WeRead Powered by ReaderPub
Historias Sem Data cover

Historias Sem Data

Chapter 25: CAPITULO IV
Open in WeRead

Explore more books like this:

About This Book

A collection of short narratives that move between satirical parable and intimate sketch, frequently adopting a wry, conversational voice. The pieces blend realism and occasional allegory to examine vanity, hypocrisy, self-deception and the moral ambiguities of social life. Concise plots and abrupt reversals foreground psychological observation and irony, privileging implication and moral puzzlement over explicit judgment or neat resolution, and inviting reflection on motive, consequence and human contradiction.

—Escuta uma cousa, respondeu ella com uma caricia divina, bota fóra esse; antes o outro.

 

FIM DO CAPITULO DOS CHAPÉOS.

{112}
{113}

CONTO ALEXANDRINO

CAPITULO I

NO MAR

—O que, meu caro Stroibus? Não, impossivel. Nunca jámais ninguem acreditará que o sangue de rato, dado a beber a um homem, possa fazer do homem um ratoneiro.

—Em primeiro logar, Pythias, tu omittes uma condição:—é que o rato deve expirar debaixo do escalpello, para que o sangue traga o seu principio. Essa condição é essencial. Em segundo logar, uma vez que me apontas o exemplo do rato, fica sabendo que já fiz com elle uma experiencia, e cheguei a produzir um ladrão...

—Ladrão authentico?

—Levou-me o manto, ao cabo de trinta dias,{114} mas deixou-me a maior alegria do mundo:—a realidade da minha doutrina. Que perdi eu? um pouco de tecido grosso; e que lucrou o universo? a verdade immortal. Sim, meu caro Pythias; esta é a eterna verdade. Os elementos constitutivos do ratoneiro estão no sangue do rato, os do paciente no boi, os do arrojado na aguia...

—Os do sabio na coruja, interrompeu Pythias sorrindo.

—Não; a coruja é apenas um emblema; mas a aranha, se pudessemos transferi-la a um homem, daria a esse homem os rudimentos da geometria e o sentimento musical. Com um bando de cegonhas, andorinhas ou grous, faço-te de um caseiro um viageiro. O principio da fidelidade conjugal está no sangue da rola, o da enfatuação no dos pavões... Em summa, os deuses puzeram nos bichos da terra, da agua e do ar a essencia de todos os sentimentos e capacidades humanas. Os animaes são as letras soltas do alphabeto: o homem é a syntaxe. Esta é a minha philosophia recente; esta é a que vou divulgar na côrte do grande Ptolomeu.

Pythias sacudiu a cabeça, e fixou os olhos no mar. O navio singrava, em direitura a Alexandria, com essa carga preciosa de dous philosophos, que iam{115} levar áquelle regaço do saber os fructos da razão esclarecida. Eram amigos, viuvos e quinquagenarios. Cultivavam especialmente a methaphysica, mas conheciam a physica, a chimica, a medicina e a musica; um d'elles, Stroibus, chegára a ser excellente anatomista, tendo lido muitas vezes os tratados do mestre Herophilo. Chypre era a patria de ambos; mas, tão certo é que ninguem é propheta em sua terra, Chypre não dava o merecido respeito aos dous philosophos. Ao contrario, desdenhava-os; os garotos tocavam ao extremo de rir d'elles. Não foi esse, entretanto, o motivo que os levou a deixar a patria. Um dia, Pythias, voltando de uma viagem, propoz ao amigo irem para Alexandria, onde as artes e as sciencias eram grandemente honradas. Stroibus adheriu, e embarcaram. Só agora, depois de embarcados, é que o inventor da nova doutrina expol-a ao amigo, com todas as suas recentes cogitações e experiencias.

—Está feito, disse Pythias, levantando a cabeça, não affirmo nem nego nada. Vou estudar a doutrina, e se a achar verdadeira, proponho-me a desenvolvel-a e divulgal-a.

—Vive Helios! exclamou Stroibus. Posso contar que és meu discipulo.{116}

CAPITULO II

EXPERIENCIA

Os garotos alexandrinos não trataram os dous sabios com o escarneo dos garotos cypriotas. A terra era grave como a ibis pousada n'uma só pata, pensativa como a sphynge, circumspecta como as mumias, dura como as pyramides; não tinha tempo nem maneira de rir. Cidade e côrte, que desde muito tinham noticia dos nossos dous amigos, fizeram-lhes um recebimento regio, mostraram conhecer seus escriptos, discutiram as suas idéas, mandaram-lhes muitos presentes, papyros, crocodilos, zebras, purpuras. Elles porém, recusaram tudo, com simplicidade, dizendo que a philosophia bastava ao philosopho, e que o superfluo era um dissolvente. Tão nobre resposta encheu de admiração tanto aos sabios como aos principaes e á mesma plebe. E aliás, diziam os mais sagazes, que outra cousa se podia esperar de dous homens tão sublimes, que em seus magnificos tratados...

—Temos cousa melhor do que esses tratados,{117} interrompia Stroibus. Trago uma doutrina, que, em pouco, vai dominar o universo; cuido nada menos que em reconstituir os homens e os Estados, distribuindo os talentos e as virtudes.

—Não é esse o officio dos deuses? objectava um.

—Eu violei o segredo dos deuses, acudia Stroibus. O homem é a syntaxe da natureza, eu descobri as leis da grammatica divina...

—Explica-te.

—Mais tarde; deixa-me experimentar primeiro. Quando a minha doutrina estiver completa, divulgal-a-hei como a maior riqueza que os homens jámais poderão receber de um homem.

Imaginem a expectação publica e a curiosidade dos outros philosophos, embora incredulos de que a verdade recente viesse aposentar as que elles mesmos possuiam. Entretanto, esperavam todos. Os dous hospedes eram apontados na rua até pelas crianças. Um filho meditava trocar a avareza do pai, um pai a prodigalidade do filho, uma dama a frieza de um varão, um varão os desvarios de uma dama, porque o Egypto, desde os Pharaós até aos Lagides, era a terra de Putiphar, da mulher de Putiphar, da capa de José, e do resto. Stroibus tornou-se a esperança da cidade e do mundo.{118}

Pythias, tendo estudado a doutrina, foi ter com Stroibus, e disse-lhe:

—Methaphysicamente, a tua doutrina é um desproposito; mas estou prompto a admittir uma experiencia, comtanto que seja decisiva. Para isto, meu caro Stroibus, ha só um meio. Tu e eu, tanto pelo cultivo da razão como pela rigidez do caracter, somos o que ha mais opposto ao vicio do furto. Pois bem, se conseguires incutir-nos esse vicio, não será preciso mais; se não conseguires nada, (e pódes crel-o, porque é um absurdo) recuarás de semelhante doutrina, e tornarás ás nossas velhas meditações.

Stroibus acceitou a proposta.

—O meu sacrifio é o mais penoso, disse elle, pois estou certo do resultado; mas que não merece a verdade? A verdade é immortal; o homem é um breve momento...

Os ratos egypcios, se pudessem saber de um tal accordo, teriam imitado os primitivos hebreus, acceitando a fuga para o deserto, antes do que a nova philosophia. E podemos crer que seria um desastre. A sciencia, como a guerra, tem necessidades imperiosas; e desde que a ignorancia dos ratos, a sua fraqueza, a superioridade mental e physica dos dois philosophos eram outras tantas vantagens na experiencia{119} que ia começar, cumpria não perder tão boa occasião de saber se efectivamente o principio das paixões e das virtudes humanas estavam distribuidos pelas varias especies de animaes, e se era possivel transmittil-o.

Stroibus engaiolava os ratos; depois, um a um, ia-os sujeitando ao ferro. Primeiro, atava uma tira de panno no focinho do paciente; em seguida, os pés, finalmente, cingia com um cordel as pernas e o pescoço do animal á taboa da operação. Isto feito, dava o primeiro talho no peito, com vagar, e com vagar ia enterrando o ferro até tocar o coração, porque era opinião d'elle que a morte instantanea corrompia o sangue e retirava-lhe o principio. Habil anatomista, operava com uma firmeza digna do proposito scientifico. Outro, menos destro, interromperia muita vez a tarefa, porque as contorsões de dôr e de agonia tornavam difficil o meneio do escalpello; mas essa era justamente a superioridade de Stroibus: tinha o pulso magistral e pratico.

Ao lado d'elle, Pythias aparava o sangue e ajudava a obra, já contendo os movimentos convulsivos do paciente, já espiando-lhe nos olhos o progresso da agonia. As observações que ambos faziam eram notadas em folhas de papyro; e assim ganhava{120} a sciencia de duas maneiras. Ás vezes, por divergencia de apreciação, eram obrigados a escalpellar maior numero de ratos do que o necessario; mas não perdiam com isso, porque o sangue dos excedentes era conservado e ingerido depois. Um só d'esses casos mostrará a consciencia com que elles procediam. Pythias observára que a retina do rato agonisante mudava de côr até chegar ao azul claro, ao passo que a observação de Stroibus dava a côr de canella como o tom final da morte. Estavam na ultima operação do dia; mas o ponto valia a pena, e, não obstante o cansaço, fizeram successivamente desenove experiencias sem resultado definitivo; Pythias insistia pela côr azul, e Stroibus pela côr de canella. O vigesimo rato esteve prestes a pôl-os de accordo, mas Stroibus advertiu, com muita sagacidade, que a sua posição era agora differente, rectificou-a e escalpellaram mais vinte e cinco. D'estes, o primeiro ainda os deixou em duvida; mas os outros vinte e quatro provaram-lhes que a côr final não era canella nem azul, mas um lyrio roxo, tirando a claro.

A descripção exagerada das experimentações deu rebate á porção sentimental da cidade, e excitou a loquella de alguns sophistas; mas o grave Stroibus{121} (com brandura, para não aggravar uma disposição propria da alma humana) respondeu que a verdade valia todos os ratos do universo, e não só os ratos, como os pavões, as cabras, os cães, os rouxinoes, etc.; que, em relação aos ratos, além de ganhar a sciencia, ganhava a cidade, vendo diminuida a praga de um animal tão damninho; e, se a mesma consideração não se dava com outros animaes, como, por exemplo, as rolas e os cães, que elles iam escalpellar d'ahi a tempos, nem por isso os direitos da verdade eram menos imprescriptiveis. A natureza não ha de ser só a mesa de jantar, concluia em fórma de aphorismo, mas tambem a mesa de sciencia.

E continuavam a extrahir o sangue e a bebel-o. Não o bebiam puro, mas diluido em um cosimento de cinamomo, succo de acacia e balsamo, que lhe tirava todo o sabor primitivo. As doses eram diarias e diminutas; tinham, portanto, de aguardar um longo praso antes de produzido o effeito. Pythias, impaciente e incredulo, mofava do amigo.

—Então? nada?

—Espera, dizia o outro, espera. Não se incute um vicio como se cose um par de sandalias.{122}

CAPITULO III

VICTORIA

Emfim, venceu Stroibus! A experiencia provou a doutrina. A Pythias foi o primeiro que deu mostras da realidade do effeito, attribuindo-se umas tres idéas ouvidas ao proprio Stroibus; este, em compensação, furtou-lhe quatro comparações e uma theoria dos ventos. Nada mais scientifico do que essas estréas. As idéas alheias, por isso mesmo que não foram compradas na esquina, trazem um certo ar commum; e é muito natural começar por ellas antes de passar aos livros emprestados, ás gallinhas, aos papeis falsos, ás provincias, etc. A propria denominação de plagio é um indicio de que os homens comprehendem a difficuldade de confundir esse embryão da ladroeira com a ladroeira formal.

Duro é dizel-o; mas a verdade é que elles deitaram ao Nilo a bagagem metaphysica, e dentro de pouco estavam larapios acabados. Concertavam-se de vespera, e iam aos mantos, aos bronzes, ás amphoras de vinho, ás mercadorias do porto, ás boas{123} drachmas. Como furtassem sem estrepito, ninguem dava por elles; mas, ainda mesmo que os suspeitassem, como fazel-o crêr aos outros? Já então Ptolomeu colligira na bibliotheca muitas riquezas e raridades; e, porque conviesse ordenal-as, designou para isso cinco grammaticos e cinco philosophos, entre estes os nossos dous amigos. Estes ultimos trabalharam com singular ardor, sendo os primeiros que entravam e os ultimos que sahiam, e ficando alli muitas noites, ao clarão da lampada, decifrando, colligindo, classificando. Ptolomeu, enthusiasmado, meditava para elles os mais altos destinos.

Ao cabo de algum tempo, começaram a notar-se faltas graves:—um exemplar de Homero, tres rolos de manuscriptos persas, dois de samaritanos, uma soberba collecção de cartas originaes de Alexandre, copias de leis athenienses, o 2º e o 3º livro da Republica de Platão, etc., etc. A auctoridade poz-se á espreita; mas a esperteza do rato, transferida a um organismo superior, era naturalmente maior, e os dois illustres gatunos zombavam de espias e guardas. Chegaram ao ponto de estabelecer este preceito philosophico de não sahir d'alli com as mãos vasias; traziam sempre alguma cousa, uma fabula, quando menos. Emfim, estando a sahir um{124} navio para Chypre, pediram licença a Ptolomeu, com promessa de voltar, cozeram os livros dentro de couros de hippopotamo, puzeram-lhe rotulos falsos, e trataram de fugir. Mas a inveja de outros philosophos não dormia; deu rebate ás suspeitas dos magistrados, e descobriu-se o roubo. Stroibus e Pythias foram tidos por aventureiros, mascarados com os nomes d'aquelles dous varões illustres; Ptolomeu entregou-os á justiça com ordem de os passar logo ao carrasco. Foi então que interveiu Herophilo, inventor da anatomia.

CAPITULO IV

PLUS ULTRA!

—Senhor, disse elle a Ptolomeu, tenho-me limitado até agora a escalpellar cadaveres. Mas o cadaver dá-me a estructura, não me dá a vida; dá-me os orgãos, não me dá as funcções. Eu preciso das funcções e da vida.

—Que me dizes? redarguiu Ptolomeu. Queres estripar os ratos de Stroibus?{125}

—Não, senhor; não quero estripar os ratos.

—Os cães? os gansos? as lebres?...

—Nada; peço alguns homens vivos.

—Vivos? não é possivel...

—Vou demonstrar que não só é possivel, mas até legitimo e necessario. As prisões egypicias estão cheias de criminosos, e os criminosos occupam, na escala humana, um grau muito inferior. Já não são cidadãos, nem mesmo se podem dizer homens, porque a razão e a virtude, que são os dois principaes caracteristicos humanos, elles os perderam, infringindo a lei e a moral. Além d'isso, uma vez que têm de expiar com a morte os seus crimes, não é justo que prestem algum serviço á verdade e a sciencia? A verdade é immortal; ella vale não só todos os ratos, como todos os delinquentes do universo.

Ptolomeu achou o raciocinio exacto, e ordenou que os criminosos fossem entregues a Herophilo e seus discipulos. O grande anatomista agradeceu tão insigne obsequio, e começou a escalpellar os réus. Grande foi o assombro do povo; mas, salvo alguns pedidos verbaes, não houve nenhuma manifestação contra a medida. Herophilo repetia o que dissera a Ptolomeu, acrescentando que a sujeição dos réus á experiencia anatomica era até um modo indirecto de{126} servir á moral, visto que o terror de escalpello impediria a pratica de muitos crimes.

Nenhum dos criminosos, ao deixar a prisão, suspeitava o destino scientifico que o esperava. Sahiam um por um; ás vezes dous a dous, ou tres a tres. Muitos d'elles, estendidos e atados á mesa da operação, não chegavam a desconfiar nada; imaginavam que era um novo genero de execução summaria. Só quando os anatomistas definiam o objecto do estudo do dia, alçavam os ferros e davam os primeiros talhos, é que os desgraçados adquiriam a consciencia da situação. Os que se lembravam de ter visto as experiencias dos ratos, padeciam em dobro, porque a imaginação juntava á dôr presente o expectaculo passado.

Para conciliar os interesses da sciencia com os impulsos da piedade, os réos não eram escalpellados á vista uns dos outros, mas successivamente. Quando vinham aos dois ou aos tres, não ficavam em logar d'onde os que esperavam pudessem ouvir os gritos do paciente, embora os gritos fossem muitas vezes abafados por meio de apparelhos; mas se eram abafados, não eram supprimidos, e em certos casos, o proprio objecto da experiencia exigia que a emissão da voz fosse franca. Ás vezes as operações eram{127} simultaneas; mas então faziam-se em logares distanciados.

Tinham sido escalpellados cerca de cincoenta réus, quando chegou a vez de Stroibus e Pythias. Vieram buscal-os; elles suppuzeram que era para a morte judiciaria, e encommendaram-se aos deuses. De caminho, furtaram uns figos, e explicaram o caso allegando que era um impulso da fome, adiante, porém, subtrahiram uma flauta, e essa outra acção não a puderam explicar satisfactoriamente. Todavia, a astucia do larapio é infinita, e Stroibus, para justificar a acção, tentou extrahir algumas notas do instrumento, enchendo de compaixão as pessoas que os viam passar, e não ignoravam a sorte que iam ter. A noticia d'esses dous novos delictos foi narrada por Herophilo, e abalou a todos os seus discipulos.

Realmente, disse o mestre, é um caso extraordinario, um caso lindissimo. Antes do principal, examinemos aqui o outro ponto...

O ponto era saber se o nervo do latrocionio residia na palma da mão ou na extremidade dos dedos; problema esse suggerido por um dos discipulos. Stroibus foi o primeiro sujeito á operação. Comprehendeu tudo, desde que entrou na sala; e, como{128} a natureza humana tem uma parte infima, pediu-lhes humildemente que poupassem a vida a um philosopho. Mas Herophilo, com um grande poder de dialectica, disse-lhe mais ou menos isto:—Ou és um aventureiro ou o verdadeiro Stroibus; no primeiro caso, tens aqui o unico meio para resgatar o crime de illudir a um principe esclarecido, presta-te ao escalpello; no segundo caso, não deves ignorar que a obrigação do philosopho é servir á philosophia, e que o corpo é nada em comparação com o entendimento.

Dito isto, começaram pela experiencia das mãos, que produziu optimos resultados, colligidos em livros, que se perderam com a queda dos Ptolomeus. Tambem as mãos de Pythias foram rasgadas e minuciosamente examinadas. Os infelizes berravam, choravam, supplicavam; mas Herophilo dizia-lhes pacificamente que a obrigação do philosopho era servir á philosophia, e que para os fins da sciencia, elles valiam ainda mais que os ratos, pois era melhor concluir do homem para o homem, e não do rato para o homem. E continuou a rasgal-os fibra por fibra, durante oito dias. No terceiro dia arrancaram-lhes os olhos, para desmentir praticamente uma theoria sobre a conformação interior do orgão.{129} Não fallo da extracção do estomago de ambos, por se tratar de problemas relativamente secundarios, e em todo caso estudados e resolvidos em cinco ou seis individuos escalpellados antes d'elles.

Diziam os alexandrinos que os ratos celebraram esse caso afflictivo e doloroso com dansas e festas, a que convidaram alguns cães, rolas, pavões e outros animaes ameaçados de egual destino, e outrosim, que nenhum dos convidados acceitou o convite, por suggestão de um cachorro, que lhes disse melancolicamente:—«Seculo virá em que a mesma cousa nos aconteça.» Ao que retorquiu um rato: «Mas até lá, riamos!»

 

FIM DO CONTO ALEXANDRINO.

{130}
{131}

PRIMAS DE SAPUCAIA!

Ha umas occasiões opportunas e fugitivas, em que o acaso nos inflige duas ou trez primas de Sapucaia; outras vezes, ao contrario, as primas de Sapucaia são antes um beneficio do que um infortunio.

Era á porta de uma egreja. Eu esperava que as minhas primas Claudina e Rosa tomassem agua benta, para conduzil-as á nossa casa, onde estavam hospedadas. Tinham vindo de Sapucaia, pelo Carnaval, e demoraram-se dois mezes na côrte. Era eu que as acompanhava a toda a parte, missas, theatros, rua do Ouvidor, porque minha mãi, com o seu rheumatico, mal podia mover-se dentro de casa, e ellas não sabiam andar sós. Sapucaia era a nossa patria commum. Embora todos os parentes estivessem dispersos, alli nasceu o tronco da familia. Meu tio José Ribeiro, pai d'estas primas, foi o unico, de cinco irmãos, que lá ficou lavrando a terra e figurando{132} na politica do logar. Eu vim cedo para a côrte, d'onde segui a estudar e bacharelar-me em S. Paulo. Voltei uma só vez a Sapucaia, para pleitear uma eleição, que perdi.

Rigorosamente, todas estas noticias são desnecessarias para a comprehensão da minha aventura; mas é um modo de ir dizendo alguma cousa, antes de entrar em materia, para a qual não acho porta grande nem pequena; o melhor é afrouxar a redea á penna, e ella que vá andando, até achar entrada. Hade haver alguma; tudo depende das circumstancias, regra que tanto serve para o estylo como para a vida; palavra puxa palavra, uma idéa traz outra, e assim se faz um livro, um governo, ou uma revolução; alguns dizem mesmo que assim é que a natureza compoz as suas especies.

Portanto, agua benta e porta de egreja. Era a egreja de S. José. A missa acabára; Claudina e Rosa fizeram uma cruz na testa, com o dedo pollegar, molhado na agua benta e descalçado unicamente para esse gesto. Depois ajustaram os manteletes, emquanto eu, ao portal, ia vendo as damas que sahiam. De repente, estremeço, inclino-me para fóra, chego mesmo a dar dous passos na direcção da rua.

—Que foi, primo?{133}

—Nada, nada.

Era uma senhora, que passára rentesinha com a egreja, vagarosa, cabisbaixa, apoiando-se no chapellinho de sol; ia pela rua da Misericordia acima. Para explicar a minha commoção, é preciso dizer que era a segunda vez que a via. A primeira foi no Prado Fluminense, dous mezes antes, com um homem que, pelos modos, era seu marido, mas tanto podia ser marido como pai. Estava então um pouco de espavento, vestida de escarlate, com grandes enfeites vistosos, e umas argolas demasiado grossas nas orelhas; mas os olhos e a bocca resgatavam o resto. Namorámos ás bandeiras despregadas. Se disser que sahi d'alli apaixonado, não metto a minha alma no inferno, porque é a verdade pura. Sahi tonto, mas sahi tambem desapontado, perdia-a de vista na multidão. Nunca mais pude dar com ella, nem ninguem me soube dizer quem fosse.

Calcule-se o meu enfado, vendo que a fortuna vinha trazel-a outra vez ao meu caminho, e que umas primas fortuitas não me deixavam lançar-lhe as mãos. Não será difficil calculal-o, porque estas primas de Sapucaia tomam todas as fórmas, e o leitor, se não as teve de um modo, teve-as de outro. Umas vezes copiam o ar confidencial de um cavalheiro informado{134} da ultima crise do ministerio, de todas as causas apparentes ou secretas, dissensões novas ou antigas, interesses aggravados, conspiração, crise. Outras vezes, enfronham-se na figura d'aquelle eterno cidadão que affirma de um modo ponderoso e abotoado, que não ha leis sem costumes, nisi lege sine moribus. Outras, afivellam a mascara de um Dangeau de esquina, que nos conta miudamente as fitas e rendas que esta, aquella, aquell'outra dama levara ao baile ou ao theatro. E durante esse tempo, a Occasião passa, vagarosa, cabisbaixa, apoiando-se no chapellinho de sol: passa, dobra a esquina, e adeus... O ministerio esphacelava-se; malinas e bruxellas; nisi lege sine moribus...

Esteve a pique de dizer ás primas, que se fossem embora; moravamos na rua do Carmo, não era longe; mas abri mão da idéa. Já na rua pensei tambem em deixal-as na egreja, á minha espera, e ir ver se agarrava a Occasião pela calva. Creio mesmo que cheguei a parar um momento, mas rejeitei egualmente esse alvitre e fui andando.

Fui andando com ellas para o lado opposto ao da minha incognita. Olhei para traz repetidas vezes, até perdel-a n'uma das curvas da rua, com os olhos no chão, como quem reflecte, devaneia ou espera uma{135} hora marcada. Não minto dizendo que esta ultima idéa trouxe-me a emoção do ciume. Sou exclusivo e pessoal; daria um triste amante de mulheres casadas. Não importa que entre mim e aquella dama existisse apenas uma contemplação fugitiva de algumas horas; desde que a minha personalidade ia para ella, a partilha tornava-se-me insupportavel. Sou tambem imaginoso; engenhei logo uma aventura e um aventureiro, dei-me ao prazer morbido de affligir-me sem motivo nem necessidade. As primas iam adiante, e falavam-me de quando em quando; eu respondia mal, se respondia alguma cousa. Cordialmente, execrava-as.

Ao chegar á porta de casa, consultei o relogio, como si tivesse alguma cousa que fazer; depois disse ás primas que subissem e fossem almoçando. Corri á rua da Misericordia. Fui primeiro até á Escola de Medicina; depois voltei e vim até a Camara dos Deputados, então mais devagar, esperando vel-a ao chegar a cada curva da rua; mas nem sombra. Era insensato, não era? Todavia, ainda subi outra vez a rua, porque adverti que, a pé e de vagar, mal teria tempo de ir em meio da praia de Santa Luzia, se acaso não parára antes; e ahi fui, rua acima e praia fóra, até o convento da Ajuda. Não encontrei nada,{136} cousa nenhuma. Nem por isso perdi as esperanças; arripiei caminho e vim, a passo lento ou apressado, conforme se me afigurava que era possivel apanhal-a adiante, ou dar tempo a que sahisse de alguma parte. Desde que a minha imaginação reproduzia a dama, todo eu sentia um abalo, como se realmente tivesse de vel-a d'ahi a alguns minutos. Comprehendi a emoção dos doudos.

Entretanto, nada. Desci a rua sem achar o menor vestigio da minha incognita. Felizes os cães, que pelo faro dão com os amigos! Quem sabe se não estaria alli bem perto, no interior de alguma casa, talvez a propria casa d'ella? Lembrou-me indagar; mas de quem, e como? Um padeiro, encostado ao portal espiava-me; algumas mulheres faziam a mesma cousa enfiando os olhos pelos postigos. Naturalmente desconfiavam do transeunte, do andar vagaroso ou apressado, do olhar inquisidor, do gesto inquieto. Deixei-me ir até á Camara dos Deputados, e parei uns cinco minutos, sem saber que fizesse. Era perto de meio-dia. Esperei mais dez minutos, depois mais cinco, parado, com a esperança de vel-a; afinal, desesperei e fui almoçar.

Não almocei em casa. Não queria ver os demonios das primas, que me impediram de seguir a{137} dama incognita. Fui a um hotel. Escolhi uma mesa no fim da sala, e sentei-me de costas para as outras; não queria ser visto nem conversado. Comecei a comer o que me deram. Pedi alguns jornaes, mas confesso que não li nada seguidamente, e apenas entendi tres quartas partes do que ia lendo. No meio de uma noticia ou de um artigo, escorregava-me o espirito e cahia na rua da Misericordia, á porta da egreja, vendo passar a incognita, vagarosa, cabisbaixa, apoiando-se no chapellinho de sol.

A ultima vez que me aconteceu essa separação da outra e da besta, estava já no café, e tinha diante de mim um discurso parlamentar. Achei-me ainda uma vez á porta da egreja; imaginei então que as primas não estavam commigo, e que eu seguia atraz da bella dama. Assim é que se consolam os preteridos da loteria; assim é que se fartam as ambições mallogradas.

Não me peçam minucias nem preliminares do encontro. Os sonhos desdenham as linhas finas e o acabado das paysagens; contentam-se de quatro ou cinco brochadas grossas, mas representativas. Minha imaginação galgou as difficuldades da primeira falla, e foi direita á rua do Lavradio ou dos Invalidos, á propria casa de Adriana. Chama-se Adriana.{138} Não viera á rua da Misericordia por motivos de amores, mas a ver alguem, uma parenta ou uma comadre, ou uma costureira. Conheceu-me, e teve egual commoção. Escrevi-lhe; respondeu-me. Nossas pessoas foram uma para a outra por cima de uma multidão de regras moraes e de perigos. Adriana é casada; o marido conta cincoenta e dous annos, ella trinta imperfeitos. Não amou nunca, não amou mesmo o marido, com quem casou por obedecer á familia. Eu ensinei-lhe ao mesmo tempo o amor e a traição; é o que ella me diz nesta casinha que aluguei fóra da cidade, de proposito para nós.

Ouço-a embriagado. Não me enganei; é a mulher ardente e amorosa, qual me diziam os seus olhos, olhos de touro, como os de Juno, grandes e redondos. Vive de mim e para mim. Escrevemo-nos todos os dias; e, apezar d'isso, quando nos encontramos na casinha, é como se medeara um seculo. Creio até que o coração d'ella ensinou-me alguma cousa, embora noviço, ou por isso mesmo. N'esta materia desapprende-se com o uso e o ignorante é que é douto. Adriana não dissimula a alegria nem as lagrimas; escreve o que pensa, conta o que sente; mostra-me que não somos dois, mas um, tão sómente um ente universal, para quem Deus creou o sol e as flores, o{139} papel e a tinta, o correio e as carruagens fechadas.

Emquanto ideava isto, creio que acabei de beber o café; lembra-me que o criado veiu á mesa e retirou a chicara e o assucareiro. Não sei se lhe pedi fogo, provavelmente viu-me com o charuto na mão e trouxe-me phosphoros.

Não juro, mas penso que accendi o charuto, porque d'ahi a um instante, atravez de um véu de fumaça, vi a cabeça meiga e energica da minha bella Adriana, encostada a um sophá. Eu estou de joelhos, ouvindo-lhe a narração da ultima rusga do marido. Que elle já desconfia; ella sahe muitas vezes, distrahe-se, absorve-se, apparece-lhe triste ou alegre, sem motivo, e o marido começa a ameaçal-a. Ameaçal-a de que? Digo-lhe que, antes de qualquer excesso, era melhor deixal-o, para viver commigo, publicamente, um para o outro. Adriana escuta-me pensativa, cheia de Eva, namorada do demonio, que lhe sussurra de fóra o que o coração lhe diz de dentro. Os dedos affagam-me os cabellos.

—Pois sim! pois sim!

Veiu no dia seguinte, consigo mesma, sem marido, sem sociedade, sem escrupulos, tão sómente comsigo, e fomos d'alli viver juntos. Nem ostentação, nem resguardo. Suppuzemo-nos estrangeiros, e realmente{140} não eramos outra cousa; fallavamos uma lingua, que nunca ninguem antes fallara nem ouvira. Os outros amores eram, desde seculos, verdadeiras contrafacções; nós davamos a edição authentica. Pela primeira vez, imprimia-se o manuscripto divino, um grosso volume que nós dividiamos em tantos capitulos e paragraphos quantas eram as horas do dia ou os dias da semana. O estylo era tecido de sol e musica; a linguagem compunha-se da fina flôr dos outros vocabularios. Tudo o que n'elles existia, meigo ou vibrante, foi extrahido pelo autor para formar esse livro unico—livro sem indice, porque era infinito—sem margens, para que o fastio não viesse escrever n'ellas as suas notas,—sem fita, porque já não tinhamos precisão de interromper a leitura e marcar a pagina.

Uma voz chamou-me á realidade. Era um amigo que acordara tarde, e vinha almoçar. Nem o sonho me deixava esta outra prima de Sapucaia! Cinco minutos depois despedi-me e sahi; eram duas horas passadas.

Vexa-me dizer que ainda fui á rua da Misericordia, mas é preciso narrar tudo: fui e não achei nada. Voltei nos dias seguintes sem outro lucro, além do tempo perdido. Resignei-me a abrir mão{141} da aventura, ou esperar a solução do acaso. As primas achavam-me aborrecido ou doente; não lhes disse que não. D'ahi a oito dias, foram-se embora, sem me deixar saudades; despedi-me d'ellas como de uma febre maligna.

A imagem da minha incognita não me deixou durante muitas semanas. Na rua, enganei-me varias vezes. Descobria ao longe uma figura, que era tal qual a outra; picava os calcanhares, até apanhal-a e desenganar-me. Comecei a achar-me ridiculo; mas lá vinha uma hora ou um minuto, uma sombra ao longe, e a preoccupação revivia. Afinal vieram outros cuidados, e não pensei mais n'isso.

No principio do anno seguinte, fui a Petropolis; fiz a viagem com um antigo companheiro de estudos, Oliveira, que foi promotor em Minas-Geraes, mas abandonara ultimamente a carreira por ter recebido uma herança. Estava alegre como nos tempos da academia; mas de quando em quando calava-se, olhando para fóra da barca ou da caleça, com a atonia de quem regala a alma de uma recordação, de uma esperança ou de um desejo. No alto da serra perguntei-lhe para que hotel ia; respondeu que ia para uma casa particular, mas não me disse aonde, e até desconversou. Cuidei que me visitaria{142} no dia seguinte; mas nem me visitou, nem o vi em parte alguma. Outro collega nosso ouvira dizer que elle tinha uma casa para os lados da Rhenania.

Nenhuma d'estas circumstancias voltaria á memoria, se não fosse a noticia que me deram dias depois. Oliveira tirára uma mulher ao marido, e fôra refugiar-se com ella em Petropolis. Deram-me o nome do marido e o d'ella. O d'ella era Adriana. Confesso que, embora o nome da outra fosse pura invenção minha, estremeci ao ouvil-o; não seria a mesma mulher? Vi logo depois que era pedir muito ao acaso. Já faz bastante esse pobre official das cousas humanas, concertando alguns fios dispersos; exigir que os reate a todos, e com os mesmos titulos, é saltar da realidade na novella. Assim fallou o meu bom senso, e nunca disse tão gravemente uma tolice, pois as duas mulheres eram nada menos que a mesmissima.

Vi-a tres semanas depois, indo visitar o Oliveira, que viera doente da côrte. Subimos juntos na vespera; no meio da serra, começou elle a sentir-se incommodado; no alto estava febril. Acompanhei-o no carro até a casa, e não entrei, porque elle dispensou-me o incommodo. Mas no dia seguinte fui{143} vel-o, um pouco por amizade, outro pouco por avidez de conhecer a incognita. Vi-a; era ella, era a minha, era a unica Adriana.

Oliveira sarou depressa, e, apezar do meu zelo em visital-o, não me offereceu a casa; limitou-se a vir ver-me no hotel. Respeitei-lhe os motivos; mas elles mesmos é que faziam reviver a antiga preoccupação. Considerei que, além das razões de decoro, havia da parte d'elle um sentimento de ciume, filho de um sentimento de amor, e que um e outro podiam ser a prova de um complexo de qualidades finas e grandes n'aquella mulher. Isto bastava a transtornar-me; mas a idéa de que a paixão d'ella não seria menor que a d'elle, o quadro d'esse casal que fazia uma só alma e pessoa, excitou em mim todos os nervos da inveja. Baldei esforços para ver se mettia o pé na casa; cheguei a fallar-lhe do boato que corria; elle sorria e tratava de outra cousa.

Acabou a estação de Petropolis, e elle ficou. Creio que desceu em julho ou agosto. No fim do anno encontrámo-nos casualmente; achei-o um pouco taciturno e preoccupado. Vi-o ainda outras vezes, e não me pareceu differente, a não ser que, além de taciturno, trazia na physionomia uma longa préga{144} de desgosto. Imaginei que eram effeitos da aventura, e, como não estou aqui para empulhar ninguem, accrescento que tive uma sensação de prazer. Durou pouco; era o demonio que trago em mim, e costuma fazer d'esses esgares de saltimbanco. Mas castiguei-o depressa, e puz no logar d'elle o anjo, que tambem uso, e que se compadeceu do pobre rapaz, qualquer que fosse o motivo da tristeza.

Um visinho d'elle, amigo nosso, contou-me alguma cousa, que me confirmou a suspeita de desgostos domesticos; mas foi elle mesmo quem me disse tudo, um dia, perguntando-lhe eu, estouvadamente o que é que tinha que o mudára tanto.

—Que hei de ter? Imagina tu que comprei um bilhete de loteria, e nem tive, ao menos, o gosto de não tirar nada; tirei um escorpião.

E, como eu franzisse a testa interrogativamente:

—Ah! se soubesses metade só das cousas que me têm acontecido! Tens tempo? Vamos aqui ao Passeio Publico.

Entrámos no jardim, e mettemo-nos por uma das alamedas. Contou-me tudo. Gastou duas horas em desfiar um rosario infinito de miserias. Vi atravez da narração duas indoles incompativeis, unidas pelo amor ou pelo peccado, fartas uma da outra, mas condemnadas{145} á convivencia e ao odio. Elle nem podia deixal-a nem supportal-a. Nenhuma estima, nenhum respeito, alegria rara e impura; uma vida gorada.

—Gorada, repetia elle, gesticulando affirmativamente com a cabeça. Não tem que ver; a minha vida gorou. Has de lembrar-te dos nossos planos da academia, quando nos propunhamos, tu a ministro do imperio, eu da justiça. Pódes guardar as duas pastas; não serei nada, nada. O ovo, que devia dar uma aguia, não chega a dar um frango. Gorou completamente. Ha anno e meio que ando n'isso, e não acho sahida nenhuma; perdia a energia...

Seis mezes depois, encontrei-o afflicto e desvairado. Adriana deixara-o para ir estudar geometria com um estudante da antiga Escola Central. Tanto melhor, disse-lhe eu. Oliveira olhou para o chão envergonhado; despediu-se, e correu em procura d'ella. Achou-a d'ahi a algumas semanas, disseram as ultimas um ao outro, e no fim reconciliaram-se. Comecei então a visital-os, com a idéa de os separar um do outro. Ella estava ainda bonita e fascinante; as maneiras eram finas e meigas, mas evidentemente de emprestimo, acompanhadas de umas attitudes e gestos, cujo intuito latente era attrahir-me e arrastar-me.{146}

Tive medo e retrahi-me. Não se mortificou; deitou fóra a capa de renda, restituiu-se ao natural. Vi então que era ferrenha, manhosa, injusta, muita vez grosseira; em alguns lances notei-lhe uma nota de perversidade. Oliveira, nos primeiros tempos, para fazer-me crer que mentira ou exagerára, supportava tudo rindo; era a vergonha da propria fraqueza. Mas não pôde guardar a mascara; ella arrancou-lh'a um dia, sem piedade, denunciando as humilhações em que elle cahia, quando eu não estava presente. Tive nojo da mulher e pena do pobre diabo. Convidei-o abertamente a deixal-a, elle hesitou, mas prometteu que sim.

—Realmente, não posso mais...

Combinamos tudo; mas no momento da separação, não pôde. Ella embebeu-lhe novamente os seus grandes olhos de touro e de basilisco, e d'esta vez,—ó minhas queridas primas de Sapucaia!—d'esta vez para só deixal-o exhausto e morto.

 

FIM DAS PRIMAS DE SAPUCAIA!

{147}

UMA SENHORA.

Nunca encontro esta senhora que me não lembre a prophecia de uma lagartixa ao poeta Heine, subindo os Appeninos: «Dia virá em que as pedras serão plantas, as plantas animaes, os animaes homens e os homens deuses.» E dá-me vontade de dizer-lhe:—A senhora, D. Camilla, amou tanto a mocidade e a belleza, que atrazou o seu relogio, afim de ver se podia fixar esses dois minutos de crystal. Não se desconsole, D. Camilla. No dia da lagartixa, a senhora será Hebe, deusa da juventude; a senhora nos dará a beber o nectar da perennidade com as suas mãos eternamente moças.

A primeira vez que a vi, tinha ella trinta e seis annos, posto só parecesse trinta e dous, e não passasse da casa dos vinte e nove. Casa é um modo de dizer. Não ha castello mais vasto do que a vivenda d'estes bons amigos, nem tratamento mais obsequioso{148} do que o que elles sabem dar ás suas hospedes. Cada vez que D. Camilla queria ir-se embora, elles pediam-lhe muito que ficasse, e ella ficava. Vinham então novos folguedos, cavalhadas, musica, dansa, uma successão de cousas bellas, inventadas com o unico fim de impedir que esta senhora seguisse o seu caminho.

—Mamãi, mamãi, dizia-lhe a filha crescendo, vamos embora, não podemos ficar aqui toda a vida.

D. Camilla olhava para ella mortificada, depois sorria, dava-lhe um beijo e mandava-a brincar com as outras creanças. Que outras creanças? Ernestina estava então entre quatorze e quinze annos, era muito espigada, muito quieta, com uns modos naturaes de senhora. Provavelmente não se divertiria com as meninas de oito e nove annos; não importa, uma vez que deixasse a mãi tranquilla, podia alegrar-se ou enfadar-se. Mas, ai triste! ha um limite para tudo, mesmo para os vinte e nove annos. D. Camilla resolveu, emfim, despedir-se d'essses dignos amphytriões, e fel-o ralada de saudades. Elles ainda instaram por uns cinco ou seis mezes de quebra; a bella dama respondeu-lhes que era impossivel e, trepando no alazão do tempo, foi alojar-se na casa dos trinta.{149}

Ella era, porém, d'aquella casta de mulheres que riem do sol e dos almanaks. Côr de leite, fresca, inalteravel, deixava ás outras o trabalho de envelhecer. Só queria o de existir. Cabello negro, olhos castanhos e callidos. Tinha as espaduas e o collo feitos de encommenda para os vestidos decotados, e assim tambem os braços, que eu não digo que eram os da Venus de Milo, para evitar uma vulgaridade, mas provavelmente não eram outros. D. Camilla sabia d'isto; sabia que era bonita, não só porque lh'o dizia o olhar sorrateiro das outras damas, como por um certo instincto que a belleza possue, como o talento e o genio. Resta dizer que era casada, que o marido era ruivo, e que os dois amavam-se como noivos; finalmente, que era honesta. Não o era, note-se bem, por temperamento, mas por principio, por amor ao marido, e creio que um pouco por orgulho.

Nenhum defeito, pois, excepto o de retardar os annos; mas é isso um defeito? Ha, não me lembra em que pagina da Escriptura, naturalmente nos Prophetas, uma comparação dos dias com as aguas de um rio que não voltam mais. D. Camilla queria fazer uma represa para seu uso. No tumulto d'esta marcha continua entre o nascimento e a morte, ella apegava-se á illusão da estabilidade. Só se lhe podia exigir que{150} não fosse ridicula, e não o era. Dir-me-ha o leitor que a belleza vive de si mesma, e que a preoccupação do calendario mostra que esta senhora vivia principalmente com os olhos na opinião. É verdade; mas como quer que vivam as mulheres do nosso tempo?

D. Camilla entrou na casa dos trinta e não lhe custou passar adiante. Evidentemente o terror era uma superstição. Duas ou tres amigas intimas, nutridas de arithemetica, continuavam a dizer que ella perdera a conta dos annos. Não advertiam que a natureza era complice no erro, e que aos quarenta annos (verdadeiros), D. Camilla trazia um ar de trinta e poucos. Restava um recurso: espiar-lhe o primeiro cabello branco, um fiosinho de nada, mas branco. Em vão espiavam; o demonio do cabello parecia cada vez mais negro.

N'isto enganavam-se. O fio branco estava alli; era a filha de D. Camilla que entrava nos dezenove annos, e, por mal de peccados, bonita. D. Camilla prolongou, quanto poude, os vestidos adolescentes da filha, conservou-a no collegio até tarde, fez tudo para proclamal-a creança. A natureza, porem, que não é só immoral, mas tambem illogica, emquanto sofreava os annos de uma, afrouxava a redea aos da outra, e{151} Ernestina, moça feita, entrou radiante no primeiro baile. Foi uma revelação. D. Camilla adorava a filha; saboreou-lhe a gloria a tragos demorados. No fundo do copo achou a gotta amarga e fez uma carêta. Chegou a pensar na abdicação; mas um grande prodigo de phrases feitas disse-lhe que ella parecia a irmã mais velha da filha, e o projecto desfez-se. Foi d'essa noite em diante que D. Camilla entrou a dizer a todos que casára muito creança.

Um dia, poucos mezes depois, apontou no horisonte o primeiro namorado. D. Camilla pensára vagamente n'essa calamidade, sem encaral-a, sem apparelhar-se para a defeza. Quando menos esperava, achou um pretendente á porta. Interrogou a filha; descobriu-lhe um alvoroço indefinivel, a inclinação dos vinte annos, e ficou prostrada. Casal-a era o menos; mas, se os seres são como as aguas da Escriptura, que não voltam mais, é porque atraz d'elles vêm outros, como atraz das aguas outras aguas; e, para definir essas ondas successivas é que os homens inventaram este nome de netos. D. Camilla viu imminente o primeiro neto, e determinou adial-o. Está claro que não formulou a resolução, como não formulára a idéa do perigo. A alma entende-se a si mesma; uma sensação vale um raciocinio. As que ella teve foram rapidas,{152} obscuras, no mais intimo do seu ser, d'onde não as extrahiu para não ser obrigada a encaral-as.

—Mas que é que você acha de máo no Ribeiro? perguntou-lhe o marido, uma noite, á janella.

D. Camilla levantou os hombros.—Acho-lhe o nariz torto, disse.

—Máo! Você está nervosa; fallemos de outra cousa, respondeu o marido. E, depois, de olhar uns dous minutos para a rua, cantarolando na garganta, tornou ao Ribeiro, que achava um genro aceitavel, e se lhe pedisse Ernestina, entendia que deviam ceder-lh'a. Era intelligente e educado. Era tambem o herdeiro provavel de uma tia de Cantagallo. E depois tinha um coração de ouro. Contavam-se d'elle cousas muito bonitas. Na academia, por exemplo... D. Camilla ouviu o resto, batendo com a ponta do pé no chão e rufando com os dedos a sonata da impaciencia; mas, quando o marido lhe disse que o Ribeiro esperava um despacho do ministro de estrangeiros, um logar para os Estados-Unidos, não poude ter-se e cortou-lhe a palavra.

—O que? separar-me de minha filha. Não, senhor.

Em que dóse entrára n'este grito o amor materno e o sentimento pessoal, é um problema difficil de{153} resolver, principalmente agora, longe dos acontecimentos e das pessoas. Supponhamos que em partes eguaes. A verdade é que o marido não soube que inventar para defender o ministro de estrangeiros, as necessidades diplomaticas, a fatalidade do matrimonio, e, não achando que inventar, foi dormir. Dois dias depois veiu a nomeação. No terceiro dia, a moça declarou ao namorado que não a pedisse ao pai, porque não queria separar-se da familia. Era o mesmo que dizer: prefiro a familia ao senhor. É verdade que tinha a voz tremula e sumida, e um ar de profunda consternação; mas o Ribeiro viu tão sómente a rejeição, e embarcou. Assim acabou a primeira aventura.

D. Camilla padeceu com o desgosto da filha; mas consolou-se depressa. Não faltam noivos, reflectiu ella. Para consolar a filha, levou-a a passeiar a toda parte. Eram ambas bonitas, e Ernestina tinha a frescura dos annos; mas a belleza da mãi era mais perfeita, e apezar dos annos, superava a da filha. Não vamos ao ponto de crêr que o sentimento da superioridade é que animava D. Camilla a prolongar e repetir os passeios. Não: o amor materno, só por si, explica tudo. Mas concedamos que animasse um pouco. Que mal ha n'isso? Que mal ha em que um{154} bravo coronel defenda nobremente a patria, e as suas dragonas? Nem por isso acaba o amor da patria e o amor das mãis.

Mezes depois despontou a orelha de um segundo namorado. D'esta vez era um viuvo, advogado, vinte e sete annos. Ernestina não sentiu por elle a mesma emoção que o outro lhe dera; limitou-se a aceital-o. D. Camilla farejou depressa a nova candidatura. Não podia allegar nada contra elle; tinha o nariz recto como a consciencia, e profunda aversão á vida diplomatica. Mas haveria outros defeitos, devia haver outros. D. Camilla buscou-os com alma; indagou de suas relações, habitos, passado. Conseguiu achar umas cousinhas miudas, tão sómente a unha da imperfeição humana, alternativas de humor, ausencia de graças intellectuaes, e, finalmente, um grande excesso de amor proprio. Foi n'este ponto que a bella dama o apanhou. Começou a levantar vagarosamente a muralha do silencio; lançou primeiro a camada das pausas, mais ou menos longas, depois as phrases curtas, depois os monosyllabos, as distracções, as absorpções, os olhares complacentes, os ouvidos resignados, os bocejos fingidos por traz da ventarola. Elle não entendeu logo; mas, quando reparou que os enfados da mãi coincidiam com as{155} ausencias da filha, achou que era alli de mais e retirou-se. Se fosse homem de luta, tinha saltado a muralha; mas era orgulhoso e fraco. D. Camilla deu graças aos deuses.

Houve um trimestre de respiro. Depois appareceram alguns namoricos de uma noite, insectos ephemeros, que não deixaram historia. D. Camilla comprehendeu que elles tinham de multiplicar-se, até vir algum decisivo que a obrigasse a ceder; mas ao menos, dizia ella a si mesma, queria um genro que trouxesse á filha a mesma felicidade que o marido lhe deu. E, uma vez, ou para robustecer este decreto da vontade, ou por outro motivo, repetiu o conceito em voz alta, embora só ella pudesse ouvil-o. Tu, psychologo subtil, pódes imaginar que ella queria convencer-se a si mesma; eu prefiro contar o que lhe aconteceu em 186....

Era de manhã. D. Camilla estava ao espelho, a janella aberta, a chacara verde e sonora de cigarras e passarinhos. Ella sentia em si a harmonia que a ligava ás cousas externas. Só a belleza intellectual é independente e superior. A belleza physica é irmã da paysagem. D. Camilla saboreava essa fraternidade intima, secreta, um sentimento de identidade, uma recordação da vida anterior no mesmo utero{156} divino. Nenhuma lembrança desagradavel, nenhuma occurrencia vinha turvar essa expansão mysteriosa. Ao contrario, tudo parecia embebel-a de eternidade, e os quarenta e dous annos em que ia não lhe pesavam mais do que outras tantas folhas de rosa. Olhava para fóra, olhava para o espelho. De repente, como se lhe surdisse uma cobra, recuou atterrada. Tinha visto, sobre a fonte esquerda, um cabellinho branco. Ainda cuidou que fosse do marido; mas reconheceu depressa que não, que era d'ella mesma, um telegramma da velhice, que ahi vinha a marchas forçadas. O primeiro sentimento foi de prostração. D. Camilla sentiu faltar-lhe tudo, tudo, viu-se encanecida e acabada no fim de uma semana.

—Mamãi, mamãi, bradou Ernestina, entrando na saleta. Está aqui o camarote que papai mandou.

D. Camilla teve um sobresalto de pudor, e instinctivamente voltou para a filha o lado que não tinha o fio branco. Nunca a achou tão graciosa e lepida. Fitou-a com saudade. Fitou-a tambem com inveja, e, para abafar este sentimento máu, pegou no bilhete de camarote. Era para aquella mesma noite. Uma idéa expelle outra; D. Camilla anteviu-se no meio das luzes e das gentes, e depressa levantou o coração. Ficando só, tornou a olhar para{157} o espelho, e corajosamente arrancou o cabellinho branco, e deitou-o á chacara. Out, damnet spot! Out! Mais feliz do que a outra lady Macbeth, viu assim desapparecer a nodoa no ar, porque no animo d'ella, a velhice era um remorso, e a fealdade um crime. Sae, maldita mancha! sae!

Mas, se os remorsos voltam, porque não hão de voltar os cabellos brancos? Um mez depois, D. Camilla descobriu outro, insinuado na bella e farta madeixa negra, e amputou-o sem piedade. Cinco ou seis semanas depois, outro. Este terceiro coincidiu com um terceiro candidato á mão da filha, e ambos acharam D. Camilla n'uma hora de prostração. A belleza, que lhe supprira a mocidade, parecia-lhe prestes a ir tambem, como uma pomba sae em busca da outra. Os dias precipitavam-se. Creanças que ella vira ao collo, ou de carrinho empuxado pelas amas, dansavam agora nos bailes. Os que eram homens fumavam; as mulheres cantavam ao piano. Algumas d'estas apresentavam-lhe os seus babies, gorduchos, uma segunda geração que mamava, á espera de ir bailar tambem, cantar ou fumar, apresentar outros babies a outras pessoas, e assim por diante.

D. Camilla, apenas tergiversou um pouco, acabou cedendo. Que remedio, senão aceitar um genro?{158} Mas, como um velho costume não se perde de um dia para outro, D. Camilla viu parallelamente, n'aquella festa do coração, um scenario e grande scenario. Preparou-se galhardamente, e o efeito correspondeu ao esforço. Na egreja, no meio de outras damas; na sala, sentada no sophá (o estofo que forrava este movel, assim como o papel da parede foram sempre escuros para fazer sobresahir a tez de D. Camilla), vestida a capricho, sem o requinte da extrema juventude, mas tambem sem a rigidez matronal, um meio termo apenas, destinado a pôr em relevo as suas graças outoniças, risonha, e feliz, emfim, a recente sogra colheu os melhores suffragios. Era certo que ainda lhe pendia dos hombros um retalho de purpura.

Purpura suppõe dynastia. Dynastia exige netos. Restava que o Senhor abençoasse a união, e elle abençoou-a, no anno seguinte. D. Camilla acostumara-se a idéa; mas era tão penoso abdicar, que ella aguardava o neto com amor e repugnancia. Esse importuno embryão, curioso da vida e pretencioso, era necessario na terra? Evidentemente, não; mas appareceu um dia, com as flores de Setembro. Durante a crise, D. Camilla só teve de pensar na filha; depois da crise, pensou na filha e no neto.{159} Só dias depois é que poude pensar em si mesma. Emfim, avó. Não havia duvidar; era avó. Nem as feições que eram ainda concertadas, nem os cabellos, que eram pretos (salvo meia duzia de fios escondidos), podiam por si sós denunciar a realidade; mas a realidade existia; ella era, emfim, avó.

Quiz recolher-se; e para ter o neto mais perto de si, chamou a filha para casa. Mas a casa não era um mosteiro, e as ruas e os jornaes com os seus mil rumores acordavam n'ella os echos de outro tempo. D. Camilla rasgou o acto de abdicação e tornou ao tumulto.

Um dia, encontrei-a ao lado de uma preta, que levava ao collo uma creança de cinco a seis mezes. D. Camilla segurava na mão o chapellinho de sol aberto para cobrir a creança. Encontrei-a oito dias depois, com a mesma creança, a mesma preta e o mesmo chapéu de sol. Vinte dias depois, e trinta dias mais tarde, tornei a vel-a, entrando para o bond, com a preta e a creança.—Você já deu de mamar? dizia ella á preta. Olhe o sol. Não vá cahir. Não aperte muito o menino. Acordou? Não mexa com elle. Cubra a carinha, etc., etc.

Era o neto. Ella, porém, ia tão apertadinha, tão cuidadosa da creança, tão a miudo, tão sem outra{160} senhora, que antes parecia mãi do que avó; e muita gente pensava que era mãi. Que tal fosse a intenção de D. Camilla não o juro eu. («Não jurarás», MATH. V, 34 ). Tão sómente digo que nenhuma outra mãi seria mais desvellada do que D. Camilla com o neto; attribuirem-lhe um simples filho era a cousa mais verosimil do mundo.

 

FIM DE UMA SENHORA.

{161}