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Historias Sem Data

Chapter 37: IV
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About This Book

A collection of short narratives that move between satirical parable and intimate sketch, frequently adopting a wry, conversational voice. The pieces blend realism and occasional allegory to examine vanity, hypocrisy, self-deception and the moral ambiguities of social life. Concise plots and abrupt reversals foreground psychological observation and irony, privileging implication and moral puzzlement over explicit judgment or neat resolution, and inviting reflection on motive, consequence and human contradiction.

NOITE DE ALMIRANTE

Deolindo Venta-Grande (era uma alcunha de bordo) sahio do arsenal de marinha e enfiou pela rua de Bragança. Batiam tres horas da tarde. Era a fina flor dos marujos e, de mais, levava um grande ar de felicidade nos olhos. A corveta d'elle voltou de uma longa viagem de instrucção, e Deolindo veiu á terra tão depressa alcançou licença. Os companheiros disseram-lhe, rindo:

—Ah! Venta-Grande! Que noite de almirante vai você pasmar! ceia, viola e os braços de Genoveva. Collosinho de Genoveva...

Deolindo sorriu. Era assim mesmo, uma noite de almirante, como elles dizem, uma d'essas grandes noites de almirante que o esperava em terra. Começára a paixão tres mezes antes de sahir a corveta. Chamava-se Genoveva, caboclinha de vinte annos, esperta, olho negro e atrevido. Encontraram-se em casa de terceiro{206} e ficaram morrendo um pelo outro, a tal ponto que estiveram prestes a dar uma cabeçada, elle deixaria o serviço e ella o acompanharia para a villa mais recondita do interior.

A velha Ignacia, que morava com ella, dissuadiu-os disso; Deolindo não teve remedio senão seguir em viagem de instrucção. Eram oito ou dez mezes de ausencia. Como fiança reciproca, entenderam dever fazer um juramento de fidelidade.

—Juro por Deus que está no céu. E você?

—Eu tambem.

—Diz direito.

—Juro por Deus que está no céu; a luz me falte na hora da morte.

Estava celebrado o contracto. Não havia descrer da sinceridade de ambos; ella chorava doudamente, elle mordia o beiço para dissimular. Afinal separaram-se, Genoveva foi ver sahir a corveta e voltou para casa com um tal aperto no coração que parecia que «lhe ia dar uma cousa». Não lhe deu nada, felizmente; os dias foram passando, as semanas, os mezes, dez mezes, ao cabo dos quaes, a corveta tornou e Deolindo com ella.

Lá vai elle agora, pela rua de Bragança, Prainha e Saude, até ao principio da Gambôa, onde mora{207} Genoveva. A casa é uma rotulasinha escura, portal rachado do sol, passando o cemiterio dos inglezes; lá deve estar Genoveva, debruçada á janella, esperando por elle. Deolindo prepara uma palavra que lhe diga. Já formulou esta: «jurei e cumpri» mas procura outra melhor. Ao mesmo tempo lembra as mulheres que viu por esse mundo de Christo, italianas, marselhezas ou turcas, muitas d'ellas bonitas, ou que lhe pareciam taes. Concorda que nem todas seriam para os beiços d'elle, mas algumas eram, e nem por isso fez caso de nenhuma. Só pensava em Genoveva. A mesma casinha d'ella, tão pequenina, e a mobilia de pé quebrado, tudo velho e pouco, isso mesmo lhe lembrava deante dos palacios de outras terras. Foi á custa de muita economia que comprou em Trieste um par de brincos, que leva agora no bolso com algumas bugigangas. E ella que lhe guardaria? Pode ser que um lenço marcado com o nome d'elle e uma ancora na ponta, porque ella sabia marcar muito bem. N'isto chegou á Gambôa, passou o cemiterio e deu com a casa fechada. Bateu, fallou-lhe uma voz conhecida, a da velha Ignacia, que veiu abrir-lhe a porta com grandes exclamações de prazer. Deolindo, impaciente, perguntou por Genoveva.

—Não me falle n'essa maluca, arremetteu a{208} velha. Estou bem satisfeita com o conselho que lhe dei. Olhe lá se fugisse. Estava agora como o lindo amor.

—Mas que foi? que foi?

A velha disse-lhe que descançasse, que não era nada, uma d'essas cousas que apparecem na vida; não valia a pena zangar-se. Genoveva andava com a cabeça virada...

—Mas virada porque?

—Está com um mascate, José Diogo. Conheceu José Diogo, mascate de fazendas? Está com elle. Não imagina a paixão que elles têm um pelo outro. Ella então anda maluca. Foi o motivo da nossa briga. José Diogo não me sahia da porta; eram conversas e mais conversas, até que eu um dia disse que não queria a minha casa diffamada. Ah! meu pai do céu! foi um dia de juizo. Genoveva investiu para mim com uns olhos d'este tamanho, dizendo que nunca diffamou ninguem e não precisava de esmolas. Que esmolas, Genoveva? O que digo é que não quero esses cochichos á porta, desde as ave-marias... Dous dias depois estava mudada e brigada commigo.

—Onde mora ella?

—Na praia Formosa, antes de chegar á pedreira, uma rotula pintada de novo.{209}

Deolindo não quiz ouvir mais nada. A velha Ignacia, um tanto arrependida, ainda lhe deu avisos de prudencia, mas elle não os escutou e foi andando. Deixo de notar o que pensou em todo o caminho; não pensou nada. As idéas marinhavam-lhe no cerebro, como em hora de temporal, no meio de uma confusão de ventos e apitos. Entre ellas rutilou a faca de bordo, ensanguentada e vingadora. Tinha passado a Gambôa, o Sacco do Alferes, entrára na praia Formosa. Não sabia o numero da casa, mas era perto da pedreira, pintada de novo, e com auxilio da visinhança poderia achal-a. Não contou com o acaso que pegou de Genoveva e fel-a sentar á janella, cosendo, no momento em que Deolindo ia passando. Elle conheceu-a e parou; ella, vendo o vulto de um homem, levantou os olhos e deu com o marujo.

—Que é isso? exclamou espantada. Quando chegou? Entre, seu Deolindo.

E, levantando-se, abriu a rotula e fel-o entrar. Qualquer outro homem ficaria alvoroçado de esperanças, tão francas eram as maneiras da rapariga; podia ser que a velha se enganasse ou mentisse; podia ser mesmo que a cantiga do mascate estivesse acabada. Tudo isso lhe passou pela cabeça, sem a fórma precisa do raciocinio ou da reflexão, mas em tumulto{210} e rapido.. Genoveva deixou a porta aberta, fel-o sentar-se, pediu-lhe noticias da viagem e achou-o mais gordo; nenhuma commoção nem intimidade. Deolindo perdeu a ultima esperança. Em falta de faca, bastavam-lhe as mãos para estrangular Genoveva, que era um pedacinho de gente, e durante os primeiros minutos não pensou em outra cousa.

—Sei tudo, disse elle.

—Quem lhe contou?

Deolindo levantou os hombros.

—Fosse quem fosse, tornou ella, disseram-lhe que eu gostava muito de um moço?

—Disseram.

—Disseram a verdade.

Deolindo chegou a ter um impeto; ella fel-o parar só com a acção dos olhos. Em seguida disse que, se lhe abrira a porta, é porque contava que era homem de juizo. Contou-lhe então tudo, as saudades que curtira, as propostas do mascate, as suas recusas, até que um dia, sem saber como, amanhecera gostando d'elle.

—Pode crer que pensei muito e muito em você. Sinhá Ignacia que lhe diga se não chorei muito... Mas o coração mudou... Mudou... Conto-lhe tudo isto, como se estivesse diante do padre, concluiu sorrindo.{211}

Não sorria de escarneo. A expressão das palavras é que era uma mescla de candura e cynismo, de insolencia e simplicidade, que desisto de definir melhor. Creio até que insolencia e cynismo são mal applicados. Genoveva não se defendia de um erro ou de um perjurio; não se defendia de nada; faltava-lhe o padrão moral das acções. O que dizia, em resumo, é que era melhor não ter mudado, dava-se bem com a affeição do Deolindo, a prova é que quiz fugir com elle; mas, uma vez que o mascate venceu o marujo, a razão era do mascate, e cumpria declaral-o. Que vos parece? O pobre marujo citava o juramento de despedida, como uma obrigação eterna, diante da qual consentira em não fugir e embarcar: «Juro por Deus que está no céu; a luz me falte na hora da morte». Se embarcou, foi porque ella lhe jurou isso. Com essas palavras é que andou, viajou, esperou e tornou; foram ellas que lhe deram a força de viver. Juro por Deos que está no céu; a luz me falte na hora da morte...

—Pois, sim, Deolindo, era verdade. Quando jurei, era verdade. Tanto era verdade que eu queria fugir com você para o sertão. Só Deus sabe se era verdade! Mas vieram outras cousas... Veio este moço e eu comecei a gostar d'elle...{212}

—Mas a gente jura é para isso mesmo; é para não gostar de mais ninguem...

—Deixa d'isso, Deolindo. Então você só se lembrou de mim? Deixa de partes...

—A que horas volta José Diogo?

—Não volta hoje.

—Não?

—Não volta; está lá para os lados de Guaratiba com a caixa; deve voltar sexta-feira ou sabbado... E por que é que você quer saber? Que mal lhe fez elle?

Pode ser que qualquer outra mulher tivesse egual palavra; poucas lhe dariam uma expressão tão candida, não de proposito, mas involuntariamente. Vêde que estamos aqui muito proximos da natureza. Que mal lhe fez elle? Que mal lhe fez esta pedra que cahiu de cima? Qualquer mestre de physica lhe explicaria a queda das pedras. Deolindo declarou, com um gesto de desespero, que queria matal-o. Genoveva olhou, para elle com desprezo, sorriu de leve e deu um muxoxo; e, como elle lhe fallasse de ingratidão e perjurio, não poude disfarçar o pasmo. Que perjurio? que ingratidão? Já lhe tinha dito e repetia que quando jurou era verdade. Nossa Senhora, que alli estava, em cima da commoda, sabia se era verdade ou não. Era assim que lhe pagava o que padeceu? E elle que{213} tanto enchia a bocca de fidelidade, tinha-se lembrado d'ella por onde andou?

A resposta d'elle foi metter a mão no bolso e tirar o pacote que lhe trazia. Ella abriu-o, aventou as bugigangas, uma por uma, e por fim deu com os brincos. Não eram nem poderiam ser ricos; eram mesmo de mau gosto, mas faziam uma vista de todos os diabos. Genoveva pegou d'elles, contente, deslumbrada, mirou-os por um lado e outro, perto e longe dos olhos, e afinal enfiou-os nas orelhas; depois foi ao espelho de pataca, suspenso na parede, entre a janella e a rotula, para ver o effeito que lhe faziam. Recuou, approximou-se, voltou a cabeça da direita para esquerda e da esquerda para a direita.

—Sim, senhor, muito bonitos, disse ella, fazendo uma grande mesura de agradecimento. Onde é que comprou?

Creio que elle não respondeu nada, nem teria tempo para isso, porque ella disparou mais duas ou tres perguntas, uma atraz da outra, tão confusa estava de receber um mimo a troco de um esquecimento. Confusão de cinco ou quatro minutos; pode ser que dous. Não tardou que tirasse os brincos, e os contemplasse e puzesse na caixinha em cima da mesa redonda que estava no meio da sala. Elle pela sua parte{214} começou a crer que, assim como a perdeu, estando ausente, assim o outro, ausente, podia tambem perdel-a; e, provavelmente, ella não lhe jurára nada.

—Brincando, brincando, é noite, disse Genoveva.

Com effeito, a noite ia cahindo rapidamente. Já não podiam ver o hospital dos Lazaros e mal distinguiam a ilha dos Melões; as mesmas lanchas e canôas, postas em secco, defronte da casa, confundiam-se com a terra e o lodo da praia. Genoveva accendeu uma vela. Depois foi sentar-se na soleira da porta e pediu-lhe que contasse alguma cousa das terras por onde andara. Deolindo recusou a principio; disse que se ia embora, levantou-se e deu alguns passos na sala. Mas o demonio da esperança mordia e babujava o coração do pobre diabo, e elle voltou a sentar-se, para dizer duas ou tres anecdotas de bordo. Genoveva escutava com attenção. Interrompidos por uma mulher da visinhança, que alli veiu, Genoveva fel-a sentar-se tambem para ouvir «as bonitas historias que o Sr. Deolindo estava contando». Não houve outra apresentação. A grande dama que prolonga a vigilia para concluir a leitura de um livro ou de um capitulo, não vive mais intimamente a vida dos personagens do que a antiga amante do marujo vivia as scenas que elle ia contando, tão livremente{215} interessada e presa, como se entre ambos não houvesse mais que uma narração de episodios. Que importa á grande dama o auctor do livro? Que importava a esta rapariga o contador dos episodios?

A esperança, entretanto, começava a desemparal-o e elle levantou-se definitivamente para sahir. Genoveva não quiz deixal-o sahir antes que a amiga visse os brincos, e foi mostrar-lh'os com grandes encarecimentos. A outra ficou encantada, elogiou-os muito, perguntou se os comprara em França e pediu a Genoveva que os puzesse.

—Realmente, são muito bonitos.

Quero crer que o proprio marujo concordou com essa opinião. Gostou de os ver, achou que pareciam feitos para ella e, durante alguns segundos, saboreou o prazer exclusivo e superfino de haver dado um bom presente; mas foram só alguns segundos.

Como elle se despedisse, Genoveva acompanhou-o até á porta para lhe agradecer ainda uma vez o mimo, e provavelmente dizer-lhe algumas cousas meigas e inuteis. A amiga, que deixára ficar na sala, apenas lhe ouviu esta palavra: «Deixa d'isso, Deolindo»; e esta outra do marinheiro: «Você verá». Não poude ouvir o resto, que não passou de um sussurro.{216}

Deolindo seguiu, praia fóra, cabisbaixo e lento, não já o rapaz impetuoso da tarde, mas com um ar velho e triste, ou, para usar outra metaphora de marujo, como um homem «que vai do meio caminho para terra». Genoveva entrou logo depois, alegre e barulhenta. Contou á outra a anecdota dos seus amores maritimos, gabou muito o genio do Deolindo e os seus bonitos modos; a amiga declarou achal-o grandemente sympathico.

—Muito bom rapaz, insistiu Genoveva. Sabe o que elle me disse agora?

—Que foi!

—Que vai matar-se.

—Jesus!

—Qual o que! Não se mata, não. Deolindo é assim mesmo; diz as cousas, mas não faz. Você verá que não se mata. Coitado, são ciumes. Mas os brincos são muito engraçados.

—Eu aqui ainda não vi d'estes.

—Nem eu, concordou Genoveva, examinando-os á luz. Depois guardou-os e convidou a outra a coser.—Vamos coser um bocadinho, quero acabar o meu corpinho azul...

A verdade é que o marinheiro não se matou. No dia seguinte, alguns dos companheiros bateram-lhe{217} no hombro, comprimentando-o pela noite de almirante, e pediram-lhe noticias de Genoveva, se estava mais bonita, se chorára muito na ausencia, etc. Elle respondia a tudo com um sorriso satisfeito e discreto, um sorriso de pessoa que viveu uma grande noite. Parece que teve vergonha da realidade e preferiu mentir.

 

FIM DA NOITE DE ALMIRANTE.

{218}
{219}

MANUSCRITO DE UM SACHRISTÃO

I

........... Ao dar com o padre Theophilo fallando a uma senhora, ambos sentadinhos no banco da egreja, e a egreja deserta, confesso que fiquei espantado. Note-se que conversavam em voz tão baixa e discreta, que eu, por mais que afiasse o ouvido e me demorasse a apagar as velas do altar, não podia apanhar nada, nada, nada. Não tive remedio senão adivinhar alguma cousa. Que eu sou um sacristão philosopho. Ninguem me julgue pela sobrepeliz rota e amarrotada nem pelo uso clandestino das galhetas. Sou um philosopho sacristão. Tive estudos ecclesiasticos, que interrompi por causa de uma doença e que inteiramente deixei por outro motivo, uma paixão violenta, que me trouxe á miseria. Como o seminario deixa sempre um certo vinco, fiz-me{220} sacristão aos trinta annos, para ganhar a vida. Venhamos, porém, ao nosso padre e á nossa dama.

II

Antes de ir adiante, direi que eram primos. Soube depois que eram primos, nascidos em Vassouras. Os pais d'ella mudaram-se para a côrte, tendo Eulalia (é o seu nome) sete annos. Theophilo veiu depois. Na familia era uso antigo que um dos rapazes fosse padre. Vivia ainda na Bahia um tio, d'elle, conego. Cabendo-lhe n'esta geração envergar a batina, veiu para o seminario de S. José, no anno de mil oitocentos e cincoenta e tantos, e foi ahi que o conheci. Comprehende-se o sentimento de discrição que me leva a deixar a data no ar.

III

No seminario, dizia-nos o lente de rhetorica:—A theologia é a cabeça do genero humano, o{221} latim a perna esquerda, e a rhetorica a perna direita.

Justamente da perna direita é que o Theophilo coxeava. Sabia muito as outras cousas: theologia, philosophia, latim, historia sagrada; mas a rhetorica é que lhe não entrava no cerebro. Elle, para desculpar-se, dizia que a palavra divina não precisava de adornos. Tinha então vinte ou vinte e dous annos de edade, e era lindo como S. João.

Já n'esse tempo era um mystico; achava em todas as cousas uma significação recondita. A vida era uma eterna missa, em que o mundo servia de altar, a alma de sacerdote e o corpo de acolyto; nada respondia á realidade exterior. Vivia ancioso de tomar ordens para sahir a prégar grandes cousas, espertar as almas, chamar os corações á Egreja, e renovar o genero humano. Entre todos os apostolos, amava principalmente S. Paulo.

Não sei se o leitor é da minha opinião; eu cuido que se póde avaliar um homem pelas suas sympathias historicas; tu serás mais ou menos da familia dos personagens que amares devéras. Applico assim aquella lei de Helvetius: «o grau de espirito que nos deleita dá a medida exacta do grau de espirito que possuimos». No nosso caso, ao menos, a regra não falhou. Theophilo amava S. Paulo, adorava-o,{222} estudava-o dia e noite, parecia viver d'aquelle converso que ia de cidade em cidade, á custa de um officio mecanico, espalhando a boa nova aos homens. Nem tinha sómente esse modelo, tinha mais dous: Hildebrando e Loyola. D'aqui podeis concluir que nasceu com a fibra da peleja e do apostolado. Era um faminto de ideal e creação, olhando todas as cousas correntes por cima da cabeça do seculo. Na opinião de um conego, que lá ia ao seminario, o amor dos dous modelos ultimos temperava o que pudesse haver perigoso em relação ao primeiro.

—Não vá o senhor cair no excesso e no exclusivo, disse-lhe um dia com brandura; não pareça que, exaltando sómente a Paulo, intenta diminuir Pedro. A egreja, que os commemora ao lado um do outro, metteu-os ambos no Credo; mas veneremos Paulo e obedeçamos a Pedro. Super hanc petram...

Os seminaristas gostavam do Theophilo, principalmente tres, um Vasconcellos, um Soares e um Velloso, todos excellentes rhetoricos. Eram tambem bons rapazes, alegres por natureza, graves por necessidade e ambiciosos. Vasconcellos jurava que seria bispo; Soares contentava-se com algum grande cargo; Velloso cobiçava as meias roxas de conego e{223} um pulpito. Theophilo tentou repartir com elles o pão mystico dos seus sonhos, mas reconheceu depressa que era manjar leve ou pesado de mais, e passou a devoral-o sosinho. Até aqui o padre; vamos agora á dama.

IV

Agora a dama. No momento em que os vi fallar baixinho na egreja, Eulalia contava trinta e oito annos de edade. Juro-lhes que era ainda bonita. Não era pobre; os pais deixaram-lhe alguma cousa. Nem casada; recusou cinco ou seis pretendentes.

Este ponto nunca foi entendido pelas amigas. Nenhuma d'ellas era capaz de repellir um noivo. Creio até que não pediam outra cousa, quando resavam antes de entrar na cama, e ao domingo, á missa, no momento de levantar a Deus. Porque é que Eulalia recusava-os todos? Vou dizer desde já o que soube depois. Suppuzeram-lhe, a principio, um simples desdem,—nariz torcido, dizia uma d'ellas;—mas, no fim da terceira recusa, inclinaram-se a crer que havia namoro encoberto, e esta explicação prevaleceu.{224} A propria mãi de Eulalia não aceitou outra. Não lhe importaram as primeiras recusas; mas, repetindo-se, ella começou a assustar-se. Um dia, voltando de um casamento, perguntou á filha, no carro em que vinham, se não se lembrava que tinha de ficar só.

—Ficar só?

—Sim, um dia hei de morrer. Por ora tudo são flores; cá estou para governar a casa; e você é só ler, scismar, tocar e brincar; mas eu tenho de morrer, Eulalia, e você tem de ficar só...

Eulalia apertou-lhe muito a mão, sem poder dizer palavra. Nunca pensára na morte da mãi; perdel-a era perder metade de si mesma. Na expansão de momento, a mãi atreveu-se a perguntar-lhe se amava alguem e não era correspondida; Eulalia respondeu que não. Não sympathisara com os candidatos. A boa velha abanou a cabeça; fallou dos vinte sete annos da filha, procurou atterral-a com os trinta, disse-lhe que, se nem todos os noivos a mereciam egualmente, alguns eram dignos de ser aceitos, e que importava a falta de amor? O amor conjugal podia ser assim mesmo; podia nascer depois, como um fructo da convivencia. Conhecera pessoas que se casaram por simples interesse de familia e acabaram{225} amando-se muito. Esperar uma grande paixão para casar era arriscar-se a morrer esperando.

—Pois sim, mamãi, deixe estar...

E, reclinando a cabeça, fechou um pouco os olhos para espiar alguem, para ver o namorado encoberto, que não era só encoberto, mas tambem e principalmente impalpavel. Concordo que isto agora é obscuro; não tenho duvida em dizer que entramos em pleno sonho.

Eulalia era uma exquisita, para usarmos a linguagem da mãi, ou romanesca, para empregarmos a definição das amigas. Tinha, em verdade, uma singular organisação. Saiu ao pai. O pai nascera com o amor do enigmatico, do arriscado e do obscuro; morreu quando apparelhava uma expedição para ir á Bahia descobrir a «cidade abandonada». Eulalia recebeu essa herança moral, modificada ou aggravada pela natureza feminil. N'ella dominava principalmente a contemplação. Era na cabeça que ella descobria as cidades abandonadas. Tinha os olhos dispostos de maneira que não podiam apanhar integralmente os contornos da vida. Começou idealisando as cousas, e, se não acabou negando-as, é certo que o sentimento da realidade esgarçou-se-lhe até chegar á transparencia fina em que o tecido parece confundir-se com o ar.{226}

Aos dezoito annos, recusou o primeiro casamento. A razão é que esperava outro, um marido extraordinario, que ella viu e conversou, em sonho ou allucinação, a mais radiosa figura do universo, a mais sublime e rara, uma creatura em que não havia falha ou quebra, verdadeira grammatica sem irregularidades, pura lingua sem solecismos.

Perdão, interrompe-me uma senhora, esse noivo não é obra exclusiva de Eulalia, é o marido de todas as virgens de dezesete annos. Perdão, digo-lhe eu, ha uma differença entre Eulalia e as outras, é que as outras trocam finalmente o original esperado por uma copia gravada, antes ou depois da lettra, e ás vezes por uma simples photographia ou lithographia, ao passo que Eulalia continuou a esperar o painel authentico. Vinham as gravuras, vinham as lithographias, algumas muito bem acabadas, obra de artista e grande artista, mas para ella traziam o defeito de ser copias. Tinha fome e sêde de originalidade. A vida commum parecia-lhe uma copia eterna. As pessoas do seu conhecimento caprichavam em repetir as idéas umas das outras, com eguaes palavras, e ás vezes sem differente inflexão, á semelhança do vestuario que usavam, e que era do mesmo gosto e feitio. Se ella visse alvejar na rua um turbante{227} mourisco ou fluctuar um pennacho, póde ser que perdoasse o resto; mas nada, cousa nenhuma, uma constante uniformidade de idéas e colletes. Não era outro o peccado mortal das cousas. Mas, como tinha a faculdade de viver tudo o que sonhava, continuou a esperar uma vida nova e um marido unico.

Em quanto esperava, as outras iam casando. Assim perdeu ella as tres principaes amigas: Julia Costinha, Josepha e Marianna. Viu-as todas casadas, viu-as mãis, a principio de um filho, depois de dous, de quatro e de cinco. Visitava-as, assistia ao viver dellas, sereno e alegre, mediocre, vulgar, sem sonhos nem quedas, mais ou menos feliz. Assim se passaram os annos; assim chegou aos trinta, aos trinta e tres, aos trinta e cinco, e finalmente aos trinta e oito em que a vemos na egreja, conversando com o padre Theophilo.

V

N'aquelle dia mandara dizer uma missa por alma da mãe, que morrera um anno antes. Não convidou{228} ninguem: foi ouvil-a sosinha. Ouviu-a, resou, depois sentou-se no banco.

Eu, depois de ajudar á missa, voltei para a sacristia, e vi alli o padre Theophilo, que viera da roça duas semanas antes e andava á cata de alguma missa para comer. Parece que elle ouviu do outro sacristão ou do mesmo padre officiante o nome da pessoa suffragada; viu que era o da tia e correu á egreja, onde ainda achou a prima no banco. Sentou-se ao pé d'ella, esquecido do logar e das posições, e fallaram naturalmente de si mesmos. Não se viam desde longos annos. Theophilo visitára-as logo depois de ordenado padre; mas saiu para o interior e nunca mais soube d'ellas, nem ellas d'elle.

Já disse que não pude ouvir nada. Estiveram assim perto de meia hora. O coadjutor veiu espiar, deu com elles e ficou justamente escandalisado. A noticia do caso chegou, dous dias depois, ao bispo. Theophilo recebeu uma advertencia amiga, subiu á Conceição e explicou tudo: era uma prima, a quem não via desde muito. O padre coadjutor, quando soube da explicação, exclamou com muito criterio que o ser parenta não lhe trocava o sexo nem suppria o escandalo.

Entretanto, como eu tinha sido companheiro do{229} Theophilo no seminario e gostava d'elle, defendi-o com muito calor e fiz chegar o meu testemunho ao palacio da Conceição. Elle ficou-me grato por isso, e d'ahi veiu a intimidade de nossas relações. Como os dous primos podiam vêr-se em casa, Theophilo passou a visital-a, e ella a recebel-o com muito prazer. No fim de oito dias, recebeu-me tambem; ao cabo de duas semanas era eu um dos seus familiares.

Dous patricios que se encontram em plaga estrangeira e podem finalmente trocar as palavras mamadas na infancia não sentem maior alvoroço do que estes dous primos, que eram mais que primos: moralmente eram gemeos. Elle contou-lhe a vida e, como os acontecimentos acarretassem os sentimentos, ella olhou para dentro da alma do primo e achou que era a sua mesma alma e que, em substancia, a vida de ambos era a mesma. A differença é que uma esperou quieta o que o outro andou buscando por montes e valles; no mais, egual equivoco, egual conflicto com a realidade, identico dialogo de arabe e japonez.

—Tudo o que me cerca é trivial e chocho, dizia-lhe elle.

Com effeito, gastara o aço da mocidade em divulgar uma concepção que ninguem lhe entendeu. Emquanto os tres amigos mais chegados do seminario{230} passavam adiante, trabalhando e servindo, afinados pela nota do seculo, Velloso conego e prégador, Soares com uma grande vigararia, Vasconcellos a caminho de bispar, elle Theophilo era o mesmo apostolo e mystico dos primeiros annos, em plena aurora christã e metaphysica. Vivia miseravelmente, costeando a fome, pão magro e batina surrada; tinha instantes e horas de tristeza e de abatimento: confessou-os á prima...

—Tambem o senhor? perguntou ella.

E as suas mãos apertaram-se com energia: entendiam-se. Não tendo achado um astro na loja de um relojoeiro, a culpa era do relojoeiro; tal era a logica de ambos. Olharam-se com a sympathia de naufragos,—naufragos e não desenganados—, porque não o eram. Crusoe, na ilha deserta, inventa e trabalha; elles não; lançados á ilha, estendiam os olhos para o mar illimitado, esperando a aguia que viria buscal-os com as suas grandes azas abertas. Uma era a eterna noiva sem noivo, outro o eterno propheta sem Israel; ambos punidos e obstinados.

Já disse que Eulalia era ainda bonita. Resta dizer que o padre Theophilo, com quarenta e dous annos tinha os cabellos grisalhos e as feições cançadas; as mãos não possuiam nem a maciez nem o aroma da{231} sacristia, eram magras e callosas e cheiravam ao matto. Os olhos é que conservavam o fogo antigo era por alli que a mocidade interior fallava cá para fóra, e força é dizer que elles valiam só por si todo o resto.

As visitas amiudaram-se. Afinal iamos passar alli as tardes e as noites e jantar aos domingos. A convivencia produziu dous effeitos, e até tres. O primeiro foi que os dous primos, frequentando-se, deram força e vida um ao outro; relevem-me esta expressão familiar:—fizeram um pique-nique de illusões. O segundo é que Eulalia, cançada de esperar um noivo humano, volveu os olhos para o noivo divino e, assim como ao primo viera a ambição de S. Paulo, veiu-lhe a ella a de Santa Thereza. O terceiro effeito é o que o leitor já adivinhou.

Já adivinhou. O terceiro foi o caminho de Damasco,—um caminho ás avessas, porque a voz não baixou do céu, mas subiu da terra; não chamava a prégar Deus, mas a prégar o homem. Sem metaphora, amavam-se. Outra differença é que a vocação aqui não foi subita como em relação ao apostolo das gentes; foi vagarosa, muito vagarosa, cochichada, insinuada, bafejada pelas azas da pomba mystica.{232}

Note-se que a faina precedeu ao amor. Sussurrava-se desde muito que as visitas do padre eram menos de confessor que de peccador. Era mentira; eu juro que era mentira. Via-os, acompanhava-os, estudava esses dous temperamentos tão espirituaes, tão cheios de si mesmos, que nem sabiam da fama, nem cogitavam no perigo da apparencia. Um dia vi-lhes os primeiros signaes do amor. Será o que quizerem, uma paixão quarentona, rosa outoniça e pallida, mas era, existia, crescia, ia tomal-os inteiramente. Pensei em avisar o padre, não por mim, mas por elle mesmo; mas era difficil, e talvez perigoso. Demais, eu era e sou gastronomo e psychologo; avisal-o era botar fóra uma fina materia de estudo e perder os jantares dominicaes. A psychologia, ao menos, merecia um sacrificio: calei-me.

Calei-me á toa. O que eu não quiz dizer, publicou-o o coração de ambos. Se o leitor me leu de corrida, conclue por si mesmo a anecdota, conjugando os dous primos: mas, se me leu de vagar, adivinha o que succedeu. Os dous mysticos recuaram; não tiveram horror um do outro nem de si mesmos, porque essa sensação estava excluida de ambos, mas recuaram, agitados de medo e de desejo.

—Volto para a roça, disse-me o padre.{233}

—Mas por que?

—Volto para o roça.

Voltou para a roça e nunca mais cá veiu. Ella, é claro que tinha achado o marido que esperava, mas saiu-lhe tão impossivel como a vida que sonhou. Eu, gastronomo e psychologo, continuei a ir jantar com Eulalia aos domingos. Considero que alguma cousa deve subsistir debaixo do sol, ou amor ou o jantar, se é certo, como quer Schiller, que o amor e a fome governam este mundo.

 

FIM DO MANUSCRITO DE UM SACRISTÃO

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{235}

EX CATHEDRA

—Padrinho, vosmecê assim fica cégo.

—O que?

—Vosmecê fica cégo; lê que é um desespero. Não, senhor, dê cá o livro.

Caetaninha tirou-lhe o livro das mãos. O padrinho deu uma volta, e foi metter-se no gabinete, onde lhe não faltavam livros; fechou-se por dentro e continuou a ler. Era o seu mal; lia com excesso, lia de manhã, de tarde e de noute, ao almoço e ao jantar, antes de dormir, depois do banho, lia andando, lia parado, lia em casa e na chacara, lia antes de ler e depois de ler, lia toda a casta de livros, mas especialmente direito (em que era graduado), mathematicas e philosophia; ultimamente dava-se tambem ás sciencias naturaes.

Peior que cégo, ficou aluado. Foi pelos fins de 1873, na Tijuca, que elle começou a dar signaes de{236} transtorno cerebral; mas, como eram leves e poucos, só em Março ou Abril de 1874 é que a afilhada lhe percebeu a alteração. Um dia, almoçando, interrompeu elle a leitura para lhe perguntar:

—Como é que eu me chamo?

—Como é que padrinho se chama? repetiu ella espantada. Chama-se Fulgencio.

—De hoje em diante, chamar-me-has Fulgencius.

E, enterrando a cara no livro, proseguiu na leitura. Caetaninha referiu o caso ás mucamas, que lhe declararam desconfiar desde algum tempo, que elle não andava bom. Imagine-se o medo da moça; mas o medo passou depressa para só deixar a piedade que lhe augmentou a affeição. Tambem a mania era restricta e mansa; não passava dos livros. Fulgencio vivia do escripto, do impresso, do doutrinal, do abstracto, dos principios e das formulas. Com o tempo chegou, não já á superstição, mas á allucinação da theoria. Uma de suas maximas era, que a liberdade não morre onde restar uma folha de papel para decretal-a; e um dia, acordando com a idea de melhorar a condição dos turcos, redigiu uma constituição, que mandou de presente ao ministro inglez, em Petrópolis. De outra occasião, metteu-se a estudar nos livros a anatomia dos olhos, para verificar se{237} realmente elles podiam vêr, e concluiu que sim.

Digam-me, se, em taes condições, a vida de Caetaninha podia ser alegre. Não lhe faltava nada, é verdade, porque o padrinho era rico. Foi elle mesmo que a educou, desde os sete annos, quando perdeu a mulher; ensinou-lhe a ler e escrever, francez, um pouco de historia e geographia, para não dizer quasi nada, e incumbiu uma das mucamas de lhe ensinar crivo, renda e costura. Tudo isso é verdade. Mas Caetaninha fizera quatorze annos; e, se nos primeiros tempos bastavam os brinquedos e as escravas para divertil-a, era chegada a idade em que os brinquedos perdem de moda e as escravas de interesse, em que não ha leituras nem escripturas que façam de uma casa solitaria na Tijuca um paraiso. Descia algumas vezes, raras, e de corrida; não ia a theatros nem bailes; não fazia nem recebia visitas. Quando via passar na estrada uma cavalgada de homens e senhoras, punha a alma na garupa dos animaes, e deixava-a ir com elles, ficando-lhe o corpo, ao pé do padrinho, que continuava a ler.

Um dia, estando na chacara, viu parar ao portão um rapaz, montado n'uma bestinha, e ouviu que lhe perguntava se era alli a casa do doutor Fulgencio.

—Sim, senhor, é aqui mesmo.{238}

—Podia fallar-lhe?

Caetaninha respondeu que ia ver; entrou em casa, e foi ao gabinete, onde achou o padrinho remoendo, com a mais voluptuaria e beata das expressões, um capitulo de Hegel. Mocinho? Que mocinho? Caetaninha disse-lhe que era um mocinho vestido de luto. De luto? repetiu o velho doutor fechando precipitadamente o livro; ha de ser elle. Esquecia-me dizer (mas ha tempo para tudo) que, tres mezes antes, fallecera um irmão de Fulgencio, no norte, deixando um filho natural. Como o irmão, dias antes de morrer, lhe escrevera recommendando o orphão que ia deixar, Fulgencio mandou que este viesse para o Rio de Janeiro. Ouvindo que estava alli um mocinho de luto, concluiu que era o sobrinho, e não concluiu mal. Era elle mesmo.

Parece que até aqui nada ha que destoe de uma historia ingenuamente romanesca: temos um velho lunatico, uma mocinha solitaria e suspirosa, e vemos despontar inopinadamente um sobrinho. Para não descer da região poetica em que nos achamos, deixo de dizer que a mula em que o Raymundo veiu montado, foi reconduzida por um preto ao alugador; passo tambem por alto as circumstancias da accommodação do rapaz, limitando-me a dizer que, como{239} o tio, á força de viver lendo, esquecera inteiramente que o mandára buscar, nada havia em casa preparado para recebel-o. Mas a casa era grande e abastada; uma hora depois, estava o rapaz aposentado n'um lindo quarto, d'onde podia ver a chacara, a cisterna antiga, o lavadouro, basta folha verde e vasto céu azul.

Creio que ainda não disse a idade do hospede; tem quinze annos e um ameaço de buço; é quasi uma criança. Logo, se a nossa Caetaninha ficou alvoroçada, e as mucamas andam de um lado para outro espiando e fallando do «sobrinho de sinhô velho que chegou de fóra», é porque a vida alli não tem outros episodios, não porque elle seja homem feito. Essa foi tambem a impressão do dono da casa; mas, aqui vae a differença. A afilhada não advertia que o officio do buço é virar bigode, ou, se pensou n'isso, fel-o tão vagamente, que não vale a pena de o pôr aqui. Não assim o velho Fulgencio. Comprehendeu este que havia alli a massa de um marido, e resolveu casal-os; mas viu tambem que, a menos de lhes pegar nas mãos e mandar que se amassem, o acaso podia guiar as cousas por modo differente.

Uma idéia traz outra. A idéia de os casar pegou{240} por um lado com uma de suas opiniões recentes. Era esta que as calamidades ou os simples dissabores nas relações do coração provinham de que o amor era praticado de um modo empyrico; faltava-lhe a base scientifica. Um homem e uma mulher, desde que conhecessem as razões physicas e metaphysicas d'esse sentimento, estariam mais aptos a recebel-o e nutril-o com efficacia, do que outro homem e outra mulher que nada soubessem do phenomeno.

—Os meus pequenos estão verdes, dizia elle comsigo: tenho tres a quatro annos diante da mim, e posso começar desde já a preparal-os. Vamos com logica; primeiro os alicerces, depois as paredes, depois o tecto..., em vez de começar pelo tecto... Dia virá em que se aprenda a amar como se aprende a ler... Nesse dia...

Estava atordoado, deslumbrado, delirante. Foi ás estantes, desceu alguns tomos, astronomia, geologia, physiologia, anatomia, jurisprudencia, politica, linguistica, abriu-os, folheou-os, comparou-os, extractou d'aqui e d'ali, até formular um programma de ensino. Compunha-se este de vinte capitulos, nos quaes entravam as noções geraes do universo, uma definição da vida, demonstração da existencia do homem e da mulher, organisação das sociedades, definição e analyse{241} das paixões, definição e analyse do amor, suas causas, necessidades e effeitos. Em verdade, as materias eram crespas; elle entendeu tornal-as doceis, tratando-as em phrase corriqueira e chã, dando-lhes um tom puramente familiar, como a astronomia de Fontenelle. E dizia com emphasis que o essencial da fructa era o miolo, não a casca.

Tudo isso era engenhoso; mas aqui vai o mais engenhoso. Não os convidou a aprender. Uma noite, olhando para o céo, disse que as estrellas estavam brilhando muito; e o que eram as estrellas? acaso sabiam elles o que eram as estrellas?

—Não senhor.

D'aqui a iniciar uma descripção do universo era um passo. Fulgencio deu o passo, com tal presteza e naturalidade, que os deixou encantados e elles pediram a viagem toda.

—Não, disse o velho; não esgotemos tudo hoje, nem isto se entende bem se não de vagar; amanhã ou depois...

Foi assim, sorrateiramente, que elle começou a executar o plano. Os dois alumnos, assombrados com o mundo astronomico, pediam-lhe todos os dias que continuasse, e, posto que no fim dessa primeira parte Caetaninha ficasse um tanto confusa, ainda assim{242} quiz ouvir as outras cousas que o padrinho lhe prometteu.

Não digo nada da familiaridade entre os dois alumnos, por ser cousa obvia. Entre quatorze e quinze annos a differença é tão pequena, que os portadores das duas edades, não tinha mais que dar a mão um ao outro. Foi o que aconteceu.

No fim de tres semanas pareciam ter sido criados juntos. Só isto bastava a mudar a vida de Caetaninha; mas Raymundo trouxe-lhe mais. Não ha dez minutos, vimol-a olhar com saudade as cavalgadas de homens e damas que passavam na estrada. Raymundo matou-lhe a saudade, ensinando-lhe a montaria, apezar da relutancia do velho, que temia algum desastre; mas este cedeu e alugou dois cavallos. Caetaninha mandou fazer uma linda amazona, Raymundo veiu á cidade comprar-lhe as luvas e um chicotinho, com o dinheiro do tio—já se sabe—que tambem lhe deu as botas e o demais apparelho masculino. D'ahi a pouco era um gosto vel-os ambos, galhardos e intrepidos, abaixo e acima da montanha.

Em casa, brincavam á larga, jogavam damas e cartas, cuidavam de aves e plantas. Brigavam muita vez; mas, segundo as mucamas, eram brigas de mentira, só para fazerem as pazes depois. Era o pico do{243} arrufo. Raymundo vinha ás vezes á cidade, a mandado do tio. Caetaninha ia esperal-o ao portão, espiando anciosa. Quando elle chegava, brigavam, porque ella queria tirar-lhe os maiores embrulhos, a pretexto de que elle vinha cançado, e elle queria dar-lhe os mais leves, allegando que ella era fraquinha.

No fim de quatro mezes, a vida era totalmente outra. Póde-se até dizer que só então é que Caetaninha começou a usar rosas no cabello. Antes d'isso vinha muita vez despenteada para a mesa do almoço. Agora, não só se penteava logo cedo, mas até, como digo, trazia rosas, uma ou duas; estas eram, ou colhidas na vespera, por ella mesma, e guardadas em agua, ou na propria manhã, por elle, que ia levar-lh'as á janella. A janella era alta, mas Raymundo, pondo-se na ponta dos pés, e levantando o braço, conseguia dar-lhe as rosas em mão. Foi por esse tempo que elle adquiriu o séstro de mortificar o buço, puchando-o muito de um e outro lado. Caetaninha chegava a bater-lhe nos dedos, para lhe tirar tão máo costume.

Entretanto, as licções continuavam regularmente. Já tinham uma idéa geral do universo, e uma definição da vida, que nenhum d'elles entendeu. Assim chegaram ao quinto mez. No sexto, começou a demonstração{244} da existencia do homem. Caetaninha não pôde suster o riso, quando o padrinho, expondo a materia, perguntou-lhes se elles sabiam que existiam e porque; mas ficou logo séria, e respondeu que não.

—Nem você?

—Nem eu, não, senhor, concordou o sobrinho,

Fulgencio iniciou uma demonstração em regra, profundamente cartesiana. A seguinte licção foi na chacara. Chovera muito nos dias anteriores; mas o sol agora alagava tudo de luz, e a chacara parecia uma linda viuva, que troca o véo do luto pelo do noivado. Raymundo, como se quizesse copiar o sol, (copiam-se naturalmente os grandes) despedia das pupillas um olhar vasto e longo, que Caetaninha recebia, palpitando, como a chacara. Fusão, transfusão, diffusão, confusão e profusão de seres e de cousas.

Emquanto o velho fallava, recto, logico, vagaroso, curtido de formulas, com os olhos fixos em parte nenhuma, os dous alumnos faziam trinta mil esforços para escutal-o, mas vinham trinta mil incidentes distrahil-os. Foi a principio um casal de borboletas que brincavam no ar. Façam-me o favor de dizer o que é que póde haver extraordinario n'um casal de borboletas? Concordo que eram amarellas, mas esta circumstancia não basta a explicar a distracção. O facto{245} de voarem uma atraz da outra, ora á direita, ora á esquerda, ora abaixo, ora acima, tambem não dá a razão do desvio, visto que nunca as borboletas voaram, em linha recta, como simples militares.

—O entendimento, dizia o velho, o entendimento, segundo eu já expliquei...

Raymundo olhou para Caetaninha, e achou-a olhando para elle. Um e outro pareciam confusos e acanhados. Ella foi a primeira que baixou os olhos ao regaço. Depois, levantou-os, afim de os levar a outra parte, mais remota, o muro da chacara; na passagem como os de Raymundo ali estivessem, ella encarou-os o mais rapidamente que pôde. Felizmente, o muro apresentava um expectaculo que a encheu de admiração: um casal de andorinhas (era o dia dos casaes) saltitava n'elle, com a graça peculiar ás pessoas aladas. Saltitavam piando, dizendo cousas uma á outra, o que quer que fosse, talvez isto—que era bem bom não haver philosophia nos muros das chacaras. Se não quando, uma d'ellas voou, provavelmente a dama, e a outra, naturalmente o garção, não se deixou ficar atraz: esticou as azas e seguiu o mesmo caminho. Caetaninha desceu os olhos á gramma do chão.

Quando a licção acabou, d'ahi a alguns minutos,{246} ella pediu ao padrinho que continuasse, e, recusando este, tomou-lhe o braço e convidou-o a dar um giro na chacara.

—Está muito sol, contestou o velho.

—Vamos pela sombra.

—Faz muito calor.

Caetaninha propoz irem continuar na varanda; mas o padrinho disse-lhe mysteriosamente que Roma não se fez n'um dia, e acabou declarando que só dois dias depois continuaria a licção. Caetaninha recolheu-se ao quarto, esteve ali tres quartos de hora fechada, sentada, á janella, de um lado para outro, procurando as cousas que tinha na mão, e chegando ao cumulo de ver-se a si mesma, cavalgando, estrada acima, ao lado de Raymundo. De uma vez aconteceu-lhe ver o rapaz no muro da chacara; mas attentou bem, reconheceu que era um par de bezouros que zumbiam no ar. E dizia um d'elles ao outro:

—Tu és a flor da nossa raça, a flor do ar, a flor das flôres, o sol e a lua da minha vida.

Ao que respondia o outro:

—Ninguem te vence na belleza e na graça; o teu zumbir é um éco das fallas divinas; mas, deixa-me... deixa-me...

—Porque deixar-te, alma d'estes bosques?{247}

—Já te disse, rei dos ares puros, deixa-me.

—Não me falles assim, feitiço e gala das mattas. Tudo por cima e em volta de nós está dizendo que me deves fallar de outra maneira. Conheces a cantiga dos mysterios azues?

—Vamos ouvil-a nas folhas verdes da larangeira.

—As da mangueira são mais bonitas.

—Tu és mais linda que umas e outras.

—E tu, sol da minha vida?

—Lua do meu ser, eu sou o que tu quizeres...

Era assim que os dous bezouros fallavam. Ella ouviu-os scismando. Como elles desapparecessem, ella entrou, viu as horas e saiu do quarto. Raymundo estava fóra; ella foi esperal-o ao portão, dez, vinte, trinta, quarenta, cincoenta minutos. Na volta disseram pouco; uniram-se e separaram-se duas ou tres vezes. Da ultima vez foi ella que o trouxe á varanda, para mostrar-lhe um enfeite que julgava perdido e acabava de achar. Façam-lhe a justiça de crer que era pura mentira. Entretanto, Fulgencio antecipou a licção; deu-a no dia seguinte, entre o almoço e o jantar. Nunca a palavra lhe saiu tão limpida e singella. E assim devia ser; tratava-se da existencia do homem, capitulo profundamente methaphysico, em que era preciso considerar tudo e por todos os lados.{248}

—Estão entendendo? perguntava elle.

—Perfeitamente.

E a licção seguia até o fim. No fim, deu-se a mesma cousa da vespera; Caetaninha, como se tivesse medo de ficar só, pediu-lhe para continuar ou passear; elle recusou uma e outra cousa, bateu-lhe paternalmente na cara, e foi encerrar-se no gabinete.

—Para a semana, pensava o velho doutor, dando volta á chave, para a semana entro na organisação das sociedades; todo o mez que vem e o outro é para a definição e classificação das paixões; em maio, passaremos ao amor... já será tempo...

Emquanto elle dizia isto, e fechava a porta, alguma cousa resoava do lado da varanda—um trovão de beijos, segundo disseram as lagartas da chacara; mas, para as lagartas qualquer pequeno rumor vale um trovão. Quanto aos auctores do ruido nada positivo se sabe. Parece que um maribondo, vendo Caetaninha e Raymundo unidos n'essa occasião, concluiu da coincidencia para a consequencia, e entendeu que eram elles; mas um velho gafanhoto demonstrou a inanidade do fundamento, allegando que ouvira muitos beijos, outr'ora, em logares onde nem Raymundo nem Caetaninha puzera os pés. Convenhamos que este outro argumento não prestava para nada; mas, tal é o{249} prestigio de um bom caracter, que o gafanhoto foi acclamado como tendo ainda uma vez defendido a verdade e a razão. E d'ahi pode ser que fosse assim mesmo. Mas um trovão de beijos? Supponhamos dous; supponhamos tres ou quatro.

 

FIM DA EX CATHEDRA.

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