ANECDOTA PECUNIARIA
Chama-se Falcão o meu homem. N'aquelle dia—quatorze de Abril de 1870—quem lhe entrasse em casa, ás dez horas da noite, vel-o-hia passear na sala, em mangas de camisa, calça preta e gravata branca, resmungando, gesticulando, suspirando, evidentemente afflicto. Ás vezes, sentava-se; outras, encostava-se á janella, olhando para a praia, que era a da Gambôa. Mas, em qualquer logar ou attitude, demorava-se pouco tempo.
—Fiz mal, dizia elle, muito mal. Tão minha amiga que ella era! tão amorosa! Ia chorando, coitadinha! Fiz mal, muito mal... Ao menos, que seja feliz!
Se eu disser que este homem vendeu uma sobrinha, não me hão de crer; se descer a definir o preço, dez contos de réis, voltar-me-hão as costas com desprezo e indignação. Entretanto, basta ver este olhar felino, estes dois beiços, mestres de calculo, que,{162} ainda fechados, parecem estar contando alguma cousa, para adivinhar logo que a feição capital do nosso homem é a voracidade do lucro. Entendamo-nos: elle faz arte pela arte, não ama o dinheiro pelo que elle póde dar, mas pelo que é em si mesmo! Ninguem lhe vá fallar dos regalos da vida. Não tem cama fofa, nem mesa fina, nem carruagem, nem commenda. Não se ganha dinheiro para esbanjal-o, dizia elle. Vive de migalhas; tudo o que amontoa é para a contemplação. Vai muitas vezes á burra, que está na alcova de dormir, com o unico fim de fartar os olhos nos rolos de ouro e maços de titulos. Outras vezes, por um requinte de erotismo pecuniario, contempla-os só de memoria. N'este particular, tudo o que eu pudesse dizer, ficaria abaixo de uma palavra d'elle mesmo, em 1857.
Já então millionario, ou quasi, encontrou na rua dois meninos, seus conhecidos, que lhe perguntaram se uma nota de cinco mil réis, que lhes dera um tio, era verdadeira. Corriam algumas notas falsas, e os pequenos lembraram-se d'isso em caminho. Falcão ia com um amigo. Pegou tremulo na nota, examinou-a bem, virou-a, revirou-a...
—É falsa? perguntou com impaciencia um dos meninos.{163}
—Não; é verdadeira.
—Dê cá, disseram ambos.
Falcão dobrou a nota vagarosamente, sem tirar-lhe os olhos de cima; depois, restituiu-a aos pequenos, e, voltando-se para o amigo, que esperava por elle, disse-lhe com a maior candura do mundo:
—Dinheiro, mesmo quando não é da gente, faz gosto vêr.
Era assim que elle amava o dinheiro, até á contemplação desinteressada. Que outro motivo podia leval-o a parar, diante das vitrinas dos cambistas, cinco, dez, quinze minutos, lambendo com os olhos os montes de libras e francos, tão arrumadinhos e amarellos? O mesmo sobresalto com que pegou na nota de cinco mil réis, era um rasgo subtil, era o terror da nota falsa. Nada aborrecia tanto, como os moedeiros falsos, não por serem criminosos, mas prejudiciaes, por desmoralisarem o dinheiro bom.
A linguagem do Falcão valia um estudo. Assim é que, um dia, em 1864, voltando do enterro de um amigo, referiu o explendor do prestito, exclamando com enthusiasmo:—«Pegavam no caixão tres mil contos!» E, como um dos ouvintes não o entendesse logo, concluiu do espanto, que duvidava d'elle, e discriminou a affirmação:—«Fulano quatro{164} centos, Sicrano seiscentos... Sim, senhor, seiscentos; ha dois annos, quando desfez a sociedade com o sogro, ia em mais de quinhentos; mas supponhamos quinhentos...» E foi por diante, demonstrando, sommando e concluindo:—«Justamente, tres mil contos!»
Não era casado. Casar era botar dinheiro fóra. Mas os annos passaram, e aos quarenta e cinco entrou a sentir uma certa necessidade moral, que não comprehendeu logo, e era a saudade paterna. Não mulher, não parentes, mas um filho ou uma filha, se elle o tivesse, era como receber um patacão de ouro. Infelizmente, esse outro capital devia ter sido accumulado em tempo; não podia começal-o a ganhar tão tarde. Restava a loteria; a loteria deu-lhe o premio grande.
Morreu-lhe o irmão, e tres mezes depois a cunhada, deixando uma filha de onze annos. Elle gostava muito d'esta e de outra sobrinha, filha de uma irmã viuva; dava-lhes beijos, quando as visitava; chegava mesmo ao delirio de levar-lhes, uma ou outra vez, biscoitos. Hesitou um pouco, mas, emfim, recolheu a orphã; era a filha cobiçada. Não cabia em si de contente; durante as primeiras semanas, quasi não sahia de casa, ao pé d'ella, ouvindo-lhe historias e tolices.{165}
Chamava-se Jacintha, e não era bonita; mas tinha a voz melodiosa e os modos fagueiros. Sabia ler e escrever; começava a aprender musica. Trouxe o piano comsigo, o methodo e alguns exercicios; não pôde trazer o professor, porque o tio entendeu que era melhor ir praticando o que aprendera, e um dia... mais tarde... Onze annos, doze annos, treze annos, cada anno que passava era mais um vinculo que atava o velho solteirão á filha adoptiva, e vice-versa. Aos treze, Jacintha mandava na casa; aos dezesete era verdadeira dona. Não abusou do dominio; era naturalmente modesta, frugal, poupada.
—Um anjo! dizia o Falcão ao Chico Borges.
Este Chico Borges tinha quarenta annos, e era dono de um trapiche. Ia jogar com o Falcão, á noite. Jacintha assistia ás partidas. Tinha então dezoito annos; não era mais bonita, mas diziam todos «que estava enfeitando muito.» Era pequenina, e o trapicheiro adorava as mulheres pequeninas. Corresponderam-se, o namoro fez-se paixão.
—Vamos a ellas, dizia o Chico Borges ao entrar, pouco depois de ave-marias.
As cartas eram o chapéu de sol dos dous namorados. Não jogavam a dinheiro; mas o Falcão tinha{166} tal sêde ao lucro, que contemplava os proprios tentos, sem valor, e contava-os de dez em dez minutos, para ver se ganhava ou perdia. Quando perdia, cahia-lhe o rosto n'um desalento incuravel, e elle recolhia-se pouco a pouco ao silencio. Se a sorte teimava em perseguil-o, acabava o jogo, e levantava-se tão melancolico e cego, que a sobrinha e o parceiro podiam apertar a mão, uma, duas, tres vezes, sem que elle visse cousa nenhuma.
Era isto em 1869. No principio de 1870 Falcão propoz ao outro uma venda de acções. Não as tinha; mas farejou uma grande baixa, e contava ganhar de um só lance trinta a quarenta contos ao Chico Borges. Este respondeu-lhe finamente que andava pensando em offerecer-lhe a mesma cousa. Uma vez que ambos queriam vender e nenhum comprar, podiam juntar-se e propor a venda a um terceiro. Acharam o terceiro, e fecharam o contracto a sessenta dias. Falcão estava tão contente, ao voltar do negocio, que o socio abriu-lhe o coração e pediu-lhe a mão de Jacintha. Foi o mesmo que, se de repente, começasse a fallar turco. Falcão parou, embasbacado, sem entender. Que lhe desse a sobrinha? Mas então...
—Sim; confesso a vossê que estimaria muito{167} casar com ella, e ella... penso que tambem estimaria casar comigo.
—Qual, nada! interrompeu o Falcão. Não, senhor; está muito criança, não consinto.
—Mas reflicta...
—Não reflicto, não quero.
Chegou á casa irritado e aterrado. A sobrinha afagou-o tanto para saber o que era, que elle acabou contando tudo, e chamando-lhe esquecida e ingrata. Jacintha empallideceu; amava os dous, e via-os tão dados, que não imaginou nunca esse contraste de affeições. No quarto chorou á larga; depois escreveu uma carta ao Chico Borges pedindo-lhe pelas cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Christo, que não fizesse barulho nem brigasse com o tio; dizia-lhe que esperasse, e jurava-lhe um amor eterno.
Não brigaram os dois parceiros; mas as visitas foram naturalmente mais escassas e frias. Jacintha não vinha á sala, ou retirava-se logo. O terror do Falcão era enorme. Elle amava a sobrinha com um amor de cão, que persegue e morde aos extranhos. Queria-a para si, não como homem, mas como pai. A paternidade natural dá forças para o sacrificio da separação; a paternidade d'elle era de emprestimo, e, talvez, por isso mesmo, mais egoista. Nunca{168} pensara em perdel-a; agora, porém, eram trinta mil cuidados, janellas fechadas, advertencias á preta, uma vigilancia perpetua, um espiar os gestos e os ditos, uma campanha de D. Bartholo.
Entretanto, o sol, modelo de funccionarios, continuou a servir pontualmente os dias, um a um, até chegar aos dois mezes do prazo marcado para a entrega das acções. Estas deviam baixar, segundo a previsão dos dois; mas as acções, como as loterias e as batalhas, zombam dos calculos humanos. N'aquelle caso, além de zombaria, houve crueldade, porque nem baixaram, nem ficaram ao par; subiram até converter o esperado lucro de quarenta contos n'uma perda de vinte.
Foi aqui que o Chico Borges teve uma inspiração de genio. Na vespera, quando o Falcão, abatido e mudo, passeava na sala o seu desapontamento, propoz elle custear todo o deficit, se lhe désse a sobrinha. Falcão teve um deslumbramento.
—Que eu...?
—Isso mesmo, interrompeu o outro, rindo.
—Não, não...
Não quiz; recusou tres e quatro vezes. A primeira impressão fôra de alegria, eram os dez contos na algibeira. Mas a idéa de separar-se de Jacintha{169} era insupportavel, e recusou. Dormiu mal. De manhã, encarou a situação, pesou as cousas, considerou que, entregando Jacintha ao outro, não a perdia inteiramente, ao passo que os dez contos iam-se embora. E, depois, se ella gostava d'elle e elle d'ella, porque razão separal-os? Todas as filhas casam-se, e os pais contentam-se de as vêr felizes. Correu á casa do Chico Borges, e chegaram a accordo.
—Fiz mal, muito mal, bradava elle na noite do casamento. Tão minha amiga que ella era! Tão amorosa! Ia chorando, coitadinha... Fiz mal, muito mal.
Cessára o terror dos dez contos; começára o fastio da solidão. Na manhã seguinte, foi visitar os noivos. Jacintha não se limitou a regalal-o com um bom almoço, encheu-o de mimos e affagos; mas nem estes, nem o almoço lhe restituiram a alegria. Ao contrario, a felicidade dos noivos entristeceu-o mais. Ao voltar para casa não achou a carinha meiga de Jacintha. Nunca mais lhe ouviria as cantigas de menina e moça; não seria ella quem lhe faria o chá, quem lhe traria, á noite, quando elle quizesse ler, o velho tomo ensebado do Saint-Clair das Ilhas, dadiva de 1850.
—Fiz mal, muito mal...
Para remediar o mal feito, transferiu as cartas{170} para a casa da sobrinha, e ia lá jogar, á noute, com o Chico Borges. Mas a fortuna, quando flagella um homem, corta-lhe todas as vazas. Quatro mezes depois, os recem-casados foram para a Europa; a solidão alargou-se de toda a extensão do mar. Falcão contava então cincoenta e quatro annos. Já estava mais consolado do casamento de Jacintha; tinha mesmo o plano de ir morar com elles, ou de graça, ou mediante uma pequena retribuição, que calculou ser muito mais economico do que a despeza de viver só. Tudo se esboroou; eil-o outra vez na situação de oito annos antes, com a differença que a sorte arrancára-lhe a taça entre dous goles.
Vai senão quando cai-lhe outra sobrinha em casa. Era a filha da irmã viuva, que morreu e lhe pediu a esmola de tomar conta d'ella. Falcão não prometteu nada, por que um certo instincto o levava a não prometter cousa nenhuma a ninguem, mas a verdade é que recolheu a sobrinha, tão depressa a irmã fechou os olhos. Não teve constrangimento; ao contrario, abriu-lhe as portas de casa, com um alvoroço de namorado, e quasi abençoou a morte da irmã. Era outra vez a filha perdida.
—Esta ha de fechar-me os olhos, dizia elle comsigo.
Não era facil. Virginia tinha dezoito annos, feições{171} lindas e originaes; era grande e vistosa. Para evitar que lh'a levassem, Falcão começou por onde acabara da primeira vez:—janellas cerradas, advertencias á preta, raros passeios, só com elle e de olhos baixos. Virginia não se mostrou enfadada.—Nunca fui janelleira, dizia ella, e acho muito feio que uma moça viva com o sentido na rua. Outra cautella do Falcão foi não trazer para casa senão parceiros de cincoenta annos para cima ou casados. Emfim, não cuidou mais da baixa das acções. E tudo isso era desnecessario, porque a sobrinha não cuidava realmente senão d'elle e da casa. Ás vezes, como a vista do tio começava a diminuir muito, lia-lhe ella mesma alguma pagina do Saint-Clair das Ilhas. Para supprir os parceiros, quando elles faltavam, apprendeu a jogar cartas, e, entendendo que o tio gostava de ganhar, deixava-se sempre perder. Ia mais longe: quando perdia muito, fingia-se zangada ou triste, com o unico fim de dar ao tio um accrescimo de prazer. Elle ria então á larga, mofava d'ella, achava-lhe o nariz comprido, pedia um lenço para enxugar-lhe as lagrimas; mas não deixava de contar os seus tentos de dez em dez minutos, e se algum cahia no chão (eram grãos de milho) descia a vela para apanhal-o.{172}
No fim de tres mezes, Falcão adoeceu. A molestia não foi grave nem longa; mas o terror da morte apoderou-se-lhe do espirito, e foi então que se pôde vêr toda a affeição que elle tinha á moça. Cada visita que se lhe chegava, era recebida com rispidez, ou pelo menos com sequidão. Os mais intimos padeciam mais, porque elle dizia-lhes brutalmente que ainda não era cadaver, que a carniça ainda estava viva, que os urubús enganavam-se de cheiro, etc. Mas nunca Virginia achou n'elle um só instante de máu humor. Falcão obedecia-lhe em tudo, com uma passividade de creança, e quando ria, é porque ella o fazia rir.
—Vamos, tome o remedio, deixe-se disso, vosmecê agora é meu filho...
Falcão sorria e bebia a droga. Ella sentava-se ao pé da cama, contando-lhe historias, espiava o relogio para dar-lhe os caldos ou a gallinha, lia-lhe o sempiterno Saint-Clair. Veiu a convalecença. Falcão sahiu a alguns passeios, acompanhado de Virginia. A prudencia com que esta, dando-lhe o braço, ia mirando as pedras da rua, com medo de encarar os olhos de algum homem, encantavam o Falcão.
—Esta ha de fechar-me os olhos, repetia elle comsigo mesmo. Um dia, chegou a pensal-o em voz{173} alta:—Não é verdade que você me ha de fechar os olhos?
—Não diga tolices!
Comquanto estivesse na rua, elle parou, apertou-lhe muito as mãos, agradecido, não achando que dizer. Se tivesse a faculdade de chorar, ficaria provavelmente com os olhos humidos. Chegando á casa? Virginia correu ao quarto para reler uma carta que lhe entregára na vespera uma D. Bernarda, amiga de sua mãi. Era datada de New-York, e trazia por unica assignatura este nome: Reginaldo. Um dos trechos dizia assim: «Vou d'aqui no paquete de 25. Espera-me sem falta. Não sei ainda se irei ver-te logo ou não. Teu tio deve lembrar-se de mim; viu-me em casa de meu tio Chico Borges, no dia do casamento de tua prima...»
Quarenta dias depois, desembarcava este Reginaldo, vindo de New-York, com trinta annos feitos e trezentos mil dollars ganhos. Vinte e quatro horas depois visitou o Falcão, que o recebeu apenas com polidez. Mas o Reginaldo era fino e pratico; atinou com a principal corda do homem, e vibrou-a. Contou-lhe os prodigios de negocio nos Estados-Unidos, as hordas de moedas que corriam de um a outro dos dous oceanos. Falcão ouvia deslumbrado, e pedia{174} mais. Então o outro fez-lhe uma extensa computação das companhias e bancos, acções, saldos de orçamento publico, riquezas particulares, receita municipal de New-York; descreveu-lhe os grandes palacios do commercio...
—Realmente, é um grande paiz, dizia o Falcão, de quando em quando. E depois de tres minutos de reflexão:—Mas, pelo que o senhor conta, só ha ouro?
—Ouro só, não; ha muita prata e papel; mas alli papel e ouro é a mesma cousa. E moedas de outras nações? Hei de mostrar-lhe uma collecção que trago. Olhe; para vêr o que é aquillo basta pôr os olhos em mim. Fui para lá pobre, com vinte e tres annos; no fim de sete annos, trago seiscentos contos.
Falcão estremeceu:—Eu, com a sua edade, confessou elle, mal chegaria a cem.
Estava encantado. Reginaldo disse-lhe que precisava de duas ou tres semanas, para lhe contar os milagres do dollar.
—Como é que o senhor lhe chama?
—Dollar.
—Talvez não acredite que nunca vi essa moeda.
Reginaldo tirou do bolso do collete um dollar e mostrou-lh'o. Falcão, antes de lhe pôr a mão, agarrou-o{175} com os olhos. Como estava um pouco escuro, levantou-se e foi até á janella, para examinal-o bem—de ambos os lados; depois restituiu-o, gabando muito o desenho e a cunhagem, e accrescentando que os nossos antigos patacões eram bem bonitos.
As visitas repetiram-se. Reginaldo assentou de pedir a moça. Esta, porém, disse-lhe que era preciso ganhar primeiro as boas graças do tio; não casaria contra a vontade d'elle. Reginaldo não desanimou. Tratou de redobrar as finezas; abarrotou o tio de dividendos fabulosos.
—A proposito, o senhor nunca me mostrou a sua collecção de moedas, disse-lhe um dia o Falcão.
—Vá amanhã á minha casa.
Falcão foi. Reginaldo mostrou-lhe a collecção mettida n'um movel envidraçado por todos os lados. A sorpreza de Falcão foi extraordinaria; esperava uma caixinha com um exemplar de cada moeda, e achou montes de ouro, de prata, de bronze e de cobre. Falcão mirou-as primeiro de um olhar universal e collectivo; depois, começou a fixal-as especificadamente. Só conheceu as libras, os dollars e os francos; mas o Reginaldo nomeou-as todas: florins, corôas, rublos, drachmas, piastras, pesos, rupias, toda a numismatica do trabalho, concluiu elle poeticamente.{176}
—Mas que paciencia a sua para ajuntar tudo isto! disse elle.
—Não fui eu que ajuntei, replicou o Reginaldo; a collecção pertencia ao espolio de um sujeito de Philadelphia. Custou-me uma bagatella:—cinco mil dollars.
Na verdade, valia mais. Falcão sahiu d'alli com a collecção na alma; fallou d'ella á sobrinha, e, imaginariamente, desarrumou e tornou a arrumar as moedas, como um amante desgrenha a amante para toucal-a outra vez. De noite sonhou que era um florim, que um jogador o deitava á mesa do lansquenet, e que elle trazia comsigo para a algibeira do jogador mais de duzentos florins. De manhã, para consolar-se, foi contemplar as proprias moedas que tinha na burra; mas não se consolou nada. O melhor dos bens é o que se não possue.
D'alli a dias, estando em casa, na sala, pareceu-lhe ver uma moeda no chão. Inclinou-se a apanhal-a; não era moeda, era uma simples carta. Abriu a carta distrahidamente e leu-a espantado: era de Reginaldo a Virginia...
—Basta! interrompe-me o leitor; adivinho o resto. Virginia casou com o Reginaldo, as moedas passaram ás mãos do Falcão, e eram falsas...{177}
Não, senhor, eram verdadeiras. Era mais moral que, para castigo do nosso homem, fossem falsas; mas, ai de mim! eu não sou Seneca, não passo de um Suetonio que contaria dez vezes a morte de Cezar, se elle resussitasse dez vezes, pois não tornaria á vida, se não para tornar ao imperio.
FIM DE UMA ANECDOTA PECUNIARIA.
{178}
{179}
FULANO
Venha o leitor commigo assistir á abertura do testamento do meu amigo Fulano Beltrão. Conheceu-o? Era um homem de cerca de sessenta annos. Morreu hontem, dous de Janeiro de 1884, ás onze horas e trinta minutos da noite. Não imagina a força de animo que mostrou em toda a molestia. Cahiu na vespera de finados, e a principio suppunhamos que não fosse nada; mas a doença persistiu, e ao fim de dous mezes e poucos dias a morte o levou.
Eu confesso-lhe que estou curioso de ouvir o testamento. Ha de conter por força algumas determinações de interesse geral e honrosas para elle. Antes de 1863 não seria assim, porque até então era um homem muito mettido comsigo, reservado, morando no caminho do Jardim Botanico, para onde ia de omnibus ou de mula. Tinha a mulher e o filho vivos, a filha solteira, com treze annos. Foi n'esse{180} anno que elle começou a occupar-se com outras cousas, além da familia, revellando um espirito universal e generoso. Nada posso affirmar-lhe sobre a causa disto. Creio que foi uma apologia de amigo, por occasião d'elle fazer quarenta annos. Fulano Beltrão leu no Jornal do Commercio, no dia cinco de Março de 1864, um artigo anonymo em que se lhe diziam cousas bellas e exactas:—bom pai, bom esposo, amigo pontual, cidadão digno, alma levantada e pura. Que se lhe fizesse justiça, era muito; mas anonymamente, era raro.
—Você verá, disse Fulano Beltrão á mulher, você verá que isto é do Xavier ou do Castro; logo rasgaremos o capote.
Castro e Xavier eram dous habituados da casa, parceiros constantes do voltarete e velhos amigos do meu amigo. Costumavam dizer cousas amaveis, no dia cinco de março, mas era ao jantar, na intimidade da familia, entre quatro paredes; impressos, era a primeira vez que elle se benzia com elogios. Póde ser que me engane; mas estou que o expectaculo da justiça, a prova material de que as boas qualidades e as boas acções não morrem no escuro, foi o que animou o meu amigo a dispersar-se, a apparecer, a divulgar-se, a dar á collectividade humana um{181} pouco das virtudes com que nasceu. Considerou que milhares de pessoas estariam lendo o artigo, á mesma hora em que o lia tambem; imaginou que o commentavam, que interrogavam, que confirmavam, ouviu mesmo, por um phenomeno de allucinação que a sciencia ha de explicar, e que não é raro, ouviu distinctamente algumas vozes do publico. Ouviu que lhe chamavam homem de bem, cavalheiro distincto, amigo dos amigos, laborioso, honesto, todos os qualificativos que elle vira empregados em outros, e que na vida de bicho do matto em que ia, nunca presumiu que lhe fossem—typographicamente—applicados.
—A imprensa é uma grande invenção, disse elle á mulher.
Foi ella, D. Maria Antonia, quem rasgou o capote; o artigo era do Xavier. Declarou este que só em attenção á dona casa confessava a auctoria; e accrescentou que a manifestação não sahira completa, porque a idéa d'elle era que o artigo fosse dado em todos os jornaes, não o tendo feito por havel-o acabado ás sete horas da noite. Não houve tempo de tirar cópias. Fulano Beltrão emendou essa falta, se falta se lhe podia chamar, mandando transcrever o artigo no Diario do Rio e o Correio Mercantil.{182}
Quando mesmo, porém, este facto não desse causa á mudança de vida do nosso amigo, fica uma cousa de pé, a saber, que daquelle anno em diante, e propriamente do mez de março, é que elle começou a apparecer mais. Era até então um casmurro, que não ia ás assembléas das companhias, não votava nas eleições politicas, não frequentava theatros, nada, absolutamente nada. Já n'aquelle mez de março, a vinte e dous ou vinte ou vinte e tres, presenteou a Santa Casa da Misericordia com um bilhete da grande loteria de Hespanha, e recebeu uma honrosa carta do provedor, agradecendo em nome dos pobres. Consultou a mulher e os amigos, se devia publicar a carta ou guardal-a, parecendo-lhe que não a publicar era uma desattenção. Com effeito, a carta foi dada a vinte e seis de março, em todas as folhas, fazendo uma dellas commentarios desenvolvidos ácerca da piedade do doador. Das pessoas que leram esta noticia, muitas naturalmente ainda se lembravam do artigo do Xavier, e ligaram as duas occurencias: «Fulano Beltrão é aquelle mesmo que, etc.» primeiro alicerce da reputação de um homem.
É tarde, temos de ir ouvir o testamento, não posso estar a contar-lhe tudo. Digo-lhe summariamente que as injustiças da rua começaram a ter{183} n'elle um vingador activo e discursivo; que as miserias, principalmente as miserias dramaticas, filhas de um incendio ou inundação, acharam no meu amigo a iniciativa dos soccorros que, em taes casos, devem ser promptos e publicos. Ninguem como elle para um desses movimentos. Assim tambem com as alforias de escravos. Antes da lei de 28 de setembro de 1871, era muito commum apparecerem na Praça do Commercio crianças escravas, para cuja liberdade se pedia o favor dos negociantes. Fulano Beltrão iniciava tres quartas partes das subscripções, com tal exito, que em poucos minutos ficava o preço coberto.
A justiça que se lhe fazia, animava-o, e até lhe trazia lembranças que, sem ella, é possivel que nunca lhe tivessem acudido. Não fallo do baile que elle deu para celebrar a victoria de Riachuelo, porque era um baile planeado antes de chegar a noticia da batalha, e elle não fez mais do que attribuir-lhe um motivo mais alto do que a simples recreação de familia, metter o retrato do almirante Barroso no meio de um trophéu de armas navaes e bandeiras no salão de honra, em frente ao retrato do imperador, e fazer, á ceia, alguns brindes patrioticos, como tudo consta dos jornaes de 1865.{184}
Mas aqui vai, por exemplo, um caso bem caracteristico da influencia que a justiça dos outros póde ter no nosso procedimento. Fulano Beltrão vinha um dia do thesouro, aonde tinha ido tratar de umas decimas. Ao passar pela egreja da Lampadosa, lembrou-se que fôra alli baptisado; e nenhum homem tem uma recordação d'estas, sem remontar o curso dos annos e dos acontecimentos, deitar-se outra vez no collo materno, rir e brincar, como nunca mais se ri nem brinca. Fulano Beltrão não escapou a este effeito; atravessou o adro, entrou na egreja, tão singela, tão modesta, e para elle tão rica e linda. Ao sahir, tinha uma resolução feita, que pôz por obra dentro de poucos dias: mandou de presente á Lampadosa um soberbo castiçal de prata, com duas datas, além do nome do doador—a data da doação e a do baptisado. Todos os jornaes deram esta noticia, e até a receberam em duplicata, porque a administração da egreja entendeu (com muita razão) que tambem lhe cumpria divulgal-a aos quatro ventos.
No fim de tres annos, ou menos, entrára o meu amigo nas cogitações publicas; o nome d'elle era lembrado, mesmo quando nenhum successo recente vinha suggeril-o, e não só lembrado como adjectivado.{185} Já se lhe notava a ausencia em alguns logares. Já o iam buscar para outros. D. Maria Antonia via assim entrar-lhe no Eden a serpente biblica, não para tental-a, mas para tentar a Adão. Com effeito, o marido ia a tantas partes, cuidava de tantas cousas, mostrava-se tanto na rua do Ouvidor, á porta do Bernardo, que afrouxou a convivencia antiga da casa. D. Maria Antonia disse-lh'o. Elle concordou que era assim, mas demonstrou-lhe que não podia ser de outro modo, e, em todo caso, se mudára de costumes, não mudára de sentimentos. Tinha obrigações moraes com a sociedade; ninguem se pertence exclusivamente; d'ahi um pouco de dispersão dos seus cuidados. A verdade é que tinham vivido demasiadamente reclusos; não era justo nem bonito. Não era mesmo conveniente; a filha caminhava para a edade do matrimonio, e casa fechada cria morrinha de convento; por exemplo, um carro, porque é que não teriam um carro? D. Maria Antonia sentiu um arrepio de prazer, mas curto; protestou logo, depois de um minuto de reflexão.
—Não; carro para que? Não; deixemo-nos de carro.
—Já está comprado, mentiu o marido.
Mas aqui chegamos ao juizo da provedoria. Não{186} veiu ainda ninguem; esperemos á porta. Tem pressa? São vinte minutos no maximo. Pois é verdade, comprou uma linda victoria; e, para quem, só por modestia, andou tantos annos ás costas de mula ou apertado n'um omnibus, não era facil acostumar-se logo ao novo vehiculo. A isso attribuo eu as attitudes salientes e inclinadas com que elle andava, nas primeiras semanas, os olhos que estendia a um lado e outro, á maneira de pessoa que procura alguem ou uma casa. Afinal acostumou-se; passou a usar das attitudes reclinadas, embora sem um certo sentimento de indifferença ou despreoccupação, que a mulher e a filha tinham muito bem, talvez por serem mulheres. Ellas, aliás, não gostavam de sahir de carro; mas elle teimava tanto que sahissem, que fossem a toda a parte, e até a parte nenhuma, que não tinham remedio senão obedecer-lhe; e, na rua, era sabido, mal vinha ao longe a ponta do vestido de duas senhoras, e na almofada um certo cocheiro, toda a gente dizia logo:—ahi vem a familia de Fulano Beltrão. E isto mesmo, sem que elle talvez o pensasse, tornava-o mais conhecido.
No anno de 1868 deu entrada na politica. Sei do anno porque coincidiu com a queda dos liberaes e a subida dos conservadores. Foi em março ou abril de{187} 1868 que elle declarou adherir á situação, não á socapa, mas estrepitosamente. Este foi, talvez, o ponto mais fraco da vida do meu amigo. Não tinha idéas politicas; quando muito, dispunha de um d'esses temperamentos que substituem as idéas, e fazem crer que um homem pensa, quando simplesmente transpira. Cedeu, porém, a uma allucinação de momento. Viu-se na camara vibrando um áparte, ou inclinado sobre a balaustrada, em conversa com o presidente do conselho, que sorria para elle, n'uma intimidade grave de governo. E ahi é que a galeria, na exacta accepção do termo, tinha de o contemplar. Fez tudo o que poude para entrar na camara; a meio caminho cahiu a situação. Voltando do atordoamento, lembrou-se de affirmar ao Itaborahy o contrario do que dissera ao Zacarias, ou antes a mesma cousa; mas perdeu a eleição, e deu de mão á politica. Muito mais acertado andou, mettendo-se na questão da maçonaria com os prelados. Deixára-se estar quedo, a principio; por um lado, era maçon; por outro, queria respeitar os sentimentos religiosos da mulher. Mas o conflicto tomou taes proporções que elle não podia ficar calado; entrou n'elle com o ardor, a expansão, a publicidade que mettia em tudo; celebrou reuniões em que fallou muito da liberdade{188} de consciencia e do direito que assistia ao maçon de enfiar uma opa; assignou protestos, representações, felicitações, abriu a bolsa e o coração, escancaradamente.
Morreu-lhe a mulher em 1878. Ella pediu-lhe que a enterrasse sem apparato, e elle assim o fez, porque a amava deveras e tinha a sua ultima vontade como um decreto do céu. Já então perdera o filho; e a filha, casada, achava-se na Europa. O meu amigo dividiu a dôr com o publico; e, se enterrou a mulher sem apparato, não deixou de lhe mandar esculpir na Italia um magnifico mausoléu, que esta cidade admirou exposto, na rua do Ouvidor, durante perto de um mez. A filha ainda veiu assistir á inauguração. Deixei de os ver uns quatro annos. Ultimamente surgiu a doença, que no fim de pouco mais de dous mezes o levou d'esta para a melhor. Note que, até começar a agonia, nunca perdeu a razão nem a força d'alma. Conversava com as visitas, mandava-as relacionar, não esquecia mesmo noticiar ás que chegavam, as que acabavam de sahir; cousa inutil, porque uma folha amiga publicava-as todas. Na manhã do dia em que morreu ainda ouviu lêr os jornaes, e n'um d'elles uma pequena communicação relativamente á sua molestia, o que de algum modo{189} pareceu reanimal-o. Mas para a tarde enfraqueceu um pouco; á noite expirou.
Vejo que está aborrecido. Realmente demoram-se... Espere; creio que são elles. São; entremos. Cá está o nosso magistrado, que começa a ler o testamento. Está ouvindo? Não era preciso esta minuciosa genealogia, excedente das praticas tabelliôas; mas isto mesmo de contar a familia desde o quarto avô prova o espirito exacto e paciente do meu amigo. Não esquecia nada. O ceremonial do sahimento é longo e complicado, mas bonito. Começa agora a lista dos legados. São todos pios; alguns industriaes. Vá vendo a alma do meu amigo. Trinta contos...
Trinta contos para que? Para servir de começo a uma subscripção publica destinada a erigir uma estatua a Pedro Alvares Cabral. «Cabral, diz alli o testamento, não póde ser olvidado dos brazileiros, foi o precursor do nosso imperio». Recommenda que a estatua seja de bronze, com quatro medalhões no pedestal, a saber, o retrato do bispo Coutinho, presidente da Constituinte, o de Gonzaga, chefe da conjuração mineira, e o de dous cidadãos da presente geração «notáveis por seu patriotismo e liberalidade» á escolha da commissão, que elle mesmo nomeou para levar a empreza a cabo.{190}
Que ella se realise, não sei; falta-nos a perseverança do fundador da verba. Dado, porém, que a commissão se desempenhe da tarefa, e que este sol americano ainda veja erguer-se a estatua de Cabral, é da nossa honra que elle contemple n'um dos medalhões o retrato do meu finado amigo. Não lhe parece? Bem, o magistrado acabou, vamos embora.
FIM DO FULANO.
{191}
A SEGUNDA VIDA
Monsenhor Caldas interrompeu a narração do desconhecido:—Dá licença? é só um instante. Levantou-se, foi ao interior da casa, chamou o preto velho que o servia, e disse-lhe em voz baixa:
—João, vae alli á estação de urbanos, falla da minha parte ao commandante, e pede-lhe que venha cá com um ou dous homens, para livrar-me de um sujeito doudo. Anda, vae depressa.
E, voltando á sala:
—Prompto, disse elle; podemos continuar.
—Como ia dizendo a Vossa Reverendissima, morri no dia vinte de março de 1860, ás cinco horas e quarenta e tres minutos da manhã. Tinha então sessenta e oito annos de edade. Minha alma vôou pelo espaço, até perder a terra de vista, deixando muito abaixo a lua, as estrellas e o sol; penetrou finalmente n'um espaço em que não havia mais nada,{192} e era clareado tão sómente por uma luz diffusa. Continuei a subir, e comecei a ver um pontinho mais luminoso ao longe, muito longe. O ponto cresceu, fez-se sol. Fui por alli dentro, sem arder, porque as almas são incombustiveis. A sua pegou fogo alguma vez?
—Não, senhor.
—São incombustiveis. Fui subindo, subindo; na distancia de quarenta mil legoas, ouvi uma deliciosa musica, e logo que cheguei a cinco mil legoas, desceu um enxame de almas, que me levaram n'um palanquim feito de ether e plumas. Entrei dahi a pouco no novo sol, que é o planeta dos virtuosos da terra. Não sou poeta, monsenhor; não ouso descrever-lhe as magnificencias daquella estancia divina. Poeta que fosse, não poderia, usando a linguagem humana, transmittir-lhe a emoção da grandeza, do deslumbramento, da felicidade, os extasis, as melodias, os arrojos de luz e cores, uma cousa indefinivel e incomprehensivel. Só vendo. Lá dentro é que soube que completava mais um milheiro de almas; tal era o motivo das festas extraordinarias que me fizeram, e que duraram dous seculos, ou, pelas nossas contas, quarenta e oito horas. Afinal, concluidas as festas, convidaram-me a tornar á terra para cumprir uma{193} vida nova; era o privilegio de cada alma que completava um milheiro. Respondi agradecendo e recusando, mas não havia recusar. Era uma lei eterna. A unica liberdade que me deram foi a escolha do vehiculo; podia nascer principe ou conductor de omnibus. Que fazer? Que faria Vossa Reverendissima no meu logar?
—Não posso saber; depende...
—Tem razão; depende das circumstancias. Mas imagine que as minhas eram taes que não me davam gosto a tornar cá. Fui victima da inexperiencia, monsenhor, tive uma velhice ruim, por essa razão. Então lembrou-me que sempre ouvira dizer a meu pae e outras pessoas mais velhas, quando viam algum rapaz:—«Quem me dera aquella edade, sabendo o que sei hoje!» Lembrou-me isto, e declarei que me era indifferente nascer mendigo ou potentado, com a condição de nascer experiente. Não imagina o riso universal com que me ouviram. Job, que alli preside a provincia dos pacientes, disse-me que um tal desejo era disparate; mas eu teimei e venci. Dahi a pouco escorreguei no espaço; gastei nove mezes a atravessal-o até cair nos braços de uma ama de leite, e chamei-me José Maria. Vossa Reverendissima é Romualdo, não?{194}
—Sim, senhor; Romualdo de Souza Caldas.
—Será parente do padre Souza Caldas?
—Não, senhor.
—Bom poeta o padre Caldas. Poesia é um dom; eu nunca pude compor uma decima. Mas, vamos ao que importa. Conto-lhe primeiro o que me succedeu; depois lhe direi o que desejo de Vossa Reverendissima. Entretanto, se me permittisse ir fumando...
Monsenhor Caldas fez um gesto de assentimento, sem perder de vista a bengala que José Maria conservava atravessada sobre as pernas. Este preparou vagarosamente um cigarro. Era um homem de trinta e poucos annos, pallido, com um olhar ora molle e apagado, ora inquieto e centelhante. Appareceu alli, tinha o padre acabado de almoçar, e pediu-lhe uma entrevista para negocio grave e urgente. Monsenhor fel-o entrar e sentar-se; no fim de dez minutos, viu que estava com um lunatico. Perdoava-lhe a incoherencia das idéas ou o assombroso das invenções; póde ser até que lhe servissem de estudo. Mas o desconhecido teve um assomo de raiva, que metteu medo ao pacato clerigo. Que podiam fazer elle e o preto, ambos velhos, contra qualquer aggressão de um homem forte e louco? Em quanto esperava o auxilio policial, monsenhor Caldas desfazia-se em{195} sorrisos e assentimentos de cabeça, espantava-se com elle, alegrava-se com elle, politica util com os loucos, as mulheres e os potentados. José Maria accendeu finalmente o cigarro, e continuou:
—Renasci em cinco de Janeiro de 1861. Não lhe digo nada da nova meninice, porque ahi a experiencia teve só uma fórma instinctiva. Mamava pouco; chorava o menos que podia para não apanhar pancada. Comecei a andar tarde, por medo de cair, e dahi me ficou uma tal ou qual fraqueza nas pernas. Correr e rolar, trepar nas arvores, saltar paredões, trocar murros, cousas tão uteis, nada disso fiz, por medo de contusão e sangue. Para fallar com franqueza, tive uma infancia aborrecida, e a escola não o foi menos. Chamavam-me tolo e moleirão. Realmente, eu vivia fugindo de tudo. Creia que durante esse tempo não escorreguei, mas tambem não corria nunca. Palavra, foi um tempo de aborrecimento; e, comparando as cabeças quebradas de outro tempo com o tédio de hoje, antes as cabeças quebradas. Cresci; fiz-me rapaz, entrei no periodo dos amores... Não se assuste; serei casto, como a primeira ceia. Vossa Reverendissima sabe o que é uma ceia de rapazes e mulheres?
—Como quer que saiba?...{196}
—Tinha dezenove annos, continuou José Maria, e não imagina o espanto dos meus amigos, quando me declarei prompto a ir a uma tal ceia... Ninguem esperava tal cousa de um rapaz tão cautelloso, que fugia de tudo, dos somnos atrazados, dos somnos excessivos, de andar sozinho a horas mortas, que vivia, por assim dizer, ás apalpadellas. Fui á ceia; era no Jardim Botanico, obra explendida. Comidas, vinhos, luzes, flores, alegria dos rapazes, os olhos das damas, e, por cima de tudo, um appetite de vinte annos. Hade crer que não comi nada? A lembrança de tres indigestões apanhadas quarenta annos antes, na primeira vida, fez-me recuar. Menti dizendo que estava indisposto. Uma das damas veiu sentar-se á minha direita, para curar-me; outra levantou-se tambem, e veiu para a minha esquerda, com o mesmo fim. Você cura de um lado, eu curo do outro, disseram ellas. Eram lepidas, frescas, astuciosas, e tinham fama de devorar o coração e a vida dos rapazes. Confesso-lhe que fiquei com medo e retrahi-me. Ellas fizeram tudo, tudo; mas em vão. Vim de lá de manhã, apaixonado por ambas, sem nenhuma dellas, e caindo de fome. Que lhe parece? concluiu José Maria pondo as mãos nos joelhos, e arqueando os braços para fóra?{197}
—Com effeito...
—Não lhe digo mais nada; Vossa Reverendissima adivinhará o resto. A minha segunda vida é assim uma mocidade expansiva e impetuosa, enfreiada por uma experiencia virtual e tradiccional. Vivo como Eurico, atado ao proprio cadaver... Não, a comparação não é boa. Como lhe parece que vivo?
—Sou pouco imaginoso. Supponho que vive assim como um passaro, batendo as azas e amarrado pelos pés...
—Justamente. Pouco imaginoso? Achou a formula; é isso mesmo. Um passaro, um grande passaro, batendo as azas, assim...
José Maria ergueu-se, agitando os braços, á maneira de azas. Ao erguer-se, caiu-lhe a bengala no chão; mas elle não deu por ella. Continuou a agitar os braços, em pé, defronte do padre, e a dizer que era isso mesmo, um passaro, um grande passaro... De cada vez que batia os braços nas coxas, levantava os calcanhares, dando ao corpo uma cadencia de movimentos, e conservava os pés unidos, para mostrar que os tinha amarrados. Monsenhor approvava de cabeça; ao mesmo tempo afiava as orelhas para vêr se ouvia passos na escada. Tudo silencio. Só lhe chegavam os rumores de fóra:—carros e carroças{198} que desciam, quitandeiras apregoando legumes, e um piano da vizinhança. José Maria sentou-se finalmente, depois de apanhar a bengala, e continuou nestes termos:
—Um passaro, um grande passaro. Para ver quanto é feliz a comparação, basta a aventura que me traz aqui, um caso de consciencia, uma paixão, uma mulher, uma viuva, D. Clemencia. Tem vinte e seis annos, uns olhos que não acabam mais, não digo no tamanho, mas na expressão, e duas pincelladas de buço, que lhe completam a physionomia. É filha de um professor jubilado. Os vestidos pretos ficam-lhe tão bem que eu ás vezes digo-lhe rindo que ella não enviuvou senão para andar de luto. Caçoadas! Conhecemo-nos ha um anno, em casa de um fazendeiro de Cantagallo. Saimos namorados um do outro. Já sei o que me vae perguntar: porque é que não nos casamos, sendo ambos livres...
—Sim, senhor.
—Mas, homem de Deus! é essa justamente a materia da minha aventura. Somos livres, gostamos um do outro, e não nos casamos: tal é a situação tenebrosa que venho expor a Vossa Reverendissima, e que a sua theologia ou o que quer que seja, explicará, se puder. Voltamos para a Côrte namorados.{199} Clemencia morava com o velho pae, e um irmão empregado no commercio; relacionei-me com ambos, e comecei a frequentar a casa, em Matacavallos. Olhos, apertos de mão, palavras soltas, outras ligadas, uma phrase, duas phrases, e estavamos amados e confessados. Uma noite, no patamar da escada, trocamos o primeiro beijo... Perdôe estas cousas, monsenhor; faça de conta que me está ouvindo de confissão. Nem eu lhe digo isto senão para acrescentar que sahi dalli tonto, desvairado, com a imagem de Clemencia na cabeça e o sabor do beijo na bocca. Errei cerca de duas horas, planeando uma vida unica; determinei pedir-lhe a mão no fim da semana, e casar dahi a um mez. Cheguei ás derradeiras minucias, cheguei a redigir e ornar de cabeça as cartas de participação. Entrei em casa depois de meia noite, e toda essa fantasmagoria vôou, como as mutações á vista nas antigas peças de theatro. Veja se adivinha como.
—Não alcanço...
—Considerei, no momento de despir o collete, que o amor podia acabar depressa; tem-se visto algumas vezes. Ao descalçar as botas, lembrou-me cousa peior:—podia ficar o fastio. Conclui a toilette de dormir, accendi um cigarro, e, reclinado no canapé, pensei que o costume, a convivencia, podia{200} salvar tudo; mas, logo depois adverti que as duas indoles podiam ser incompativeis; e que fazer com duas indoles imcompativeis e inseparaveis? Mas, emfim, dei de barato tudo isso, porque a paixão era grande, violenta; considerei-me casado, com uma linda creancinha... Uma? duas, seis, oito; podiam vir oito, podiam vir dez; algumas aleijadas. Tambem podia vir uma crise, duas crises, falta de dinheiro, penuria, doenças; podia vir alguma dessas affeições espurias que perturbam a paz domestica... Considerei tudo e conclui que o melhor era não casar. O que não lhe posso contar é o meu desespero; faltam-me expressões para lhe pintar o que padeci nessa noite... Deixa-me fumar outro cigarro?
Não esperou resposta, fez o cigarro, e accendeu-o. Monsenhor não podia deixar de admirar-lhe a bella cabeça, no meio do desalinho proprio do estado; ao mesmo tempo notou que elle fallava em termos polidos, e, que apesar dos rompantes morbidos, tinha maneiras. Quem diabo podia ser esse homem? José Maria continuou a historia, dizendo que deixou de ir á casa de Clemencia, durante seis dias, mas não resistiu ás cartas e ás lagrimas. No fim de uma semana correu para lá, e confessou-lhe tudo, tudo. Ella ouviu-o com muito interesse, e quiz saber o{201} que era preciso para acabar com tantas scismas, que prova de amor queria que ella lhe désse.—A resposta de José Maria foi uma pergunta.
—Está disposta a fazer-me um grande sacrificio? disse-lhe eu. Clemencia jurou que sim. «Pois bem, rompa com tudo, familia e sociedade; venha morar commigo; casamo-nos depois desse noviciado.» Comprehendo que Vossa Reverendissima arregale os olhos. Os della encheram-se de lagrimas; mas, apesar de humilhada, aceitou tudo. Vamos; confesse que sou um monstro.
—Não, senhor...
—Como não? Sou um monstro. Clemencia veiu para minha casa, e não imagina as festas com que a recebi. «Deixo tudo, disse-me ella; você é para mim o universo.» Eu beijei-lhe os pés, beijei-lhe os tacões dos sapatos. Não imagina o meu contentamento. No dia seguinte, recebi uma carta tarjada de preto; era a noticia da morte de um tio meu, em Santa Anna do Livramento, deixando-me vinte mil contos. Fiquei fulminado. «Entendo, disse a Clemencia, você sacrificou tudo, por que tinha noticia da herança.» Desta vez, Clemencia não chorou, pegou em si e sahiu. Fui atraz della, envergonhado, pedi-lhe perdão; ella resistiu. Um dia, dous dias, tres dias, foi tudo vão;{202} Clemencia não cedia nada, não fallava sequer. Então declarei-lhe que me mataria; comprei um revolver, fui ter com ella, e apresentei-lh'o: é este.
Monsenhor Caldas empallideceu. José Maria mostrou-lhe o revolver, durante alguns segundos, tornou a mettel-o na algibeira, e continuou:
—Cheguei a dar um tiro. Ella, assustada, desarmou-me e perdoou-me. Ajustámos precipitar o casamento, e, pela minha parte, impuz uma condição: doar os vinte mil contos á Bibliotheca Nacional. Clemencia atirou-se-me aos braços, e approvou-me com um beijo. Dei os vinte mil contos. Ha de ter lido nos jornaes... Tres semanas depois casamo-nos. Vossa Reverendissima respira como quem chegou ao fim. Qual! Agora é que chegamos ao tragico. O que posso fazer é abreviar umas particularidades e supprimir outras; restrinjo-me a Clemencia. Não lhe fallo de outras emoções truncadas, que são todas as minhas, abortos de prazer, planos que se esgarçam no ar, nem das illusões de saia rota, nem do tal passaro... plas... plas... plas...
E, de um salto, José Maria ficou outra vez de pé, agitando os braços, e dando ao corpo uma cadencia. Monsenhor Caldas começou a suar frio. No fim de alguns segundos, José Maria parou, sentou-se, e{203} reatou a narração, agora mais diffusa, mais derramada, evidentemente mais delirante. Contava os sustos em que vivia, desgostos e desconfianças. Não podia comer um figo ás dentadas, como outr'ora; o receio do bicho diminuia-lhe o sabor. Não cria nas caras alegres da gente que ia pela rua: preoccupações, desejos, odios, tristezas, outras cousas, iam dissimuladas por umas tres quartas partes dellas. Vivia a temer um filho cego ou surdo-mudo, ou tuberculoso, ou assassino, etc. Não conseguia dar um jantar que não ficasse triste logo depois da sopa, pela idéa de que uma palavra sua, um gesto da mulher, qualquer falta de serviço podia suggerir o epigramma digestivo, na rua, debaixo de um lampeão. A experiencia dera-lhe o terror de ser empulhado. Confessava ao padre que, realmente, não tinha até agora lucrado nada; ao contrario, perdera até, porque fôra levado ao sangue... Ia contar-lhe o caso do sangue. Na vespera, deitara-se cedo, e sonhou... Com quem pensava o padre que elle sonhou?
—Não atino...
—Sonhei que o Diabo lia-me o Evangelho. Chegando ao ponto em que Jesus falla dos lyrios do campo, o Diabo colheu alguns e deu-m'os. «Toma, disse-me elle; são os lyrios da Escriptura; segundo{204} ouviste, nem Salomão em toda a pompa, pôde hombrear com elles. Salomão é a sapiencia. E sabes o que são estes lyrios, José? São os teus vinte annos.» Fitei-os encantado; eram lindos como não imagina. O Diabo pegou delles, cheirou-os e disse-me que os cheirasse tambem. Não lhe digo nada; no momento de os chegar ao nariz, vi sahir de dentro um reptil fedorento e torpe, dei um grito, e arrojei para longe as flôres. Então, o Diabo, escancarando uma formidavel gargalhada: «José Maria, são os teus vinte annos». Era uma gargalhada assim:—cá, cá, cá, cá, cá...
José Maria ria á solta, ria de um modo estridente e diabolico. De repente, parou; levantou-se, e contou que, tão depressa abriu os olhos, como viu a mulher deante d'elle, afflicta e desgrenhada. Os olhos de Clemencia eram doces, mas elle disse-lhe que os olhos doces tambem fazem mal. Ella arrojou-se-lhe aos pés... Neste ponto a physionomia de José Maria estava tão transtornada que o padre, tambem de pé, começou a recuar, tremulo e pallido. «Não, miseravel! não! tu não me fugirás!» bradava José Maria investindo para elle. Tinha os olhos esbugalhados, as temporas latejantes; o padre ia recuando... recuando... Pela escada acima ouvia-se um rumor de espadas e de pés. {205}