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Julião e a Biblia

Chapter 6: CAPITULO V Tlim... tlim... tlim... tlim...
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About This Book

A narrativa segue Julião, um artesão cuja fé orienta a vida familiar e comunitária, desde a formação junto a um mestre até o casamento com Maria das Dôres e o nascimento do filho. Retrata o equilíbrio entre trabalho e devoção, simbolizado por um aviso sobre o dia de descanso, e mostra vizinhos cuja observância religiosa e participação em festas como Santo António variam. Momentos de leitura coletiva e de anúncio do Evangelho atravessam as cenas domésticas, gerando conversas, sensibilidades e tensões morais. A ação expõe questões de caridade, tradição e reputação enquanto os personagens tentam conciliar crença, ofício e laços sociais.


CAPITULO V
Tlim... tlim... tlim... tlim...

No dia seguinte ao dos acontecimentos narrados no capitulo antecedente, estava tudo preparado para se levar o Viatico a Antonia.

A opinião do padre Francisco prevaleceu, e ele mesmo confessou a filha do carpinteiro. Ao anoitecer já estavam todos os amigos de mestre João e grande numero de visinhos esperando que soasse a hora marcada para irem á egreja.

Entre os visinhos faltava um, era mestre Julião.

Deixemol-os no caminho da egreja, e ouçamos o seguinte dialogo entre duas visinhas:

—É estranho que a mulher de mestre Julião não esteja neste momento em casa de Antonia, visitando-a tanto a miudo como a visitava.

—Olhe, sr.ª Tomazia, segundo o que tenho ouvido dizer, ela e o marido são protestantes, e por isso... como vão á...

—Protestantes! Vocemecê está louca, sr.ª Joana! Pois então não conheço eu Dôres desde pequenina, e não foi baptizada em S. Caetano?

—Pois filha, o que lhe digo e repito é que mestre Julião é protestante.

—Pois está muito enganada. Os protestantes não são hespanhoes nem estão baptizados.

—Então que são eles?

—São uns estrangeiros que vieram de longe, da mourama, mandados de lá para conquistarem a Hespanha.

—Pois a mim disseram-me em segredo que Julião era protestante.

—Não, esse está baptizado e é hespanhol; e ha pouco entrou em sua casa o padre Francisco; já vê que, se ele fosse protestante, não entraria ali aquele sacerdote.

—Pois é exactamente por isso que eu o sei. O padre Francisco soube que mestre Julião estava aconselhando o pae de Antonia a que não deixasse confessar a filha, e foi lá a casa para o trazer comsigo.

—É verdade! Isso é um misterio.

—Misterio não; ha quem diga...

Neste momento ouviu-se o tlim... tlim... tlim... tlim... da campainha anunciando a chegada do Viatico.

Imediatamente em casa da enferma e nas casas visinhas se estabeleceu uma grande confusão. Os moradores dos andares superiores desceram á porta da rua, uns trazendo luzes e outros com brazas nas pás, em que queimavam alfazema e incenso. O som da campainha ouvia-se cada vez mais distintamente, e os que vinham na frente com tochas acesas entraram no portal. Toda a gente se poz de joelhos. O sacerdote passou pelo meio, murmurando palavras que não se entendiam, e entrou pela porta que dava para as trazeiras da carpinteria. A porta de Julião, de que já falámos, e que ficava em frente da de mestre João, permaneceu fechada, causando este facto grande surpreza.

Emquanto o sacerdote estava lá dentro, alguns dos que tinham vindo acompanhar processionalmente o Viatico ficaram no portal, porque não cabiam no quarto da enferma, e, para não perderem o tempo, começaram a fumar e a conversar muito tranquilamente.

—Ouça lá, visinha—disse um individuo a uma mulher que estava com um candieiro na mão.—Quem mora nessa casa cuja porta está fechada e que não teve uma triste vela para alumiar o Senhor quando passou?

—Ali—respondeu a mulher, apontando para a porta que estava fechada—é a oficina de mestre Julião. Não são muito amigos destas coisas, nem ele nem sua familia; são...

—Protestantes?

—Exactamente.

—Oh! com mil bombas! Ouve tu—dirigindo-se a outro—; naquela casa mora um protestante: deveriamos chamal-o e obrigal-o á força a abrir a porta e trazer uma luz.

—Não, deixae-vos de loucuras, cada um é livre de pensar como quizer—respondeu ele.

—Bom, bom—disse um homem já de edade,—por essa tolerancia da mocidade em admitir estrangeiros é que a Hespanha está assim.

—Não—respondeu uma visinha,—ámanhã mesmo o comunicaremos ao sr. padre Francisco, pedindo-lhe que diga ao senhorio que despeça aquelas aves de mau agouro.

Neste ponto terminou a conversa, pois que tinha tambem terminado a cerimonia da administração do Viatico á enferma. Pôz-se tudo na mesma ordem; tornou a soar a campainha, e o Deus inventado pela Egreja romana saiu de casa, e lá foi novamente nas mãos dum simples mortal.

Vejamos entretanto o que estava fazendo aquela familia que conservou a porta sempre fechada, e que nem uma triste vela acendeu á passagem do viático.

Dôres, Josefa e Julião estavam sentados na sala, tendo este ultimo deante de si um livro aberto.

—Que tristeza—disse Julião—me causa tudo o que se está passando na casa de João! Que diferente é o que estão fazendo com Antonia daquilo que o Senhor ordena na Sua Palavra! Leiamol-a e vejamos o que se deve fazer com os enfermos. Na Epistola de S. Tiago, cap. V, vv. 14 e 15, lê-se o seguinte: «Está entre vós algum enfermo? chame os presbiteros da egreja, e estes façam oração sobre ele, ungindo-o em nome do Senhor; e a oração da fé salvará o enfermo, e o Senhor o aliviará; e, se estiver em alguns pecados, ser-lhe-hão perdoados.» Taes são as instruções que temos na Palavra de Deus, e portanto não devemos afastar-nos delas, desprezando-as.

Façamos «a oração da fé que salvará o enfermo», pedindo a Deus por nossa visinha a quem tanto estimamos; não que a nossa oração a salve, mas sim porque é uma recomendação de Deus, e por meio da qual liberalisa a Sua graça e concede os Seus dons. Porém é preciso fazer essa oração com fé. Minha mãe e tu, Dôres, sentem-se com verdadeira fé, para pedir ao Senhor por Antonia, crendo firmemente que o Senhor a aliviará?

—Sim, responderam elas resolutamente.

—Pois então oremos ao Senhor.—Pozeram-se todos de joelhos, e, depois duns momentos de meditação profunda, ergueu-se a voz de Julião, pausada e solene, dizendo:

—Oh! Senhor e nosso Pae! Ajoelhamo-nos deante de Ti, em nome de Jesus Cristo, para Te suplicarmos que nos concedas uma benção especial. Senhor, lemos na Tua Palavra que nos mandas que oremos pelos enfermos, prometendo que «a oração da fé salvará o enfermo, e que Tu, Senhor, o aliviarás». Dá-nos a fé necessaria para Te pedirmos por Antonia, nossa visinha. Tu, oh! Deus, sabes todas as coisas, e conheces todos os corações. Sabes, pois, a situação em que se encontra a nossa amiga e o estado do seu coração. Ah! Senhor! Não permitas que, enganada por praticas vãs, que lhe ensinaram, sua consciencia continue a estar adormecida, pois que nesse caso qual será o seu despertar? Oh! bom Deus; aqui Te apresentamos a promessa; agora, Senhor, atende ao que Te pedimos: Que levantes Antonia do seu leito, e que a convertas a Ti, sarando-lhe deste modo o seu corpo e a sua alma. Senhor, concede-nos isto, faze-nos ver o Teu poder, dá consolação a seus paes, e restitue-lhes sua filha; mas, se fôr do Teu agrado leval-a para Ti, salva a sua alma. Ouve-nos, Senhor; assim To pedimos em nome, por amor e pelos merecimentos de Jesus Cristo, Teu Filho. Amen.

Amen, repetiram as duas mulheres.

Quando se levantaram, Julião disse:

—Agora aguardemos a resposta do Senhor.

—Olha, Julião—disse Dôres,—vou ver como está Antonia, e volto já.

—Se te deixarem entrar..., observou Josefa.

—E porque não me hão de deixar entrar?

—Porque como nenhum de nós foi á porta quando passou o Viatico...

—Nesse caso—interrompeu Julião,—se te disserem alguma coisa que não te agrade, volta imediatamente para casa.

Dôres saiu, e dentro em breves instantes eil-a em casa de mestre João. Estranho contraste se apresentou então aos seus olhos! O altar de Santo Antonio estava iluminado como na vespera do seu dia, e adornado de flores; porém ás gargalhadas e ao ruido das guitarras havia sucedido o pranto; ao forte sapatear da dança, o andar de mansinho nas pontas dos pés; á atmosfera viciada pelo fumo dos cigarros a não menos viciada atmosfera do fumo do incenso e da alfazema. Na presença do Santo tinha sido a orgia, na presença do Santo as lagrimas e os soluços. E este, impassivel deante das palavras grosseiras de então, continuava impassivel agora á dôr e ao pranto de toda uma familia. Então ofereceram-lhe canções, agora oferecem-lhe orações, e, se áquelas foi completamente surdo e cego, a mesma surdez e cegueira manifesta em presença destas. O mal principiou no dia do Santo, ou antes na vespera, e quando e como acabará?

Estas ideias perpassam pelo espirito de Dôres, que pôde observar tambem como, á sua entrada, algumas mulheres que estavam na sala cessaram de falar e a encaravam com certa reserva.

—Boas noites—disse ela.

—Boas noites—responderam as pessoas que estavam.

—Posso ir ver Antonia?

As mulheres hesitaram; por fim uma disse:

—Pode ir.

Dôres entrou na alcova, e aproximou-se silenciosamente da cabeceira da enferma, inclinando-se para a ver. Antonia abriu os olhos, e logo que reconheceu que era Dôres disse-lhe com voz debil:

—És tu, Dôres?

—Sim, sou eu—respondeu ela,—como estás?

—Mal, muito mal; não sinto a cabeça.

—Pois nesse caso não fales.

—Não, não falarei; o cheiro da cera e do incenso entonteceram-me... Porque não vieste antes?

—Deves saber, Antonia, que, ainda que não esteja a teu lado, lembro-me de ti e oro a Deus por ti. Vou deixar-te. Pensa em Deus, minha amiga, e lembra-te de que só Jesus Cristo é que pode salvar-nos.

—Eu já recebi a comunhão.

—Muito bem; porém não fies a tua salvação de mais ninguem senão de Jesus Cristo. Por Ele serás salva.

—Assim o farei... porém não vás ainda, senta-te aqui junto de mim.

Dôres calou-se e sentou-se, orando em silencio por sua amiga. Passados alguns momentos, saiu para a sala, e, dirigindo-se ás mulheres que ali estavam, disse-lhes:

—Onde estão os paes de Antonia?

—Não sabemos—respondeu uma, muito secamente.

Dôres, apezar de notar que a sua pergunta não tinha sido bem recebida, continuou:

—Parece-me que as senhoras deviam apagar algumas luzes do altar. Antonia queixa-se do calor e do cheiro da cera.

—Bem sabemos—respondeu a tia de Antonia—aquilo que temos de fazer. E a proposito; a senhora far-nos-hia um grande favor não tornando aqui até que Antonia esteja livre de perigo. O confessor prohibiu que fale com certa classe de gente... e...

—Sim—interrompeu Dôres—e entre essa classe de gente estão Julião, sua mãe e sua mulher, não é verdade? Pois bem, retiro-me, porém graças a Deus que em minha casa orarei pela minha amiga, e sei que Deus me ouvirá.

—Já lhe dissemos que pode retirar-se—exclamaram todas.

—Sim, retiro-me—disse Dôres com as lagrimas nos olhos—retiro-me, e que Deus vos perdôe o mal que me fazeis.

As mulheres continuaram por alguns momentos falando, e Dôres saiu, chorando, em direcção de sua casa. Ao verem-na entrar assim, sufocada pelas lagrimas, Julião e Josefa levantaram-se apressados, interrogando-a:

—Morreu?

—Não—respondeu Dôres.

—Então que foi?

—Ai!... por ordem do confessor não podemos entrar mais naquela casa.

—E então isso é motivo para que te aflijas assim dessa maneira?—exclamou Julião.

—Sim, porque quero muito a Antonia, e desprezam-nos sem saber porquê!

—Sem saber porquê?—disse Josefa—Não digas isso; eles de mais o sabem; é porque nós somos cristãos e eles não; eis ahi o motivo.

—Porém podiamos ter feito tanto bem a Antonia... que...

—O mesmo lhe podemos fazer agora—disse Julião.—Oremos sem cessar por Antonia, e Deus nos ouvirá. Quanto ao mais, preparemo-nos para sofrer toda a classe de desprezos e insultos, porém pensemos no que disse Jesus Cristo: «Lançar-vos-hão fóra das sinagogas; e virá tempo em que, quando qualquer vos matar, julgará que com isso faz um serviço a Deus». Confiança, pois, e oremos ao Senhor pelos nossos inimigos.


CAPITULO VI
Manda-o minha filha, e é quanto basta

Ao declinar da tarde do dia seguinte em que Antonia recebeu o Viatico, a sua cabeça estava um pouco mais leve, manifestando alguns sinaes de melhoras. Perguntou então por Dôres.

—Não está aqui—respondeu a mulher que cuidava dela.

—Nesse caso chamem-na—disse ela.

A mulher saiu da alcova para dar conhecimento aos paes de Antonia do desejo que ela acabára de manifestar. A mãe enxugou as lagrimas, procurou tranquilisar-se para entrar no quarto de sua filha, á qual perguntou carinhosamente:

—Que queres, minha filha?

—Quero ver Dôres.

—Para quê? O confessor disse que não falasses com ela.

—Não quero saber do que disse o confessor; o que eu quero é falar com ela, e tanto basta. O confessor encheu-me de muito medo, impoz-me uma penitencia que... finalmente, quero ver Dôres.

—Minha filha, socega, não penses em nada, nem te recordes de nada.

—Minha mãe—disse Antonia, já bastante agitada—já disse que quero ver Dôres, e hei-de vêl-a. Ela entende-me e diz-me umas coisas que ninguem as sabe dizer... quero ver Dôres, já disse... e se fosse possivel...

Mestre João, desejoso de ouvir o que dizia sua filha, tinha-se aproximado pé ante pé da alcova, escutou a petição de sua filha, e em seguida entrou e disse resolutamente.

—Para que queres ver Dôres?

—Para falar com ela—respondeu Antonia.

—Pois espera, que eu mesmo vou chamal-a.

—Muito obrigada, meu pae, muito obrigada...

João saiu da alcova, e sua mulher apoz ele, dizendo-lhe:

—Porém espera, homem; vê o que fazes!

—O que faço?—perguntou ele muito secamente.

—Então sempre vaes chamar essa mulher?

—Sim; e não só a ela como tambem o seu marido.

—Homem, tu estás...

—Estou como queiras que esteja, porém agora vou chamal-os. Pede-o minha filha, e é quanto basta.

—Porém o padre Francisco disse que não e... não.

—E minha filha diz que sim, e... e sim.

E João, sem fazer caso do que dizia sua mulher, acompanhada no mesmo tom pela tia de Antonia, saiu em direcção da oficina de Julião, pedindo a este a sua mulher e sua mãe que fossem a sua casa, logo que fechassem a porta.

Dôres, acompanhada de seu marido, entrou na casa de sua amiga.

—Antonia—disse Dôres muito baixinho.

—Ah! és tu?—respondeu a filha do carpinteiro, reanimando-se.

—Como estás?

—Mal, Dôres, muito mal; porém não sei que voz secreta me diz que desta vez ainda não morro.

—Tem confiança em Deus e está socegada, filha, esperando que a Sua vontade seja feita... porém não fales mais...

—Mas eu quero falar-te.

—E a cabeça?

—A cabeça já não me doe tanto. Oh! se tivessem continuado as mesmas dôres de hontem, certamente que já não seria deste mundo... Não podiam deixar-nos sósinhas?—disse para duas mulheres, suas visinhas.

—Sua mãe—respondeu uma delas—disse que a não deixassemos nem um instante só.

—Pois saiam agora e vão para a sala.

—Olha—disse Antonia quando se viu sósinha com Dôres—tu és a pessoa em quem tenho mais confiança, e por isso, se eu morrer, desejo encarregar-te de certas coisas...

—Antonia, querida Antonia—interrompeu Dôres—não te alteres, socega. Não disseste ainda ha pouco que não morrerias desta vez?

—Não me altero, Dôres, e tão pouco penso em morrer.

Depois de descançar um momento, disse:

—Recordas-te de que, no dia de Santo Antonio, em que fui para o campo, ao despedir-me de ti te disse: Mau dia vou ter?

—Sim.

—Vê então como acertei sem ser profetiza. Por mais que pedisse de todo o meu coração ao Santo, não fui ouvida dele.

—Olha, Antonia, e crê o que te vou dizer: Em logar de pedires a Santo Antonio, pede em nome de Jesus. Foi Ele que te remiu com o Seu sangue; Ele te chama; para que deixar a Deus pelo homem, o certo pelo duvidoso?

—Sim, sim, tens razão... Olha, hontem quando me deram o Santissimo pareceu-me que estava tranquila, porém hoje, que a minha cabeça está um pouco mais leve, as duvidas assaltam o meu espirito; pois que a verdade é que, quando me confessei, com a cabeça já quasi perdida, o P.ᵉ Francisco me falou da morte, do inferno, e não sei de quantas coisas mais. No estado em que tinha a cabeça, a minha confissão...

—Antonia, só Deus pode perdoar os pecados; portanto, só a Ele é que deves confessar-te; dize-Lhe, pois: «Pae, pequei contra Ti, mas por amor de Jesus Cristo perdôa todos os meus pecados».

—E dize-me Dôres, Deus perdoa assim tão facilmente? Não haverá nada que purgar?

—Não, não ha nada, porque Cristo purgou tudo.

—Ai, Dôres, se eu pudesse crêr nisso, que bem sentiria!

—Se queres, esta noite virá Julião, e ele te falará a esse respeito.

—Sim, quero, que venha. Tenho um encargo a fazer-te. Abre a gaveta daquele toucador e vê se ali ha uma caixinha; dentro dela ha uns brincos, a um falta-lhe fazer o aro; sabe quanto custa e dize-mo.

Dôres obedeceu, fazendo o que Antonia lhe havia recomendado.

As duas amigas pouco depois despediram-se, e Dôres saiu em direcção a sua casa.

Vejamos entretanto o que fazem mestre João, sua mulher e a tia de Antonia, irmã de João, que estão na oficina.

—Tenho dito—dizia a sr.ª Brigida—que não quero que essa mulher esteja ahi, e não estará.

—E Antonia—respondeu o carpinteiro—disse que quer que esteja, e estará.

—Porém tu queres perder a alma da pequena? perguntou sua irmã.

—O que vós ambas quereis é que eu perca a paciencia, e então...

—Essa mulher cheira-me a enxofre, João.

—E dize-me, querida Brigida, não te cheirava a enxofre quando lhe recomendavas que tivesse cuidado da nossa casa?

—Então não sabia o que eles eram.

—Sim, que o sabias, porque na noite em que baptizaram o seu filho foste á capela dos protestantes vêl-o baptizar.

—Eu não sabia que eram tão maus como são.

—Porém eles que te fizeram?

—A mim nada, porém o P.ᵉ Francisco sabe-o muito bem, e por isso ele diz o que diz. Estou certa de que agora Dôres está dizendo a nossa filha que não acredite em Deus nem nos santos, para que morra em pecado e seja condenada.

—Isso—observou a tia—se não a matar.

—Quando digo que...

—Esta noite—interrompeu Brigida—vou chamar o P.ᵉ Francisco para que confesse outra vez Antonia.

—E eu, se torno a ver o padre dentro de minha casa, vós e ele saireis correndo pela porta. Repara, Brigida, que estou meio louco, que jámais te faltei ao respeito; porém eu sei que Dôres não diz a nossa filha nenhuma coisa má, e que não quero o padre em minha casa. Se até aqui tenho sido fraco, agora não o sou.

—Digo-te que virá o P.ᵉ Francisco... e ha-de vir.

A disputa terminou, saindo mestre João a tratar dos seus negocios, e Brigida saiu apoz ele para ir falar com o padre, a quem disse:

—Ah! meu padre! minha filha quiz ver a mulher de Julião, e meu marido foi chamal-a.

—Pois é necessario impedir que ela lhe fale.

—Oh! senhor! Já estão falando ha bastante tempo!

—Porém, qual é a opinião de seu marido a tal respeito?

—Meu marido diz que Dôres não diz coisa alguma que seja má a Antonia!

—Então como se entende isso? Não diz nada que seja mau? Julgue a senhora por si mesma. A primeira coisa que sem duvida lhe terá dito é que não faça caso daquilo que eu lhe disse; que será bom que se entregue a Deus e que tenha confiança n’Ele (e isto para a enganar, pois que este é o sistema dos protestantes), porém que não satisfaça a penitencia, porque é uma loucura que dá muito incomodo; tambem lhe terá dito que pode muito bem salvar-se sem recorrer a nenhum santo; e que não creia de maneira nenhuma no poder e intercessão de Maria Santissima.

«Oh! contra a bemaventurada Virgem certamente que terá dito coisas que não estão na cartilha; como, por exemplo, que nunca existiu, que não foi pura e...

—Oh! que horror! que horror!—exclamou Brigida com os olhos fóra das orbitas, como tomada dum grande espanto, e acrescentou:

—E não poderá vir agora comigo, que não está em casa meu marido?

—Sim, sr.ª Brigida.

—Então corramos a salvar minha filha.

O sacerdote saiu em companhia da sr.ª Brigida, para visitar Antonia. Na oficina já estava mestre João, que, oferecendo uma cadeira ao padre, lhe disse:

—Poderá dizer-me a que devo a honra da sua visita?

—Sim, senhor—respondeu o P.ᵉ Francisco;—sua mulher disse-me coisas muito graves e serias.

—Minha mulher fala mais do que aquilo que deve...

—Não se altere, sr. João—disse o sacerdote, acrescentando:—Não trate assim sua pobre mulher.

—Nunca—respondeu mestre João—tratei mal a minha mulher nem a ninguem, porém agora empenharam-se em se oporem áquilo que eu ordeno, e isto não posso consentil-o.

—Mas em que se opõem á sua vontade?

—Em que não quero que contrariem minha filha no estado em que ela está.

—Aquele que mais quer mal a Antonia é vocemecê.

—Eu?

—Sim, senhor; vocemecê, que lavra a eterna condenação dela, lançando-a no inferno, onde será para sempre atormentada, porque, estando prestes a sua ultima hora, vocemecê, seu pae, ácerca de pessoas que...

—Essas pessoas são tão dignas como V. S. e como eu—exclamou o carpinteiro com certa energia, e acrescentou:—Que mal lhe fizeram Dôres e seu marido para que fale dessa maneira?

—São uns herejes—respondeu o sacerdote—que renegam a fé cristã.

—P.ᵉ Francisco, se não tivesse em atenção o seu caracter sacerdotal, dir-lhe-hia claramente que aquilo que diz não é verdade.

—Como! eu minto!—exclamou o padre, levantando a voz.

—Ouça, sr. padre: na minha casa ninguem levanta mais a voz do que eu.

—Eu sou um ministro de Deus e tenho poder para erguer a minha voz sagrada, sempre e onde seja necessario.

—João, sê prudente—disse a sr.ª Brigida em voz suplicante.

—Cala-te—respondeu o marido; e em seguida, dirigindo-se ao padre, disse-lhe:—Para que veja como eu respeito esses direitos, peço-lhe que me diga franca e claramente o que quer, ou então que saia de minha casa.

—Bem—respondeu o padre,—venho confessar sua filha, pois de contrario morre em pecado e será condenada, por ter falado com essa mulher que está excomungada.

—E eu digo-lhe que não confessará minha filha, e que, pelo contrario, o Sr. Julião e sua mulher estarão constantemente em minha casa e á cabeceira de minha filha.

—Pois eu não respondo pela sua alma, nem nenhum santo estará á sua cabeceira quando exale o ultimo suspiro, e, o que é mais ainda, ninguem lhe dirá uma missa por sua alma, pois que será inutil.

—Tão inutil será então como o é agora. Não fui senão uma vez á capela dos protestantes, e nessa ocasião tirei mais proveito do que em todas as vezes que fui á missa. Ali se lê e prega o Evangelho. Ali o ministro roga a Deus pela nação, pelo governo, pelos enfermos, pelos pobres e pelos aflitos. Ali os assistentes tomam parte no culto cantando hinos. Ali falam em hespanhol, de modo que o senhor e todos podem entender o que se diz. O senhor que lingua fala quando diz missa? Tanto pode ser mouro, como grego, como latim; o que eu sei é que não entendo palavra.

—Nem faz falta que entenda; o que lhe faz falta é crêr.

—Mas crêr em quê?

—No valor da missa.

—Porém, que valor tem a missa?

—Muito.

—Pois eu dou-lhe uma libra para que diga uma missa afim de que minha filha fique boa.

—A missa não cura senão as enfermidades da alma.

—Pois então enganaram minha mulher, pois que eu sei que lhe aconselharam a que mandasse dizer missa pela saude de minha filha.

—Parece mentira que um homem que tem em sua casa um altar dedicado a Santo Antonio fale dessa maneira.

—O que vou fazer do Santo Antonio, mais tarde o verá. Como me ha-de ouvir ele, se não é mais do que um pedaço de madeira? Fique sabendo que eu vi esse Santo quando tinha cortiça. Do mesmo tronco de madeira fizeram o Santo e um cavalo.

—Oh! não posso ouvil-o por mais tempo.

—Pois o que lhe digo é verdade; o escultor é muito meu amigo.

—Por ultimo, permite-me que confesse sua filha?

—Não, senhor.

—E que lhe fale?

—Tambem não.

—Julião falará com ela?

—Sim, senhor. E a mim me ensinará a viver; a sua casa é mais abençoada do que a minha.

—Não durará muito essa benção, eu lho prometo, nem habitará por muito tempo na casa onde mora.

—Pode fazer tudo o que quizer.


CAPITULO VII
A visita

Retrocedamos e voltemos a encontrar Dôres no momento de entrar em sua casa, depois da visita que fez á sua amiga.

Julião e sua mãe, apenas a viram, perguntaram-lhe como estava Antonia, e, ao saberem que ia melhor, Julião exclamou:

—«A oração da fé salvará o enfermo, e o Senhor o aliviará.»

—Deus é fiel—acrescentou a sr.ª Josefa.

Dôres contou a seu marido a conversa que tivera com Antonia, e o encargo que ela lhe fez dos brincos.

Á hora do costume Julião fechou a porta da loja, e, munindo-se da sua Biblia, saiu, acompanhado de sua mãe e Dôres, em direcção da casa de mestre João. Bateram de mansinho á porta, que João veiu abrir.

—Entrem para a oficina. Antonia está dormindo, e o medico, bastante surpreendido, disse que isto era um bom sinal.

Na carpinteria estavam a senhora Brigida, a tia de Antonia e mais tres mulheres.

—Boas noites—disseram ao entrar.

—Boas noites—responderam com certa reserva as pessoas que ali estavam.

—Então Antonia está dormindo? Oh! isso é um bom sinal.

—E diga-me, sr.ª Brigida, se sua filha chegar a ter saude, a quem atribue essa graça?

—Eu atribuo-a ao bemaventurado Santo Antonio, que jámais me negou o que eu lhe tenho pedido.

—Permite-me, querida Brigida—interrompeu mestre João—que te diga que o tal Santo Antonio não te ouviu na ocasião presente. Eu já dantes estava certo, porém agora estou certissimo, de que Santo Antonio não te ouviu, nem te ouve, nem jámais te ouvirá, ainda que o chames com uma buzina.

—Certamente que, tendo um marido tão pouco devoto como tu, ainda que chame por todos os santos da côrte celestial, nenhum me ouvirá.

—Com que então eu sou um impio! E como o sabes tu? O que me pésa no coração não é o ter-me oposto a que Antonia se confessasse, mas sim ter sido tão fraco que permitisse que o padre Francisco a tenha confessado. Tendel-o entendido? Demais, agora creio-me menos impio do que antes, porque, em logar de não pensar nada em Deus, agora penso alguma coisa.

—Senhores—interrompeu Julião,—se me permitem, direi algumas palavras, as quaes, com o auxilio de Deus, nos serão muito uteis para esclarecer esta questão.

—Senhor Julião—disse Brigida,—todos sabemos as doutrinas que professa; eu sei o que creio, e nada me desviará dessa crença.

—Muito bem, senhora Brigida—respondeu Julião,—porém permita-me uma pergunta? Em que crê?

—Eu creio no que diz a Egreja.

—E que diz a Egreja?

—A Egreja diz... diz... diz o que diz; eu bem sei o que diz.

—Mulher—interrompeu o carpinteiro,—com essas razões ficamos inteirados.

—Diga-me, sr.ª Brigida—esclamou Julião,—que conseguiu Antonia com a confissão que fez ao P.ᵉ Francisco?

—Muito—respondeu a mulher do carpinteiro,—pois se daquela ocasião tivesse morrido certamente que se salvava.

—Isso não é certo, pois que a confissão não salva ninguem, porém, apezar de tudo, diga-me: quantas coisas são necessarias para fazer uma boa confissão?

—Sim, senhor, são cinco; Catecismo do Padre Ripalda sobre a penitencia, (pag. 54) exame de consciencia, dôr do coração...

—Ouve—interrompeu o marido,—eis ahi o que não tinha nossa filha; o que ela tinha era uma forte dôr de cabeça.

—Cala-te e não digas loucuras... dôr de coração, proposito de emenda, dizer os pecados ao confessor e cumprir a penitencia.

—Muito bem, e crê que sua filha, hontem de tarde, atormentada pelas dôres da doença, estava nas disposições de ter esses requisitos, sem os quaes, segundo a Egreja romana, não se pode fazer uma confissão capaz de obter o perdão dos pecados? Vejamos: Antonia, em consequencia do ataque cerebral, sofrendo da cabeça horrivelmente, vae confessar-se; preparam-na de antemão para isso! dizem-lhe que o confessor irá dali a uma hora, e que é preciso fazer exame de consciencia; nada menos do que passar em revista tudo o que disse e fez desde a ultima vez que se confessou. Dali a uma hora vem o confessor, e a joven, que não pode sequer abrir os olhos, e a quem o menor ruido incomoda, tem que ouvir e responder ás perguntas que ele lhe faz; isto se ela pode falar, pois que do contrario o confessor pega-lhe na mão e começa a confessal-a pelos dedos. Depois disto, que não é pouco, vem a penitencia, que geralmente consiste em rezar tantos Padre Nossos, tantas Avé Marias, tantas Salvé-Rainhas, tantos Credos, etc. Suponhamos agora que o penitente tem dôr do coração e muito proposito de emenda; porém terá forças para cumprir a penitencia e fazer exame de consciencia? Mas isto ainda não é tudo; dali a uma hora vem o Santissimo, que muitas vezes é administrado ao enfermo no periodo agudo da doença, e estão tão convencidos de que é dificil ao doente o tomar a particula que a todo o doente que a recebe pergunta o sacerdote: Já passou? Por consequencia, sr.ª Brigida, são estas as boas disposições para a gente se salvar?

A mãe de Antonia calou-se, e algumas mulheres, e com elas o sr. João, disseram maquinalmente:

—Tem razão.

Julião conheceu que estava senhor da situação, e, levado dum grande zelo em anunciar o Evangelho, continuou desta maneira:

—A um enfermo não se deve falar senão de Jesus; na Palavra de Deus encontram-se frases tão consoladoras como estas: «O sangue de Jesus-Cristo nos purifica de todo o pecado». «Ainda que ande nos vales da sombra da morte, não temerei mal algum». «Na verdade, na verdade, vos digo que aquele que crê em mim tem a vida eterna». «Eu, diz Jesus, sou a ressurreição e a vida; aquele que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá». Estas palavras necessariamente comoverão o enfermo e o farão exclamar:—E quem és tu?—E então o Filho de Deus responde ao enfermo: «Eu sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a vida pelas Suas ovelhas». «Eu sou Jesus». E «todo aquele que vem a mim, não o lançarei fóra»...

Quando Julião acabou de falar, fez-se um silencio profundo. Por fim, uma das mulheres disse:

—Sabe que gostei muito do que acaba de dizer, e que nunca ouvi falar assim?

—Parece que o que dizes tem visos de verdade—acrescentou a irmã de mestre João.

—Senhora—disse Julião,—as palavras do Evangelho são verdadeiras; porém, tornando á nossa questão, repito: Crêem que a confissão, feita da maneira por que a Egreja a preceitúa, salva?

—Se não salva—respondeu Brigida,—temos feito tudo o que podemos para que assim seja.

—Porém, amiga, é um deploravel erro crêr que a confissão feita ao ouvido dum sacerdote pode abrir as portas do céu. Na Biblia Sagrada não ha uma só palavra ácerca da confissão secreta; nem tão pouco os apostolos a praticaram. Mas, apezar de tudo, a sua filha ficou mais tranquila, depois que se confessou?

—Não, senhor—apressou-se a dizer mestre João.

—Desejou ver outra vez o seu confessor?

—Não, senhor; opõe-se tenazmente a isso—respondeu ainda o carpinteiro.

—Opõe-se a isso—disse Brigida—porque não falta quem lhe meta na cabeça idéas corrompidas.

—Senhora Brigida—exclamou Julião—se diz isso referindo-se a minha esposa, eu lhe asseguro que Dôres não disse a Antonia palavra alguma má. Estou certo de que não lhe falou senão de Jesus, seu Salvador.

—Pois eu não sei outra coisa mais senão que minha filha não quer ver o P.ᵉ Francisco, e ela terá as suas razões.

Neste momento a mulher que velava por Antonia entrou na oficina para dizer que Antonia tinha acordado e que chamava. Suspendeu-se, pois, a conversação, e todos se dirigiram para a sala, entrando Brigida tão sómente na alcova.

Brigida aproximou-se do leito de sua filha e perguntou-lhe:

—Como estás, minha filha?

—Bastante melhor—respondeu a enferma, que acrescentou:—Dôres não veiu?

—Sim, está ali.

—Pois então que venha.

A mulher do carpinteiro saiu da alcova, e pouco depois todos entraram nela. Trocadas algumas palavras referentes ao estado de Antonia, Julião disse-lhe:

—Antonia, disseram-me que desejava ver-me. Diga-me: em que lhe posso ser util?

—Ah! Julião, desejava vêl-o anciosamente, e agora essa anciedade aumentou.

A enferma calou-se por alguns instantes. Depois, fitando os olhos em Julião, com uma expressão indescritivel, perguntou-lhe:

—Qual é o caminho que conduz ao céu?

Julião vacilou por alguns momentos, comovido pela anciedade daquela pergunta, e por fim disse:

—Vou dizer-lho, querida amiga. Jesus é quem lhe responde: «Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida; ninguem vem ao Pae senão por mim.» Jesus, pois, é o caminho que conduz ao céu?

—Bem... porém que tenho a fazer para seguir esse caminho e entrar no céu?

—O mesmo Jesus o diz: «Não temas; crê sómente, e serás salva».

—Porém crêr, em quê ou em quem?

—«Se confessares com a tua boca ao Senhor Jesus e crêres do teu coração que Deus O ressuscitou dos mortos serás salva.» «Crê no Senhor Jesus e serás salvo». Isto é o que diz a Santa Palavra.

Julião ficou silencioso, observando o efeito que aqueles textos faziam na enferma. Por fim, Antonia disse:

—Porém não tenho que fazer nada para salvar-me?

—A Palavra do Senhor diz-lhe: «Crê sómente e serás salva», e acrescenta: «Justificados, pois, pela fé, temos paz com Deus por meio de Nosso Senhor Jesus Cristo.»

—Porém, Julião, isso parece-me uma coisa impossivel, porque sou muito pecadora...

—Sim? Pois precisamente por isso póde apropriar a si as palavras de Jesus, que diz: «Não vim a chamar os justos, mas sim os pecadores». Pode por isso considerar que Deus perdoa gratuitamente, mas, se ainda lhe resta alguma duvida, atenda que é o proprio Jesus que vae falar: «O Filho do Homem veiu buscar e salvar o que havia perecido; e todo aquele que vem a mim, não o lançarei fóra».

—Ah! Julião, que doce consolação para a minha alma! Porém parece-me impossivel que Deus me ame dessa maneira.

—Ouça o que diz a Sua Palavra: «De tal maneira Deus amou ao mundo, que lhe deu Seu Filho unigenito, para que todo o que nele crê não pereça mas tenha a vida eterna.»

—Oh! como Deus é bom! Porém, como nenhum dos meus confessores me disse nada dessas coisas, senão que, ao contrario, o P.ᵉ Francisco, apezar da fraqueza em que eu estava, me sobrecarregou com uma penitencia que...

—Os confessores sabem a razão por que calam essas coisas, e a menina tambem algum dia o saberá. Agora o importante é que creia no bom Jesus, e que o aceite como seu Salvador.

Houve outro momento de silencio; ninguem se atreveu a interrompel-o. Por fim, mestre João disse:

—Parece incrivel que os padres não nos ensinem coisas tão boas como as que Julião acaba de dizer-nos.

—Meu pae—disse Antonia,—desejo possuir um livro como o de Julião.

—Sim, minha filha, ámanhã mesmo o terás, se Julião me disser onde se vendem.

—E que lhe parece tudo isto?—perguntou a sr.ª Josefa a Brigida.

—Oh! parece-me que é muito bom—respondeu esta,—porém a mim não ha nada que me arranque ás minhas opiniões.

—Senhores—interrompeu Julião,—creio que incomodamos a enferma, e que devemos retirar-nos.

—Não—replicou vivamente Antonia,—a mim não me incomoda; pelo contrario, não sabe o bem que as suas palavras causaram á minha alma, e a paz que sinto; porém de que modo pedirei perdão ao Senhor para o obter? Sou uma pobre pecadora, que se encontra ás portas da morte.

—Visto que deseja falar, falemos. «Um homem teve dois filhos, e disse o mais moço deles a seu pae: Dá-me a parte da herança que me toca. E passados não muitos dias, depois de ter recebido a herança, partiu para uma terra muito distante, num paiz estranho.» Um pecado nunca vae só; sempre arrasta outro comsigo.

«O joven, ao ver-se em perfeita liberdade, e possuidor de grandes bens, gastou tudo o que seu pae havia ganho. Porém gastou-o em coisas santas? Em esmolas? Não; «dissipou toda a sua fazenda, vivendo dissolutamente.» Bem depressa o joven se viu reduzido á pobreza. Que fazer? Deus enviou áquele paiz uma grande fome, e o joven, só e pobre, teve que sofrer aquela praga até ao ponto de desejar as landes que comiam os porcos que ele guardava. Neste estado, entrando em si, veiu-lhe á imaginação a sua casa e o seu pae. «Quantos jornaleiros—disse ele—ha em casa de meu pae que teem pão em abundancia, e eu aqui pereço á fome!» Desta reflexão nasceu outra em sua alma. Quanto tenho pecado! Que fazer? «Levantar-me-hei, e irei buscar a meu pae, e dir-lhe-hei: Pae, pequei contra o céu e deante de ti: já não sou digno de que me chames teu filho; faze de mim como dum dos teus jornaleiros». Concedeu-lhe o pae o que ele pediu? Não, mil vezes não. O pae vê vir lá ao longe um homem, esfarrapado, coberto de pó. Alguns homens do povo passam junto dele, olham-no de alto a baixo, porém não o conhecem. Ah! os olhos dum pae vêem a uma grande distancia. O ancião reconhece naquele, que parecia um mendigo, seu filho, e corre ao seu encontro, abraça-o, e, quando lhe ouve a confissão que ele faz, reconhece o seu arrependimento, e não diz! «Trazei-lhe uma enxada ou uma pá», mas sim: «Tirae depressa o seu primeiro vestido e vesti-lho, metei-lhe um anel no dedo e uns sapatos nos seus pés; trazei tambem um vitelo bem gordo, e matae-o para comermos e para nos regalarmos.»

—Agora, meus amigos—continuou Julião—apliquemos esta parabola a nós mesmos. Todos temos pecado. Cada um de nós é um filho prodigo, nosso pae é Deus, e perdoar-nos-ha Ele? Sim, certamente, porque «se o estipendio do pecado é a morte, a graça de Deus é a vida perduravel em Cristo Jesus» (Rom. 6: 23). Deste modo se explicam as palavras de Jesus: «Assim vos digo que haverá maior jubilo no céu sobre um pecador que se arrepender do que sobre noventa e nove justos que não hão mister de arrependimento» (Luc. 15: 7). Não crê, querida Antonia, que Deus quer e pode perdoar-lhe desta maneira?

—Oh! dificil é explicar o que sinto; sómente posso dizer que creio de todo o coração que Jesus é meu Salvador e que estou salva.

—Que o Senhor abençoe a sua fé.

Todos se levantaram para se despedirem; Julião e sua familia dirigiram-se para casa.

João e as mulheres ficaram falando, com louvor, de Julião. Brigida sómente repetia:

—Não, não, a mim não ha nada que me arranque das minhas opiniões. Parece verdade, parece...

Pouco tempo depois toda a gente, menos a tia de Antonia, que ficava aquela noite a cuidar dela, se retirou para descançar.