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Infelizes: Historias Vividas

Chapter 14: FREIRAS
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About This Book

A collection of short narratives that sketches the lives of humble and sorrowful people, alternating intimate fevered recollection with concrete episodes of displacement and domestic routine. The pieces dwell on pity, memory, illness and exile, portraying quiet endurance, family ties and social pressures that unsettle everyday existence. Rather than dramatic resolution, the stories emphasize emotional tone and moral reflection, balancing contemplative passages with vivid scenes to illuminate the ordinary dignity and persistent melancholy of those who suffer.


VICTORIA

VICTORIA

ictoria.

Tinha este nome triumphante, que suggere ao nosso espirito manhãs claras de sol a bater nas espadas polidas dos guerreiros, musicas estridulas que fallam de sangue de heroes e de glorias coroadoras... E comtudo nada mais triste do que a sua face de quasi idiota, o seu olhar inexpressivo, o seu rir incolôr!

Ainda aos domingos era boa de vêr: as saias de chita muito rodadas, o lenço claro, o casaquito novo; o seu riso até era mais infantil e mais sonoro. Mas nos outros dias fazia pena, mesmo muita pena, vê-la tão pobresita, quasi miseravel—a saia de riscado muito remendada, o cabello a sair-lhe do lenço, rôto pelo cantaro sempre em equilibrio sobre a sua cabeça tão vazia.

Dava agua ás casas ricas, por trez tostões ao mez. Senhor, como se é infeliz; como póde alguem viver assim, n'um mundo em que outros teem tanto de sobejo!

A mãe, viuva muito nova, ficára com uma ranchada de filhos, que fôra creando á custa de muito trabalho. Depois, todos grandes, os rapazes começaram de morrer tisicos; e as raparigas, as que tinham prestimo, estavam a servir para Lisboa. Ella, a desditosa, para alli ficára abandonada no casebre enegrecido, feito de pedra solta e telha vã, onde todos os seus tinham nascido e morrido.

Fizera-se aguadeira—para que mais poderia servir tão inferior, tão desageitada? E mesmo isso lhe ia a faltar: os ataques não a poupavam e os cantaros partiam-se todos os dias, n'um desespero para as donas de casa que ficariam pobres com tanta despeza.

E a Victoria, vá d'entristecer, já por vezes a encontrava sentada no pateo, na ansiosa espera d'uma esmola de pão...


Uma manhã—linda manhã que ella era!—na villa muito alegre, muito branca, passava um bello ar de dia festivo. Manhã domingueira. O sol, nada quente, no rigor do inverno. Da serra da Estrella vinha uma reverberação de neve immaculada e uma aragem fininha, aguda, que fazia bem.

Para a missa passavam as mulheres dos povos, vestidas d'escuro, a capoteira de panno lustroso, o lenço de seda amarello e vermelho. As da villa afidalgavam-se com os chales de borlas, os lenços de côres mais finas. E homens e mulheres iam apressados para a missa das onze—a ultima.

Criança, eu, á janella, olhava com certo prazer o movimento do largo, quasi deserto áquella hora nos dias de trabalho.

Em frente, a estrada em sombra era toda branca ainda da geada da noite. Da fonte vinha uma grande alegria de vozes femininas, que riam alto, n'um bem estar de vida satisfeita.

A Victoria estivera lá, fallara e rira como as outras; com o cantaro á cabeça, o fato dos domingos bem aceadinho, tinha quasi um ar gentil, quando ia passando.

Preparava-me para lhe dizer adeus, n'uma alacridade d'amigas velhas. Eu, que sempre amei os humildes, os infelizes, entendia-me com a pobresinha.

A infantilidade dos meus poucos annos comprehendia bem a eterna infantilidade da sua alma inferior.

Mas, bruscamente, ella parou, estendeu os braços para a frente...—e não me esquecerá nunca a curva que o cantaro descreveu, indo despedaçar-se na terra endurecida, ao mesmo tempo que o corpo, n'uma rigidez cadaverica, caia para traz... E a cabeça no chão teve uma pancada secca, d'arrepiar!

Correram de todos os lados a soccorre-la, a levanta-la, mas o ataque epileptico veio-lhe todo inteiro n'uma loucura estrebuchante de desarticulações e esgares, n'um desespero de soffrimento que allucinava!

Na cara feiasita e habitualmente tão parada da pobre rapariga, passaram todas as expressões, as mascaras de todos os nossos sentimentos e paixões, de todas as nossas alegrias e lagrimas.

Todo um mundo cabe na cabeça d'um pobre doido.

Estarrecida de pavôr, eu ficára-me a olha-la muito fixamente, a seguir o estranho espectaculo. Agarrava-me ás grades da varanda, como se n'uma vertigem algum vento de loucura me fosse levar tambem. Que terror infantil! N'um empedramento de irresolução pela piedade e pelo espanto, eu permanecia alli, sem gritos na bocca e sem lagrimas nos olhos! O meu pequeno coração modelava-se dolorosamente n'uma concentração profunda do soffrimento alheio! É por isso que, olhando para dentro de mim mesma, eu sempre encontro, nitidas, gravadas a frio, eternas, soffredoras sempre,—as figuras tragicas dos que vi padecer e chorar...


Quando levaram a Victoria, já sem sentidos, todo o seu fato dos domingos, cuidadosamente lavado e guardado com tanto amôr, ia em farrapos!

Miseravel criatura, victima inconsciente, para quem a unica alegria da vida será a morte redemptora e pacificante!...

Só então ella dormirá em paz, no cemiterio melancolico da terra agreste e linda que unicamente conheceu na vastidão do mundo!... Os pinheiros rumorejantes, as pedras, as flores, as coisas inanimadas, comprehenderão melhor a sua pobre alma inferior.

Ás vozes mudas da natureza juntar-se-ha a sua voz—queixume de triste desdenhada pelo egoismo dos homens.

 

18 de junho de 96.


A TERRA

A TERRA

uando um homem se apega á terra, ella é por vezes d'uma ingratidão que chega a revoltar. Com a sua impassibilidade de coisa morta irrita o amôr até ao fanatismo, leva á loucura.

O Manuel Carpinteiro não tinha mulher, nem filhos, nem sobrinhos, ninguem que lhe ajudasse a levar a vida alegremente, que pelas manhãs o acordasse com sonoras alvoradas de risos.

Vivia só, n'um casinhoto ao cimo da villa. Elle mesmo fazia o caldo e cosia umas batatas; a brôa comprava-a de caminho em casa da sr.ª Candida, quando á noite recolhia d'enxada ao hombro, tristonho, indifferente, para alli uma coisa sem nada lhe importar. Passava pelas mulheres com uma completa indifferença de desconhecido. Era um simples cavador, mas chamavam-lhe carpinteiro porque o pae o tinha sido; já em garoto alcunhavam-no de Manél do carpinteiro; depois, com o tempo, por abreviatura, ficára com aquelle nome.

Á custa de muita avareza e muita miseria arranjou meia duzia de vintens, e tanto pediu, tantos empenhos metteu, que na camara lhe emprasaram um bocado de serra. Mas, como a pobresa é muita n'aquella região, o povo miseravel toma os maninhos como proprios. Ninguem lhes pode tocar, sob pena de revoltas e gritos do mulherio, dos sem eira nem beira, que por vezes teem percorrido a villa esbracejando, cabellos desgrenhados, lenços escarlates a agitarem-se como bandeiras de guerra.

Os invernos são rudes e os desgraçados vivem da serra como animaes inferiores. Queimam pelas noites bravas d'invernia os sargaços verdes, que enchem de fumo os casebres e nem ao menos se desfazem crepitando risos d'oiro. Vendem aos lavradores mólhos de fetos para comprarem o pão de cada dia e as ovelhas teem o seu magro pasto por essa serraria além, entre pedreiras e pinhaes.

Temendo um levantamento, os graves senhores da camara emprasaram ao Manuel carpinteiro uma courella de terreno inculto—aquillo que não prestava para os outros.

O povo todo explodiu n'uma sonora gargalhada:—que ia fazer aquelle maluco com um bocado de maninho tão secco? Por mais que se matasse nunca lhe daria senão uma reles terra centeeira...

O Manuel arreliou-se fortemente com esses ditos e, cabeçudo como um verdadeiro beirão, arranjou uma cabanita, no meio da belga e alli vivia como um selvagem.

Trabalhava desde que o sol vinha, irrompente, até que se escondia nos poentes gloriosos dos dias longos do estio. No inverno apanhava a pé firme as chuvas, a neve, o vento e o frio. Era um labutar sem descanço, e ella, a ingrata, pagava-lhe com umas anemicas paveias de centeio, que ondeavam pallidamente, mostrando a terra branca de seixos como dentes descarnados de rapariga tysica. Elle mesmo assim a adorava, a essa belguita que ia fazendo com o seu trabalho, regando com o suor do seu rosto. Em metade plantou um bacello, mas a uva não amadurava; deu-lhe um vinho palhete muito leve, muito agradavel, mas para vender era uma desgraça—nenhum negociante lhe pegava. E no emtanto elle amava-a como se fosse uma mulher formosa, sempre prompta a pagar-lhe em sorrisos os cuidados de que a rodeava.

O que lhe falta é só agua,—dizia elle sombriamente—o mais é uma terra nova, boa de lei. E continuava a revolve-la com a ansia de quem procura thesouros. Vinham homens entendidos, os védores, ensinar o bom sitio para fazer os poços, mas tinha que os entulhar logo, quasi desanimado. Agua, onde é que ella apparecia alli?! Só a tal profundidade, que era absurdo pensar n'isso.

E o povo a rir, a rir perdidamente do desgraçado!..

Picado por esses risos, foi hypothecar a belga e metteu jornaleiros a cavar, até darem com o sangue da terra. Pedras e só pedras é que appareciam, depois, rocha viva, que foi preciso despedaçar a tiro. E elle chorava, o pobre homem!

A face distendeu-se-lhe pela primeira vez, n'um sorriso satisfeito, no dia em que um delgado fio d'agua borbulhou no fundo do poço. Balbuciava coisas sem nexo ria por entre lagrimas que lhe avermelhavam os olhos. Nem parecia o mesmo; a alegria quasi o endoideceu. Depois de ter o poço completamente forrado, tinha ainda pedra de sobejo para murar a territa; e elle tudo era pensar em grandezas.

Porque o povo começava a inveja-lo, quiz ir até ao fim, começando pelo largo portal para carro...

Mas a terra não dava os juros a dez por cento que o triste pagava—ella que apenas rende, quando muito bôa a cinco. Fallavam-lhe em penhoras, desgraças... e o rude camponio começou d'andar aturvado de juizo.

Passava dias a olhar o fundo do poço onde a agua se mostrava estagnada, negra, e ao mesmo tempo fascinante—como a prometter-lhe descanço no interior da terra bem amada.

A propriedade era tão nova que nem os fetos denticulados em primorosa renda o revestiam de verdura, nem a avenca delicada lançára ainda entre o musgo as suas hastes muito finas!...

E horas e horas que elle levava sobre uma fragil tábua, agarrado á varella do engenho com os seus braços cabelludos e fortes, fazendo descer o balde ao fundo para o tirar cheio d'agua fria, que, entornada na piasita ao lado, se ia perder na terra empapada!...

Queria muita, muita agua—era a sua ideia fixa. Parecia-lhe que só assim ella lhe daria todo o seu dinheiro. Os paus do primivo engenho, friccionados no balanço compassado, rangiam lugubres soluços, atiravam para o espaço uns gemidos estertorosos.

O desgraçado até já mettia medo, com os olhos encovados e emfebrecidos, com a magresa musculosa do seu corpo affeito a trabalhos e fomes.

Levaram-n'o então para a villa; mas os cuidados d'indifferentes servem de pouco. Ninguem mesmo se atrevia a guarda-lo de noite porque as passava a gritar—que o diabo estava alli, que um gato preto o queria afogar, que lhe roubavam a fazenda!...

Mal o sino das ave-marias dava a ultima badalada—que se envolve já nos murmurios nostalgicos da noite que se avisinha; o chocalhar dos rebanhos recolhendo ao curral, os carros chiando torturadamente, as cantigas e os risos das raparigas na fonte, as rãs, os grillos e ralos que dispertam para a sua faina palreira—fechavam-lhe por fóra a porta do casebre e deixavam-no sósinho esbravejar e gritar á vontade.

Até que um dia saltando da cama conseguiu arrombar a porta e a correr chegou á propriedade.

Quando de manhã deram por falta do Manuel, foram procural-o á fazenda. Decerto que não fugiria para outro sitio. Todo o camponez comprehende aquella loucura. Foram encontra-lo no fundo do poço. Um rictus medonho mordia a sua face desvairada—nem a morte conseguira pacificar aquella physionomia roida de ambições e terriveis desenganos!...


No fim de tudo, quem ganhou foi o uzurario que lhe emprestára o dinheiro e ficou com a belga, já feita, pela divida pequena do pobresito.

Até faz pena ve-la agora, com o seu portão de ferro pintado de fresco, a nora cantante, o ar de quinta de ricaço que vae tomando.

 

Dezembro de 76.


FREIRAS

FREIRAS

a pallidez do poente, d'um azul cinzento, a igreja destacava-se em negro na elegancia da sua torre manuelina.

Em baixo, o largo era todo em festa; as luzes começavam a accender-se, pondo aqui e alli sorrisos d'oiro.

Olhando a massa sombria do convento, uma vaga tristeza me ganhou o espirito. Lá em cima, na pequena janella gradeada, quantos lindos olhos terão chorado, vendo o mundo com o tumultuar das suas paixões e risos, alindado pela ignorancia das suas almas prisioneiras?!...

Por mais artistico e lindo que seja um convento de frades, não me faz sonhar como os de freiras. Se eu comprehendo tão bem o martyrio das pobres almas femininas encerradas duplamente pelas grades e pela ignorancia!...

As que fugiram do mundo, porque n'elle soffreram, essas não me fazem tanta pena—tinham para companheira da sua soledade a doçura amarga das lagrimas, que recordam venturas idas...

Mas, pobres entes muitas vezes votados antes de nascer á frieza claustral, arrepia-se-me a carne só em pensar nas victimas inconscientes d'esses sacrificios barbaros!

Conta-se que aos quatro annos Santa Margarida d'Hungria tomou habito, tendo ido para o convento ainda com a ama. Aos seis trazia cilicios e aos doze professava—«já fadada para santa tinha vindo» accrescenta o chronista.

Mas as outras, que fossem mulheres verdadeiras, de carne e nervos e sangue a palpitar vida sadia e humana!... Ah, essas pobres plantas criadas em subterraneos, cahiriam estioladas na frescura dos annos. Então—sem mesmo serem choradas—iriam para a terra resgatar a mocidade em perfume de flores... Outras, affazendo-se á solidão, vivendo na phantasmagoria luminosa do flos sanctorum, iriam de degrau em degrau á loucura santificada. E, mortas tambem, seriam adoradas sobre os altares...

Não sei que doçura tristissima encontra o meu espirito em visitar os conventos de freiras, em piedosa romaria evocativa!

Aquelle de que eu mais gosto pela belleza da sua architectura rendilhada, acontece ser hoje um hospital servido por irmãs de caridade. Ao ver passar ao fundo do claustro deserto a mancha negra dos seus habitos, não sei que lufada d'outro tempo me enche a alma de sombras!

Calcando essas lages desiguaes, onde tantos corações arquejantes de fé foram descançar para sempre, uma historia me lembrou, que alguem, que alli viveu trinta annos, piedosamente me contava:

—Era quasi noite; o céo de purpura, onde o sol agonisava, esbatia-se gradualmente, vindo morrer n'um loiro cendrado, confundindo-se com a lua que se levantava em crescente. Duas freiras das mais novas passeavam pelo claustro, onde, já do seu tempo, tantas esposas do Senhor tinham ido esconder a face macerada, dormindo o eterno somno.

Que diriam ellas, assim juntas, na hora das dôces confidencias, deslizando como sombras no silencio religioso do velho claustro?... Que maguas viriam subindo da memoria longinqua dos seus amores mundanos?... Que sorrisos e que lagrimas?!...

Uma disse:—«Cheira tanto a terra!»—«Breve estarás com ella!...»—Respondeu-lhe uma voz formidavel vinda do chão, vinda da noite, das grandes casas desertas!...

E o caso é que a pobre freira entrou d'entristecer, de cahir n'uma grande e incuravel doença d'alma, que em poucos dias a levou para o supremo descanço, fazendo certa a prophecia.

Ainda este convento tinha a belleza incolume das suas columnas em marmore, a alegria dos grandes dormitorios cheios de luz, o encanto do côro todo em azulejos e atufado d'imagens santas.

Mas, outro lá para a Beira, onde eu estive uns dias, escuro, enorme, sem belleza nenhuma, pezando sobre a nossa alma com a bruta espessura das suas paredes mestras... Ah, n'esse, como seria horrivel viver!

Apenas lá encontrei duas freiras. Uma, a prioreza,—santa senhora!—alma lavada, riso franco, uma encantadora ingenuidade no seu virgem coração d'oitenta annos. A outra, sombria, um olhar por vezes desvairado a fuzilar sob a brancura da toalha de linho, que lhe emmoldurava o rosto opalescido. Relativamente nova para ser freira professa ao tempo que acabaram os conventos, fez-me curiosidade. Perguntei á prioreza, e ella, a santa velhinha,—morreu o outro dia... que pena tive!—ella contou-me tudo:

—«É que soror Maria fôra mettida no convento aos quatro annos. Para que o morgado ficasse livre d'encargos? Promessa de paes muito piedosos? Não se sabia.

Mas a ella não a tinha Deus fadado para santa! O seu coração, nascido para viver, nunca se podera aclimatar áquella existencia de mortos.

Aos quinze annos, os parentes obrigaram-na a entrar para o noviciado. A ordem das bentas não reformadas, não era apertada, ao menos...

Pelas grades das janellas via-se a pequena cidade rumorejante e activa como uma colmeia.

E a gentil noviça tinha prendido os olhos aos olhos d'um lindo moço, que de fóra a contemplava em extasi...

Á noite, nos outeiros sentimentaes, a conversa corria alegre e facil como a agua clara que desce das montanhas. Que duvida? Se elles eram novos e os seus espiritos tinham tenteado o espaço que os separava, decerto que se haviam de amar!...

Depois, o eterno drama dos amôres contrariados:—espiões, todos os olhos que a fitavam; criadas compradas; a familia insistindo cada vez mais pela profissão...

Já vagamente se fallava em liberdade. Da França vinham flammulas de luz. O namorado pedia-lhe que resistisse... o governo miguelista seria vencido em breve. Era a sua esperança! E então, ninguem a poderia obrigar a ser freira, ninguem se opporia a que ella sahisse, noiva feliz, da prisão fanatica.

Ah! fallar cedo de mais, meu pobresito, é um grande perigo!...

Desappareceu o namorado e a triste da noviça deixou de resistir á vontade dos paes.

Já quando no sul os liberaes entravam, cantando a victoria que os atordoava a ponto de quasi duvidarem, d'inesperada que foi,—tomava ella o habito á pressa, tudo arranjado pela familia, tumultuariamente, temendo de a verem sahir.

Mas não. Com a morte do seu namorado tudo morrera n'ella! Sempre silenciosa, aquillo que alli estava!...

Desde esse dia, olhava com um romantico interesse, procurava a antiga belleza d'esse rosto marmoreo, amortalhado em vida, o capuz do habito cortado em bico sobre a testa, os labios cerrados n'um silencio desesperador...

Parece-me ainda estar a vê-la, no côro, na reza da noite, emquanto a bôa prioreza—acompanhada por duas meninas com vélas na mão—ia lendo o seu latim e apagando as luzes uma a uma!... Soror Maria abstrahia-se da vida presente e a sua alma parecia voar para um mundo de recordações e sonhos tragicos...

A um canto, com o lencinho branco das recolhidas, eu seguia o officio funebre da prioreza, nos olhos desolados da triste monja.

Depois de lhe saber a historia, dediquei-lhe um grande affecto, que os meus labios jámais lhe confessaram, atemorisados por um não sei quê d'altivo que havia na sua dôr! São mais eloquentes, mais verdadeiros, os discursos que um delicado pudôr espiritual apenas nos deixa balbuciar com os olhos. Nunca ella comprehendeu esse affecto—porque, almas despedaçadas como a sua, já nada comprehendem nos sentimentos alheios!...

 

O que ha de triste no meio de tudo, é que o quebrar das cadeias tambem acarretou comsigo muitas e pungentes lagrimas. Companheiras insubstituidas, deixando um vazio de morte nos casarões sombrios... As cercas tiradas pelo governo... A miseria, a fome mesmo... Quanta tristeza na alma devastada das ultimas freiras!...

E as festas d'este novo mundo, vistas das janellas gradeadas, seriam bem pouco comprehendidas por ellas!

No largo, em frente do convento onde a minha pobre Soror Maria soffreu, fizeram barulhentas toiradas cheias de pó e gritos selvagens, espectaculo que dá, a certos espiritos delicados, a mais frigida impressão de tristeza! Vendo esse divertimento todo material, podia ella sequer recordar, lá em cima da janella gradeada, os combates de poesia a que a sua mocidade assistira e onde o seu coração ficára tão mortalmente ferido?!...

E assim, se alguma freira de Jesus se levantasse da cova e arrastando o seu habito de franciscana fosse á ultima janella espreitar o largo—que diria ella ao ver os balões em linhas caprichosas, esboçando phantasticos desenhos de luz na escuridão da noite?...

E o povo passando em onda, em chusma, por entre a alegria clara dos vestidos femininos...

Que diriam ellas, que diriam?!...

 

Julho de 96.


SOMBRAS

SOMBRAS

ara a minha rica mana Rosa!...»

Por acaso, n'uma caixa aromatica de xarão vinda de minha avó, encontrei um dia, entre pequenas coisas d'outro tempo e cartas de familia, uma que decerto foi—ha muitos annos já—lida e relida por uns adoraveis olhos azues que bastante devem ter chorado as tristezas do exilio...

Velha carta amarellecida, quebrada de antigas dobras, n'um antiquissimo papel—como ella evoca, ao meu espirito historias quasi phantasticas para nós, d'essas existencias decorridas ha tantos, tantos annos!...

«Minha querida mana Rosa do meu coração!...»

São adoraveis essas cartas d'antigamente, feitas com uma simpleza e uma ingenuidade quasi infantis—como não somos já capazes de fazer! E elles sentiam tanto como nós sentimos; mais ainda talvez...

Não eram as separações quasi eternas? Quem poderia esperar, ao sahir de Macau, n'uma longuissima viagem em navio á vela, que decorridos annos tornaria a ver essa familia muito querida, deixada por outra mais querida ainda?!

Quanta amargura, quanta tristeza, nos dizem essas pequenas cartas criancilmente simples, a quasi nos fazer sorrir! É que a alma humana não tinha chegado ainda á suprema tortura de se sentir pensar, de se saber despedaçar aos bocadinhos, palavra por palavra, lettra por lettra, lagrima por lagrima!... Não tinha chegado ainda ao espiritual impudor com que nós procuramos traduzir em phrases bem redondas, bem nitidas, bem palpitantes, a amargura que nos cava fundo no coração.


Ao dar com essa singela carta de ha muitos annos, uma grande sympathia, envolta em uma especie de saudade, me veio por as encantadoras figurinhas do tempo passado, sorridentes, frageis, movendo-se musicalmente na graça antiga do minuete passeado...

Vejo-as: com os seus grandes chapeos á directorio, de cintas muito curtas e leques de plumas, levantando graceis os vestidos compridos,—mostrando, n'uma coquetterie quasi infantil, a meia de seda clara arrendada, com fitas a enlaçar, como era a moda.

Têm uma doçura pallida, um encanto murcho d'outros tempos, um perfume apagado, immaterial,—essas historias tão graciosas e tão puras.

É com meiga tristeza que recordâmos todas as que foram lindas e amadas ha muitos annos e hoje desapparecem no pó!... Finas silhouettes que os nossos filhos nem já saberão distinguir no montão de saudades que lhe vamos accumulando!

É um delicado prazer do espirito relembra-las assim, uma por uma, essas empallidecidas figuras de mulheres formosas vestidas com antigos trajos—que eu só posso imaginar bonitas e moças, e tão velhinhas seriam se ainda podessem existir!

E foram bellas e foram novas e foram amadas—essas que hoje não são mais do que sombras!


Mas para escrever uma historia d'essas—feita de ligeirissimos esboços, de recordações muito vagas, quasi de tenuidades de sonho...—quanta concentração de bondade, e delicadeza e amôr é necessario?!...

Ao olhar, ao tocar um pequenino retalho de seda que serviu outr'ora n'um vestido de noivado,—toda a nossa alma hade estremecer n'uma saudade fugitiva, o nosso coração vibrar palpitando, como proprias, as alegrias e as tristezas de todos aquelles que no mundo passaram...

É como se os vissemos diante de nós, sangrando ainda todo o amargo soffrimento da vida...


Minha querida mana Rosa...

Rosa—apesar de se chamar Anna, essa linda irmãsinha, a que o rosado das faces déra esse nome deliciosamente familiar e perfumadamente fresco—n'uma calligraphia larga, antiga, n'um portuguez estrangeirado, ella vae dizendo as saudades e as tristezas que a vinda para Portugal da irmã mais amada lhe deixára na alma.

Nem um grito, nenhuma revolta. Na rectidão do seu espirito de ingleza essa partida era um dever sagrado, que não se devia amargurar por inuteis lagrimas.

E nada litteraria essa ingenua carta d'uma doce e loira inglezinha nascida lá muito longe, na velha terra de Macau. Conselhos para a viagem, d'uma graça toda maternal e muito prática:—«Não he bom tomar caldo de gallinha emquanto está enjoado. Hade fazer muito mal. Eu mando dôce de laranja. Diz que é muito bom comer quando está enjoada. E um pouco de gengibre salgado. Deixa ficar um bocado na bocca, sempre...»—E por fim, quasi n'um soluço: «Adeus minha querida mana, mande noticias suas sempre, para socegar este afflicto coração.»—Saudades, beijos aos sobrinhos,—assignado: Julianna Moor.

Ao ler este nome eu recordei, quasi involuntariamente, toda essa historia, bem certa, que minha avó contou aos filhos, que os filhos nos contaram a nós.

Sim, era ella, foi ella, essa pobre e querida irmã deixada para sempre, que á despedida lhe disse:—«ai minha rica mana que não nos tornâmos a ver!... Mas eu irei despedir-me de ti!...»

E veio. É tão sympathica ao meu espirito essa pequena historia, ouvia-a tanta vez contada por minha mãe—que eu tambem a posso contar como se a ella assistisse.

Primeiro, eu as imagino, a essas candidas figuras d'inglezitas, vestidas de seda clara, muito loiras, com a ingenuidade idealista da sua raça, apaixonadas aos quinze annos por estrangeiros, que as levariam para longe—o pae bem o previa!.. Mas n'essa idade quem presente as lagrimas que as alegrias trazem comsigo?!

E tambem a contemplo, á minha linda avósinha, com os seus deliciosos quinze annos, o cabello muito loiro em bandós encaracolados, uma fita estreita a fazer a cinta debaixo dos braços, os hombros quasi infantis a destacarem muito brancos na seda rosa do vestido imperio...

Muito linda, muito linda! Tal qual me sorri na miniatura encantadora que tenho aqui diante dos meus olhos.

E a outra devia ser parecida—quasi eguaes, como duas pombas sahidas do mesmo ninho. Alegres e felizes ambas por bastantes annos ainda, na terra que as vira nascer, crescer e amar. E os filhos da outra, tão amados por ambas que só na separação distinguiram a verdadeira mãe...

Mas tinha de ser. Uma vinha para Portugal na nova familia que ella criára; tão estremecidamente amada no dia em que morreu como no dia em que casou. A outra lá seguiu com o marido para Goa, na logica dos seus destinos e da sua raça.


Mas uma noite...

Já muitos annos tinham passado; aquella que fôra uma gentil criança era então uma formosa mulher, ao de leve empallidecida, de sorriso a murchar, conhecendo já o amargôr das lagrimas... Ella não esquecêra ainda essa familia querida, deixada tão longe, deixada para sempre!... E a irmã, que amava mais que a todos, quando a veria?... Pedia-lhe o coração que fosse bem tarde—porque era uma certeza para o seu espirito que só á alma, desprendida do corpo para sempre, seria dado esse infinito prazer...

Uma noite ella dormia serena, junto do marido, quando uma voz a chamou de manso... Como não acordasse de todo, julgando-se a sonhar,—tres pancadas dadas muito de leve na cama despertaram-na completamente.

Era ella, a irmã muito querida, n'uma sombra suave, que não assustava ninguem. Sentava-se-lhe á cabeceira, sorria, dizia-lhe n'uma caricia de voz ciciada:—«Cumpro a minha promessa, venho despedir-me!...»—E muito baixo, com uma infinita magua de mãe:—«Ah, custa-me muito deixar a minha Julianna! É a mais nova... E não lh'a poder entregar!...»—Levantando-se, desvaneceu-se silenciosamente n'um raio de luar que vinha pela janella mal fechada.

Ella olhava, olhava ainda, procurando na solidão do quarto a imagem da irmã, que lhe apparecia tal qual era e tão differente do que fôra! Só a voz era a mesma. De resto—quasi a não poderia reconhecer n'essa ligeira sombra vestida á moda do tempo, tão differente d'aquella em que a deixára: a cinta muito comprida, a saia de largo balão, o fechu de rendas que aconchegava com a mão esguia, muito fina, ao pescoço nu!

Era ella, bem certo que era ella!... A côr do vestido ficou-lhe bem nitida na memoria—azul pallido, quasi prateado...

Os soluços suffocavam-na, chorava sem consolação a amada morta que se viera despedir a tantas leguas de distancia!

Foi em vão que o marido a quiz convencer a esperar noticias. Elle escreveu logo confiando em que a resposta á sua carta a tiraria d'aquella tristissima impressão... Para ella é que não havia duvida possivel!

E a fatal noticia—que a morta viera trazer n'uma noite de luar tão branca como a santa amizade que as ligára—só passados seis mezes era confirmada por cartas vindas de Goa.—«E na ultima hora, minha querida tia, a minha mãe fallava em V. Ex.ª...»

É bem dolorosamente triste essa pequenina carta em lettra miudinha, de myope, fragil como o coração da pobre orphã abandonada tão longe dos seus!—Familia talvez em França, de onde era o pae, familia em Macau, familia em Portugal... Em Goa, elles sós! Como é triste essa carta, triste a fazer mal! Pobre pequena carta que eu guardarei eternamente—a relembrar as vagas, esparsas tristezas d'exilada que me andam na alma...

E mais tarde, morta a minha avó rodeada de filhos e netos, feliz na serenidade do seu lar, que ella soube sempre fazer tão querido,—a que longinquos paizes iria a sua alma peregrinar em amorosa despedida a algum dos seus?!...

 

Fevereiro de 96.