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José Estevão

Chapter 12: III
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About This Book

Um estudo biográfico e ensaístico que analisa a figura proeminente cuja autoridade pessoal dominou a sociedade local; investiga como carisma, exemplo moral e atuações públicas atraíram devoção e subserviência, contrapondo o ideal do racionalismo à prevalência das influências humanas e das circunstâncias históricas. O autor examina correntes políticas e psicológicas da época, problematiza a relação entre personalidade e contexto social, e procura identificar, sem pretensão de exaustividade, as forças que tornaram possível e duradouro esse predomínio.

[11] Oaslter.

II

CARACTER E ARTE

CARACTER E ARTE

I

Um dos signaes mais evidentes da robustez da compleição moral de José Estevão e da firmeza do seu caracter, foi a energia com que supportou os errores romanticos do seu tempo, e de todo se libertou da fluctuação e fraquezas proprias d'aquella epoca, perigosas para qualquer, e sobretudo para as organisações nimiamente sensiveis e promptas em responder ao incitamento estranho, como era a sua. Mas, por um fundo d'austeridade invencivel, sentiu-as para lhes resistir e não para se lhes render. N'uma crise em que o principio da liberdade, traduzido na pratica ordinaria e nos costumes em relaxação e despejo, emancipando de toda a tutela rigorosa da antiga constituição social, religiosa, politica, moral e litteraria, facilmente induzia a uma indisciplina absoluta, obliterando por completo o sentimento do dever e legitimando paixões, crimes e aberrações, em que a phantasia e não raro a vaidade precipitava a gente moça, mal precavida de experiencia e reflexão, é maravilha o poder de sacrificio e o esforço constante d'um homem para fazer prevalecer na sua terra o imperio da justiça.

A tentação era temerosa. Muitos, aliás de valor, lhe cederam, caindo em culpas e desgraças que uma atmosphera menos propicia ao desvairamento lhes teria poupado. A crença romantica encontrava boas razões para toda a sorte de desordem. Não triumphava a liberdade? Para que constrangimentos? Era necessario perseguir até á anniquilação todos os despotismos, os canones da moral como os da egreja, o absolutismo estreito dos usos e costumes como a auctoridade sem limites dos reis. Porque não poderia cada um abandonar-se sem peias nem reservas ás tendencias do seu temperamento, no conceito corrente talvez todas salutares e, pelo menos, sem duvida todas admissiveis? Não seria até um erro contrarial-as? Não seria uma violação das leis naturaes e um aggravo á felicidade humana? Não era do concurso de todas as liberdades que havia de resultar a harmonia dos homens e o progresso das sociedades? No espirito de muitos dos seus hallucinados sectarios, a liberdade não significava a simples abolição de privilegios odiosos e instituições oppressivas, caducas e corrompidas, para as substituir por outras que conviessem a aspirações sociaes mais nobres e conformes com a dignidade humana; era o desregramento, a ausencia de preceito que interior e exteriormente regulasse e sanccionasse as acções, um absolutismo de nova especie, o absolutismo da incontinencia. Liberdade de pensamento, liberdade de cultos, liberdade dos vinculos matrimoniaes e da familia, liberdade d'acção e até de inacção, de indifferença e cynismo, exaltações mysticas, egoismos abjectos e cobiças sordidas, para tudo isso encontraram explicação bastante as philosophias liberaes d'astuciosa commodidade. Aviltamento e nobreza eram pólos da esphera moral que iam a apagar-se; já ninguem sabia ao certo marcal-os. Por uma estranha e nunca vista concessão, as paixões sairam como doidas das prisões em que as continham encarceradas os espectros de deveres inexoraveis, e vinham expandir-se á luz do sol, ora em bem, ora em mal, e sempre impetuosamente.

A litteratura glorificava-as, com uma fecundidade e um esplendor d'arte deslumbrantes. A litteratura de que Byron foi o summo pontifice, e portentoso, deixou-nos um testemunho inequivoco e, sem embargo, brilhante, d'esse estado d'espirito que, se para muitos foi exaltação merecida, se para a humanidade foi uma crise de renovação e renascimento necessaria e fertil em beneficios, foi tambem para outros fonte amarissima de desenganos, de tristeza e desgraça, que tantas vezes se refugiou na morte, e por todas as nações da Europa determinou, invariavelmente, conflictos graves e lances perigosos, rematados com fortuna varia para os destinos dos povos.

Não ha melhor espelho dos factos e das tendencias d'uma epoca do que a litteratura; nenhum os reflecte tão claramente e, talvez por isso, porque os expõe na mais transparente lucidez, é ao mesmo tempo effeito das correntes estabelecidas e causa da sua propagação, moderando ou accelerando, pela revelação plena do que encerram d'atraente ou de repulsivo, as tendencias de que andar impregnada. Nem a estatistica, com a seccura, desligação, insufficiencia e abstracção dos seus dados, nem a propria historia com as longas narrativas, em que o espirito e inclinações do historiador facil e ingenuamente favorecem ou prejudicam a reproducção exacta dos acontecimentos, supprem a litteratura na arte de guardar integra e perfeita a memoria do estado mental e tendencias sociaes de determinado momento, collocando-nos em contacto directo com os caracteres e os feitos, renovando-os aos nossos olhos em movimento e acção. Ora a litteratura romantica que José Estevão respirou nos melhores annos da vida, n'aquelles em que mais o podia seduzir e maior influencia podia exercer na disciplina ou indisciplina do seu coração, a litteratura romantica, na sua constituição moral, distinguiu-se pela adoração de duas divindades, que serviu com ardor e brilho incomparavel:--a felicidade do homem e a natureza. Dos tormentos e miserias geradas pelo absolutismo oppressivo de todas as actividades e impulsos que se afastassem dos seus mandados, veio-se, pela reacção natural dos organismos opprimidos e atrophiados, ao extremo opposto, passando-se do idealismo da uniformidade ao idealismo da liberdade sem limites, do abuso da regra á desinvoltura da dissolução; e, para que os homens se curassem de males e de futuro vivessem felizes, concluiu-se pela exigencia d'uma emancipação não menos absoluta do que a sujeição precedente. A natureza! A natureza!... Logar ao seu triumpho e imperio! Não constrangessem nenhuma das suas energias, e todas as mágoas e dôres se transformariam em alegrias e riso e força! E viu-se então uma expansão do genio poetico maravilhosa, unica na historia, pela fecundidade, pela grandeza, pelo arrojo da ambição e pela extensão dos horisontes, inflamando e arrebatando os miseros mortaes na belleza de miragens celestes. O homem, feito anjo e liberto de mesquinhas ligações d'um mundo decrepito e abominavel, amava livremente, pelas florestas virgens, pelos ermos e pelas ruinas abandonadas, as mulheres divinisadas pela paixão e nos seus fachos gloriosamente consumidas; e os cavalleiros e os santos e os martyres surgiam, por milagre e em exercitos, das profundezas da terra, armados de coragem infatigavel e sedentos de sacrificio. Escutasse cada qual a voz intima do seu sangue e do seu peito, deixasse-a cantar como as aves cantam e obedecesse-lhe, não temendo convenções nefastas e condemnadas, repudiando todo o mandado e auctoridade que não fosse a sua propria inspiração; e entraria nas espheras da mais alta beatitude. Não era assim em toda a natureza? Não viviam d'esse modo os animaes bravios e as plantas?!... E havia porventura felicidade que não possuissem, harmonia que não realisassem?!...

Uma antecipada promessa de perdão incitava ao desmando. A percepção da necessidade e eternidade d'um principio religioso e moral, dominando as paixões e subordinando a natureza á consciencia, o que, na verdade, se manifestou desde o começo d'esse extraordinario movimento, era ainda frouxa e sobretudo vaga, incerta, ora tentando galvanisar concepções mortas e sentimentos corrompidos, ora modelando novos deuses sem consistencia, hoje nascidos e amanhã desfeitos em pó. E nas ondas incessantes d'esse tumulto perdiam-se sem norte e sem bussola almas nobremente e generosamente dotadas, resvalando em abysmos infernaes, com uma inconsciencia digna de melhor destino, facil preza da embriaguez e do vicio, endoidecidas na propria sinceridade e arrastando e prostituindo por logares infames a pureza d'altissimas aspirações. Deveriam ter sido legião as victimas obscuras, perdidas pelos caminhos errados e fataes que a liberdade romantica lhes abria e apontava, ella que, de facto, e involuntariamente o mais das vezes, nenhum prohibia como criminoso ou arriscado e indigno. E o perigo de tentação era tanto mais grave quanto era certo que, na atmosphera revolta do romantismo, o mundo mal acautelado contra a distincção de limites em que é licito moverem-se os mortaes communs e os sobre-humanos, prostrado d'assombro, semi-louco e em delirio d'admiração e imitação, via erguerem-se a alturas ignoradas, n'uma aureola fascinante, os genios que, quem sabe? valeram talvez as centenas de victimas ignoradas que custaram, para dar á humanidade exemplo da sublimidade em que a nossa alma é capaz de exaltar-se.

Foi do meio d'esta confusão terrivel que Portugal viu levantar-se, proeminente e firme, d'uma robustez moral inabalavel, um homem que sabia o que queria, que o queria porque o devia, e para o cumprir empenhava o coração, o pensamento e o braço, a vida inteira, consagrada ao dever e n'elle consumida, por sua honra e nosso orgulho.

Como revelação do caracter de José Estevão, essa attitude, cuja soberania a nação reconheceu pela auctoridade que conferiu ás suas palavras e pelo respeito que lhe votou, é decisiva e, em certo modo, quasi milagrosa. A sensibilidade de José Estevão e a riqueza das suas faculdades, até uma sensualidade manifesta[12], deveriam determinar um extremo pendor para a indisciplina romantica e fomentar por isso um enfraquecimento de vontade funesto á energia d'acção e tenacidade de proposito e emprehendimento. A pujança do temperamento explicaria e desculparia hesitações e tibiezas, o abandono a impressões passageiras, traições frequentes á fé jurada em espirito ou em palavras, desvios e tergiversações. A sua vida, porém, pela constancia inalteravel no combate e nas aspirações, demonstrou-nos a fixidez d'uma attitude radicalmente opposta a fluctuações e desmandos ou desfallecimentos.

N'este ponto, José Estevão não foi do seu tempo. Foi mais longe do que o seu tempo; inscreveu-se no livro d'ouro dos prophetas. Attingiu toda a capacidade do idealismo militante e praticamente efficaz que entre as ruinas do passado, o naufragio das crenças e a inundação d'um scepticismo, refinadamente epicurista e moralmente desdenhoso, apenas germinava e só de rarissimos eleitos era apreciado, sentido e querido. A grande maioria de homens cultos e dos talentos consagrados estava longe de suspeitar as affirmações vigorosas e triumphos resplendentes com que no final do seculo XIX a renascença idealista seria coroada pelo estudo paciente da historia, pela penetração da estructura psychologica das sociedades humanas e das suas condições fundamentaes, e pela consequente creação de artistas, philosophos, poetas, criticos e apostolos, deslumbrando e convencendo, graças á desusada formosura das suas obras, e convertendo á adoração de novos altares, cheios de luz e mansidão, pelo ardor communicativo do sentimento em que se enlevavam. N'essa resurreição de Lazaro, doente de descrença e perversão, das feridas de luctas e calamidades que irremediavelmente tinham d'acompanhar a revolução, José Estevão foi, na verdade, um precursor abençoado, alimentando-se na fonte em que as almas enfermas se curam e as sãas se fortalecem para superiores destinos.

[12] «Batido o exercito constitucional e dissolvida a Junta do Porto, o batalhão academico, como todas as demais forças fieis, seguiu o caminho da fronteira, vindo a entrar na Galiza no dia 6 de julho (1828). José Estevão fez toda a marcha quasi sem dinheiro, sem roupa e sem calçado. Em Lobios o seu amigo e patricio Mendes Leite deu-lhe uma das duas unicas camisas que levava. José Estevão levára comsigo um pequeno cordão de oiro, talvez uma recordação de familia; mas em Lobios desfez-se d'elle, não para occorrer a alguma das suas muitas necessidades de occasião, mas sim para satisfazer a sua gulodice (pois era e sempre foi muito guloso), para comprar gemas. Para se avaliar de quanto lhe custariam as taes gemas, basta dizer-se que, no acampamento de Lobios, se vendia então por 600 réis uma brôa de pão de milho que poderia valer 100 réis.» Snr. Marques Gomes, José Estevão, Apontamentos para a sua biographia. Porto; Typographia Occidental, 1889. Pag. 14.

II

«Eu detesto os heroes todos», disse um dia José Estevão[13]. «Os heroes são excepções monstruosas da nossa natureza; podemos vangloriar-nos de vermos os seres da nossa especie exceder as condições ordinarias da nossa existencia, mas essa vaidosa satisfação custa sempre cara. Os heroes são uns filhos prodigos da natureza e da sociedade, que dispõem, em proveito das suas paixões, do oiro, do sangue e da honra do mundo: que sacrificam aos seus caprichos quanto ha n'elle de mais santo, de mais nobre e de mais sympathico, e a Providencia, que castiga sempre, ainda que por diversos modos, os que se esquecem da humildade do berço commum, ou lhes esconde a lousa da sepultura para que os deslembre, ou lh'a deixa apontada á indignação publica para que os aborreçam.»

O homem que fallava dos heroes n'estes termos, era a mais genuina encarnação do espirito heroico. Simplesmente se illudia e errava quando, ao analysar o valor d'esses seres da nossa especie, «excepções da natureza», de que podemos orgulhar-nos, sem duvida, por «excederem as condições ordinarias da nossa existencia», affirmava, peremptoriamente e sem reservas, que «essa vaidosa satisfação custa sempre cara, e «os heroes, filhos prodigos da natureza e da sociedade, dispõem, em proveito das suas paixões, do oiro, do sangue e da honra do mundo, e sacrificam aos seus caprichos quanto ha n'elle de mais santo e de mais nobre.» Porque a nós, portuguezes, nem nos custou caro o heroismo de José Estevão,--muito lhe deviamos e pagamos-lhe pouco e mal; nem jámais o vimos dispor, em proveito das suas paixões, do oiro, do sangue e da honra da nação, antes sempre o encontramos honrando-a pelo sacrificio do proprio sangue e pelo risco da vida em bem da sua nobreza o gloria. E muito menos soubemos que a providencia quizesse castigal-o, ella que instantemente nos aponta a sua sepultura, não para a aborrecermos mas para a adorarmos, ella que da sua memoria fez um culto salutar e purificador. O ingenuo, desconhecendo a que regiões o genio o erguia e em que mundos de claridade o trazia combatendo, condemnou o heroismo ao deparar-lhe com a perversão e tomando-a pelo seu caracter unico e consequencia. Num desejo vehemente da punição dos seus crimes, esquecia as virtudes que o constituem na pureza da sua essencia e resgatam em homens d'eleição, por feitos immortaes, a fraqueza d'uma outra e vulgar humanidade transitoria, debil e corruptivel. E ignorava, porque a candidez d'alma o offuscava, que elle, heroe tambem e dos mais altos, passaria na terra agitada de paixões, sem que o heroismo o pervertesse, e sem que os seus triumphos, que foram magnificos, o cegassem, nem o seu poder, que foi largo e duradouro, constante, conseguisse degenerar em vaidade, capricho, mentira, insensatez e crueldade a energia e o fulgor que só pela justiça se inflamavam e a nenhuma sollicitação de baixeza jámais responderam.

Para o homem consagrado por instigação da consciencia a uma missão sobre-humana, por ella sujeito á obediencia e imperio de forças sobrenaturaes divinas, cujos designios tem de cumprir e que no seu intimo habitam e o vigiam e regulam em todos os apetites e tendencias, ora condemnando, ora absolvendo, ora reprimindo, ora incitando, não ha senão tres soluções da crise moral, em que necessariamente tem de debater-se ao iniciar da vida consciente e ao escolher caminho entre as aspirações e as tentações do mundo. Perante os conflictos eternos do bem e do mal, se os sentiu e quiz ter preferencias, e, se os sentiu, ai d'elle! tem d'escolher e preferir, que uma voz interior e sem repouso lh'o exige; perante essa interrogação temerosa, sómente tres estradas vê abertas:

--a abdicação, estoica ou santa, o orgulho invencivel na insensibilidade premeditada e voluntaria, ou a humildade perfeita no desprendimento absoluto, resultando, segundo o modo a que se inclina, ou na simples contemplação, passiva e paciente, por effeito da identificação com a alegria do universo, ou na acceitação da dôr, como inexoravel, e procurando então a salvação em si, descrendo da possibilidade de modificar a fatalidade e se lhe oppôr;

--o suicidio, terminando a melancolia desesperada, pela certeza de que só na dissolução do proprio sêr encontrará a paz; e

--a acção, o voto heroico, derivado da confiança e fé na vontade e no esforço dos homens, a conversão immediata do sonho em motivos de proceder e tentativa de realisação, para resgatar d'angustias e produzir na terra a tranquillidade, a abundancia, a alegria, a felicidade emfim.

Ora, entre estes tres modos de sêr, José Estevão, por temperamento, por educação e por circumstancias caracteristicas do ambiente que o involvia, foi dominado pelo arrebatamento heroico.

Nada temeu como a inacção. Foi para elle a suprema desgraça. Em 1852, fallando de Saldanha e relembrando que havia sido perseguido durante o seu ministerio, disse n'uma expontanea confissão, e valiosa para a comprehensão do seu caracter: «Nenhum soffrimento da minha carreira politica me custou tanto como essa perseguição. Um homisio d'um anno, não estando bastante compromettido para me resignar aos martyrios d'uma emigração, não podendo exercitar livremente no paiz as faculdades mais nobres do espirito, nem cultivar as relações de parentesco e amizade, instigado pela minha innocencia legal a comparecer deante dos tribunaes, constrangido pelo pundonor a ser carcereiro de mim mesmo, vendo dos incertos paradeiros das minhas curtas e enfadonhas peregrinações cair num mar de sangue a estrella brilhante da revolução europeia, recebendo e abraçando no meu captiveiro os meus cumplices já absolvidos e restituidos á liberdade, de que por tal causa eu era o unico privado, tudo isto compozéra para mim n'aquelles tempos uma d'estas situações equivocas, fastidiosas e mortificantes, que entristece mais do que as desgraças profundas e irremediaveis»[14].

O heroe, exaltado na impaciencia d'acção, a tudo poderá sujeitar-se, toda a dôr e sacrificio poderá acceitar d'animo sereno, menos aquelle estado de sequestro do mundo e de intervenção nos seus feitos, que significa a annulação completa de todas as faculdades, a condemnação ao espectaculo da propria esterilidade, dia a dia sentida e verificada. E José Estevão, victima docil do seu temperamento e partilhando da sorte d'aquelles a quem por sua gloria coube igual dote no livro do destino, não pôde resignar-se com o terror d'esse apartamento violento, para elle peior do que a morte, porque era a immobilidade junta á constancia da aspiração, o tumulo sem a paz da inconsciencia. Chorou-o como o mais angustioso tormento. Desde que, moço quasi imberbe, se armou cavalleiro na batalha da Cruz dos Marouços, até que a morte o arrebatou, anciado e ainda quente das pugnas parlamentares, luctou com a rigidez d'uma tenacidade épica pela justiça e pela verdade, confiado na victoria do seu reino, que os corações como o seu haviam de estabelecer na terra, por um trabalho gigantesco, antecipadamente certos de que o triumpho ou a derrota serão sempre objecto e resultado da capacidade humana e suas façanhas.

O temperamento heroico não se inocula por artes pedagogicas, por contingencias do acaso ou por virtude de simples condições externas; ou uma scentelha inominada e intima o accendeu, ou influencia alguma, alheia a essa vibração, poderá creal-o. Se José Estevão o possuiu e d'elle foi luminoso reflexo, é que o trouxe quando viu a luz, ou que alguma fada lhe bafejou o berço. Esse espirito era seu, propriamente seu; e foi elle que derramou da sua robusta figura d'athleta a irradiação de claridade que a engrandeceu.

Todavia, sem embargo, as condições transitorias, se não pódem gerar o heroismo, podem favorecel-o ou atrophial-o, deixando-o consumir esteril na inercia e na obscuridade; podem prohibir-lhe toda a expansão, contrariar-lhe os impetos ou negar-lhe ensejo de se alargarem. E José Estevão teve a fortuna de vir ao mundo n'uma epoca em que a educação classica e a exaltação do civismo, provocado pelo ardor das paixões politicas, se mostraram singularmente propicias a revelar-lhe e fortalecer-lhe o caracter.

Primeiro, a educação. Nunca houve escola que valesse o humanismo latino para despertar o ardor heroico. Nem o estudo dos gregos, tão repassado de philosophia, serenidade e belleza, o poderia supprir para este fim. E, como todos os portuguezes cultos do seu tempo, José Estevão teve essa educação unicamente embebida de Virgilio, de Tito Livio, de Cicero e de Horacio, de feitos de guerra, glorias militares e grandeza civica.

Sahia-se da escola a sonhar com o senado e as legiões romanas, suspirando pela hora de prostrarmos vencidos os inimigos da patria e receber entre os applausos das multidões freneticas os louros da victoria, com aquella intensidade de desejo e commoção que os mestres nos communicavam facilmente, n'um insensivel e involuntario contagio, porque em alto grau a sentiam tambem. Durante mezes e annos não se fallava d'outra cousa; nenhuma se encontrára superior, nenhuma nos merecera maior admiração, nenhuma constituia aspiração mais nobre. Mandar nos homens e governal-os para os conduzir á gloria era a suprema elevação e a mais incontestada dignidade. Ignorava-se, e nem se podia conceber sem desdouro e pejo, a frieza e scepticismo da educação requintadamente scientifica. Essa estava reservada para as ultimas decadas do seculo XIX, embora tivesse origem em reflexões e estudos de longa data iniciados e adeantados, mas que até então eram qualquer cousa estranha e sobreposta á vida civica, sem influencia na sua base moral. A invenção de que o egoismo é uma lei tão real e merecedora de respeito como o desprendimento, e a cobardia tão natural como a coragem; a justificação de mil baixezas, outrora julgadas abominaveis e criminosas e hoje fundadas n'um arsenal de razões physiologicas e psychologicas, retintas todas de rigor scientifico e com pretensões a verdades essenciaes; este apuro de impudor e de ascenção da animalidade estupida e cruel á cathegoria d'um modo de ser normal, a negação do sentimento do dever pela acceitação plena da fatalidade, seja ella qual fôr, indistincta; o inteiro quebrantamento da vontade que d'ahi resulta; a reputação de enfermidade atribuida ao genio, ao heroismo, á santidade, ao simples escrupulo de bem fazer--isso é moderno. Na verdade, só agora se propagou com louvor e a contento dos sacerdotes da sciencia e dos profanos. A educação d'outros tempos, da renascença até ao meiado do seculo XIX, era nas suas consequencias moraes a admiração da magestade romana, offerecida como o mais alto exemplo aos moços que entravam na vida e para ella se preparavam; a concepção pagã da robustez, da força, da ordem e da justiça, a devoção civica posta acima do preceito religioso, seriam regras supremas na conducta dos homens. O proprio christianismo que se lhe interpozéra e a abalára, formava capitulo áparte, já atenuado nos effeitos mysticos e caridosos pelas formas conciliadoras da egreja catholica, com tanto de Jesus como de Cesar. A santidade seria apenas para Deus, objecto d'ermitas, de conventos e d'almas piedosas; para o mundo, o heroismo era cousa mais de venerar e seguir. Scipião valeria, pelo menos, tanto como S. Paulo; o borburinho de togas e de lanças não era menos grato aos ouvidos do que o murmurio das orações e canticos dos templos, nem se cobiçava menos o capacete do guerreiro do que o resplendor seraphico; a expansão do idealismo judaico, com os seus martyres, nem de longe se comparava com o brilho das guerras punicas e dos seus soldados, dos que salvavam a cidade.

Se do berço trouxera o temperamento heroico, José Estevão deveria sentil-o vivamente acalentado na escola. Os impulsos da sua natureza propria e o caracter da atmosphera que encontrava nos primeiros annos, confundiam-se e completavam-se na uniformidade de tendencias.

Ao mesmo tempo, como que rematando a inclinação ingenita, favorecida e afagada no periodo de formação e desenvolvimento pelas lições dos experimentados, excitava-lhe o ardor e chamava-o com desusada instancia o clamor de luctas politicas. Desde creança o ouvia a aproximar-se, cada vez mais perto da sua terra. O ensejo era unico, magnifico. Se algum dia houve paixões politicas na historia de Portugal, foi então. A sêde de liberdade que inflamou o povo romano, renascia. Convinha que se renovassem os heroes e os tribunos, que a apregoavam e saciavam. Reabria-se o forum. Viessem os consules administrar justiça;

Para tão alta empreza se aprestou candidamente o iniciado. Soldado ou magistrado, eil-o descendo ao campo, prompto ao sacrificio, para morrer ou coroar-se de louros pela fortuna dos homens e só por ella combater. E partiu ao encontro de toda a sorte de penas, das feridas de batalhas sangrentas, das amarguras do exilio, da incerteza do seu destino e do destino d'aquelles que mais amava, da perseguição, da indigencia e da fome, e, peior ainda, das mordeduras do odio e da inveja d'aquelles cujo talento e designios escurecia ou contrariava. E tudo soffreu nobremente, invencivel na inteireza e força do seu coração, que jámais succumbiu ou esmoreceu. Um dia, n'uma hora solemne, vimol-o erguer-se no pedestal d'uma sublimada grandeza moral, cimentado por inumeraveis provações, para proferir estas palavras memoraveis, em que traduziu a isenção perfeita que de todo o ultrage o defendia, e a victoria ultima da consciencia e imperio do dever sobre os aggravos do egoismo e do orgulho:

«Disseram-se injurias: jogaram-se apedreijos. E eu não ouvi as injurias; e as pedras nem os vestidos me tocaram. O tempo é do paiz: está adjudicado ao cumprimento das nossas obrigações. Mas é nosso o sangue que nos corre nas veias; e a sua primeira hypotheca é feita á nossa honra.»

Como ouviria o rumor da infamia quem seguia sua estrada levado por uma estrella de justiça?!... A «paixão do bem publico», que havia de reinar dentro do parlamento[15] enchia-lhe o peito, e d'elle expulsava todo o sentimento mesquinho. Absorvia-o. Todas as energias do seu braço e da sua alma lhe estavam consagradas, porque «os caracteres superiores e os superiores talentos»--e a esse divino bando pertencia, «são aquelles que teem tanta perspicacia para conhecer a verdade como força para propugnar por ella»[16]. E essa força jámais o abandonou.

Nem a gloria militar,--e é certo que muito lhe quiz, o desviaria de servir os homens. A espada havia de ser purificada pelo amor, para que o seu brilho não se escurecesse em infamia. «Tinha asco á guilhotina e não tinha consideração pela espada, quando ella serve a violentar os povos, porque a guilhotina é sempre a ignominia das revoluções, e a espada muitas vezes o opprobrio dos governos»[17].

«Ah! Como são valiosos, como são uma preciosidade moral, uma fonte de bens ineffaveis, um elemento de disciplina social, um paladio popular, os caracteres lisos, iguaes, nobres, experimentados em grandes provações, e superiores aos lances da fortuna! Que ha no mundo que os possa supprir? Que ha na sociedade que possa desempenhar a missão d'elles?

«Pois José Estevão foi um caracter d'esta tempera, um homem d'estes quilates, um cidadão d'esta valia. Toda a sua vida foi uma consequencia rigorosa da sua composição moral.

«Frequentemente attribuimos á fortuna os feitos dos varões illustres. Esta explicação dos elogios alheios é suggerida pela inveja. Por tal expediente, poupamos o nosso amor proprio, e dessimulamos o pezar da nossa obscuridade. O malogro das nossas tentativas, o desconcerto dos nossos projectos, o desfavor dos nossos concidadãos, quasi sempre provém de nós mesmos, e o infortunio contra que nos tornamos, nasce das nossas proprias culpas.

«José Estevão é uma prova irrefragavel d'esta grande verdade. Representa, por todos os factos da sua vida, o grande principio da responsabilidade moral do homem.

«Foi o homem de grande merecimento, d'altas façanhas, de inapreciaveis serviços, e gosou mais do que ninguem da estima dos seus concidadãos. Quaes são as causas d'este seu bellissimo sestro? Essas causas estão todas n'elle; com elle nasceram, e com elle acabaram. Abraçou pela critica intima da sua intelligencia as ideias que se lhe offereceram como mais justas á sociedade do seu tempo, e logo se dedicou todo ao serviço d'ellas, sem mais pensar em vida, affeições e interesses, quando estas ideias requeriam o seu auxilio e sacrificios. Era d'indole dulcissima, de coração affectuosissimo, bom sem limites, compassivo sem restricções, e este mesmo homem era bravo sem alarde, bravo sem intermitencias, bravo no meio de todos os perigos, bravo no campo, bravo em conselho, bravo no soffrimento,--quer dizer, sobranceiro nos grandes males da vida aos tremendos lances d'ella. Que significa isto? Que José Estevão era um homem de uma condição sublime, que a sua alma era forte, que o seu espirito era elevado, e a fortuna não dá, não póde dar, estes predicados moraes, estas supremas excellencias. Se as désse, podia mais do que Deus, mais do que as raças, mais do que o sangue, e n'esse caso antes o horror d'uma absoluta incredulidade do que o culto do acaso.

«Mas José Estevão, pela rectidão do seu caracter, pela segurança do seu juizo, resolveu ainda problemas mais difficeis da politica e de moral. Foi um partidario dedicado e leal. Nunca faltou aos seus primeiros comprometimentos politicos. Como homem publico, era independente: como chegado ao rei, fiel. Trabalhou por vezes contra os seus adversarios politicos. Foi vencido. Os aggravos d'essas luctas esqueceu-os; conversava sobre estes acontecimentos com extrema magnanimidade. Tendo de hombrear pelos seus encargos de homem publico com pessoas de variadissimas extracções e maneiras, tendo de descer da vida cerimoniatica e estudada das altas regiões da sociedade para a convivencia do mundo, livre e por vezes descomedido, conservava-se sem affectação, lhano e accessivel para todos. Batalhou com a espada, porque lhe batia o coração. Não emprestou o seu sangue nem a sua bravura. Era homem convicto e a sua convicção era o seu norte. Entendia a liberdade e queria-a. Confessava-se seu adepto e sujeitava-se aos seus preconceitos. Zelava a sua crença mais do que as honras postiças do mundo.

«Pelejou batalhas fratricidas. Doia-lhe o coração de levantar o braço contra os seus irmãos, mas não o pungiu o remorso de haver feito mal á patria e á humanidade. Pelejavam de manhã e abraçavam-se á tarde. Pelejavam como soldados e abraçavam-se como homens.

«Não lhe opprimia a alma recordar uma vindicta politica, um só assassinato juridico. Respondia por quanto fizéra. E apezar das contendas desnecessarias, das desavenças pessoaes, de perniciosas fatuidades, deixou a terra que o creou, regida por melhores leis que ella tinha quando lhe deu o sêr, e gosando de maiores beneficios do que disfructara quando lhe foi dado conhecel-a»[18].

São de José Estevão essas palavras. Escreveu-as apreciando o duque da Terceira, quando elle morreu, em 1860. Sómente substitui o nome do duque pelo do tribuno. Mas que admiravel exactidão na imagem!... Por fortuna nossa e dos vindouros, o caracter de José Estevão ficou ahi estampado a primor, e mais do que estampado, confessado com uma sinceridade plena. Se tão lucidamente o comprehendeu e definiu n'um estranho, foi porque no intimo o sentiu fundamente; e glorificando os irmãos no ardor civico, embora pequenos e pobres de recursos a seu lado, com a ingenuidade que é tambem condição do heroismo, porque a reflexão o enfraquece e lhe é fatal, mais uma vez colhia e entretecia os louros que lhe coroariam a fronte. Querendo apenas ser generoso, exaltado na admiração do valor alheio, fez justiça á sua propria vida.

[13] Discurso sobre o apresamento da Charles et George.

[14] Sr. Marques Gomes. L. c., pag. 115.

[15] Discursos, pag. 215.

[16] Discursos, pag. 421.

[17] Discursos, pag. 331.

[18] Vid. Sr. Marques Gomes. L. cit., pag. 146 e seg.

III

Tenhamos em lembrança a affirmação do tribuno: «Os caracteres superiores e os superiores talentos são aquelles que teem tanta perspicacia para conhecer a verdade como força para propugnar por ella».

O espirito heroico, o arrebatamento na acção e a capacidade, inumeraveis vezes demonstrada, de se lhe consagrar em corpo e alma, não podia perturbar em José Estevão a lucidez do politico; porque, «caracter superior e superior talento», lhe era tão prompta a penetração da verdade como impetuosa a energia de combater por ella. A concepção politica da organisação do estado e das obrigações dos governos, para o inteiro dominio da justiça e para o derramamento da felicidade entre os povos, formava-se e modificava-se no seu espirito parallelamente com a expansão do ardor civico; e, se este tinha de manter-se inalteravel, integro, porque de sua natureza era irreductivel, a ideia politica havia de transformar-se com a experiencia das cousas, porque é por essencia mudavel e progressiva. Um mesmo sentimento guiava, porém, e conduzia as visões do apostolo e os planos e arte do homem d'estado áquella altura em que uns e outros deviam collocar-se para serem todos igualmente grandes. O heroismo não póde significar a insensatez e excluir o respeito de condições elementares de prudencia para se tornar efficaz no bom exito dos seus propositos. Comprehendendo as difficuldades e restricções impostas á realisação dos seus sonhos pelas paixões que redemoinhavam por todas as estradas da revolução, cauteloso por incitamento previdente da propria intensidade do desejo, para evitar os escolhos da jornada, mantendo o que estava ganho e preparando novas conquistas, avançando sem comprometter a posse do terreno adquirido, José Estevão seguiu em toda a conjunctura sua estrella heroica, transigindo sem abdicar, concedendo e conciliando o impulso da aspiração com as pressões do momento, sem jámais renegar, antes de continuo proclamando a sua fé. O opportunismo, quando as circumstancias lh'o impozeram, foi sómente uma pausa na febre das suas esperanças, retraidas para se renovarem com maior vigor em ensejo propicio á victoria; nunca significou fraqueza ou desanimo, e muito menos desprendimento ou apostasia por exigencias d'um egoismo commodo. Onde o idealismo se mostrou chimera, absoluta ou transitoria, cedeu, salvando invariavelmente o que do naufragio podia salvar, com uma dedicação e coragem indefectiveis. A natural e rara ponderação do seu temperamento guardava-lhe o heroismo da degeneração em temerarias arremetidas estereis, e, em meio da exaltação, livrou-o dos perigos que M.me de Stael apontava como fataes ao renascimento das sociedades europeias turvadas e em desordem: e assim nem «proclamou os principios d'um modo excessivamente incondicional», nem, muito menos, «acceitou os factos n'um espirito d'excessiva resignação com elles».

Só a absoluta ignorancia dos acontecimentos, estreiteza manifesta d'entendimento ou uma perversão morbida do caracter propenso a enxovalhar toda a grandeza d'alma e a aviltal-a para a tornar sua igual, só essa miseria humana poderá achar contradicção entre o revolucionario destemido, o setembrista valoroso e o soldado da opposição ao cabralismo, que foi José Estevão, e o deputado, homem positivo e pratico, chamado a intervir na solução de problemas de mera mas urgente importancia administrativa, que apoiou, em 1852, o movimento chamado regeneração,--prompto, de resto, a combatel-o quando e onde se mostrou funesto, quando, pelo seu lado moral, se revelou o inicio entre nós da prevista «acceitação dos factos n'um espirito de excessiva resignação com elles», dando direito de cidade a fraquezas, medradas em volume e audacia no correr dos tempos até constituirem o deploravel imperio da corrupção, de que as gerações presentes agora colhem a ruina economica e a deshonra perante o mundo civilisado.

Quem examinar com attenção, desprendida de preconceitos e suspeitas, as affirmações de José Estevão, no primeiro periodo da sua carreira politica, e as reclamações do parlamentar, no momento em que foi necessario olhar a serio para a restauração e progresso das forças economicas do paiz, não só immediatamente comprehenderá a diversidade de objecto que em duas epocas differentes sollicitou a discussão e a applicação das faculdades do tribuno, mas verá tambem, com uma evidencia perfeita, a unidade de caracter, superior e integro, que em toda a situação o manteve no mesmo logar.

O que queria o setembrista?

Queria «uma monarchia feita por nós, levantada nas nossas lanças, monarchia que tivesse suas raizes no coração do paiz e nos degraus de cujo throno se sentassem os officiaes da hierarchia social, e não as raças que a vaidade distingue: uma monarchia bella, generosa e forte como a juventude, sensata, economica e prudente, como a edade provecta[19]»: juiz só, a julgar só; um rei só, com ministros responsaveis, a executar só; um corpo legislativo só, a legislar só»[20]; «a extincção de todas as aristocracias e a propagação da unidade social»[21]; «uma constituição popular; um rei sem arbitrio; uma representação extensa; uma familia social; nacionalidade segura; administração sem opprimir; auctoridade com confiança; centralisação com fóros; justiça com independencia; fazenda regulada; despezas com economia; tratados com industria; reciprocidade sem perdição; ordem sem enthusiasmo; e liberdade sem sophisma»[22].

Tudo isto elle queria, e por tudo isto soffreu nas fadigas o nos riscos dos campos de batalha e nas desoladas amarguras do exilio, perseguido e odiado por aquelles cujo despotismo nefasto combatia. E tudo isto elle julgou realisavel, sem muito contar com a multidão de terriveis fermentos moralmente morbidos, que sempre se insinuam em todo o movimento politico e contrariam, desfazem e annulam a tarefa d'aquelles que se propozeram moldar as sociedades em formas de belleza estreme.

O que encontrou foi a desillusão dos seus sonhos, ainda mesmo quando pareciam ter vencido e estarem prestes a dar ao paiz a fortuna por que elle anceiava. Imaginára uma perfeição moral e um equilibrio mental á sua imagem e semilhança, a mesma fé e isenção e coragem, ignorando o ser d'excepção que no seu peito habitava; e ficava prostrado de dôr, ao descobrir que esse paraiso terrestre se desvanecia, quando julgavamos abertas as suas portas, e que não havia modo de banir da nossa existencia em geral, e em particular da nossa politica, a quéda, o peccado, a baixeza explorando a generosidado e escarnecendo-a, a debilidade das resignações forçadas e os assaltos do desalento, um abysmo entre a aspiração e a realidade.

Nem o seu proprio partido politico escapava ao contagio. Quando veio a julgal-o, verificou-lhe a impotencia e confessou que «sempre o achára leal, franco, valente e guerreiro, mas mais inquieto do que revolucionario, pouco substancioso, muito musical, com muitos hymnos e com muito pouca disposição de luctar arca a arca, peito a peito, com os abusos que era do seu dever combater e destruir. Tinha vivido bastante no meio d'elle, e desgraçadamente via que o partido progressista, quando ia ao poder, não ia para pôr em execução as suas ideias, mas para mostrar que não tinha ideias»[23].

A desillusão, no pungir do seu golpe, levou-o talvez bem proximo da injustiça. Porventura atribuiu a inanidade de companheiros inconsistentes e frouxos o que era apenas a imposição cruel e indeclinavel dos factos. E estranhou e lamentou, como infelicidade e máu sestro do seu gremio, o que era desgraça commum aos agrupamentos politicos e ás cousas humanas.

Mas de todo o desastre cobrava animo. Não se quedava paralysado pelo extasi de triumphos ou desalentado pelo espectaculo d'infortunios. Porque ao fim de vinte annos de luctas politicas via reduzidas a proporções mesquinhas as conquistas do seu sonho, não cruzava os braços, abandonando o campo a inimigos, mais persistentes e activos na ruindade do que os bons nas obras de salvação. O abandono poderia ser solução para ambições ephemeras dos temperamentos vulgares; não o tolera, porém, o espirito heroico. Emquanto houver a disputar um beneficio, uma esmola, um lenitivo a tormentos, haverá eternamente motivo de combater. Hoje bate-se por uma cidade, amanhã por um castello, depois por uma choupana; hoje desembainha a espada por Deus, amanhã por sua dama, depois pelo rei, e depois ainda pelo infimo servo: jámais se convence de que o seu braço possa jazer inerte, deante do si tem continuamente visões que lhe exigem o esforço.

Em 1852 os tempos iam bem mudados do que haviam sido em 1838. As liberdades publicas e as garantias constitucionaes, embora claudicantes e mutiladas, tinham finda a jornada, acabando por alcançar nas leis do paiz os mediocres logares d'uma acanhada victoria. Mais não tinham podido conseguir, e o resto, aquillo a que debalde haviam aspirado, já não encontrava paladinos que partissem a disputal-o; de tanta vez tentado e tanta vez vencido, entrava para os mais timidos e menos credulos no rol das utopias. Comprehendia-o o tribuno, e com a sua sorte se resignava; porque elle tambem declarava bem alto, na presença dos representantes da nação, que «não estava disposto em nome de palavras, em nome de tradições, a applicar o seu fraco talento e a sua saúde a revoluções sem substancia, a ministerios sem principios e a coalisões sem necessidade. Não estava para isso. Isso não era vida para um partido forte e robusto. Preferia antes reduzir-se á sua pobre e insignificante individualidade, do que andar naquellas estafadeiras politicas em que se estragam as faculdades e não se faz nada para a causa publica»[24].

Do que agora se tratava, a exemplo do que se fazia nas outras nações da Europa mais adeantadas, era de procurar a paz e o pão para o malfadado povo portuguez, exausto de luctas vãs em que dissipava as forças e a fazenda; do que se tratava era de pôr em ordem e prospera a casa arruinada pelos devaneios de correrias politicas infecundas, restituindo-lhe muitos bens perdidos e acrescentando-lhes o valor por um cultivo mais esmerado. Pelo correr natural dos acontecimentos, a riqueza constituiu-se para nós, como para muitos outros povos, o primeiro elemento de fortuna e grandeza, e José Estevão, não desconhecendo a situação nem podendo ficar indifferente á atracção d'esse explendido crescer dos recursos economicos d'aquelle momento, persuadido de que era mister para a sua patria render-se ás condições e exigencias da nova phase do liberalismo, inclinou-se a coadjuvar aquelles nos quaes reconheceu arte para edificar o quer que fosse d'uma utilidade manifesta, duravel e fecunda, entre o marulhar tremendo da corrupção dos homens e da contingencia das cousas. O soldado tornava-se obreiro, deixaria a espada pelo alvião; e trocava-se o manto de magistrado pela blusa do trabalhador. O guerreiro surgiu-nos transformado. Mas não mudou nem de logar nem de coração, que sob todo o vestido era o mesmo, inviolavel; não se turvou a limpidez da energia moral com que manejou ambos esses instrumentos da felicidade humana, em ambas as situações e attitudes foi identico a si mesmo. «Estava a desapparecer totalmente», disse, «a geração que inaugurára a liberdade na nossa terra. Para os feitos e para os homens d'esse tempo começára já a posteridade. Á pressa, no ultimo quartel da vida, procurava essa geração resgatar o tempo perdido em banalidades revolucionarias, deixando algumas obras que lhe abrandassem a severidade dos vindouros»[25]. E elle vinha pagar o seu tributo á redempção com a mesma generosidade com que o pagára ás illusões. Tambem caíra em falta; justo era portanto que partilhasse tambem da penitencia.

No mais vivo ardor das conquistas liberaes, em 1839, prosentira já que uma segunda tarefa nos esperava; tinha bem presente a magnitude do problema economico e afigurava-se-lhe que «viver d'industria era o grande pensamento d'aquelle seculo»[26]. E dezoito annos mais tarde, em 1857, pretendia que «os homens de todos os paizes que por diversos modos estão empenhados na civilisação e no progresso, os industriaes mais activos e mais emprehendedores que querem vêr postas por obra as suas concepções... o que teem em conta são governos solicitos, que aproveitem os paizes que administram, que os fazem cultivar e produzir quanto cabe em suas naturaes faculdades»[27].

Por isso applaudiu, quando despontaram, os actos governativos que inauguravam a nova era. Louvou a creação do ministerio das obras publicas e enthusiasmou-se pelos caminhos de ferro. «A creação do novo ministerio das obras publicas e industrias applica ao fomento do paiz os cuidados e o prestimo da auctoridade publica. Isto importa a medida do governo, pois quanto existia na administração publica para promover as industrias ou abrir communicações era por tal modo desmaselado, rotineiro e burocratico, que quasi se podia dizer que aquelles interesses sociaes estavam eliminados da gestão governativa, e entregues á sua propria força, escassa as mais das vezes para lhes dar uma existencia mesquinha, e quando muito, bastante para as arrastar a esforços inuteis e desconcertos deploraveis. O caminho de ferro de Lisboa ao Porto é a maior medida que se podia tomar para imprimir nova vida a esta nação... é o primeiro manifesto de adhesão á moderna economia das nações»[28].

Da bondade e legitimidade da obra a que José Estevão agora dedicava o talento, e na qual era um trabalhador de extraordinaria importancia, não tinha duvida. O passado e o presente não se contradiziam, completavam-se. Um incidente, um novo aspecto, e passageiro, da administração e da politica nacional,--não era outra cousa a regeneração; de modo algum prejudicaria a inteireza do sentimento de quem sem reservas e constantemente consagrára á sua patria todo o coração. A simplicidade da situação moral era perfeita. E, na carta que dirigiu aos eleitores e foi escripta em Aveiro em fins d'outubro de 1852, reconheceu-a com uma lucidez e escrupulo que desvaneceriam toda a hesitação d'espiritos menos promptos em penetrar os motivos da ultima attitude do setembrista exaltado. «Senhores eleitores», dizia, «não busqueis por agora em mim o homem politico. Esse não sei se morreu em alguma das batalhas ultimamente pelejadas pela liberdade ou se come no exilio o pão estrangeiro. Quem se vos apresenta, é simplesmente um homem ingenuo e um cidadão, que julga ser util ao paiz, encaminhando os negocios do estado pela vereda que vos indicou, e que se paga de todos os trabalhos e desgostos da vida publica com a honra de merecer os vossos votos. E, para nada vos encobrir, esse mesmo homem, apezar das suas convicções profundamente democraticas, chega com as suas sympathias a um dos lados do throno. A ninguem peço venia para esta respeitosa affectuosidade, porque para todo o homem livre a religião das ideias e a dos sentimentos são dois cultos independentes e tolerantes»[29].

Quando morreu a rainha D. Maria II, José Estevão, n'um dos seus muitos impetos d'eloquencia, que eram ao mesmo tempo a apreciação das obras alheias e um exame de consciencia coram populo, a justificação do seu passado e a razão do presente, disse-nos como no seu espirito se lhe representava o desenrolar da historia politica nacional nos annos em que n'ella influira tão poderosamente; d'onde se partira, em que altura nos encontravamos e para onde convinha que nos dirigissemos. A passagem é de superior importancia para elucidação da sua vida:

«Honrada familia de liberaes, d'esses liberaes iniciadores, homens crestados da polvora, macerados de fome, amarallecidos pelas masmorras, torturados pelo exilio, e que espalhados na terra que é duas vezes nossa, uma pelo direito do berço, outra pelo direito do resgate, conservastes sempre immaculado o dogma, a doutrina, por que tanto sangue e lagrimas se derramaram! Estaes, nobre familia, bem rareada, bem reduzida, bem proxima a sair inteiramente do livro dos vivos, e entregar á nossa gente o fructo das nossas fadigas, das nossas dores e das nossas gentilezas... Mas todas estas mortes são glorias, são triumphos,--glorias, triumphos para o que ha no mundo verdadeiramente grande, alto, sublime,--a sorte dos povos e os progressos da humanidade. Foi-se o legislador e o capitão da liberdade, e a liberdade não pereceu com elle. Vae-se a rainha a cujo direito dynastico a liberdade se amparára, e a liberdade fica vivendo na sua propria vida. As instituições teem entre nós resistido por longo tempo á acção desregrada dos partidos, á ambição turbulenta dos estadistas, ao desleixo governativo, ás corrupções desaforadas, ao desequilibrio dos poderes, ás exaggerações populares, ás restricções governamentaes. As liberdades publicas, por vezes oppressas e cerceadas, quebraram afinal todas as prisões, restabeleceram todo o seu poderio, e nem mesmo nos dias de maior provação esconderam o seu direito, nem appareceu alguem que se atrevesse a negal-o despejadamente... Mas a morte da rainha é uma grande admoestação para os partidos. Façamos todos exame de consciencia, já que Deus nos avisou n'um dos poderes da terra. Os partidos tambem teem poder, tambem teem vida, e são chamados a contas. É no interior dos seus archivos, e não sobre a sepultura dos reis, que se faz o inventario das prosperidades dos povos. Acabou-se já um reinado depois do systema constitucional, e se foi pequeno para a vida da rainha defuncta, não o foi para o tempo que costumam passar no throno as testas coroadas. Que fizemos durante esta epoca? São desenove annos preciosissimos pelos acontecimentos que n'elles correram, pelas descobertas que durante elles se fizeram, pelos beneficios sociaes que se inventaram, pelas uteis emprezas que se levaram ao cabo. Aproveitámos nós todas estas vantagens, imitámos todos estes exemplos? Comprehendemos o espirito do nosso seculo? Démos ao paiz todos os melhoramentos que lhe podiamos dar? Levantámos cada classe á altura a que ella podia subir? Honrámos a geração a que pertencemos, a nação que nos deu o nome? Responda cada um a si, responda á sua consciencia que é o mesmo que responder a Deus. E seja o que temos feito aviso para o que temos de fazer... Estamos em regencia... O regente sabe melhor do que ninguem o que nos falta... Um regente plantou n'esta terra as liberdades publicas, plante outro entre nós a civilisação sem a qual ellas não podem arreigar-se nem medrar. A obra é de todos e para todos. Empenhemo-nos portanto n'ella com animo leal e resoluto»[30].

A estrada talvez se lhe afigurasse plana e facil, mas, ai d'aquelle em quem encarnou o idealismo, heroico ou sonhador! Cada esperança, cada amargura; em cada passo no caminho da aspiração o assaltam e torturam desillusões. A candura de José Estevão representára-lhe na regeneração uma empreza, honesta e chã, de fomento da riqueza, e pelos meios que a epoca aconselhava e eram manifestamente convenientes. E, sem duvida, deshonesta não era na intenção e lisura com que concedia á miseria dos homens, á satisfação de muitas das suas fraquezas, aquelle quinhão indispensavel para que se mantivessem quietas e não fossem impedimento á realisação de mais altos destinos. Um dia viria, porém, em que, pelo crescer d'influencias perniciosas, os termos d'esta perigosa arte de governar haviam de inverter-se; e, depois de se haverem empregado as fraquezas dos homens em beneficio da nação, depois de se usar a corrupção para alcançar o bem publico, aconteceria que a nação seria explorada em beneficio das fraquezas e o bem publico sacrificado á corrupção.

Portanto, errára? perguntaria ao tribuno a consciencia atribulada. E uma voz intima o tranquillisava:

«Folheio os fastos parlamentares, ás vezes sem intuito, ás vezes com o intuito certo e determinado de procurar esclarecer-me n'uma questiuncula, de saber um ou outro facto; nunca me dou a estas buscas que não traga de lá a mais intima, a maior satisfação que póde trazer um homem probo e um homem de consciencia; acho a minha coherencia, toco-a, encontro-a, sae-me a cada pagina de cada livro; e eu, tendo uma fraca memoria de todos os meus actos, respondo pela logica d'elles, porque confio no meu caracter e na minha consciencia»[31].

«Antes da dissolução da camara era equivocamente regenerador. Mas, depois da dissolução, depois que achei no governo caracter politico, entidade politica, tenção politica, plano politico, coragem e decisão de iniciativa, decidi-me e fui regenerador até que a regeneração acabou, porque hoje essa denominação de regeneração e não de regeneradores, tudo isso até certo ponto póde servir para fins mas não diz nada»[32].

Aproximava-se aquella terrivel «conformidade excessiva com os acontecimentos» que M.me de Stael promettera e fôra como uma pesada maldição. Imaginára José Estevão uma transformação politica sem perda do caracter, o cuidado e zelo dos interesses economicos sem preterição ou quebra da elevação moral, a riqueza aureolada de nobreza e isenta de toda a mancha de degradação em sordidez; e o que a situação lhe offerecia era a dissolução do caracter em proveito de fatalissimas baixezas, que iam a tornar-se invasoras e absorventes.

Não era isso que elle sonhára e esperára, porque muito nobremente considerava que «os partidos teem tanta difficuldade em viver como em envelhecer, mas o envelhecer é uma cousa que custa muito para se fazer com dignidade. Um partido tem de se sujeitar tambem a esta condição, mas envelheça com amor ás suas ideias, com amor ás suas tradições e aos seus principios»[33]. Comprehenderia a necessidade da transformação que o correr dos annos importava, foi a isso de certo que elle chamou o envelhecer e declinar; repugnava-lhe porém a apostasia, e contra ella protestava.

Naturalmente, porque em todos os agrupamentos politicos tinha sentido, juntando-se e atraiçoando-se, a perfidia e a sinceridade, a infidelidade á causa publica por cobiças deprimentes e a devoção generosa, isenta e nobre aos interesses da humanidade e do povo, desenganou-se por fim da virtude dos partidos e confiando ainda no civismo e na rectidão onde quer que habitassem, afastado da vileza dos bandos mas crendo, incorregivel, na pureza de consciencias d'eleição, invocava a união e esforço dos homens de boa vontade para salvação da patria. E na Carta aos eleitores, de 15 d'abril de 1861[34], deixou-nos esboçado este seu ultimo sonho.

«Para o futuro», dizia, «pertencerei de certo ao partido, que começa a formar-se, que já está crescido, que vive entre nós sem termos dado por tal, que nos inspira sem nós o sentirmos, e que mesmo do berço dirige as coisas publicas e domina até os homens da mais forte vontade. Este partido será um producto de todos os partidos que ora existem; ainda com um nome politico mas sem substancia doutrinal, producto alcançado, não pelo concerto de individualidades, de coalisões ephemeras, de parcerias ambiciosas, mas pela trituração da opinião publica, pela acção da consciencia universal, pela solibilidade das pequenas paixões e das importancias artificiaes no grande e irresistivel sentimento nacional, que transforma tudo quanto lhe convém assemelhar, e destróe todas as heterogeneidades que lhe resistem, ou que lhe não servem. Este partido não se parecerá em caracter com nenhum dos partidos existentes, nem se filiará nas glorias de nenhum d'elles, nem será um engenho politico incapaz d'acção propria e embargante da acção dos outros, em seu gremio ocioso e solipso, que affaste e maltrate como apostatas todos os que se não curvam ás suas idolatrias. Este partido será a ligação de todas as capacidades prestaveis para a governação publica, tendo por intuito a civilisação do paiz em todas as suas formas. Se este partido fosse obra dos homens ou a sua creação podésse ser contrariada por elles, talvez se não fizesse; mas esta ordem de cousas surge, rebenta da nossa situação.»

De desengano em desengano, chegára á condemnação do partidarismo e á sua expropriação por utilidade publica. Outra cousa não era esse derradeiro sonho d'um partido totalmente expurgado das doenças que os caracterisam, a todos, e apenas sublimado nas virtudes que por vezes os nobilitam. A grandeza da aspiração obcecava-o; e afferrava-se a procurar no mundo o que sómente dentro do seu peito existia.

Desoito mezes depois de conceber essa ultima chimera, surdo ao rumor crescente dos interesses mesquinhos e vis em que a visão liberal se dissolvia, tinha morrido.

Se vivesse, assistiria, não «á ligação de todas as capacidades prestaveis para a governação publica, tendo por intuito a civilisação do paiz em todas as suas formas», mas á desagregação da grande maioria das capacidades, determinada pela satisfação da miseria politica em todos os seus modos. Como o grande capitão da India, «mal com o rei por amor dos homens, e mal com os homens por amor do rei», José Estevão, incapaz de abdicar dos principios e aspirações que o exaltavam no anceio d'uma era politica de bemaventurança, e simultaneamente comprehendendo a necessidade, por condição humana e imposição da realidade, de tolerar e conceder direito d'existencia de portas a dentro do forum a paixões que lhe repugnavam e o incendiavam em revoltas sagradas, choraria amargamente os novos desenganos que a politica lhe reservava; e, não podendo conciliar o que é de sua natureza irreconciliavel, mal com as illusões, rainhas do seu coração, por causa do mundo que ellas haviam de regenerar e não regeneravam, e mal com o mundo, por causa das illusões cujo imperio elle havia de respeitar e incessantemente desacatava, proseguiria na fé dos apostolos e na tristeza dos vencidos.

Naufragio algum o curaria d'illusões. Haviam de renascer, e era justo que renascessem. Embora não lhes assistisse aos ultimos triumphos, assegurava-lh'os a crença e a justiça. Das que o possuiram, nascidas n'um rubor d'aurora e desfeitas muitas n'uma amortecida pallidez de crepusculo, ficaria na terra um suavissimo rasto de luz. Foram ellas, essas illusões da epopeia liberal, que, embora se dissipassem quasi estereis para as garantias da liberdade individual e para o reconhecimento das liberdades publicas, conduziram ao cumprimento de tão altos deveres de humanidade, como a abolição da pena de morte, e ao fortalecimento de tão solidas bases democraticas, como a abolição dos morgados e o regimen da pequena propriedade, efficazmente protegido pelo systema de successão e partilha adoptado pelo codigo civil. Não foi baldado o heroismo dos que por ellas combateram.