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Julião e a Biblia

Chapter 10: CAPITULO IX Novos acontecimentos
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About This Book

A narrativa segue Julião, um artesão cuja fé orienta a vida familiar e comunitária, desde a formação junto a um mestre até o casamento com Maria das Dôres e o nascimento do filho. Retrata o equilíbrio entre trabalho e devoção, simbolizado por um aviso sobre o dia de descanso, e mostra vizinhos cuja observância religiosa e participação em festas como Santo António variam. Momentos de leitura coletiva e de anúncio do Evangelho atravessam as cenas domésticas, gerando conversas, sensibilidades e tensões morais. A ação expõe questões de caridade, tradição e reputação enquanto os personagens tentam conciliar crença, ofício e laços sociais.


CAPITULO VIII
A calunia

Passaram quinze ou vinte dias desde que Julião anunciou o Evangelho em casa de mestre João. Antonia, obtendo sensiveis melhoras, havia entrado em convalescença, e, se bem que ainda fraca, costumava vir para o pateo, onde passava algum tempo acompanhada por Dôres, ambas sentadas, lendo ou conversando.

—Numa dessas tardes, depois de terem lido e meditado sobre uma passagem do Evangelho, Dôres disse á sua amiga:

—Antonia, ámanhã é o dia em que devo ir buscar os brincos.

—Ámanhã!... Eis aqui a primeira parte de Santo Antonio!... Não sei como o direi a meu pae.

—Ouve, Antonia; Julião não teria inconveniente algum em dar-nos os 600 reales que custa o concerto; graças a Deus, hoje temos essa quantia; porém alguem poderá reparar em que tratamos de enganar teus paes.

—Sim, Dôres, sim; o melhor é que nós mesmas digamos tudo a meu pae.

—E porque não dizêl-o a tua mãe? Não julgas que seria melhor?

—Não, Dôres; infelizmente, minha pobre mãe, imbuida pelos conselhos de algumas pessoas, está muito reservada para comigo; o outro dia vi-a ajoelhar-se deante de Santo Antonio, e ouvi-lhe pedir a minha morte, chorando copiosamente.

—A tua morte!

—Sim. Minha mãe julga que eu estou condenada, e, segundo pude compreender, essa crença dimana daquilo que algum padre lhe tem dito, pois que ela dizia ao Santo entre outras coisas: «Santo Antonio, peço-te que faças entrar no bom caminho a minha filha; prometo que mandarei dizer uma missa todos os primeiros sabados de cada mez, e isto emquanto eu viva, se fizeres com que minha filha volte ao seio da Egreja Catolica Romana. Porém se isto não pode ser, dá-lhe um momento de arrependimento, e depois manda sobre ela um raio da tua divina graça e leva-a para ti.»

As duas amigas guardaram silencio, profundamente impressionadas ao considerarem a oração dirigida por Brigida ao Santo. Depois de alguns momentos, Antonia disse:

—Agora chama meu pae, para lhe falarmos dos brincos.

Dôres ia chamar João, quando este apareceu no limiar da porta.

O carpinteiro tinha mudado completamente. Desde que sua filha se poz boa, recobrou o seu genio alegre; e, relativamente ás suas idéas, devemos dizer que tambem haviam experimentado alguma mudança, como já tivemos ocasião de ver.

—Passava—disse ele, sorrindo-se—da sala para a oficina, vi-as juntinhas e disse: Vamos ver de que se ocupam as duas amigas.

Antonia fez sinal á sua amiga para que principias-se a conversa, Dôres compreendeu-a, e disse ao sr. João, rindo-se:—Realmente quer saber do que estavamos falando?

—Sim, senhora.

—Mas se lhe custar cara a sua curiosidade?

—Ah! então vocês vão pôr a preço o seu segredo?

—Sim, senhor. Não o vendemos por menos de seis libras.

—Nesse caso, eu vol-as darei sem regatear.

—E nós—disse Antonia—confiamos na sua palavra.

Dôres, deixando o seu ar alegre e tomando outro mais serio, disse:

—Sr. João, deve estar muito agradecido a Deus, que lhe restituiu a sua filha. Tambem deve estar crente de que, terminando a doença de Antonia, terminaram as consequencias da vespera e do dia de Santo Antonio; porém realmente não terminaram.

—Mas a que vem esse discurso—perguntou o sr. João, acrescentando:—De vagar, de vagarinho.

—Então já que assim o quer, lá vae. Na vespera de Santo Antonio, na ocasião da dança, cairam ao chão alguns pares. Antonia tambem caiu, como sabe, e na queda perdeu um brinco de diamante, cuja compostura valia precisamente as seis libras que valia o nosso segredo.

Dôres em seguida calou-se. Mestre João ficou pensativo, e depois perguntou:

—Onde está o brinco?

—Em casa do ourives—respondeu Dôres.

—Porém tua mãe sabe-o?

—Não, meu pae; eu dei a guardar o brinco a Dôres para que o entregasse a vocemecê, se eu morresse, e, se me restabelecesse, pensava mandal-o concertar, sem dizer-lhe nada, e por meio do meu trabalho arranjar a quantia precisa para a compostura, porém Dôres aconselhou-me a que dissesse isto mesmo a meu pae.

—Bom conselho; vou dar-te o dinheiro, e eu direi a tua mãe o que se me oferecer sobre o caso; ou ela pega no santo e o põe onde eu o não veja, ou queimo-o para aquecer a cola. Não quero cá em minha casa mais santos de tal natureza. Tua mãe que vá com o santo e quantos desgostos nos tem causado. Nada, nada, para fóra de minha casa idolos de madeira. Não quero que haja aqui outra coisa senão a Biblia; isso me basta.

O carpinteiro e sua filha meteram-se em casa, e poucos momentos depois apareceu Antonia ao limiar da porta para dar o dinheiro a Dôres.

As duas amigas separaram-se sem reparar numa pessoa que as escutava, e que exclamou quando elas desapareceram:

—Que descoberta! Corro a ver se encontro o P.ᵉ Francisco para dizer-lhe o que vi e ouvi. Suas palavras eram muito misteriosas. Não, não as esqueço, e logo... lhe deu muito dinheiro, muito, muito.

Aquela que assim falava subiu as escadas com a agilidade que lhe permitiam os seus muitos anos.

Como havemos de encontrar esta personagem, vamos descrevel-a a largos traços.

Era a comadre Claudina, uma mulher que andava pelos seus setenta anos de edade. O nome com que vulgarmente era conhecida no bairro era o da tia dos enredos, e realmente que assim era. O seu prazer era falar duns e outros, e não poucas dissenções tinha causado em muitas casas. Sustentava-se esta mulher de esmolas que lhe davam.

Não implorava a caridade publica, porém sabia perfeitamente levar a vida para arranjar donativos da Sociedade de S. Vicente e outras; além disso, nunca faltava ás festas de egreja, e ali se colocava junto da pia da agua benta, que oferecia ás senhoras da fidalguia, recebendo em troca, como esmolas, algumas moedas. Além disso, fazia quantos recados lhe mandavam, levando sempre o rosario na mão. Eterna bisbilhoteira, nada se sabia da sua vida, senão o que ela dizia: que era de muito boa familia, e que nunca quiz casar-se, apezar de se lhe oferecerem vantajosas ocasiões. Deste ser tão repugnante serviu-se o P.ᵉ Francisco para se pôr ao facto da vida intima das duas familias, a de mestre Julião e a de mestre João.

A velha ouviu a conversa, e, sem saber do que se tratava, correu a casa do P.ᵉ Francisco para dizer-lhe o que muito bem lhe pareceu, porém mentindo, e por tal modo que bem se pode dizer que a ela estava reservada a condenação descrita no Apocalipse, cap. 21: 8: «e... a todos os mentirosos, a sua parte será no lago ardente de fogo e enxofre, que é a segunda morte.»

Assim que chegou a casa do P.ᵉ Francisco, disse-lhe:

—Senhor, descobri uma coisa espantosa. Esta tarde, quando vinha da egreja, de assistir á festividade das Quarenta horas, vi á porta a filha do carpinteiro com a mulher do vidraceiro. Estavam tão absortas na conversa que não repararam em mim. Eu aproximei-me, quanto pude, delas, e ouvi que Antonia dizia á sua amiga: «Ahi tens o dinheiro, e arranja tudo isso depressa. Tenho dó de meus paes! Oh! se minha mãe soubesse!...» E passou-lhe para a mão uma certa soma de dinheiro.

O sacerdote ficou pensativo por alguns instantes, dizendo por fim:

—E quanto dinheiro julga que Antonia deu a Dôres?

—Pelos modos vinte libras—respondeu a velha.

—Tanto!

—Sim, senhor, deu-lhe até oiro, que eu bem vi.

O padre despediu a velha, recomendando-lhe o maior segredo, e dando-lhe uma peseta.

Claudina esperava maior recompensa do que esta, pelo que, quando chegou á porta da rua, começou a murmurar do padre, e fez comsigo o firme proposito de contar tudo ao mestre carpinteiro.

Logo que a velha saiu, o P.ᵉ Francisco mandou chamar Brigida, e dentro de poucos momentos estava esta sentada ao lado do sacerdote, que lhe dizia:

—Acabaram de dizer-me que viram sua filha dar dinheiro á mulher do vidraceiro, uma soma bem boa.

—Minha filha! Ah! senhor! isso é uma calunia.

—Muito folgarei que assim seja.

—Sim, senhor, assim é, pois que minha filha não é uma ladra.

—Eu não disse tanto. Porém donde tirou Antonia o dinheiro que deu a Dôres?

—Tel-o-hia dado á minha filha a mulher de Julião para que o guardasse.

Esta razão de Brigida pareceu transtornar o padre. Aquilo podia ser verdade. Comtudo, disse á mulher do carpinteiro:

—Creio que não me enganaram quando me disseram isto; porém, pelo sim pelo não, será bom que vocemecê conte o dinheiro que tem em casa, para ver se lhe falta algum. Eu—acrescentou—não digo que sua filha de proposito e caso pensado a roubasse, mas podia dar-se o caso de que o fizesse aconselhada pela mulher de Julião, que é um agente dos protestantes.

Brigida despediu-se do sacerdote, e saiu em direcção de casa. Quando lá chegou, seu marido tinha saido e sua filha estava em casa de Dôres.

Sobressaltada com o que o P.ᵉ Francisco lhe havia dito, dirigiu-se á comoda, abriu uma das gavetas e tirou uma saquinha em que marido e mulher guardavam o fruto das suas economias. Despejou depois todo o dinheiro sobre a comoda e começou a contal-o.

Quando acabou, uma palidez mortal cobria o seu rosto.

—Ter-me-hia enganado!—disse ela comsigo; e tornou a contar.

Por fim, depois de contar duas, tres e quatro vezes o dinheiro, guardou-o na mesma saquinha, pôl-o no mesmo sitio, e deixando-se cair, quasi desfalecida, numa cadeira, exclamou:

—Parece-me um sonho!... Seiscentos reales! Não; Antonia não foi... ela tão boa, tão... porém D. Francisco sabe mais do que eu... sim, sim, enganaram-na. Ah! tratantes! Logo que venha João, dar-se-ha parte á autoridade, e cadeia com eles... Ah!—exclamou meio sobressaltada—e as joias que ela trazia na noite de Santo Antonio?... Onde as terá? Sim, já sei que ela me disse que as tinha na gavetinha do toucador.

A pobre mulher, meio louca, entrou na alcova de sua filha, abriu a gavetinha do toucador, e procurou com a maior anciedade. Encontrou o colar, porém faltavam os brincos.

—Mais esta ainda—exclamou.—Oh! Santo Antonio bemdito! Virgem do Amparo! Que fazer agora?... Vou já a casa do sr. padre Francisco pedir-lhe o seu conselho.

Brigida saiu, sem dizer nada em casa, em direcção da morada do padre Francisco.

Emquanto Brigida subia as escadas da casa do padre Francisco, chegava Antonia á sua, com os brincos que já Dôres havia trazido do ourives.

Seu pae já vinha perto de casa. Chegava á porta no mesmo momento em que a comadre Claudina sahia da sua.

—Guarde-o Deus, senhor João—disse a velha.

—Que Ele a acompanhe—respondeu o carpinteiro, dirigindo-se para dentro de casa.

—Senhor João—gritou a velha,—ouça uma coisa.

—Que é que tem para me dizer?

—Nada, senão que sinto muito a desgraça que acaba de o ferir.

—A mim?

—Sim, senhor... porém... já sei, vocemecê, como é tão bom, não quererá fazer-lhe mal algum... De resto, eles bem o mereciam.

—Senhora Claudina—exclamou o carpinteiro com impaciencia,—peço-lhe o favor de falar claro, que tenho pressa.

—Porém não sabe o que sucedeu em sua casa?

—Não, senhora; como vê, chego agora de fóra e...

—Pois já tenho pena de ter principiado; mas emfim... Ouvi dizer na visinhança que Dôres aconselhou sua filha a que lhe désse dinheiro, e esta tarde viram Antonia dar dinheiro a Dôres. Eu, no seu caso, metia na cadeia Julião, sua mãe e sua mulher.

O carpinteiro encarou com desprezo a velha, e dirigiu-se a casa, deixando-a á porta.

Entrando, deu as boas tardes aos seus oficiaes, e subiu logo á sala, onde achou sua filha lendo.

—Boas noites, filha—disse ele.

—Boas noites, meu pae—respondeu Antonia.—Aqui estão os brincos, que Dôres já me trouxe.

—A proposito—interrompeu-a seu pae, pegando nos brincos,—sabes que te viram dar o dinheiro a Dôres, e diz-se pela visinhança, sem duvida com má intenção, que Dôres te aconselhou a que lhe dês dinheiro.

—Santo Deus!—exclamou Antonia;—pode ser isso verdade?

—Sim, agora mesmo acaba de mo dizer a velha Claudina.

—O pae já sabe quem é essa mulher.

—Sim, já o sei; porém, quer seja ou não verdade o que ela diz, é bom estar prevenido. E tua mãe?

—Não sei; quando cheguei a casa, não estava cá.

—Parece-me que em todo este negocio anda a mão do padre Francisco. Tua mãe não está em casa, porém a roupa com que costuma sair está ali pendurada.

—Talvez que esteja aqui perto falando com alguma visinha.

—Ou então em casa do padre Francisco... Espera, vou subir lá acima ao ultimo andar, onde mora o padre Francisco, para ver se tua mãe lá está... Oh! se ela lá estiver...

—Meu pae, peço-lhe que não se deixe levar do seu genio; tenha mão em si.

—Descança, que não farei mais do que dizer a tua mãe que desça cá para baixo.

Antonia ficou orando em silencio para que Deus tivesse compaixão de sua mãe, emquanto o carpinteiro subia as escadas que conduziam ao ultimo andar, que era a morada do padre Francisco, para ver se sua mulher estava lá ou não.

Efectivamente, estava ali chorando a pobre Brigida, e escutando os conselhos do padre Francisco.

Assim que este viu o marido de Brigida, levantou-se para o receber, e, apezar da resistencia que ele opoz, obrigou-o a entrar.

O padre, quando ele entrou, fechou a porta por dentro, e, quando mestre João se sentou, disse-lhe:

—Deus certamente que lhe inspirou a idéa de vir aqui. Provavelmente ignora o que sucedeu em sua casa.

O carpinteiro num instante formou o seu plano, e disse num tom fingido:

—Vim aqui em procura de minha mulher; e estranho que ela esteja aqui, quando o seu logar era em sua casa.

Brigida não se atrevia a olhar para o marido; o sacerdote disse:

—Sua esposa veiu aqui procurar, no seio da verdadeira religião, remedio para os seus males.

—E porque, se tem algum pezar, mo não comunica a mim primeiro? Com que direito vem confiar os seus desgostos a um homem que não é o seu marido?

—Parece-me, sr. João, que duvida de sua esposa e de mim.

—De minha esposa não duvido, porém de si duvido.

—Talvez preferisse antes que sua mulher fosse aconselhar-se com o vidraceiro, não é verdade?

—Certamente; ele é um homem casado, e como pae de familia conhece o que são os pezares que muitas vezes nos torturam.

—Bom hipocrita é o tal Juliãosinho! Forte maroto.

João não pôde conter-se por mais tempo, e, erguendo-se, bastante excitado, disse:

—P. Francisco, se não estivesse em sua casa, tel-o-hia ensinado a ter cuidado com a lingua. Diga-me, o senhor que se chama ministro de Jesus Cristo: Em que pagina do Evangelho aprendeu a insultar assim uma pessoa que não está presente? Onde estão essa caridade e amor que devem revestir um ministro do Senhor? P. Francisco, muito pouco sei ainda do Evangelho, porém digo-lhe que o senhor será um ministro do papa ou do arcebispo, mas não é um ministro de Jesus.

—Repito o que ha pouco disse. Sofrerei com paciencia tudo o que disser. Com que então, porque não sou casado, não sirvo para dar conselhos a uma mulher casada? Então não pode haver religião, porque nenhum ministro é casado nem nunca o foi.

—Perdão... O senhor sabe perfeitamente que na primitiva egreja os sacerdotes eram casados, e a noite passada ouvi ler uns versiculos da Biblia a Julião, os quaes dizem que os bispos e diaconos devem ser todos casados.

O carpinteiro voltou-se para sua mulher e disse-lhe:

—Vá, vamos daqui para fóra.

—Espere um pouco, mestre; ouça lá uma historia. Ha em Madrid uns aldeãos que teem uma filha. Esta filha cae doente, muito doente. Uns visinhos, muito amigos do pae, entram-lhe em casa e aproveitam-se da confiança que depositam neles para abrir as gavetas e roubar o que encontram. Sucede, porém, que a pobre enferma... passemos por alto alguns pormenores... a enferma tem na gaveta do seu toucador umas joias que lhe são roubadas por uma sua amiga; e, como se isto não fosse bastante, apenas se restabelece, a sua amiguinha a seduz para que roube seus paes, e hoje os visinhos da casa em que vivem viram a joven, ainda mal convalescente, entregar á sua amiga uma boa soma. Conhece as personagens desta historia?

—Sim, senhor.

—Continuará a crêr na sinceridade religiosa de Julião e sua familia?

—Mais do que nunca—exclamou com exaltação o carpinteiro.

Brigida e o P.ᵉ Francisco entreolharam-se, possuidos de grande surpreza.

—Mais do que nunca—prosseguiu mestre João,—porque conheço o infame caluniador que sómente trata de perder um honrado pae de familia.

—Senhor João!...

—Senhor P.ᵉ Francisco, prudencia, e escute-me como eu o tenho escutado. Na vespera da festa que tantas desgraças acarretou a minha familia, minha esposa adornou minha filha com as joias que eu lhe dei no dia do nosso casamento. Quando minha filha dançava perdeu uns diamantes dos seus brincos, e, prescindindo eu tambem dalguns pormenores, direi que minha pobre filha entregou esses brincos a Dôres para que os mandasse concertar se ela se restabelecesse, e para que mos entregasse, se morresse. Minha filha julgava que Dôres adeantava o dinheiro, pagando-lhe ela a pouco e pouco. Dôres, porém, por ser sua amiga, aconselhou-a a que me contasse tudo.

«Assim o fizeram, e esta mesma tarde lhes entreguei o dinheiro que custou a compostura. Veja como tão cruelmente caluniaram uma familia honrada, tão sómente porque o senhor ou outra qualquer pessoa viu minha filha dar o dinheiro á sua amiga. Sabe agora qual é o seu dever? Quer cumprir com o dever que o seu ministerio lhe impõe?

—Eu o que creio é que vocemecê está contando uma historia para salvar o vidraceiro. Aposto que não aparecem os brincos.

Mestre João, já meio fóra de si, levantou-se de novo, e, tirando do bolso um pequeno embrulho, disse:

—E chama-se ministro do Senhor! Não, e mil vezes não. Não o é.

Abriu o embrulho, tirou de dentro uma caixinha, abriu-a, e mostrou os brincos, cujas pedras, sob a acção da luz do candieiro, brilharam intensamente, ferindo a vista dos circunstantes. Então o carpinteiro, voltando-se para sua mulher, disse-lhe:

—São estes os teus brincos?

—São—respondeu Brigida, depois de os ter examinado.

—Então, P.ᵉ Francisco, sabe agora qual é o seu dever?

—Qual?

—Como cristão, como sacerdote, deve descer e pedir perdão a Julião, a Dôres e a minha filha, que tão cruelmente caluniou.

—Pedir perdão! Vocemecê está louco! Quem são eles para me perdoarem?

—Não quer pedir perdão ás pessoas ofendidas?

—Não.

—Pois ámanhã terá de ser chamado á presença do juiz.

João guardou as joias, e, voltando-se para sua mulher, disse-lhe:

—Já vês que classe de gente é esta. Eles exigem aos outros o que eles não querem fazer. Espero que terás emenda.

Dito isto, saiu atraz de sua mulher.

P.ᵉ Francisco ficou sem saber o que dizer.


CAPITULO IX
Novos acontecimentos

Logo que chegaram a casa, João, dirigindo-se a sua filha, disse-lhe.

—Vês como não me enganei? Vês como a mão do padre andava metida neste negocio?

—O que se passou?—perguntou Antonia a seu pae, deixando o livro que estava lendo.

O carpinteiro contou a sua filha tudo o que tinha sucedido, e ao terminar disse:

—Se tua mãe não tomar emenda com isto, digo-te que não tem juizo. Com relação ao padre, vamos chamal-o á presença da autoridade.

—Meu pae—disse Antonia,—grande é o poder de Deus, e, como Ele disse, a mentira não pode permanecer. A respeito de fazer mal ao padre Francisco, creio que Julião não permitirá isso, pois Jesus perdoou na cruz e orou mesmo pelos Seus proprios algozes, e Ele mesmo disse: «Abençoae aqueles que vos amaldiçoam; e orae por aqueles que vos caluniam.

Dito isto, saiu mestre João.

Brigida permaneceu calada, e Antonia deu razão ao que seu pae acabára de dizer, exprimindo-se assim:

—Sim, minha mãe não seja insensata, procurando a salvação por um outro caminho, que certamente a conduzirá á perdição. Como pôde escutar, sem se exaltar, a voz que lhe disse: «Sua filha é uma ladra»?

—Ai! minha filha! Eu nunca cri nisso, porém já vês que me faltava o dinheiro, faltavam-me os brincos, e já podes calcular que desconfiava de que alguem nos tivesse roubado. Porém tu me perdoarás, não é verdade?

—Como!—exclamou Antonia—eu perdoar-lhe! Demos graças a Deus e peçamos-Lhe que, do que acaba de suceder, resulte um grande beneficio para a sua alma.

Entremos agora em casa de Julião.

Deve ter ali sucedido alguma coisa de extraordinario, e, para nos inteirarmos do que se está passando, escutemos o que mestre João diz ao seu visinho:

—Mas o que ha?—perguntava João ao seu visinho.

—Que minha mãe tem uma pneumonia.

—Porém que diz o medico?

—Diz que por emquanto não pode emitir opinião segura: porém disse-me que estivesse preparado para tudo.

—Não faça caso; os medicos dizem sempre isso.

—Cumpra-se a vontade de Deus.

Depois dalguns momentos de silencio, o carpinteiro disse:

—Não sabe o que sucedeu?

—O que foi?

João contou a Julião tudo o que havia sucedido, e tudo o que dele se havia dito.

Quando Julião ouviu que o visinho tratava de levar o assunto aos tribunaes, respondeu:

—De modo nenhum, sr. João. Jesus, meu Mestre, jámais fez tal coisa; ao contrario, em vez disso, manda que eu peça por aqueles que me caluniam e dizem mal de mim. O P. Francisco poderá lançar mão de tudo para fazer-me mal, mas se Deus está comigo quem será contra mim?

—Foi isso mesmo o que disse Antonia; porém isso não é para o meu caracter; pela minha parte, o meu desejo e a minha vontade eram castigar o P. Francisco.

—Diga-me, sr. João: sabe o Padre Nosso?

—Sim, senhor.

—E costuma rezal-o?

—Pelo menos todos os domingos na egreja.

—Pois no proximo domingo não o reze; pois que, quando chegar áquelas palavras, «Perdôa-nos as nossas dividas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores», pedirá a Deus, a quem vocemecê é devedor, que lhe perdoe como está disposto a fazer ao P. Francisco. Jesus disse: «Mas, se não perdoardes aos homens as suas ofensas, tão pouco o vosso Pae vos perdoará as vossas».

—O visinho tem sempre maneira de me convencer.

—Não, meu amigo, a palavra de Deus é que o convence.

—Agora vou pedir-lhe um favor, e é que me permita que eu ponha á sua disposição tudo o que houver em minha casa e de que sua mãe precise.

—Muito obrigado, em breve nós o incomodaremos. Todavia ainda não chegou a ocasião de incomodar ninguem, a não ser o ministro da nossa egreja, a quem já mandámos chamar.

—Como! Tão perigosa está sua mãe!

—Não, senhor; porém não devo aguardar que ela esteja nos paroxismos da morte para que lhe falem de Jesus, seu Salvador.

João saiu, e Julião fechou a loja.

Assim que o carpinteiro contou em sua casa o que se estava passando em casa do visinho, Antonia, que se ia deitar, mostrou desejos de ir a casa de Dôres, e, como não houvesse ninguem que podesse dissuadil-a de tal, pois que ainda não era de todo bom o seu estado de saude, ela e seus paes, depois de fechada a loja, foram visitar Josefa.

Quando iam a entrar, chegava tambem um sujeito que batia á porta.

Julião foi abrir, e, ao ver esse sujeito, tirou o bonet, que costumava trazer em casa, e saudou-o respeitosamente, dizendo-lhe:

—Boas noites, sr. ministro.—E em seguida aos seus visinhos:—Boas noites, senhores.

Entraram todos, e chegados á sala, depois de trocados os primeiros cumprimentos, o ministro, dirigindo-se a Julião, disse-lhe:

—Então que ha, amigo Julião?

—Minha mãe tem uma pneumonia, e desde que caiu doente não cessa de chamar pelo senhor.

—E posso vêl-a?

—Sim, senhor; tenha a bondade de entrar na alcova.

Entraram todos.

O ministro, chegando-se junto do leito e inclinando-se um pouco para a doente, disse em voz baixa:

—«A graça de Nosso Senhor Jesus Cristo seja comsigo, irmã.»

—Ah! é o sr. ministro?—exclamou a enferma, procurando erguer a cabeça.

—Sim, sou eu, porém esteja quietinha. Como está?

—Muito mal e muito bem.

—Vejamos; queira explicar-se.

—Senhor ministro; sinto-me bem, porque creio que muito em breve irei ver o meu Jesus, e sinto-me mal, porque sofro muitissimo no corpo.

Seguiram-se alguns momentos de silencio, findos os quaes disse o ministro:

—Diga-me, querida irmã, se o Senhor a chamasse á Sua presença neste momento, estaria preparada para se apresentar diante d’Ele?

—Oh! sim, senhor. Eu sou uma grande pecadora, porém sei que o sangue de Jesus purifica de todo o pecado. Uma coisa me aflige, sr. ministro, e é o saber que tenho sido ingrata desprezando o amor e a graça de Deus.

—Senhora, o perdão de Deus não tem limites, e Jesus morreu no Calvario, dando a Sua vida pelos proprios ingratos. Agora o que é preciso é que confie no que Ele disse: «Não temas; crê sómente, e serás salva».

—Assim o faço, senhor.

—Pois então esteja certa de que aquilo que agora sofre não é mais do que a preparação para uma coisa melhor.

—Assim o creio; morrer é viver, porque é passar para uma outra vida em que não haverá mais morte.

—Se é do seu agrado, vou ler-lhe alguns versiculos da Palavra de Deus.

—Sim, sim.

O ministro tirou do bolso uma Biblia, e, folheando-a, disse.

—Leiamos o cap. 11 do Evangelho segundo S. João, desde o versiculo 1 até ao 45.

Todos estavam suspensos dos labios do bom servo de Deus.

As cinco pessoas que estavam presentes pareciam nem sequer respirar. A enferma, essa parecia não sentir as dores que a torturavam; seguia até o movimento dos labios do ministro.

Era evidente que o Espirito Santo estava naquela alma.

O ministro, quando acabou de ler, disse:

—Meus amigos, e minha irmã enferma, pouco posso acrescentar áquilo que acabei de ler; sómente desejo que fixem a sua atenção, e especialmente a querida irmã Josefa, nos versiculos 4 e 25; em que Jesus diz: «Esta enfermidade não é para morte, mas para gloria de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela.» «Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; aquele que crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá.» A estas palavras, o Senhor ressuscitou a Lazaro, precisamente porque Jesus é a ressurreição e a vida. Nós estavamos mortos em nossos delitos e pecados, porém veiu Jesus, que é a vida, e cada um que crê n’Ele é um Lazaro levantado do sepulcro. Por essa mesma razão S. Paulo exclama: «Onde está, ó morte, o teu aguilhão?... Graças sejam dadas a Deus, que nos deu a vitoria por Nosso Senhor Jesus Cristo.»

—Ah!—exclamou a senhora Josefa—quanto bem derramou o senhor, com essas palavras, na minha alma!

—Então demos graças a Deus.

Todos tomaram uma atitude reverente, e, ao cabo dalguns segundos, ouviu-se a voz do ministro, que dizia:

«Oh! Senhor, nosso Deus! Tu dás a saude, e Tu dás a enfermidade. Tu dás a morte, porém tambem depois da morte uma vida que nunca acabará. Senhor, acabamos de escutar as palavras consoladoras de Teu Filho Jesus; concede, Senhor, que elas dêem consolação á tua serva que está doente. Sara-a, Senhor, abençôa-a, aumenta a sua fé em Jesus, e o amor para comtigo, e, se fôr do Teu agrado chamal-a a Ti, prepara-a para isso. Ouve-nos, Senhor, pelo amor de Jesus Cristo, Amen.

Amen—repetiram todos.

A enferma começou a delirar, em virtude da intensidade da febre.

Neste momento, Julião, inclinando-se para sua mãe, perguntou-lhe:

—Como está, minha mãe?

—Dentro em pouco não haverá para mim nem dôr, nem aflição, nem morte... Tudo estará acabado... e eu com Jesus no céu, e Jesus comigo...

—Não falem com ela—disse o ministro;—está sob o dominio da febre.

Fez-se um profundo silencio, e depois ouviu-se a enferma, que com voz debil dizia:

—Vejo um logar magnifico... ali ha um Cordeiro... vêdel-o? vêdel-o? É o Cordeiro de Deus, que tira os pecados do mundo.

A enferma, depois duma breve pausa, exclamou:

—Tenho sêde.

Dôres embebeu uma pequena esponja num liquido que tinha num copo, e chegou-lha aos labios, chupando ela com avidez.

Seguiu-se outra pausa; o delirio aumentava, e tornou a ouvir-se a voz da enferma:

—«A Jehovah chamei, estando em angustia, e Ele me respondeu...» «Jehovah, ouve a minha oração e chegue o meu clamor á Tua presença...» «No dia da minha angustia Te chamarei, porque Tu me respondes...» «Porque a minha alma está cheia de males... e a minha existencia... proxima do sepulcro...» «Agora, pois... nenhuma condenação ha... para os que estão em Cristo Jesus.»

—Feliz delirio—exclamou Julião em voz baixa;—ele te faz gozar antecipadamente da presença de Jesus, teu bemdito Salvador!

Dôres e Antonia choravam em silencio.

—Senhor!—disse com voz debil a enferma, dirigindo-se ao ministro:—Sinto que morro.

—Bemaventurados—disse o ministro—os que morrem no Senhor.

—Eu sou uma grande pecadora.

—Pois precisamente porque todos somos grandes pecadores é que morremos... O estipendio do pecado é a morte... Porém o bom Deus, que não quer a morte do pecador, mas sim que ele se arrependa e viva, eis que á raiz do pecado promete um perdão, dizendo: «Se o Meu povo se humilhar, e orar e procurar o Meu rosto, e se converter dos seus maus caminhos, então Eu o ouvirei desde os céus e perdoarei os seus pecados.» «Se os vossos pecados fôrem da côr da escarlata, ficarão brancos como a neve; se fôrem roxos como o carmezim, ficarão como a branca lã.»

—Eu tenho sido muito pecadora—disse Josefa, profundamente comovida.

—Jesus Cristo—continuou o ministro—veiu salvar os pecadores. Ele mesmo disse: «Não vim chamar os justos, mas sim os pecadores.»

Vou ler o capitulo 5 da Epistola de S. Paulo aos Romanos.

O ministro leu-o, e tal impressão produziu, tanto nos circunstantes como na enferma, que era profundissimo o silencio que reinava ali.

Evidentemente o Espirito do Senhor estava ali. Os textos que mais chamaram a atenção de Josefa foram: «Justificados, pois, pela fé, temos paz com Deus por meio de Jesus Cristo, porque, sendo ainda pecadores, morreu Cristo por nós; logo muito mais agora, que somos justificados pelo Seu sangue, seremos salvos por Ele da ira; porque, se, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de Seu Filho, muito mais, estando reconciliados, seremos salvos por Sua vida.»

—Oh!—exclamou a enferma—confio em Ti, bom Jesus, confio em Ti. Tu me salvas, Tu me redimiste para Deus com o Teu sangue.

—Deseja que oremos?—perguntou o ministro.

—Sim, sim, senhor, oremos.

O ministro levantou-se da cadeira, no que foi imitado pelas pessoas presentes, ficando os visinhos bastante surpreendidos, por ser a primeira vez que presenciavam semelhante coisa.

—Oh Senhor!—exclamou o ministro com voz solene.—Perante um espirito prestes a abandonar a materia, perante um corpo que vae descançar, porém cuja alma vae viver, não podemos deixar de louvar e bemdizer o Teu nome. Senhor, ainda que Tu não tenhas necessidade disso, nós vamos recordar-Te as Tuas promessas, pois que nisso encontramos grande consolação. Tu enviaste Jesus Cristo ao mundo, para que todo aquele que n’Ele crê não pereça mas tenha a vida eterna. Oh bom Deus, cumpre esta promessa na pessoa enferma por quem Te suplicamos. Teu Filho Jesus disse: «Eu sou a ressurreição e a vida; aquele que crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá». Senhor, infunde a fé de Jesus Cristo na enferma por quem Te rogamos. Tu prometeste arremessar para as profundidades do mar os pecados daqueles que confiam em Jesus; que isto seja assim para comnosco, e em especial para com a nossa irmã enferma. Dá-lhe fé, para que ela tenha animo para o tranze por que está passando; saude, se lhe convem, e sobretudo uma abundante efusão do Teu Santo Espirito. Oh! Deus, pelos merecimentos de Jesus, concede-nos isto... Amen.

Amen—repetiram todas as pessoas ali presentes, verdadeiramente impressionadas.

—Senhor—exclamou Josefa, em voz fraca,—tenho a certeza de que Jesus está á cabeceira do meu leito, com os braços abertos, aguardando a minha alma.

—Sim, minha irmã—disse o ministro.—Jesus está aguardando-a para a conduzir á presença de Seu Pae, para receber a corôa de justiça que Ele adquiriu para si por meio do Seu sangue. Não esqueça que Jesus disse: «Não vos hei de deixar orfãos; virei ter comvosco. Eu sou a ressurreição e a vida; aquele que crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá.»

E, tendo dito isto, fez sinal de se retirar.

—Vá com Deus, senhor ministro—disse Josefa, procurando erguer a cabeça:—que o Senhor o abençôe, assim como a sua congregação; se quando voltar já tudo tiver acabado para mim..., recomendo-lhe meus filhos...

Josefa não poude continuar. Um ataque de tosse não lhe permitiu falar, e, quando socegou, o ministro, depois de dirigir algumas palavras de consolação á familia, saiu.

Depois dalguns momentos de silencio, Josefa chamou.

—Que deseja, minha mãe?—perguntou Julião.

—Traze-me cá o menino—respondeu ela com voz quasi ininteligivel;—quero dar-lhe o ultimo beijo.

—Minha mãe, socegue. Para que afligir-se se todavia...

—Não, meu filho, esta lampada vae apagar-se; não trateis de infundir-me esperanças. Para que quero viver, se Jesus me espera?... Trazei-me o meu neto.

Dôres entrou na alcova, levando nos braços o menino adormecido.

Ajudaram a levantar a enferma, que ficou por alguns momentos encostada a umas travesseiras, e tomou o menino nos braços.

Extraordinario contraste! A vida nos braços da morte!

—Está a dormir—disse Dôres.

—Não importa—respondeu Josefa;—traze-me... traze-me cá uma luz, quero vêl-o bem á vontade... a lamparina não dá bastante luz.

Uma das pessoas presentes foi buscar um candieiro.

A enferma ficou durante alguns momentos contemplando o menino.

—Oh!—exclamou—assim devia dormir Jesus quando era menino... Desejaria vêl-o acordado, e que se risse para mim. É tão doce o sorriso duma creança!

Naquele instante o menino abriu os olhinhos, cujas finissimas palpebras haviam sido feridas pela forte luz do candieiro.

O pequeno Paulo olhou para um lado e para outro e começou a sorrir-se.

—Oh!—exclamou Josefa.—Que bom é Deus, que me concede até as consolações dos pequeninos!

Em seguida beijou Paulo, dizendo:

—Senhor, abençôa este menino e prepara-o para o Teu serviço por meio de Jesus.

Tornou a beijal-o e entregou-o a Dôres.

Ás quatro horas da manhã a febre havia desaparecido.

A enferma, mais aliviada, chamou seus filhos, que entraram na alcôva.

—Chamo-vos—disse ela—porque vou para a minha morada.

Julião e Dôres choravam em silencio.

—Porque choraes?—perguntou ela.—Vou viver com Jesus, e ali vos espero. Podereis desejar-me coisa melhor do que esta?

—Minha mãe—disse Julião,—minha querida mãe, nós amamol-a tanto que não podemos deixar de sentir a sua falta.

—Não tendes nada que sentir... Escutae os meus ultimos conselhos.

A enferma tinha entre as suas mãos as mãos de seus dois filhos.

Depois duma curta pausa, Josefa falou assim:

—Meus queridos filhos, lembrae-vos de mim... Sêde fieis á fé do bom Jesus, para que vejaes vir a morte com a mais completa tranquilidade. Educae o vosso filho no amor de Deus... Ah!... todo o carinho que me tendes a mim transferi-o para ele... Amae-vos muito, muito, muito. Orae ao Senhor, e agora recebei a minha benção.

Julião e sua mulher ajoelharam-se, e a velha, voltando-se, ainda que com custo, para o lado em que eles estavam, estendeu a mão sobre a cabeça deles e disse:

—Senhor, por amor de Jesus, rogo-Te que abenções meus filhos. Que o amor de Deus, a graça de Jesus Cristo e a comunicação do Espirito Santo seja comvosco. Amen. A morte começa a vir... já a sinto. Sim, sim, minha amiga, vem, vem, aproxima-me de Jesus... Dizem que a morte é horrivel... Oh! não! Quão bela me parece!

Todos choravam.

A moribunda prosseguiu:

—Não choreis, mas alegrae-vos... Julião, meu filho, não te aflijas... Hoje é domingo: no domingo vou para o céu; oh! que domingo mais ditoso vou passar ao lado de Jesus!... Quando tinha saude, reunia-me com os irmãos na egreja... Hoje me reunirei com os anjos e santos no céu... Ouvi o meu ultimo desejo... Quando pela manhã vier o ministro, rodeae o meu corpo e fazei aqui um pequeno culto. Agora dae-me um beijo.

Julião e sua mulher beijaram a enferma.

Depois, com as mãos de seus filhos entre as suas, disse:

—Já está aqui; vejo a Jesus, que estende para mim os Seus braços... Vou para Ti, doce esposo da minha alma. Adeus, amigos... Adeus, Dôres... Adeus, meu filho... Jesus... rece...be... meu espiri...to...

A enferma, que havia erguido a cabeça, pousou-a de repente sobre a travesseira.

Um grito unanime ressoou na habitação.

—Adeus, minha mãe—exclamou Julião com o coração partido de dôr.—Adeus, minha querida mãe. Goza em paz o descanço eterno... O Senhor o deu, o Senhor o tirou... bemdito seja o nome do Senhor.