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Historias Sem Data

Chapter 15: I
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About This Book

A collection of short narratives that move between satirical parable and intimate sketch, frequently adopting a wry, conversational voice. The pieces blend realism and occasional allegory to examine vanity, hypocrisy, self-deception and the moral ambiguities of social life. Concise plots and abrupt reversals foreground psychological observation and irony, privileging implication and moral puzzlement over explicit judgment or neat resolution, and inviting reflection on motive, consequence and human contradiction.

CANTIGA DE ESPONSAES

Imagine a leitora que está em 1813, na egreja do Carmo, ouvindo uma daquellas boas festas antigas, que eram todo o recreio publico e toda a arte musical. Sabem o que é uma missa cantada; podem imaginar o que seria uma missa cantada daquelles annos remotos. Não lhe chamo a attenção para os padres e os sacristães, nem para o sermão, nem para os olhos das moças cariocas, que já eram bonitos nesse tempo, nem para as mantilhas das senhoras graves, os calções, as cabelleiras, as sanefas, as luzes, os incensos, nada. Não fallo sequer da orchestra, que é excellente; limito-me a mostrar-lhes uma cabeça branca, a cabeça desse velho que rege a orchestra, com alma e devoção.

Chama-se Romão Pires; terá sessenta annos, não menos, nasceu no Vallongo, ou por esses lados. É bom musico e bom homem; todos os musicos gostam delle. Mestre Romão é o nome familiar; e dizer{50} familiar e publico era a mesma cousa em tal materia e naquelle tempo. «Quem rege a missa é mestre Romão,»—equivalia a esta outra forma de annuncio, annos depois: «Entra em scena o actor João Caetano»;—ou então: «O actor Martinho cantará uma de suas melhores arias». Era o tempero certo, o chamariz delicado e popular. Mestre Romão rege a festa! Quem não conhecia mestre Romão, com o seu ar circumspecto, olhos no chão, riso triste, e passo demorado? Tudo isso desapparecia á frente da orchestra; então a vida derramava-se por todo o corpo e todos os gestos do mestre; o olhar accendia-se, o riso illuminava-se: era outro. Não que a missa fosse delle; esta, por exemplo, que elle rege agora no Carmo é de José Mauricio; mas elle rege-a com o mesmo amor que empregaria, se a missa fosse sua.

Acabou a festa; é como se acabasse um clarão intenso, e deixasse o rosto apenas allumiado da luz ordinaria. Eil-o que desce do côro, apoiado na bengala; vae á sacristia beijar a mão aos padres e aceita um logar á mesa do jantar. Tudo isso indifferente e calado. Jantou, saiu, caminhou para a rua da Mãi dos Homens, onde reside, com um preto velho, pae José, que é a sua verdadeira mãe, e que neste momento conversa com uma visinha.{51}

—Mestre Romão lá vem, pae José, disse a visinha.

—Eh! eh! adeus, sinhá, até logo.

Pae José deu um salto, entrou em casa, e esperou o senhor, que d'ahi a pouco entrava com o mesmo ar do costume. A casa não era rica naturalmente; nem alegre. Não tinha o menor vestigio de mulher, velha ou moça, nem passarinhos que cantassem, nem flores, nem cores vivas ou jocundas. Casa sombria e nua. O mais alegre era um cravo, onde o mestre Romão tocava algumas vezes, estudando. Sobre uma cadeira, ao pé, alguns papeis de musica; nenhuma d'elle...

Ah! se mestre Romão podesse seria um grande compositor. Parece que ha duas sortes de vocação, as que tem lingua e as que a não tem. As primeiras realisam-se; as ultimas representam uma luta constante e esteril entre o impulso interior e a ausencia de um modo de communicação com os homens. Romão era d'estas. Tinha a vocação intima da musica; trazia dentro de si muitas operas e missas, um mundo de harmonias novas e originaes, que não alcançava exprimir e pôr no papel. Esta era a causa unica da tristeza de mestre Romão. Naturalmente o vulgo não atinava com ella; uns diziam isto, outros{52} aquillo: doença, falta de dinheiro, algum desgosto antigo; mas a verdade é esta:—a causa da melancholia de mestre Romão era não poder compor, não possuir o meio de traduzir o que sentia. Não é que não rabiscasse muito papel e não interrogasse o cravo, durante horas; mas tudo lhe sahia informe, sem idéa nem harmonia. Nos ultimos tempos tinha até vergonha da visinhança, e não tentava mais nada.

E, entretanto, se pudesse, acabaria ao menos uma certa peça, um canto esponsalicio, começado tres dias depois de casado, em 1779. A mulher, que tinha então vinte e um annos, e morreu com vinte e tres, não era muito bonita, nem pouco, mas extremamente sympathica, e amava-o tanto como elle a ella. Tres dias depois de casado, mestre Romão sentiu em si alguma cousa parecida com inspiração. Ideou então o canto esponsalicio, e quiz compol-o; mas a inspiração não pode sahir. Como um passaro que acaba de ser preso, e forceja por transpor as paredes da gaiola, abaixo, acima, impaciente, aterrado, assim batia a inspiração do nosso musico, encerrada n'elle sem poder sair, sem achar uma porta, nada. Algumas notas chegaram a ligar-se; elle escreveu-as; obra de uma folha de papel, não mais. Teimou no dia seguinte, dez dias depois, vinte vezes durante o{53} tempo de casado. Quando a mulher morreu, elle releu essas primeiras notas conjugaes, e ficou ainda mais triste, por não ter podido fixar no papel a sensação da felicidade extincta.

—Pae José, disse elle ao entrar, sinto-me hoje adoentado.

—Sinhô comeu alguma cousa que fez mal...

—Não; já de manhã não estava bom. Vae á botica...

O boticario mandou alguma cousa, que elle tomou á noite; no dia seguinte mestre Romão não se sentia melhor. É preciso dizer que elle padecia do coração:—molestia grave e chronica. Pae José ficou atterrado, quando viu que o incommodo não cedera ao remedio, nem ao repouso, e quiz chamar o medico.

—Para que? disse o mestre. Isto passa.

O dia não acabou peor; e a noite supportou-a elle bem, não assim o preto, que mal pôde dormir duas horas. A visinhança, apenas soube do incommodo, não quiz outro motivo de palestra; os que entretinham relações com o mestre foram visital-o. E diziam-lhe que não era nada, que eram macacoas do tempo; um accrescentava graciosamente que era manha, para fugir aos capotes que o boticario lhe dava no gamão,—outro que eram amores. Mestre{54} Romão sorria, mas comsigo mesmo dizia que era o final.

—Está acabado, pensava elle.

Um dia de manhã, cinco depois da festa, o medico achou-o realmente mal; e foi isso o que elle lhe viu na physionomia por traz das palavras enganadoras:—Isto não é nada; é preciso não pensar em musicas...

Em musicas! justamente esta palavra do medico deu ao mestre um pensamento. Logo que ficou só, com o escravo, abriu a gaveta onde guardava desde 1779 o canto esponsalicio começado. Releu essas notas arrancadas a custo, e não concluidas. E então teve uma idéa singular:—rematar a obra agora, fosse como fosse; qualquer cousa servia, uma vez que deixasse um pouco de alma na terra.

—Quem sabe? Em 1880, talvez se toque isto, e se conte que um mestre Romão...

O principio do canto rematava em um certo ; este , que lhe cahia bem no logar, era a nota derradeiramente escripta. Mestre Romão ordenou que lhe levassem o cravo para a sala do fundo, que dava para o quintal: era-lhe preciso ar. Pela janella viu na janella dos fundos de outra casa dous casadinhos de oito dias, debruçados, com os braços por cima dos{55} hombros, e duas mãos presas. Mestre Romão sorriu com tristeza.

—Aquelles chegam, disse elle, eu saio. Comporei ao menos este canto que elles poderão tocar...

Sentou-se ao cravo; reproduziu as notas e chegou ao la...

Lá, lá, lá...

Nada, não passava adeante. E comtudo, elle sabia musica como gente.

Lá, dó... lá, mi... lá, si, dó, ré... ré... ré...

Impossivel! nenhuma inspiração. Não exigia uma peça profundamente original, mas emfim alguma cousa, que não fosse de outro e se ligasse ao pensamento começado. Voltava ao principio, repetia as notas, buscava rehaver um retalho da sensação estincta, lembrava-se da mulher, dos primeiros tempos. Para completar a illusão, deitava os olhos pela janella para o lado dos casadinhos. Estes continuavam alli, com as mãos presas e os braços passados nos hombros um do outro; a differença é que se miravam agora, em vez de olhar para baixo. Mestre Romão, offegante da molestia e de impaciencia, tornava ao cravo; mas a vista do casal não lhe supprira a inspiração, e as notas seguintes não soavam.

Lá... lá... lá...{56}

Desesperado, deixou o cravo, pegou do papel escripto e rasgou-o. Nesse momento, a moça embebida no olhar do marido, começou a cantarolar á toa, inconscientemente, uma cousa nunca antes cantada nem sabida, na qual cousa um certo trazia apoz si uma linda phrase musical, justamente a que mestre Romão procurára durante annos sem achar nunca. O mestre ouviu-a com tristeza, abanou a cabeça, e á noite expirou.

 

FIM DA CANTIGA DOS ESPONSAES.

{57}

SINGULAR OCCURRENCIA

—Ha occurencias bem singulares. Está vendo aquella dama que vai entrando na egreja da Cruz? Parou agora no adro para dar uma esmola.

—De preto?

—Justamente; lá vai entrando; entrou.

—Não ponha mais na carta. Esse olhar está dizendo que a dama é uma sua recordação de outro tempo, e não ha de ser de muito tempo, a julgar pelo corpo: é moça de truz.

—Deve ter quarenta e seis annos.

—Ah! conservada. Vamos lá; deixe de olhar para o chão, e conte-me tudo. Está viuva, naturalmente?

—Não.

—Bem; o marido ainda vive. É velho?

—Não é casada.

—Solteira?

—Assim, assim. Deve chamar-se hoje D. Maria{58} de tal. Em 1860 florescia com o nome familiar de Marocas. Não era costureira, nem proprietaria, nem mestra de meninas; vá excluindo as profissões e lá chegará. Morava na rua do Sacramento. Já então era esbelta, e, seguramente, mais linda do que hoje; modos sérios, linguagem limpa. Na rua, com o vestido afogado, escorrido, sem espavento, arrastava a muitos, ainda assim.

—Por exemplo, ao senhor.

—Não, mas ao Andrade, um amigo meu, de vinte e seis annos, meio advogado, meio politico, nascido nas Alagoas, e casado na Bahia, d'onde viera em 1859. Era bonita a mulher d'elle, affectuosa, meiga e resignada; quando os conheci, tinham uma filhinha de dois annos.

—Apezar d'isso, a Marocas...?

—É verdade, dominou-o. Olhe, se não tem pressa conto-lhe uma cousa interessante.

—Diga.

—A primeira vez que elle a encontrou, foi á porta da loja Paula Brito, no Rocio. Estava alli viu a distancia uma mulher bonita, e esperou, já alvoraçado, porque elle tinha em alto grau a paixão das mulheres. Marocas vinha andando, parando e olhando como quem procura alguma casa. Defronte da loja{59} deteve-se um instante; depois, envergonhada e a medo, estendeu um pedacinho de papel ao Andrade, e perguntou-lhe onde ficava o numero alli escripto, Andrade disse-lhe que do outro lado do Rocio, e ensinou-lhe a altura provavel da casa. Ella cortejou com muita graça; elle ficou sem saber o que pensasse da pergunta.

—Como eu estou.

—Nada mais simples: Marocas não sabia ler. Elle não chegou a suspeital-o. Viu-a atravessar o Rocio, que ainda não tinha estatua nem jardim, e ir á casa que buscava, ainda assim perguntando em outras. De noite foi ao Gymnasio, dava-se a Dama das Camelias; Marocas estava lá, e, no ultimo acto, chorou como uma criança. Não lhe digo nada; no fim de quinze dias amavam-se loucamente. Marocas despediu todos os seus namorados, e creio que não perdeu pouco; tinha alguns capitalistas bem bons. Ficou só, sosinha, vivendo para o Andrade, não querendo outra affeição, não cogitando de nenhum outro interesse.

—Como a dama das Camelias.

—Justo. Andrade ensinou-lhe a ler. Estou mestre-escola, disse-me elle um dia; e foi então que me contou a anecdota do Rocio. Marocas aprendeu depressa.{60} Comprehende-se; o vexame de não saber, o desejo de conhecer os romances em que elle lhe fallava, e finalmente o gosto de obedecer a um desejo d'elle, de lhe ser agradavel... Não me encobriu nada; contou-me tudo com um riso de gratidão nos olhos, que o senhor não imagina. Eu tinha a confiança de ambos. Jantavamos ás vezes os tres juntos; e... não sei por que negal-o,—algumas vezes os quatro. Não cuide que eram jantares de gente pandega; alegres, mas honestos. Marocas gostava da linguagem afogada, como os vestidos. Pouco a pouco estabeleceu-se intimidade entre nós; ella interrogava-me ácerca da vida do Andrade, da mulher, da filha, dos habitos d'elle, se gostava devéras d'ella, ou se era um capricho, se tivera outros, se era capaz de a esquecer, uma chuva de perguntas, e um receio de o perder, que mostravam a força e a sinceridade da affeição... Um dia, uma festa de S. João, o Andrade acompanhou a familia á Gavea, onde ia assistir a um jantar e um baile; dous dias de ausencia. Eu fui com elles. Marocas, ao despedir-se, recordou a comedia que ouvira algumas semanas antes no Gymnasio—Janto com minha mãi—e disse-me que, não tendo familia para passar a festa de S. João, ia fazer como a Sophia Arnoult da comedia, ia jantar com um retrato;{61} mas não seria o da mãi, porque não tinha, e sim do Andrade. Este dito ia-lhe rendendo um beijo; o Andrade chegou a inclinar-se; ella, porém, vendo que eu estava alli, afastou-o delicadamente com a mão.

—Gosto d'esse gesto.

—Elle não gostou menos. Pegou-lhe na cabeça com ambos as mãos, e, paternalmente, pingou-lhe o beijo na testa. Seguimos para a Gavea. De caminho disse-me a respeito da Marocas as maiores finezas, contou-me as ultimas Moleiras de ambos, fallou-me do projecto que tinha de comprar-lhe uma casa em algum arrabalde, logo que pudesse dispôr de dinheiro; e, de passagem, elogiou a modestia da moça, que não queria receber d'elle mais do que o estrictamente necessario. Ha mais do que isso, disse-lhe eu; e contei-lhe uma cousa que sabia, isto é, que cerca de tres semanas antes, a Marocas empenhára algumas joias para pagar uma conta da costureira. Esta noticia abalou-o muito; não juro, mas creio que ficou com os olhos molhados. Em todo caso, depois de cogitar algum tempo, disse-me que definitivamente ia arranjar-lhe uma casa e pôl-a ao abrigo da miseria. Na Gavea ainda fallámos da Marocas, até que as festas acabaram, e nós voltámos. O Andrade deixou a familia{62} em casa, na Lapa, e foi ao escriptorio aviar alguns papeis urgentes. Pouco depois do meio-dia appareceu-lhe um tal Leandro ex-agente de certo advogado a pedir-lhe, como de costume, dois ou tres mil réis. Era um sugeito réles e vadio. Vivia a explorar os amigos do antigo patrão. Andrade deu-lhe tres mil réis, e, como o visse excepcionalmente risonho, perguntou-lhe se tinha visto passarinho verde. O Leandro piscou os olhos e lambeu os beiços: o Andrade, que dava o cavaco por anedoctas eroticas, perguntou-lhe se eram amores. Elle mastigou um pouco, e confessou que sim.

—Olhe; lá vem ella sahindo: não é ella?

—Ella mesma; afastemo-nos da esquina.

—Realmente, deve ter sido muito bonita. Tem um ar de duqueza.

—Não olhou para cá; não olha nunca para os lados. Vai subir pela rua do Ouvidor...

—Sim, senhor. Comprehendo o Andrade.

—Vamos ao caso. O Leandro confessou que tivera na vespera uma fortuna rara, ou antes unica, uma cousa que elle nunca esperara achar, nem merecia mesmo, porque se conhecia e não passava de um pobre diabo. Mas, emfim, os pobres tambem são filhos de Deus. Foi o caso que, na vespera, perto das{63} dez horas da noite, encontrara no Rocio uma dama vestida com simplicidade, vistosa de corpo, e muito embrulhada n'um chale grande. A dama vinha atraz d'elle, e mais depressa; ao passar rentesinha com elle, fitou-lhe muito os olhos, e foi andando de vagar, como quem espera. O pobre diabo imaginou que era engano de pessoa; confessou ao Andrade que, apezar da roupa simples, viu logo que não era cousa para os seus beiços. Foi andando; a mulher, parada, fitou-o outra vez, mas com tal instancia, que elle chegou a atrever-se um pouco; ella atreveu-se o resto... Ah! um anjo! E que casa, que sala rica! Cousa papafina. E depois o desinteresse... «Olhe, accrescentou elle, para V. S. é que era um bom arranjo.» Andrade abanou a cabeça; não lhe cheirava o comborço. Mas o Leandro teimou; era na rua do Sacramento, numero tantos...

—Não me diga isso!

—Imagine como não ficou o Andrade. Elle mesmo não soube o que fez nem o que disse durante os primeiros minutos, nem o que pensou nem o que sentiu. Afinal teve força para perguntar se era verdade o que estava contando; mas o outro advertiu que não tinha nenhuma necessidade de inventar semelhante cousa; vendo, porém, o alvoroço do Andrade, pediu-lhe{64} segredo, dizendo que elle, pela sua parte, era discreto. Parece que ia sahir; Andrade deteve-o, e propôz-lhe um negocio; propôz-lhe ganhar vinte mil réis.—«Prompto!»—«Dou-lhe vinte mil réis, se você for commigo á casa d'essa moça e disser em presença d'ella que é ella mesma.»

—Oh!

—Não defendo o Andrade; a cousa não era bonita; mas a paixão, n'esse caso, céga os melhores homens. Andrade era digno, generoso, sincero; mas o golpe fora tão profundo, e elle amava-a tanto, que não recuou diante de uma tal vingança.

—O outro aceitou?

—Hesitou um pouco, estou que por medo, não por dignidade; mas vinte mil réis... Poz uma condição: não mettel-o em barulhos... Marocas estava na sala, quando o Andrade entrou. Caminhou para a porta, na intenção de o abraçar; mas o Andrade advertiu-a, com o gesto, que trazia alguem. Depois, fitando-a muito, fez entrar o Leandro; Marocas empallideceu.—«É esta senhora?» perguntou elle.—«Sim, senhor», murmurou o Leandro com voz sumida, porque ha acções ainda mais ignobeis do que o proprio homem que as commette. Andrade abriu a carteira com grande afectação, tirou uma{65} nota de vinte mil réis e deu-lh'a; e, com a mesma affectação, ordenou-lhe que se retirasse. O Leandro sahiu. A scena que se seguiu, foi breve, mas dramatica. Não a soube inteiramente, porque o proprio Andrade é que me contou tudo, e, naturalmente, estava tão atordoado, que muita cousa lhe escapou. Ella não confessou nada; mas estava fóra de si, e, quando elle, depois de lhe dizer as cousas mais duras do mundo, atirou-se para a porta, ella rojou-se-lhe aos pés, agarrou-lhe as mãos, lacrimosa, desesperada, ameaçando matar-se; e ficou atirada ao chão, no patamar da escada; elle desceu vertiginosamente e sahiu.

—Na verdade, um sugeito réles, apanhado na rua; provavelmente eram habitos d'ella?

—Não.

—Não?

—Ouça o resto. De noite seriam oito horas, o Andrade veiu á minha casa, e esperou por mim. Já me tinha procurado tres vezes. Fiquei estupefacto; mas como duvidar, se elle tivera a precaução de levar a prova até á evidencia? Não lhe conto o que ouvi, os planos de vingança, as exclamações, os nomes que lhe chamou, todo o estylo e todo o repertorio d'essas crises. Meu conselho foi que a deixasse; que, afinal,{66} vivesse para a mulher e a filha, a mulher tão boa, tão meiga... Elle concordava, mas tornava ao furor. Do furor passou á duvida; chegou a imaginar que a Marocas, com o fim de o experimentar, inventára o artificio e pagára ao Leandro para vir dizer-lhe aquillo; e a prova é que o Leandro, não querendo elle saber quem era, teimou e lhe disse a casa e o numero. E agarrado a esta inverosimelhança, tentava fugir á realidade; mas a realidade vinha—a pallidez de Marocas, a alegria sincera do Leandro, tudo o que lhe dizia que a aventura era certa. Creio até que elle arrependia-se de ter ido tão longe. Quanto a mim, cogitava na aventura, sem atinar com a explicação. Tão modesta! maneiras tão acanhadas!

—Ha uma phrase de theatro que pode explicar a aventura, uma phrase de Augier, creio eu: «a nostalgia da lama.»

—Acho que não; mas vá ouvindo. Ás dez horas appareceu-nos em casa uma criada de Marocas, uma preta forra, muito amiga da ama. Andava afflicta em procura do Andrade, porque a Marocas, depois de chorar muito, trancada no quarto, sahiu de casa sem jantar, e não voltára mais. Contive o Andrade, cujo primeiro gesto foi para sahir logo. A preta pedia-nos por tudo, que fossemos descobrir a ama.{67} «Não é costume d'ella sahir?» perguntou o Andrade com sarcasmo. Mas a preta disse que não era costume. «Está ouvindo?» bradou elle para mim. Era a esperança que de novo empolgára o coração do pobre diabo. «E hontem?...» disse eu. A preta respondeu que na vespera sim; mas não lhe perguntei mais nada, tive compaixão do Andrade, cuja afflicção crescia, e cujo pundonor ia cedendo diante do perigo. Sahimos em busca da Marocas; fomos a todas as casas em que era possivel encontral-a; fomos á policia; mas a noite passou-se sem outro resultado. De manhã voltámos á policia. O chefe ou um dos delegados, não me lembra, era amigo do Andrade, que lhe contou da aventura a parte conveniente; aliás a ligação do Andrade e da Marocas era conhecida de todos os seus amigos. Pesquizou-se tudo; nenhum desastre se déra durante a noite; as barcas da Praia Grande não viram cahir ao mar nenhum passageiro; as casas de armas não venderam nenhuma; as boticas nenhum veneno. A policia poz em campo todos os seus recursos, e nada. Não lhe digo o estado de afflicção em que o pobre Andrade viveu durante essas longas horas, porque todo o dia se passou em pesquizas inuteis. Não era só a dor de a perder; era tambem o remorso, a duvida, ao menos, da consciencia,{68} em presença de um possivel desastre, que parecia justificar a moça. Elle perguntava-me, a cada passo se não era natural fazer o que fez, no delirio da indignação, se eu não faria a mesma cousa. Mas depois tornava a affirmar a aventura, e provava-me que era verdadeira, com o mesmo ardor com que na vespera tentara provar que era falsa; o que elle queria era acommodar a realidade ao sentimento da occasião.

—Mas, emfim, descobriram a Marocas?

—Estavamos comendo alguma cousa, em um hotel, eram perto de oito horas, quando recebemos noticia de um vestigio:—um cocheiro que levára na vespera uma senhora para o Jardim Botanico, onde ella entrou em uma hospedaria, e ficou. Nem acabámos o jantar; fomos no mesmo carro ao Jardim Botanico. O dono da hospedaria confirmou a versão; accrescentando que a pessoa se recolhera a um quarto, não comera nada desde que chegou na vespera; apenas pediu uma chicara de café; parecia profundamente abatida. Encaminhámo-nos para o quarto; o dono da hospedaria bateu á porta; ella respondeu com voz fraca, e abriu. O Andrade nem me deu tempo de preparar nada; empurrou-me, e cahiram nos braços um do outro. Marocas chorou muito e perdeu os sentidos.{69}

—Tudo se explicou?

—Cousa nenhuma. Nenhum d'elles tornou ao assumpto; livres de um naufragio, não quizeram saber nada da tempestade que os metteu a pique. A reconciliação fez-se depressa. O Andrade comprou-lhe, mezes depois, uma casinha em Catumby; a Marocas deu-lhe um filho, que morreu de dois annos. Quando elle seguia para o norte, em commissão do governo, a affeição era ainda a mesma, posto que os primeiros ardores não tivessem já a mesma intensidade. Não obstante, ella quiz ir tambem; fui eu que a obriguei a ficar. O Andrade contava tornar ao fim de pouco tempo, mas, como lhe disse, morreu na provincia. A Marocas sentiu profundamente a morte, poz luto, e considerou-se viuva; sei que nos tres primeiros annos, ouvia sempre uma missa no dia anniversario. Ha dez annos perdi-a de vista. Que lhe parece tudo isto?

—Realmente, ha occurrencias bem singulares, se o senhor não abusou da minha ingenuidade de rapaz para imaginar um romance...

—Não inventei nada; é a realidade pura.

—Pois, senhor, é curioso. No meio de uma paixão tão ardente, tão sincera... Eu ainda estou na minha; acho que foi a nostalgia da lama.{70}

—Não: nunca a Marocas desceu até os Leandros.

—Então por que desceria n'aquella noite?

—Era um homem que ella suppunha separado, por um abysmo, de todas as suas relações pessoaes; d'ahi a confiança. Mas o acaso, que é um deus e um diabo ao mesmo tempo... Emfim, cousas!

 

FIM DA SINGULAR OCCURRENCIA.

{71}

GALERIA POSTHUMA

I

Não, não se descreve a consternação que produziu em todo o Engenho Velho, e particularmente no coração dos amigos, a morte de Joaquim Fidelis. Nada mais inesperado. Era robusto, tinha saude de ferro, e ainda na vespera fôra a um baile, onde todos o viram conversado e alegre. Chegou a dansar, a pedido de uma senhora sexagenaria, viuva de um amigo d'elle, que lhe tomou do braço, e lhe disse:

—Venha cá, venha cá, vamos mostrar a estes criançolas como é que os velhos são capazes de desbancar tudo.

Joaquim Fidelis protestou sorrindo; mas obedeceu e dansou. Eram duas horas quando sahiu, embrulhando os seus sessenta annos n'uma capa grossa,—estavamos em junho de 1879—mettendo a calva na{72} carapuça, accendendo um charuto, e entrando lepidamente no carro.

No carro é possivel que conchilasse; mas, em casa, máu grado a hora e o grande peso das palpebras, ainda foi a secretária, abriu uma gaveta, tirou um de muitos folhetos manuscriptos,—e escreveu durante tres ou quatro minutos umas dez ou onze linhas. As ultimas palavras eram estas: «Em summa, baile chinfrim; uma velha gaiteira obrigou-me a dansar uma quadrilha; á porta um crioulo pediu-me as festas. Chinfrim!» Guardou o folheto, despiu-se, metteu-se na cama, dormiu e morreu.

Sim, a noticia consternou a todo o bairro. Tão amado que elle era, com os modos bonitos que tinha, sabendo conversar com toda a gente, instruido com os instruidos, ignorante com os ignorantes, rapaz com os rapazes, e até moça com as moças. E depois, muito serviçal, prompto a escrever cartas, a fallar a amigos, a concertar brigas, a emprestar dinheiro. Em casa d'elle reuniam-se á noite alguns intimos da visinhança, e ás vezes de outros bairros; jogavam o voltarete ou o whist, fallavam de politica. Joaquim Fidelis tinha sido deputado até á dissolução da camara pelo marquez de Olinda, em 1863. Não conseguindo ser reeleito, abandonou a vida publica. Era{73} conservador, nome que a muito custo admittiu, por lhe parecer gallicismo politico. Saquarema é o que elle gostava de ser chamado. Mas abriu mão de tudo; parece até que nos ultimos tempos desligou-se do proprio partido, e afinal da mesma opinião. Ha razões para crêr que, de certa data em diante, foi um profundo sceptico, e nada mais.

Era rico e lettrado. Formára-se em direito no anno de 1842. Agora não fazia nada e lia muito. Não tinha mulheres em casa. Viuvo desde a primeira invasão da febre amarella, recusou contrahir segundas nupcias, com grande magoa de tres ou quatro damas, que nutriram essa esperança durante algum tempo. Uma d'ellas chegou a prorogar perfidamente os seus bellos cachos de 1845 até meiados do segundo neto; outra, mais moça e tambem viuva, pensou retel-o com algumas concessões, tão generosas quão irreparaveis. «Minha querida Leocadia, dizia elle nas occasiões em que ella insinuava a solução conjugal, por que não continuaremos assim mesmo? O mysterio é o encanto da vida.» Morava com um sobrinho, o Benjamim, filho de uma irmã, orphão desde tenra idade. Joaquim Fidelis deu-lhe educação e fel-o estudar, até obter diploma de bacharel em sciencias juridicas, no anno de 1877.{74}

Benjamim ficou atordoado. Não podia acabar de crer na morte do tio. Correu ao quarto, achou o cadaver na cama, frio, olhos abertos, e um leve arregaço ironico ao canto esquerdo da boca. Chorou muito e muito. Não perdia um simples parente, mas um pai, um pai terno, dedicado, um coração unico. Benjamim enxugou, emfim, as lagrimas; e, porque lhe fizesse mal ver os olhos abertos do morto, e principalmente o labio arregaçado, concertou-lhe ambas as cousas. A morte recebeu assim a expressão tragica; mas a originalidade da mascara perdeu-se.

—Não me digam isto! bradava d'ahi a pouco um dos visinhos, Diogo Villares, ao receber noticia do caso.

Diogo Villares era um dos cinco principaes familiares de Joaquim Fidelis. Devia-lhe o emprego que exercia desde 1857. Veiu elle; vieram os outros quatro, logo depois, um a um, estupefactos, incredulos. Primeiro chegou o Elias Xavier, que alcançára por intermedio do finado, segundo se dizia, uma commenda; depois entrou o João Braz, deputado que foi, no regimen das supplencias, eleito com o influxo do Joaquim Fidelis. Vieram, emfim, o Fragoso e o Galdino, que lhe não deviam diplomas, commendas nem empregos, mas outros favores. Ao{75} Galdino adiantou elle alguns poucos capitaes, e ao Fragoso arranjou-lhe um bom casamento... E morto! morto para todo sempre! De redor da cama, fitavam o rosto sereno e recordavam a ultima festa, a do outro domingo, tão intima, tão expansiva! E, mais perto ainda, a noite da ante-vespera, em que o voltarete do costume foi até ás onze horas.

—Amanhã não venham, disse-lhes o Joaquim Fidelis; vou ao baile do Carvalhinho.

—E depois?...

—Depois de amanhã, cá estou.

E, á sahida, deu-lhes ainda um maço de excellentes charutos, segundo fazia ás vezes, com um accrescimo de doces seccos para os pequenos, e duas ou tres pilherias finas... Tudo esvaido! tudo disperso! tudo acabado!

Ao enterro acudiram muitas pessoas gradas, dous senadores, um ex-ministro, titulares, capitalistas, advogados, commerciantes, medicos; mas as argolas do caixão foram seguras pelos cinco familiares e o Benjamim. Nenhum d'elles quiz ceder a ninguem esse ultimo obsequio, considerando que era um dever cordial e intransferivel. O adeus do cemiterio foi proferido pelo João Braz, um adeus tocante, com algum excesso de estylo para um caso tão urgente,{76} mas, emfim, desculpavel. Deitada a pá de terra, cada um se foi arredando da cova, menos os seis, que assistiram ao trabalho posterior e indifferente dos coveiros. Não arredaram pé antes de vêr cheia a cova até acima, e depositadas sobre ellas as coroas funebres.

II

A missa do setimo dia reuniu-os na igreja. Acabada a missa, os cinco amigos acompanharam á casa o sobrinho do morto. Benjamim convidou-os a almoçar.

—Espero que os amigos do tio Joaquim serão tambem meus amigos, disse elle.

Entraram, almoçaram. Ao almoço fallaram do morto; cada um contou uma anecdota, um dito; eram unanimes no louvor e nas saudades. No fim do almoço, como tivessem pedido uma lembrança do finado, passaram ao gabinete, e escolheram á vontade, este uma canneta velha, aquelle uma caixa de oculos, um folheto, um retalho qualquer intimo, Benjamim sentia-se consolado. Communicou-lhes que pretendia conservar o gabinete tal qual estava.{77} Nem a secretária abrira ainda. Abriu-a então, e, com elles, inventariou o conteudo de algumas gavetas. Cartas, papeis soltos, programmas de concertos, menus de grandes jantares, tudo alli estava de mistura e confusão. Entre outras cousas acharam alguns cadernos manuscriptos, numerados e datados.

—Um diario! disse Benjamim.

Com effeito, era um diario das impressões do finado, especie de memorias secretas, confidencias do homem a si mesmo. Grande foi a commoção dos amigos; lêl-o era ainda conversal-o. Tão recto caracter! tão discreto espirito! Benjamim começou a leitura; mas a voz embargou-se-lhe depressa, e João Braz continuou-a.

O interesse do escripto adormeceu a dor do obito. Era um livro digno do prelo. Muita observação politica e social, muita reflexão philosophica, anecdotas de homens publicos, do Feijó, do Vasconcellos, outras puramente galantes, nomes de senhoras, o da Leocadia, entre outros; um repertorio de factos e commentarios. Cada um admirava o talento do finado, as graças do estylo, o interesse da materia. Uns opinavam pela impressão typographica; Benjamim dizia que sim, com a condição de excluir alguma cousa, ou inconveniente ou demasiado particular.{78} E continuavam a ler, saltando pedaços e paginas, até que bateu meio-dia. Levantaram-se todos; Diogo Villares ia já chegar á repartição fóra de horas; João Braz e Elias tinham onde estar juntos. Galdino seguia para a loja. O Fragoso precisava mudar a roupa preta, e acompanhar a mulher á rua do Ouvidor. Concordaram em nova reunião para proseguir a leitura. Certas particularidades tinham-lhes dado uma comichão de escandalo, e as comichões coçam-se: é o que elles queriam fazer, lendo.

—Até amanhã, disseram.

—Até amanhã.

Uma vez só, Benjamim continuou a lêr o manuscripto. Entre outras cousas, admirou o retrato da viuva Leocadia, obra-prima de paciencia e semelhança, embora a data coincidisse com a dos amores. Era prova de uma rara isenção de espirito. De resto, o finado era eximio nos retratos. Desde 1873 ou 1874, os cadernos vinham cheios d'elles, uns de vivos, outros de mortos, alguns de homens publicos, Paula Souza, Aureliano, Olinda, etc. Eram curtos e substanciaes, ás vezes trez ou quatro rasgos firmes, com tal fidelidade e perfeição, que a figura parecia photographada. Benjamim ia lendo; de repente deu{79} com o Diogo Villares. E leu estas poucas linhas:

«DIOGO VILLARES.—Tenho-me referido muitas vezes a este amigo, e fal-o-hei algumas outras mais, se elle me não matar de tedio, cousa em que o reputo profissional. Pediu-me ha annos que lhe arranjasse um emprego, e arranjei-lh'o. Não me avisou da moeda em que me pagaria. Que singular gratidão! Chegou ao excesso de compor um soneto e publical-o. Fallava-me do obsequio a cada passo, dava-me grandes nomes; emfim, acabou. Mais tarde relacionámo-nos intimamente. Conheci-o então ainda melhor. C'est le genre ennuyeux. Não é mau parceiro de voltarete. Dizem-me que não deve nada a ninguem. Bom pai de familia. Estupido e credulo. Com intervallo de quatro dias, já lhe ouvi dizer de um ministerio que era excellente e detestavel:—differença dos interlocutores. Ri muito e mal. Toda a gente, quando o vê pela primeira vez, começa por suppol-o um varão grave; no segundo dia dá-lhe piparotes. A razão é a figura, ou, mais particularmente, as bochechas, que lhe emprestam um certo ar superior.»

A primeira sensação do Benjamim foi a do perigo evitado. Se o Diogo Villares estivesse alli? Releu o retrato e mal podia crer; mas não havia negal-o,{80} era o proprio nome do Diogo Villares, era a mesma lettra do tio. E não era o unico dos familiares; folheou o manuscripto e deu com o Elias:

«ELIAS XAVIER.—Este Elias é um espirito subalterno, destinado a servir alguem, e a servir com desvanecimento, como os cocheiros de casa elegante. Vulgarmente trata as minhas visitas intimas com alguma arrogancia e desdem: politica de lacaio ambicioso. Desde as primeiras semanas, comprehendi que elle queria fazer-se meu privado; e não menos comprehendi que, no dia que realmente o fosse, punha os outros no meio da rua. Ha occasiões em que me chama a um vão da janella para fallar-me secretamente do sol e da chuva. O fim claro é incutir nos outros a suspeita de que ha entre nós cousas particulares, e alcança isso mesmo, porque todos lhe rasgam muitas cortezias. É intelligente, risonho e fino. Conversa muito bem. Não conheço comprehensão mais rapida. Não é poltrão nem maldizente. Só falla mal de alguem, por interesse; faltando-lhe interesse, cala-se; e a maledicencia legitima é gratuita. Dedicado e insinuante. Não tem idéas, é verdade; mas ha esta grande differença entre elle e o Diogo Villares:—o Diogo repete prompta e boçalmente as que ouve, ao passo que o Elias sabe fazel-as{81} suas e plantal-as opportunamente na conversação. Um caso de 1865 caracterisa bem a astucia d'este homem. Tendo dado alguns libertos para a guerra do Paraguay, ia receber uma commenda. Não precisava de mim; mas veiu pedir a minha intercessão, duas ou tres vezes, com um ar consternado e supplice. Fallei ao ministro, que me disse:—«O Elias já sabe que o decreto está lavrado; falta só a assignatura do imperador.» Comprehendi então que era um estratagema para poder confessar-me essa obrigação. Bom parceiro de voltarete; um pouco brigão, mas entendido.»

—Ora o tio Joaquim! exclamou Benjamim levantando-se. E depois de alguns instantes, reflexionou comsigo:—Estou lendo um coração, livro inedito. Conhecia a edição publica, revista e expurgada. Este é o texto primitivo e interior, a lição exacta e authentica. Mas quem imaginaria nunca... Ora o tio Joaquim!

E, tornando a sentar-se, releu tambem o retrato do Elias, com vagar, meditando as feições. Posto lhe faltasse observação, para avaliar a verdade do escripto, achou que em muitas partes, ao menos, o retrato era semelhante. Cotejava essas notas iconographicas, tão cruas, tão seccas, com as maneiras cordiaes e{82} graciosas do tio, e sentia-se tomado de um certo terror e mau-estar. Elle, por exemplo, que teria dito delle o finado? Com esta ideia, folheou ainda o manuscripto, passou por alto algumas damas, alguns homens publicos, deu com o Fragoso,—um esboço curto e curtissimo,—logo depois o Galdino, e quatro paginas adiante o João Braz. Justamente o primeiro levára delle uma caneta, pouco antes, talvez a mesma com que o finado o retratára. Curto era o esboço, e dizia assim:

«FRAGOSO.—Honesto, maneiras assucaradas e bonito. Não me custou casal-o; vive muito bem com a mulher. Sei que me tem uma extraordinaria adoração,—quasi tanta como a si mesmo. Conversação vulgar, polida e chocha.»

«GALDINO MADEIRA.—O melhor coração do mundo e um caracter sem macula; mas as qualidades do espirito destroem as outras. Emprestei-lhe algum dinheiro, por motivo da familia, e porque me não fazia falta. Ha no cerebro d'elle um certo furo, por onde o espirito escorrega e cai no vacuo. Não reflecte tres minutos seguidos. Vive principalmente de imagens, de phrases translatas. Os «dentes da calumnia» e outras expressões, surradas como colchões de hospedaria, são os seus encantos. Mortifica-se{83} facilmente no jogo, e, uma vez mortificado, faz timbre em perder, e em mostrar que é de proposito. Não despede os maus caixeiros. Se não tivesse guarda-livros, é duvidoso que sommasse os quebrados. Um subdelegado, meu amigo, que lhe deveu algum dinheiro, durante dous annos, dizia-me com muita graça, que o Galdino quando o via na rua, em vez de lhe pedir a divida, pedia-lhe noticias do ministerio.»

«JOÃO BRAZ.—Nem tolo nem bronco. Muito attencioso, embora sem maneiras. Não póde ver passar um carro de ministro; fica pallido e vira os olhos. Creio que é ambicioso; mas na edade em que está, sem carreira, a ambição vai-se-lhe convertendo em inveja. Durante os dois annos em que serviu de deputado, desempenhou honradamente o cargo: trabalhou muito, e fez alguns discursos bons, não brilhantes, mas solidos, cheios de factos e reflectidos. A prova de que lhe ficou um residuo de ambição, é o ardor com que anda á cata de alguns cargos honorificos ou preeminentes; ha alguns mezes consentiu em ser juiz de uma irmandade de S. José, e segundo me dizem, desempenha o cargo com um zelo exemplar. Creio que é atheu, mas não affirmo. Ri pouco e discretamente. A vida é pura e severa, mas o caracter{84} tem uma ou duas cordas fraudulentas, a que só faltou a mão do artista; nas cousas minimas, mente com facilidade.»

Benjamim, estupefacto, deu emfim comsigo mesmo.—«Este meu sobrinho, dizia o manuscripto, tem vinte e quatro annos de edade, um projecto de reforma judiciaria, muito cabello, e ama-me. Eu não o amo menos. Discreto leal e bom,—bom até á credulidade. Tão firme nas affeições como versatil nos pareceres. Superficial, amigo de novidades, amando no direito o vocabulario e as formulas.»

Quiz reler, e não pôde; essas poucas linhas davam-lhe a sensação de um espelho. Levantou-se, foi á janella, mirou a chacara e tornou dentro para contemplar outra vez as suas feições. Contemplou-as; eram poucas, falhas, mas não pareciam calumniosas. Se alli estivesse um publico, é provavel que a mortificação do rapaz fosse menor, porque a necessidade de dissipar a impressão moral dos outros dar-lhe-ia a força necessaria para reagir contra o escripto; mas, a sós, comsigo, teve de supportal-o sem contraste. Então considerou se o tio não teria composto essas paginas nas horas de máu humor; comparou-as a outras em que a phrase era menos aspera, mas não cogitou se alli a brandura vinha ou não de molde.{85}

Para confirmar a conjectura, recordou as maneiras usuaes do finado, as horas de intimidade e riso, a sós com elle, ou de palestra com os demais familiares. Evocou a figura do tio, com o olhar espirituoso e meigo, e a pilheria grave; em logar d'essa, tão candida e sympathica, a que lhe appareceu foi a do tio morto, estendido na cama, com os olhos abertos e o labio arregaçado. Sacudiu-a do espirito, mas a imagem ficou. Não podendo rejeital-a, Benjamim tentou mentalmente fechar-lhe os olhos e concertar-lhe a bocca; mas tão depressa o fazia, como a palpebra tornava a levantar-se, e a ironia arregaçava o beiço. Já não era o homem, era o auctor do manuscripto.

Benjamim jantou mal e dormiu mal. No dia seguinte, á tarde, apresentaram-se os cinco familiares para ouvir a leitura. Chegaram sofregos, anciosos; fizera-lhe muitas perguntas; pediram-lhe com instancia para ver o manuscripto. Mas Benjamim tergiversava, dizia isto e aquillo, inventava pretextos; por mal de peccados, appareceu-lhe na sala, por traz d'elles, a eterna bocca do defunto, e esta circumstancia fel-o ainda mais acanhado. Chegou a mostrar-se frio, para ficar só, e ver se com elles desapparecia a visão. Assim se passaram trinta a quarenta minutos. Os cinco olharam emfim uns para os outros, e deliberaram{86} sahir; despediram-se ceremoniosamente, e foram conversando, para suas casas:

—Que differença do tio! que abysmo! a herança enfunou-o! deixal-o! ah! Joaquim Fidelis! ah! Joaquim Fidelis!

 

FIM DA GALERIA POSTHUMA.

{87}

CAPITULO DOS CHAPÉOS

GÉRONTE

Dans quel chapitre, s'il vous plait?

SCAGNARELLE

Dans le chapitre des chapeaux.

MOLIÈRE.

Musa, canta o despeito de Marianna, esposa do bacharel Conrado Seabra, naquella manhã de abril de 1879. Qual a causa de tamanho alvoroço? Um simples chapéo, leve, não deselegante, um chapéo baixo. Conrado, advogado, com escriptorio na rua da Quitanda, trazia-o todos os dias á cidade, ia com elle ás audiencias; só não o levava ás recepções, theatro lyrico, enterros e visitas de ceremonia. No mais era constante, e isto desde cinco ou seis annos, que tantos eram os do casamento. Ora, naquella singular manhã de abril, acabado o almoço, Conrado começou a enrolar um cigarro, e Marianna annunciou sorrindo que ia pedir-lhe uma cousa.{88}

—Que é, meu anjo?

—Você é capaz de fazer-me um sacrificio?

—Dez, vinte...

—Pois então não vá mais á cidade com aquelle chapéo.

—Porque? é feio?

—Não digo que seja feio; mas é cá para fóra, para andar na visinhança, á tarde ou á noite, mas na cidade, um advogado, não me parece que...

—Que tolice, yayá!

—Pois sim, mas faz-me este favor, faz?

Conrado riscou um phosphoro, accendeu o cigarro, e fez-lhe um gesto de gracejo, para desconversar; mas a mulher teimou. A teima, a principio frouxa e supplice, tornou-se logo imperiosa e aspera. Conrado ficou espantado. Conhecia a mulher; era, de ordinario, uma creatura passiva, meiga, de uma plasticidade de encommenda, capaz de usar com a mesma divina indifferença tanto um diadema régio como uma touca. A prova é que, tendo tido uma vida de andarilha nos ultimos dous annos de solteira, tão depressa casou como se affez aos habitos quietos. Sahia ás vezes, e a maior parte dellas por instancias do proprio consorte; mas só estava commodamente em casa. Moveis, cortinas, ornatos suppriam-lhe os{89} filhos; tinha-lhes um amor de mãe; e tal era a concordancia da pessoa com o meio, que ella saboreava os trastes na posição occupada, as cortinas com as dobras do costume, e assim o resto. Uma das tres janellas, por exemplo, que davam para a rua vivia sempre meia aberta; nunca era outra. Nem o gabinete do marido escapava ás exigencias monotonas da mulher, que mantinha sem alteração a desordem dos livros, e até chegava a restaural-a. Os habitos mentaes seguiam a mesma uniformidade. Marianna dispunha de mui poucas noções, e nunca lêra se não os mesmos livros:—a Moreninha de Macedo, sete vezes; Ivanhoe e o Pirata de Walter Scott, dez vezes; o Mot de l'enigme, de Madame Craven, onze vezes.

Isto posto, como explicar o caso do chapéo? Na vespera, á noite, emquanto o marido fôra a uma sessão do Instituto da Ordem dos Advogados, o pae de Marianna veiu á casa d'elles. Era um bom velho, magro, pausado, ex-funccionario publico, ralado de saudades do tempo em que os empregados iam de casaca para as suas repartições. Casaca era o que elle, ainda agora, levava aos enterros, não pela razão que o leitor suspeita, a solemnidade da morte ou a gravidade da despedida ultima, mas por esta menos{90} philosophica, por ser um costume antigo. Não dava outra, nem da casaca nos enterros, nem do jantar ás duas horas, nem de vinte usos mais. E tão afferrado aos habitos, que no anniversario do casamento da filha, ia para lá ás seis horas da tarde, jantado e diggerido, via comer, e no fim acceitava um pouco de doce, um calix de vinho e café. Tal era o sogro de Conrado; como suppor que elle approvasse o chapéo baixo do genro? Supportava-o calado, em attenção ás qualidades da pessoa; nada mais. Acontecera-lhe, porém, naquelle dia, vel-o de relance na rua, de palestra com outros chapéos altos de homens publicos, e nunca lhe pareceu tão torpe. De noite, encontrando a filha sosinha, abriu-lhe o coração; pintou-lhe o chapéo baixo como a abominação das abominações, e instou com ella para que o fizesse desterrar.

Conrado ignorava essa circumstancia, origem do pedido. Conhecendo a docilidade da mulher, não entendeu a resistencia; e, porque era autoritario, e voluntarioso, a teima veiu irrital-o profundamente. Conteve-se ainda assim; preferiu mofar do caso; fallou-lhe com tal ironia e desdém, que a pobre dama sentiu-se humilhada. Marianna quiz levantar-se duas vezes; elle obrigou-a a ficar, a primeira pegando-lhe{91} levemente no pulso, a segunda subjugando-a com o olhar. E dizia sorrindo:

—Olhe, yayá, tenho uma razão philosophica para não fazer o que você me pede. Nunca lhe disse isto; mas já agora confio-lhe tudo.

Marianna mordia o labio, sem dizer mais nada; pegou de uma faca, e entrou a bater com ella devagarinho para fazer alguma cousa; mas, nem isso mesmo consentiu o marido, que lhe tirou a faca delicadamente, e continuou:

—A escolha do chapéo não é uma acção indifferente, como você póde suppor; é regida por um principio metaphysico. Não cuide que quem compra um chapéo exerce uma acção voluntária e livre; a verdade é que obedece a um determinismo obscuro. A illusão da liberdade existe arraigada nos compradores, e é mantida pelos chapelleiros que, ao verem um freguez ensaiar trinta ou quarenta chapéos, e sair sem comprar nenhum, imaginam que elle está procurando livremente uma combinação elegante. O principio metaphysico é este:—o chapéo é a integração do homem, um prolongamento da cabeça, um complemento decretado ab eterno; ninguem o póde trocar sem mutilação. É uma questão profunda que ainda não occorreu a ninguem. Os sabios tem estudado{92} tudo desde o astro até o verme, ou, para exemplificar bibliographicamente, desde Laplace... Você nunca leu Laplace? desde Laplace e a Mecanica Celeste até Darwin e o seu curioso livro das Minhocas, e, entretanto, não se lembraram ainda de parar deante do chapéo e estudal-o por todos os lados. Ninguem advertiu que ha uma metaphysica do chapéo. Talvez eu escreva uma memoria a este respeito. São nove horas e tres quartos; não tenho tempo de dizer mais nada; mas você reflicta comsigo, e verá... Quem sabe? póde ser até que nem mesmo o chapéo seja complemento do homem, mas o homem do chapéo...

Marianna venceu-se afinal, e deixou a mesa. Não entendera nada d'aquella nomenclatura aspera nem da singular theoria; mas sentiu que era um sarcasmo, e, dentro de si, chorava de vergonha. O marido subiu para vestir-se; desceu d'ahi a alguns minutos, e parou deante della com o famoso chapéo na cabeça. Marianna achou-lh'o, na verdade, torpe, ordinario, vulgar, nada serio. Conrado despediu-se ceremoniosamente e sahiu.

A irritação da dama tinha afrouxado muito; mas, o sentimento de humiliação subsistia. Marianna não chorou, não clamou, como suppunha que ia fazer; mas, comsigo mesma, recordou a simplicidade do{93} pedido, os sarcasmos de Conrado, e, posto reconhecesse que fôra um pouco exigente, não achava justificação para taes excessos. Ia de um lado para outro, sem poder parar; foi á sala de visitas, chegou á janella meia aberta, viu ainda o marido, na rua, á espera do bond, de costas para casa, com o eterno e torpissimo chapéo na cabeça. Marianna sentiu-se tomada de odio contra essa peça ridicula; não comprehendia como pudera supportal-a por tantos annos. E relembrava os annos, pensava na docilidade dos seus modos, na acquiescencia a todas as vontades e caprichos do marido, e perguntava a si mesma se não seria essa justamente a causa do excesso d'aquella manhã. Chamava-se tola, moleirona; se tivesse feito como tantas outras, a Clara e a Sophia, por exemplo, que tratavam os maridos como elles deviam ser tratados, não lhe aconteceria nem metade nem uma sombra do que lhe aconteceu. De reflexão em reflexão, chegou á ideia de sahir. Vestiu-se, e foi á casa da Sophia, uma antiga companheira de collegio, com o fim de espairecer, não de lhe contar nada.

Sophia tinha trinta annos, mais dous que Marianna. Era alta, forte, muito senhora de si. Recebeu a amiga com as festas do costume; e, posto que esta lhe não dissesse nada, adivinhou que trazia um desgosto{94} e grande. Adeus, planos de Marianna! D'ahi a vinte minutos contava-lhe tudo. Sophia riu della, sacudiu os hombros; disse-lhe que a culpa não era do marido.

—Bem sei, é minha, concordava Marianna.

—Não seja tola, yayá! Você tem sido muito molle com elle. Mas seja forte uma vez; não faça caso; não lhe falle tão cedo; e se elle vier fazer as pazes, diga-lhe que mude primeiro de chapéo.

—Veja você, uma cousa de nada...

—No fim de contas, elle tem muita razão; tanta como outros. Olhe a pamonha da Beatriz; não foi agora para a roça, só porque o marido implicou com um inglez que costumava passar o cavallo de tarde? Coitado do inglez! Naturalmente nem deu pela falta. A gente póde viver bem com seu marido, respeitando-se, não indo contra os desejos um do outro, sem pirraças, nem despotismo. Olhe; eu cá vivo muito bem com o meu Ricardo; temos muita harmonia. Não lhe peço uma cousa que elle me não faça logo; mesmo quando não tem vontade nenhuma, basta que eu feche a cara, obedece logo. Não era elle que teimaria assim por causa de um chapéo! Tinha que vêr! Pois não! Onde iria elle parar! Mudava de chapéo, quer quizesse, quer não.{95}

Marianna ouvia com inveja essa bella definição do socego conjugal. A rebellião de Eva embocava nella os seus clarins; e o contacto da amiga dava-lhe um prurido de independencia e vontade. Para completar a situação, esta Sophia não era só muito senhora de si, mas tambem dos outros; tinha olhos para todos os inglezes, a cavallo ou a pé. Honesta, mas namoradeira; o termo é crú, e não ha tempo de compor outro mais brando. Namorava a torto e a direito, por uma necessidade natural, um costume de solteira. Era o troco miudo do amor, que ella distribuia a todos os pobres que lhe batiam á porta:—um nikel a um, outro a outro; nunca uma nota de cinco mil réis, menos ainda uma apolice. Ora este sentimento caritativo induziu-a a propor á amiga que fossem passear, ver as lojas, contemplar a vista de outros chapéos bonitos e graves. Marianna aceitou; um certo demonio soprava n'ella as furias da vingança. Demais, a amiga tinha o dom de fascinar, virtude de Bonaparte, e não lhe deu tempo de reflectir. Pois sim, iria, estava cançada de viver captiva. Tambem queria gosar um pouco, etc., etc.

Emquanto Sophia foi vestir-se, Marianna deixou-se estar na sala, irrequieta e contente comsigo mesma. Planeou a vida de toda aquella semana,{96} marcando os dias e horas de cada cousa, como n'uma viagem official. Levantava-se, sentava-se, ia á janella, á espera da amiga.

—Sophia parece que morreu, dizia de quando em quando.

De uma das vezes que foi á janella, viu passar um rapaz a cavallo. Não era inglez, mas lembrou-lhe a outra, que o marido levou para a roça, desconfiado de um inglez, e sentiu crescer-lhe o odio contra a raça masculina,—com excepção, talvez, dos rapazes a cavallo. Na verdade, aquelle era affectado demais; esticava a perna no estribo com evidente vaidade das botas, dobrava a mão na cintura, com um ar de figurino. Marianna notou-lhe esses dous defeitos; mas achou que o chapéo resgatava-os; não que fosse um chapéo alto; era baixo, mas proprio do apparelho equestre. Não cobria a cabeça de um advogado indo gravemente para o escriptorio, mas a de um homem que espairecia ou matava o tempo.

Os tacões de Sophia desceram a escada, compassadamente. Prompta! disse ella d'ahi a pouco, ao entrar na sala. Realmente, estava bonita. Já sabemos que era alta. O chapéo augmentava-lhe o ar senhoril; e um diabo de vestido de seda preta, arredondando-lhe as fórmas do busto, fazia-a ainda mais{97} vistosa. Ao pé della, a figura de Marianna desapparecia um pouco. Era preciso attentar primeiro nesta para ver que possuia feições mui graciosas, uns olhos lindos, muita e natural elegancia. O peior é que a outra dominava desde logo; e onde houvesse pouco tempo de as ver, tomava-o Sophia para si. Este reparo seria incompleto, se eu não accrescentasse que Sophia tinha consciencia da superioridade, e que apreciava por isso mesmo as bellezas do genero Marianna, menos derramadas e apparentes. Se é um defeito, não me compete emendal-o.

—Onde vamos nós? perguntou Marianna.

—Que tolice! vamos passear á cidade... Agora me lembro, vou tirar o retrato; depois vou ao dentista. Não; primeiro vamos ao dentista. Você não precisa de ir ao dentista?

—Não.

—Nem tirar o retrato?

—Já tenho muitos. E para que? para dal-o «áquelle senhor»?

Sophia comprehendeu que o resentimento da amiga persistia, e, durante o caminho, tratou de lhe pôr um ou dous bagos mais de pimenta. Disse-lhe que, embora fosse difficil, ainda era tempo de libertar-se. E ensinava-lhe um methodo para subtrahir-se á{98} tyrannia. Não convinha ir logo de um salto, mas de vagar, com segurança, de maneira que elle desse por si quando ella lhe puzesse o pé no pescoço. Obra de algumas semanas, tres a quatro, não mais. Ella, Sophia, estava prompta a ajudal-a. E repetia-lhe que não fosse molle, que não era escrava de ninguem, etc. Marianna ia cantando dentro do coração a marselheza do matrimonio.

Chegaram á rua do Ouvidor. Era pouco mais do meio dia. Muita gente, andando ou parada, o movimento do costume. Marianna sentiu-se um pouco atordoada, como sempre lhe acontecia. A uniformidade e a placidez, que eram o fundo do seu caracter e da sua vida, receberam daquella agitação os repellões do costume. Ella mal podia andar por entre os grupos, menos ainda sabia onde fixasse os olhos, tal era a confusão das gentes, tal era a variedade das lojas. Conchegava-se muito á amiga, e, sem reparar que tinham passado a casa do dentista, ia anciosa de lá entrar. Era um repouso; era alguma cousa melhor do que o tumulto.

—Esta rua do Ouvidor! ia dizendo.

—Sim? respondia Sophia, voltando a cabeça para ella e os olhos para um rapaz que estava na outra calçada.{99}

Sophia, prática daquelles mares, transpunha, rasgava ou contornava as gentes com muita pericia e tranquillidade. A figura impunha; os que a conheciam gostavam de vel-a outra vez; os que não a conheciam paravam ou voltavam-se para admirar-lhe o garbo. E a boa senhora, cheia de caridade, derramava os olhos á direita e a esquerda, sem grande escandalo, porque Marianna servia a cohonestar os movimentos. Nada dizia seguidamente; parece até que mal ouvia as respostas da outra: mas fallava de tudo, de outras damas que iam ou vinham, de uma loja, de um chapéo... Justamente os chapéos,—de senhora ou de homem,—abundavam naquella primeira hora da rua do Ouvidor.

—Olha este, dizia-lhe Sophia.

E Marianna acudia a vel-os, femininos ou masculinos, sem saber onde ficar, porque os demonios dos chapéos succediam-se como n'um kaleidoscopio. Onde era o dentista? perguntava ella á amiga. Sophia só á segunda vez lhe respondeu que tinham passado a casa; mas já agora iriam até ao fim da rua; voltariam depois. Voltaram finalmente.

—Uf! respirou Marianna entrando no corredor.

—Que é, meu Deus? Ora você! Parece da roça... A sala do dentista tinha já algumas freguezas.{100} Marianna não achou entre ellas uma só cara conhecida, e para fugir ao exame das pessoas estranhas, foi para a janella. Da janella podia gozar a rua, sem atropello. Recostou-se; Sophia veiu ter com ella. Alguns chapéos masculinos, parados, começaram a fital-as; outros, passando, faziam a mesma cousa. Marianna aborreceu-se da insistencia; mas, notando que fitavam principalmente a amiga, dissolveu-se-lhe o tédio n'uma especie de inveja. Sophia, entretanto, contava-lhe a historia de alguns chapéos,—ou, mais correctamente, as aventuras. Um delles merecia os pensamentos de Fulana; outro andava derretido por Sicrana, e ella por elle, tanto que eram certos na rua do Ouvidor ás quartas e sabbados, entre duas e tres horas. Marianna ouvia aturdida. Na verdade, o chapéo era bonito, trazia uma linda gravata, e possuia um ar entre elegante e pelintra, mas...

—Não juro, ouviu? replicava a outra, mas é o que se diz.

Marianna fitou pensativa o chapéo denunciado. Havia agora mais tres, de egual porte e graça, e provavelmente os quatro fallavam dellas, e fallavam bem. Marianna enrubeceu muito, voltou a cabeça para o outro lado, tornou logo á primeira attitude, e afinal entrou. Entrando, viu na sala duas senhoras{101} recem-chegadas, e com ellas um rapaz que se levantou promptamente e veiu comprimental-a com muita ceremonia. Era o seu primeiro namorado.

Este primeiro namorado devia ter agora trinta e tres annos. Andara por fóra, na roça, na Europa, e afinal na presidencia de uma provincia do sul. Era mediano de estatura, pallido, barba inteira e rara, e muito apertado na roupa. Tinha na mão um chapéo novo, alto, preto, grave, presidencial, administrativo, um chapéo adequado á pessoa e ás ambições. Marianna, entretanto, mal pode vel-o. Tão confusa ficou, tão desorientada com a presença de um homem que conhecera em especiaes circumstancias, e a quem não vira desde 1877, que não pode reparar em nada. Estendeu-lhe os dedos, parece mesmo que murmurou uma resposta qualquer, e ia tornar á janella, quando a amiga sahiu dalli.

Sophia conhecia tambem o recem-chegado. Trocaram algumas palavras. Marianna, impaciente, perguntou-lhe ao ouvido se não era melhor adiar os dentes para outro dia; mas a amiga disse-lhe que não; negocio de meia hora a trez quartos. Marianna sentia-se oppressa: a presença de um tal homem atava-lhe os sentidos, lançava-a na luta e na confusão. Tudo culpa do marido. Se elle não teimasse e não caçoasse com{102} ella, ainda em cima, não aconteceria nada. E Marianna, pensando assim, jurava tirar uma desforra. De memoria contemplava a casa, tão socegada, tão bonitinha, onde podia estar agora, como de costume, sem os safanões da rua, sem a dependencia da amiga...

—Marianna, disse-lhe esta, o Dr. Viçoso teima que está muito magro. Você não acha que está mais gordo do que no anno passado... Não se lembra delle no anno passado?

Dr. Viçoso era o proprio namorado antigo, que palestrava com Sophia, olhando muitas vezes para Marianna. Esta respondeu negativamente. Elle aproveitou a fresta para puxal-a á conversação; disse, que, na verdade, não a vira desde alguns annos. E sublinhava o dito com um certo olhar triste e profundo. Depois abriu o estojo dos assumptos, saccou para fóra o theatro lyrico. Que tal achavam a companhia? Na opinião delle era excellente, menos o barytono; o barytono parecia-lhe cançado. Sophia protestou contra o cançasso do barytono, mas elle insistiu, accrescentando que, em Londres, onde o ouvira pela primeira vez, já lhe parecera a mesma cousa. As damas, sim, senhora; tanto a soprano como a contralto eram de primeira ordem. E fallou{103} das operas, citava os trechos, elogiou a orchestra, principalmente nos Huguenotes... Tinha visto Marianna na ultima noite, no quarto ou quinto camarote da esquerda, não era verdade?

—Fomos, murmurou ella, accentuando bem o plural.

—No Cassino é que a não tenho visto, continuou elle.

—Está ficando um bicho do matto, acudiu Sophia rindo.

Viçoso gostára muito do ultimo baile, e desfiou as suas recordações; Sophia fez o mesmo ás della. As melhores toilettes foram descriptas por ambos com muita particularidade; depois vieram as pessoas, os caracteres, dous ou tres picos de malicia, mas tão anodina, que não fez mal a ninguem. Marianna ouvia-os sem interesse; duas ou tres vezes chegou a levantar-se e ir á janella; mas os chapéos eram tantos e tão curiosos, que ella voltava a sentar-se. Interiormente, disse alguns nomes feios á amiga; não os ponho aqui por não serem necessarios, e, aliás, seria de máu gosto desvendar o que esta moça pôde pensar da outra durante alguns minutos de irritação.

—E as corridas do Jockey-Club? perguntou o ex-presidente.{104}

Marianna continuava a abanar a cabeça. Não tinha ido ás corridas naquelle anno. Pois perdêra muito, a penultima, principalmente; esteve animadissima, e os cavallos eram de primeira ordem. As de Epsom, que elle vira, quando esteve em Inglaterra, não eram melhores do que a penultima do Prado Fluminense. E Sophia dizia que sim, que realmente a penultima corrida honrava o Jockey-Club. Confessou que gostava muito; dava emoções fortes. A conversação descambou em dous concertos daquella semana; depois tomou a barca, subiu a serra e foi a Petropolis, onde dous diplomatas lhe fizeram as despezas da estadia. Como fallassem da esposa de um ministro, Sophia lembrou-se de ser agradavel ao ex-presidente, declarando-lhe que era preciso casar tambem por que em breve estaria no ministerio. Viçoso teve um estremeção de prazer, e sorriu, e protestou que não; depois, com os olhos em Marianna, disse que provavelmente não casaria nunca... Marianna enrubeceu muito e levantou-se.

—Você está com muita pressa, disse-lhe Sophia. Quantas são? continuou voltando-se para Viçoso.

—Perto de tres! exclamou elle.

Era tarde; tinha de ir á camara dos deputados. Foi fallar ás duas senhoras, que acompanhára, e que{105} eram primas suas, e despediu-se; vinha despedir-se das outras, mas Sophia declarou que sahiria tambem. Já agora não esperava mais. A verdade é que a ideia de ir á camara dos deputados começára a faiscar-lhe na cabeça.

—Vamos á camara? propoz ella á outra.

—Não, não, disse Marianna; não posso, estou muito cançada.

—Vamos, um bocadinho só; eu tambem estou muito cançada...

Marianna teimou ainda um pouco; mas teimar contra Sophia,—a pomba discutindo com o gavião,—era realmente insensatez. Não teve remedio, foi. A rua estava agora mais agitada, as gentes iam e vinham por ambas as calçadas, e complicavam-se no cruzamento das ruas. De mais a mais, o obsequioso ex-presidente flanqueiava as duas damas, tendo-se offerecido para arranjar-lhes uma tribuna.

A alma de Marianna sentia-se cada vez mais dilacerada de toda essa confusão de cousas. Perdera o interesse da primeira hora; e o despeito, que lhe dera forças para um vôo audaz e fugidio, começava a afrouxar as azas, ou afrouxara-as inteiramente. E outra vez recordava a casa, tão quieta, com todas as cousas nos seus logares, methodicas, respeitosas umas com as{106} outras, fazendo-se tudo sem atropello, e, principalmente, sem mudança imprevista. E a alma batia o pé raivosa... Não ouvia nada do que o Viçoso ia dizendo, comquanto elle fallasse alto, e muitas cousas fossem ditas para ella. Não ouvia, não queria ouvir nada. Só pedia a Deus que as horas andassem depressa. Chegaram á camara e foram para uma tribuna. O rumor das saias chamou a attenção de uns vinte deputados, que restavam, escutando um discurso de orçamento. Tão depressa o Viçoso pediu licença e sahiu, Marianna disse rapidamente á amiga que não lhe fizesse outra.

—Que outra? perguntou Sophia.

—Não me pregue outra peça como esta de andar de um logar para outro feito maluca. Que tenho eu com a camara? que me importam discursos que não entendo?

Sophia sorriu, agitou o leque e recebeu em cheio o olhar de um dos secretarios. Muitos eram os olhos que a fitavam quando ella ia á camara, mas os do tal secretario tinham uma expressão mais especial, callida e supplice. Entende-se, pois, que ella não o recebeu de sopetão; póde mesmo entender-se que o procurou curiosa. Emquanto acolhia esse olhar legislativo ia respondendo á amiga, com brandura,{107} que a culpa era della, e que a sua intenção era boa, era restituir-lhe a posse de si mesma.

—Mas, se você acha que a aborreço não venha mais commigo, concluiu Sophia.

E, inclinando-se um pouco:

—Olha o ministro da justiça.

Marianna não teve remedio senão ver o ministro da justiça. Este aguentava o discurso do orador, um governista, que provava a conveniencia dos tribunaes correccionaes, e, incidentemente, compendiava a antiga legislação colonial. Nenhum aparte; um silencio resignado, polido, discreto e cauteloso. Marianna passeava os olhos de um lado para outro, sem interesse; Sophia dizia-lhe muitas cousas, para dar saida a uma porção de gestos graciosos. No fim de quinze minutos agitou-se a camara, graças a uma expressão do orador e uma replica da opposição. Trocaram-se apartes, os segundos mais bravos que os primeiros, e seguiu-se um tumulto, que durou perto de um quarto de hora.

Essa diversão não o foi para Marianna, cujo espirito placido e uniforme, ficou atarantado no meio de tanta e tão inesperada agitação. Ella chegou a levantar-se para sair; mas, sentou-se outra vez. Já agora estava disposta a ir ao fim, arrependida e{108} resoluta a chorar só comsigo as suas magoas conjugaes. A duvida começou mesmo a entrar nella. Tinha razão no pedido ao marido; mas era caso de doer-se tanto? era razoavel o espalhafato? Certamente que as ironias delle foram crueis; mas, em summa, era a primeira vez que ella lhe batêra o pé, e, naturalmente, a novidade irritou-o. De qualquer modo porém, fôra um erro ir revelar tudo á amiga. Sophia iria talvez contal-o a outras... Esta ideia trouxe um calafrio a Marianna; a indiscrição da amiga era certa; tinha-lhe ouvido uma porção de historias de chapéos masculinos e femininos, cousa mais grave do que uma simples briga de casados. Marianna sentiu necessidade de lisonjeal-a, e cobriu a sua impaciencia e zanga com uma mascara de docilidade hypocrita. Começou a sorrir tambem, a fazer algumas observações, a respeito de um ou outro deputado, e assim chegaram ao fim do discurso e da sessão.

Eram quatro horas dadas. Toca a recolher, disse Sophia; e Marianna concordou que sim, mas sem impaciencia, e ambas tornaram a subir a rua do Ouvidor. A rua, a entrada no bond, completaram a fadiga do espirito de Marianna, que afinal respirou quando viu que ia caminho de casa. Pouco antes de{109} apear-se a outra, pediu-lhe que guardasse segredo sobre o que lhe contára; Sophia prometteu que sim.

Marianna respirou. A rola estava livre do gavião. Levava a alma doente dos encontrões, vertiginosa da diversidade de cousas e pessoas. Tinha necessidade de equilibrio e saude. A casa estava perto; á medida que ia vendo as outras casas e chacaras proximas, Marianna sentia-se restituida a si mesma. Chegou finalmente; entrou no jardim, respirou. Era aquelle o seu mundo; menos um vaso, que o jardineiro trocára de logar.

—João, bota este vaso onde estava antes, disse ella.

Tudo o mais estava em ordem, a sala de entrada, a de visitas, a de jantar, os seus quartos, tudo. Marianna sentou-se primeiro, em differentes logares, olhando bem para todas as cousas, tão quietas e ordenadas. Depois de uma manhã inteira de perturbação e variedade, a monotonia trazia-lhe um grande bem, e nunca lhe pareceu tão deliciosa. Na verdade, fizera mal... Quiz recapitular os successos e não pode; a alma espreguiçava-se toda naquella uniformidade caseira. Quando muito, pensou na figura do Viçoso, que achava agora ridicula, e era injustiça. Despiu-se lentamente, com amor, indo certeira{110} a cada objecto. Uma vez despida, pensou outra vez na briga com o marido. Achou que, bem pesadas as cousas, a principal culpa era della. Que diabo de teima por causa de um chapéo, que o marido usára ha tantos annos? Tambem o pae era exigente de mais...

—Vou ver a cara com que elle vem, pensou ella.

Eram cinco e meia; não tardaria muito. Marianna foi á sala da frente espiou pela vidraça, prestou o ouvido ao bond, e nada. Sentou-se alli mesmo com o Ivanhoe nas palmas, querendo ler e não lendo nada. Os olhos iam até o fim da pagina, e tornavam ao principio, em primeiro lugar, porque não apanhavam o sentido, em segundo lugar, porque uma ou outra vez desviavam-se para saborear a correcção das cortinas ou qualquer outra feição particular da sala. Santa monotonia, tu a acalentavas no teu regaço eterno.

Emfim, parou um bond; apeou-se o marido; rangeu a porta de ferro do jardim. Marianna foi á vidraça, e espiou. Conrado entrava lentamente, olhando para a direita e a esquerda, com o chapéo na cabeça, não o famoso chapéo do costume, porém outro, o que a mulher lhe tinha pedido de manhã. O espirito de Marianna recebeu um choque violento,{111} egual ao que lhe dera o vaso do jardim trocado,—ou ao que lhe daria uma lauda de Voltaire entre as folhas da Moreninha ou de Ivanhoe... Era a nota desegual no meio da harmoniosa sonata da vida. Não, não podia ser esse chapéo. Realmente, que mania a della exigir que elle deixasse o outro que lhe ficava tão bem? E que não fosse o mais proprio, era o de longos annos; era o que quadrava á physionomia do marido... Conrado entrou por uma porta lateral. Marianna recebeu-o nos braços.

—Então, passou? perguntou elle, emfim, cingindo-lhe a cintura.