A SENHORA ANGELICA
A SENHORA ANGELICA
senhora Angelica forneira era a cara mais phenomenalmente feia que eu tenho visto—e verei. Espero esse favor de Deus Nosso Senhor, que nos fez á sua imagem e semelhança...
Eu nem sei explicar aquella mascara de gente! Não se pode mesmo comprehender como a face humana perde assim toda a forma macia de carne e se torna enrugada e musgosa como um velho carvalho—que vae morrendo aos pedaços e que todas as primaveras enverdece menos, lá para o cimo dos ramos.
Pois, apesar da horrivel fealdade da senhora Angelica, ella resumiu para mim, durante a minha infancia, um mundo de sonhos e phantasticas imaginações.
Mal a via assomar ao cimo do largo; a saia de riscado curta a mostrar um começo de pernas gretadas e uns pés enormes, deformados e sujos; saracoteando-se desgraciosa com o taboleiro de brôa cozida á cabeça; corria logo á cozinha para lhe ouvir recontar pela millesima vez o estranho caso.
E se dissessemos ainda que ella sabia muitas historias! Não, era só uma... Mas essa unica, verdadeira, accidentada de peripecias, era d'effeito. Enchia-me a cabeça e dava até assumpto para um grande romance rocambolesco.
Todas as semanas, quando a velha trazia a fornada de pão de milho para os criados, os tres alqueires do costume, era certo eu lá estar na cozinha á espera d'ella. Fazia-me muito amavel; pedia o meu bolo; mastigava fastienta em pequenas dentadas de coelho esse pão grosseirissimo, sabendo a farinha crua, adocicado e peganhento, ao qual nunca o amôr á terra natal me pôde habituar.
A velha ria parvamente, mettia com as negras mãos encarquilhadas o cabello frisado, d'um branco sujo, para dentro do lenço de chita, e contava sempre a mesma coisa, dita com as mesmas palavras, com uma precisão de phonographo. O bastante porém para fermento da minha phantasia.
Era no tempo em que os rapazes d'um certo nome imitavam, com mais ou menos parecença e espirito, as estravagancias do conde de Vimioso.
Por moda, por chic e muito por gosto tambem, faziam sociedade com os ciganos sem eira nem beira, embriagavam-se pelas tabernas, vestiam-se de fadistas e pouco ou nada se distinguiam d'elles, moral e intellectualmente. Aquillo que no Vimioso era um artistico grãosinho de loucura, nos outros não passava d'uma ridicula imitação, muito grosseira até.
Como houvesse lá na terra um d'estes esperançosos moços—tambem conde, por signal—os ciganos passavam frequentemente por alli e assentavam arraiaes mesmo no interior da villa.
Á noite as barracas illuminavam-se, deixando entrever, n'um clarão de magica, os finos perfis das gitanitas de cabello negro e olhar mortifero, envoltas em flammantes trajos; os acobreados ciganos vestidos de gala, jaqueta curta com alamares de prata; e ao fundo, acocoradas n'um espasmo de profunda estupidez, velhas repellentes, cobertas de trapos sujos, fumando por cachimbos de barro.
As forjas onde concertavam caldeiras, tachos, bacias, toda a bateria de cobre da gente da villa e arredores, abriam-se n'um crepitar incandescente, mostravam boqueirões de fogo a lembrar infernos dantescos.
As mulheres vendiam pannos, lenços, contas, tudo que podia seduzir a garridice feminina das boçaes aldeãs. Elles eram soberbos! O verdadeiro zingaro, com ares de grande de Hespanha e condottiére italiano; vendendo e trocando cavallos, experimentando-os em correrias pelo largo sem arvores, com uma maestria e uma elegancia de gaúchos.
Nada tinham dos miseraveis ciganos que atravessam os campos, melancholicos, seguindo-nos n'uma guincharia lamurienta, acompanhada pelos urros dos pobres ursos espancados e famintos e pelos intoleraveis macacos com os seus gritos de convulsionar os nervos... Perseguidos pelas auctoridades e pelo odio do povo, que encontra sempre para contar arrepiantes historias dos vagabundos—crianças dadas a comer aos animaes, colheitas devastadas, roubos...—esgueiram-se logo, passam de largo pelos povoados, com a falsa humildade dos cães batidos.
N'esse dia tratava-se d'um casamento e o arraial estava em grande animação. O conde era o padrinho; mandára para lá vinho a rodos e leváva convidados. Promettia ser luzida, fallada por muitos annos, a festa.
Os beirões, de cabeça dura, enraizados na terra como pinheiros selvagens, olhavam, com um mixto d'espanto e de desprezo, para esses eternos vadios, instaveis como a areia do deserto. Alguns, mais entendidos, contavam o que aquillo era:—Nada de padre, nem de pregões, nem de igreja! Quebrava-se uma bilha e ficariam juntos tantos annos, quantos os cacos em que ella se fizera.—Horrores!... E as velhas benziam-se, assustadas.—Credo, Santo nome de Jesus! E viviam assim! Criaturas que nem eram de Deus!... E o sr. conde mettido com aquella gente! Oxalá a mãe não andasse aos tombos no outro mundo pela estragação de mimos em que o criára!...»
A senhora Angelica forneira, n'esse tempo era ainda uma rapariga, casada de pouco com o seu Joaquim, que sempre fôra bom homem, isso é verdade! Amigo da pinguita, por isso não juntaram vintem; morrendo porque ella lhe levasse pontas de cigarro para se entreter lá pelo forno; mas bom homem, no fim de contas, bom homem. Se lhe batia ás vezes, era por amôr—claro!...
N'esse dia, como toda a gente da terra, embasbacava-se a sr.ª Angelica deante do acampamento em festa. Como se adeantasse mais, curiosa de vêr a noiva, depois de ter admirado a gentil figura do noivo, chegou-se a ella uma rapariga, a sahir da infancia, d'uma brancura de pelle, d'uma côr de cabello, d'uma reserva de maneiras que accusava uma raça bem differente. Approximou-se com o disfarce ondulante do gato, que quer fugir sem ser visto pelo dono; puxou-lhe pela saia e murmurou-lhe ao ouvido:—que a levasse d'alli, tinha uma coisa importante a dizer...
A senhora Angelica, que tinha todas as virtudes femininas, excedia quasi o seu sexo na curiosidade. Como pôde lá se metteu com a rapariga por entre o povo, sem que nem dentro nem fóra do acampamento dessem por isso, e levou-a para o cimo da villa onde ninguem estava áquella hora.
Imaginem o espanto da pobre mulher, quando a pequena se agarra a ella a chorar:—que a escondesse, que ella não era cigana! Tinha sido roubada lá muito longe, n'uma povoação da raia. Seus paes eram ricos—o que elles a não teriam chorado e procurado por toda a parte!... Havia dois annos que andava com os ciganos pelo mundo, sem ter podido fugir! Era raro que elles acampassem em povoado e quando assim acontecia não a perdiam de vista nem uma hora. N'esse dia a festa do casamento, com a assistencia do conde, puzera tudo em confusão e ella pudera escapar-se n'uma aberta. Que a não abandonasse, a senhora Angelica!...—O que lhe fazia mais horror era o seu proximo casamento com um dos mais lindos rapazes da tribu! Dois annos a viver com aquella gente e ainda não pudera vencer a repugnancia que a affastava d'elle cada dia mais! A inferioridade de raça enchia-a d'um instinctivo tedio, quasi aversão, por esse sadio rapaz que a escolhera, sem duvida o mais amado das outras raparigas.
A senhora Angelica era mulher de expediente. Consolou-a como pôde e levou-a a um sitio isolado, um cabeço árido, cemiterio dos velhos cavallos lazarentos que os corvos vêem comer deixando os ossos a branquejar ao sol, tristemente apertado entre pinhaes, onde só ella conhecia uma gruta formada pelos rochedos sobrepostos—que decerto era a Cova da Moira.
É que uma vez, ainda em solteira, fôra para alli ao matto e descobrira a caverna. Calára-se com aquillo porque é uma tradição velhissima na terra: que entre modorno e modorninho ha sete cargas d'oiro fino,—que uma moira encantada as guarda, tecendo n'um tear de marfim e chamando alta noite de luar, por quem a vá desencantar!... E ella não quizera dizer a ninguem a sua descoberta, esperando talvez que a moira lhe desse um dia os thezoiros.
Metteu lá a sua protegida e foi levar-lhe comida á boquinha da noite.
Tres dias a teve escondida alli, com medo dos ciganos. Elles é que, postos em rebate pela fuga da prisioneira, foram-se andando sem dizerem nada e sem ninguem lhes pôr estorvos.
Só então a senhora Angelica tomou ânimo, e lá foi, mais medrosa do que vaidosa da sua obra, sem ter grande consciencia de ter andado bem, contar o caso ao administrador...
Foi um alvoroto na terra! Toda a gente quiz ir ver a menina, que veio em triumpho para a villa. Todos lhe queriam fallar e tocar, perguntando-lhe, cada um por sua vez, a historia, que ella repetia sempre, contente por poder desabafar as suas máguas. Os que não conseguiam chegar até junto d'ella abraçavam a senhora Angelica, davam-lhe os parabens, tinham-n'a já como uma gloria patria, quasi uma padeira d'Aljubarrota. Ella andava radiante, contando e recontando o caso.
Nova e maior alegria foi ainda quando chegaram os paes da menina, no louco enthusiasmo de quem chora uma filha morta e a encontra cheia de vida e saude.
A senhora Angelica foi bem recompensada, mas sempre me dizia: «que dinheiro nenhum lhe pagaria o susto em que andára muito tempo, parecendo-lhe ver ciganos em todos os cantos, punhaes e navalhas reluzentes que de todos os lados lhe dirigiam ao coração!...
Não era mentira! Tão certo como haver Deus, que aquelle rapaz, que devia casar com a menina, rondára por alli muito tempo!... Um medo assim! Nem ella sabia em que se mettera!...»
Esta era a historia da velha. Depois, o que eu compunha e arredondava!... Muitas vezes visitei a Cova da Moira e não era essa com os seus lamentos de triste encantada, com os seus cabellos d'oiro, com o seu tear de marfim, a que me enchia a imaginação. Era a pobre rapariga fugida aos ciganos, alli sósinha, temendo ser descoberta, temendo o silencio da noite, a sombra dos pinhaes, os gritos lugubres dos corvos!... Punha-me no seu logar e pensava: Senhor, como pôde ella não morrer de susto?!...
Depois, como os amantes infelizes me fizeram sempre muita pena, acabava por ter dó do cigano que queria casar com a menina e que no dizer da senhora Angelica por alli rondára muitos annos, como alma penada.
ALGARVE
ALGARVE
lgarve era o seu nome. Tinha nos olhos leaes uma tal expressão de bondade, que inspirava logo confiança aos timidos, aos pobres, ás criancinhas.
Era muito distincto, com seu ar de grande senhor dos tempos passados. Ao atravessar o corredor para vir deitar-se aos meus pés, dir-se-hia um velho diplomata acostumado ás etiquetas palacianas.
Não fazia barulho; apparecia junto de nós como uma sombra. Nunca lhe vi aquella alegria ruidosa que faz bem ver, mesmo nos cães. Era silencioso, meigo, taciturno—como se uma saudade ou um remorso lhe pesasse na alma.
Ás vezes, quando a dormir, tinha sonhos afflictivos, gemia baixinho, com estremecimentos bruscos em todo o corpo—como se quizesse lançar-se n'uma corrida para salvar alguem que visse em perigo...
Todas as tardes sahia. Fechava-se-lhe a porta, saltava pela janella. Era a unica occasião em que mostrava a energia da sua vontade decidida e teimosa. Voltava ás dez horas, impassivel e sereno, tal qual como se tivesse ido ao club fazer dois dedos de conversa.
Um dia quiz segui-lo; presentiu-me e veiu ter commigo fazendo-me festas, como a pedir que voltasse para traz. Não quiz comprehender e elle então acompanhou-me disfarçadamente, algum tempo, e logo que me viu distrahida fugiu a bom correr.
E ás dez horas, inalteravelmente, voltava, sereno e grave, como homem elegante que atira o charuto e descalça a luva da mão direita, antes d'entrar em casa.
Mas—coitadinho!—era já muito velho e a sua mocidade parece ter sido um tanto aventurosa. Á mão me veiu elle ter, já cansado, quasi sem dentes, o pello a cahir.
Nos olhos do pobre Algarve queria eu ler toda a sua historia. E, quem sabe, talvez que me não engane muito contando o que li, tudo o que adivinhei nos olhos bons do meu pobre amigo—que um genio altivo e independente levou a uma triste morte.
Veria pela primeira vez a luz n'um paiz branco, todo branco de neve. Grandes montanhas, d'uma transparencia ligeiramente rosada quando o sol muito pallido as illumina, avançam lentamente, n'um deslizar de fadas em doce ronda nocturna... e lenta, mas seguramente, caminham para o seu fim—o grande leito amargo do Oceano.
Muitos navios vinham todos os annos á pesca; então, lembrava-se de ver homens que, de quando em quando, vinham a terra e tristissimamente iam depositar o corpo d'um companheiro, no cemiterio branco picado de cruzinhas negras que lá em cima se via... E a mãe, uma famosa cadella preta de pello luzidio ligeiramente ondeado, acostumára-o a seguir aquelles cortejos funebres, com respeito, quasi com magua...
Depois, ao primeiro annuncio do inverno, os navios fugiam, como as andorinhas vôam ligeiras para a dôce paz dos seus ninhos de lá baixo—andorinhas aventureiras que todos os annos voltam, mas á custa de quantos sacrificios! Quantos ficarão perdidos por esse mar sem fim! E esses homens rudes, que tanto e tanto trabalham por um pedaço de pão, seriam a melhor lembrança do meu pobre Algarve...
Quando maior, levaram-no um dia esses mesmos pescadores que elle se habituára a amar e a seguir humildemente. E então foi uma vida de sobresaltos e perigos, passada sobre as quatro tabuas d'um navio, tal qual um velho marinheiro muito affeito a perigos e tempestades.
D'um naufragio se salvou, salvando o capitão. Appareceu não sei como em Setubal. Depois, de mão em mão, chegou á minha.
Que nostalgia profunda a do seu olhar, quando se fitava n'essa bahia etherealmente e incomparavelmente azul! Com quanta saudade elle recordaria esses mares tão differentes, por onde a sua mocidade se passeára, sobre a tolda dos navios?!...
Nas longuissimas tardes de maio, sempre as mesmas, sempre doiradas e tepidas, eu gostava de me ir com elle até á praia. Alli, na aureola d'oiro fulvo com que o céo santifica o mar, ficava-me sonhando, os olhos fitos no pharol do Outão, que era um ponto mais brilhante na gloria do poente.
Oh! as lindas tardes, as lindas manhãs, as lindas paysagens que nós contemplâmos em extasi; veem-nos passar com a mesma serena indefferença e assim continuarão a encantar os homens na sua rapida passagem pela terra. E mais rapida ainda a d'esses pobres animaes tão intelligentes, tão bons, tão dedicados—e que tão poucos d'entre nós teem alma para comprehender e amar!
Uma noite o Algarve não appareceu ás dez horas regulamentares. Um palpite de tristeza me annuviou o espirito... Faltou essa noite e faltou em todas d'ahi em deante. Um bebedo tinha-se posto deante do seu caminho, n'uma estupida e humana graça. O cão voltou, para seguir por outra rua, e o homem, n'uma selvageria que envergonhava o animal, agarrou-o, entre as gargalhadas dos espectadores que da taverna proxima assistiam ao espectaculo—que na verdade devia ser d'uma infinita graça! O cão filou-o rijamente, sacudiu-o com os dentes e passou.
Mas a injustiça e o odio dos homens torna-os mais ferozes do que os proprios animaes. A alma—se homens como aquelle a teem—apenas lhes serve para mais conscientemente fazerem o mal.
Ao outro dia o meu pobre Algarve tinha desapparecido para sempre, levado para a suprema ignominia da sepultura dos cães vadios.
CÚMULO
CÚMULO
rabalhava muito, a mulhersinha. Era para admirar como um corpo tão debil podia com tanto. Ella era os recados, a lavagem das casas, as compras...
De manhã passava avergada por grandes cabazes, onde as cebolas côr de rosa conversam amigavelmente com os pimentos d'um bello verde de porcelana, a couve abre grandes folhas já murchas cobrindo as batatas ainda com terra, as cenouras doiradas, o raminho de salsa cheirosa e a carne junto da escama prateada do peixe é uma sangrenta mancha—como ramo de cravos n'um corpete branco. A extravagante mistura que as cosinheiras recebem torcendo o nariz, ralhando com as pobres compradoras e por fim acommodando-se, vencidas pela avalanche de commentarios e explicações... Tudo pela hora da morte! Não ha quem possa chegar á mais insignificante coisa! E cada vez peor. Verão que os pobres hão de morrer de fome qualquer dia!...
Com um sorriso estagnado, magrinha, grave, trabalhava muito, muito. Silenciosa, sem incommodar ninguem, passava ou, melhor, escoava-se por entre a multidão como um peixe dentro d'agua por entre os dedos da mão que o quer segurar. Não faltava ás missas, ouvia recolhida todos os sermões, frequentava as novenas, mas não tinha excessos devotos. Tudo fazia comedidamente, sem nenhum exagero.
Não sei como dizer em phrase vulgar a sua figura tenue. Que isto não dá a ideia, não completa a impressão que d'ella fica, leve como um desenho mal esboçado a esfuminho quasi limpo... Honesta, vestidinha d'escuro, aceada, faz gosto vê-la. Tem um ar senhoril, distincto, quasi d'uma velha fidalga sem fortuna que precisa agradar.
As filhitas andaram sempre muito arranjadinhas. Emquanto pequenas, era mesmo um encanto. Fatos velhos talvez, mas tão gentilmente postos, que ao vê-las dir-se-hia que eram duas meninas ricas. No collegio não se confundiam com as mais pobres, não. Mal ficára viuva deixára a renda na almofada encher-se de pó, amarellar com o tempo e confundirem-se os bilros n'uma indesmanchavel meada.
Viuva?!...
Se ella acaso o era!... Que o marido embarcára e ha dezeseis annos que não sabiam d'elle. Tantas vezes navegára n'aquelle navio mercante e sempre voltara tão alegre, trazendo tanta coisa estranha de paizes distantes, que ella nem comprehendia que podessem existir!.. O que o pobre homem ria de gosto com os espantos da sua mulhersinha! Porque a amava muito, apezar do seu feitio rude, das suas maneiras largas d'embarcadiço; morria por ella e pelas pequenas. Não pensava em mais nada, nas longas viagens trabalhosas por esses mares fóra.
E dezeseis annos sem dar conta de si—decerto que tinha morrido!... Mas sem o confessar, no fundo do coração alimentava ainda uma esperança... Custa tanto acreditar na morte das pessoas amadas, mesmo quando deixam de soffrer deante dos nossos olhos!... Que fará, assim?!...
As raparigas eram bonitinhas, belleza da mocidade, uma certa finura da mãe, com os instinctos aventurosos do pae, talvez. Queriam luxo, muito fato, como as outras. Côres claras, leques, fitas, plumas, rendas... coisas tão caras, mesmo quando ordinarias, para uma pobre mulher que mal ganha para a comida. Quantos recados era preciso fazer; quantas casas esfregar! Por mais que se estafasse não chegava a nada. Sempre as outras melhor do que ellas; sempre as raparigas a grazinar.
Um dia, furtivamente, tirou uma renda de sobre o mostrador d'uma loja de modas, onde comprava para outros o que tanto desejava para as filhas. E que linda golla fizeram! D'ahi em deante, nas casas que servia, ia tirando sempre, sempre, na tentação que crescia como serena maré n'um mar feito de lama amornada. Abria as gavetas, desapparecia dinheiro... desconfiavam e despediam-na. E as raparigas que desejavam blusas novas, casacos, lenços!... Por fim, até chapeo. A pobre mulher, que não tinha remedio a dar-lhe, dobrava-se sobre si mesma, compungida da sua desgraça. Não era remorso; era pena de não ter a quem roubar, devagarinho, sem haver escandalo.
Um dia, cançadas de não terem o luxo que desejavam, abalaram as duas deixando a mãe a governar-se sósinha. E ella—nunca mais tirou nada a ninguem! É tão fiel, tão honesta, que não haveria perigo em lhe confiar uma fortuna.
«Que as filhas são muito boas...—murmura a pobre, muito convencida,—dizem por ahi mal d'ellas; mas tudo é inveja. Coitadinhas, andam bem vestidas, andam, mas isso o que tem? A mais velha hade casar em morrendo a mulher do homem que a sustenta... E Deus hade fazer esse milagre!—Sinceramente o pede nas suas fervorosas orações.—A outra casa para a paschoa, com um empregado publico. Vive como senhora.»
E ha quantos annos que ella espera essas boas festas!...
A AMA
A AMA
uando a Rosita do Simão casou, foi um desconsolo pela rapaziada. Pudera, se ella e a irmã eram das mais bonitas caras da aldeia! Claro que não se poderiam chamar bellezas em qualquer terra de formosuras, mas alli, entre a fealdade quasi geral, pareciam duas flôres. Decerto que era pena ve-la casar com o bruto do Antonio Marques!
A Mariquinhas estava a servir em Lisboa, n'uma bella casa arranjada pelo sr. vigario, e vinha á terra d'annos a annos, toda senhora, toda posta no seu serio—boas mantilhas, bons fatos, uma figurona! E á Rosa, a ter que casar com o Marques, mais lhe valêra ir tambem servir...
Ella é que se não importou com os commentarios, e lá foi toda contente, com o seu vestido preto, o lenço de seda, o chale de vêr a Deus, dar a mão de esposa ao sr. Antonio Marques, que ia todo taful, de capote ás costas e chapéo novo. Foi uma festa.
No poente rubro, tepido, da primavera que ia no fim, a passarada cantava umas alegres canções—coisas d'elles, d'esses vadios sem futuro. Umas pessimas cabeças, as da passarada!
E o Leandro, amigalhaço do Antonio Marques e convidado para o arroz doce, tocava os sinos todos n'um desaforo de repiques.
O velho campanario tremia entre os braços da hera. A pobre igrejita enchia-se do oiro mordente que o sol enfiava pela rosacea do côro. A vinha do passal perfumava a atmosphera como uma enorme corbêlha de reseda e os pinhaes, os soutos e os olivedos reviveciam n'uma vida fresca, novinha em folha. Errava no ar uma tal expressão de vida natural, que inconscientemente todas as boccas se abriam em risos. O sr. vigario, muito solemne, fez uma bella prédica á Rosita; as palavras cahiam-lhe dos labios, sérias, claras e precisas como se viessem classificadas, numeradas, sabendo d'antemão o logar que occupariam na vida. O latim era tão explicado, que fazia gosto ouvi-lo... «Ser casada por elle—dizia a Rosita—até dá felicidade. Parece que fica a gente mais bem casada!...»
Passados tempos, já não dizia o mesmo. O Antonio era um bruto, um avarento; tudo o que ganhava enterrava na fazenda. Em casa, a Rosa mortificava-se, com tres criancitas intanguidas de frio e fome—dizia mal da sua cabeça tonta. Ir casar com um trabalhador d'enxada já fôra uma tolice—e sahir-lhe elle assim!... Louvado seja Deus, que tão pouco juizo dá ás raparigas! Porque não fizera ella como a Mariquinhas, que vinha á terra tão bem vestida, que era a inveja de todos?!...
No baptisado do terceiro sobrinho foi ella ser madrinha, com incumbencia d'uma ama para Lisboa. O ordenado era bom e o Antonio Marques, muito avarento, lembrou a mulher. Lá por saudavel e bonita não havia outra nos arredores. Os pequenos ficavam com a avó e haviam de se crear como os mais, á graça de Deus!
Fallou-se ao sr. vigario—que dissesse elle a sua opinião. A Mariquinhas explicava—que era para casa da sr.ª viscondessa, prima da sua senhora, o sr. vigario sabia...
—«Óra se sabia! Perfeitamente. Ia muito bem; que fosse, que fosse!...»
Custou-lhe muito separar-se dos filhos, á pobre da Rosita. Chorava inconsolavel pedindo á mãe que lh'os tratasse bem, que ella mandaria dinheiro para isso; nada de o entregar ao homem que tudo iria enterrar na fazenda e deixaria morrer os pobres anjinhos.
Dois annos que a Rosa esteve por lá, mandou sempre bom dinheiro, que o marido guardava. Os garotos iam-se creando pelas portas, negros e sujos, tristonhos—uns selvagens. Acabada a creação chegou ella, esperada em triumpho por todos os parentes, que de fóra da gare lhe acenavam com os lenços chamando-a alegremente. Nem parecia a mesma! Mais bonita que nunca, a rapariga. Os filhos fugiam d'ella, enrodilhavam-se na saia da avó, choravam confundidos por se verem acariciados por mãe tão de grande gala. E ella olhava-os lacrimejante, sem grandes esforços de ternura, que os conquistasse. Achava-os tão feios no fim de contas!... Mostrava o retrato do seu menino—recostado entre almofadas e rendas, risonho e expressivo como se da photographia fosse estender os braços roliços á boa ama.
—«Que lindo menino, se vissem! Uma gracinha de criança, que tudo lhe ficava bem. Quando o levava pela rua toda a gente se voltava enlevada na sua belleza. Um amôr! Nunca poderia esquecer o seu menino, o querido anjo que criára ao peito...
Aprendera a fallar, a Rosita. Estava outra. Até já sabia escrever e passava horas a rabiscar umas cartas inintelligiveis, que mandava á sua senhora. «Não podia esquecer o menino, o seu querido menino! O seu lindissimo Gut, tão branco e rosado como uma flôr...»
Com a vinda da mãe os pequenos andavam mais limpinhos, isso andavam. A casa estava outra—alteada, janellas abertas, branca de cal. Um palacio. Mas, dizia-lhe um dia o sr. vigario:—«andas tão triste, Rosa! Parece que tens saudades de Lisboa...»
Desatou a chorar.
«Oh! muitas, muitas, do meu menino! Tinha-lhe um amôr... Não lhe passava d'alli!»—E apontava para a garganta entumecida pelos soluços.
—«Cá, tens os teus filhos, Rosa. Hade dizer-se que não gostas d'elles!... Isso é tentar a Deus, rapariga!»
—O sr. vigario que perdoasse; ella gostava dos filhos—pois se eram seus filhos, não havia de gostar!—mas o seu menino era outra coisa! Tão lindo, tão esperto, tão bem vestido!... Que Deus lhe perdoasse, mas tinha-lhe tanta affeição, que o não podia esquecer!... E beijava o seu retrato, chorando.
O vigario, depois de dar os seus conselhos, affastou-se resmungando:—«o démo da mulher! Se não conhecesse a casa onde esteve e não soubesse que foi sempre uma boa rapariga, até desconfiava d'aquellas lagrimas! Emfim... Decerto que o filho da viscondessa é bem mais bonito do que os negritos do Antonio Marques, mas são filhos, afinal!...»—E rematava sentencioso—o demonio são as mulheres! Umas adoram os filhos mais do que ao proprio Deus; outras até os matam; esta quer mais aos alheios que aos d'ella!... Ha de tudo cá por este mundo!»—E lá se ia á missa primeira, esfregando as mãos geladas pelo nordeste, levantando, a golla de pelles do casaco, batendo com as botas-tamancos na calçada, para aquecer os pés.
ENTARDECER
ENTARDECER
ma tarde tristissima.
Desde manhã que uma chuva miudinha e impertinente cahia sem cessar. O céo, muito pesado, muito baixo, esmagava o meu espirito, fazia-me soffrer de quantas maguas inconfessadas existem na vida—tão cruel, tão absurda ás vezes!
A lama na estrada chegava ao passeio; as arvores lamentavam-se desoladamente, todas gottejantes e trémulas, chorando a primavera que tanto, tanto custava a chegar esse anno!
Bandos d'andorinhas passavam arrevoando junto á terra, piando, friorentas, saudades do sol, que deixaram lá em baixo a doirar minaretes agudos, a acariciar palmeiras, que ondulam brandamente as suas folhas em leque, e graves mulheres que passam envolvidas em brancas musselinas transparentes.
Encostada aos vidros da minha janella, eu olhava distrahida... Quem passaria por uma tarde assim?... A lama viscosa e pardacenta parecia querer subir, em maré cheia de tedio, a engolfar o mundo na sua molleza repugnante. Tardes ennodoadas e longas que ennoitam o nosso espirito, fazendo-nos perder a esperança de que jamais um raio de sol ou uma nesga de céo azul venha alvoroçar-nos em sonoridades de risos!
Uma rapariguinha passava, tão magra, tão pallidasita... A saia, muito fina, a cingir-se-lhe ao pobre corpo d'anemica; agasalhava-se tremendo n'um pedaço de velho chale esfarrapado e nas mãositas roxas segurava um pequeno embrulho.
Talvez seis annos...
E as botinas cambadas, maiores do que os pés, a enterrarem-se na lama, a não a deixarem andar depressa...
E a noite cahindo silenciosamente, e ella sósinha, no campo sombrio, áquella hora e n'aquella tarde tão abandonado e triste como um cemiterio.
Seguindo-a com o olhar, abstracta, quasi inconsciente, pensei: quantas crianças da mesma edade brincariam alegres e palreiras, em casas confortaveis, bem vestidas, quentes?... Quantas, n'essa hora vaga do cair da tarde, não correriam, sobraçando os arcos, rindo da chuva e do frio, por entre moitas verdejantes de lindos jardins, seguidas por loiras mestras altas e sérias? Bibes brancos a esvoaçar como azas de borboletas; finos cabellos encaracolados cahindo em maciezas de luz, a nimbar d'oiro Varezo cabecinhas graciosas... Bellas crianças feitas de mimos e de beijos, rosadas e fortes, promptas para a vida sem maguas nem canceiras.
E aquella! Uma infancia miseravel, a prepara-la para o longo e obscuro martyrio que termina na valla commum passando pela fabrica e pelo hospital.
E a pequenita caminhava vagarosamente, com uma precoce gravidade destoante dos seus poucos annos. Mas...
Uma carroça vinha em doida desfilada, com barulho irritante de velhas molas ferrugentas e guisos casquinando sarcasmos na tarde chuvosa. Assustada, querendo fugir, a criança deixou cahir o embrulho. O papel rasgou-se e todo o milho que levava se espalhou no chão lamacento. Nada mais pungente de ver; nada que mais esgarçasse a alma n'uma angustia—que a pallida figurinha da pequena contemplando aquelle desastre!...
A carroça passou e ella foi apanhando, grão aqui, grão além, aquelles que a lama não tinha completamente perdido. Depois affastou-se lentamente, com um sorriso d'infinita resignação na sua boquinha já soffredora.
Seis annos apenas—como ella aprendeu cedo a resignação amargurada da vida! Uma immensa piedade, uma dolorosa impressão d'irremediavel soffrimento, me invadiu o espirito, pensando em todas as anonymas desventuras que se acotevelam na vida.
A noite vinha descendo lentamente. Pezava como chumbo a tristeza arreliante d'esse fim de dia...
BRETAN
BRETAN
ertamente a mais ninguem acontece ter como eu um medo atroz, um respeito fetichista, pelo correio.
Um comboio que passa, com a sua cabelleira ao vento; os seus gritos agudos, o seu tamtam monotono, não me traz á ideia a alegria descuidosa dos que partem para recreadas viagens, não! Eu penso que n'aquella caixinha, estreita como um esquife, vae amortalhado muito coração, vae muita lagrima alastrada em tinta, levar a todos os cantos do mundo a magua que a fez sangrar.
Muita alegria diz tambem aquella pequena chapa com sete lettras a preto... Diz certamente; mas não a alegria sã e completa dos felizes que não teem ausentes! Quanta saudade de mãe amargurada, que ao deitar a sua carta na caixa sentirá a mesma impressão dilacerante de lançar com ella o coração!... Quanto conselho de pae, martelado a soluços!... Quanto desespero de namorada confiando ao acaso das viagens o seu pobre amôr feito em frangalhos!... Quanta tristeza n'uma phrase em que se pergunta pelo anjinho, que se viu nascer e que longe cresce e se faz sabio, sem que os nossos olhos o envolvam de caricias!... Quanto beijo dado no vacuo; quantos braços estendidos a pedir soccorro, cahindo inertes sem ter que abraçar! Quanta mentira, quanto desespero, quanta saudade!... Tudo isto passa pelo meu espirito annuviado, dando-me a gelida impressão de temôr!
Até os pobres carteiros, cuja miseria reclama esportula, teem um modo auctoritario de bater ás nossas portas. Queiras ou não queiras, ahi te vae a carta de preto que faz refluir todo o sangue ao coração, a phrase crúa que despedaça amizades, o rendilhado fementido d'um affecto que sentimos morto.
Sobre uma carta encontrada, toda uma vida se pode refazer; desenhar justamente um caracter; ter quasi palpavel, diante dos nossos olhos, a figura sorridente ou lacrimosa, enthusiasta ou fria, resignada ou inquieta, que ao papel confiou as suas impressões. Mas nenhuma como esta, que uma piedade estranha roubou á bruta indifferença d'um pae, dá a flagrancia d'uma alma.
Por delicadissima offerta de quem sente a vida como eu a sinto e comprehende como eu comprehendo a amargura dos que soffrem, ella me chegou ás mãos, tal qual a vou copiar:
—«*** (Bretagne) le 8 Fevrier 1892.
Cher Père
Je rèponds a ta lettre reçu le 2 Fevrier nous sommes en très bonne santé nous désirons que toi il en soit de même. Nous avons reçu avec beaucoup de plaisir les details de ta situation soit sur le passée comme sur le prèsent. Je s'ai que tu n'est pas en peine pour diriger tous les travaux comme ils se font en France. Pour faire la cuisine tu n'est pas noice l'on doit être content d'avoir un aussi bon cuisinier que toi surtout pour lapin et lievre. Avec 3 jambons et du lard tu en a là pour prépare beaucoup des liévres.
Je pense que tu dois boire du vin j'ai entendu dire qu'on recolté du vin très renommé. Je suis très satisfaite que tu ai fait toutes ces emplettes car elles sont bien utiles. Mais maintenant que tu as toustes vètements nécessaires, puis qu'il y a beau coup du gibier cela doit servir pour une bonne parti de ta nourriture alors une personne seule avec le gage que tu gagne si j'etais a ta place il me semble que je tacherai moyen de mettre un peu d'argent de côté car si plutard tu en avant besoin tu aurai là ce qu'il te faudrai car l'argent ne nuie jamais, je ne pense pas. Cher père de te fâche quoique je te donne ce petit conseil mais tu s'ai l'argent est bien utile sans cela ou ne peut rien faire. Comme tu me dis que tu as acheté une couverture de laine dans ta prochaine lettre tu me dira si tu a un appartement ou tu fait ta cuisine et si tu couche dans un lit tu me l'expliquera. Tu connais donc le roi du Portugal? ce serait un grand honneur pour toi si Sa Magésté venait chasser avec toi ainsi que tu me le dit mais je crois que tu ma dit cela pour me faire rire mais peut être il n'y a pas beaucoup des chasseurs en Portugal. Fait-on la chasse aux macreuses comme ici toi qui aime tant cette chasse lá tu n'en parle pas. Comme tu me parle de la mer vois-tu la Mer Méditerranée ou l'Ocean Atlantique? Tu me dira aussi si tu parle Français ou Portugais. Tache moyen de conserver ta bonne place et du commerce ne m'en parle pas car c'est le commerce qui nous a occasionné tous nos grands malheurs. J'ai a te dire qu'il y a appeine un an que j'ai commencé un petit jardin dans la cour du cellier je vai t'en donner un aperçu a partir du portail jusqu'au 1.er figuier j'ai fait une palissade, lá j'ai planté 3 rangs d'arbres fruitiers, j'ai fait un petit chemin qui fait le tour des arbres, et j'ai fait des anglaises, lá j'ai planté tout éspeces de fleurs ce serait trop long pour te dire tous les noms des fleurs que j'ai planté, tout cet été qui s'ai les fleurs que j'ai eu pour porter á l'Eglise. J'y ai mis aussi des fraisiers, des grosselliers, des souches pour faire grimper en un mot rien n'y manque que d'avoir un puits. Comme je ne sort jamais pour aller en promenade je vai passer beaucoup des moments a voir mes plants les arroser lui enlever les mauvaises herbes et cela me distrait beaucoup. Depuis le mois de Novembre mon jardin est plein de violettes. Le climat du Portugal doit être plus chaud qu'ici il ne doit sans doute pas tombé de neige, mais pour nous il fait un hiver pluvieuse nous n'avons seulement pas eu le vent du nord nous voyons la neige sur les montagnes mais il ne fait pas froid. Si tu ne peux pas ecrire pour la fin des mois jusqu'au mois d'Avril ou Mai c'est trop loin tu peux ecrire vers le millieu de Mars le plustard. J'ai donnè des nouvelles a ma Tante e mon Cousin. Ton ami Gilbert vient a la maison de temps en temps il nous demande toujours de tes nouvelles car il t'aime bien mais Gilbert a été bien éprouvé comme nous, tu peux penser comme il est desolé il y a plus d'un an qu'il a pérdu sa pauvre fille.
Je termine ma lettre cher père en t'embrassant du fond du cœur ma mère et moi.
Quand même je te parle de Gilbert n'y écrit pas tant a lui comme a d'autres personnes avec moi il y en a assez.»
Com os seus erros d'orthographia e a sua completa ignorancia de grammatica, com a maneira simples, natural e humana de dizer o que sente, é a mais delicada, a mais dôce, a mais sentida nota que uma obscura alma de rapariga tem feito resoar no meu coração.
Como ella se desvanece, primeiro, com os talentos culinarios do Cher Père. Depois vem o seu instincto economico de petite mére, a dar tão bons conselhos ao pae de má cabeça—que parece elle foi...
O espanto da pobre rapariga, o orgulho que sorri entre duvidas, de que, elle conheça Sa Magesté!... Perdida n'um cantinho da Bretanha, na sua grande França republicana, essa ideia será para ella qualquer coisa de grandioso e vago como os radiosos contos de princezas e fadas de que a sua infancia foi entretecida.
Nem tu sabes, touquinha branca d'azas engommadas, como o sol do pequenino paiz onde teu pae refaz a sua fortuna desbaratada, engrandece os humildes e banalisa os grandes!
Ignorante Gaud d'olhos côr da flôr do linho, pondo com grande esforço de memoria a pena nos dentes, a consultar a sabedoria da escola: vois tu la Mer Mediterranée ou l'Océan Atlantique?
O grande Atlantico, minha querida!—a vastidão do mar que deu ao insignificante paiz, que mal te lembras de vêr no mappa, a vastidão dos continentes novos!...
Vem depois o horror ao commercio, como um rebate d'incendio... Comprehendo o teu medo, o teu grande desgosto, pobresita! Estou a vêr a tua casa muito arranjadinha, com o «leito á moda da cidade», os teus fatos ricos a fazer inveja,—a bella herdeira que tu eras, a chamar pretendentes!... E d'um instante para o outro, tudo desfeito, como um sonho de criança! Sim tremer, tremer das más cabeças, no commercio. Le pauvre cher Père!...
Vem aligeirar a carta a linda descripção do jardim, que ficou o seu luxo, a consolação dos dias tristes passados com a velha mãe a lembrar o ausente—fugitivo, criminoso talvez?!...
O adoravel perfume, tão fresco das suas arvores de fructo!... E os ramos de flôres tão variadas que seria longo ennumerar, como na sua melancholica egreja devem dizer bem, no altar de Nossa Senhora! Mas o poço que falta lhe faz, á paciente jardineira!
Parece que toda a carta ficou impregnada d'esse aroma honesto de violetas, que desde novembro enchem o paraizo da voluntaria reclusa.
A vaga impressão de sol que lhe suggere o clima de Portugal... Como teria ella aqui formosas flôres para cultivar!
Abre-se deante dos nossos olhos a serenidade da sua vida desfeita e conformada, lendo esta singela carta toda sahida do coração; o amigo Gilbert visitando a familia, e tão triste, elle tambem, com a morte da pobre filha!...
Leva-lhe, Céleste, ao seu coval de virgem, braçadas das tuas flores tão queridas! Leva-lh'as. E será melhor pedires á boa amiga que te deixou, um logar ao seu lado, na pacificação do vosso cemiterio raso. Com o teu coração, Céleste, que farás tu n'este mundo de lama e oiro, pobre querida?!... Pede—aconselho-t'o eu—á filha do teu amigo Gilbert um logarsinho doce onde te deites socegadamente, com a touca engommada pela ultima vez, o teu vestido dos dias felizes, os sapatinhos que nunca terão uso. É o melhor que tens a fazer, se não queres o teu coração gelado pela indifferença alheia, como a neve que nas montanhas alveja deante dos teus olhos sonhadores.
O susto em que vives, sympathica desconhecida, que eu comprehendo e amo. Nem o teu amigo Gilbert, nem esse mesmo deve saber ao certo onde pára o filho prodigo!
Que despedaçadores martyrios e desgostos; que mortificantes saudades curtidas longe!...