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Julião e a Biblia

Chapter 16: CAPITULO XV Já começa!...
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About This Book

A narrativa segue Julião, um artesão cuja fé orienta a vida familiar e comunitária, desde a formação junto a um mestre até o casamento com Maria das Dôres e o nascimento do filho. Retrata o equilíbrio entre trabalho e devoção, simbolizado por um aviso sobre o dia de descanso, e mostra vizinhos cuja observância religiosa e participação em festas como Santo António variam. Momentos de leitura coletiva e de anúncio do Evangelho atravessam as cenas domésticas, gerando conversas, sensibilidades e tensões morais. A ação expõe questões de caridade, tradição e reputação enquanto os personagens tentam conciliar crença, ofício e laços sociais.


CAPITULO XIII
Frutos do confessionario

Julião estava um dia com sua mulher, com a mulher do carpinteiro e com Antonia, celebrando um culto de familia.

O texto que estudavam era aquele que se acha escrito nos Proverbios, que diz: A maldição de Jehovah está sobre a casa do impio, porém Ele abençoará a morada dos justos.

Julião dizia:

—Deus não pode faltar ás Suas promessas; portanto, confiemos na Sua divina misericordia, que Ele certamente não poderá deixar de nos socorrer. Se o Senhor nos causa hoje aflições, aceitemol-as como uma benção dele; se nos manda alegrias, recebamol-as egualmente, porque dele dimanam.

Depois que oraram, Julião veiu para a loja e principiou o seu trabalho.

Cerca das nove horas da manhã, apresentou-se na loja um individuo que saudou afavelmente o mestre, dizendo-lhe em seguida:

—Mestre, o sr. conde mandou-o chamar.

Julião foi imediatamente.

No momento em que Julião foi introduzido na sala, o conde, recostado numa cadeira, fumava tranquilamente, emquanto que a condessa estava sentada numa outra, entretida a folhear um album.

—O mestre vidraceiro—disse o administrador, inclinando-se na presença dos seus amos.

Julião saudou-os com um movimento de cabeça. O conde falou assim:

—Vocemecê foi sempre quem fez o trabalho cá da casa; porém, agora... agora..., finalmente, agora a sr.ª condessa lhe dirá o que tem a dizer; eu não posso ocupar-me de nada; tenho muito em que pensar; fala tu, condessa.

—Vocemecê é que é o vidraceiro da casa?

—Sim, sr.ª condessa.

—Pois amigo, eu não posso, ainda que me pese, deixar de lhe dizer que não estamos satisfeitos comsigo.

—Então em que ofendi eu os senhores condes?—perguntou Julião, surpreendido.

—Quero que todos os nossos operarios tenham uma irrepreensivel conduta religiosa, que cumpram fielmente todos os preceitos da egreja; do contrario, serão despedidos, e não poderão contar comnosco para coisa alguma. Diga-me uma coisa: costuma ouvir missa?

—Contando com a benevolencia de V. Ex.ª, atrevo-me a dizer que isto tem toda a aparencia de uma confissão, e desde já declaro que só a Deus é que me confesso. V. Ex.ª pergunta-me se vou á missa; mas eu pergunto, por minha vez: «Para que hei de assistir á missa, se não compreendo o que o padre diz?»

—Não estou para discussões: disseram-me que vocemecê era protestante, e eu não quero negocios com essa gente.

—Sou cristão, minha senhora.

—Nesse caso, não tenho nada a dizer. Mas que vem a ser isso de não entender a missa?

—E V. Ex.ª entende-a, porventura?

—Entendo.

—Pois pela minha parte, como desconheço a lingua de que se faz uso na missa, nada daquilo tem significação alguma. Peço licença para lhe observar uma coisa. S. Paulo, escrevendo aos Corintios, diz: «Dou graças a Deus, que falo todas as linguas que vós falaes, mas eu antes quero falar na egreja cinco palavras da minha inteligencia, para instruir tambem os outros, do que dez mil palavras em lingua estranha».

—Nós não temos nada com o que S. Paulo disse ou deixou de dizer; os bons catolicos devem guiar-se por aquilo que a egreja estabeleceu, e seguirem o conselho dos seus confessores. A missa é o sacrificio de Cristo na cruz, e os fieis podem, lá no seu intimo, aplical-a a este ou áquele fim.

—Senhora condessa, V. Ex.ª está num lamentavel erro. O sacrificio de Cristo não se pode repetir.

—Não trato agora dessas questões, e o que desejo é que me diga claramente: é catolico ou protestante? crê na Virgem? crê no Papa?

—Creio em Jesus Cristo, e só nele confio; se isto é ser protestante, então sou-o, de facto.

—Ouves, conde?

—Ouço—respondeu este, e acrescentou:—De hoje em deante não quero mais negocios comsigo, sr. Julião. Queira retirar-se, para não mais pôr os pés nesta casa.

—Senhor conde, estou persuadido de que cumpri sempre com a minha obrigação, e, se o ser cristão obsta a que eu entre em sua casa, não me convem de fórma alguma estar aqui. Logo que terminar o trabalho que tenho entre mãos, deixará de os incomodar a minha presença.

—Não, não—exclamou a condessa;—retire-se quanto antes.

—Mas é que, minha senhora, dispendi em aviamentos para a restauração desta sala uma quantia para mim bastante elevada, e se não concluo a obra sofro um grande prejuizo.

—E que tenho eu com isso? Vá ter com os seus amigos protestantes que lhe paguem.

—Senhora—exclamou, indignado, Julião,—os protestantes, meus amigos, ou, para melhor dizer, meus amados irmãos, nada me devem; quem fez com que eu empregasse em materiaes o fruto dos meus labores foram os condes de X, que teem obrigação de me pagar.

—Pois bem—disse o conde,—paga-se-lhe tudo, para que se vá embora.

—Não—gritou a condessa,—não se lhe paga coisa alguma; se comprou material, não o comprasse. Ou renega a sua religião, ou põe-se já na rua.

—Renegar Cristo!—exclamou Julião;—não, senhora condessa, isso é que não. Cristo deu a Sua vida por mim, e não O vendo por um punhado de oiro. A Escritura fala dum Judas, não fala de dois. Fique com o dinheiro, e faça de conta que lho dei de presente.

—Não sei como me contenho—exclamou o conde;—se não fosse por sujar a mão, fazia calar essa boca. Ponham este homem lá fóra—ajuntou ele, chamando pelos creados.

—Não é necessario, que eu sei onde é a porta. Que Deus lhes perdôe o prejuizo que me causaram.

Julião retirou-se. O palacio dos condes era situado na Castelana, e o vidraceiro, assentando-se num banco que ficava á sombra duma arvore, tirou a sua Biblia da algibeira, e, enxugando algumas lagrimas rebeldes, leu estas consoladoras palavras: «Nenhum te poderá resistir todo o tempo que viveres: como fui com Moisés, assim serei comtigo; não te deixarei nem te desampararei». (Josué, 1:5).

Depois entrou em casa, e contou a sua mulher o que se havia passado.

—E que vaes tu fazer com esse material perdido?—perguntou lhe a esposa.

—Procurar—respondeu Julião—quem o compre, ainda que seja por menos preço.

—Ai, Julião! Não sei que estranho pressentimento me diz que o P.ᵉ Francisco tem parte neste negocio.

Julião foi para a loja e poz-se a trabalhar. De tarde, o P.ᵉ Francisco apareceu na loja, dizendo-lhe:

—Venho pagar-lhe uma divida.

O padre tirou um porte-monnaie e, dando-lhe o dinheiro, disse-lhe:

—Parece-me que não está bom. A sua cara, pelo menos, indica que vocemecê está mal de saude.

—Graças a Deus, não estou; porém tive hoje um grande desgosto.

—Vamos lá; questões domesticas, não é verdade?

—Não, senhor—respondeu Julião,—desgostos com os freguezes.

O padre compreendeu imediatamente tudo, pois o seu amigo, o confessor da condessa de X... já lhe havia dito que Julião ia ser despedido. O P.ᵉ Francisco conheceu que não devia dizer palavra, e ia a retirar-se quando uma nova personagem entrou na loja de Julião.

—Boas tardes—disse ele ao entrar.

Todos responderam á saudação, acrescentando Julião:

—Como! O senhor por aqui?

—Homem—respondeu o recem-chegado em tom familiar,—venho ralhar comsigo.

—Ora essa!

—Encurtando razões. Quero abrir o café no dia primeiro. —Pois olhe, sr. Mariano, como vê, já comprei o zinco e estão trabalhando nele; porém para estar pronto para esse dia, é impossivel.

—Porém, faltando ainda quatro dias até lá, parece-me...

—Desculpe, mas são apenas tres dias!

—Como? Quinta, sexta, sabado, domingo, são quatro.

—Não, senhor, não deve contar o domingo.

—Já principiamos com exquisitices, não é verdade? Não seja doido nem fanatico. Essas preocupações significam o retrocesso de oitenta anos.

—Será o que quizer, porém Deus é mais antigo do que o senhor; portanto, entre Ele, que me manda não trabalhar, e o senhor, que manda que eu trabalhe, devo obedecer antes a Ele do que ao senhor.

—Porém, não conhece que Deus não se intromete nessas coisas? Que lhe importa a Deus que vocemecê trabalhe ou não? Não faça mal a ninguem, que trabalhar não é pecado, não é verdade, sr. padre Francisco?

—Deus quer—respondeu o padre Francisco—que se santifiquem os dias de festa. No domingo e mais dias preceituados pela egreja deve-se ouvir missa... depois... se é preciso trabalhar, pode-se fazer mediante licença. Julião, porém, como é protestante...

—Quê! vocemecê é protestante?—exclamou o freguez.

—Sou cristão evangelico—respondeu Julião.

—Pois, mestre, assim não está bem. Não vê que todos os freguezes o vão deixar? Protestante é a coisa peor que pode haver! porque é não ser hespanhol.

—O que é ser protestante—exclamou Julião, já um pouco exaltado—é ser mais hespanhol do que muitos; protestante é ser bom filho, bom pae, bom esposo, bom amigo e um bom crente em Jesus. Os catolicos romanos desprezam os mandamentos de Deus e submetem-se ao capricho dos homens; chamam doidos e fanaticos áqueles que os guardam, taes quaes se encontram na Biblia, e crêem em milagres, em bulas, em reliquias, em infernos com caldeiras de pez, em diabos grandes e diabos pequenos, em serpentes que se enroscam, em um purgatorio de que Jesus não teve a menor noticia, em um limbo, em bulas a gosto do comprador... em tudo, menos em Jesus e no Evangelho.

—Julião, Julião—disse o sacerdote,—não fale de tal modo, porque não faz mais do que dizer blasfemias.

—Ao catolico romano pouco se lhe importa ir á missa e dali ao baile; isto no dia do Senhor. E que proveito tira da missa?

—Ouve o Evangelho, ou uma parte dalguma epistola.

—Sim? Pois peço-lhe ao senhor, que é catolico romano e que certamente ha de ter ouvido alguma missa, que nos diga o que sabe do Evangelho que tem ouvido na egreja?

—Senhores—respondeu ele,—a falar a verdade, costumo ir poucas vezes á missa, porém eu não sei o que o sacerdote diz... Está disposto a fazer a obra para o dia que indiquei?

—Estou, sim, senhor—respondeu Julião,—porém, pelo que diz respeito a trabalhar no domingo, não trabalho.

—Quer dizer que pelas suas exquisitices vou ser prejudicado, não abrindo o estabelecimento no dia que quero. Vamos, Julião, seja razoavel, deixe-se de protestantismos e trabalhe, que é isso o que lhe dá de comer.

—Sr. Mariano, é completamente inutil que se empenhe em fazer-me trabalhar ao domingo, pois por todo o dinheiro do mundo não o farei.

—Nesse caso, ponto final na questão. Não o incumbirei de mais trabalhos.

—Bem, como quizer; obedeço a Deus, e é quanto basta.

O padre Francisco quiz aparentemente harmonizar a questão, porém foi tudo em vão. A voz de Deus, que ordenava ao nosso amigo o guardar o dia de descanço e santifical-o, teve mais força do que tudo.

Minutos depois, o freguez de Julião saiu, e juntamente com ele o padre Francisco.

Julião entrou no seu quarto para orar, dizendo:

—Jesus, Tu me dizes: «E todo aquele que não traz a sua cruz e não vem apoz mim não pode ser meu discipulo.»


CAPITULO XIV
Da loja á agua-furtada

A desgraça pairava sobre a casa de Julião.

Em pouco tempo aquela casa, antes tão feliz, veiu a ser a casa da dôr e da aflição. Já se não ouvia na loja o bater do martelo nem as alegres canções dos operarios.

Por todas as partes se havia espalhado a noticia de que o vidraceiro era protestante, e, por consequencia, o descredito foi geral.

Em vão Julião sofria tudo com paciencia; em vão visitava os seus antigos freguezes; em vão, na aparencia, clamava ao Senhor: parecia que o céu e a terra o haviam abandonado.

Para maior desgraça, sua esposa, torturada pelos sofrimentos, tinha decaido da fé, e isto era o que mais o atormentava.

Até o seu proprio amigo, o mestre João, que era o unico que poderia ajudal-o, estava fóra de Madrid, ocupado numas obras; tudo, pois, como já dissemos, se pronunciava contra ele.

Assim chegou o dia em que Julião teve de deixar a loja da casa que habitava, indo alugar a agua-furtada da mesma, para onde foi trabalhar como simples oficial.

Faltavam tres dias para fazer a mudança. Julião não estava em casa, e Dôres estava só, dando o peito a seu filho, quando sentiu abrir a porta da loja.

Levantou-se para ver quem entrava, e dirigindo-se á porta deu de rosto com o padre Francisco, que, depois de a cumprimentar, lhe disse:

—Julião está em casa?

Sabido é que Dôres olhava desde ha muito com certa desconfiança para o padre, pois que julgava que ele era o causador das suas desgraças, e assim é que com grande reserva e muito secamente lhe respondeu:

—Não, senhor; saiu.

O padre compreendeu o que se passava no espirito daquela mulher, e num momento concebeu o seu plano.

—Pois realmente sinto-o—disse o sacerdote,—pois que vinha falar com ele, afim de ver se queria encarregar-se duma obra.

—Pois não posso dizer-lho, porém parece-me que actualmente lhe será dificil, pois que não temos os meios necessarios para comprar os materiaes.

—Não importa isso; se seu marido quizer, os donos da obra lhe adeantarão tudo o que seja preciso. Porém, estranho vê-los nesse estado, sem terem nada que fazer, quando tinham tão boa freguezia!...

—Pois olhe—disse Dôres com intenção,—alguem tem a culpa disto.

—Não me parece que alguem possa ter culpa, ou se compraza com os males que sofrem. O unico culpado de tudo isso é o seu esposo, por causa dessas idéas que tem e que tão desprezadas são de todos. Se seu marido não tivesse a insensatez de se fazer protestante... Ora veja lá, protestante... uma coisa que não tem razão de ser... que acabará em breve e que... finalmente... consta lhes que muitos clerigos tenham passado para essa seita?

—Sim, senhor; sei dalguns.

—São aqueles que não quizeram sujeitar-se aos seus votos e para quem a religião era uma coisa pesada. Finalmente, Dôres, creia-me, o que lhe está sucedendo não é mais do que um aviso de Deus, um preludio de acontecimentos mais graves; não me admiraria se ámanhã lhes morresse o seu filho.

—Cale-se, senhor!

—E era um grande favor que a Virgem lhes fazia, pois que seria melhor para ele morrer do que ficar eternamente condenado.

—E porque ha de o meu filho ser condenado?

—Porque a educação religiosa que lhe derem não pode ser boa.

—Nós o educaremos na fé do Salvador e nas maximas do Evangelho.

—Sim, porém dum Evangelho corrompido, e mostrando-lhe um Salvador que o não poderá salvar, porque lhe falta a autorização de Sua bemdita Mãe.

—Padre Francisco, Jesus não necessita de autorização de ninguem, pois que «salva quem quer».

—Que lhe pedirá seu filho que a senhora não lhe faça? Pois tambem Jesus não pode fazer senão o que Sua bemdita Mãe manda. Emfim, noutra ocasião falaremos mais detidamente sobre este assunto. Queira dizer a seu esposo que esta tarde virei falar-lhe, e que a obra, de que o venho encarregar, lhe fará ganhar uma boa quantia. Passe bem, sr.ª Dôres; medite em tudo o que temos falado, e creia-me: sem Maria, nem o céu seria céu. Tome esta estampasinha e reze deante dela umas Avé-Marias, pois de cada vez que o fizer ganhará cem dias de indulgencia.

O padre Francisco saiu, mas ainda Dôres estava com a tal estampasinha na mão quando Julião, abrindo a porta, e observando que sua esposa tinha um papel na mão, aproximou-se, perguntando-lhe o que era.

—Uma imagem da Virgem Maria que me deu o padre Francisco—respondeu ela.

—E como ou com que fim te deu o padre Francisco esse papel?

Dôres contou a seu marido o sucedido, e depois disse:

—Que pensas fazer?

—O que penso fazer?—respondeu Julião.—Dizer ao padre Francisco que não torne a falar-te de religião, e, pelo que respeita á obra, far-lha-hei se podér, mas que não venha cá falar-me em condições, porque...

—Julião, chega-te á razão e pensa no nosso filho. Além disso, o padre Francisco apresentou-me umas razões de bastante peso, ácerca da Virgem.

—Para grandes provas me tem reservado o Senhor, e a mais dura é ver a tua falta de fé. Escuta-me, Dôres, e jámais duvides da palavra d’Aquele que disse: «Passarão o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão...»

—Julião, a minha fé vacilou alguma coisa, porém eu rogarei a Deus para que a aumente.

—Bem, oremos a Deus.

Ambos os esposos ajoelharam, e pouco depois ouviu-se a voz de Julião, que pronunciou esta singela oração:

«Senhor, aumenta a nossa fé; agora mais do que nunca, necessitamos de crêr para sermos fieis... Não sabemos até onde nos provarás, porém estamos seguros de que Tu nos ajudarás. Sim, Pae Eterno, se temos sido fieis no tempo da prosperidade, justo é que o sejamos no tempo da adversidade.

Agora dá-nos a Tua benção, pelo amor de Jesus. Amen.»

Chegou por fim o dia destinado para que o nosso amigo Julião desocupasse a loja.

A senhora Brigida e Antonia estão em casa de Dôres.

—O caso é—disse Brigida—que, se meu marido estivesse em Madrid, daria o dinheiro a teu esposo e não havia necessidade de fechar a loja.

—Julião—respondeu Dôres—certamente que não aceitaria dinheiro, não tendo probabilidade de o pagar.

—Que coisas tens, Dôres!—exclamou Antonia.—Se meu pae emprestasse dinheiro a Julião, não fecharias a loja, e pode ser que com o andar do tempo melhorasseis de situação. Eu sei que a Biblia prohibe ter dividas; porém é claro que, entre irmãos, e quando é por uma precisão, não é prohibido, pois que a palavra de Deus manda que os irmãos se socorram entre si.

—Dize-me, Dôres—perguntou a mulher do carpinteiro,—não poderia ser que Julião pedisse alguns dias de espera, e entretanto eu escrevia a meu marido? Oh! se nós chegassemos a saber isto a tempo, teriamos escrito a João sem vós o saberdes, e tudo se arranjaria...

—Direi isso mesmo a Julião—disse Dôres,—e logo lhes participarei a resolução dele.

Assim continuaram conversando, emquanto que Julião, que se achava na loja empacotando as ferramentas, falava com o padre Francisco.

—Porém que é isso?—dizia o padre.—Então muda de casa?

—Não, senhor—respondeu Julião,—deixo a loja.

—Deixa a loja?

—Que quer? Algumas pessoas não vêem outra coisa mais senão aquilo que os seus olhos alcançam, e querem que os outros façam o mesmo. Amigo, o sr. conde de X... e outros hão de algum dia experimentar o que está escrito: «Não oprimirás o teu proximo, nem o roubarás; não retenhas o trabalho do jornaleiro em tua casa—até ámanhã». Sim, aqueles que procedem como o conde de X..., que me fez comprar um material que depois para nada me serviu, não compreendem que o Senhor, um dia, lhes pedirá estreitas contas, pois que Ele disse: «Não negarás a paga a teu irmão indigente e pobre, ou ao peregrino, que mora comtigo na terra, e está de tuas portas para dentro; mas pagar-lhe-has no mesmo dia o preço do seu trabalho antes do sol posto, porque é pobre, e disso sustenta a sua vida; não suceda que ele clame contra ti ao Senhor, e isto se te impute a pecado» (Deut. 24: 14 e 15).

—Julião—disse o padre Francisco,—não deve admirar-se de que todos lhe voltem as costas; as suas idéas religiosas não são de molde a atrair-lhe as afeições do mundo.

—Sim, a mim não me admira que o mundo me aborreça, quando Jesus, o meu Salvador, disse: «Se o mundo vos aborrece, sabei que primeiro do que a vós me aborreceu Ele a mim. Se vós fosseis do mundo, amaria o mundo o que era seu; mas porque vós não sois do mundo, antes eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos aborrece» (S. João 15: 18, 10). Aquilo que realmente me admira é que pessoas que aparentam um tal escrupulo não sintam remorsos em sua consciencia em roubar a um pobre, como eu, o fruto do seu trabalho, e não hesitem em lançal-o na miseria.

—Julião, deixemos de parte essa questão. O senhor pode adquirir do conde X... mais do que aquilo que perdeu. Renuncie por um momento a essas preocupações, abra os olhos á luz, e creia em si. Eu venho encomendar-lhe uma obra, que pode dar-lhe alguns lucros; quer fazel-a?

—Sr. padre Francisco, não posso empreender obra alguma, por pequena que seja, pois não tenho dinheiro para material nem para as ferias dos oficiaes.

—Não lhe importe isso—disse o padre;—eu ofereço-lhe aquilo de que necessite. A pessoa que encomenda a obra lhe adeantará o dinheiro preciso para os materiaes e para as ferias.

—E que obra é essa?—perguntou Julião.

—Tudo o que pertence á sua arte, na egreja de S. N., notando que tem muito que fazer; é obra que durará muitos mezes.

—Muito bem; não tenho nisso o menor inconveniente. E não me imporá condição alguma que me torne impossivel o aceitar a obra?

—Não, nenhuma; pois que a condição imposta para todos aqueles que ali trabalham é tão simples que ninguem até hoje deixou de a aceitar.

—Qual é?

—O paroco diz missa ás nove horas da manhã, á qual deseja que assistam todos os artistas que ali trabalhem.

—E assistem todos?

—É natural. Quem se recusará a isso?

—Suponhamos, sr. padre Francisco, que o paroco me impõe essa condição, e que me nego a assistir á missa, o que me sucederá nesse caso?

—Nesse caso não poderá continuar a trabalhar na egreja.

—Pois então é inutil que tornemos a falar mais nisso; pela minha parte não assisto á missa.

—Porquê?

—Creio inutil repetir-lhe aquilo que já por tantas vezes lhe tenho dito sobre o assunto. Não tendo a missa para mim o valor que vós lhe daes, não posso nem devo assistir a ela.

—Porém pense bem que está na maior miseria, e não sómente vocemecê, como sua mulher e seu filho.

—Pois o Senhor, que tem cuidado das avesinhas e dos lirios dos campos, cuidará de mim, de minha mulher e de meu filho.

—Vamos; quer encarregar-se?

—Sim, senhor.

—Nesse caso, espero que vá á missa.

—Não, senhor, eu não posso assistir a um acto que a minha consciencia reprova.

—Então não estranhe que a fome bata á sua porta: será um castigo de Deus, que o avisa por minha boca.

—Não, não é um aviso; diga antes uma tentação de Satanaz, permitida por Deus, para provar a minha fé.

—Julguei que podia valer-lhe em alguma coisa, porém enganei-me. É dificil deter em sua carreira o homem que marcha a passos agigantados para o precipicio. Que a Virgem tenha misericordia de si.

—Folgo imenso com que tenha falado da Virgem, pois que me esquecia de dizer-lhe duas coisas: a primeira é que me faça o favor de não falar a minha mulher ácerca de religião; a segunda é que não lhe torne a dar estampas de santos ou de virgens, pois que, como pode muito bem compreender, não deve meter-se onde não o chamam.

—Se eu dei a sua esposa alguns conselhos, foi porque a encontrei triste e aflita. Eu, na minha qualidade de sacerdote, tenho o dever de consolar os tristes.

—Muito bem: porém aquilo que disse a minha esposa, em vez de servir para a consolar, devia servir para acender em seu peito a duvida, e estabelecer em minha casa uma guerra religiosa; portanto, que não torne a suceder uma tal coisa.

—Quer isso dizer—respondeu o padre Francisco—que me prohibe de falar com sua esposa, não é verdade?

—Sim, senhor: sobre assuntos de religião prohibo-lhe terminantemente que lhe fale.

—Nesse caso é impossivel que Deus o ajude.

—Padre Francisco, parece-me que o culpado de que me tenham tirado o trabalho em casa dos condes X... foi vossa senhoria.

—Pois fui eu, é verdade, que influi para que fosse despedido da casa.

—Então teve valor para perder desse modo um pae de familia?

—Basta, basta, Julião; estou cançado de lutar; venho oferecer-lhe o bem, e o senhor rejeita-o; ha-de, por conseguinte, sofrer-lhe as consequencias.

—Padre Francisco: nem V., nem Roma, nem a fome, nem as ameaças são suficientes para apartar-me do amor que ha em Cristo Jesus.

—Nesse caso, guerra e guerra sem treguas.

O padre saiu furioso da loja, e Julião, elevando os olhos ao céu, exclamou:

—«Julga, Senhor, aos que me fazem dano, expugna aos que me combatem». (Sal. 34: 1).

Emquanto isto sucedia, dialogavam assim Antonia e sua mãe na carpinteria:

—Sim—dizia Brigida,—escreve a teu pae, contando-lhe os apuros do nosso amigo, e que imediatamente nos mande dinheiro.

—Quanto lhe peço?

—Não sei; porém explica-lhe o caso, e ele poderá calcular quanto é preciso.

Antonia começou a escrever, e, depois dalguns instantes, leu a sua mãe a seguinte carta:

«Madrid...

«Querido pae, muito me alegrarei que ao receber esta esteja de saude; nós estamos boas.

«Escrevemos-lhe para referir-lhe uma coisa que muito o entristecerá. Julião, o nosso amigo, deixa a loja, por manejos dos seus inimigos, que quasi o reduziram á miseria.

«Deixaremos o nosso amigo sem auxilio?

«Não. Espero que meu pae atenderá aos rogos de sua esposa e filha.

«Esperamos que aproveitará a ocasião de fazer alguma coisa por amor de Jesus, tendo em conta que «Deus ama aquele que dá com alegria».

«Sem mais, receba o carinho destas que o amam

Brigida e Antonia.

P. S.—Lembre-se daquilo que Dôres fez por mim quando estive doente, e de que os desgostos que isso lhe ocasionou, e aquilo que agora está sofrendo, tudo isso é consequencia do que fez por mim. Os nossos amigos perdem-se se de pronto não os socorremos».

—Bem, bem, filha—exclamou Brigida ao ouvir a leitura da carta;—escreves melhor do que um ministro. Anda, vae deitar a carta no correio.


CAPITULO XV
Já começa!...

No dia seguinte ao dos acontecimentos referidos no capitulo anterior, os tranzeuntes da Rua dos Embaixadores, ao passarem por certa casa, poderam ler—Julião, Vidraceiro, Chumbeiro, Chocolateiro—e colocado sobre a porta um papelinho escrito pelo porteiro da casa, em pessima ortografia, com os seguintes dizeres: «Aluga-se esta loja; o porteiro tem as chaves e dirá as condições».

Sim, Julião tinha deixado a loja por não poder pagar o aluguer, e agora vive na agua-furtada n.º 12, da mesma casa.

Como é costume entre amigos mostrar a casa em que vivem, Julião o faz a todos os que se interessam na sua historia.

Depois de se subirem cento e quinze degraus, chega-se a uma galeria, ou, melhor, a um corredor, em que fica a morada de Julião.

Consta de tres compartimentos—sala, cosinha e alcova.

Agora que estamos dentro da casa, ouçamos o que dizem o nosso amigo e sua mulher.

—Crê-me—dizia Julião,—o Senhor tirou-nos a loja, fazendo-nos vir viver para aqui. Por alguma coisa foi que o Senhor fez isto.

—E para que o fez Ele?

—Olha, Dôres, não crês que neste corredor se pode anunciar o Evangelho a mais de duzentas pessoas?

—Creio, Julião, que não terás necessidade de chamar o ministro para isso.

—Não, realmente. Porque hei de ceder a outro as bençãos que eu posso receber? Por certo que seria uma loucura.

—E que tencionas fazer?

—Uma coisa muito simples. Hoje mesmo convidas as visinhas para uma reunião religiosa. Dizes que todo aquele que deseje ouvir as novas do Evangelho pode vir aqui esta noite, ás oito horas em ponto.

—Bem, farei o que tu desejas, e que o Senhor nos abençôe.

Julião saiu de casa, e em poucos momentos Dôres estendia no corredor algumas peças de roupa que tinha lavado.

—Bons dias, visinha—disse-lhe uma mulher do corredor em frente.

—Bons dias, senhora—lhe respondeu Dôres.

Dentro de si sentia uma coisa que lhe dizia: «Começa a trabalhar para Jesus.»

—Está hoje um bonito dia!—disse a visinha.

—Realmente está um dia muito bonito. Veja que formoso está o céu! Quem seria capaz de fazer um céu similhante a este? E ainda dizem que não ha Deus!

—E quem se atreve a sustentar similhante disparate?

—Não faltam, infelizmente, pessoas que o façam; pessoas que não teem religião nem consciencia.

—A proposito, Dôres, permite-me que entre em sua casa para lhe perguntar umas coisas?

—Com muito gosto.

—Vou ver se fervem as panelas que deixei ao lume, e depois irei ter comsigo.

Quando Dôres se viu sósinha, exclamou:

—Senhor, dá-me forças e aumenta a minha fé, se queres que faça alguma coisa por Ti. Por amor de Jesus, concede-me o Teu santo Espirito. Amen.

—Posso entrar?—disse uma voz do lado de fóra.

—Entre—respondeu Dôres.

No mesmo momento entrou a mulher que tinha falado com Dôres.

Esta ofereceu-lhe uma cadeira, e ela, depois de tomar assento, disse-lhe:

—Então porque deixou a loja?

—Que quer a visinha—respondeu Dôres.—Caprichos da sorte, ou, melhor, azares da vida.

—A mim disseram-me que foi por vocemecês serem protestantes que os despediram da casa.

—Pois não é verdade: fomos nós que nos despedimos, porque o meu esposo perdeu de repente o dinheiro que tinha, e bem assim a freguezia, por causa das suas idéas religiosas.

—Porém, Dôres, perdôe-me que lhe diga. Eu não entendo uma palavra ácerca das suas crenças religiosas. A mim disseram-me que os protestantes não crêem em Deus, nem na Virgem, nem nos santos. Quando morreu sua mãe, ouvi tudo o que o padre disse, e pareceu-me que no que dizia tinha razão; assisti ao enterro, e fiquei impressionada: mas porque é que todos são contra vocemecês?

—Por que razão foram todos contra Jesus? Eis aqui a causa: os que crêem em Jesus são perseguidos porque o seu Divino Mestre o foi.

—Porém vocemecês crêem em Deus e na Santissima Trindade?

—Sim, senhora; nós cremos em tudo isso, e mais ainda cremos em tudo o que está escrito na Biblia.

—Muito desejaria tornar a ouvir falar algum dos que pensam como vocemecês.

—Pois olhe, se tem esse desejo, Julião vae fazer algumas reuniões neste mesmo quarto, e pode assistir a elas.

—Não sabe quanto me alegro em saber isso. Não faltarei; porém diga-me: Quando é que seu marido principia?

—Esta mesma noite ás 8 horas, e, visto que a senhora é a primeira moradora da casa que o sabe, peço-lhe que...

—Não diga nada? Descance que...

—Pelo contrario, peço-lhe que o diga a todas as pessoas que muito bem lhe parecer. Seria um grande prazer para nós que todos os moradores e a visinhança ouvissem o Evangelho.

—Pois então eu lhe asseguro que toda a visinhança o saberá.

Em poucos momentos, todos os moradores da casa sabiam que Julião ia dar reuniões protestantes, e todos se dispozeram a ir ouvil-o, uns por curiosidade e outros por zombaria.

Quando o padre Francisco soube isto, exclamou:

—Já começa! e eu que julgava que esse homem cederia á fome e á miseria! Na minha vida não tenho visto pessoa mais teimosa! Que fazer? Ah! se se promovesse um escandalo, podia suceder que o senhorio os despedisse da casa; e o escandalo, sim, ha de dar-se. Parece mentira que os homens se obcequem a este ponto... No emtanto, isto faz-me supôr que Julião recebe alguma paga.

Assim continuou o padre, falando comsigo.

Por fim veiu a noite, e, ainda que alguma coisa fria por ser outono, a gente apinha-se nos corredores, por não caberem todos os que haviam concorrido dentro do quarto.

Ás oito horas em ponto da noite, Julião entrou no quarto, saudando todas as pessoas.

Depois dirigiu-lhes a palavra da seguinte maneira:

—Amigos, bastante embaraçosa é para mim a situação em que me encontro ao dirigir-vos a palavra. Falo-vos por duas razões: a primeira porque a isso Deus me envia, para que vos anuncie as novas de salvação que se encontra em Jesus Cristo; a segunda, a menos importante, para me justificar do que dizem, pois que, na opinião de muitos, duvida-se do meu caracter e da minha honra. Parece que muitos dos que estão presentes estranharão que um protestante vá falar do cristianismo, quando, segundo dizem por ahi, nós os protestantes somos uns herejes, uns incredulos, que duvidam de tudo. Se isto é ou não verdade, ides vós julgal-o ouvindo dos meus labios a minha profissão de fé, na qual eu, bem como todos os cristãos evangelicos, a quem vós chamaes protestantes, cremos. Para que bem o compreendaes, escutae com atenção.

«Creio em Deus Pae Todo Poderoso, Creador do céu e da terra. Creio em Jesus Cristo seu Unico Filho, Nosso Senhor; O qual foi concebido por obra do Espirito Santo; Nasceu de Maria Virgem; Padeceu sob o poder de Poncio Pilatos; Foi crucificado, morto e sepultado; Desceu aos infernos; Ao terceiro dia ressuscitou dos mortos; Subiu ao céu; Está sentado á mão direita de Deus Pae Todo Poderoso; Donde ha de vir a julgar os vivos e os mortos.

Creio no Espirito Santo; Na Santa Egreja Catolica; Na comunhão dos santos; Na ressureição da carne; Na vida eterna. Amen.»

Um murmurio de vozes de aprovação e surpreza rompeu de todos os labios. As vozes que mais se distinguiram foram:

—Esse Credo é egual ao nosso!

—Crêem em Deus!

—E na Virgem!!!

—E em que Cristo foi concebido pelo Espirito Santo!!!

—Sim, meus amigos—continuou Julião,—nós, isto é, os cristãos do Evangelho, cremos em tudo o que está escrito na palavra de Deus. Quanto dizem de nós é uma completa calunia. Jámais duvidámos da virtude de Maria, mãe, não de Deus, porque Deus não teve pae nem mãe, porém sim mãe de Jesus, emquanto homem como nós. Nós não confiamos em ninguem senão em Cristo, porque sabemos que em nenhum outro ha salvação; porque do céu abaixo nenhum outro nome foi dado aos homens pelo qual os homens devem ser salvos (Atos 4:12). Não confiamos nas obras que possamos fazer, pois que, por melhores que elas sejam, não são mais do que «trapos de imundicie». Não nos submetemos ao jugo de Roma, porque na palavra de Deus não se ordena que o cristão esteja sujeito a tal ou qual egreja, mas sim a Cristo, e porque esta egreja tiranisa as consciencias, obrigando a crer em dogmas taes como a infalibilidade, que nos faz ver a figura do papa retratado na segunda Epistola de S. Paulo aos Tessalonicenses, cap. 2.º, ver, 3 e 4, onde se diz, falando da segunda vinda do Senhor: «Ninguem de modo algum vos engane; porque não será sem que antes venha a apostasia, e sem que tenha aparecido o homem do pecado, o filho da perdição, aquele que se opõe, e se eleva sobre tudo o que se chama Deus, ou que é adorado, de sorte que se sentará no templo de Deus, ostentando-se como se fosse Deus». Nós, os protestantes, não fazemos caso dos dias de jejum, porque S. Paulo diz: «Ninguem vos julgue pelo comer nem pelo beber» (Col. 2: 16). Tambem sabemos, para que nos acautelemos deles, que «alguns prohibirão casar-se, e mandarão abster-se das coisas que Deus creou para que com acção de graças participassem delas os fieis e os que teem conhecido a verdade» (1.ª a Tim. 4: 3). Não fazemos caso algum dos mandamentos romanos, no que diz respeito a dar dinheiro ou velas, ou coisas similhantes para o culto, pois que na Palavra de Deus achamos escrito: «Ninguem vos desencaminhe, afectando parecer humilde, e dar culto aos anjos, que nunca viu no estado de viador, inchado vãmente no sentido da sua carne» (Col. 2: 18).

Algumas vozes de aprovação sairam dentre os ouvintes.

—Sim, meus amigos—prosseguiu Julião,—dos protestantes dizem-se muitas coisas que assim não são.

«Nós, os protestantes, cremos na Virgem dos Evangelhos, mas não na Virgem da egreja romana, porque a Virgem desta egreja em nada se parece com aquela. Não lhe rezamos por duas razões: a primeira porque não sabemos rezar; sabemos sim orar a Deus; e a segunda porque nem os apostolos, nem as tres Marias, nem nenhuma das personagens do seu tempo o fizeram. E que diremos ácerca das bulas? As bulas! Famosa chave romana que abre e fecha as portas do céu, desde o minimo preço de dois reales[3] até somas um tanto consideraveis. Roma tem bulas para todos, já vêdes—acrescentou em tom ironico.—Roma tem bulas até para defuntos. Emfim, Roma não perde ocasião de tirar dinheiro. Desde que uma pessoa nasce até que morre, paga dinheiro e mais dinheiro para os cofres da egreja. Dinheiro para baptizar, dinheiro para casar, dinheiro para enterrar, dinheiro para missas, dinheiro para tudo. Ah! os sacerdotes desta egreja não teem em conta que S. Paulo vivia á custa do trabalho de suas mãos, e que nem S. Pedro nem os demais apostolos foram subvencionados pelo Estado: não tiveram pé de altar, nem direitos paroquiaes, nem casulas batidas a oiro, nem calices de prata, nem baculos do mesmo metal, nem tiara, nem mitra, nem chapéu cardinalicio, nem foram abades, nem conegos... Porém, se não tinham nada disto, em troca recebiam, para administral-o, o dinheiro dos ricos, e com isso a egreja vivia com algum desafogo. Este era o costume apostolico, e por ser este costume que nós defendemos acusam-nos de herejes e nos excomungam, e não fazem mais porque Deus não lhes permite. Meus amigos, já vos são conhecidas em parte as doutrinas dos cristãos evangelicos; agora julgae por vós mesmos. Ámanhã á mesma hora de hoje, se vos dignardes vós escutar-me, falaremos dalgum ponto do Evangelho; porém, antes de vos retirardes, sabei duas coisas: primeira, que «de tal maneira Deus amou o mundo que lhe deu o Seu Filho Unigenito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna» (S. João 3: 16). A segunda é que «nenhuma condenação ha para os que estão em Cristo Jesus» (Rom. 8: 1). Que o Senhor nos abençôe. Amen.

Julião retirou-se para a alcova, e a gente tambem saiu, discutindo entre si; alguns foram felicital-o.

O padre Francisco, que havia estado observando tudo, dizia a sós comsigo:

—E não houve escandalo! E esse homem que vae convencel-os! Como evitar isso?

O bom do padre trazia a cabeça numa braza viva, pensando como havia de inutilizar o seu inimigo, sem se lembrar de que era melhor tomar o parecer que o fariseu Gamaliel deu no conselho de Jerusalem, celebrado contra os apostolos, em que disse: «Não vos metaes com estes homens, e deixae-os; porque, se este conselho, ou esta obra, vem dos homens, ela se desvanecerá; porém, se vem de Deus, não a podereis desfazer, para que não pareça que até a Deus resistis» (Atos 5: 38-40).