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Introdução á archeologia da peninsula Iberica

Chapter 2: PROLOGO
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About This Book

The book outlines archaeology as a discipline that applies natural-science methods to historical and social questions, linking geology, paleontology, anthropology and history. It emphasizes prehistoric antiquities and the primacy of material remains and stratigraphic context for reconstructing the human past, describes field practices such as cave and site exploration, museum curation, and international collaboration, and argues that archaeological evidence can revise conventional historical narratives. The author calls for comparative and synthetic study across the Iberian Peninsula, greater institutional support, and highlights prehistoric research as contributory to understanding human origins and to wider scientific and cultural progress.

As sciencias historicas e sociaes transformam-se actualmente sob o poderoso influxo dos factos, principios e methodos das sciencias da natureza. A archeologia é a principal das vias por onde se opéra esta grande transformação. Relacionada por uma parte com a geologia, a paleontologia e a anthropologia, e por outra parte com a historia, tem aproximado, attrahido, ligado estas sciencias que a differença das idades e dos methodos respectivos por tantos annos conservára afastadas e independentes umas das outras.

A tradição e a auctoridade d’aquelles que o precederam guiam e esclarecem o historiador. Ao naturalista falta-lhe a tradição; tem apenas os vestigios dos factos para os explicar e relacionar; mas, por isso mesmo, afaz-se a observar, analysar, comparar e induzir com toda a força que dá o exercicio ás faculdades intellectuaes, e com a independencia a que o espirito humano se habitua, desprendido inteiramente de opiniões antecipadas e de systemas preconcebidos. O historiador principia pelo mais antigo dos factos que a tradição refere, e deduz depois chronologicamente todos os outros até chegar á actualidade. O geologo segue o caminho inverso; começa pelos factos contemporaneos e, induzindo do conhecido para o desconhecido, interpretando pelo presente o passado, remonta-se, de vestigio em vestigio, até á origem da terra. Ninguem lhe contou, ninguem deixou escripta a historia do planeta que habitamos. É elle quem a cria, quem a inventa, observando e interpretando os vestigios materiaes dos factos que lhe revelam na sua evolução incessante as phases principaes da vida do globo. Os documentos que a natureza offerece ao naturalista não exprimem senão a verdade rigorosa e exacta. Os documentos que o historiador aprecia, traçados por mãos humanas, muitas vezes a desfiguram e falseam. Mente o homem, a natureza não.

As condições do archeologo que estuda as epocas prehistoricas são identicas ás do naturalista, e como naturalista ha de proceder se quizer chegar ao conhecimento da verdade. Em primeiro logar falta-lhe inteiramente a tradição verbal ou escripta; tem de cingir-se á significação exacta e rigorosa dos vestigios que observa. Em segundo logar a qualidade d’estes vestigios, o modo como se encontram nas camadas superficiaes da crusta da terra, os restos fosseis que lhes andam associados, fazem da archeologia prehistorica uma como parte da paleontologia humana. Aqui pois desapparece de todo a differença entre o archeologo e o naturalista.

Na archeologia dos tempos historicos, com quanto se considerem já os factos á luz da historia, subsiste todavia, como elemento essencial da interpretação d’elles, a analyse dos monumentos, a apreciação dos productos da arte, correspondentes em cada seculo aos fosseis ou aos outros vestigios em que o geologo, á força de observar e comparar, chega a constituir e a lêr a historia da terra. O historiador não póde pois deixar de ser archeologo; tem de aproveitar-se das luzes que a archeologia lhe presta; e não raras vezes acontece indicarem-lhe os monumentos a verdade alterada pela tradição. Não ha muitos annos, por exemplo, que a historia nos representava os wisigodos como gente que não chegara a cultivar as artes. As descobertas de alguns capiteis em Toledo e do thesouro de Guarrazar corrigiram a falsidade historica, mostrando-nos até que ponto elles se elevaram na esculptura da pedra e dos metaes, e tambem na architectura, porque de certo não fabricariam esplendidas coroas votivas de ouro e de pedras preciosas, nem esculpiriam delicados capiteis para templos de pedra e barro ou de madeira, como diziam terem sido em Hespanha os dos successores dos romanos na dominação da Peninsula.

Quem considerar portanto a archeologia a esta luz, como poderoso elemento de critica para o historiador, e como a principal das vias por onde os methodos e noções das sciencias da natureza passam para as sciencias historicas e sociaes, necessariamente concluirá ser o seu estudo uma necessidade impreterivel para qualquer povo que não queira ficar estacionario ou retardado áquem d’aquelles que o facho da sciencia allumia na vanguarda da civilisação. Sobe de ponto a necessidade em Portugal, de quem o poeta diria ainda hoje, como ha tres seculos:

E não sei por que influxo do destino
Não tem um ledo orgulho e geral gosto,
Que os animos levanta de contino
A ter para trabalhos ledo o rosto.

A superioridade relativa da Hespanha em comprehender e apreciar os estudos archeologicos claramente se nos patentêa em publicações de tal interesse e magnitude, quaes são os Monumentos arquitetonicos e o Museo español de antigüedades; e em monographias como aquellas que das suas respectivas provincias escreveram os srs. Villa-amil, Gongora, Sivelo, etc. Todas estas obras e alguns jornaes scientificos e litterarios contêem grande copia de subsidios para o estudo da archeologia hespanhola. Mas até hoje ninguem a tratára ainda comparativa e syntheticamente. Para isto sería mister considerar tambem as antiguidades portuguezas, e Portugal não poderia offerecer a qualquer escriptor hespanhol senão alguma rara memoria ou um ou outro artigo nos jornaes litterarios. Entre nós até certo ponto facilita-se a empreza, porque, se, por uma parte, a Hespanha nos subministra em tantas publicações, noticias e estampas dos seus monumentos, por outra parte, temos os nossos tão proximo de nós, que as distancias serão o menor dos obstaculos para quem pretender estudal-os ou descrevel-os.

Terá chegado a occasião opportuna de aproveitar taes elementos e de contribuir para o commum progresso de Hespanha e de Portugal com um dos maiores serviços litterarios que actualmente se lhes poderiam prestar? Crêmos que sim, e por isso intentámos escrever a Introducção á Archeologia da Peninsula, cuja parte primeira, comprehendendo as antiguidades prehistoricas sahe por agora á luz do dia.

Este assumpto pouca ou nenhuma attenção tem merecido aos governos hespanhoes e portuguezes, e cá e lá o publico mal lhe comprehende ainda a maxima importancia. Todavia ha quarenta annos que Nilsson publicou a primeira edição do seu livro ácerca dos habitantes primitivos da Scandinavia. E desde essa epoca, na Suecia, Allemanha, Inglaterra, França, Belgica, Suissa, em todos os paizes cultos, o estudo das antiguidades prehistoricas tem constituido um verdadeiro movimento scientifico, de certo o mais notavel e o mais caracteristico do nosso tempo. Provam a existencia e a intensidade d’esse movimento a exploração das cavernas e de outras estações prehistoricas, a fundação de museus, a celebração de congressos, e finalmente a publicação de livros e jornaes, destinados para registrar as descobertas que todos os dias estão fazendo, ou para divulgar a nova sciencia entre aquelles a quem interessa conhecer as origens e o desenvolvimento de civilisação humana.

A archeologia prehistorica tem ainda outra grande importancia. Estudando os mais antigos dos vestigios do homem na face da terra, contribue a par com algumas das sciencias naturaes para a solução do grande problema da origem das especies. Convém advertir que os conhecimentos modernamente adquiridos n’este ponto interessante refazem a biologia nas suas doutrinas fundamentaes e abrem novo e largo caminho á philosophia. A paleontologia humana demonstra já a existencia do homem nos mais antigos dos tempos quaternarios. Acompanha-a n’essa demonstração a archeologia prehistorica, e vae mais longe ainda rebuscar nas camadas pliocenas e miocenas dos terrenos terciarios, onde aquella sciencia nada até hoje descobriu, as provas da habitação da terra pelo homem em epocas em que as condições geographicas, zoologicas e botanicas mal deixam acreditar na possibilidade de similhante facto.

O desejo de conhecer as origens dos povos e os primordios da nossa especie na face da terra é natural a todo o espirito illustrado, e distingue até as raças mais cultas d’aquellas que permanecem no estado selvagem ou n’um grau inferior de civilisação. Ora quem quizer satisfazer este desejo, soccorrendo-se unicamente aos dados scientificos, ha de pedil-os tanto á historia natural como á archeologia prehistorica. O que ellas já hoje nos dizem, apesar de insufficiente para a completa solução do problema, é todavia muito em comparação da total ignorancia em que a este respeito estavam os naturalistas ainda ha poucos annos.

O problema da origem das especies liga-se naturalmente com a doutrina da evolução que a archeologia prehistorica demonstra com evidencia na parte que respeita á industria humana. O fundamento d’esta doutrina vem a ser que a natureza não produz as cousas logo de principio completas ou acabadas, porém no estado rudimentar, do qual se elevam por graus successivos, por modificações infinitamente pequenas, até á sua fórma precisa e determinada; e que, chegadas a este ponto, começam a padecer alterações inversas, até se dissolverem pela total desaggregação das suas partes constituintes. Chamam-se lei de progressão ou integração aquella que regula as primeiras, e lei de regressão ou dissolução aquella que regula as segundas de taes alterações.

A cellula, o elemento fundamental, irreductivel dos seres vivos, nasce, cresce, atrophia-se e morre. O homem, cada animal, cada vegetal como a cellula; a humanidade como o homem ou a especie como o individuo; e, se chegar a demonstrar-se a hypothese de Laplace, a terra como os organismos, o systema planetario como a terra. A humanidade inteira e cada uma de suas partes, cada raça, cada povo, estão pois sujeitas a estas leis universaes. O progresso é portanto uma condição necessaria e fatal, e a civilisação ha de considerar-se não um effeito da arte, mas uma phase tão natural da vida da humanidade, como o crescimento dos orgãos nos animaes ou o desabrochar da flor nos vegetaes.

O descobrimento dos primeiros e disformes instrumentos que o homem fabricou e de que fez uso na terra serve para demonstrar a lei da integração ou o progresso na industria e na civilisação humana. A serie progressiva manifesta-se claramente no machado, por exemplo: ao de pedra lascada succedeu o de pedra polida; a este o de cobre; ao de cobre o de bronze; a este finalmente o de ferro. A integração patentêa-se da mesma sorte nos outros productos da industria, e continúa depois nos tempos historicos pelas varias manifestações do espirito humano, nas artes, nos costumes, na politica, etc. Os estacionamentos e até as regressões locaes, temporarias, não invalidam a regra geral, cuja verificação se ha de fazer comparando entre si, não os periodos pouco distantes, porém as eras principaes, sem attender aos longos seculos de elaboração que as separam.

Mais do que em geral se pensa, interessa ao individuo e á sociedade esse estudo comparativo. Quem de boa fé e despreoccupadamente o emprehender concluirá por certo que as faculdades humanas são por extremo perfectiveis; que nos tempos primitivos o homem, arriscado sempre a servir de pasto ás feras que o cercavam e com as quaes tinha de luctar, armado apenas de paus e pedras, para se defender da sua voracidade, ou para lhes disputar a posse das cavernas ou a colheita dos fructos da terra, que o homem, só pelos seus proprios esforços, pelo trabalho que desenvolve os orgãos, pelo exercicio que aperfeiçôa as faculdades, se elevaria d’aquellas miseraveis condições aos commodos e gozos do estado civilisado. Assim adquirirá uma fé viva na perfectibilidade, em que o progresso tende a diminuir a somma dos males e a augmentar a dos bens, e, guiado por esta convicção consoladora e salutar, trabalhará para se aperfeiçoar a si proprio e aos seus similhantes. Facil se lhe tornará tambem prevêr os resultados da applicação de taes principios á educação physica e moral. A criança está para o adulto, como o selvagem para o homem civilisado. A mesma lei, que transforma o primeiro no segundo, permitte desenvolver as faculdades infantís, e aproximal-as, em vez de, como tantas vezes acontece, as desviar do typo da perfeição. Finalmente, um povo, inspirado pela fé em que o seu futuro dependeria dos seus proprios costumes, dos meios que pozesse para se aperfeiçoar physica e moralmente, esse povo, convencido pelo estudo do passado de quanto póde a natureza humana, e illustrado pela sciencia, elevar-se-hia a uma civilisação superior a todas que têem existido, e chegaria a dominar, ou melhor que dominar, a civilisar os outros povos da terra.

Nas origens e primeiros desenvolvimentos das civilisações antigas a fé viva na intervenção miraculosa de potencias sobrenaturaes era o estimulo forte que incitava os povos aos grandes commettimentos, que cega e inconscientemente os conduzia aos grandes bens ou aos grandes males. Nas civilisações modernas uma fé similhante nas forças naturaes, no alto poder e na grande perfectibilidade das faculdades com que Deus dotou o homem, substituirá de certo aquelle incentivo, mas sem expôr aos mesmos perigos, porque, em vez de impedir lhe, facilitar-lhe-ha o conhecimento da verdade. Temos infelizmente por impossivel cumprir-se inteiramente aquella prophecia do poeta:

Un jour tout sera bien, voilá notre espérance,
Tout est bien aujourd’hui, voilá l’illusion.

Mas, assim como a curva se aproxima cada vez mais da asymptota, sem chegar a tocal-a, assim tambem o homem, sem poder chegar á perfeição absoluta, aproximar-se-ha, se quizer, cada vez mais a este sublime ideal.