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Iracema / com uma noticia biographica do auctor cover

Iracema / com uma noticia biographica do auctor

Chapter 25: XV
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About This Book

A lyrical romance recounts the encounter between a young Tabajara woman and a white outsider, charting a passionate, ultimately tragic relationship that symbolizes the meeting of indigenous life and foreign arrival. It blends mythic elements, ritual scenes, and richly described coastal landscapes to evoke cultural difference, longing, and loss. The prose alternates intimate episodes and sweeping nature passages, using poetic imagery to explore identity and the formation of a new community. The edition is accompanied by a brief biographical notice and editorial notes that contextualize the narrative.

Araken percebendo o que passava n'alma do extrangeiro, accendeu o cachimbo e travou do maracá:

—É tempo de applacar as iras de Tupan, e calar a voz do trovão.

Disse e partiu da cabana.

Iracema achegou-se então do mancebo; levava os labios em riso, os olhos em jubilo:

—O coração de Iracema está como o abaty n'agua do rio. Ninguem fará mal ao guerreiro branco na cabana de Araken.

—Arreda-te do inimigo, virgem dos Tabajaras; respondeu o extrangeiro com asperesa de voz.

Voltando brusco para o lado oposto, furtou o semblante aos olhos ternos e queixosos da virgem.

—Que fez Iracema, para que o guerreiro branco desvie seus olhos d'ella, como se fôra o verme da terra?

As falas da virgem resoaram docemente no coração de Martim. Assim resoam os murmurios da aragem nas frondes da palmeira. O mancebo sentiu raiva de si, e pena d'ella:

Não ouves tu, virgem formosa? exclamou elle apontando para o antro fremente.

—É a voz do Tupan!

—Teu Deus falou pela bôcca do Pagé. Se a virgem de Tupan abandonar ao extrangeiro a flôr de seu corpo, ella morrerá!...

Iracema pendeu a fronte abatida:

—Não é voz de Tupan que ouve teu coração, guerreiro de longes terras, é o canto da virgem branca que te chama!

O rumor extranho que sahia das profundezas da terra, apagou-se de repente: fez-se na cabana tão grande silencio, que ouvia-se pulsar o sangue na arteria do guerreiro, e tremer o suspiro no labio da virgem.




XII

O dia ennegreceu; era noite já.

O Pagé tornára á cabana; sopesando de novo a grande lage, fechou com ella a bôcca do antro. Cauby chegára tambem da grande taba, onde com seus irmãos guerreiros se recolhera depois que bateram a floresta, em busca do inimigo Pytiguara.

No meio da cabana, entre as redes armadas em quadro, extendeu Iracema a esteira da carnauba, e sobre ella serviu os restos da caça, e a provisão de vinhos da ultima lua. Sé o guerreiro tabajara achou sabor na ceia, porque o fel do coração que a tristeza expreme não amargava seu labio.

O Pagé bebia no cachimbo o fumo sagrado de Tupan, que lhe enchia as arcas do peito: o extrangeiro respirava, ar ás golfadas para refrescar-lhe o sangue effervescente; a virgem distillava sua alma como o mel de um favo, nos crebros soluços que lhe estalavam entre os labios tremulos.

Já partiu Cauby para a grande taba; o Pagé traga as baforadas do fumo, que prepara o mysterio do sagrado rito.

Levanta-se no resomno da noite um grito vibrante, que remonta ao céo.

Martim ergue a fronte e inclina o ouvido. Outro clamor semelhante resoa. O guerreiro murmura, que o ouça a virgem e só ella:

—Escutou Iracema, cantar a gaivota?

—Iracema escutou o grito de uma ave que ella não conhece.

—É a atyaty, a garça do mar, e tu és a virgem da serra, que nunca desceu as alvas praias onde arrebentam as vagas.

—As praias são dos Pytiguaras, senhores das Palmeiras.

Os guerreiros da grande nação que habitava as bordas do mar, se chamavam a si mesmos Pytiguaras, senhores dos valles; mas os Tabajaras, seus inimigos, por escarneo os apellidavam Potyuaras, comedores de camarão.

Iracema não quiz offender o guerreiro branco; por isso falando a respeito dos Pytiguaras, não lhes recusou o nome guerreiro que elles haviam tomado para si.

O extrangeiro reteve por um instante a palavra no seu labio prudente, emquanto reflectia:

—O canto da gaivota é o grito do guerra do valente Poty, amigo de teu hospede!

A virgem estremeceu por seus irmãos. A fama do bravo Poty, irmão de Jacaúna, subio das ribeiras do mar ás alturas da serra; rara é a cabana onde já não rugiu contra elle o grito da vingança, porque em quasi todas o golpe de seu valido tacape deitou um guerreiro tabajara em seu camocim.

Iracema cuidou que Poty vinha á frente de seus guerreiros para livrar o amigo. Era elle sem duvida que fizera retroar o buzio das praias, no momento do combate. Foi com um tom misturado de doçura e tristeza que replicou:

—O extrangeiro está salvo; os irmãos de Iracema vão morrer, porque ella não falará.

—Saia essa tristeza de tua alma. O extrangeiro partindo-se de teus campos, virgem tabajara, não deixará n'elles rasto de sangue, como o tigre esfaimado.

Iracema tomou a mão do guerreiro branco e beijou-a.

—Teu sorriso, continúa elle, apagou a lembrança do mal que elles me querem.

Martim ergueu-se e marchou para a porta.

—Onde vae o guerreiro branco?

—Adeante de Poty.

—O hospede de Araken não pode sahir d'esta cabana, porque os guerreiros de Irapuam o matarão.

—Um guerreiro só deve protecção a Deus e a suas armas. Não carece que o defendam os velhos e as mulheres.

—Não vale um guerreiro só contra mil guerreiros; valente e forte é o tamanduá, que mordem os gatos selvagens por serem muitos e o acabam. Tuas armas só chegam até onde mede a sombra de teu corpo; as armas d'elles voam alto e direitos como o anajê.

—Todo o guerreiro tem seu dia.

—Não queres tu que morra Iracema, e queres que ella te deixe morrer!

Martim ficou perplexo:

—Iracema irá ao encontro do chefe Pytiguara e trará a seu hospede as falas do guerreiro amigo.

O Pagé sahiu emfim de sua contemplação. O maracá rugiu-lhe na dextra; tiniram os guisos com o passo hirto e lento.

Chamou elle a filha de parte:

—Se os guerreiros de Irapuam vierem contra a cabana, levanta a pedra e esconde o extrangeiro no seio da terra.

—O hospede não deve ficar só; espera que volte Iracema. Ainda não cantou a inhuma.

Tornou a sentar-se na rede o velho. A virgem partiu, cerrando a porta da cabana.




XIII

Avança a filha de Araken nas trevas; pára e escuta.

O grito da gaivota terceira vez resôa ao seu ouvido; ella vae direito ao logar d'onde partiu; chega á borda de um tanque; seu olhar investiga a escuridão, e nada vê do que busca.

A voz maviosa, debil como susurro de colibri, resôa no silencio.

—Guerreiro Poty, teu irmão branco te chama pela bôcca de Iracema.

Só o ecco lhe respondeu.

—A filha de teus inimigos vem a ti, porque o extrangeiro te ama, e ella ama o extrangeiro.

A lisa lace do lago fendeu-se; e um vulto se mostra, que nada para a margem, e surge fora.

—Foi Martim quem te mandou, pois tu sabes o nome de Poty, seu irmão na guerra.

—Fala, chefe Pytiguara; o guerreiro branco espera.

—Torna a elle e diz que Poty é chegado para o salvar.

—Elle sabe, mandou-me para te ouvir.

—As falas de Poty sahirão de sua bôcca para o ouvido de seu irmão branco.

—Espera então que Araken parta e a cabana fique deserta; eu te guiarei á presença do extrangeiro.

—Nunca, filha dos Tabajaras, um guerreiro Pytiguara passou a soleira da cabana inimiga, se não foi como vencedor. Conduz aqui o guerreiro do mar.

—A vingança de Irapuam fareja em roda da cabana de Araken. Trouxe o irmão do extrangeiro bastantes guerreiros Pytiguaras para o deffender e salvar?

Poty reflectiu:

—Conta, virgem das serras, o que aconteceu em teus campos depois que a elles chegou o guerreiro do mar.

Iracema referiu como a colera de Irapuam se havia assanhado contra o extrangeiro, até que a voz de Tupan, chamada pelo Pagé, tinha apasiguado seu furor.

—A raiva de Irapuam é como a andira; foge da luz e voa na treva.

A mão de Poty cerrou súbito os labios da virgem; sua fala parecia um sopro.

—Suspende a voz e o respiro, virgem das florestas; o ouvido inimigo escuta na sombra.

As folhas crepitavam de manso, como se por ellas passasse a fragueira nambú. O rumor partido da orla da matta, vinha discorrendo pelo valle.

O valente Poty, resvallando pela relva, como o ligeiro camarão. de que elle tomara o nome e a viveza, desappareceu no lago profundo. A agua não soltou um murmurio, e cerrou sobre elle sua limpida onda.

Iracema voltou á cabana; em meio do caminho seus olhos perceberam as sombras de muitos guerreiros que rojavam pelo chão, como a intanha.

Araken vendo-a entrar, partiu.

A virgem tabajara contou a Martim o que ouvira de Poty; o guerreiro christão ergueu-se de um impeto para correr á defeza de seu irmão Pytiguara. Cingiu-lhe o collo Iracema com os lindos braços:

—O chefe não carece de ti; elle é filho das aguas; as aguas o protegem. Mais tarde o extrangeiro ouvirá em seus ouvidos as falas amigas.

—Iracema, é tempo que teu hospede deixe a cabana do Pagé e os campos dos Tabajaras. Elle não tem medo dos guerreiros de Irapuam, tem medo dos olhos da virgem de Tupan.

—Elles fugirão de ti.

—Fuja d'elles o extrangeiro, como o oitibó da estrella da manhã.

Martim promoveu o passo.

—Vae, guerreiro ingrato; vae matar teu irmão primeiro, depois a ti. Iracema te seguirá até aos campos alegres onde vão as sombras dos que foram.

—Matar meu irmão, dizes tu, virgem cruel?

—Teu rasto guiará o inimigo aonde elle se occulta.

O christão estacou em meio da cabana; e alli permaneceu mudo e quedo. Iracema receosa de fital-o, tinha os olhos postos na sombra do guerreiro, que a chamma do fogo projectava na vetusta parede da cabana.

O cão felpudo, deitado no borralho, deu signal de que se approximava gente amiga. A porta entretecida dos talos de carnaúba foi aberta por fora. Cauby entrou.

—O cauim perturbou o espirito dos guerreiros; elles vem contra o extrangeiro.

A virgem ergue-se de um impeto.

—Levanta a pedra que fecha a garganta de Tupan, para que ella esconda o extrangeiro.

O guerreiro tabajara, sopesando a lage enorme, emborcou-a no chão.

—Filho de Araken, deita na porta da cabana, e nunca mais te levantes da terra, se um guerreiro passar por cima do teu corpo.

Cauby obedeceu: a virgem cerrou a porta.

Decorreu breve trato. Resoa perto o estrupido dos guerreiros; travam-se as vozes iradas de Irapuam e Cauby.

—Elles vêm; mas Tupan salvará seu hospede.

N'esse instante, como se o Deus do trovão ouvisse as palavras de sua virgem, o antro mudo em principio retroou surdamente.

—Ouve! É a voz de Tupan.

Iracema cerra a mão do guerreiro, e o leva á borda do antro. Somem-se ambos nas entranhas da terra.




XIV

Os guerreiros tabajaras, excitados com as copiosas libações do espumante cauim, se inflammam á voz de Irapuam, que tantas vezes os guiou ao combate, quantas á victoria.

Aplaca o vinho a sêde do corpo; accende outra sêde maior na alma feroz. Rugem vingança contra o extrangeiro audaz que affrontando suas armas offende o Deus de seus paes, e o chefe da guerra, o primeiro varão tabajara.

Lá tripudiam de furor, e arremettem pelas sombras; a luz vermelha do ubiratan, que brilha ao longe, os guia á cabana de Araken. De espaço em espaço erguem-se do chão os que primeiro vieram para vigiar o inimigo.

—O Pagé está na floresta! murmuram elles.

—O extrangeiro? pergunta Irapuam.

—Na cabana com Iracema.

O grande chefe lança o terrivel salto; já é chegado á porta da cabana, e com elle seus valentes guerreiros.

O vulto de Cauby enche o vão da porta; suas armas guardam deante d'elle o espaço de um bote do maracajá.

—Vis guerreiros são aquelles que atacam em bando como os caetetús. O jaguar, senhor da floresta, e o anajê, senhor das nuvens, combatem só o inimigo.

—Morda o pó a bocca torpe que levanta a voz contra o mais valente guerreiro dos guerreiros tabajaras.

Proferidas estas palavras, ergue o braço de Irapuam o rigido tacape, mas estaca no ar; as entranhas da terra outra vez rugem, como rugiram, quando Araken accordou a voz tremenda de Tupan.

Levantam os guerreiros medonho alarido; e cercando seu chefe o arrebatam ao funesto lugar e á colera de Tupan, contra elles concitado.

Cauby extende-se de novo na soleira da porta; seus olhos adormecem; mas seu ouvido vella no somno.

A voz de Tupan emmudeceu.

Iracema e o christão perdidos nas entranhas da terra, descem a gruta profunda. Subito uma voz que vinha reboando pela crasta, encheu seus ouvidos:

—O guerreiro do mar escuta a falla de seu irmão?

—É Poty, o amigo de teu hospede: disse o christão para a virgem.

Iracema estremeceu:

—Elle fala pela bôcca de Tupan.

Martim respondeu emfim ao Pytiguara.

—As falas de Poty entram n'alma de seu irmão.

—Nenhum outro ouvido escuta?

—Os da virgem que duas vezes em um sol defendeu a vida de teu irmão!

—A mulher é fraca; o tabajara traidor; e o irmão de Jacaúna prudente.

Iracema suspirou: e pousou a cabeça no peito do mancebo:

—Senhor de Iracema, cerra seus ouvidos, para que ella não ouça.

Martim repelliu docemente a gentil fronte:

—Falle o chefe Pytiguara; só o escutam ouvidos amigos e fieis.

—Tu ordenas, Poty fala. Antes que o sol se levante na serra, o guerreiro do mar deve partir para as margens do ninho das garças; a estrella morta o guiará ás alvas praias. Nenhum tabajara o seguirá, porque a inubia dos Pytiguaras rugirá da banda da serra.

—Quantos guerreiros Pytiguaras acompanham seu chefe valente?

—Nenhum; Poty veiu só, com suas armas. Quando os espiritos máus da floresta separaram o guerreiro do mar de seu irmão, Poty veiu em seguimento do rastro. Seu coração não deixou que voltasse para chamar os guerreiros da sua taba; mas expediu seu cão fiel ao grande Jacaúna.

—O chefe Pytiguara está só; não deve rugir a inubia que chamará contra si todos os guerreiros tabajaras.

—É preciso para salvar o irmão branco; Poty zombará de Irapuam, como zombou quando combatiam cem contra ti.

A filha do Pagé, que ouvira callada, debruçou-se ao ouvido do christão:

—Iracema quer-te salvar e a teu irmão; ella tem seu pensamento. O chefe Pytiguara é valente e audaz; Irapuam é manhoso e traiçoeiro como a acauan. Antes que chegues á floresta, cahirás; e teu irmão da outra banda cahirá comtigo.

—Que fará a virgem tabajara para salvar o extrangeiro e seu irmão? perguntou Martim.

—Mais um sol e outro, e a lua das flores vae nascer. É o tempo da festa, em que os guerreiros tabajaras passam a noite no bosque sagrado, e recebem do Pagé os sonhos alegres. Quando estiverem todos adormecidos, o guerreiro branco deixará os campos do Ipú, e os olhos de Iracema, mas não sua alma.

Martim estreitou a virgem ao seio; mas logo a repelliu. O toque de seu corpo, doce como a assucena da mata, e quente como o ninho do beija flôr, espinhou seu coração; porque lhe recordou as palavras terriveis do Pagé.

A voz do christão disse a Poty o pensamento de Iracema; o chefe Pytiguara, prudente como o tamanduá, pensou e respondeu:

—A sabedoria fallou pela bôcca da virgem tabajara Poty espera o nascimento da lua.




XV

Nasceu o dia e expirou.

Já brilha na cabana de Araken o fogo, companheiro da noite. Correm lentas e silenciosas no azul do céo, as estrellas, filhas da lua, que esperam a volta da sua mãe ausente.

Martim se emballa docemente; e como a alva rêde que vae e vem, sua vontade oscilla de um a outro pensamento. Lá o espera a virgem loura dos castos affectos; aqui lhe sorri a virgem morena dos ardentes amores.

Iracema recosta-se langue ao punho da rêde; seus olhos negros e fulgidos, ternos olhos de sabiá, buscam o extrangeiro, e lhe entram n'alma. O christão sorri; a virgem palpita; como o sahy, fascinado pela serpente, vae declinando o lascivo talhe, que se prostra sobre o peito do guerreiro.

Já o extrangeiro a prime ao seio; e o labio avido busca o labio que o espera, para celebrar n'esse adyto d'alma, o hymineo do amor.

No recanto escuro o velho Pagé, immerso em sua contemplação e alheio ás cousas d'este mundo, soltou um gemido doloroso. Pressentira o coração o que não viram os olhos? Ou foi algum funesto presagio para a raça de seus filhos, que assim echoou n'alma de Araken?

Ninguem o soube.

O christão repelliu do seio a virgem indiana. Elle não deixará o rastro da desgraça na cabana hospedeira. Cerra os olhos para não vêr; e enche sua alma com o nome e a veneração do seu Deus:

—Christo!... Christo!...

A serenidade volta ao seio do guerreiro branco, mas todas as vezes que seu olhar pousa sobre a virgem tabajara, elle sente correr-lhe pelas veias uma scentelha de ardente chamma. Assim quando a creança imprudente revolve o brasido de intenso fogo, saltam as faúlhas inflammadas que lhe queimam o corpo.

Fecha os olhos o christão, mas na sombra de seu pensamento surge a imagem da virgem, talvez mais bella. Em balde chama elle o somno ás palpebras fatigadas; ellas se abrem, máu grado seu.

Desce-lhe do céo ao atribulado pensamento uma inspiração:

—Virgem formosa do sertão, esta é a ultima noite que teu hospede dorme na cabana de Araken, onde nunca viera, para teu bem e seu. Faze que seu somno seja alegre e feliz.

—Manda; Iracema te obedece. Que pode ella para tua alegria?

O christão falou submisso, para que não o ouvisse o velho Pagé:

—A virgem de Tupan guarda os sonhos da jurema que são doces e saborosos!

Um triste sorriso pungiu os labios de Iracema:

—O extrangeiro vae viver para sempre á cintura da virgem branca; nunca mais seus olhos verão a filha de Araken; e elle quer que o somno já feche suas palpebras, e o sonho o leve á terra de seus irmãos!

—O somno é o descanço do guerreiro, disse Martim; e o sonho a alegria d'alma. O extrangeiro não quer levar comsigo a tristeza da terra hospedeira, nem deixal-a no coração de Iracema!

A virgem ficou immovel.

—Vae e torna com o vinho de Tupan.

Quando Iracema foi de volta, já o Pagé não estava na cabana; tirou do seio o vaso que alli trazia occulto sob a carioba de algodão entretecida de pennas. Martim lh'o arrebatou das mãos, e libou as gottas poucas do verde e amargo licor. Não tardou que a rede recebesse seu corpo desfallecido.

Agora podia viver com Iracema, e colher nos seus labios o beijo, que alli viçava entre sorrisos, como o fructo na corolla da flor. Podia amal-a, e sugar d'esse amor o mel e o perfume, sem deixar veneno no seio da virgem.

O goso era vida, pois o sentia mais vivo e intenso; o mal era sonho e illusão, que da virgem elle não possuia mais que a imagem.

Iracema se affastara oppressa e suspirosa.

Abriram-se os braços do guerreiro e seus labios; o nome da virgem resoou docemente.

A juruty, que divaga pela floresta, ouve o terno arrulho do companheiro; bate as azas e vôa a conchegar-se ao tepido ninho. Assim a virgem do sertão, aninhou-se nos braços do guerreiro.

Quando veiu a manhã, ainda achou Iracema ali debruçada, qual borboleta que dormiu no seio do formoso cacto. Em seu lindo semblante accendia o pejo vivos rubores; e como entre os arrebões da manhã scintilla o primeiro raio do sol, em suas faces incendidas rutilava o primeiro sorriso da esposa, aurora de fruido amor.

Martim vendo a virgem unida ao seu coração, cuidou que o sonho continuava; cerrou os olhos para tornal-os a abrir.

A pocema dos guerreiros, troando pelo valle, o arrancou ao doce engano; sentiu que já não sonhava, mas vivia. Sua mão cruel abafou nos labios da virgem o beijo que alli se espanejava.

—Os beijos de Iracema são doces no sonho; o guerreiro branco encheu d'elles sua alma. Na vida, os labios da virgem de Tupan, amargam e doem como o espinho da jurema.

A filha de Araken escondeu no coração a sua alegria. Ficou timida e inquieta, como a ave que presente a borrasca no horisonte. Affastou-se rapida, e partiu.

As aguas do rio depuraram o corpo casto da recente esposa.

A jandaia não tornou á cabana.

Tupan já não tinha sua virgem na terra dos Tabajaras.




XVI

O alvo disco da lua surgiu no horisonte.

A luz brilhante do sol empallidece a virgem do céo como o amor do guerreiro desmaia a face da esposa.

Jacy!... Mãe nossa!... exclamaram os guerreiros tabajaras.

E brandindo os arcos lançaram ao céo com a chuva das flechas o canto da lua nova:

"Veiu no céo a mãe dos guerreiros; já volta o rosto para vêr seus filhos. Ella traz as aguas, que enchem os rios e a polpa do cajú.

"Já veiu a esposa do sol; já sorri ás virgens da terra filhas suas. A doce luz accende O amor no coração dos guerreiros e fecunda o seio da joven mãe."

Cae a tarde.

Folgam as mulheres e os meninos na vasta ocara; os mancebos, que ainda não ganharam nome de guerra por algum feito brilhante, discorrem no valle.

Os guerreiros seguem Irapuam ao bosque sagrado, onde os espera o Pagé e sua filha para o mysterio da jurema. Iracema já accendeu os fogos da alegria. Araken está immovel e extactico no seio de uma nuvem de fumo.

Cada guerreiro que chega depõe a seus pés uma offerenda a Tupan. Traz um a succulenta caça; outro a farinha d'agua; aquelle, o saboroso piracem da trahira. O velho Pagé, para quem são estas dadivas, as recebe com desdem.

Quando foram todos sentados em torno do grande fogo, o ministro de Tupan ordena o silencio com um gesto, e tres vezes clamando o nome terrivel, enche-se do Deus, que o habita:

—Tupan!... Tupan!... Tupan!...

Tres vezes o echo ao longe repercutio.

Vem Iracema com a igaçaba cheia do verde licor.

Araken decreta os sonhos a cada guerreiro, e destribue o vinho da jurema, que transporta ao céo o valente tabajara.

Este, grande caçador, sonha que os veados e as pacas correm ao deante de suas flechas paras e traspassarem nellas; fatigado alfim de ferir, cava na terra o bucan, e assa tamanha quantidade de caça, que mil guerreiros em um anno não acabarão.

Outro, fogoso em amores, sonha que as mais bellas virgens dos tabajaras deixam a cabana de seus paes e o seguem captivas do seu querer. Nunca a rêde de chefe algum embalou mais voluptuosas caricias, que elle as frue n'aquelle extase.

O heroe sonha tremendas lutas, e horriveis combates de que sahe vencedor, cheio de gloria e fama. O velho renasce, na prole numerosa, e como o secco tronco donde rebenta nova e robusta sebe, cobre-se ainda de flôres.

Todos sentem a felicidade tão viva e continua, que no espaço da noite cuidam viver muitas luas. As boccas murmuram; o gesto falla; e o Pagé, que tudo escuta e vê, colhe o segredo das almas desnudas.

Iracema, depois que offereceu aos guerreiros o licor de Tupan, sahio do bosque. Não permittia o rito que ella assistisse ao somno dos guerreiros e ouvisse falar os sonhos.

Foi d'ali direito á cabana, onde a esperava Martim.

—Toma as tuas armas, guerreiro branco. É tempo de partir.

—Leva-me onde está Poty, meu irmão.

A virgem caminhou para o valle; o christão a seguio. Chegaram á falda do rochedo, que ia morrer á beira do tanque, em um massiço de verdura.

—Chama teu irmão!

Martim soltou o grito da gaivota. A pedra que fechava a entrada da gruta cahio; e o vulto do guerreiro Poty appareceu na sombra.

Os dois irmãos encostaram a fronte na fronte e o peito no peito, para exprimir que não tinham ambos mais que uma cabeça e um coração.

—Poty está contente porque vê seu irmão, que o máo espirito da floresta arrebatou de seus olhos.

—Feliz é o guerreiro que tem ao flanco um amigo como o bravo Poty; todos os guerreiros o invejarão.

Iracema suspirou, pensando que a affeição do Pytiguara bastava á felicidade do extrangeiro:

—Os guerreiros tabajaras dormem. A filha de Araken vae guiar os extrangeiros.

A virgem seguio adeante; os dois guerreiros apóz. Quando tinham andado o espaço que transpõe a garça de um vôo, o chefe Pytiguara tornou-se inquieto, e murmurou ao ouvido do christão:

—Manda á filha do Pagé que volte á cabana de seu pae. Ella demora a marcha dos guerreiros.

Martim entristeceu; mas a voz da prudencia e da amizade penetrou em seu coração. Avançou para Iracema; e tirou do seio uma voz doce para acalentar a saudade da virgem:

—Mais affunda a raiz da planta na terra, mais custa arrancal-a. Cada passo de Iracema no caminho da partida, é uma raiz que lança no coração de seu hospede.

—Iracema quer-te acompanhar até onde acabam os campos dos Tabajaras, para voltar com o socego em seu peito.

Martim não respondeu. Continuaram a caminhar, e com elles caminhava a noite; as estrellas desmaiaram e a frescura da alvorada alegrou a floresta. As roupas da manhã, alvas como o algodão, appareceram no céo.

Poty olhou a mata e parou. Martim comprehendeu e disse a Iracema:

—Teu hospede já não pisa os campos dos Tabajaras. É o instante de separar-te d'elle.




XVII

Iracema pousou a mão no peito do guerreiro branco:

—A filha dos Tabajaras já deixou os campos de seus paes; agora pode falar.

—Que guardas tu em teu seio, virgem formosa do sertão?

Ella pôz os olhos cheios no christão:

—Iracema não pode mais separar-se do extrangeiro.

—Assim é preciso, filha de Araken. Torna á cabana de teu velho pae, que te espera.

—Araken já não tem filha.

Martim tornou com gesto rudo e severo:

—Um guerreiro da minha raça jamais deixou a cabana do hospede, viuva de sua alegria. Araken abraçará sua filha, para não amaldiçoar o extrangeiro ingrato.

A virgem pendeu a fronte; velando-se com as longas tranças negras que se esparziam pelo collo, cruzando ao gremio os lindos braços, recolheu em seu pudor. Assim o roseo cacto, que já desabrochou em formosa flôr, cerra em botão o seio perfumado.

—Tua escrava te acompanhará, guerreiro branco: porque teu sangue dorme em seu seio.

Martim estremeceu.

—Os máos espiritos da noite turbaram o espirito de Iracema.

—O guerreiro branco sonhava, quando Tupan abandonou sua virgem, porque ella trahio o segredo da jurema.

O christão escondeu as faces á luz.

—Deus!... clamou seu labio tremulo.

Permaneceram ambos mudos e quedos.

Afinal disse Poty:

—Os guerreiros tabajaras despertam.

O coração da virgem como o do extrangeiro, ficou surdo á voz da prudencia. O sol levantou-se no horisonte; e seu olhar magestoso desceu dos montes á floresta. Poty de pé como um tronco decepado esperou que seu irmão quizesse partir.

Foi Iracema quem primeiro falou:

—Vem: emquanto não pisares as praias dos Pytiguaras, tua vida corre perigo.

Martim seguiu silencioso a virgem, que fugia entre as arvores, como a selvagem acoty. A tristeza lhe roia o coração; mas a onda de perfumes que deixava na brisa a passagem da formosa tabajara, açulava o amor no seio do guerreiro. Seu passo era tardo, o peito lhe offegava.

Poty scismava. Em sua cabeça de mancebo morava o espirito de um abaeté. O chefe pytiguara pensava que o amor é como o cauim, o qual bebido com moderação fortalece o guerreiro, e tomado em excesso abate a coragem do heroe. Elle sabia quanto veloz era o pé do tabajara; e esperava o momento de morrer defendendo o amigo.

Quando as sombras da tarde entristeciam o dia, o christão parou no meio da mata. Poty accendeu o fogo da hospitalidade. A virgem desdobrou a alva rêde de algodão franjada de pennas de tucano e suspendeu-a aos ramos de arvore.

—Esposo de Iracema, tua rêde te espera.

A filha de Araken foi sentar-se longe, na raiz de uma arvore, como a cerva solitaria, que o ingrato companheiro afugentou do aprisco. O guerreiro pytiguara desappareceu na espessura da folhagem.

Martim ficou mudo e triste, semelhante ao tronco d'arvore a que o vento arrancou o lindo cipó que o entrelaçava. A brisa perpassando levou um murmurio:

—Iracema!

Era o balido do companheiro; a cerva arrufando-se ganhou o doce aprisco.

A floresta distillava suave fragrancia e exhalava harmoniosos arpejos; os suspiros do coração se difundiram nos murmures do deserto. Foi a festa do amor e o canto do hymeneo.

Já a luz da manhã coou na selva densa. A voz grave e sonora de Poty repercutio no susurro da mata:

—O povo tabajara caminha na floresta!

Iracema arrancou-se dos braços que a cingiam e mais do labio que a tinha captiva: saltando da rede como a rapida zabelé, travou das armas do esposo, e levou-o atravez da mata.

De espaço a espaço o prudente Poty escutava as entranhas da terra; sua cabeça movia-se pesada de um a outro lado, como a nuvem que se embalança no cocuruto do rochedo, aos varios lufos da proxima borrasca.

—O que escuta o ouvido do guerreiro Poty?

—Escuta o passo veloz do povo tabajara. Elle vem como o tapyr, rompendo a floresta.

—O guerreiro pytiguara é a ema que vôa sobre a terra; nós o seguiremos, como suas azas; disse Iracema.

O chefe sacudio de novo a fronte:

—Emquanto o guerreiro do mar dormia, o inimigo correu. Os que primeiro partiram já avançam além como as pontas do arco.

A vergonha mordeu o coração de Martim.

—Fuja o chefe Poty e salve Iracema. Só deve morrer o guerreiro máo, que não escutou a voz de seu irmão e o pedido de sua esposa.

Martim arripiou o passo.

—A alma do guerreiro branco não escutou sua bocca Poty e seu irmão só tem uma vida.

O labio de Iracema não fallou: sorrio.




XVIII

Treme a selva com o estrupido da carreira do povo tabajara.

O grande Irapuam, primeiro, assoma entre as arvores. Seu olhar rubido viu o guerreiro branco entre nuvens de sangue; o grito rouco do tigre rompe de seu peito cavernoso. O chefe tabajara e seu povo, vão precipitar-se sobre os fugitivos, como a vaga encapelada que rebenta no Mocoribe.

Eis late o cão selvagem.

Poty solta o grito da alegria:

—O cão de Poty guia os guerreiros de sua taba em soccorro teu.

O rouco buzio dos Pytiguaras estruge pela floresta. O grande Jacaúna, senhor das praias do mar, chegava do rio das garças com seus melhores guerreiros.

Os Pytiguaras recebem o primeiro impeto do inimigo nas pontas erriçadas de suas flechas, que elles despedem do arco aos molhos, como o coandú os espinhos do seu corpo. Logo apóz sôa a pocema, estreita-se o espaço, e a luta se trava face a face.

Jacaúna atacou Irapuam. Prosegue o horrivel combate que bastára a dez bravos, e não esgotou ainda a força dos grandes chefes. Quando os dois tacapes se encontram, a batalha toda estremece como um só guerreiro até ás entranhas.

O irmão de Iracema veio direito ao extrangeiro, que arrancara a filha de Araken á cabana hospedeira; o faro da vingança o guia; a vista da irmã assanha a raiva em seu peito. O guerreiro Cauby assalta com furor o inimigo.

Iracema, unida ao flanco de seu guerreiro e esposo, vio de longe Cauby e fallou assim:

—Senhor de Iracema, ouve o rogo de tua escrava; não derrama o sangue do filho de Araken. Se o guerreiro Cauby tem de morrer, morra elle por esta mão, não pela tua.

Martim pôz no rosto da selvagem olhos de horror:

—Iracema matará seu irmão?

—Iracema antes quer que o sangue de Cauby tinja sua mão que a tua; porque os olhos de Iracema vêem a ti, e a ella não.

Travam a luta os guerreiros. Cauby combate com furor, o christão defende-se apenas; mas a seta embebida no arco da esposa guarda a vida do guerreiro contra os botes do inimigo.

Poty já prostrou o velho Andira e quantos guerreiros topou na luta seu valido tacape. Martim lhe abandona o filho de Araken, e corre sobre Irapuam.

Jacaúna é um grande chefe; seu collar de guerra dá tres voltas ao peito. O tabajara pertence ao guerreiro branco.

—A vingança é a honra do guerreiro, e Jacaúna ama o amigo de Poty.

O grande chefe Pytiguara levou além o formidavel tacape. O combate renhio-se entre Irapuam e Martim. A espada do christão. batendo na clava do selvagem fez-se pedaços. O chefe tabajara avançou contra o peito inerme do adversario.

Iracema silvou como a boicininga, e se arremessou ante a furia do guerreiro tabajara. A arma rigida tremeu na dextra possante e o braço cahio desfallecido.

Soava a pocema da victoria. Os guerreiros pytiguaras conduzidos por Jacaúna e Poty varriam a floresta. Os tabajaras, fugindo, arrebataram seu chefe ao odio da filha de Araken que o podia abater, como a jandaia abate o procero coqueiro roendo-lhe o cerne.

Os olhos de Iracema estendidos pela floresta, viram o chão juncado de cadaveres de seus irmãos; e longe o bando dos guerreiros tabajaras que fugiam em nuvem negra de pó. Aquelle sangue que enrubecia a terra era o mesmo sangue brioso que lhe ardia as faces de vergonha.

O pranto orvalhou seu lindo semblante.

Martim affastou-se para não envergonhar a tristeza de Iracema. Deixou que sua dor núa se banhasse nas lagrimas.




XIX

Poty voltou de perseguir o inimigo. Seus olhos se encheram de alegria vendo salvo o guerreiro branco.

O cão fiel o seguia de perto, lambendo ainda nos pellos do focinho, a marugem do sangue tabajara de que se fartára; o senhor o acariciava satisfeito de sua coragem e dedicação. Fora elle quem salvara Martim, alli trazendo com tanta deligencia os guerreiros de Jacaúna.

—Os máos espiritos da floresta podem separar outra vez o guerreiro branco de seu irmão Pytiguara. O cão te seguirá d'aqui em deante, para que mesmo de longe Poty acuda a teu chamado.

—Mas o cão é teu companheiro e amigo fiel.

—Mais amigo e companheiro será de Poty, servindo a seu irmão que a elle. Tu o chamarás Japy, e elle será o pé ligeiro com que de longe corramos um para o outro.

Jacaúna deu o signal da partida.

Os guerreiros pytiguaras caminharam para as margens alegres do rio onde bebem as garças: alli se erguia a grande taba dos senhores das varzeas.

O sol deitou-se, e de novo se levantou no céo. Os guerreiros chegaram aonde a serra quebrava para o sertão; já tinham passado aquella parte da montanha, que por ser despida de arvoredo e tosquiada corno a capivara, a gente de Tupan chamava Ibyapina.

Poty levou o christão aonde crescia um frondoso jatobá, que affrontava as arvores do mais alto pincaro da serrania, e quando batido pela rajada parecia varrer o céo com a immensa copa.

—N'este logar nasceu teu irmão, disse o pytiguara: Martim estreitou o peito ao tronco enorme:

Jatobá, que viste nascer meu irmão Poty, o extrangeiro te abraça.

—O raio te decepe arvore do guerreiro Poty, quando seu irmão o abandonar.

Depois o chefe assim falou:

—Ainda Jacaúna não era um guerreiro, Jatobá, o maior chefe, conduzia os Pytiguaras á victoria. Logo que as grandes aguas correram, elle caminhou para a serra. Aqui chegando, mandou levantar a taba, para estar perto do inimigo e vencêl-o mais vezes. A mesma lua que o vio chegar, alumiou a rêde onde Sahy sua esposa, lhe deu mais um guerreiro de seu sangue. O luar passava por entre as folhas do jatobá; e o sorriso pelos labios do varão possante, que tomara seu nome e robustez.

Iracema aproximou-se.

A rôla, que marisca na areia, se o companheiro se afasta, adeja inquieta de ramo em ramo e arrulla para que lhe responda o ausente amigo. Assim a filha da floresta errara pela encosta, modulando o singelo canto mavioso.

Martim a recebeu com a alma no semblante; e levando a esposa do lado do coração e o amigo do lado da força, voltou ao rancho dos pytiguaras.




XX

A lua cresceu.

Tres sóes havia que Martim e Iracema estavam nas terras dos Pytiguaras, senhores das margens do Camocim e Acaraú. Os extrangeiros tinham sua rêde na vasta cabana do grande Jacaúna. O valente chefe guardou para si a alegria de hospedar o guerreiro branco.

Poty abandonou sua taba, para acompanhar seu irmão de guerra na cabana de seu irmão de sangue, e gosar dos instantes que sobejavam do amor de Iracema para a amisade, no coração do guerreiro do mar.

A sombra já se retirou da face da terra: e Martim vio que ella não se retirara ainda da face da esposa, desde o dia do combate.

—A tristeza mora na alma de Iracema!

—A alegria para a esposa só vem de ti; quando teus olhos a deixam as lagrimas enchem os seus.

—Porque chora a filha dos Tabajaras?

—Esta é a taba dos Pytiguaras, inimigos do meu povo. A vista de Iracema já conheceu o craneo de seus irmãos espetado na caiçara; o ouvido já escutou o canto de morte dos captivos tabajaras; a mão já tocou as armas tintas do sangue de seus paes.

A esposa pousou as duas mãos nos hombros do guerreiro, e reclinou ao peito d'elle:

—Iracema tudo soffre por seu guerreiro e senhor. A ata é doce e saborosa; quando a machucam azeda. Tua esposa não quer que seu amor azede teu coração; mas que te encha das doçuras do mel.

—Volte o socego ao seio da filha dos Tabajaras; ella vae deixar a taba dos inimigos de seu povo.

O christão caminhou para a cabana de Jacaúna. O grande chefe alegrou-se vendo chegar seu hospede; mas a alegria fugio logo de sua fronte guerreira. Martim dissera:

—O guerreiro branco parte de tua cabana, grande chefe.

—Alguma cousa te faltou na taba de Jacaúna?

—Nada faltou a teu hospede. Elle era feliz aqui; mas a voz do coração o chama a outros sitios.

—Então parte, e leva o que é preciso para a viagem. Tupan te fortaleça, e traga outra vez á cabana de Jacaúna, para que elle festeje tua boa vinda.

Poty chegou: sabendo que o guerreiro do mar ia partir, falou:

—Teu irmão te acompanha.

—Os guerreiros de Poty precisam de seu chefe.

—Se tu não queres que elles vão com Poty, Jacaúna os conduzira á victoria.

—A cabana de Poty ficará deserta e triste.

—Deserto e triste será o coração de teu irmão longe de ti.

O guerreiro do mar deixou as margens do rio das garças, e caminhou para as terras onde o sol se deita. A esposa e o amigo seguem sua marcha. Passaram além da fertil montanha, onde a abundancia dos fructos creava grande quantidade de mosca, do que lhe veio o nome de Meruoca.

Atravessam os corregos que levam suas aguas ao rio das garças, e avistam longe rio horisonte uma alta serrania. Expira o dia; nuvem negra voa das bandas do mar: são os urubus que pastam nas praias a carniça que o oceano arroja, e com a noite tornam ao ninho.

Os viajantes dormem em Uruburetama. Quando o sol voltou, chegaram ás margens do rio, que nasce na quebrada da serra e desce a planicie enroscando-se como uma cobra. Suas voltas continuas enganam a cada passo o peregrino, que vae seguindo o tortuoso curso: por isso foi chamado Mundahú.

Perlongando as frescas margens, viu Martim no seguinte sol os verdes mares e as alvas praias onde as ondas murmurosas, ás vezes soluçam e outras raivam de furia, rebentando em frocos de espuma.

Os olhos do guerreiro branco se dilataram pela vasta immensidade; seu peito suspirou. Esse mar beijava tambem as brancas areias do Potengi, seu berço natal, onde elle vira a luz americana. Arrojou-se nas ondas e pensou banhar seu corpo nas aguas da patria, como banhara sua alma nas saudades d'ella.

Iracema sentiu chorar-lhe o coração; mas não tardou que o sorriso de seu guerreiro o acalentasse.

Entretanto Poty, do alto do coqueiro, flexava o saboroso camoropim que brincava na pequena bahia do Mundahú; e preparava o moquem para a refeição.




XXI

Já descia o sol das alturas do céo.

Chegam os viajantes á foz do rio onde se criam em grande abundancia as saborosas trahiras; suas praias são povoadas pela tribu dos pescadores, da grande nação dos Pytiguaras.

Elles receberam os extrangeiros com a hospitalidade generosa, que era uma lei de sua religião; e Poty com o respeito que merecia tão grande guerreiro, irmão de Jacaúna, maior chefe da forte gente pytiguara.

Para repousar os viajantes, e acompanhal-os na despedida, o chefe da tribu recebeu Martim, Iracema e Poty na jangada, e abrindo a vela á brisa, levou-os até muito longe na costa. Todos os pescadores em suas jangadas seguiam o chefe e atroavam os ares com o canto de saudade, e os murmures do uraçá, que imita os soluços do vento.

Além da tribu dos pescadores estava mais entrada para as serras a tribu dos caçadores. Elles occupavam as margens do Soipé, cobertas de matas, onde os veados, as gordas pacas e os macios jacús abundavam. Assim os habitadores d'essas margens lhe deram o nome de paiz da caça.

O chefe dos caçadores, Jaguarassú, tinha sua cabana á beira do lago, que forma o rio perto do mar. Ahi acharam os viajantes o mesmo agasalho que haviam recebido dos pescadores.

Depois que partiram do Soipé, os viajantes atravessaram o rio Pacoty, em cujas margens cresciam as frondosas bananeiras balançando os verdes pennachos; mais longe o Iguape, onde a agua faz cintura em torno dos comoros de areia.

Além assomou no horisonte um alto morro de areia que tinha a alvura da espuma do mar. O cabo sobranceiro aos coqueiros parece a cabeça calva do condor, esperando alli a borrasca, que vem dos confins do oceano.

—Poty conhece o grande morro das areias? perguntou o christão.

—Poty conhece toda a terra que tem os Pytiguaras desde as margens do grande rio, que forma um braço do mar, até á margem do rio onde habita o jaguar. Elle já esteve no alto do Mocoribe, e de lá viu correr no mar as grandes igaras dos guerreiros brancos, teus inimigos, que está o no Mearim.

—Porque chamas tu Mocoribe, o grande morro das areias?

—O pescador da praia, que vae nas jangadas, lá onde voa a aty, fica triste, longe da terra e de sua cabana, onde dormem os filhos de seu sangue. Quando elle volta e que seus olhos primeiro avistam o morro das areias, a alegria volta ao seio do homem. Então elle diz que o morro das areias dá alegria!

—O pescador diz bem; porque teu irmão ficou contente como elle, vendo o monte das areias.

Martim subiu com Poty ao cimo do Mocoribe. Iracema seguindo com os olhos o esposo, divagava como a jaçanan em tôrno do lindo seio, que alli fez a terra para receber o mar. De passagem ella colhia os doces cajús, que aplacam a sede aos guerreiros, e apanhava as mimosas conchas para ornar seu collo.

Os viajantes estiveram em Mocoribe tres sóes. Depois Martim levou seus passos além. A esposa e o amigo o seguiram até á embocadura de um rio cujas margens eram alagadas e cobertas de mangue. O mar entrando por elle formava uma bacia de agua christalina, que parecia cavada na pedra como um camocim.

O guerreiro christão. ao percorrer essa paragem, começou de scismar. Até alli elle caminhava sem destino, movendo seus passos ao acaso; não tinha outra intenção mais que affastar-se das tabas dos Pytiguaras para arrancar a tristeza do coração de Iracema. O christão sabia por experiencia que a viagem acalenta a saudade, porque a alma pára emquanto o corpo se move. Agora sentado na praia pensava.

Poty veiu:

—O guerreiro branco pensa; o seio do irmão está aberto para receber seu pensamento.

—Teu irmão pensa que este lugar é melhor do que as margens do Jaguaribe para a taba dos guerreiros de sua raça. N'estas aguas as grandes igaras que vem de longes terras se esconderiam do vento e do mar; d'aqui ellas iriam ao Mearim destruir os brancos tapuias alliados dos Tabajaras, inimigos de tua nação.

O chefe pytiguara meditou e respondeu:

—Vae buscar teus guerreiros. Poty plantará sua taba junto da mayr de seu irmão.

Aproximava-se Iracema. O christão mandou com um gesto o silencio ao chefe Pytiguara.

—A voz do esposo se calla, e seus olhos se abaixam quando chega Iracema. Queres tu que ella se affaste?

—Quer teu esposo, que chegues mais perto, para que sua voz e seus olhos penetrem mais dentro de tua alma.

A formosa selvagem desfez-se em risos como se desfaz a flor do fructo que desponta, e foi debruçar-se na espadua do guerreiro.

—Iracema te escuta.

—Estes campos são alegres, e mais serão quando Iracema n'elles habitar. Que diz teu coração?

—O coração da esposa está sempre alegre junto de seu senhor e guerreiro.

O christão, seguindo pela margem do rio, escolheu o logar para levantar a cabana. Poty cortou esteios dos troncos da carnaúba; a filha de Araken ligava os leques da palmeira para vestir o tecto e as paredes: Martim cavou a terra com a espada e fabricou a porta das fasquias da taquára.

Quando veiu a noite os dois esposos armaram a rede em sua nova cabana; e o amigo no copiar que olhava para o nascente.




XXII

Poty saudou o amigo e faltou assim:

—Antes que o pae de Jacaúna e Poty, o valente guerreiro Jatobá, mandasse a todos os guerreiros pytiguaras, o grande tacape da nação estava na dextra de Batuireté, o maior chefe, pae de Jatobá. Foi elle que veiu pelas praias do mar até o rio do jaguar, e expulsou os tabajaras para dentro das terras, marcando a cada tribu seu logar; depois entrou pelo sertão até á serra que tomou seu nome.

Quando suas estrellas eram muitas, e tantas que em seu camocim já não cabiam as castanhas que marcavam o numero, o corpo vergou para a terra, o braço endureceu como o galho do ubiratan que não verga; seus olhos se escureceram.

Chamou então o guerreiro Jatobá e disse:—Filho, toma o tacape da nação pytiguara. Tupan não quer que Batuireté o leve mais á guerra, pois tirou a força de seu corpo, o movimento do seu braço e a luz de seus olhos. Mas Tupan foi bom para elle, pois lhe deu um filho como o guerreira Jatobá.

Jatobá empunhou o tacape dos Pytiguaras. Batuireté tornou o bordão de sua velhice e caminhou. Foi atravessando os vastos sertões, até os campos viçosos onde correm as aguas que vem das bandas da noite. Quando o velho guerreiro arrastava o passo pelas margens, e a sombra de seus olhos não lhe deixava que visse mais os fructos nas arvores ou os passaros no ar, elle dizia em sua tristeza:—Ah! meus tempos passados!

A gente que o ouvia chorava a ruina do grande chefe; e desde então passando por aquelles logares repetia suas palavras; d'onde veiu chamar-se o rio e os campos, Quixeramobim.

Batuireté veiu pelo caminho das garças até áquella serra que tu vês longe, onde primeiro habitou. Lá no pincaro o velho guerreiro fez seu ninho alto como o gavião, para encher o resto de seus dias, conversando com Tupan. Seu filho já dorme embaixo da terra, e elle ainda na outra lua scismava na porta de sua cabana, esperando a noite que traz o grande somno. Todos os chefes Pytiguaras, quando acordam á voz da guerra, vão pedir ao velho que lhes ensine a vencer, porque nenhum outro guerreiro jamais soube como elle combater. Assim as tribus não o chamam mais pelo nome, senão o grande sabedor da guerra, Maranguab.

O chefe Poty vae á serra vêr seu grande avô; mas antes que o dia morra elle estará de volta na cabana de teu irmão. Teus tu outra vontade?

—O guerreiro branco te acompanha. Elle quer abraçar o grande chefe dos Pytiguaras, avô de seu irmão; e dizer ao velho que renasce em seu neto.

Martim chamou Iracema; e partiram ambos guiados pelo Pytiguara para a serra, do Maranguab, que se levantava no horisonte. Foram seguindo o curso do rio até onde n'elle entrava o ribeiro da Pirapora.

A cabana do velho guerreiro estava junto das formosas cascatas, onde salta o peixe no meio dos borbotões de espuma. As aguas alli são frescas e macias, como a brisa do mar, que passa entre as palmas dos coqueiros, nas horas da calma.

Batuireté estava sentado sobre uma das lapas da cascata; e o sol ardente cahia sobre sua cabeça núa de cabellos e cheia de rugas como o genipapo. Assim dorme o jaburú na borda do lago.

—Poty é chegado á cabana do grande Maranguab, pae de Jatobá, e trouxe seu irmão branco para vêr o maior guerreiro das nações.

O velho soabriu as pesadas palpebras, e passou do neto ao extrangeiro um olhar baço. Depois o peito arquejou e os labios murmuraram:

—Tupan quiz que estes olhos vissem antes de se apagarem o gavião branco junto da narseja.

O abaeté derrubou a fronte aos peitos, e não falou mais, nem mais se moveu.

Poty e Martim julgaram que elle dormia e se afastaram com respeito para não perturbar o repouso de quem tanto obrára na longa vida. Iracema que se banhava na proxima cachoeira, veiu-lhes ao encontro, trazendo na folha da taioba favos do mel purissimo.

Discorreram os amigos pelas floridas encostas até que as sombras da montanha se extenderam pelo valle. Tornaram então ao logar onde tinham deixado o Maranguab.

O velho ainda lá estava na mesma attitude, com a cabeça derrubada ao peito e os joelhos encostados á fronte. As formigas subiam pelo seu corpo; e os tuins adejavam em torno e pousavam-lhe na calva.

Poty poz a mão no craneo do velho e conheceu que era finado: morrera de velhice. Então o chefe pytiguara entoou o canto da morte; e depois foi á cabana buscar o camocim, que transbordava com as castanhas do cajú. Martim contou cinco vezes cinco mãos.

Entanto Iracema colhia na floresta a andiroba, de que foi ungido o corpo do velho no camocim, onde a mão piedosa do neto o encerrou. O vaso funebre ficou suspenso ao tecto da cabana.

Depois que plantou ortiga em frente á porta, para deffender contra os animaes a oca abandonada, Poty despediu-se triste d'aquelles logares, e tornou com seus companheiros á borda do mar.




XXIII

Quatro luas tinham alumiado o ceu depois que Iracema deixara os campos do Ipú; e tres depois que ella habitava nas praias do mar a cabana de seu esposo.

A alegria morava em sua alma. A filha dos sertões era feliz, como a andorinha, que abandona o ninho de seus paes, e emigra para fabricar novo ninho no paiz onde começa a estação das flôres. Tambem Iracema achara ali nas praias do mar um ninho do amor, nova patria para o coração. Ella discorria as amenas campinas, como o colibri borboleteando entre as flôres da acacia. A luz da manhã já a encontrava suspensa ao hombro do esposo e sorrindo, como a enrediça, que entrelaça o tronco e todas as manhãs o coroa de nova grinalda.

Martim partia para a caça com Poty. Ella separava-se então d'elle, para mais sentir o desejo de tornar a elle.

Perto havia uma formosa lagoa no meio de verde campina. Para lá volvia a selvagem o ligeiro passo. Era a hora do banho da manhã; atirava-se á agua, e nadava com as garças brancas e as vermelhas jaçanans. Os guerreiros pytiguaras, que appareciam por aquellas paragens chamavam essa lagoa da belleza, porque n'ella se banhava Iracema, a mais bella filha da raça de Tupan.

E desde esse tempo as mães vinham de longe mergulhar suas filhas nas aguas da Porangaba que tinham a virtude de tornar as virgens formosas e amadas pelos guerreiros.

Depois do banho Iracema discorria até ás faldas da serra do Maranguab, onde nascia o ribeiro das marrecas. Ali cresciam na frescura e sombra as fructas mais saborosas de todo o paiz; d'ellas fazia copiosa provisão, e esperava, embalando-se nas ramas do maracujá, que Martim tornasse da caça.

Outras vezes não era a Jererahú que a levava sua vontade, mas do opposto lado, junto da lagoa da Sapiranga, cujas aguas diziam que inflammavam os olhos. Cerca d'ahi havia um bosque frondoso de muritys, que formavam no meio do taboleiro uma grande ilha de formosas palmeiras. Iracema gostava do Murityapuá, onde o vento suspirava docemente; ali espolpava ella o vermelho côco, para fabricar a bebida refrigerante, endossada com o mel da abelha, que os guerreiros amavam durante a maior calma do dia.

Uma manhã Poty guiou Martim á caça. Caminharam para uma serra, que se levanta ao lado da outra do Maranguab sua irmã. O alto cabeço se curva á semelhança do bico adunco da arara; pelo que os guerreiros a chamaram Aratanha. Elles subiram pela encosta da Guaiuba por onde as aguas descem para o valle, e foram até o corrego habitado pelas pacas.

Só havia sol no bico da arara quando os caçadores desceram de Pacatuba ao taboleiro. De longe viram Iracema, que viera esperal-os á margem de sua lagoa da Porangaba. Caminhou para elles com o passo altivo da garça que passeia á beira d'agua: por cima da cariola trazia uma cintura das flores da maniva que era o simbolo da fecundidade. Collar das mesmas cingia-lhe o collo e ornava os rijos seios palpitantes.

Travou da mão do esposo, e a impoz no regaço:

—Teu sangue já vive no seio de Iracema. Ella será mãe de teu filho!

—Filho, dizes tu? exclamou o christão em jubilo.

Ajoelhou ali e cingindo-o com os braços, beijou o ventre fecundo da esposa.

Quando se ergueu, Poty falou:

A felicidade do mancebo é a esposa e o amigo, a primeira dá alegria; o segundo dá força: o guerreiro sem a esposa é como a arvore sem folhas nem dores; nunca ella verá o fructo: o guerreiro sem amigo é como a arvore solitaria no meio do campo que o vento embalança; o fructo d'ella nunca amadura. A felicidade do varão é a prole, que nasce d'elle e faz seu orgulho; cada guerreiro que sahe de suas veias é mais um galho que leva seu nome ás nuvens, como a grimpa do cedro. Amado de Tupan é o guerreiro que tem uma esposa, um amigo e muitos filhos; elle nada mais deseja senão a morte gloriosa.

Martim unio o peito ao peito de Poty.

—O coração do esposo e do amigo falou por tua boca. O guerreiro branco é feliz, chefe dos Pytiguaras, senhores das praias do mar; e a felicidade nasceu para elle na terra das palmeiras, onde reacende a baunilha, e foi gerada do sangue de tua raça, que tem no rosto a côr do sol. O guerreiro branco não quer mais outra patria, senão a patria de seu filho e de seu coração.

Ao romper d'alva Poty partiu para colher as sementes de crajurú que dão a mais bella tinta vermelha, e a casca do angico de onde sae a cor negra mais lustrosa. De caminho sua flecha certeira abateu o pato selvagem que planeava nos ares: e elle arrancou das azas as longas penas. Subindo ao Mocoribe, rugiu a inubia. A refega que vinha do mar levou longe o ronco som. O buzio dos pescadores do Trahiry, e a trombeta dos caçadores do Soipé, responderam.

Martim banhou-se na agua do rio, e passeou na praia para secar o corpo ao vento e ao sol. Ao seu lado ia Iracema e apanhava o ambar amarello que o mar arrojava. Todas as noites a esposa perfumava seu corpo e a alva rede, para que o amor do guerreiro se deleitasse n'ella.

Voltou Poty.




XXIV

Foi costume da raça, filha de Tupan, que o guerreiro trouxesse no corpo as cores de sua nação. Traçavam em principio negras riscas, sobre o corpo, á semelhança do pello do coaty de onde procedeu o nome d'essa arte da pintura guerreira. Depois variaram as cores; e muitos e muitos guerreiros costumaram escrever os emblemas de seus feitos.

O extrangeiro tendo adoptado a patria da esposa e do amigo, devia passar por aquella ceremonia, para tornar-se um guerreiro vermelho, filho de Tupan. N'essa intenção fora Poty prover-se dos objectos necessarios.

Iracema preparou as tintas. O chefe, embebendo as ramas da pluma, traçou pelo corpo os riscos vermelhos e pretos, que ornavam a grande nação pytiguara. Depois pintou na fronte uma flecha e disse:

—Assim como a seta traspassa o duro tronco, assim o olhar do guerreiro penetra n'alma dos povos.

No braço um gavião:

—Assim como o anajê cahe das nuvens, assim cae o braço do guerreiro sobre o inimigo.

No pé esquerdo a raiz do coqueiro.

—Assim como a pequena raiz agarra na terra o alto coqueiro, o pé firme do guerreiro sustenta seu corpo.

No pé direito pintou uma aza:

—Assim como a aza da majoy rompe os ares o pé veloz do guerreirro não tem igual na corrida.

Iracema tomou a rama da penna e pintou uma folha com uma abelha sobre: sua voz resoou entre sorrisos:

—Assim como a abelha fabrica mel no coração negro do jacarandá, a doçura está no peito do mais valente guerreiro.

Martim abriu os braços e os labios para receber corpo e alma da esposa,

—Meu irmão é um grande guerreiro da nação pytiguara; elle precisa de um nome na lingua de sua nação.

—O nome de teu irmão está em seu corpo, onde o poz tua mão.

—Coatiyabo! exclamou Iracema.

—Tu disseste; eu sou o guerreiro pintado; o guerreiro da esposa e do amigo.

Poty deu a seu irmão o arco e o tacape, que são as armas nobres do guerreiro. Iracema havia tecido para ella o cocar e a arassoia, ornatos dos chefes illustres.

A filha de Araken foi buscar á cabana as iguarias do festim e os vinhos de genipapo e mandioca. Os guerreiros beberam copiosamente e trançaram as dansas alegres. Durante que volviam em torno dos fogos da alegria, resoavam as canções.

Poty cantava:

—Como a cobra que tem duas cabeças em um só corpo, assim é a amisade de Coatyabo e Poty.

Acudiu Iracema.

—Como a ostra que não deixa o rochedo, ainda depois de morta, assim é Iracema junto a seu esposo.

Os guerreiros disseram:

—Como o jatobá na floresta, assim é o guerreiro Coatyabo entre o irmão e a esposa: seus ramos abraçam os ramos do ubiratan, e sua sombra protege a relva humilde.

Os fogos da alegria arderam até que veio a manhã; e com elles durou o festim dos guerreiros.




XXV

A alegria ainda morou na cabana, todo o tempo que as espigas de milho levaram a amarellecer.

Uma alvorada, caminhava o christão pela borda do mar. Sua alma estava cançada.

O colibri sacia-se de mel e perfume; depois adormece em seu branco ninho de cotão até que volta rio outro anno a lua das flores. Como o colibri, a alma do guerreiro tambem se satura de felicidade, e carece de somno e repouso.

A caça e as excursões pelas montanhas em companhia do amigo, as caricias da terna esposa que o esperavam na volta, o doce carbeto no copiar da cabana já não acordavam n'elle as emoções d'outrora. Seu coração resonava.

Iracema brincava pela praia: os olhos d'elle tiravam-se d'ella para se estenderem pela immensidade dos mares.

Viram umas azas brancas, que adejavam pelos campos azues. Conheceu o christão que era uma grande igara de muitas velas, como construiam seus irmãos; e a saudade da patria apertou em seu seio.

Alto ia o sol; e o guerreiro, na praia seguia com os olhos as azas brancas que fugiam. Debalde a esposa o chamou á cabana, debalde offereceu a seus olhos, as graças d'ella e os fructos melhores do campo. Não se moveu o guerreiro, senão quando a vella se sumiu no horisonte.

Poty voltou da serra, onde pela vez primeira fora só. Tinha deixado a serenidade na fronte de seu irmão e achava alli a tristeza. Martim saiu-lhe ao encontro:

—A igara grande do branco tapuia passou no mar. Os olhos de teu irmão a viram voar para as margens do Mearim, alliados dos Tupinambás, inimigos de tua e minha raça.

—Poty é senhor de mil arcos; se é teu desejo elle te acompanhará com seus guerreiros ás margens do Mearim para vencer o Tapuytinga e seu amigo o traidor Tupinambá.

—Quando for tempo teu irmão te dirá.

Os guerreiros entraram na cabana, onde estava Iracema. A maviosa canção n'esse dia tinha emudecido nos labios da esposa. Ella tecia suspirando a franja da rede materna, mais larga e espessa que a rede do hymeneo.

Poty, que a viu tão occupada, fallou:

—Quando a sabiá canta é o tempo do amor; quando emmudece, fabrica o ninho para sua prole; é o tempo do trabalho.

—Meu irmão falla como a ran quando annuncia a chuva; mas a sabiá que faz seu ninho, não sabe se dormirá n'elle.

A voz de Iracema gemia. Seu olhar buscou o esposo. Martim pensava: as palavras de Iracema passaram por elle, como a brisa pela face lisa da rocha, sem echo nem rumores.

O sol brilhava sempre sobre as praias do mar, e as areias reflectiam os raios ardentes; mas nem a luz que vinha do ceu, nem a luz que ia da terra, espancaram a sombra n'alma do christão. Cada vez o crepusculo era maior em sua fronte.