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Historias de Reis e Principes cover

Historias de Reis e Principes

Chapter 43: X
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About This Book

Reúne vinhetas históricas centradas em soberanos e príncipes, alternando anedotas de corte, conspirações, casamentos e desventuras pessoais. Traça relatos portugueses e estrangeiros — intrigas palacianas, rupturas religiosas motivadas por uniões matrimoniais, exílios, amores e mortes — apresentados em tom narrativo e anedótico. Cada capítulo focaliza um episódio ou figura concreta, privilegiando comportamentos, motivações e consequências individuais mais do que análises políticas profundas, e transporta o leitor por variados cenários, dos salões europeus a cortes exóticas e episódios de íntima gravidade.

De Paris, essa desgraçada senhora fôra para Roma, implorar o auxilio do chefe da igreja catholica. Receiosa de que a quizessem envenar, depois que lhe serviram a laranjada em Saint-Cloud, apenas se alimentava de fructas. Entrou no Vaticano no momento em que Pio IX almoçava. Arrancando da mão do Papa uma chavena de chocolate, tomou-o soffregamente exclamando:

—Ao menos este não estará envenenado!

Sempre receiando uma cilada, não quiz recolher-se ao hotel. Foi preciso consentir em que pernoitasse no Vaticano, n'uma camara visinha á de Pio IX. A loucura era completa, manifesta. Maximiliano estava perdido. Fôra esse crudelissimo desengano que esmagára a razão da pobre imperatriz.

Conduziram-n'a a Miramar, na esperança de que o aspecto de lugares conhecidos e queridos lhe restituisse a razão. O povo de Trieste, supersticioso como todo o povo, começou a consideral-a uma santa. Sim, santa de martyrio, santa de soffrimento. Mas louca para toda a vida. A dôr santificára-se n'ella em loucura. Deus fôra mais piedoso do que os homens creados á sua imagem e semelhança.

Bazaine, sahindo do Mexico, abandonára o imperador ás represalias dos juaristas. Antes de sahir, fizera lançar ao rio Sequia e ao lago Texcoco todas as suas munições. Que refinada perversidade a d'esse homem, que a Providencia castigou tão justa e sabiamente! Diz-se até que Bazaine tinha proposto a Juarez entregar-lhe Maximiliano por 50:000 dollars. Naturalmente, Juarez, visto que Maximiliano ficava indefeso, achou caro. Podia tel-o de graça logo que o exercito francez retirasse. E assim foi. Juarez era mais esperto do que Bazaine, mas não menos ambicioso.

O que fazia entretanto o imperador Napoleão? Nada. Pedia a Maximiliano que fugisse. Maximiliano respondia nobremente que um Habsburgo não sabia fugir como um cobarde. Apenas consentiria em sahir como um imperador, renunciando á corôa.

Foi n'este proposito que Maximiliano partiu para Vera Cruz, onde a corveta Dandolo o esperava. Mas ahi, quando pensava em restituir ao povo mexicano a menos invejavel das realezas, o partido conservador fizera-lhe promessas de homens e dinheiro. Maximiliano acreditou, com essa estranha credulidade dos espiritos combatidos pelas grandes dôres. A esse tempo já tinha recebido a noticia da loucura da imperatriz. Naufrago desesperado, agarrou-se á primeira taboa de salvação, embora fragil, e talvez perfida, que lhe offereciam.

A Providencia, sempre justa, preparava para Napoleão a derrota de Sedan, e o exilio; para Bazaine o carcere, a infamia, o homizio. Poucas vezes a historia nos assignala um ajuste de contas tão rapido e completo; uma liquidação de responsabilidades que tanto satisfaça a consciencia humana.

IX

A retirada da expedição franceza déra alento a Juarez, que ameaçou ir cercar a capital.

Maximiliano, querendo poupar os habitantes da cidade aos incommodos e perigos do assedio, retirou-se para Queretaro, onde, com o auxilio de alguns generaes, que se lhe conservaram fieis, pudéra reunir um pequeno nucleo de tropas defensivas.

A sorte das armas deveria decidir da victoria entre o exercito do imperador e o de Juarez. Os acontecimentos futuros dependiam pois da vantagem que o azar dos combates désse a um ou a outro dos dois contendores. Mas o coronel Lopez, ajudante do imperador, apressou, dizia-se, o desfecho do drama com uma traição ignobil: vendêra Maximiliano aos juaristas por 2:000 onças de oiro. E todavia Lopez havia sido extremamente beneficiado pelo imperador com generosas dadivas, sabia-se[8].

Na madrugada de 15 de maio de 1867, o imperador, que costumava levantar-se muito cedo, viu Queretaro em poder dos juaristas. Graças ao general Rincon, pôde ainda ir refugiar-se na pequena collina de Cerro de las Campanas, que domina a cidade.

Escobedo, general juarista, deu-se pressa em sitiar a collina. O imperador, reconhecendo que toda a tentativa de resistencia seria um sacrificio inutil, mandou atar um lenço branco na bayoneta de uma espingarda. Capitulava. Pouco depois entregava a sua espada ao general Corona, e era conduzido, com os outros prisioneiros, ao convento de Santa Theresita, d'onde foram transferidos para o convento dos Capuchinhos.

Juarez mandou reunir o conselho de guerra para julgar os prisioneiros. Maximiliano recusou-se a comparecer. Durante tres dias funccionou o conselho: no banco dos réos estavam sentados os generaes Miramon e Méjia, imperialistas. A sentença foi de morte: o imperador e os dois generaes deviam ser passados pelas armas. Marcou-se a execução para o dia 19, e de nada valeram os esforços empregados junto de Juarez pelos embaixadores da Prussia e da Inglaterra para obterem o perdão dos condemnados.

Na noite anterior, Maximiliano pediu uma tesoura ao carcereiro. Foi-lhe recusada. Supplicou então que lhe cortassem uma madeixa do seu cabello e incluiu-a n'esta carta que escreveu á imperatriz:

«Minha querida Carlota. Se Deus permittir que melhores um dia e que leias estas linhas, conhecerás a crueldade do destino que não deixou de perseguir-me desde a tua partida para a Europa. Levaste comtigo a minha felicidade e a minha alma. Por que te não ouvi eu?! Tantos acontecimentos, tantas catastrophes inesperadas e immerecidas me teem esmagado, que, desamparado da esperança, vejo na morte o anjo da redempção. Morro sem agonia. Cahirei com gloria, como um soldado, como um rei vencido... Se não tiveres forças para arrostar com tamanho soffrimento, se Deus em breve te reunir a mim, abençoarei a sua mão paterna e divina que tão rudemente nos feriu. Adeus! adeus!

Teu pobre—Max

Max era o diminutivo de familia, com que tambem assignou outras cartas, escriptas em francez, e dirigidas a sua mãi, á archiduqueza Sophia e a muitos amigos.

Como se vê, Maximiliano conservou, em frente da morte, uma attitude serena e calma.

Ás seis horas da manhã do dia 19, um official veiu abrir a porta do carcere.

—Estou prompto, disse o imperador adiantando-se.

E ao sahir a portaria do convento dos Capuchinhos, erguendo os olhos para o céo:

—Que bello dia! Sempre esperei morrer n'um dia de sol.

Entrou na carruagem descoberta que lhe era destinada. Os generaes Miramon e Méjia, cada um em sua carruagem, seguiam a do imperador. Eram escoltados por quatro mil homens. O funebre cortejo poz-se a caminho para o Cerro de las Campanas. Os condemnados iam de pé, serenos, tranquillos. As ruas e janellas estavam cheias de gente. Maximiliano, diz Tissot, nunca pareceu mais bello do que n'essa occasião. As mulheres desviavam o rosto para occultar as lagrimas.

Houve um momento em que o general Méjia se perturbou: foi quando sua esposa, com o filho, recem-nascido, nos braços, rompeu d'entre a multidão, os cabellos em desordem, o gesto allucinado. Méjia escondeu o rosto entre as mãos. Foi esta a unica fraqueza no espectaculo heroico d'aquelle triplice fuzilamento.

Quando a primeira carruagem chegou ao Cerro da las Campanas, Maximiliano apeiou-se com ligeireza, distribuiu a cada soldado uma onça de ouro, e disse-lhes:

—Apontai bem, meus amigos; tomai por alvo o meu coração.

Um dos soldados chorou. Maximiliano entregou-lhe a sua carteira de cigarros, cravejada de pedras preciosas. E, como o official que devia dar a voz de fogo lhe pedisse perdão, o imperador respondeu:

—Um soldado deve sempre obedecer ás ordens que recebe: cumpre o teu dever.

Em seguida abraçou os generaes Miramon e Méjia, como elle condemnados á morte.

—Dentro de alguns minutos, vêr-nos-hemos no céo, disse-lhes.

Apertou a mão de Miramon, em primeiro lugar, dando a razão da preferencia:

—General, ao mais bravo, o lugar de honra.

E a Méjia:

—Os que soffrem injustamente são recompensados n'outro mundo.

Depois, subindo a uma pedra, fallou ao povo:

—Mexicanos! Os homens da minha condição e da minha raça são destinados a fazer a felicidade dos povos ou a serem victimados por elles. Não foi um pensamento illegitimo que me trouxe ao vosso paiz. Fôstes vós que me chamastes. Antes de morrer, quero dizer-vos que empreguei todos os esforços para vos felicitar. Mexicanos! possa o meu sangue ser o ultimo que façaes derramar e possa o Mexico, minha desgraçada patria adoptiva, ser feliz. Viva o Mexico!

Um sargento veiu ordenar a Miramon e a Méjia que se voltassem de costas: deviam ser assim fuzilados como traidores.

—Até á vista, disse-lhes Maximiliano.

E, afastando as suas longas suissas louras, apontou para o coração, exclamando: Aqui!

Á voz de Apontar, um murmurio de indignação sahiu d'entre a multidão dos indios, em cuja raça é antiga a superstição de que um homem da raça branca os ha de libertar um dia.

Os officiaes voltaram-se brandindo a espada para reprimir a multidão. Ouviu-se a voz de fogo.

—Viva o Mexico! disse Miramon.

—Carlota! Carlota! exclamou Maximiliano.

E quando a fumarada se dissipou, tres cadaveres ensanguentados jaziam ao sol no Cerro de las Campanas.

O drama do Mexico, preparado por Napoleão III, tinha tido o seu ultimo acto.

O general Lopez, o Judas de Maximiliano, a ser verdadeira a tradição antiga, não recebeu as duas mil onças de ouro que lhe tinham sido promettidas, mas apenas sete mil piastras. A execração publica amaldiçoou-o... pelo menos durante vinte annos.

Napoleão III morreu exilado em Inglaterra, e seu filho acabou ás mãos dos zulus na Africa.

Bazaine, tendo podido fugir do carcere depois da guerra franco-prussiana, com o labéo de traidor, expirou em Hespanha, onde se homiziára.

A imperatriz Carlota vive ainda, se dos loucos se póde dizer que vivem. Tem hoje quarenta e nove annos de idade. Está habitualmente no castello de Laeken, onde nasceu. Seu irmão e sua cunhada, os reis da Belgica, fazem-n'a rodear dos maiores carinhos por meio de uma assistencia dedicada e vigilante. Todos os caprichos da pobre louca são pontualmente satisfeitos. Ás vezes sonha ella ser ainda imperatriz, quer dar recepções solemnes, festas magnificas. E os convivas que n'esses momentos a rodeiam são bonecos vestidos á côrte, que ella saúda com uma longa mesura, arrastando magestosamente sobre o tapete a cauda roçagante do seu manto imperial.

Um viajante que esteve ha pouco tempo em Laeken viu-a encostada a uma janella do castello. Scismava. Quem sabe se, através do nevoeiro que lhe envolve a razão, não avistaria ao longe, muito ao longe, vaga e confusamente, o seu antigo castello de Miramar, como no fundo de um sonho doloroso uma memoria truncada!

Graças aos esforços empregados pela Russia, o corpo de Maximiliano foi restituido em 1867, sendo por essa occasião libertados alguns soldados austriacos que se conservavam prisioneiros, e perdoado o principe Salms-Salms, que tinha sido condemnado á morte com o imperador.

De toda a catastrophe do Mexico restam hoje tres viuvas: a de Maximiliano, de Napoleão III, e do marechal Bazaine.

No Mexico, além da tradição historica que a auctoridade de Juarez não pôde supprimir, existe uma recordação, tão saudosa quanto delicada, do ephemero e infeliz imperador: são os rouxinoes que cantam nas florestas de acajú, e nos chinampas, ilhas fluctuantes. No dia em que Maximiliano foi fuzilado, chegavam ao Mexico, em vez de munições de guerra que elle bem poderia ter encommendado para se entrincheirar no throno, dois mil rouxinoes que havia mandado comprar na Styria para com elles povoar as arvores das florestas.

IX

O Paiz dos Meninos...

I

O menino de S. Domingos

É costume portuguez dizer-se por graciosidade ou disfarce, segundo a idade da pessoa com quem estamos fallando, que as creanças recemnascidas vieram de França.

Os loiros babys, que aguardam impacientemente a chegada de mais um irmão pequenino, contentam-se ingenuamente com a resposta que lhes damos—de que o menino viera de França—e, annos volvidos, quando a malicia do mundo lhes revelou o segredo da procreação da especie humana, elles mesmos continuam a tradição dizendo por sua vez aos filhos curiosos—que viera tambem de França aquelle lindo menino, que lhes offerecem para irmão.

Mas... ó triste idade a nossa, em que já se não acredita em quasi nada, e muito menos em meninos que vêm de França!... mas por que razão se escolheu a França como paiz ideal de onde todos os meninos portuguezes são oriundos! A phrase ficou lendaria entre nós, a tradição subsiste com a mesma intensidade, com ella ludibriaram a nossa curiosidade infantil, e com ella, por nossa vez, respondemos á pergunta, por igual curiosa, de nossos filhos.

Não haveria um facto historico que determinasse a origem d'esta tradição? Aposto que o leitor nunca pensou n'isto! Nunca! É celebre! Tanto mais celebre, se é certo que já alguma vez encommendou para França meninos recemnascidos.

Pois, verdade, verdade, eu nunca tinha pensado tambem, e não o pensaria jámais, se o licenciado Duarte Nunes de Leão, nas suas chronicas de reis portuguezes, especialmente na de Affonso III, não tivesse chamado a minha attenção para uma antiga lenda portugueza, que bem póde ter dado origem á tradição de que é de França que chegam os meninos recemnascidos.

É possivel que eu esteja em erro, mas como isso não prejudica os meninos, nem os pais, e menos ainda a França, afoito-me a emittir uma opinião, que as academias talvez ingratamente repillam, mas que não deixará comtudo de ter uma tal ou qual apparencia de verosimilhança.

Posto este brevissimo exordio, entremos no assumpto, quero dizer na chronica de Duarte Nunes.

Depois de ter contado como o infante D. Affonso casára em França com a condessa Mathilde de Bolonha, viuva de Filippe o Crespo, e como, sendo acclamado rei de Portugal, a repudiára para desposar a filha do rei de Castella, empenha-se Duarte Nunes em demonstrar, por documentos authenticos, que a condessa de Bolonha não houvera filhos de D. Affonso de Portugal.

A dissertação do chronista tem por fim rebater uma lenda, que se enraizára entre o povo portuguez, e sobre a qual assenta a hypothese que eu pretendo formular.

Escreve, pois, o historiador:

«... resta satisfazer ás fabulas da gente popular, que ficaram por historia de mão em mão, e que o chronista Fernão Lopes conta na vida do dito rei, não sabendo o que seguisse, nem o que fugisse, por a pouca informação que d'aquelles tempos rudes pôde alcançar, e por o pouco discurso que elle n'isso podia fazer por falta de noticia das historias estrangeiras. Primeiramente diz que passados alguns annos depois de o infante D. Affonso partir de Bolonha, soube a condessa sua mulher como el-rei D. Sancho era fallecido, e o conde D. Affonso seu marido levantado por rei. E que não sabendo ser elle casado, armou uma frota, em que veiu a este reino. E que aportando a Cascaes, soube do casamento de seu marido com a filha d'el-rei de Castella, e estar com ella recreando-se na aldeia de Friellas, termo de Lisboa. E que fazendo-lhe saber de sua vinda, e requerendo-lhe a recebesse a ella, e se apartasse d'aquella mulher, com que estava em peccado, el-rei lhe mandou que se fôsse fóra de seu reino. Contam mais que a condessa se tornou para França, deixando-lhe um filho que trazia, segundo a opinião de alguns; e outros diziam que o tornou a levar, e de lá o mandou depois a Portugal.»

Aqui é que bate o ponto.

O facto era importante como questão politica: tratava-se da successão á corôa. Uns davam razão ao rei; outros á condessa de Bolonha. E discutia-se a hypothese de existir um filho do primeiro casamento de D. Affonso III; fallava-se muito de um menino que viera de França.

Duarte Nunes de Leão trata de desmentir a lenda com documentos e razões chronologicas. Mas a lenda enraizou-se e floresceu em Portugal, a ponto de sobreviver ao menino que viera de França, e que teria morrido de morte natural ou violenta.

O povo, pelo que se infere de Duarte Nunes, acreditava que o menino estava sepultado na igreja de S. Domingos.

Diz a chronica:

«E para que a gente vulgar, que não se move tanto por razões, quanto pelos sentidos de vista e ouvida, se satisfaça, é necessario declarar-se que sepultura era a de S. Domingos de Lisboa, em que havia fama no povo que estava enterrado um menino filho da condessa Mathilde e d'el-rei D. Affonso seu marido, que diziam que era o que trouxera comsigo ou mandára de França

Duarte Nunes viu a sepultura, e descreve-a. A caixa era de marmore branco, com varios ornatos esculpidos á roda, figurando arvoredo e montaria de porcos e cães. As lettras do epitaphio eram gothicas. Mas as dimensões da sepultura denunciavam o cadaver de um adulto, não de um moço de pouca idade. Vinte annos antes de Duarte Nunes escrever a chronica de D. Affonso III, querendo o prior de S. Domingos «despejar o cruzeiro (onde a sepultura estava) ou por não lêr aquellas lettras, porque constava jazer alli um filho do rei, que fundou aquella casa, ou por cuidar que seria algum menino», abriu-se a sepultura e achou-se um corpo incorrupto, sanissimo, diz o chronista, reconhecendo-se que era de homem grosso. Os ossos foram trasladados para outra sepultura, proxima á capella de Santo André.

«De maneira, escreve o chronista, que a fama de alli estar um menino filho de Mathilde, era falsa e vã, e era certo estar alli o infante D. Affonso, irmão inteiro d'el-rei D. Diniz, que morreu de grande idade com muitos filhos e netos.»

Como se vê, a lenda do menino que viera de França generalisou-se entre o povo portuguez, e atravessou os seculos sem perder uma parcella da sua popularidade. O proprio prior de S. Domingos, que devia ser homem ilustrado, teve duvidas, e só se desenganou depois de ter mandado abrir a sepultura.

A lenda cahiria então em algum descredito, que aliás não foi completo, como logo veremos, mas, a locução, havendo-se tornado tradicional, permaneceria, chegando até nós. Para de algum modo satisfazer á curiosidade ingenua das creanças, dir-lhes-iam que todos os meninos vinham de França, como o da lenda. E assim o phenomeno physiologico da maternidade ficaria na imaginação das creanças envolvido no mesmo mysterio, que pesou sobre o nascimento de um filho de D. Affonso III e da condessa de Bolonha até ao dia em que na igreja de S. Domingos foi aberta a respectiva sepultura.

E quantos espiritos populares não passaram d'esta para outra vida com a convicção de que effectivamente um menino, filho do rei portuguez, viera de França, por ordem de sua mãi! Similhantemente, os espiritos infantis dos loiros babys acreditam ingenuamente que os seus irmãos pequeninos, como elles proprios, vieram de França por ordem de sua mãi e... de seu pai. A differença, que é insignificante, está apenas na parceria da encommenda.

O menino de S. Domingos era um mysterio, um segredo, como aquelle que para as credulas creaturinhas deve envolver o facto da gestação e do nascimento, em toda a sua verdade physiologica.

Com o reconhecimento do cadaver desfez-se o mysterio, mas a lenda subsistiu conservando a locução, tanto mais que ficou a perpetuar a lenda um monumento em que a imaginação popular a materialisou.

Sabe o leitor que monumento é esse? Não sabe, decerto. São alguns rochedos que afloram do mar na barra de Lisboa.

Dil-o Duarte Nunes:

«E para que não fique coisa a que se não responda, outra historia como esta andava entre as velhas, e gente popular, porque contavam que quando a condessa veiu a Cascaes e foi desenganada d'el-rei seu marido, que a não havia de recolher, tornando-se para França, estando já para dar á vela, lhe deixou dois filhos, dizendo que dissessem a el-rei que tomasse lá seus cachopos, e que por isso se chamou Cachopos áquelle lugar do mar, onde os deixou, não entendendo aquella gente vulgar que cachopos é palavra portugueza de homens rusticos, por que chamam aos moços de pouca idade, e que a condessa Mathilde, franceza da Gallia Belgica, não podia fallar por aquelles termos da lingua portugueza, que não sabia, e que aquelle lugar da barra de Lisboa, de penedia e bancos, que vão por debaixo da agua, onde as naus perigam, se diz cachopos, corrupto o vocabulo latino scopulus, como se corromperam pela successão dos godos e dos mouros outros infinitos vocabulos, que temos da lingua latina, d'onde a nossa tem a origem. Isto é coisa de graça...»

Graciosos na sua elegante singeleza são tambem este e os outros relanços da chronica de Duarte Nunes.

Não sei se o leitor ficará inclinado a acreditar que a lenda do menino de S. Domingos haja dado origem á locução proverbial de que os meninos recemnascidos vêm de França.

Se não ficar, releve-me a innocentissima conjectura pelo prazer que decerto lhe deram as transcripções que fui buscar a Duarte Nunes e que, aproveitando-lhe a phrase, diga complacentemente com o chronista: Isto é coisa de graça.[9]

II

O principe da Beira

(Março de 1887)

E a proposito...

Toda a semana se fallou muito de um principesinho que ha de vir de França, n'um bercinho de verga doirada, deitado n'uma almofadinha de sêda, entre rendas e flôres, sobrescriptado para o Paço de Belem.

Os jornaes não teem fallado de outro assumpto, e os pais de familia vêem-se sériamente entalados para explicar aos bebés o motivo por que esse lindo principesinho que ha de vir de França (e que deve ser lindo como todos os principes) não chegou ainda, a despeito de fazer-se esperar por toda a familia real e por todos os habitantes do paiz.

Tem sido realmente preciso dar tratos á imaginação para explicar phantasiosamente o caso d'essa demora imprevista, para satisfazer a justa curiosidade dos bebés, e se o accouchement da princeza Amelia tardar ainda mais alguns dias, receio muito que chegue a esgotar-se a imaginação dos pobres pais de familia.

Um dia são os pastores dos Pyrenéos que, sabendo que por alli passa um principesinho, se juntam para vêl-o, obrigando o portador a parar e a mostrar-lh'o.

Não tem o portador outro remedio senão parar, descobrir o bercinho, mostrar o principe.

Então os pastores querem beijal-o por força, e pedem ao portador que se demore emquanto elles vão buscar a melhor rez do seu rebanho para offerecel-a áquella linda creança.

Outras vezes é o portador que se enganou no caminho, por ser a primeira vez, depois de muitos annos, que traz um principe a Portugal.

Outras vezes é ainda o portador que, por ter caminhado com muita pressa, ancioso de chegar, cansou a meio do caminho e parou.

Finalmente, são as andorinhas que reclamaram para si o direito de vir trazendo o principesinho nas suas azas, mas como as andorinhas sejam pequenas ainda mais pequenas do que o principe, o emissario vê-se forçado a dar-lhes frequentes descansos.

Durante vinte e quatro horas, os bebés, não tendo ouvido os foguetes, acreditam na desculpa que se lhes dá, mas no dia seguinte, como a demora vá continuando, é preciso inventar uma desculpa, e um pai de familia, por muito amor que tenha aos seus filhos, póde não ter tanta imaginação que chegue para cada um d'elles...

Entretanto, os bebés e os adultos vão esperando pelo principesinho que ha de chegar de França n'um bercinho de verga doirada, deitado n'uma almofadinha de sêda, entre rendas e flôres, sobrescriptado para o Paço de Belem.

Já tudo está a postos para o receber. Os condes de Paris esperam, o principe D. Carlos mostra-se impaciente, e a princeza D. Amelia pergunta ás flôres dos jardins de Belem se ellas sabem o motivo por que o principesinho não chega. Nem as flôres, nem o dr. Ravara, nem o dr. Greneau, nem a snr.ª Prévot teem sido capazes de responder a esta pergunta. Passa-se o dia em interrogações no Paço de Belem. De vez em quando ha um rebate falso, é chamada a côrte a toda a pressa, os artilheiros correm a postar-se junto ás peças, as damas de honor principiam a desdobrar as alfaias do enxoval, os sineiros sobem aos campanarios, vai emfim chegar o principesinho, faz-se um grande silencio respeitoso, olha-se para a porta da rua, a sentinella chama as armas...

E o principesinho não chega!

.    .    .    .    .    .    .    .    .    .    .    .    .    .    .    .    .    .    .    .    

O dr. Ravara encolhe os hombros, a snr.ª Prévot consulta os guias de viagem, o dr. Greneau pergunta se não estará sonhando, mas o que é certo é que a pequenina alteza, sabendo talvez que já vai sendo um pouco amargo ser principe, parece não ter pressa nenhuma de o ser!

Aposto que sua possivel alteza está talvez dizendo a esta hora:

—Querem-me lá para começarem desde logo a discutir-me! Pois vão esperando por mim. Que o Magalhães Lima vá aguçando a penna, e o Consiglieri Pedroso vá ensaiando a voz. Eu bem sei que elles não são meus amigos e o meu coração é tão pequenino que não comporta odios contra ninguem. Como não saberei odial-os, não estou para os aturar por ora. Que vão esperando. Teem lá muito que discutir, encham os jornaes republicanos como pudérem, que eu não estou para me aborrecer. Se eu fosse filho de um saloio de Alcabideche ou de um piloto de Cascaes, não teria duvida em chegar depressa. Ninguem daria pela minha chegada, e eu poderia regaladamente dormir o meu primeiro somno. Mas como sou filho do herdeiro da corôa de Portugal, como eu sei que tenho de aturar os republicanos e as peças de artilheria, os foguetes e os jornaes, os repiques de sino e os repiques dos poetas, como eu calculo que tudo isso deve ser muito massador, vou-me deixando estar onde estou, no paiz dos possiveis, gozando da regalia que tenho de me fazer esperar, visto que, depois que eu fôr crescido, todos ralharão se me fizer esperar cinco minutos em qualquer parte...

O dr. Ravara continúa a vêr-se embaraçado com as perguntas que lhe fazem, o snr. conde de S. Miguel deixa de jantar, a snr.ª Prévot vê-se sériamente atrapalhada, mas a verdade é que o principesinho não chega porque não tem vontade nenhuma de chegar.

E o principesinho tem razão.

—Aqui, dirá sua pequenina alteza, todos os anjos me tratam por tu e brincam commigo. Está-se muito bem, e elles proprios me informam de que lá em baixo ha um monstro terrivel, que devora a paciencia, e que se chama a Pragmatica. Eu tenho medo d'esse monstro, em respeito ao qual todas as pessoas passarão a tratar-me por alteza, a mim, que sou mais pequenino do que ellas!

E emquanto sua alteza assim monologava, sem querer chegar, Lisboa, desesperada por esperar, ia olhando para o Tejo para vêr subir as aguas da grande maré tão annunciada.

Mas a maré passou, só não chegou ainda a maré de sua alteza chegar n'um bercinho de verga doirada, deitado n'uma almofadinha de sêda, entre rendas e flôres, sobrescriptado para o Paço de Belem!

Pobre dr. Ravara!

Pobre snr.ª Prévot!

E pobres pais de familia, porque ámanhã, talvez, já os seus bebés não acreditarão em desculpas!

X

Um rei entre montanhezes

(Outubro de 1887)

A viagem de el-rei D. Luiz I á serra do Gerez foi durante esta semana objecto de uma copiosa reportage, que diluviosamente inundou todos os jornaes do paiz.

Para as pessoas que apenas teem feito á roda de Lisboa pequenas excursões de recreio, a viagem da familia real ao Alto Minho foi motivo de tamanha surpreza, que muitas d'essas pessoas inclinam-se a pensar que não passa tudo de uma historia fabulosa, similhante ás que Julio Verne conta nos livros interessantissimos, posto que phantasticos, das suas Viagens maravilhosas.

Mas a verdade é que o Alto Minho existe realmente com todos os seus segredos de ethnographia pittoresca, de uma simplicidade primitiva, quasi prehistorica, e que a familia real portugueza acaba de passar tres dias n'essa região ignorada, defendida da contacto das gentes pela altitude penhascosa das suas montanhas alpestres, pela torrente espumosa das suas rapidas cataractas, e pelo accesso difficil das suas quebradas profundas, dos seus picos ingentes, e dos seus barrocaes pavorosos.

O Gerez não é precisamente uma serra que os snrs. reporters tenham mais ou menos phantasiosamente recortado sobre os contornos das montanhas alcantiladas da Escocia ou da Suissa, eriçadas de sarçaes, esmaltadas de lagos argenteos e povoadas de raças autochtones, que se manteem na plenitude da sua originalidade rudimentar.

Os snrs. reporters podem ter, e teem decerto, prendas litterarias para isso e muito mais, mas ao menos d'esta vez teem sido de uma veracidade immaculada, de que podem dar testemunho as poucas pessoas que, em relação á população total do paiz, conhecem a provincia do Minho para além do rio Cavado e do seu irmão siamez o rio Homem.

O Gerez não é uma fabula, não senhores, é uma cordilheira que existe tão realmente como a podem vêr os povos confinantes do Minho e Traz-os-Montes, estendendo-se na direcção de nordéste para suduéste e na extensão de sete leguas, desde Pitões até Rio Caldo.

Esta serra notavel, cujo terreno é de uma formação geologica primitiva, conserva, em harmonia com o seu granito silicioso, uma bella mise-en-scène por igual primitiva, movimentada por actores montesinhos, que parecem representar alli o drama sacro de um genesis eterno.

Toda a fauna conserva um cunho de selvageria aborigene, porque os lobos, os javalis, os veados, as cabras montezas, os bufos, as aguias reaes são ainda hoje os dominadores incontestados das mattas cerradas e dos invios labyrinthos alpinos das florestas virgens do Gerez.

Houve tempo em que o urso completou o elenco da troupe animal do Gerez, mas desde que os pastores pensaram em afugental-o com o clarão sinistro das fogueiras para esse fim accesas durante a noite, o urso, a datar do seculo XVII, fugiu para não mais voltar.

Toda a serra está povoada de lendas supersticiosas guardadas, de seculo para seculo, pela inviolabilidade das suas proprias florestas, e pelo estranho caracter da sua flora e da sua fauna, ainda hoje defendidas pelos sete sêllos de um segredo por igual inviolavel.

Está por acaso estudada a flora do Gerez em todos os arcanos da sua vegetação luxuriante? Não está decerto. Pois o mesmo acontece com relação a essa outra flora, deixem-me assim dizer, das tradições ou das lendas locaes, de que apenas se conhece vagamente um ou outro specimen.

Sobre o penedo da Santa raros olhos terão visto impressos na rocha os vestigios que os serranos contam ser os dos joelhos e pés de Santa Eufemia, que alli vivêra vida eremitica, quando andava fugida á perseguição de seu pai, governador romano da cidade de Braga.

N'um valle de Covide poucas pessoas terão examinado um eito de pedras lavradas, que lá denominam fileiras, e que, segundo a tradição local, foram alli collocadas de proposito para obstar a que os ursos atacassem as colmêas, porque os ursos usavam abraçar-se aos cortiços, rolal-os até encontrarem agua e ahi, afogando as abelhas, comer tranquillamente o mel dos favos.

Por onde se vê que é injusto chamar urso a um individuo pouco esperto.

Mas todas estas tradições, de que ha memoria escripta, são em tão pequeno numero, que bem se póde presumir que o Folk-lore da serra do Gerez está apenas prefaciado por dois ou tres dos nossos chorógraphos.

D'esta quasi absoluta ignorancia em que todos vivemos a respeito da ethnographia das nossas provincias mais sertanejas e remotas, resulta a surpreza com que o paiz está lendo as descripções da viagem da familia real através do Alto Minho, e da sua excursão venatoria na serra do Gerez.

Todo o bom lisboeta, mesmo aquelle que por engano costuma dar excellencia ao rei, ficou hilariantemente surprehendido de que um montanhez minhoto saudasse o snr. D. Luiz dando vivas ao reverendo snr. rei, que é um bom homem.

N'aquellas regiões alpestres, onde a pureza dos costumes é ante-diluviana, ainda o ser bom constitue o supremo elogio de quaesquer homens, incluindo os reis.

Em Lisboa, na baixa ou na alta, tanto monta ser bom como ser mau. Mas no Gerez a ignorancia de formalismos e pragmaticas é tão profunda como a ignorancia de tudo o mais.

Riram-se poetas alfacinhas de que as camponezas de Lago ensoassem em honra d'el-rei uma trova de toantes gallaicas, ao sabor dos primeiros monumentos da litteratura portugueza:

Vamos, vamos depressa,

Corramos p'r'a varanda,

Vêr o rei de Portugal,

Que vai para a caçada.

Mas é que os parnasianos de Lisboa esqueceram, para rir, as memorias historicas do passado e as condições autochtones d'essa especie de bascos da Lusitania, chamados minhotos.

Lembrassem-se elles do seu Frei Luiz de Souza e da pagina que rememora a visita de Frei Bartholomeu dos Martyres á serra de Barroso.

«Correu a voz, pela serra—diz o classico dominicano—da vinda do arcebispo. Abalou-se toda; foi o alvoroço e alegria sem medida. Juntavam-se a recebel-o pelos caminhos com suas danças e folias rudes, que era o extremo da festa que podiam fazer. E, porque não fossem julgados por menos agrestes que os seus mattos, nas cantigas, que entoavam entre as voltas e saltos dos bailes, publicaram logo a quanto chegava o que sabiam do ceu e da fé. Um dizia assim: Benta seja a santa Trindade, irmã de Nossa Senhora

Chamar á Santissima Trindade irmã de Nossa Senhora não é menor desacerto do que chamar reverendo ao rei.

Mas tudo isto denuncía que entre Frei Bartholomeu dos Martyres e o arcebispo D. Antonio Honorato o Alto Minho tem continuado a dormir, sobre as coisas da religião como sobre tudo o mais, e que, surprehendido pelos foguetes dos ultimos dias, accordou estrenoitado, confundindo a personificação do primeiro poder do estado com o maior poder que o serrano minhoto tem conhecido até hoje: o clero.

Porque a verdade é que justiças de el-rei não são conhecidas no Alto Minho, nem lá chega a irradiação constitucional do grande foco da administração publica chamado governo.

Não se lembram do livro de D. Antonio da Costa, intitulado No Minho? Pois elle lá descreve a communa de S. Miguel de Entre os Rios, que ao nascente prende com o Gerez e ao norte com o Suajo.

A freguezia está dividida em cantões, governados por um juiz que os habitantes elegem d'entre si. O povo entrega ao juiz a carrapita (o busio), e quando o juiz entende que é preciso reunir assembléa geral, para tomar qualquer deliberação, convoca o povo tocando o busio.

Então, de todas as casas principiam a sahir os homens vestidos de burel, com calções, polainas e barrete, as mulheres vestidas de lã, colletes curtos, cabello cortado, lenço de linho na cabeça, e, assim reunida a communa, resolve, como outr'ora faziam os lusitanos e como ainda hoje costumam fazer os bascos, representantes dos primitivos iberos.

Eu digo francamente que, se não existisse o Gerez, teria sido conveniente invental-o, a fim de que el-rei o podesse visitar; como Potemkin inventou, para illudir Catharina II, panoramas phantasticos ao longo das desoladas steppes da Russia.

Fizessem muito embora um Gerez de lona, comtanto que o povoassem com os bons serranos do Minho, que fallam ao rei com o coração nas mãos calosas, ao contrario dos cortezãos de Lisboa, que fallam ao rei com o coração nos giolhos postos em terra.

Os de lá curvam-se ao snr. D. Luiz como se curvavam ao arcebispo D. Frei Bartholomeu dos Martyres, cheios de sincera reverencia e de humildade respeitosa. Os de cá curvam-se para que as dadivas do rei lhes possam acertar mais facilmente nas mãos abertas. A distancia moral não é menor do que a que geographicamente existe entre o Gerez e Lisboa.

O rei tem agora visto o que talvez ignorava,—que ha homens bons no Alto Minho, de uma innocencia paradisiaca, que se governam sem incommodar o governo, e que cantam lôas á realeza sem rima, mas tambem sem interesse.

D'isto só no Gerez!

XI

No harem de Marrocos

(Outubro de 1867)

A doença do sultão de Marrocos, Muley Hassan, envolve-se n'um veu romantico, através de cuja gaze a imprensa europêa tem descoberto uma intriga de serralho.

O sultão, que, de resto, parece revelar maiores tendencias para cultivar a monogamia do que o harem, affeiçoou-se a uma só mulher tão absorventemente, que todas as outras, reduzidas a uma ociosidade desprezivel, ter-se-iam lembrado talvez de deitar um veneno qualquer na taça de café do sultão.

Se assim foi, deveria ter havido interessantes e secretos conciliabulos, que os eunuchos, apesar de toda a sua vigilancia, não lograriam surprehender.

Estou d'aqui a ouvir uma oradora do harem discursando, cheia de indignação, ás suas companheiras de desgraça.

—Senhoras, diria porventura ella, um sultão que não faz uso do seu harem, por amor de uma só mulher, póde ser um bom marido, mas é com certeza um detestavel sultão.

Longos e repetidos apoiados.

—Se Muley Hassan está apaixonado, mande-nos embora, e case. Que fique fazendo uma vidinha santa com a sua querida mulhersinha e os seus meninos; que saia a passeio com a madama pelo braço; que vá orar á mesquita com ella e que, inclusivamente, pegue nos pequenos ao collo servindo de ama sêcca...

Hilaridade geral.

—Mas que seja para nós ama sêcca, como o poderia ser para os seus meninos, não se admitte.

Novos e prolongados applausos.

—Porque a verdade, senhoras, é que nós somos de carne e osso como a favorita, e que o sultão não chega senão para marido...

Uma voz, com sobresalto:

—Silencio!

—O que é?

—Parece-me que vai passando no corredor a ronda dos eunuchos...

A oradora, intrepidamente:

—Deixal-os! Não ha nada que eu repute n'este mundo tão insignificante como um eunucho.

Interrupção:

—Ainda ha alguma coisa mais insignificante talvez.