CAPITULO X
De corpo presente
Passados os primeiros momentos de confusão, que sempre sucedem num caso como o que acabamos de presenciar, Julião, com uma tranquilidade de espirito admiravel, principiou a dispôr tudo o que era preciso para as ultimas homenagens que devia tributar áquela que fôra sua mãe.
Ás oito horas da manhã, um grupo de mulheres estava conversando num dos corredores, e, antes de entrarmos no quarto mortuario, escutemos o que dizem.
—Sabem vocês o que sucedeu?—dizia uma das mulheres.
—Sim—respondeu uma delas;—morreu a mãe de mestre Julião.
—Sim, morreu! exclamaram todas, menos uma que disse:
—Pois não senti vir o Viatico.
—É claro—disse outra—que não veiu o Viatico; pois que a defunta não se confessou nem sequer recebeu a extrema unção.
—Jesus, Maria, José!—exclamaram todas em côro.
—Pois não sabem vocês que ela era protestante?—disse a primeira que falou.
—Ah!!...
—Os protestantes não comungam nem se confessam.
—Então morrem como cães?
—Sim, senhora.
—Sabe a visinha o que fazem?—disse uma;—eu presenciei-o quando Antonia esteve doente. Lêem um livro a que chamam a... a... Biblia. E na verdade que esse livro tem coisas muito bonitas: fala de Deus, de Jesus Cristo e...
—Por muito bom que isso seja—interrompeu outra,—não se confessar a gente e não comungar é mau. Pelo menos deviam fazel-o á hora da morte. Eu, pela minha parte, não sou daquelas que comem com os santos; desde que me casei, e já lá vão vinte anos, que não tornei a confessar-me; porém á hora da morte não passarei sem o fazer. Deve forçosamente ficar com cara de excomungada, essa gente, depois de morta!
—Sim, sim, ficam negros como o carvão.
—Porém ainda não sabe o melhor—acrescentou outra.
—O que é?—perguntaram as outras com interesse de o saberem.
—É que, se não comungam, não querem, em compensação, que os seus mortos morram á fome.
Uma ruidosa gargalhada soou no corredor.
—Porém, se estão mortos—disse uma,—como hão de morrer de fome?
—Pois ouça—disse um tanto irritada a outra;—eles crêem que depois de mortos comem, e por isso põem-lhes no caixão um pouco de presunto, uma garrafa de vinho e dois pães.[1]
—Ah!—exclamou uma—isso não é verdade. Quando o padre protestante veiu ajudar a sr.ª Josefa a bem morrer, eu estava em sua casa, e ouvi-lhe dizer umas coisas muito bonitas... e... por tal modo o disse que nos fez chorar.
—Isso não é motivo para que eles não creiam que os mortos comem; olhe a visinha: no outro dia leu meu marido um livro intitulado O monstro das sete cabeças, que dizia que ha uma nação, lá muito longe, em que se crê que os mortos veem do outro mundo a este chupar o sangue dos vivos; chamam-lhe lam... lam... vampiros.
—Sim, sim, eu não os vi, porém sei que os protestantes metem no caixão do morto o que já disse.
—Porém—disse uma—para que mais questões sobre este assunto? Vamos ver a morta e dissiparemos estas duvidas.
—Sim, sim—exclamaram todas.
No mesmo instante dirigiram-se a casa de Julião.
Vamos nós tambem com elas.
Quando alguem se aproxima do logar onde ha um cadaver, parece que se respira uma certa atmosfera glacial. Ao mais indiferente e ao mais frivolo oprime-se-lhe o coração.
Quando as mulheres entraram na sala, havia nela varias pessoas, entre as quaes estavam Antonia, sua familia, Julião e Dôres.
Um profundo silencio reinava ali.
No meio da sala, e sobre uma mesa coberta com um pano de baeta negra, estava um caixão, e dentro dele o cadaver de Josefa vestido de preto, o que fazia ressaltar a brancura dum lençol que havia de servir de sudario, e que estava agora estendido ao lado do caixão.
O cadaver tinha na cabeça uma touca engomada e adornada com uma linda renda, o que lhe dava ao rosto um aspeto agradavel.
Nenhum sinal havia imprimido a morte naquele rosto, que estava branco como o arminho, sulcado de veneraveis rugas, com os olhos naturalmente fechados, os labios ligeiramente entreabertos, como se ainda respirasse, e, a não ser pela falta de movimento no peito, qualquer pessoa teria dito que Josefa estava dormindo um sono tranquilo.
Em suas mãos, estendidas naturalmente, tinha uma sempre-viva, e em seu peito seus filhos haviam colocado um amor-perfeito, como a ultima e eterna recordação que os acompanharia durante toda a sua vida.
Entretanto as mulheres que tinham ido ali com o proposito de ver o presunto, o pão e o vinho esforçavam-se inutilmente por descobrir aqueles objetos. Porém tudo foi em vão.
Mas, se não viam a comida nem a bebida, descobriram em troca outra coisa não menos importante. A sr.ª Josefa não tinha luzes!!!
Uma nova personagem entrou na sala, acompanhada duma mulher, um homem e uma creança—uma familia das relações intimas de Julião e sua mulher.
Quando apareceu na sala, passou-se uma scena de lagrimas que não tentaremos descrever.
Depois de darem desafogo ás lagrimas, aproximou-se do caixão essa pessoa que havia entrado, e que era o ministro. Depois de contemplar por alguns instantes o cadaver, disse:
—Ditosa tu, que estás agora gozando as delicias eternas na presença do Senhor.
—Não é verdade, sr. ministro—disse Julião—que o rosto de minha mãe não ficou desfigurado?
—Não; parece melhor do que quando estava doente. A que horas morreu?
—Ás cinco.
—Quaes foram as suas ultimas palavras?
—Jámais as esquecerei!... «Senhor Jesus, recebe o meu espirito.»
Houve uma pequena pausa. Por fim, o ministro disse:
—Vamos agora celebrar um pequeno culto, deixando os que já dormem no Senhor para nos ocuparmos de nós, que ainda peregrinamos pelo mundo. Meus amigos—acrescentou, dirigindo-se aos circunstantes—vamos celebrar o dia do Senhor.
Depois, tirando do bolso um livro de hinos, com não pouca surpreza da maior parte das pessoas presentes, cantaram tres estrofes do seguinte hino:
As vozes do cantico atrairam para a casa de Julião as atenções da visinhança, e por tal modo que se encheu a sala, e era grande o numero de pessoas que escutavam á porta e no passeio aquilo que para eles era uma grande novidade.
Como temos de falar do culto que se celebrou quando tiraram o cadaver de casa, passamos por alto este que ali se realisou, contentando-nos apenas com dizer que todos os que ouviram ficaram extremamente comovidos, e realmente aquela morte serviu para a vida de muitos que até então nada sabiam do nome de Jesus.
Terminado o culto, o ministro saiu, os visinhos foram-se retirando, fazendo comentarios, porém tão grande é a ignorancia que, todavia, não faltavam mulheres que dissessem:
—Não lhe pozeram no caixão nem o presunto, nem o vinho, nem os pães, mas certamente que o farão quando o cadaver sair de casa.
CAPITULO XI
Um culto funebre
Ao cair da tarde do domingo de que nos ocupámos no capitulo anterior, um grande numero de pessoas sahia da casa do nosso amigo Julião.
A maior parte das pessoas que foram ver o cadaver, depois que sahiam, ficavam á porta ou na rua, formando pequenos grupos.
Quasi todos os que ali estavam reunidos eram membros da egreja a que Julião e sua familia pertenciam.
O ministro, ao terminar o culto daquele dia na sua egreja, anunciou do pulpito que tinha falecido uma irmã em Cristo; disse onde morava, a hora a que devia realizar-se o enterro, e por isso se achavam ali tantas pessoas reunidas.
A aglomeração de gente chamava a atenção e atrahia um grande numero de pessoas.
Como era muito natural, entre a multidão não havia conformidade de idéas ou de crenças, e por isso não era raro ouvirem-se dialogos mais ou menos burlescos ou sérios, mas que denotavam a mais completa ignorancia ácerca das Escrituras, e o fanatismo por parte duns e o conhecimento mais ou menos profundo delas por parte doutros.
Ouçamos alguns desses dialogos.
—Que enorme quantidade de gente que vem ao enterro da protestante!—dizia uma mulher a outra.
—Sim—respondeu ela.—Vem muita gente. Serão todos amigos de Julião?
—Não; veem para fazer numero e para que se diga depois que ha muitos protestantes em Madrid.
—Ouçam lá—interrompeu outra mulher das que estavam no portal, e que ouvira a conversa,—nós que estamos aqui não viemos para fazer numero, mas sim porque nos amamos uns aos outros, como Cristo nos amou.
As duas visinhas ficaram por um momento silenciosas, fitando de alto a baixo a mulher que havia interrompido a conversa. Por fim uma delas disse:
—E diga-me, minha senhora: neste enterro dão velas?
—Não, senhora, porque não precisamos de velas.
—Como se meteu na nossa conversa julguei...
—Quê?
—Que davam velas.
—Pois já fica sabendo que não.
—Parece-me que a senhora é uma dessas agentes do protestantismo que andam a arranjar pessoas para a seita; porém advirto-lhe que aqui perde o seu tempo, porque, pelo que respeita a nós, nem a senhora nem ninguem nos engana. Vá, amigasinha, vá divertir-se no enterro, e passe muito bem.
Entretanto, um homem, já de edade avançada, discutia na rua com varios jovens que o rodeavam.
—Sim, senhores: entre nós, quando um irmão morre, somos nós mesmos que o conduzimos e o enterramos com as nossas proprias mãos, sempre na terra, porque nos cemiterios evangelicos não ha nichos, nem galerias, para os cadaveres, e que custam dinheiro; de modo que quem entra num cemiterio catolico pode muito bem figurar-se que está lendo os preços dos logares dum teatro, onde o rico se assenta num camarote, e o pobre vae para a geral.
—Isso é muito natural—disse um.
—Não o julgo assim; pois, ensinando-nos os padres que uma das obras de misericordia é enterrar os mortos, são eles proprios que levam dinheiro.
—Ouça lá—interrompeu outro,—tambem muitas vezes enterram de graça.
—Sim!—exclamou o velho—bonito enterro, não tem duvida! Comparemos. Morre qualquer pessoa que deixa, por exemplo, uns dois mil duros. Então a egreja, que é de todos, se converte no patrimonio dum. Ao longo das naves colocam bancos cobertos de pano preto; acendem-se todos os altares; as luzes, em volta da eça, não teem numero; no côro cantam-se os hinos proprios, acompanhados por uma orquestra, que á noite terá de servir no teatro; os sacerdotes trajam as suas mais ricas vestes e... que sei eu quantas coisas mais; os padres cantam com toda a força dos pulmões, os meninos do côro correm alegres dum lado para o outro: o sacristão anda numa roda viva: o defunto é gordo e... tanto basta... Porém morre um pobre. Pois então a coisa muda completamente de figura. Uma mulher miseravelmente vestida dirige-se a casa do pároco, e diz-lhe, entre lagrimas e soluços, que lhe morreu seu marido, seu pae ou seu irmão; o padre toma nota das indicações que a mulher lhe dá, porém quando vem a saber que é pobre e que tem de fazer o enterro por caridade, diz-lhe que se retire, e que á hora aprasada lá irão buscar o cadaver. Ora, porque o padre tem que fazer, não vae a casa do defunto; os doridos pedem aos visinhos que o acompanhem ao cemiterio; estes assim o fazem, e, quando lá chegam, aproxima-se o padre, que diz um tal latinorio qualquer, deita-lhe uma hissopada de agua, a que chamam benta, e retira-se. Ora diga-me: É isto uma obra de misericordia? Onde está aqui a caridade?
—Que divertido é o velho!—disse um daqueles jovens.
—Que divertido! que divertido!—gritavam outros bons catolicos.
Neste momento ouve-se dizer: «Ahi vem o ministro.»
Efectivamente no meio do grupo que discutia apresentou-se um cavalheiro vestido de preto, que disse.
—«Recebei o fraco na fé, e não para contendas de disputas.»
Em meio do silencio repentino que produziram as palavras desta personagem os jovens criticos desapareceram.
Entretanto o ministro disse-lhes como o haviam informado do sucedido e aconselhou prudencia, entrando depois na casa mortuaria, seguido dum grande numero de pessoas.
Um silencio profundo, sómente interrompido pelos soluços entrecortados dalgumas pessoas, reinava na sala onde estava depositado o cadaver de Josefa.
Junto á janela do pateo estava apinhado um grande numero de pessoas, tanto visinhas como estranhas, e diz-se que o proprio Padre Francisco, que morava no andar superior, estava entre o povo, vestido á secular, com o fim de perturbar a ordem. O corredor e o portal estavam atulhados de pessoas.
Depois que o ministro proferiu algumas palavras, disse:—Agora vamos celebrar um culto ao Senhor, e para isso vamos pedir-Lhe o Seu auxilio.
Todos os circunstantes se descobriram, e a voz do ministro se elevou em tom solene, dizendo:
«—Em nome do Pae, do Filho e do Espirito Santo. Amen.
—Cantemos o hino seguinte:
Terminado o hino, que produziu opiniões desencontradas nas pessoas presentes, o ministro, abrindo a sua Biblia, disse:
Escutae, meus irmãos e amigos, o que está escrito na Palavra de Deus, na primeira Epistola de S. Paulo aos Corintios, cap. 15.
Quando o ministro terminou a leitura, disse:
Meditemos agora sobre o versiculo 22 do capitulo que acabamos de ler.
Amados irmãos e amigos: Deus, por um ato da Sua infinita misericordia, reuniu-nos hoje aqui em redor dum cadaver para obrigar-nos a pensar no que somos e quando e como morreremos. Com relação ao primeiro ponto, o que é a vida do homem, as Escrituras nos dizem que é vaidade, e que os seus dias passam como a sombra. No livro do Eclesiastes lemos: «Quem sabe qual é o bem do homem na vida? Todos os seus dias são vaidade, os quaes passam como sombra.» Agora na presença deste cadaver, que é um dos muitos testemunhos sagrados que existem, o homem perguntará: «Nasci eu tão sómente para sofrer e morrer?» Não, certamente. O homem não foi creado para sofrer e morrer, o homem foi creado para gozar e ser feliz; porém o homem, por um ato do seu livre arbitrio, atraiu a morte sobre si e sobre toda a terra.
Pouco a pouco foram-se todos retirando, e muitos daqueles que ali tinham ido por curiosidade ou por espirito de critica sairam, dizendo o que disse a mulher que foi ver se descobria no caixão o presunto, o vinho e os pães:
—Não se pode dizer nada em presença disto. O que é certo é que isto é mais serio e ha nisto mais verdade do que em tudo o que vêmos na nossa egreja. Desde hoje, ainda que eu o não seja, defenderei os protestantes, e ámanhã... ámanhã, quem sabe?...
O enterro de Josefa, ou, antes, a sua morte, foi um acontecimento para os visinhos da casa que já conhecemos.
«Então como vae o trabalho?»
Faziam-se os mais singulares comentarios; e na visinhança falava-se animadamente disto. Para podermos apreciar a sensação que aquele ato causou, ouçamos alguma coisa do que se diz.
Estamos no corredor do terceiro andar da mesma casa em que morava Julião.
—Diga-me cá, senhora Francisca. Esteve hontem no enterro protestante?
—Sim, senhora Amalia, estive, e creia que o que diziam do pão e do vinho é mentira.
—Como?
—É o que lhe digo, e, se não se fia em mim, pergunte-o á senhora Vitoria, que foi comigo.
—Filha—disse Vitoria,—o que lhe sei dizer é que aquilo é mais serio do que o que imaginei, e que nada se parece com os nossos enterros. No enterro dos protestantes ha mais caridade do que nos nossos.
—Pode muito bem ser—replicou Amalia—que os padres falem mal dessa religião porque não lhes convenha que ela se estabeleça entre nós.
—Senhoras—disse Vitoria,—proponho que vamos á egreja protestante para vermos o que aquilo é.
—Sim, sim, iremos.
—Porém, amigas—disse Francisca,—não teem observado que caracter tão bom é o da familia de Julião?
—Sim, sim—respondeu Vitoria,—não negam um favor a ninguem. Olhe, quando meu marido caiu enfermo, Dôres foi a primeira que veiu perguntar se era preciso alguma coisa, e ao sair deixou-me um duro, que eu lhe quiz restituir, e que ela nunca quiz receber. São muito caritativos.
Assim continuam falando; porém deixemol-as para irmos ouvir dois amigos nossos.
—Creio, querida Brigida, que já estarás convencida, e que se antes julgava mal era porque me haviam dito o contrario do que tenho visto.
—Minha mãe, não resista ás verdades do Evangelho. Viu como morreu a mãe de Dôres. Que fé não manifestou até ao seu ultimo suspiro! E, como vê, ela não se confessou nem comungou, e no emtanto recebeu a morte com a alegria que todos presenciámos.
—É verdade, é verdade!
—Creia-me, minha mãe, no que lhe digo. Venha comnosco á capela, e verá como ali se fala de Jesus. Tenha fé para ter vida em sua alma. Jesus é tudo, e sem Jesus não ha nada. Jesus é amor, como Seu Pae é amor; e se o amor do Pae se demonstra duma maneira tão manifesta, em dar Seu Filho para morrer por nós, não foi menor o amor de Jesus em dar-Se a Si por nós.
—Bom, bom; irei á capela, e verei. A verdade é que tenho visto coisas que me teem agradado.
Taes eram as disposições em que esta familia se achava. Em casa de Julião reinava a mais completa tranquilidade. A loja foi aberta no outro dia á hora do costume, e tudo voltou a seguir o seu curso ordinario. A fé daqueles dois esposos havia resistido áquela durissima prova.
CAPITULO XII
Intrigas do confessionario
Passado um mez depois da morte de Josefa, estava Julião uma manhã trabalhando á sua banca, quando uma joven se apresentou na loja, dizendo:
—Senhor mestre, meu amo manda dizer que venha comigo para pôr uns vidros que se quebraram.
Julião olhou com bastante surpreza para a rapariga, e por fim respondeu-lhe:
—Diga a seu amo que dentro dalguns minutos lá irei.
A rapariga saiu, e Julião dirigiu-se imediatamente á sala onde estava sua mulher, para lhe dizer:
—Não sabes, Dôres, quem me chamou para me dar trabalho?
—Se tu ainda mo não disseste...
—Pois acaba de estar na loja a creada do P.ᵉ Francisco, que me mandou chamar para lhe ir pôr uns vidros. Que julgas disto?
Dôres ficou um tanto pensativa, e depois disse:
—Penso que esse homem te chama para fazer-te mal.
—A mim?
—Sim, a ti, ou, antes, a nós.
—Confio em Deus, e isso me basta.
Julião saiu, e dentro de poucos momentos estava no gabinete do sacerdote.
Depois de se saudarem mutuamente, o P.ᵉ Francisco disse:
—Certamente que ha de estranhar que eu o mandasse chamar, não é verdade?
—Com franqueza—respondeu Julião,—nem estranho, nem deixo de estranhar.
—É que eu estou convencido de que o senhor é um homem de bem, mas um pouco exaltado em assuntos de religião; um dia virá, porém, em que caia em si e se arrependa; finalmente, eu rogarei á Virgem para que assim suceda. Agora cumpra a missão para que o mandei cá chamar.
—Sim, senhor, tomarei a medida e irei em seguida colocar os vidros.
Julião saiu; e o padre, passeando pela casa, dizia, falando comsigo mesmo:
—Já está lançada a rêde, e o peixe cairá nas suas malhas.
Julião entrou em seguida, e, emquanto punha os vidros, disse-lhe o P.ᵉ Francisco:
—Tome lá um cigarro, sr. Julião.
Julião aceitou o cigarro que o padre lhe ofereceu, e em seguida foi ocupar-se do seu serviço.
Passados alguns momentos, o P.ᵉ Francisco disse:
—Então, como vae o trabalho?
—Bem, graças a Deus.
O sacerdote não sabia como principiar a conversa que tinha por fim averiguar quem eram os que com Julião frequentavam a capela evangelica. Assim é que, com uma refinada sagacidade, disse:
—Eu não vejo um grande movimento de obras em Madrid. Não ha construções; quem tem dinheiro guarda-o, e isso não é bom sinal.
—Pois agora vae ter logar um grande numero de edificações, e eu espero tomar de arrematação tudo o que diz respeito á minha arte, num novo bairro que se vae abrir.
Os olhos do padre faiscaram raios de alegria, porém dissimulou quanto pôde, e, com ares de indiferença, disse ao vidraceiro:
—E quem é o capitalista que vae empreender essas construções?
—O conde de X...—respondeu Julião, emquanto colocava um vidro no caixilho da janela.
O padre saltou de alegria. Se Julião o tivesse visto, desde logo teria suspeitado de alguma coisa; porém, felizmente para o sacerdote, e infelizmente para ele, estava de costas, ocupado no seu trabalho, e não pôde notar coisa nenhuma.
—Isso é bom, mestre, isso é bom—disse o P.ᵉ Francisco—ter bons freguezes; agora o que é preciso é não os deixar fugir.
—É casa que paga muito bem aos operarios e artistas a quem dá trabalho.
—Diga-me agora: no caso de que seu filho viva, que modo de vida pretende dar-lhe?
—Ele é ainda muito pequenino para falarmos disso; porém, sem embargo, o que eu lhe afirmo é que não violentarei a vocação de meu filho; ofereci-o ao Senhor, e teria muito gosto em poder vêl-o um ministro d’Ele.
—Porém, homem, se me permite, dir-lhe-hei que não pode haver um fiel ministro do Senhor fóra da egreja romana.
—Perdõe, sr. P.ᵉ Francisco; porém, se um individuo prega o Evangelho com fidelidade, esse tal é um fiel ministro do Senhor.
—Bem, não nos metamos em discussão; porém creia-me, e é só isso o que lhe digo, que se não muda de idéas a mão de Deus retirar-se-ha de si.
—Pois eu creio exactamente o contrario, porque Deus me ama.
Nisto Julião terminou o trabalho da colocação dos vidros, e em seguida despediu-se do P.ᵉ Francisco, que lhe disse que lhe mandaria, dahi a momentos, a importancia da obra.
Quando Julião saiu, o P.ᵉ Francisco exclamou:
—Anda, imbecil; vendeste-te a ti mesmo. Então queres que essa creança cresça, para que ámanhã seja uma vibora para os catolicos?! Antes disso morrerás tu de fome! A guerra está declarada... Ou eu te reduzo á miseria, ou tu renegas o protestantismo. A senhora do conde de X... é confessada dum amigo meu, e já podes, miseravel vidraceiro, contar com a freguezia perdida. Agora mais do que nunca, vou ser seu amigo, e veremos.
Entretanto, Julião chegou ao portal onde se encontrou com mestre João, o qual disse ao vêl-o:
—Olá, sr. João, como vamos?
—Eu—respondeu o carpinteiro—vou bem, graças a Deus. Porém donde vem o visinho?
—Aposto que não atina.
—Eu não.
—Pois venho do andar de cima, de pôr uns vidros.
—De casa do P.ᵉ Francisco?—perguntou mestre João, surpreendido.
—Sim, senhor, de casa do P.ᵉ Francisco mesmo. Mandou-me chamar, subi e portou-se comigo muito bem.
—Pois sabe você o que vejo em tudo isso? É que o padre trama alguma coisa contra si.
—Isso mesmo me disse Dôres; porém não deixa de ser um mau pensamento, tanto da sua parte como da parte dela. Não abrigue em si maus pensamentos, sr. João, pois já sabe que Jesus disse: «Não julgueis para não serdes julgados, pois que com a medida com que medirdes vos medirão a vós tambem».
—É verdade isso, amigo; porém tambem deve saber que no mesmo capitulo Jesus disse: «Pelos frutos os conhecereis». Já vou aprendendo alguma coisa da Biblia.
—Alegro-me muito com isso, sr. João, alegro-me muito. Até logo.
Ambos os visinhos se separaram, indo cada qual para sua casa.
Estamos no interior da egreja de ..., em Madrid.
Á direita da porta da entrada ha um canto escuro, e nele uma especie de guarita, mais ou menos artistica, que é aquilo a que a egreja romana chama um confessionario.
Ali dentro senta-se uma personagem mais sombria ainda; junto á grade do confessionario está uma senhora elegantemente vestida. Não podemos saber se é nova ou velha, porque tem o rosto coberto com um véu negro.
Aproximemo-nos silenciosamente, e, ainda que nos alcunhem de indiscretos, escutemos a confissão desta senhora, a qual pode interessar-nos alguma coisa. Neste momento fala o padre.
—Quanto tempo tem V. Ex.ª deixado passar desde que se confessou pela ultima vez?
—Quinze dias, meu padre—respondeu a penitente;—mas não me dê esse tratamento, peço-lhe.
—Quinze dias! Porque esteve todo esse tempo sem vir ao tribunal da penitencia?
—Meu padre, não tenho podido, porque... nos foi necessario, umas vezes, receber em nossa casa, outras ir ao Paço, e ainda outras ocuparmo-nos de coisas similhantes.
—Isso não é desculpa, mas, emfim, sente-se arrependida de ter deixado decorrer todo esse tempo sem vir lavar a sua alma?
—Sinto-me, sim, senhor.
—Passemos a outro assunto. Cumpriu a ultima penitencia?
—Sim, padre, e acrescentei tres missas no altar de S. Sebastião.
—A Virgem lhe recompensará essa acção.
—Ah, meu padre, tenho tanto de que acusar-me! Sou uma tão grande pecadora!
—Animo, filha, animo! Entregue todos os seus cuidados ao confessor, que acha sempre disposto a perdoar, pois que lhe foi conferido esse poder por Jesus Cristo, quando Este disse: Et quodcumque ligaveris super terram erit ligatum est in coelis, et quodcumque solveris super terram, erit solutum est in coelis. Comecemos agora a confissão pelos mandamentos.
—Acuso-me de não amar a Deus, pois que, se O amasse, não O teria ofendido.
—Adeante.
—Posto que não tenha muito o costume de jurar, creio que o fiz.
—Quantas vezes por mez?
—Não me lembro, meu padre.
—Quantas vezes por dia?
—Não posso tambem dizer.
—Quantas vezes por hora, ao menos?
—Não sei, já disse.
—Em resumo, não sabe coisa alguma... É natural. Tanto tempo sem se confessar! E com respeito ao terceiro mandamento, o de guardar os dias santificados?[2]
—Acuso-me de, na quarta-feira da semana passada, que era dia de festa, não ter ido á missa.
O padre fez um movimento brusco, e exclamou numa voz a custo reprimida:
—Isso é demais, senhora condessa. Não posso tolerar que caia em similhantes faltas, e se V. Ex.ª...
—Meu padre—murmurou, aterrada, a dama,—não me dê esse tratamento. Quando me trata por condessa, fico a tremer, porque é para mim um sinal de que está zangado.
—E estou-o, com efeito, minha senhora; não assistir á missa em dia de preceito é uma coisa horrivel. Não posso perdoar-lhe. Chore, chore, mas lembre-se de que o que é necessario são atos e não lagrimas.
—Imponha-me a penitencia que quizer; estou disposta a cumpril-a; por minha parte mandarei hoje dizer duas missas no altar das almas.
—Bem, bem, é preciso emendar-se, porque o diabo, oh! o diabo é muito sagaz, e, como sabe que a senhora condessa é tão boa, quer distrail-a do cumprimento dos seus deveres, e isso é obra de Satanaz. Vá, continue.
—O quarto, honrar pae e mãe; mando dizer muitas e muitas missas por alma de meus paes, e assim os honro; amo e respeito os ministros do altar.
—Tem rezado pelo nosso pae espiritual, o Sumo Pontifice?
—Sim, padre; tenho rogado a Deus para que aumente os seus dias e a sua infalibilidade, para bem da egreja.
—Isso é muito louvavel, minha filha, e a Virgem vê com agrado tudo o que fazemos.
Passemos ao quinto mandamento.
—Disso não tenho que acusar-me.
Não é estranho que a condessa de X... não sentisse remorsos na sua consciencia em face deste mandamento; pois ela, como a maior parte dos catolicos, ignorava que não mata o seu similhante só aquele que dá um tiro ou uma punhalada, cometendo peor acção aquele que mata a honra do individuo; pois que a calunia é peor do que um punhal.
Porém continuemos escutando a confissão, pois que, absorvidos nas nossas reflexões, deixámos de ouvir um mandamento. O padre diz:
—Tem alguma coisa de que acusar-se com respeito ao setimo mandamento?
—Não, padre; pelo menos que eu me lembre.
—E com respeito ao oitavo?
—Padre, algumas vezes tenho mentido.
—Quantas?
—Não me lembro, padre.
—Porém, mentiras graves ou leves?
—Não, senhor; não são graves.
—Nada diremos do nono; porém o que me diz ácerca do decimo mandamento?
—Digo, padre, que desejo servir a Deus e amal-O sobre todas as coisas.
—Deseja servir e amar a Deus?
—Sim, padre.
—Pois essa é a tarefa mais dificil e, portanto, a mais meritoria nestes tempos. A heresia tem invadido tudo; hoje diz-se mal de tudo; põe-se em duvida o poder da Virgem, e fazem-se esforços inauditos para destruir a religião que recebemos dos nossos paes.
A condessa deu um suspiro.
—Sim—continuou o padre,—é preciso desagravar a tão fortemente agravada Virgem Maria, e os maiores inimigos que tem a religião são os protestantes.
—E quem são essas pessoas?
—É uma canalha, senhora condessa, uma canalha; inimiga do clero e da nobreza... Porém são de uma sagacidade pasmosa, metem-se em toda a parte e, como pertencem ás mais infimas camadas da sociedade, necessitam de trabalhar para comer, e não se lhes importa comer o pão daqueles proprios a quem odeiam... Oh! aquelas pessoas que teem operarios devem ser muito cautelosas em saberem a gente que empregam no seu serviço!
—Hoje mesmo falarei ao administrador da minha casa, e, se houver lá algum operario nessas condições, será imediatamente despedido.
—Pois era ahi que eu queria chegar, sr.ª condessa. V. ex.ª tem muito perto de sua casa um protestante.
—Jesus! Maria Santissima!
—Sim, senhora, é o mestre vidraceiro a quem o sr. conde vae dar trabalho no novo bairro que projeta mandar edificar. Certamente que todo o dinheiro que ganha o empregará contra os padres, e em favor dos da sua seita.
—O vidraceiro é protestante!
—Sim, senhora; tão protestante como o foi sua mãe, a qual morreu sem se confessar, exatamente como se fosse um cão.
—Pois nas poucas vezes que o vi pareceu-me bom homem. O outro dia vi-o falar com os creados, e chamou-me a atenção o interesse com que o escutavam.
—Provavelmente estaria prégando as suas perversas doutrinas.
—E que devo fazer?
O confessor figurou uma grande surpreza e exclamou:
—Pergunta v. ex.ª o que deve fazer? E v. ex. diz que serve a Deus?
—Padre, padre—interrompeu a condessa, chorando copiosamente,—não me atormente; perdão, senhor, perdão... Aconselhe-me o que devo fazer...
—É de todo o ponto preciso que v. exª e o sr. conde chamem esse homem, e, se ele não abandonar o seu erro, devem despedil-o e retirarem-lhe toda a protecção.
—Porém, padre, ele pode dizer que não é protestante ou que deixa de o ser; e nesse caso que fazer?
O padre ficou pensativo, e depois respondeu:
—Em qualquer dos casos, v. ex.ª não o despede até que eu a avise; porém, se teima em confessar as suas idéas e é pertinaz, então rua com ele no mesmo instante.
—Assim o farei, meu padre; porém permite-me uma pergunta?
—Sim, senhora.
—Como soube isso do vidraceiro?
—Senhora, nós, os ministros da religião, velamos pelas almas que nos estão confiadas. Vamos, porém, adeante. Tem mais alguns pecados de que acusar-se?
—Sim, mas não me lembro deles.
—Bom; eu perdôo-lhe todos os pecados, tanto os confessados como os esquecidos, sub conditione.
—Como?
—Com a condição de que ha de fazer o que lhe tenho dito.
—Sim, padre, sim.
—Pois agora vou dar-lhe a seguinte penitencia: jejuar durante sete dias, rezando em cada dia, á hora a que devia almoçar, um rosario, tres salvé-rainhas e tres crédos; além disto, deve ouvir sete missas, sendo quatro pagas por v. ex.ª, em desagravo de Maria Santissima e pelas bemditas almas do purgatorio; isto como justa expiação de ter ficado sem missa no dia preceituado pela egreja como dia de guarda.
—Agora, pergunto-lhe: sabe de alguma esmola que eu possa fazer?
—As freiras de A. precisam dum sino maior do que aquele que teem.
—Pois bem, eu me encarregarei disso. Far-lhes-hei presente dum sino cujo som seja claro e se ouça distintamente ao longe.
—Bem, filha, muito bem; isso é muito meritorio, pois que o sino é a voz de Deus. (Pobres visinhos dos arredores do convento!).
—Agora—continuou o padre,—prepare-se para eu a absolver.
A condessa curvou-se, dizendo o acto de contrição, emquanto que o sacerdote pronunciava algumas palavras em latim. Depois deu a mão a beijar á condessa, e saiu do confessionario, emquanto que ela se levantava pensando na penitencia que tinha de cumprir.
Agora tres perguntas e tres respostas:
Quem perdeu nessa confissão?
O nosso amigo Julião e os visinhos do convento de A.
Quem ganhou?
As freiras do convento de A. e outros.
É esta a confissão que Nosso Senhor Jesus Cristo e os apostolos ordenaram, em Seu nome?
Os leitores que respondam.