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Historias Sem Data

Chapter 44: III
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About This Book

A collection of short narratives that move between satirical parable and intimate sketch, frequently adopting a wry, conversational voice. The pieces blend realism and occasional allegory to examine vanity, hypocrisy, self-deception and the moral ambiguities of social life. Concise plots and abrupt reversals foreground psychological observation and irony, privileging implication and moral puzzlement over explicit judgment or neat resolution, and inviting reflection on motive, consequence and human contradiction.

A SENHORA DO GALVÃO

Começaram a rosnar dos amores d'este advogado com a viuva do brigadeiro, quando elles não tinham ainda passado dos primeiros obsequios. Assim vai o mundo. Assim se fazem algumas reputações más, e, o que parece absurdo, algumas boas. Com effeito, ha vidas que só têm prologo; mas toda a gente falla do grande livro que se lhe segue, e o autor morre com as folhas em branco. No presente caso, as folhas escreveram-se, formando todas um grosso volume de tresentas paginas compactas, sem contar as notas. Estas foram postas no fim, não para esclarecer, mas para recordar os capitulos passados; tal é o methodo n'esses livros de collaboração. Mas a verdade é que elles apenas combinavam no plano, quando a mulher do advogado recebeu este bilhete anonymo:

«Não é possivel que a senhora se deixe embair mais tempo, tão escandalosamente, por uma de suas{252} amigas, que se consola da viuvez, seduzindo os maridos alheios, quando bastava conservar os cachos...»

Que cachos? Maria Olympia não perguntou que cachos eram; eram da viuva do brigadeiro, que os trazia por gosto, e não por moda. Creio que isto se passou em 1853. Maria Olympia leu e releu o bilhete; examinou a lettra, que lhe pareceu de mulher e disfarçada, e percorreu mentalmente a primeira linha das suas amigas, a ver se descobria a autora. Não descobriu nada, dobrou o papel e fitou o tapete do chão, cahindo-lhe os olhos justamente no ponto do desenho em que dous pombinhos ensinavam um ao outro a maneira de fazer de dous bicos um bico. Ha d'essas ironias do acaso, que dão vontade de destruir o universo. Afinal metteu o bilhete no vestido, e encarou a mucama, que esperava por ella, e que lhe perguntou:

—Nhanhã não quer mais ver o chale?

Maria Olympia pegou no chale, que a mucama lhe dava e foi pol-o aos hombros, defronte do espelho. Achou que lhe ficava bem, muito melhor que á viuva. Cotejou as suas graças com as da outra. Nem os olhos nem a bocca eram comparaveis; a viuva tinha os hombros estreitinhos, a cabeça grande, e o andar feio. Era alta; mas que tinha ser alta? E os{253} trinta e cinco annos de edade, mais nove que ella? Emquanto fazia essas reflexões, ia compondo, pregando e despregando o chale.

—Este parece melhor, que o outro, aventurou a mucama.

—Não sei... disse a senhora, chegando-se mais para a janella, com os dous nas mãos.

—Bota o outro, nhanhã.

A nhanhã obdeceu. Experimentou cinco chales dos dez que alli estavam, em caixas, vindos de uma loja da rua da Ajuda. Concluiu que os dois primeiros eram os melhores; mas aqui surgiu uma complicação—minima, realmente—mas tão subtil e profunda na solução, que não vacillo em recommendal-a aos nossos pensadores de 1906. A questão era saber qual dos dois chales escolheria, uma vez que o marido, recente advogado, pedia-lhe que fosse economica. Contemplava-os alternadamente, e ora preferia um, ora outro. De repente, lembrou-lhe a aleivosia do marido, a necessidade de mortifical-o, castigal-o, mostrar-lhe que não era peteca de ninguem, nem maltrapilha; e, de raiva, comprou ambos os chales.

Ao bater das quatro horas (era a hora do marido) nada de marido. Nem ás quatro, nem ás quatro e meia. Maria Olympia imaginava uma porção de{254} cousas aborrecidas, ia á janella, tornava a entrar, temia um desastre ou doença repentina; pensou tambem que fosse uma sessão do jury. Cinco horas, e nada. Os cachos da viuva tambem negrejavam diante d'ella, entre a doença e o jury, com uns tons de azul-ferrete, que era provavelmente a côr do diabo. Realmente era para exhaurir a paciencia de uma moça de vinte e seis annos. Tinte e seis annos; não tinha mais. Era filha de um deputado do tempo da Regencia, que a deixou menina; e foi uma tia que a educou com muita distincção. A tia não a levou muito cedo a bailes e expectaculos. Era religiosa, conduziu-a primeiro á egreja. Maria Olympia tinha a vocação da vida exterior, e, nas procissões e missas cantadas, gostava principalmente do rumor, da pompa; a devoção era sincera, tibia e distrahida. A primeira cousa que ella via na tribuna das egrejas, era a si mesma. Tinha um gosto particular era olhar de cima para baixo, fitar a multidão das mulheres ajoelhadas ou sentadas, e os rapazes, que, por baixo do coro ou nas portas lateraes, temperavam com attitudes namoradas as ceremonias latinas. Não entendia os sermões; o resto, porém, orchestra, canto, flores, luzes, sanefas, ouros, gentes, tudo exercia n'ella um singular feitiço. Magra devoção, que escasseou ainda mais com{255} o primeiro expectaculo e o primeiro baile. Não alcançou a Candiani, mas ouviu a Ida Edelvira, dansou á larga, e ganhou fama de elegante.

Eram cinco horas e meia, quando o Galvão chegou. Maria Olympia, que então passeava na sala, tão depressa lhe ouviu os pés, fez o que faria qualquer outra senhora na mesma situação: pegou de um jornal de modas, e sentou-se, lendo, com um grande ar de pouco caso. Galvão entrou offegante, risonho, cheio de carinhos, perguntando-lhe se estava zangada, e jurando que tinha um motivo para a demora, um motivo que ella havia de agradecer, se soubesse...

—Não é preciso, interrompeu ella friamente. Levantou-se; foram jantar. Fallaram pouco; ella menos que elle, mas em todo o caso, sem parecer magoada. Póde ser que entrasse a duvidar da carta anonyma; póde ser tambem que os dous chales lhe pesassem na consciencia. No fim do jantar, Galvão explicou a demora; tinha ido, a pé, ao theatro Provisorio, comprar um camarote para essa noite: davam os Lombardos. De lá, na volta, foi encommendar um carro...

Os Lombardos? interrompeu Maria Olympia.

—Sim; canta o Laboceta, canta a Jacobson; ha bailado. Você nunca ouviu os Lombardos?{256}

—Nunca.

—E ahi está porque me demorei. Que é que você merecia agora? Merecia que eu lhe cortasse a ponta d'esse narizinho arrebitado...

Como elle acompanhasse o dito com um gesto, ella recuou a cabeça; depois acabou de tomar o café. Tenhamos pena da alma d'esta moça. Os primeiros accórdes dos Lombardos ecoavam n'ella, emquanto a carta anonyma lhe trazia uma nota lugubre, especie de Requiem. E porque é que a carta não seria uma calumnia? Naturalmente não era outra cousa: alguma invenção de inimigas, ou para affligil-a, ou para fazel-os brigar. Era isto mesmo. Entretanto, uma vez que estava avisada, não os perderia de vista. Aqui acudiu-lhe uma idéa: consultou o marido se mandaria convidar a viuva.

—Não, respondeu elle; o carro só tem dois logares, e eu não hei de ir na boléa.

Maria Olympia sorriu de contente, e levantou-se. Ha muito tempo que tinha vontade de ouvir os Lombardos. Vamos aos Lombardos! Trá, lá, lá, lá... Meia hora depois foi vestir-se. Galvão, quando a viu prompta d'ahi a pouco, ficou encantado. Minha mulher é linda, pensou elle; e fez um gesto para estreital-a ao peito; mas a mulher recuou, pedindo-lhe{257} que não a amarrotasse. E, como elle, por umas velleidades de camareiro, pretendeu concertar-lhe a pluma do cabello, ella disse-lhe enfastiada:

—Deixa, Eduardo! Já veiu o carro?

Entraram no carro e seguiram para o theatro. Quem é que estava no camarote contiguo ao d'elles? Justamente a viuva e a mãe. Esta coincidencia, filha do acaso, podia fazer crer algum ajuste prévio. Maria Olympia chegou a suspeital-o; mas a sensação da entrada não lhe deu tempo de examinar a suspeita. Toda a sala voltara-se para vel-a, e ella bebeu, a tragos demorados, o leite da admiração publica. Demais, o marido teve a inspiração machiavelica de lhe dizer ao ouvido: «Antes a mandasses convidar; ficava-nos devendo o favor.» Qualquer suspeita cahiria diante d'esta palavra. Comtudo, ella cuidou de os não perder de vista—e renovou a resolução de cinco em cinco minutos, durante meia hora, até que, não podendo fixar a attenção, deixou-a andar. Lá vae ella, inquieta, vai direito ao clarão das luzes, ao explendor dos vestuarios, um pouco á opera, como pedindo a todas as cousas alguma sensação deleitosa em que se espreguice uma alma fria e pessoal. E volta depois á propria dona, ao seu leque, ás suas luvas, aos adornos do vestido, realmente magnifico.{258} Nos intervallos, conversando com a viuva, Maria Olympia tinha a voz e os gestos do costume, sem calculo, sem esforço, sem sentimento, esquecida da carta. Justamente nos intervallos é que o marido, com uma discrição rara entre os filhos dos homens, ia para os corredores ou para o saguão pedir noticias do ministerio.

Juntas sahiram do camarote, no fim, e atravessaram os corredores. A modestia com que a viuva trajava podia realçar a magnificencia da amiga. As feições, porém, não eram o que esta affirmou, quando ensaiava os chales de manhã. Não, senhor; eram engraçadas, e tinham um certo pico original. Os hombros proporcionaes e bonitos. Não contava trinta e cinco annos, mas trinta e um; nasceu em 1822, na vespera da independencia, tanto que o pae, por brincadeira, entrou a chamal-a Ypiranga, e ficou-lhe esta alcunha entre as amigas. Demais, lá estava em Santa Rita o assentamento de baptismo.

Uma semana depois, recebeu Maria Olympia outra carta anonyma. Era mais longa e explicita. Vieram outras, uma por semana, durante tres mezes. Maria Olympia leu as primeiras com algum aborrecimento; as seguintes foram callejando a sensibilidade. Não havia duvida que o marido{259} demorava-se fóra, muitas vezes, ao contrario do que fazia d'antes, ou sahia á noite e regressava tarde; mas, segundo dizia, gastava o tempo no Wallerstein ou no Bernardo, em palestras politicas. E isto era verdade, uma verdade de cinco a dez minutos, o tempo necessario para recolher alguma anecdota ou novidade, que pudesse repetir em casa, á laia de documento. D'alli seguia para o largo de S. Francisco, e mettia-se no omnibus.

Tudo era verdade. E, comtudo, ella continuava a não crêr nas cartas. Ultimamente, não se dava mais ao trabalho de as refutar comsigo; lia-as uma só vez, e rasgava-as. Com o tempo foram surgindo alguns indicios menos vagos, pouco a pouco, ao modo do apparecimento da terra aos navegantes; mas este Colombo teimava em não crêr na America. Negava o que via; não podendo negal-o, interpretava-o; depois recordava algum caso de allucinação, uma anecdota de apparencias illusorias, e n'esse travesseiro commodo e molle punha a cabeça e dormia. Já então, prosperando-lhe o escriptorio, dava o Galvão partidas e jantares, iam a bailes, theatros, corridas de cavallos. Maria Olympia vivia alegre, radiante; começava a ser um dos nomes da moda. E andava muita vez, com a viuva, a despeito das cartas, a tal ponto que{260} uma d'estas lhe dizia: «Parece que é melhor não escrever mais, uma vez que a senhora se regala n'uma comborçaria de máu gosto.» Que era comborçaria? Maria Olympia quiz perguntal-o ao marido, mas esqueceu o termo, e não pensou mais n'isso.

Entretanto, constou ao marido que a mulher recebia cartas pelo correio. Cartas de quem? Esta noticia foi um golpe duro e inesperado. Galvão examinou de memoria as pessoas que lhe frequentavam a casa, as que podiam encontral-a em theatros ou bailes, e achou muitas figuras verosimeis. Em verdade, não lhe faltavam adoradores.

—Cartas de quem? repetia elle mordendo o beiço e franzindo a testa.

Durante sete dias passou uma vida inquieta e aborrecida, espiando a mulher e gastando em casa grande parte do tempo. No oitavo dia, veiu uma carta.

—Para mim? disse elle vivamente.

—Não; é para mim, respondeu Maria Olympia, lendo o sobrescripto; parece letra de Mariana ou de Lulú Fontoura...

Não queria lel-a; mas o marido disse que a lesse; podia ser alguma noticia grave. Maria Olympia leu a carta e dobrou-a, sorrindo; ia guardal-a, quando o marido desejou ver o que era.{261}

—Você sorriu, disse elle gracejando; ha de ser algum epigramma commigo.

—Qual! é um negocio de moldes.

—Mas deixa ver.

—Para que, Eduardo?

—Que tem? Você, que não quer mostrar, por algum motivo ha de ser. De cá.

Ja não sorria; tinha a voz tremula. Ella ainda recusou a carta, uma, duas, tres vezes. Teve mesmo ideia de rasgal-a, mas era peior, e não conseguiria fazel-o até o fim. Realmente, era uma situação original. Quando ella viu que não tinha remedio, determinou ceder. Que melhor occasião para ler no rosto d'elle a expressão da verdade? A carta era das mais explicitas; fallava da viuva em termos crús. Maria Olympia entregou-lh'a.

—Não queria mostrar esta, disse-lhe ella primeiro, como não mostrei outras que tenho recebido e botado fóra; são tolices, intrigas, que andam fazendo para... Leia, leia a carta.

Galvão abriu a carta e deitou-lhe os olhos avidos. Ella enterrou a cabeça na cintura, para ver de perto a franja do vestido. Não o viu empallidecer. Quando elle, depois de alguns minutos, proferiu duas ou tres palavras, tinha já a physionomia composta e um{262} esboço de sorriso. Mas a mulher, que o não adivinhava, respondeu ainda de cabeça baixa; só a levantou d'ahi a tres ou quatro minutos, e não para fital-o de uma vez, mas aos pedaços, como se temesse descobrir-lhe nos olhos a confirmação do anonymo. Vendo-lhe, ao contrario, um sorriso, achou que era o da innocencia, e fallou de outra cousa.

Redobraram as cautelas do marido; parece tambem que elle não pôde esquivar-se a um tal ou qual sentimento de admiração para com a mulher. Pela sua parte, a viuva, tendo noticia das cartas, sentiu-se envergonhada; mas reagiu depressa, e requintou de maneiras affectuosas com a amiga.

Na segunda ou terceira semana de agosto, Galvão fez-se socio do Cassino fluminense. Era um dos sonhos da mulher. A seis de setembro fazia annos a viuva, como sabemos. Na vespera, foi Maria Olympia (com a tia que chegara de fóra), comprar-lhe um mimo: era uso entre ellas. Comprou-lhe um annel. Viu na mesma casa uma joia engraçada, uma meia lua de diamantes para o cabello, emblema de Diana, que lhe iria muito bem sobre a testa. De Mahomet que fosse; todo o emblema de diamantes é christão. Maria Olympia pensou naturalmente na primeira noite do Cassino; e a tia, vendo-lhe o{263} desejo, quiz comprar a joia, mas era tarde, estava vendida.

Veiu a noite do baile. Maria Olympia subiu commovida as escadas do Cassino. Pessoas que a conheceram n'aquelle tempo, dizem que o que ella achava na vida exterior, era a sensação de uma grande caricia publica, a distancia; era a sua maneira de ser amada. Entrando no Cassino, ia recolher nova copia de admirações, e não se enganou, porque ellas vieram, e de fina casta.

Foi pelas dez horas e meia que a viuva ali appareceu. Estava realmente bella, trajada a primor, tendo na cabeça a meia lua de diamantes. Ficava-lhe bem o diabo da joia, com as duas pontas para cima, emergindo do cabello negro. Toda a gente admirou sempre a viuva n'aquelle salão. Tinha muitas amigas, mais ou menos intimas, não poucos adoradores, e possuia um genero de espirito que espertava com as grandes luzes. Certo secretario de legação não cessava de a recommendar aos diplomatas novos: «Causes avec Mme. Tavares; c'est adorable!» Assim era nas outras noites; assim foi n'esta.

—Hoje quasi não tenho tido tempo de estar com você, disse ella a Maria Olympia, perto de meia-noite.{264}

—Naturalmente, disse a outra abrindo e fechando o leque; e, depois de humedecer os labios, como para chamar a elles todo o veneno que tinha no coração:—Ypiranga, você está hoje uma viuva deliciosa... Vem seduzir mais algum marido?

A viuva empalideceu, e não pode dizer nada. Maria Olympia accrescentou, com os olhos, alguma cousa que a humilhasse bem, que lhe respingasse lama no triumpho. Já no resto da noite fallaram pouco; trez dias depois romperam para nunca mais.

 

FIM DA SENHORA DO GALVÃO.

{265}

AS ACADEMIAS DE SIÃO

Conhecem as academias de Sião? Bem sei que em Sião nunca houve academias: mas supponhamos que sim, e que eram quatro, e escutem-me.

I

As estrellas, quando viam subir, atravez da noite, muitos vagalumes côr de leite, costumavam dizer que eram os suspiros do rei de Sião, que se divertia com as suas trezentas concubinas. E, piscando o olho umas ás outras, perguntavam:

—Reaes suspiros, em que é que se occupa esta noite o lindo Kalaphangko?

Ao que os vagalumes respondiam com gravidade:

—Nós somos os pensamentos sublimes das quatro academias de Sião; trazemos comnosco toda a sabedoria do universo.{266}

Uma noite, foram em tal quantidade os vagalumes, que as estrellas, de medrosas, refugiaram-se nas alcovas, e elles tomaram conta de uma parte do espaço, onde se fixaram para sempre com o nome de via-lactea.

Deu logar, a essa enorme ascenção de pensamentos o facto de quererem as quatro academias de Sião resolver este singular problema:—porque é que ha homens femininos e mulheres masculas? E o que as induziu a isso foi a indole do joven rei. Kalaphangko era virtualmente uma dama. Tudo n'elle respirava a mais esquisita feminidade: tinha os olhos doces, a voz argentina, attitudes molles e obedientes e um cordial horror ás armas. Os guerreiros siamezes gemiam, mas a nação vivia alegre, tudo eram dansas, comedias e cantigas, á maneira do rei que não cuidava de outra cousa. D'ahi a illusão das estrellas.

Vai senão quando, uma das academias achou esta solução ao problema:

—Umas almas são masculinas, outras femininas. A anomalia que se observa é uma questão de corpos errados.

—Nego, bradaram as outras tres; a alma é neutra; nada tem com o contraste exterior.{267}

Não foi preciso mais para que as vielas e aguas de Bangkok se tingissem de sangue academico. Veiu primeiramente a controversia, depois a descompostura, e finalmente a pancada. No principio da descompostura tudo andou menos mal; nenhuma das rivaes arremessou um improperio que não fosse escrupulosamente derivado do sanscrito, que era a lingua academica, o latim de Sião. Mas d'alli em diante perderam a vergonha. A rivalidade desgrenhou-se, pôz as mãos na cintura, baixou á lama, á pedrada, ao murro, ao gesto vil, até que a academia sexual, exasperada, resolveu dar cabo das outras, e organisou um plano sinistro... Ventos que passaes, se quizesseis levar comvosco estas folhas de papel, para que eu não contasse a tragedia de Sião! Custa-me (ai de mim!), custa-me escrever a singular desforra. Os academicos armaram-se em segredo, e foram ter com os outros, justamente quando estes, curvados sobre o famoso problema, faziam subir ao céu uma nuvem de vagalumes. Nem preambulo, nem piedade. Cahiram-lhe em cima espumando de raiva. Os que puderam fugir, não fugiram por muitas horas; perseguidos e attacados, morreram na beira do rio, a bordo das lanchas, ou nas vielas escusas. Ao todo, trinta e oito cadaveres. Cortaram uma{268} orelha aos principaes, e fizeram d'ellas collar e braceletes para o presidente vencedor, o sublime U-Tong. Ebrios da victoria, celebraram o feito com um grande festim, no qual cantaram este hymno magnifico: «Gloria a nós, que somos o arroz da sciencia e a luminaria do universo».

A cidade acordou estupefacta. O terror apoderou-se da multidão. Ninguem podia absolver uma acção tão crúa e feia; alguns chegavam mesmo a duvidar do que viam... Uma só pessoa approvou tudo: foi a bella Kinnara, a flôr das concubinas regias.

II

Mollemente deitado aos pés da bella Kinnara, o joven rei pedia-lhe uma cantiga.

—Não dou outra cantiga que não seja esta: creio na alma sexual.

—Crês no absurdo, Kinnara.

—Vossa Magestade crê então na alma neutra?

—Outro absurdo, Kinnara. Não, não creio na alma neutra, nem na alma sexual.

—Mas então em que é que Vossa Magestade crê, se não crê em nenhuma d'ellas?{269}

—Creio nos teus olhos, Kinnara, que são o sol e a luz do universo.

—Mas cumpre-lhe escolher:—ou crêr na alma neutra, e punir a academia viva, ou crêr na alma sexual, e absolvel-a.

—Que deliciosa que é a tua boca, minha doce Kinnara! Creio na tua boca: é a fonte da sabedoria.

Kinnara levantou-se agitada. Assim como o rei era o homem feminino, ella era a mulher mascula—um bufalo com pennas de cysne. Era o bufalo que andava agora no aposento, mas d'ahi a pouco foi o cysne que parou, e, inclinando o pescoço, pediu e obeteve do rei, entre duas caricias, um decreto em que a doutrina da alma sexual foi declarada legitima e orthodoxa, e a outra absurda e perversa. N'esse mesmo dia, foi o decreto mandado á academia triumphante, aos pagodes, aos mandarins, a todo o reino. A academia poz luminarias; restabeleceu-se a paz publica.

III

Entretanto, a bella Kinnara tinha um plano engenhoso e secreto. Uma noite, como o rei examinasse{270} alguns papeis do Estado, perguntou-lhe ella se os impostos eram pagos com pontualidade.

Ohimé! exclamou elle, repetindo essa palavra que lhe ficara de um missionario italiano. Poucos impostos têm sido pagos. Eu não quizera mandar cortar a cabeça aos contribuintes... Não, isso nunca... Sangue? sangue? não, não quero sangue...

—E se eu lhe der um remedio a tudo?

—Qual?

—Vossa Magestade decretou que as almas eram femininas e masculinas, disse Kinnara depois de um beijo. Supponha que os nossos corpos estão trocados. Basta restituir cada alma ao corpo que lhe pertence. Troquemos os nossos...

Kalaphangko riu muito da idéa, e perguntou-lhe como é que fariam a troca. Ella respondeu que pelo methodo Mukunda, rei dos Hindus, que se metteu no cadaver de um brahamane, emquanto um truão se mettia no d'elle Mukunda,—velha lenda passada aos turcos, persas e christãos. Sim, mas a formula da invocação? Kinnara declarou que a possuia; um velho bonzo achára copia d'ella nas ruinas de um templo.

—Valeu?

—Não creio no meu proprio decreto, redarguiu{271} elle rindo; mas vá lá, se fôr verdade, troquemos... mas por um semestre não mais. No fim do semestre destrocaremos os corpos.

Ajustaram que seria n'essa mesma noite. Quando toda a cidade dormia, elles mandaram vir a piroga real, metteram-se dentro e deixaram-se ir á tôa. Nenhum dos remadores os via. Quando a aurora começou a apparecer, fustigando as vaccas rútilas, Kinnara proferiu a mysteriosa invocação; a alma desprendeu-se-lhe, e ficou pairando, á espera que o corpo do rei vagasse tambem. O d'ella cahira no tapete.

—Prompto? disse Kalaphangko.

—Prompto, aqui estou no ar esperando. Desculpe Vossa Magestade a indignidade da minha pessoa...

Mas a alma do rei não ouviu o resto. Lepida e scintilante, deixou o seu vaso physico e penetrou no corpo de Kinnara, emquanto a d'esta se apoderava do despojo real. Ambos os corpos ergueram-se e olharam um para o outro, imagine-se com que assombro. Era a situação do Buoso e da cobra, segundo conta o velho Dante; mas vede aqui a minha audacia. O poeta manda calar Ovidio e Lucano, por achar que a sua methamorphose vale mais{272} que a d'elles dous. Eu mando-os calar a todos tres. Buoso e a cobra não se encontram mais, ao passo que os meus dous heróes, uma vez trocados continuam a fallar e a viver juntos—cousa evidente mais dantesca, em que me peze á modéstia.

—Realmente, disse Kalaphangko, isto de olhar para mim mesmo e dar-me magestade é exquisito. Vossa Magestade não sente a mesma cousa?

Um e outro estavam bem, como pessoas que acham finalmente uma casa adequada. Kalaphangko espreguiçava-se todo nas curvas femininas de Kinnara. Esta esteiriçava-se no tronco rijo de Kalaphangko. Sião tinha, finalmente, um rei.

IV

A primeira acção de Kalaphangko (d'aqui em diante entenda-se que é o corpo do rei com a alma de Kinnara, e Kinnara o corpo da bella siameza com a alma do Kalaphangko) foi nada menos que dar as maiores honrarias á academia sexual. Não elevou os seus membros ao mandarinato, pois eram mais homens de pensamento que de acção e administração, dados á philosophia e á litteratura, mas{273} decretou que todos se prosternassem diante d'elles, como é de uso aos mandarins. Além d'isso, fez-lhes grandes presentes, cousas raras ou de valia, crocodillos empalhados, cadeiras de marfim, apparelhos de esmeralda para almoço, diamantes, reliquias. A academia, grata a tantos beneficios, pediu mais o direito de usar officialmente o titulo de Claridade do Mundo, que lhe foi outorgado.

Feito isso, cuidou Kalaphangko da fazenda publica, da justiça, do culto e do ceremonial. A nação começou de sentir o peso grosso, para fallar como o excelso Camões, pois nada menos de onze contribuintes remissos foram logo decapitados. Naturalmente os outros, preferindo a cabeça ao dinheiro, correram a pagar as taxas, e tudo se regularisou. A justiça e a legislação tiveram grandes melhoras. Construiram-se novos pagodes; e a religião pareceu até ganhar outro impulso, desde que Kalaphangko, copiando as antigas artes hespanholas, mandou queimar uma duzia de pobres missionarios christãos que por lá andavam; acção que os bonzos da terra chamaram a perola do reinado.

Faltava uma guerra. Kalaphangko, com um pretexto mais ou menos diplomatico, atacou a outro reino, e fez a campanha mais breve e gloriosa do{274} seculo. Na volta a Bangkok, achou grandes festas esplendidas. Trezentos barcos, forrados de seda escarlate e azul, foram recebel-o. Cada um d'estes tinha na prôa um cysne ou um dragão de ouro, e era tripolado pela mais fina gente da cidade; musicas e acclamações atroaram os ares. De noite, acabadas as festas, sussurrou-lhe ao ouvido a bella concubina:

—Meu joven guerreiro, paga-me as saudades que curti na ausencia; dize-me que a melhor das festas é a tua meiga Kinnara.

Kalaphangko respondeu com um beijo.

—Os teus beiços têm o frio da morte ou do desdem, suspirou ella.

Era verdade, o rei estava distrahido e preoccupado; meditava uma tragedia. Ia-se approximando o termo do prazo em que deviam destrocar os corpos, e elle cuidava em illudir a clausula, matando a linda siameza. Hesitava por não saber se padeceria com a morte d'ella visto que o corpo era seu, ou mesmo se teria de succumbir tambem. Era esta a duvida de Kalaphangko; mas a idéa da morte sombreava-lhe a fronte, emquanto elle afagava ao peito um frasquinho com veneno, imitado dos Borgias.

De repente, pensou na douta academia; podia consultal-a, não claramente, mas por hypothese. Mandou{275} chamar os academicos; vieram todos menos o presidente, o illustre U-Tong, que estava enfermo. Eram treze; prosternaram-se e disseram ao modo de Sião:

—Nós, despreziveis palhas, corremos ao chamado de Kalaphangko.

—Erguei-vos, disse benevolamente o rei.

—O logar da poeira é o chão, teimaram elles com os cotovelos e joelhos em terra.

—Pois serei o vento que subleva a poeira, redarguiu Kalaphangko; e, com um gesto cheio de graça e tolerancia, estendeu-lhes as mãos.

Em seguida, começou a fallar de cousas diversas, para que o principal assumpto viesse de si mesmo; fallou nas ultimas noticias do occidente e nas leis de Manú. Referindo-se a U-Tong, perguntou-lhes se realmente era um grande sabio, como parecia; mas, vendo que mastigavam a resposta, ordenou-lhes que dissessem a verdade inteira. Com exemplar unanimidade, confessaram elles que U-Tong era um dos mais singulares estupidos do reino; espirito raso, sem valor, nada sabendo e incapaz de aprender nada. Kalaphangko estava pasmado. Um estupido?

—Custa-nos dizel-o, mas não é outra cousa; é um espirito raso e chocho. O coração é excellente, caracter puro, elevado...{276}

Kalaphangko, quando voltou a si do espanto, mandou embora os academicos, sem lhes perguntar o que queria. Um estupido? Era mister tiral-o da cadeira sem molestal-o. Tres dias depois, U-Tong compareceu ao chamado do rei. Este perguntou-lhe carinhosamente pela saude; depois disse que queria mandar alguem ao Japão estudar uns documentos, negocio que só podia ser confiado a pessoa esclarecida. Qual dos seus collegas da academia lhe parecia idoneo para tal mister? Comprehende-se o plano artificioso do rei; era ouvir dois ou tres nomes, e concluir que a todos preferia o do proprio U-Tong; mas eis aqui o que este lhe respondeu:

—Real Senhor, perdoai a familiaridade da palavra: são treze camellos, com a differença que os camellos são modestos, e elles não; comparam-se ao sol e á lua. Mas, na verdade, nunca a lua nem o sol cobriram mais singulares pulhas do que esses treze... Comprehendo o assombro de Vossa Magestade; mas eu não seria digno de mim se não dissesse isto com lealdade, embora confidencialmente...

Kalaphangko tinha a boca aberta. Treze camellos? Treze, treze. U-Tong resalvou tão sómente o coração de todos, que declarou excellente; nada superior a elles pelo lado do caracter. Kalaphangko, com um{277} fino gesto de complacencia, despediu o sublime U-Tong, e ficou pensativo. Quaes fossem, as suas reflexões, não o soube ninguem. Sabe-se que elle mandou chamar os outros academicos, mas d'esta vez separadamente, afim de não dar na vista, e para obter maior expansão. O primeiro que chegou, ignorando aliás a opinão de U-Tong, confirmou-a integralmente, com a unica emenda de serem doze os camellos, ou treze, contando o proprio U-Tong. O segundo não teve opinião differente, nem o terceiro, nem os restantes academicos. Differiam no estylo; uns diziam camellos, outros usavam circumloquios e metaphoras, que vinham a dar na mesma cousa. E, entretanto, nenhuma injuria ao caracter moral das pessoas. Kalaphangko estava attonito.

Mas não foi esse o ultimo espanto do rei. Não podendo consultar a academia, tratou de deliberar por si, no que gastou dois dias, até que a linda Kinnara lhe segredou que era mãi. Esta noticia fel-o recuar do crime. Como destruir o vaso eleito da flôr que tinha de vir com a primavera proxima? Jurou ao céo e á terra que o filho havia de nascer e viver. Chegou ao fim do semestre; chegou o momento de destrocar os corpos.

Como da primeira vez, metteram-se no barco real, á noite, e deixaram-se ir aguas abaixo, ambos de{278} má vontade, saudosos do corpo que iam restituir um ao outro. Quando as vaccas scintillantes da madrugada começaram de pisar vagarosamente o céo, proferiram elles o formula mysteriosa, e cada alma foi devolvida ao corpo anterior. Kinnara, tornando ao seu, teve a commoção materna, como tivera a paterna, quando occupava o corpo de Kalaphangko. Parecia-lhe até que era ao mesmo tempo mãi e pai da creança.

—Pai e mãi? repetiu o principe restituido á fórma anterior.

Foram interrompidos por uma deleitosa musica, ao longe. Era algum junco ou piroga que subia o rio, pois a musica approximava-se rapidamente! Já então o sol alagava de luz as aguas e as margens verdes, dando ao quadro um tom de vida e renascença, que de algum modo fazia esquecer aos dous amantes a restituição psychica. E a musica vinha chegando, agora mais distincta, até que n'uma curva do rio, appareceu aos olhos de ambos um barco magnifico, adornado de plumas e flammulas. Vinham dentro os quatorze membros da academia (contando U-Tong) e todos em côro mandavam aos ares o velho hymno: «Gloria a nós, que somos o arroz da sciencia e a claridade do mundo»!{279}

A bella Kinnara (antigo Kalaphangko) tinha os olhos esbogalhados de assombro. Não podia entender como é que quatorze varões reunidos em academia eram a claridade do mundo, e separadamente uma multidão de camellos. Kalaphangko consultado por ella, não achou explicação. Se alguem descobrir alguma, pode obsequiar uma das mais graciosas damas do Oriente, mandando-lh'a em carta fechada, e, para maior segurança, sobrescriptada ao nosso consul em Changai, China.

 

FIM DAS ACADEMIAS DE SIÃO.

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