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Julião e a Biblia

Chapter 24: CAPITULO XXIII Romano e evangelico
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About This Book

A narrativa segue Julião, um artesão cuja fé orienta a vida familiar e comunitária, desde a formação junto a um mestre até o casamento com Maria das Dôres e o nascimento do filho. Retrata o equilíbrio entre trabalho e devoção, simbolizado por um aviso sobre o dia de descanso, e mostra vizinhos cuja observância religiosa e participação em festas como Santo António variam. Momentos de leitura coletiva e de anúncio do Evangelho atravessam as cenas domésticas, gerando conversas, sensibilidades e tensões morais. A ação expõe questões de caridade, tradição e reputação enquanto os personagens tentam conciliar crença, ofício e laços sociais.


CAPITULO XXI
A conferencia

Ás tres e meia horas da tarde, o padre Francisco e o seu hospede estavam sentados á meza. Quando já tinham comido algumas colheres de sopa, o padre Francisco, numa voz meliflua, disse ao joven:

—Amigo Mateus, desejei vivamente falar comsigo, movido da melhor boa vontade, e peço-lhe que ponha de parte as nossas diferenças religiosas, para que conversemos como se fossemos alheios ás questões que vamos tratar.

O joven manifestou com a cabeça um sinal de assentimento, e o padre Francisco, continuando o seu discurso, disse:

—Sempre me chamou a atenção a propaganda tão tenaz que os protestantes fazem em Hespanha, sem embargo de que pouco podem adeantar. Vocês espalham livros, pagam a missionarios, pagam o aluguer das casas onde prégam, as quaes, apezar de estarem sempre vasias, custam bom dinheiro... Quem paga para tudo isto e qual o fim que teem em vista?

—Eu, por minha vez, devia perguntar-lhe: Quem enche as chamadas arcas de S. Pedro? Donde saem essas somas que vão engrossar os tesouros do pontifice italiano?

—Os bons catolicos é que...

—Desculpe-me, senhor padre Francisco, já sei qual a resposta; essas somas saem, em sua grande maioria, da nobreza, que, em logar de socorrer as necessidades do seu proprio paiz, manda dinheiro para uma coisa de que não quero ocupar-me.

«Pois bem: existem fóra daqui homens que crêem em Cristo; estes homens sabem que sómente nesse nome é que podemos ser salvos; compreendem que uma parte do que o Senhor lhes dá devem empregal-a no serviço do mesmo Deus, e em vez de darem a um homem para que o empregue á sua vontade, sustentando soldados e outras coisas, enviam aos paizes onde o Evangelho é ignorado missionarios que préguem o nome de Jesus, custeiam a despeza dos livros que falem d’Ele, e sobretudo dedicam somas enormes á impressão da Biblia na lingua de cada povo.

—O maior de todos os males!—exclamou o padre Francisco.—Isso é o peor de tudo.

—Como?—disse o joven, surpreendido.—Diz que a vulgarisação da Palavra de Deus entre o povo é a coisa peor da propaganda evangelica?!...

—Sim, senhor—afirmou o padre Francisco, acrescentando:—Supondo mesmo que a tradução está feita com a melhor boa fé, quem se lembra de pôr nas mãos dum povo ignorante um livro tão profundo como a Biblia? Eu mesmo não me atrevo a estudar a Biblia, nunca a leio, com medo de extraviar-me. A Santa Biblia foi sómente escrita para homens doutos e instruidos, e não se deve mostrar ao povo, e muito menos deixal-a em suas mãos, pois que isso serviria tão sómente para o perder.

—Não tem razão no que diz—disse Mateus,—e no que afirma vae de encontro ao que está escrito, pois recordo-me perfeitamente de que o Salmista diz: «Tocha resplandecente para os meus pés é a tua palavra, e luz para o meu caminho...» (Sal. 118: 105).

—Pode dizer o que quizer, porém não ha provas suficientes que autorizem o povo a que leia a Biblia.

—Como assim, se a palavra de Deus está cheia dessas autorizações? A Biblia era lida publicamente na sinagoga. Moisés recebeu ordem do Senhor para a ensinar ás pessoas adultas, ás creanças, e até mesmo aos estrangeiros que habitavam entre o povo de Israel.

—Porém observe, Mateus, que então era outra coisa, pois ainda não tinha vindo Jesus Cristo, e era preciso recorrer á profecia; mas hoje, que Cristo já veiu, de modo nenhum devemos recorrer ao Antigo Testamento, para nos inspirarmos nas antigas praticas.

—Se bem que não me conformo com essa opinião—replicou o joven,—no emtanto recorramos, pelo menos, ao Evangelho, e...

—Isso mesmo fazemos nós—disse o padre Francisco,—pois que todos os dias na egreja se lê o Evangelho e alguns trechos das Epistolas.

—Sim? E diga-me em que lingua são lidos o Evangelho e esses trechos das Epistolas.

—Em latim, por ser o idioma universal da egreja.

—Como diz que o latim é a lingua universal da egreja, quando a egreja é composta de italianos, hespanhoes, portuguezes, francezes, inglezes, e de outras nações, e cada qual fala a sua lingua particular? Quem fala hoje em dia latim? Á excepção do clero, creio que ninguem. Então é preciso falar a cada um na sua propria lingua.

«Que significa o facto de, quando os apostolos receberam o Espirito Santo, começarem a falar diversas linguas? Significa certamente que deviam contar as maravilhas de Deus a cada povo, na sua propria lingua, para que ele podesse entender. Os apostolos falavam diversas linguas, depois de terem recebido o Espirito Santo, e, segundo alguns crêem, sem saberem eles mesmos que falavam lingua estranha: mas seja como fôr, se o Senhor obrou tal milagre é porque convem que o Evangelho seja prégado ao povo na sua propria lingua, para que ele o possa entender. Assim S. Paulo diz, na sua primeira Epistola aos Corintios, cap. 14: 18 e 19: «Graças dou ao meu Deus, que falo todas as linguas que vós falaes; mas eu antes quero falar na egreja cinco palavras da minha inteligencia, para instruir tambem os outros, do que dez mil palavras em lingua estranha.»

O padre Francisco ficou silencioso, sem saber que responder, vencido pelos argumentos do joven. Porém acrescentou logo:

—Sim, tudo o que diz parece verdadeiro, porém eis ahi o que resulta de ler a Biblia sem os comentarios da egreja.

—Pois eu digo a V. que, lendo a Biblia com as notas do padre Scio, se encontram os mais solidos argumentos em favor da minha asserção.

—Bem—disse o padre Francisco,—acabemos de comer, e, visto que o senhor assim o deseja, iremos consultar a Biblia.

—Se lhe parece—disse Mateus,—discutiremos se as Sagradas Escrituras devem ou não ser lidas pelo povo.

—Sim, discutamos—respondeu o padre,—porém, antes disso, permita que lhe apresente os argumentos que tenho a meu favor, pois que, se eles o convencerem, pouparemos palavras inuteis. O primeiro argumento que posso apresentar é a tradição—coisa esta muito digna de se ter em conta. Porque é que nenhum bispo tem permitido até hoje que a Biblia circule livremente nas mãos do povo?... O segundo é que, ao instituir Cristo a familia sacerdotal, como pode dizer-se em hipotese, claro está que foi só para que os sacerdotes, e sómente estes, sejam depositarios e interpretes da Biblia... Depois... Depois... Os concilios!... Essas assembleias de homens doutissimos! Poços de sabedoria humana e divina!... Os papas!... Essa cadeia não interrompida de homens cheios do Espirito Santo, que vem comunicando-se duns para os outros desde o primeiro que teve o primado! Todos estes são concordes em que a Biblia deve ser prohibida para aqueles que, alterando a sua significação ou dando-lhe uma interpretação forçada, podem extraviar as almas, precipitando-as no inferno. Mateus, seja franco; o senhor mesmo não experimentou duvidas ácerca do dogma cristão ocasionadas pela leitura da Biblia sem notas? Responda-me, porém faça-o com franqueza, dizendo o que realmente sente.

—Vou responder-lhe com a franqueza que deseja. Principio pela sua ultima pergunta. Não, senhor; jámais experimentei duvidas ácerca do dogma cristão quando principiei a ler a Biblia; o que, sim, senti desde logo que possui o sagrado livro foi uma sensação de temor e respeito, que não posso explicar. Ao ler as manifestações do amor de Deus, fiquei assombrado; depois, com as Epistolas, aprendi uma porção não pequena de doutrina, e por ultimo o livro dos Atos dos Apostolos me ensinou a evangelizar. Eis aqui do que me serviu a Biblia. Hoje em dia, que me acho familiarizado com a sua leitura, esquadrinho o Antigo Testamento, estudo as profecias, a minha alma canta lendo os Salmos, sofre com Job e goza com José, aprendendo quaes são os juizos de Deus, que Se serve de tantos meios para fazer bem ao homem. Sim, padre Francisco, a leitura da Biblia enche o espirito de santas emoções, demonstra a enormidade do pecado, tornando-o odioso á nossa alma, e nos faz ver antecipadamente os inefaveis gozos que a misericordia dum Deus de amor nos prepara nos logares que hoje nos são desconhecidos.

Depois dalguns momentos de silencio, durante os quaes o padre Francisco se mostrou muito pensativo, o joven evangelista prosseguiu:

—Agora passemos a outra coisa, da qual falarei pouco, pois que quero falar com a Biblia. Diz V. que nunca na antiguidade houve quem lesse a Biblia, querendo, sem duvida, dar a entender que até ao seculo XVI não houve quem se ocupasse na tradução do sagrado texto em lingua vulgar.

«Contra esta asserção fala o bispo Ulfilas, que viveu no seculo IV, o qual, quando os godos invadiram a Hespanha, havia já traduzido para o gotico as Sagradas Escrituras; levanta-se Recesvinto, que viveu no ano de 650-672, rei dos godos, que entre as suas virtudes contava um desejo insaciavel de conhecer os misterios das Escrituras, no que respeitava á sua salvação; levanta-se um João, bispo de Sevilha, que no seculo III traduziu a Biblia para o arabe, afim de que os arabes que tinham invadido a Hespanha podessem lêl-a e instruir-se nas verdades cristãs; D. Jaime I, que reinou nos anos de 1213 a 1276, e que tão pouco está conforme com V., padre do seculo XIX, pois, emquanto que V. crê que a interpretação da Biblia pertence aos sacerdotes, aquele rei, dizem as cronicas, possuia um conhecimento profundo das Sagradas Escrituras, as quaes explicava e prégava como o mais consumado mestre de teologia, em qualquer cidade onde se achasse. Este rei não sómente prégou ao povo, senão que no concilio de Lyon, e perante o Papa Gregorio X e mais prelados, tomou para texto as palavras de Isaias: «Levanta-te; resplandece, etc., etc.,» as quaes desenvolveu com notavel admiração de todos. Outro hespanhol, Luiz de Gusmão, mestre de Calatrava, mandou traduzir a Biblia, no ano de 1432, ao sabio judeu Moisés, e, como este opozesse algumas dificuldades, conseguiu o nobre mestre, á força de dinheiro e ameaças, convencer o judeu; a tradução fez-se, e numa nota do Moisés lê-se: «Até hoje tenho gasto mil dobrões, desde que se principiou, até ao estado em que a vêdes.» Devo advertir-lhe, sr. padre Francisco, que os mil dobrões de então correspondem a umas 2500 libras esterlinas de hoje. Agora julga ainda que não houve reis, bispos e nobres que lessem a palavra de Deus? Como se atrevem os senhores a afirmar coisas que não conhecem nem sabem? Porém, vamos ao texto.

—Vejamos; eu acho na palavra de Deus o mandamento de ensinar a Biblia ás creanças, e aqui, no livro chamado o Deuteronomio, cap. 6, vers. 6-9, leio o seguinte:

E as palavras que eu hoje te intimo estarão gravadas no teu coração; e as referirás a teus filhos, e as meditarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, ao deitar-te para dormir e ao levantar-te; e as atarás como sinal na tua mão; e elas estarão e se moverão deante dos teus olhos, e as escreverás no limiar e nas portas da tua casa.

—A primeira coisa que tenho que opôr a isso—respondeu o padre Francisco—é que esse texto pode estar alterado, ou não ser exato, pois o senhor diz que esse livro é uma Biblia completa, o que não pode ser, pois que tão extensa materia não pode estar contida em tão pequeno volume; e, visto que não está anotado, não podemos nós interpretal-o.

—Muito bem—replicou o joven;—nesse caso faça favor de trazer a Biblia.

O padre Francisco dirigiu-se a um armario, e tirou de lá tres grandes volumes.

Procurou entre eles, e por fim disse:

—Aqui está o texto que você cita; vou lêl-o.

O padre leu:

E estas palavras que eu hoje te intimo estarão em teu coração, e as contarás a teus filhos, e as meditarás sentado em tua casa, e andando pelo caminho, ao deitar-te para dormir, e ao levantar-te: e as atarás como sinal na tua mão, e elas estarão e se moverão deante dos teus olhos, e as escreverás no limiar e portas da tua casa.

—Diga-me que diferença ha entre o que está na minha Biblia e o que está na sua?—perguntou Mateus.

—Realmente nenhuma, respondeu o padre; porém aqui ha algumas notas, e estou certo de que elas discordam da opinião dos senhores. Vejamos. E onde diz: «E as contarás a teus filhos» ha uma nota que explica este texto, dizendo:

«Instruirás nelas a teus filhos, pois a isto se reduz a perfeição do homem.»

O padre Francisco ficou sem saber o que dizer, e Mateus, aproveitando aqueles momentos, disse:

—Pois, longe de discordar da nossa opinião, é esse mesmo o nosso sentir. Já vê, pois, que estamos de perfeito acordo.

—Mas diga-me—disse o padre Francisco,—não tem nenhuma nota na sua Biblia sobre esse texto?

—Não; nem precisa é; na Biblia não queremos opiniões de homens.

Neste ponto houve alguns momentos de silencio, depois dos quaes o padre Francisco, como iluminado por uma ideia, disse:

—Porém, Mateus, não estamos nós divagando? Não lhe dizia eu que esse livro extravia os ignorantes? Pense, e veja bem que estamos tratando a questão num terreno falso. Nos tempos de Moisés devia-se ler e meditar nestas coisas; porém veiu Jesus Cristo e encerrou a Antiga Aliança; de modo que estes mandamentos são inuteis, porque não nos pertencem a nós.

—Certamente—respondeu Mateus.—Vamos agora ao Novo Testamento. No Evangelho de S. João, cap. 5, ver. 39, lemos:

«Examinae as Escrituras, pois julgaes ter nelas a vida eterna, e elas mesmas são as que dão testemunho de mim.»

—Aqui, como vê,—acrescentou o joven—é Cristo que fala.

—Sim—replicou o padre,—porém fala ácerca dos judeus que não queriam reconhecel-O como Messias. Este texto nada tem que ver comnosco, os cristãos.

—Eu não creio assim, mas recorreremos a outros. Na segunda Epistola de S. Paulo a Timoteo, cap. 3, ver. 14 a 17, lemos:

«Mas tu persevera nas coisas que aprendeste, e que te foram confiadas, sabendo de quem as aprendeste, e que desde a infancia foste educado nas Sagradas Letras, que te podem instruir para a salvação, pela fé que é em Cristo Jesus. Toda a Escritura divinamente inspirada é util para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir na justiça, afim de que o homem de Deus seja perfeito, estando preparado para toda a obra boa

—Peço-lhe, sr. padre Francisco, que examine este texto na sua Biblia e veja que instruções dá S. Paulo a um seu discipulo que está á frente duma egreja.

O padre Francisco quasi tinha medo de pegar na Biblia; por fim, depois de muito instado pelo evangelista, tomou o livro, percorreu o texto, leu-o para si e disse:

—Sim, o texto é egual ao que leu.

E, ocultando o rosto entre as mãos, calou-se; parecia que o seu espirito estava como que envolvido em terriveis lutas.

Depois dum breve espaço de tempo, o sacerdote ergueu a cabeça e disse ao joven:

—Meu amigo, se soubesse o que me vinha a acontecer, isto é, que havia de ter este desassocego de espirito que agora sinto, jámais teriamos falado a tal respeito; finalmente, deixemos de discutir, e separemo-nos para não nos vermos mais.

—Separarmo-nos!—exclamou, comovido, o joven—Separarmo-nos! De modo nenhum, sr. padre Francisco; agora mais do que nunca desejo que a nossa amizade principie. Sim, sr. padre Francisco; estudaremos juntos a palavra de Deus. Lendo a Biblia, conhecerá Cristo, tal como Ele é; lendo a Biblia, beberá no manancial da agua pura, que refrescará a sua alma, apagando-lhe o fogo das obras vãs em que hoje se engolfa. Nos Atos dos Apostolos achará qual foi a constituição e o regimen da Egreja primitiva, e verá como a egreja em que milita, apezar de se chamar apostolica, não conserva nada dos apostolos. Ali verá que Pedro não teve primado algum. Pelas Escrituras jámais poderá provar que aquele apostolo estivesse em Roma. Ali, finalmente, encontrará que nem os apostolos nem aqueles que com eles se juntavam renderam culto á Virgem, nem a nenhuma outra creatura, nem tinham confessionarios nem confissão feita ao ouvido do sacerdote.

—Pois, sr. Mateus—disse o padre Francisco depois duma breve pausa,—aquilo que diz parece ser verdade, porém falaremos noutra ocasião; deixe-me meditar e pensar, porque creio que... emfim... não me declaro vencido.

—Bem, não quero incomodál-o mais—acrescentou o joven,—porém ámanhã, quando vá dizer a sua missa, recorde-se de que no Novo Testamento está escrito que Jesus, com um só sacrificio, fez perfeitos aqueles que santificou; assim que, se foi com um só sacrificio, aquele que o senhor celebre é completamente inutil. Agora, rogo-lhe em nome de Jesus que leia a Biblia; ela lhe fará conhecer o erro em que está; e não quizera sair daqui sem que me désse a sua palavra de ler os capitulos 5, 6, 7, 8 e 9 da Epistola aos Hebreus.

Depois de cinco horas de discussão, o joven saiu daquela casa e, ao despedir-se, disse ao sacerdote;

—Não tornaremos a ver-nos?

—Não sei—respondeu o padre,—veremos; se Deus quizer, sim; senão cada qual seguirá o seu caminho.

Ambos, depois de se apertarem a mão, se separaram.


CAPITULO XXII
Temor, inquietação e duvidas

Quando o sacerdote ficou só, fechou-se no seu quarto, depois de dar ordem á creada de que por ninguem nem por coisa nenhuma o fosse incomodar.

O padre Francisco sentou-se á mesa do escritorio, sobre o qual poz o candieiro e a Biblia.

Depois apoiou os cotovelos na mesa, ocultou o rosto entre as mãos, e nesta posição esteve muito tempo.

Durante este intervalo só se ouvia o oscilar da pendula do relogio, que vinha perturbar o profundo silencio que ali reinava.

Por fim, o padre Francisco, mudando de posição, disse:

—Ah! Que revolta confusão de idéas surgem no meu espirito... Sim, sinto uma sêde insaciavel de saber a verdade do assunto... Esse joven é mais sabio do que eu julgava, seus argumentos são de peso, e suas palavras teem tal expressão de verdade que, se não me convenceram, pelo menos fizeram penetrar a duvida no meu espirito.

O sacerdote calou-se, e depois duma breve pausa continuou comsigo:

—As citações que fez, e que lemos nesse livro—dizia, apontando para a Biblia,—tão gravadas ficaram na minha mente que jámais as esquecerei... Oh! receio ter cometido um pecado, lendo este livro! Porém... Porventura não li eu as notas e não vi que estão conformes com a explicação e até mesmo com a aplicação que delas fez o joven?... E, no fim de tudo, os Evangelhos e as Epistolas que nós lemos á missa... Ah! a missa! Parece que tão pouco acredita nela! Não, pois neste ponto não lhe concedo nada; eu sei que Jesus instituiu a missa quando instituiu o sacramento da Eucaristia, e sei que os apostolos tambem disseram missa...

Novamente o padre Francisco se calou, porém ao cabo dalguns momentos continuou:

—Emfim, vou ver o que é a verdade... Lerei os capitulos que me disse da Epistola aos Hebreus... Certamente que lerei as notas; e assim não haverá receio de que o meu espirito se extravie.

O padre Francisco abriu a Biblia, procurou a Epistola e principiou a ler o capitulo 4, depois de ter recitado uma breve oração em latim.

Diversas foram as impressões que o padre Francisco recebeu durante a leitura; impressionavam-no sobremaneira os versiculos 14 e 15 do cap. 4; o 20 do cap. 6; porém sobretudo surpreendeu-o o que estava escrito nos versiculos 24 e 28 do cap. 7, e não poude passar mais adiante.

Ali, viu clara e terminantemente a falsidade de que a missa seja o sacrificio de Cristo.

No versiculo 21 do citado cap. 7, leu ácerca de Cristo:

«Que não tem necessidade, como os outros sacerdotes, de oferecer todos os dias sacrificios, primeiramente pelos seus pecados, depois pelos do povo, porque isto o fez uma vez, oferecendo-Se a Si mesmo.»

Recorreu o sacerdote ás notas, desejoso de que elas lhe fizessem compreender outra coisa distinta daquilo que ele compreendia, isto é, que depois do sacrificio de Cristo teria havido alguma razão poderosa para se celebrar a missa. Ancioso, cravou os olhos no livro e leu:

«Ofereceu-Se a Si mesmo, não por pecados proprios, como impiamente disse Socino, pois que o Apostolo lhe chama Santo, Inocente, Imaculado, senão que satisfez ao Pae por nós. O ter-Se oferecido uma vez não exclue os sacrificios da Egreja Cristã, porque o mesmo que se efectuou cruento sobre a cruz está expresso no incruento dos nossos altares». (Conc. Trid. Sessão 22, cap. 11).

O padre Francisco deu um murro em cima da mesa e exclamou:

—Claro que a missa é uma representação do sacrificio de Cristo, porém esta nota do Concilio de Trento está abertamente em oposição com aquilo que nós ensinamos, isto é, que na missa sacrificamos a Cristo real e verdadeiramente, pois que temos em nossas mãos um Cristo real, material e verdadeiro. Não posso compreender isto, porém creio que o sacrificio de Cristo não se repete mais... Oh! que está dando entrada no meu coração a heresia!... Nada, nada... porém, sim, a olhos vistos se pode observar que existe uma contradição entre os nossos ensinos e as nossas praticas...

O sacerdote, cançado por uma luta tão prolongada, decidiu ir refugiar-se no leito, esperando encontrar repouso no sono.

Fez as suas orações do costume, porém podemos afirmar que nessa noite os seus labios mais do que o seu espirito tomaram parte nos exercicios piedosos, pois que o espirito, esse achava-se bastante perturbado.

Todavia, contra as suas esperanças, passou aquela noite preza de pezadelos que o não deixaram dormir.

Impossivel nos seria descrever os sinaes de terror que se desenhavam no rosto do padre Francisco ao levantar-se do leito, ao romper do dia. Tremulo e agitado, principiou a vestir-se com uma precipitação desusada, e exclamou:

—Oh Santissima Virgem do Pilar! Tu és boa, tu és pura, tu não quererás que eu, que te amo até ao ponto de ter-te aqui encerrada nesta arca santa, para que nem o proprio ar te dê; tu, oh flôr de Nazaré, oh estrela da manhã, não quererás que eu me perca... Não sou eu sacerdote? Não te amo mais do que a minha vida?... Não daria até o meu proprio sangue por ti? Porque, pois, não me ouves?... Acaso já me não amas a mim? Em que te ofendi? Oh Virgem Santissima, não te mostres indiferente quando eu te oro; pelo contrario, concede-me o que te peço!... Agora vou dizer missa; a ti a ofereço, excelsa Senhora; prepara-me tu, e perdoa-me todos os meus pecados, que na tua presença confesso.

E o sacerdote, cruzando as mãos sobre o peito, inclinou a cabeça e disse em voz baixa:

—Eu, pecador, me confesso a Deus[4] e á bemaventurada sempre Virgem Maria, e ao bemaventurado S. Miguel Arcanjo, e ao bemaventurado S. João Baptista, e aos santos Apostolos S. Pedro e S. Paulo e a todos os Santos... que pequei gravemente por pensamentos, palavras e obras, por minha culpa... por minha culpa... por minha gravissima culpa. Portanto, rogo á bemaventurada Virgem, ao bemaventurado S. Miguel Arcanjo, ao bemaventurado S. João-Baptista, e aos santos Apostolos S. Pedro e S. Paulo, e a todos os Santos... que rogueis por mim a Deus, Nosso Senhor... Amen... Jesus, Maria, José, perdoae-me o grave pecado de ler o que não devia ter lido, e falado com quem não devia falar, que me fez sonhar aquilo que eu não queria. Senhor, Maria, Santos que habitaes as mansões celestes. Sumo Pontifice, Arcebispo da diocese, perdoae-me... Amen.

O sacerdote, depois de se ter persignado tres vezes, levantou-se, e, fechando o armario, dirigiu-se ao seu quarto; uma vez ali, poz a capa e, tomando o gorro, saiu.

Emquanto ia a caminho da egreja, novos pensamentos se lhe cruzaram pelo espirito, inquietando-o muitissimo.

Via em sua imaginação a Virgem do Pilar, deante da qual se tinha ajoelhado, tão resplandecente, tão formosa... então, por uma transformação, viu-a negra, sem aquela expressão de bondade no rosto que sempre tinha, tal qual como quando estava nas mãos do artista; depois, viu-a no cadinho derretida, e por ultimo acabou por perguntar a si mesmo: «Ter-me-ha ouvido esse pedaço de prata?»

Como nesta luta estava interessada a cabeça e o coração, tornava-se ainda mais amarga, porque o que aquela aprovava este rejeitava, e vice-versa; assim que, depois da pergunta anterior, veiu-lhe ao espirito o seguinte pensamento: «Porém, se eu me prostrei deante daquela imagem, não foi para a adorar a ela, mas sim aquilo que representa».

Por fim chegou á egreja, e, depois de tomar uma pouca d’agua benta, com que fez uma cruz na testa e na corôa, dirigiu-se para a sacristia.

A sacristia desta egreja é digna de ser observada.

Quasi todas, com pequenas excepções, são eguaes. Um compartimento maior ou menor, com um armario a um dos lados, que serve ao mesmo tempo de meza, o qual é de madeira e duma construção pesada. Nos seus gavetões guardam-se os paramentos, a cera, etc.

Na parede lateral do lado oposto, ha uma especie de banco corrido, que oculta um caixão a todo o comprimento, onde os sacerdotes guardam as capas, quando se preparam para celebrar a missa.

Quadros misticos, um crucifixo, uma pequena taça de pedra com agua, onde o sacerdote lava as mãos antes e depois da missa, compõem todo o adorno daquele logar.

Devemos fazer especial menção duma antiquissima mesa, por detraz da qual ha uma cadeira de couro, não menos antiga.

Fazemos menção especial destes dois objectos, que não faltam em nenhuma egreja paroquial, não por sua antiguidade nem por sua beleza artistica, mas sim porque naquela cadeira e por detraz daquela mesa senta-se um sacerdote. Vejamos de que se ocupa ele.

Uma mulher entra na sacristia, dizendo que deseja mandar dizer uma missa em tal ou qual altar; mandam-na ter com o sacerdote que está sentado á mesa, o qual recebe o dinheiro e escreve num livro, respondendo depois: «Pode-se ir embora, que a missa cá se dirá...»

Depois chegam duas senhoras, com um recem-nascido. Veem mandar dizer uma missa de parida, como vulgarmente se chama. O clerigo recebe dinheiro e diz: «A primeira que agora se fôr dizer é a missa que deseja». Costuma suceder que alguma pessoa entra na sacristia pedindo o Viatico para algum enfermo, e então não falta sacerdote que não murmure:

—Não podem vir á noite? A esta hora tão impropria! Assim está em perigo o doente?

E deste modo, ainda que o sacerdote se revista com as vestes proprias, ainda que o sino dê o sinal do estilo, numa palavra, ainda que se vá desempenhar aquele oficio no mesmo instante, não se faz sem primeiramente se haver murmurado ácerca da hora, do frio, do calor, dos muitos degraus que ha para subir, se o enfermo é pobre e habita nas aguas-furtadas dum quinto andar. Em resumo, para aquele que vae com o dinheiro na mão tudo está muito bem; para o pobre, porém, é outra coisa; tudo se faz, mas sempre de má vontade.

Para terminar esta descrição, diremos que na sacristia, geralmente, reina o melhor humor. Os sacristães, rodeados por seis ou oito meninos do côro que olham com inveja para a sotaina, e aspiram chegar a serem sacristães quando haja logar, ralham sobre a repartição mal feita dalguma propina, ou sobre o dever de ajudar ou não á missa. Porém que ha a estranhar em que os meninos do côro façam isto, quando os sacerdotes lhes dão tal exemplo?

Numa palavra, se os nossos leitores querem inteirar-se a fundo e conhecer as miserias da egreja romana, vão estudal-as no interior dalgumas sacristias paroquiaes, na certeza de que verão com surpreza e escandalo o que o autor destas linhas tem tido ocasião de ver.

Porém, voltando ao padre Francisco, achava-se sentado e absorto em suas meditações, quando um dos sacristães se aproximou dele para lhe dizer que era a hora de dizer missa.

O padre Francisco principiou a paramentar-se, recitando em latim, durante esse ato, as rezas do ceremonial.

Recordou-se então de que nenhum dos apostolos havia usado aquelas vestes, e, a seu pezar, olhava para elas agora com uma certa indiferença que lhe seria impossivel explicar. Por fim tomou o calix e saiu para a egreja. Ao subir os degraus do altar-mór, sentia esvaecimentos de cabeça; porém, apezar disso, continuou.

Segundo o costume, recitou as primeiras orações, e, ao chegar ao confiteo deo, etc; quiz concentrar-se comsigo para fazer uma confissão digna, porém naquele momento assaltou-o este pensamento: Primeiramente pensou que nem S. Paulo nem S. Pedro deviam ter celebrado missa recitando aquela oração, pois, de contrario, eles mesmos se pediriam perdão dos seus proprios pecados; segundo, se, como é de supôr, esta oração não se dizia no tempo dos apostolos, claro é que era um remendo deitado depois, e em tal caso a missa não era como a celebraram os apostolos.

Imediatamente o assaltou outro pensamento:

—Que nescio sou em pensar assim! Claro é que nem S. Pedro nem nenhum apostolo disse esta oração; porém nem por isso a missa está alterada, visto que desde o introito até ao Evangelho não são senão orações preliminares, que não formam parte da missa. Deixemos, pois, de pensar nestas coisas.

Continuou na celebração. Por fim chegou ao Evangelho; o menino do côro que ajudava á missa mudou o missal da esquerda para a direita do altar, e o sacerdote principiou a ler o Evangelho, que naquele dia era o cap. 4 de S. João, ou a passagem de Jesus com a samaritana.

O sacerdote lia rapidamente; porém ao chegar aos versiculos 21, 22 e 23, uma luz penetrou no seu espirito, e por um momento parou na leitura, até que com muita atenção e pausa tornou a ler:

«Vós adoratis quod nescitis...»

—Sim—pensou o padre Francisco—«Vós adoraes o que não sabeis». Isso sucede á maioria dos catolicos. Que sabe ácerca de Deus essa gente que se ajoelha atraz de mim? Como pode estar orando com recolhimento, se está olhando para mim com toda a atenção, para se ajoelhar quando eu me ajoelho, e levantar-se quando eu me levanto?

«Ced venit hora—prosseguiu lendo—et nunc est, quando veri adoratores adorabund Patrem in spiritu et veritate. Nam et Pater tales quoe rit, qui adorant eum, in spiritu et veritate oportet adorare.»

—Oh—disse o padre—eis aqui uma doutrina na qual nunca havia posto a atenção. «Os verdadeiros adoradores adorarão o Pae em espirito e verdade, porque Ele é Espirito e verdade; além disso, porque tambem o Pae busca taes adoradores para que O adorem.» O Senhor, pois, deseja um culto espiritual, porém certamente que o culto que nós, os catolicos, Lhe rendemos tem muito pouco de espiritual, é antes externo e material. Jámais pensei nisto.

O sacerdote continuou a missa, e concluiu-a, saindo da egreja sem falar a ninguem.

As devotas que costumavam ouvir a missa que ele dizia sahiam, dizendo:

—Hoje sim, que o padre Francisco disse uma missa bem comprida!

Ao chegar a casa escreveu a seguinte carta:

Madrid... Embaixadores...

Meu caro Sr. Mateus N.

Apezar de ter resolvido não incomodal-o mais, sinto muito ter de o fazer, pedindo-lhe que venha por esta sua casa quando lhe seja possivel, tendo em conta que uma alma que sofre necessita da sua presença.

Seu afectuosissimo,

Francisco Maria dos Anjos.


CAPITULO XXIII
Romano e evangelico

Passaram dias terriveis para o padre Francisco. Nestes dois dias comeu pouco, dormiu menos e permaneceu encerrado em casa, sem sair á rua, nem mesmo para dizer missa.

No fim destes dois dias bateram á porta. A creada veiu abrir, e anunciou logo:

«O sr. Mateus.»

—Que entre! que entre!—disse o padre, que não poude conter-se, indo ele mesmo á porta.—Bemvindo, bemvindo seja, senhor Mateus.

Saudaram-se mutuamente e entraram logo no escritorio.

Depois de tomarem assento, disse Mateus:

—Hontem á noite, ás onze e meia, recebi a sua carta, pois que estive numa povoação prégando, e, como lhe disse, cheguei hontem a essa hora; por isso apressei-me hoje em vir, e aqui me tem ás suas ordens.

—Meu amigo, é impossivel dizer-lhe as angustias que sofro. O meu espirito luta, e mesmo de noite não posso descançar. No dia em que lhe escrevi, não pude dizer a missa com a tranquilidade de espirito necessaria: á noite, antes de me deitar, li a Biblia, e fui acometido de horriveis pesadelos.

E o padre Francisco contou ao joven os sonhos que teve durante a noite, e tudo o mais que lhe sucedeu na missa. Depois continuou:

—Que significa tudo isto? Porque sofre tanto a minha alma? Eu lhe peço, sr. Mateus, que me diga franca e lealmente se o que crê o crê do coração; se assim é, qual é a base da sua fé, porque difere das crenças da Egreja, porque tem em pouca conta a missa... numa palavra, desejo que me diga sinceramente se obedece á sua consciencia, ou se, tanto o senhor como os da sua seita, estão filiados para, sob a capa do Evangelho, destruir a Egreja catolica, e substituil-a pelo seu protestantismo. Fale-me com toda a franqueza, na certeza de que ninguem saberá esta nossa conversa, e em troca terá restituido a tranquilidade e o repouso á minha alma. Finalmente, sr. Mateus, ou me demonstra clara e terminantemente as erradas crenças que eu confesso, ou diz-me que os protestantes obedecem a planos duvidosos, pois de contrario porque protestam?

O padre Francisco calou-se; o seu olhar estava fito no semblante do evangelista, como se quizesse magnetisal-o. Passados alguns segundos, disse Mateus:

—Senhor padre Francisco, tenho-o estado escutando com toda a seriedade de animo, e compreendi que a sua alma necessitava dum tal desafogo. Agora vou responder á primeira das suas perguntas, pois que, para melhor inteligencia, vou dividil-as em dois grupos. Deseja saber qual é o caracter do protestantismo. Bem; aqui, em nome do Senhor, a quem desde que sou convertido jámais invoco em vão, lhe asseguro que os protestantes, ou, antes, os cristãos evangelicos, não obedecem, em materias religiosas, a planos duvidosos; que por nenhuma causa desejam que o mundo se perca, que não odeiam os ministros, nem os fieis da Egreja romana, antes pelo contrario teem compaixão deles, e, por ultimo, que os protestantes desejam que o Evangelho, em toda a sua pureza, se estabeleça em toda a superficie da terra, e que, conforme as palavras do Senhor, o mundo seja cheio do conhecimento do Seu nome. Agora, a segunda parte da minha resposta é que a unica regra de fé dos protestantes é a palavra de Deus, conforme se acha contida nos livros do Antigo e Novo Testamentos; que acatamos tudo quanto a Biblia diz; que nos submetemos aos seus ensinos e rejeitamos pela base tudo aquilo que está em contradição com as Escrituras ou que não achamos nelas estabelecido. Isto posto, e antes de passarmos a outro ponto, devo perguntar-lhe se depois disto, e do mais sobre o que vamos falar, o Senhor, pelos meus labios, lhe pozer á vista os erros dos romanistas, promete não resistir por mais tempo ao Espirito, antes pelo contrario obrar conforme ele lhe dite?

—Sim, senhor—respondeu o sacerdote.

—Pois bem, observe, á face do Evangelho, os erros da Egreja de que é ministro. Mas para proceder com metodo, tratemos da questão pessoalmente, quero dizer, como se V. fosse o fundador do romanismo e eu do protestantismo.

—Bem, muito bem—disse o padre Francisco;—principiemos pela missa. Eu digo, e a Egreja o confirma, que Jesus foi quem instituiu a missa, quando instituiu o sacramento da Eucaristia.

—E eu—disse Mateus—digo que, antes de mais nada, precisamos de definir a missa. Pergunto, pois: o que é a missa?

—A missa—respondeu o sacerdote—é um sacrificio, no qual o sacerdote oferece a Deus, em sacrificio incruento, a Jesus Cristo, Filho de Deus. Este sacrificio pode aplicar-se em beneficio dos defuntos cujas almas se acham no purgatorio, por algumas faltas que cometeram neste mundo.

—Perfeitamente—replicou o evangelista.—É assim como o entende a Egreja romana; no emtanto, eu digo-lhe que não ouvi jámais tantos erros em tão poucas palavras. Em primeiro logar, como procederam os apostolos em relação ao partir do pão? No cap. 2 dos Atos, ver. 42 a 46, leio que eles, com as pessoas convertidas, participavam da comunhão entre si, celebrando o partir do pão nas casas, e todos com alegria glorificavam a Deus.

«Agora, pois, sabemos que os apostolos não se serviram desta especie de obreia, que a egreja romana emprega na comunhão, senão que comiam o pão como Jesus lhes ordenou; tambem bebiam vinho, não sómente os apostolos, como todos quantos participavam da comunhão, coisa contraria ao que faz o sacerdote romano, que priva do calix o povo, o que me dá direito de lhe perguntar: Quem instituiu o sacramento, o sacerdote ou Cristo?

«O Senhor, falando do calix, diz: «bebei todos dele». Quem é V. para opôr-se á vontade do Fundador, que quiz que todos se aproveitassem do Seu sangue? Em segundo logar, a missa não foi instituida por Cristo, nem por Seus apostolos, porque um papa, Damaso, bispo de Roma, no ano de 368, instituiu o confiteor; Gelasio, no ano de 492, compoz os Hinos, Coletas, Responsorios, Graduaes, Prefacios, e tambem acrescentou o Vere dignum et justum est. Simaco, no ano de 512, decretou que nos domingos e festas principaes dos martires se cantasse a Gloria in excelsis Deo. Pelagio, pelo ano de 556, acrescentou a comemoração dos defuntos. Gregorio I, pelo ano de 600, fez as Antifonas e o Introito, ordenando que a kirie-eleyson se cantasse nove vezes, e do mesmo modo o Aleluia. Além disso, tambem ordenou este papa que o Pater Noster se cantasse em alta voz, e sobre a hostia consagrada; tambem acrescentou ao canon: Dies que nostres in tua pace disponas.

O padre Francisco estava verdadeiramente assombrado, o que deixava ver claramente pelo gestos com que acompanhava as palavras de Mateus, que continuou assim:

—Sergio, que morreu em 701, ordenou que o Agnus Dei se cantasse tres vezes antes de partir a hostia. Gregorio III acrescentou á secreta missa: Quorum solemnitas hodie in conspectu tuae magestates celebratur, domine deus noster, in toto orbe terrarum. Nicolau I acrescentou as sequencias. Não me negará V. que Sixto I acrescentou o Sanctus, Sanctus Dominus Deus Sabaoth. Inocencio I, pelo ano de 405, acrescentou o osculo de paz. Leão I inventou o Orate, frates, o Deo gratis, e acrescentou ao canon Senatum sacrificium, immaculatam hostiam, e o Hanc igitur oblationem. E, depois de tudo isto, não vê V., meu caro amigo, que Cristo não instituiu a missa, mas sim que esta foi obra em que muitos colaboraram?

O padre continuou silencioso. Mateus prosseguiu:

—Existe outra prova maior do que todas, que demonstra claramente a extraordinaria mentira de que Cristo instituiu a missa. O grande Te igitur clementissime Pater é uma parte da missa, na qual se faz menção do papa, do bispo e do rei, o que é uma prova irrecusavel de que nem instituiu a missa, nem tão pouco a disse, pois que no Seu tempo ainda não havia papas nem bispos. No Communicates faz-se menção da Virgem e dos muitos santos que não existiram senão muitos anos depois dos apostolos, como S. Cipriano, S. Lourenço, S. Crisostomo, S. Cosme, Damião e outros. Ora isto prova a verdade da minha asserção. Agora convem observar a subtileza romana. Não põem no canon a S. Pedro, porque, se o pozessem, poderia dizer-se que aquele apostolo tinha procurado a nossa propria gloria. Com isto convenço o mais pertinaz ou cego de que nem Cristo nem nenhum dos apostolos disseram missa, nem conheceram o que isso era.

O sacerdote deu um suspiro e disse:

—Triste coisa é a gente encontrar-se em presença da fria verdade que esmaga! Oh! que Deus perdôe a todos.

O evangelista continuou:

—Agora passemos ás Escrituras. V. apresenta-me como razão das suas crenças a autoridade dos homens; e eu aceito-a para confundir essa autoridade com a de Deus. A essencia, o fundamento, da missa, está contida no artigo V. do Credo do Papa Pio IV, que diz assim: «Confesso, eu mesmo, que na missa se oferece a Deus um verdadeiro, proprio e propiciativo sacrificio pelos vivos e defuntos, e que no santissimo sacramento da Eucaristia estão verdadeira, real e substancialmente o corpo e o sangue, juntamente com a alma e a divindade, de Nosso Senhor Jesus Cristo, e que se verifica uma conversão de toda a substancia do vinho no Seu sangue, á qual conversão chama a Egreja Romana transubstanciação. Tambem confesso que sob qualquer das duas especies se recebe Cristo total e completamente, e que são um verdadeiro sacramento.» Este artigo, ensinado aos catolicos, obriga-os a crêr em varias coisas; porém as duas principaes são: primeira, que na missa se oferece a Deus um sacrificio de propiciação pelos vivos e pelos mortos; segunda, que na missa, e sob as especies do pão e do vinho, está real, verdadeira e substancialmente Cristo, com a Sua alma e divindade.

Depois disto, e dado o caso de que alguem ousasse levantar-se contra tal impiedade, ou não podesse admitir uma tal crença, vem-nos o concilio de Trento decretar em sua sessão 22, canon III, o seguinte:

«Se alguem disser que o sacrificio da missa é sómente um sacrificio de louvor e acção de graças, ou uma mera comemoração do sacrificio feito sobre a cruz, e que não é propiciatorio, ou que aproveita sómente áquele que o recebe, e que não deve ser oferecido pelos vivos ou pelos mortos, por seus pecados, castigos, penitencias mal cumpridas e outras necessidades, seja anatema

Todo o catolico romano está obrigado a calar-se e a acatar esta doutrina, esteja ou não conforme com ela, sob pena de ser fulminado pelo anatema.

O ensino, pois, desta egreja é que, cada vez que um sacerdote celebra missa, oferece a Deus um sacrificio proprio e propiciatorio pelos vivos e pelos mortos. Quem é o sacrificado neste sacrificio? Cristo, o mesmo Cristo do Golgota, o Jesus de Belem.

Quando principiámos esta discussão, disse-lhe que, tal como a queda e o caido, assim tinha que ser a redenção e o Redentor. Agora—acrescentou, tirando do bolso a Biblia—contra a doutrina de que o sacrificio de Cristo possa repetir-se ou renovar-se, temos o cap. 6, vers. 9 e 10 da Epistola de S. Paulo aos Romanos.