começa, peróra Maximiliano, a vida evapora-se e, como diz o proverbio, «os ratos abandonam a casa que vai desabar.»

É uma ratice, que a historia desmente, porque nós ainda cá estamos, cada vez mais... gordos,—excepto eu.

Maximiliano tambem passou na ilha da Madeira, que descreve, mas eu cerro por aqui as suas impressões de viagem, para que o leitor não tenha motivo de se malquistar commigo pela monotonia do assumpto.

VIII

Duas imperatrizes

I

A imperatriz Eugenia

A viuva de Napoleão III é a filha mais nova do conde de Montijo, da familia hespanhola dos Guzman, originarios de Granada, e da condessa de Montijo, née Kirk-Patrick, de origem irlandeza.

Sua irmã, a filha primogenita do conde de Montijo, casou aos dezoito annos com o duque d'Alba, descendente dos Stuarts pelo marechal de Berwich. Foi uma das estrellas da côrte de Izabel II. Deixou tres filhos: o actual duque d'Alba, que casou com a filha do duque de Fernan-Nuñez: a duqueza de Tamamés e a duqueza de Medina Cœli, que morreu alguns mezes depois de casada.

Em 1860, a imperatriz Eugenia, estando na Algeria com o imperador, soubera, depois de sahir de um baile, que a duqueza d'Alba tinha morrido. As duas irmãs estremeciam-se, a imperatriz sentira profundamente a morte da duqueza. Pela primeira vez experimentára a imperatriz uma dôr intima; fôra esse, em meio da vida faustuosa das Tulherias, o primeiro golpe da má fortuna.

Até ahi, a existencia de Eugenia de Montijo tinha sido um triumpho ininterrompido de formosura e felicidade, a marcha gloriosa de uma mulher incomparavelmente bella através da vida.

Fôra em 1840, depois dos acontecimentos de Strasburgo, que ella vira pela primeira vez o principe Luiz Napoleão, que entrava preso em Paris. A condessa de Montijo estava então com suas filhas na capital de França, e de uma das janellas da Prefeitura de policia viram, a convite de madame Delessert, mulher do Prefeito, chegar o principe.

A toilette de Luiz Napoleão era n'esse momento simplesmente desastrosa. O official da escolta, vendo-o desprevenido de roupa branca, offerecera-lhe uma camisa que parecia ser de onze varas, não só porque a situação era critica, mas porque, grande de mais para o principe, todo elle era camisa.

Ninguem poderia dizer, porém, n'esse momento, o que annos depois havia de acontecer.

Já Luiz Napoleão era presidente da Republica quando, por occasião de um baile no Elyseu, se encontrou com a condessa de Montijo, e com sua filha Eugenia, condessa de Teba. Foi n'essa noite que principiou o romance de amor. Luiz Napoleão ficou encantado com a bella castelhana.

Apesar de se estar em plena republica, o presidente fizera-lhe a côrte na côrte, porque o presidente rodeava-se de esplendores verdadeiramente realengos. Preparava elle então o golpe d'estado, e dissera a Eugenia de Montijo:

—Estamos em vesperas de grandes acontecimentos, e não quero sujeitar-vos ao perigo das eventualidades. Voltai para Hespanha e, se eu triumphar, convidar-vos-hei a vir occupar o throno da França.

Mademoiselle de Montijo respondera:

—Aconteça o que acontecer, serei vossa mulher. Se as vossas esperanças se mallograrem, viveremos no meu paiz, talvez mais felizes do que no throno da França.

Como se vê, a condessa de Teba respondera precisamente á pergunta... em verdadeiro genitivo amoroso. Voltando a Hespanha, mademoiselle de Montijo levava comsigo um talisman, que era o penhor da sua felicidade futura: um alfinete que representava uma folha de trevo em esmeraldas, contornada de brilhantes.

Tinha sido o premio com que a fortuna a favorecera n'uma loteria organisada pelo presidente da republica em Compiégne. Conservou-o sempre, e só se desapossou d'esse alfinete fatidico depois da morte do principe imperial. Então, vendo desmoronado todo o castello das suas esperanças de mãi, disse um dia, em Chislehurst, á duqueza de Mouchy:

—Considerei toda a minha vida este alfinete como um talisman encantado. Era a minha mais querida reliquia. Não quero que fique abandonado: dou-vol-o como um penhor de felicidade e de terna amizade.

A duqueza de Mouchy nunca mais deixou de trazer o alfinete da imperatriz.

Ascendendo ao throno imperial da França pelo processo que toda a gente conhece, Luiz Napoleão, tres annos depois, em Janeiro de 1853, annunciava aos poderes do estado a sua resolução de casar por amor.

O imperador proclamou no sentido de mostrar a inconveniencia dos casamentos politicos, que serviam menos a estreitar as boas relações internacionaes do que os processos de uma politica leal, que elle, aliás, diga-se a verdade, nem sempre seguiu. A questão do Mexico é uma prova do que affirmamos. Occupar-nos-hemos mais tarde d'este desgraçado acontecimento, quando tivermos que fallar da imperatriz Carlota, a segunda imperatriz cuja biographia bosquejaremos.

A proclamação do novo imperador terminava por estas palavras:

«Venho, pois, meus senhores, dizer á França: Prefiro uma mulher que eu amo e que respeito a uma mulher desconhecida, cuja alliança apenas traria vantagens contrariadas por sacrificios. Sem desdenhar de ninguem, cedo á minha inclinação, mas só depois de ter consultado a minha razão e as minhas convicções. Finalmente, antepondo a independencia, as qualidades de coração, a honra de familia aos preconceitos dynasticos e aos calculos da ambição, não serei menos forte, porque serei mais livre.

«Brevemente, dirigindo-me a Notre-Dame, apresentarei a imperatriz ao povo e ao exercito; a confiança que elles depositam em mim asseguram a sua sympathia por aquella que eu escolhi, e vós, meus senhores, desde que a conheçais, ficareis convencidos de que ainda d'esta vez fui inspirado pela Providencia.»

O casamento realisou-se na igreja de Notre Dame a 30 de janeiro d'esse anno.

Uma tradição hespanhola diz que as perolas, com que no dia do casamento se adornam as noivas, virão a converter-se em outras tantas lagrimas.

Eugenia de Montijo não deu importancia a esta tradição, e completou a sua toilette de noiva com um collar de perolas.

A tradição não mentiu d'esta vez.

A imperatriz vendeu o collar, com as suas outras joias, depois da guerra franco-prussiana.

Os imperadores foram viver para o pequeno castello de Villeneuve-l'Etang, que ainda está de pé no parque de Saint-Cloud.

Vinte e quatro horas depois do casamento, os noivos passeavam n'um phaeton, que o imperador guiava, através dos bosques estrellados de neve, que um bello sol de inverno doirava.

Que importava que a neve espelhasse a desolação do inverno, se os corações dos noivos, ardentes de amor e florescentes de esperanças, cantavam o epithalamio das suas nupcias, n'essa melopea intima que é a melodia do silencio!

Eu estou soccorrendo-me de um livro já este anno publicado em França, Souvenirs intimes de la cour des Tuileries. Authora madame Carette, née Bouvet. Madame Carette é neta do almirante Bouvet, e foi distinguida pela imperatriz com muitas attenções por occasião da viagem dos imperadores á Bretanha, em 1858. Mais tarde, madame Carette entrou nas Tulherias como segunda leitora da imperatriz, porque a primeira era a condessa de Wagner de Pons.

No fundo d'este livro revela-se uma pequena vaidade de mulher: a imperatriz fizera reparo na então mademoiselle de Bouvet, quando a viu na Bretanha, por a ter achado formosa.

Um traço final do livro trae um pouco a intenção da authora. Conta madame Carette que em 1865, por occasião da cholera morbus, indo a imperatriz visitar com a sua leitora os hospitaes, lhe dissera, no de Santo Antonio, ao entrar n'uma enfermaria de variolosos:

—Não quero que entreis. Poderieis ficar feia, e ser-me-ia difficil casar-vos.

Revela-se aqui a mulher, Chassez le naturel, il revient au galop.

As recordações de madame Carette teem, é certo, o peccado original da parcialidade fanatica, da dedicação amavel, mas, em compensação, levantam o véo da vida intima das Tulherias, e põem em evidencia alguns factos interessantes do ménage imperial.

Madame Carette não é precisamente uma estylista. Nas Tulherias o seu cargo de leitora era apenas um pretexto. Não teve por isso occasião de cultivar estheticamente o espirito com os primores litterarios de que a França é tão opulenta. Mas escreve com a facilidade e elegancia que são proprias de toda a mulher franceza bem educada.

Sob o ponto de vista da contextura historica, o livro é ás vezes descosido, e outras vezes futil. Mas, descontado o que elle tem de parcial, de frivolo e de truncado, offerece ainda assim um pequeno filão, que se póde explorar com interesse.

Madame Carette, remontando-se a 1858, dá o seguinte retrato da imperatriz:

«Era de estatura mais do que média; podia dizer-se alta. As feições regulares, e a linha extremamente delicada do perfil tinha a perfeição de uma medalha antiga com alguma coisa de intraduzivel, um peregrino encanto pessoal, que fazia com que se não podesse comparar a outra mulher; a fronte, elevada, e rectilinea, escanteava-se apertada, as sobrancelhas, longas e delicadas, eram um pouco obliquas; as palpebras, muitas vezes descidas, seguiam a linha dos supercilios velando os olhos pouco distanciados, o que era um caracteristico da physionomia da imperatriz: dois bellos olhos de um azul vivo e profundo, opulentos de sombra, de alma, de energia e de doçura; bastariam os olhos para dar relevo a uma physionomia. O nariz, descendo correctamente desde a raiz até ás fossas, finamente recortadas, denunciava uma raça aristocratica; a bocca, pequenissima, tinha contornos de uma graça exuberante, e um sorriso irresistivel animava essa bocca encantadora; os dentes eram brilhantes, o queixo descrevia uma curva delicada, que se dilatava contornando a face, nitidamente colorida, de uma brancura transparente. A pelle, muito fina, deixava vêr o tecido das veias, e fazia pensar no sangue azul da velha nobreza castelhana. O pescoço alto, esculptural. Os hombros, o peito e os braços lembravam uma estatua. A cintura estreita, mas redonda, os dedos afilados, os pés tão pequenos como os de uma creança de doze annos. O ar gracioso e nobre, cheio de distincção nativa. O andar facil, desembaraçado. Finalmente, uma completa harmonia entre a pessoa physica e a pessoa moral: n'isso estava, creio eu, o segredo do seu irresistivel encanto.»

Durante os primeiros tempos de casada, a imperatriz tivera dois móbitos. A razão de estado fazia com que o imperador desejasse ávidamente um filho.

Quando pela terceira vez a imperatriz se achou gravida, o drama da maternidade, chamemos-lhe assim, ameaçou, durante tres dias e tres noites, um desenlace fatal. Para salvar o filho seria preciso arriscar a vida da mãi. Consultado pelos medicos, o imperador respondeu n'esta dura alternativa:

—Não pensem senão na imperatriz.

Como o momento fôsse decisivo, a obstetricia teve que ser precipitada, o que prejudicou grandemente o organismo da imperatriz. Soube-se isto fóra das Tulherias, e d'aqui nasceu certamente o boato calumnioso de que se não pudera salvar o filho para garantir a existencia da mãi. Disse-se por essa occasião que o principe imperial era uma creança qualquer que o imperador adoptára para acautelar a estabilidade da dynastia. Mas tudo quanto se passou depois, os carinhos da imperatriz para com o herdeiro do throno, a sua dolorosa heroecidade na viagem á Zululandia, quando o joven principe foi morto, provam ainda mais, e melhor; do que as affirmações de madame Carette.

O que é certo é que, depois de tão laborioso parto, a saude da imperatriz ficára muito affectada, a ponto de que sua magestade, segundo o testemunho da sua leitora, ne pouvait se soutenir que grâce à un appareil d'acier, dissimulé sous ses vêtements.

A fim de que a imperatriz podesse fazer a sua toilette o mais commodamente possivel, os vestidos desciam do andar superior por meio de uma especie de montecharge. Este descensor mecanico, e um tubo acustico que communicava com o guarda-roupa, poupavam muito tempo, e incommodo para a imperatriz.

Pois tambem o descensor serviu de cavallo de batalha para a maledicencia dos pamphletarios. Toda a gente sabe como o imperio de Napoleão III foi politica e pessoalmente atacado. Vive ainda a senhora que, alvo de crueis diffamações, se sentava a esse tempo no throno da França. Não está nos meus habitos faltar ao respeito a ninguem, muito menos a uma dama que a desgraça feriu. Mas nem mesma madame Carette se exime a recordar as calumnias que por muitas vezes foram morder o manto da imperatriz.

É visivel a intenção com que madame Carette, referindo-se á princeza de Metternich, embaixatriz de Austria, essa captivante jolie laide que tanta impressão causou em todo o Paris, escreve: «A imperatriz tinha uma grande sympathia por esta mulher seductora, attraía-a a vivacidade do seu espirito e conversava familiarmente com ella quando as circumstancias officiaes e mundanas as reuniam; mas não havia intimidade entre ambas. Com excepção de sua joven prima a princeza Anna Murat, depois duqueza de Mouchy, que a imperatriz estimava muito, nenhuma outra mulher, além das damas de serviço, a menos que se não desse uma circumstancia rarissima, era recebida nas Tulherias sem audiencia.»

Foi o principe de Metternich que no dia 4 de setembro offereceu o braço á imperatriz, que, como se sabe, teve que sahir precipitadamente das Tulherias.

Renunciando depois d'isso á vida diplomatica, o principe reside algum tempo em Vienna, com a princeza, ou nas suas terras da Bohemia. Hoje, a encantadora princeza de Metternich, que tanto ruido fizera em Paris, pela graça do seu espirito e pelo esplendor das suas toilettes, que mandava buscar a Vienna ou que encommendava a Worth, o celebre couturier do imperio, tem a cabeça corôada de cabellos brancos, é avó.

Madame Carette, depois de rebater delicadamente a calumnia que o nome da princeza de Metternich lhe suscitára, lembra que a imperatriz gostava de vêr-se rodeada por uma côrte de mulheres bonitas. Ora madame Carette fazia parte da côrte. Ah! nada se deve perdoar tão facilmente a uma mulher bonita como o lembrar-se de que o foi, mesmo quando não o é já!

II

A côrte das Tulherias, descripta por madame Carette, revela a vida um pouco frivola, e até um pouco mexeriqueira, de todas as côrtes, mas tinha a vantagem de ser, quanto á belleza das damas que rodeiavam a imperatriz, constituida em harmonia com a celebre phrase de Francisco I: uma côrte sem mulheres é um anno sem primavera, e uma primavera sem rosas.

A entourage feminina era numerosa, e gentil. Os lyrios da belleza floresciam nas Tulherias como n'um jardim que a primavera esmalta. Madame Carette esboça o perfil de todas as grandes damas que rodeiavam a imperatriz Eugenia. Faz passar diante dos nossos olhos a viscondessa de Aguado, marqueza de las Marismas, bella e espirituosa, mãi da duqueza de Montmoreney, uma mulher elegante que morreu aos trinta annos. A insinuante condessa de Montebello, que tinha sido a amiga intima da duqueza de Alba, e que fôra embaixatriz em Roma, onde brilhára como estrella no corpo diplomatico. Madame de Malaret, de uma rara elegancia de linha. A marqueza de Latour-Maubourg, filha do duque de Trévise, sempre muito ciumenta do marido. Um dia perguntaram-lhe o que ella faria se soubesse que o marido a enganava. Morreria de espanto, respondeu a marqueza. A baroneza de Pierres, que era a mulher da França que montava melhor a cavallo. A condessa de la Bédoyère, uma virtuose distinctissima, que tinha a belleza das mulheres do tempo de Luiz XIV. Viuva em 1869, casou com o principe de Moskowa, porque a sua belleza chegava á vontade para fascinar dois maridos. A condessa de la Bédoyère tinha uma irmã, a condessa de la Poëze, e ninguem como estas duas irmãs possuia em grau mais eminente o que póde chamar-se l'esprit des cours. A condessa de Rayneval, formosissima, não casou nunca: era chanoinesse n'uma ordem da Baviera. Foi ella que serviu de modelo para a Musa, que no celebre quadro d'Ingres corôa a cabeça de Cherubini. A baroneza de Viry-Cohendier, em cujo rosto brilhavam dois olhos, que pareciam carbunculos. A princeza Anna Murat, d'uma belleza loira, fresca, primaveril. A duqueza de Malakoff, o mais puro typo da belleza andaluza. A duqueza de Morny, uma flôr de neve da Russia, colhida pelo duque que alli fôra embaixador, e que representára olympicamente a França na coroação do czar Alexandre II. A duqueza de Persigny, loira como Daphne. A esta pleiade de mulheres encantadoras viera reunir-se, nos ultimos dez annos do imperio, a famosa princeza de Metternich. E occupando o centro d'este systema planetario de bellezas femininas, um sol: a imperatriz.

Havia nas Tulherias um salão azul que a imperatriz quizera dedicar exclusivamente á belleza, povoando-o com os retratos das mais formosas damas da sua côrte. Nas telas que revestiam as paredes, cada dama personificava uma das grandes nações da Europa. A princeza Anna Murat representava a Inglaterra, a duqueza de Malakoff a Hespanha, a duqueza de Morny a Russia, a condessa Walewska a Italia, e no meio de toda esta constellação desenhava-se o perfil da imperatriz sobre um medalhão sustentado por figuras allegoricas.

O incendio das Tulherias, depois da quéda do imperio, carbonisára essas notaveis télas, de que ficaram apenas, aqui, alli, fragmentos indemnes, vestigios d'esses retratos que resumiam toda a graça feminina da França imperial.

De resto a vida das Tulherias agitava-se nas mil intrigasinhas e rivalidades de que as mulheres, ainda que sejam encantadoras, não sabem emancipar-se. Eram frequentes as tempestades n'um copo d'agua. Por exemplo. Um anno, no dia da festa da imperatriz, a 15 de novembro, resolveu-se fazer quadros vivos, reproduzir o Déjeuner champêtre de Watteau. Foi a princeza de Metternich, que tinha uma rara habilidade para este genero de divertimentos, quem ficou encarregada da distribuição dos personagens e dos costumes.

A duqueza de Persigny devia entrar no quadro, mas, não tendo gostado do costume que a princeza lhe distribuíra, declarou que se vestiria a capricho, e que appareceria com os cabellos soltos,—uns bellos cabellos loiros, opulentos como uma floresta.

—Quero, dizia a duqueza, que me vejam o cabello.

—É impossivel! replicava a princeza de Metternich. Isso desarranja o quadro!

A condessa insistia com a terrivel logica que até nos caprichos é um dos poderosos apanagios do seu sexo:

—Nós fazemos isto para nos divertirmos, e a mim diverte-me apparecer com o cabello solto.

—Nada, não! Ou a condessa ha de submetter-se como nós todas, ou não entra no quadro.

Mas a condessa continuou a reagir.

A princeza de Metternich, exasperada, correu ás Tulherias, foi levar ao conhecimento da imperatriz este grave negocio de estado.

A imperatriz sorriu, e aconselhou:

—Deixe lá, princeza. É uma novidade que talvez produza effeito.

—É uma festa estragada!

—Mas, princeza, o que quer fazer? A condessa, de qualquer modo que appareça, ha de ser sempre bonita. Seja indulgente com ella. De mais a mais sabe que a mãi de madame de Persigny está doida?

—Ah! ripostou a princeza. A mãi de madame de Persigny é doida? Pois meu pai tambem o é. Não cederei.

E assim era, realmente. O conde Chandor, pai da princeza de Metternich, que era o melhor sportman da Europa, avariou o cerebro á força de trambolhões com que se vingavam do seu calção audacioso os cavallos insubmissos.

Outro exemplo das mil coisissimas nenhumas que preoccupavam ás vezes a côrte das Tulherias.

A condessa de Wagner, que tinha setenta annos, mas que havia sido uma bonita mulher, appareceu uma vez nas Tulherias com uma cabelleira loira similhante á que a Schneider exhibia na Bella Helena.

Madame Carette desatou a rir quando a viu, e a imperatriz, que n'esse momento sahia do seu gabinete, quiz saber o motivo de tamanha hilaridade. Madame Carette disse-lh'o, e a imperatriz quiz vêr, através de uma vidraça, a cabeça de Medusa da condessa de Wagner. Viu, e tambem desatou a rir. Mas, passado o primeiro momento, ordenou a madame Carette:

—Diga da minha parte á condessa que lhe peço para tirar immediatamente a cabelleira. Que ridiculo para a minha côrte, se se soubesse!

Nem nas altas espheras sociaes o espirito feminino perde a fragilidade pueril que lhe é propria. A imperatriz, que dirigiu muitas combinações politicas, e que para esse effeito era sempre a mulher do imperador, deixava-se enleiar muitas vezes, como qualquer simples mortal, nas espiras d'essas duas serpentes graciosas que se enroscavam nos seus nervos de mulher: o sangue de hespanhola e a frivolidade parisiense.

Sempre que o ciume lhe cravava no coração a garrasinha adunca, apparecia na imperatriz a mulher, e só a mulher.

O imperador que, como sabemos, tivera pela imperatriz uma paixão de Romeu, principiára, dentro da primeira década da vida conjugal, a morder a maçã do paraiso terrestre.

Ora a condessa de Castiglione, filha das primeiras nupcias do marquez de Oldoini, ha pouco fallecido, fizera sensação quando pela primeira vez appareceu n'um baile costumé das Tulherias. A condessa ainda vive hoje. Deve estar velha, como todas as bellas damas d'aquelle tempo, mas a sua belleza era, em 1860, a de uma estatua grega, esculptural, posto que dura.

A imperatriz ardia em ciume por causa da condessa de Castiglione, que conseguiu distanciar da côrte. N'um dos ultimos bailes das Tulherias, em que a imperatriz appareceu em costume de Marie Antoinette,—a imperatriz teve sempre uma viva sympathia pela memoria de Marie Antoinette,—a condessa de Castiglione, que não tinha sido convidada, foi reconhecida n'uma esplendida toilette negra, de viuva, representando Marie de Medicis. A imperatriz, sabendo que era a condessa, mandou-lhe ordem por um camarista para que sahisse immediatamente.

Em 1860, o principe Jeronymo déra uma festa no Palais-Royal em honra da imperatriz, que deslumbrou todos os olhos quando entrou na sala com um vestido de tulle branco e uma grinalda de violetas de Parma, porque a imperatriz fez da violeta a flôr imperial.

Á uma hora da noite sahiam o imperador e a imperatriz, encontrando-se na escada com a condessa de Castiglione.

—Chega muito tarde, condessa! disse-lhe galantemente o imperador.

—Sois vós, sire, que sahis muito cedo! respondeu a condessa.

Póde calcular-se a scena de ciume que se passára dentro do landeau imperial, caminho das Tulherias.

Li ha dois dias um livro de Philibert Audebrand, Un café de journalistes sous Napoleão iii, em que toda a historia dos amores do imperador com a condessa de Castiglione é contada sem refolhos, até com visivel acrimonia, que é a nota predominante de todo o livro.

Essas relações amorosas, segundo Audebrand, chegaram até ao ponto de a imperatriz partir precipitadamente para a Escocia com a duqueza de Hamilton, tendo voltado a Paris só depois da promessa formal do imperador de que romperia com a sua amante.

De passagem, um traço da vida conjugal da condessa de Castiglione. O marido não pudera nunca reconcilial-a com a sogra, a marqueza de Castiglione. Um dia em que ambos sahiram de trem, o conde dera secretamente ordem ao cocheiro para conduzil-os a casa da marqueza. A condessa percebeu a intenção reservada do marido e, descalçando furtivamente os sapatos, no momento de passarem uma das pontes do Sena, atirou-os ao charco.

E, voltando-se para o marido:

—Quero crêr que me não forçarás agora a fazer visitas descalça!

Mas, sempre que os nervos da mulher estavam tranquillos, a imperatriz reapparecia com todos os seus instinctos de interesse dynastico, porque a imperatriz adorava o filho.

Era ella que recolhia e colleccionava cuidadosamente, todos os dias, os papeis politicos do imperador.

—Eu sou, dizia a imperatriz referindo-se á correspondencia das Tulherias, como um rato que apanha as migalhas do imperador.

Toda a correspondencia pôde ser salva, e a imperatriz tem-n'a conservado religiosamente.

Deve ser interessantissima, mas, nas mãos da imperatriz, é uma arma partida. Não é preciso que a doblez dos caracteres se affirme por documentos: essa prova é inutil. Todos sabemos como em todos os tempos e lugares o caracter humano varía com a altura do sol. Mas no occaso da sua grandeza, a imperatriz ainda conseguia encontrar algumas dedicações inabalaveis. Citarei desde já dois nomes: o duque de Bassano, e mr. Rouher.

A imperatriz teve, na politica imperial, uma acção energica. O general Trochu attribue-lhe a desgraçada operação franco-hespanhola do Mexico, que desacreditou o imperio, e a desastrosa guerra de 1870, diante da qual Napoleão III recuava instinctivamente.

Mas, sob o ponto de vista politico, Trochu, apesar de ter procurado defender-se no tribunal do Sena, e n'um grosso volume, que tenho presente, de todas as accusações que o Figaro fizera ao governador de Paris, Trochu, repito, é um pouco suspeito.

A imperatriz viu sempre n'elle um orleanista. Não sei se tinha razão. Mas a impressão que me ficou de todo o livro de Trochu, um enorme volume de mais de 500 paginas, é que a imperatriz foi muito abandonada, na hora do perigo, pelos elementos officiaes que tinham feito a sua carreira á sombra das Tulherias. Só o almirante Jurien se offereceu para acompanhal-a; só madame Mebreton Bourbaki a acompanhou. O maior auxilio recebeu-o de dois estrangeiros: o embaixador de Austria, principe de Metternich, e o embaixador de Italia.

Não admira que a imperatriz, arrastada pelo seu caracter energico de hespanhola, se envolvesse nos negocios politicos. Ha uma phrase sua, que a define. Os prussianos avançavam sobre Paris, o general Trochu parecia desalentado, mas a imperatriz dissera-lhe:

Eh bien, si les prussiens arrivent, j'irai moi-même sur les remparts, et là je montrerai comment une femme sait braver le danger, quand il s'agit du salut du pays.

Mas as horas do imperio napoleonico estavam contadas.

A Providencia ia ajustar as suas contas, em nome de Maximiliano, com Napoleão III e com o marechal Bazaine, e a imperatriz Eugenia, sobrevivendo a estes dois actores responsaveis da tragedia do Mexico, principiava a vêr cahir do ceu as primeiras sombras da sua longa noite de agonia.

III

Os aposentos particulares da imperatriz Eugenia, no palacio das Tulherias, compunham-se de uma série de dez salas, que davam sobre o jardim.

Entrava-se pelo salão dos alabardeiros, a guarda nobre da imperatriz, commandados por mr. Bignet, a quem as damas do palacio chamavam jovialmente la trezième dame du palais.

Era o chefe dos alabardeiros que inscrevia os nomes das pessoas que pretendiam ser recebidas pela imperatriz e, se as damas de serviço faltavam, elle proprio dava conta a sua magestade imperial do numero e qualidade das pessoas que solicitavam audiencia.

Bignet era um homem discreto, e muito dedicado á imperatriz; guardava sempre rigoroso silencio sobre as resoluções que a imperatriz lhe communicava, mas as damas da côrte tiravam pelos domingos os dias santos, e penetravam ás vezes os segredos de Bignet.

Por exemplo. A imperatriz não dispensava nunca do seu serviço de meza alguns objectos de estimação, entre os quaes havia uma pequena caixa de chá, de prata dourada, que tinha pertencido a Napoleão I. Quando este elegante objecto não apparecia alguma vez, as damas subentendiam que a imperatriz projectava uma viagem, e que mr. Bignet já tinha preparado as bagagens. Mas a caixa de chá reapparecia, e as damas ficavam sabendo que o projecto de viagem havia sido posto de parte. Bignet acompanhou a imperatriz ao exilio; e morreu em Inglaterra, inconsolavel pela queda do imperio.

Ao salão dos alabardeiros seguia-se a sala das damas, pintada a fresco sobre um fundo verde. O tecto representava uma enorme corbeille de flôres. A mobilia, estylo Luiz XVI, era de madeira dourada com estofos Gobelins. N'esta sala, como o seu nome indicava, estacionavam lendo, conversando, bordando, as damas de serviço.

Passava-se d'este a outro salão, côr de rosa, profusamente ornamentado de flôres: o tecto, representando Flora em triumpho, tinha sido pintado por Chaplin.

O salão rose communicava com o salão azul, a que já tivemos occasião de referir-nos, e cujas paredes eram revestidas pelos retratos das mais bellas damas da côrte, symbolisando as grandes nações da Europa.

Era n'este salão que a imperatriz dava audiencia, destacando-se a sua gentil figura n'uma atmosphera de saphira, que fazia lembrar o firmamento, porque a luz passava através de stores de gaze azul, adaptados ás janellas.

Seguia-se ao salão azul o gabinete da imperatriz. Era ahi que a primeira dama da França lia, escrevia, colleccionava os papeis do imperador, rodeiada de todos os objectos queridos que podiam fallar-lhe ao coração, avivar-lhe uma memoria, despertar-lhe uma saudade.

Forrado de sêda mate, com largas bandas de um verde suave, a mobilia capitonada, as cortinas côr de purpura, as portas de acajú com ferragens de cobre dourado, tal era o gabinete particular, o aposento predilecto da imperatriz.

Sobre o panno principal da parede pendia o retrato do imperador, corpo inteiro, de casaca, pintado por Cabanel. Exactissimo de semelhança. Á esquerda do fogão, um retrato da duqueza d'Alba coberto de gaze ligeira, como sorrindo através de uma nuvem. Entre as janellas, o retrato da princeza Anna Murat, pintado por Winterhalter. E por toda a parte, aqui, alli, mil obras primas do Oriente e do Occidente, uma bella estatua de mulher em marmore branco—A Estrella,—porque tinha uma estrella na fronte e, entre as recordações carinhosas, muitos objectos que tinham pertencido á duqueza d'Alba, e o chapeu, todo crivado, que o imperador levava na noite do attentado Orsini. A pintura tinha, no gabinete particular da imperatriz, um grande dominio. Havia um notavel quadro de Hébert, representando mulheres italianas n'uma fonte subterranea; e um cordão de sêda, pendente da parede, esperára durante algum tempo por um quadro de Cabanel. Mas o pintor demorára-se e, n'um dia de recepção, a imperatriz, conduzindo-o ao seu gabinete, dissera-lhe:

—Esta lacuna contraria-me. Ou me mandais depressa um quadro ou eu vos mando pendurar n'aquelle cordão,—em vez do quadro.

Cabanel tomou em consideração esta jovialidade da imperatriz, e enviou-lhe um primoroso quadro biblico,—Ruth, de tunica azul, coberto o rosto por um longo veu negro.

A imperatriz gostava muito de lêr sentada n'um fauteuil, junto do fogão e contra a luz, com os pés pousados n'uma cadeira mais baixa e inclinada.

Um biombo de sêda verde resguardava-a das correntes da luz e do ar.

Era n'esta posição que a imperatriz escrevia ordinariamente, com uma penna de pato, pondo o papel sobre os joelhos.

Ao alcance da mão havia uma pequena meza com livros, os mais queridos e, não longe, n'uma grande meza aberta, todo o trem de desenho, os pinceis, papel, caixas de tintas, porque a imperatriz tinha grande facilidade para a aguarella.

Seguia-se um outro compartimento destinado a bibliotheca, povoado de obras escolhidas na litteratura franceza, ingleza, hespanhola e italiana, linguas que a imperatriz fallava com destreza. Á mistura com os livros, muitos primores artisticos: Wouwermans de um valor incalculavel. E numerosos retratos, do conde de Montijo, do imperador, do principe imperial, da rainha da Hollanda, da rainha Sophia, etc.

Sahindo-se d'este compartimento, atravessava-se uma ante-camara sem janella, apenas illuminada por uma lampada accesa de noite e de dia. Vinha dar a esta ante-camara, que era o esconderijo dos papeis das Tulherias, a pequena escada que descia directamente para os aposentos do imperador. Todos os papeis, numerados e alphabetados, estavam ahi guardados n'um armario secreto.

D'esta ante-camara passava-se a uma vasta sala, allumiada por tres grandes janellas rasgadas sobre um balcão: era o gabinete de toilette da imperatriz, todo coberto d'espelhos. A meza de toilette tinha guarnições de renda branca e sêda azul. E do tecto descia, por um engenhoso machinismo, a que já tivemos occasião de alludir, o monte-charge que trazia os vestidos de que a imperatriz precisava.

Uma saleta com uma só janella communicava o gabinete de toilette com o quarto de cama, dividido em duas peças por um tabique em que, sobre um fundo de ouro, florejavam pinturas de delicado gosto. Era ahi que estava o oratorio particular da imperatriz, disfarçado, porque o tabique abria em dois batentes, para os actos do serviço divino. Foi n'esse oratorio que o principe imperial commungou pela primeira vez, e que, no dia 4 de setembro de 1870, a imperatriz ouviu missa, pela ultima vez, nas Tulherias.

O quarto de cama era de uma magnificencia verdadeiramente olympica. No tecto, grandes molduras douradas inquadravam antigas pinturas allegoricas. O leito, afofado de ricos estofos, e erguido sobre um estrado, era mais um throno do que um leito.

Reliquias preciosas velavam o somno da imperatriz: a rosa de ouro que lhe enviára Pio IX por occasião do baptisado do principe imperial, e o vaso, tambem de ouro, cheio de folhas e flôres do mesmo metal, finamente cinzeladas, que o Pontifice costumava offerecer aos seus afilhados de baptismo. Além de que, todos os annos, em domingo de Ramos, uma palma abençoada pelo Padre Santo vinha de Roma para o espaldar do leito da imperatriz.

Na côrte das Tulherias havia, como em todas as côrtes, um horario que apenas as grandes solemnidades officiaes faziam alterar.

Jantava-se ás sete horas e meia.

O pessoal de serviço esperava os imperadores no salão Apollo, illuminado por tres grandes lustres, que faziam reverberar o ouro do plafond,—uma glorificação de Apollo com as nove musas.

Este salão ficava entre o branco ou do primeiro Consul, assim chamado por ter um magnifico retrato do general Bonaparte, e a sala do throno, que era preciso atravessar para chegar ao salão de Luiz XIV,—a sala da meza.

Pouco depois das sete horas, o imperador subia aos aposentos da imperatriz, e desciam ambos ao salão de Apollo com o principe imperial, que tinha lugar á meza do estado desde os oito annos. A imperatriz dava ordinariamente a mão ao principe. Entrando no salão, a imperatriz cumprimentava com um sorriso e uma mezura as pessoas da côrte, como n'uma ceremonia official. Logo que o mordomo do palacio se inclinava silenciosamente diante do imperador, annunciando o jantar, o imperador, dando o braço á imperatriz, dirigia-se para a sala de Luiz XIV, e os dignitarios da côrte davam o braço ás damas, seguindo-o.

O imperador e a imperatriz sentavam-se á meza, junto um do outro. O principe imperial á esquerda do imperador, o ajudante de campo do imperador á direita da imperatriz, a primeira dama de serviço ao pé do principe imperial, a segunda dama á direita do general Rolin, seguindo-se os outros commensaes, entre elles os officiaes da guarda das Tulherias.

Por detraz da cadeira do imperador e do principe imperial postava-se um alabardeiro. Por detraz da cadeira da imperatriz, além de mr. Bignet, commandante da sua guarda, ficava Scander, um joven negro, que tinha vindo do Egypto, e que, emplumado e armado, produzia um bello effeito decorativo.

Scander tinha um grande orgulho da sua posição, e não obedecia a ninguem senão á imperatriz.

Um dia passeava elle no Jardim das Tulherias, e lembrou-se de macaquear os gestos e meneios de um desconhecido qualquer, que, não gostando da parodia, o admoestou. Mas Scander respondeu-lhe com um pontapé, e o desconhecido, filando-o por uma orelha, desancou-o com a bengala.

Furioso, mas poltrão, Scander gritava:

—Deixe-me, que eu sou o filho da imperatriz...

O serviço da cosinha era feito por meio de ascensores, e executado com grande regularidade e presteza.

O salão de Luiz XIV tinha uma grande meza, e ao fundo, sobre o fogão, um busto monumental d'aquelle soberano, além de um retrato do mesmo rei, pintado por Lebrun, de um retrato de Anna d'Austria, e de um quadro representando a apresentação do duque de Anjou aos embaixadores hespanhoes.

Depois do jantar, os imperadores dirigiam-se com a sua entourage para o salão d'Apollo, onde se servia o café, que Napoleão III tomava sem sentar-se fumando cigarrilhas.

Era geralmente n'esta occasião que o imperador conversava com os officiaes da guarda. Toda a côrte se conservava tambem de pé, mas o imperador convidava quasi sempre as damas a sentarem-se. Fazia-se então circulo, fallava-se principalmente dos acontecimentos do dia, o marquez de Havrincourt, o barão de Pieres, o duque de Trévise, dignitarios da côrte e deputados, commentavam os episodios da sessão do dia. A imperatriz era a alma, a alegria, a graça d'este circulo de conversação. O imperador acabava por fazer paciencias, e, para entreter o principe imperial, a côrte jogava algumas vezes o loto, marcando o imperador os seus cartões com moedas de 50 centimes, novas em folha.

Oh! ceus! quem havia de dizer, nos tempos aureos do imperio de Napoleão III, que os pamphletarios descreviam como nadando nos prazeres de uma orgia ininterrupta, que ás nove horas da noite, no salão Apollo das Tulherias, estava a côrte, os imperadores á frente, entregando-se paradisiacamente ao patriarchal loto, como a essa mesma hora acontecia decerto, em Portugal, na botica de Castro Daire e no club de Olhão!

Ás dez horas os creados punham, n'uma pequena meza, o serviço de chá, que as damas faziam. Madame Carette escreve textualmente: «Havia um bulle de chá de laranjeira que tinha um grande successo entre os homens, e n'um canto do salão um plateau com refrescos e café gelado. Geralmente o imperador retirava-se depois de ter tomado uma chavena de chá.»

Então a conversação animava-se mais, estimulada pela imperatriz, que a prolongava até ás onze e meia.

Os adversarios do imperio atacaram vivamente as festas das Tulherias, os quadros vivos de Compiégne; aqui tenho eu ao pé de mim Philibert Audebrand, que me diz ao ouvido, applicando-a a Nopoleão III, a celebre phrase de Agnés Sorel a Carlos VII:

—Não se perde mais alegremente um reino!

Mas, fóra das grandes festas, não me parece que o loto das Tulherias, marcados os algarismos com moedas de 50 centimes, seja babylonicamente escandaloso. Um certo conego conheci eu em Braga que, sem ter um throno na Sé, marcava os seus cartões com peças de 8$000 reis, e este mesmo conego tambem não desgostava de quadros vivos porque o vi, passados annos, assistir no Porto a um espectaculo de lanterna magica, realisado pelo Tasso (não confundir com o poeta nem com o actor) no theatro de S. João.

E o que aconteceu?

O conego—Deus o tenha lá!—morreu muito bem descançado na sua conezia. As gazetas nunca fallaram d'elle senão para lhe rezar uma necrologia louvaminheira. Mas Napoleão III perdeu a corôa, o que não aconteceu ao conego, foi descomposto pelas gazetas, crivado de epigrammas, e acabou no exilio.

Quanto a epigrammas, até os proprios parentes lh'os faziam. Lembro-me agora de um, que é do marido da princeza Clotilde, mais conhecido por uma alcunha grotesca.

Na noite do seu casamento com a condessa de Teba, disse-lhe Napoleão III que estava muito constipado.

O primo respondeu-lhe: