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Lagrimas Abençoadas

Chapter 23: XVIII
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About This Book

This work explores themes of suffering and redemption, emphasizing that true happiness often comes through trials and tears. It presents a narrative that intertwines religious reflections with the human experience, illustrating the struggles of individuals in a flawed society. The text delves into the complexities of virtue and the spiritual journey, portraying characters who seek solace and understanding amidst their hardships. The author articulates a vision of life where the acknowledgment of pain leads to a deeper appreciation of joy, suggesting that the path to spiritual fulfillment is paved with both sorrow and grace.

XVII

Frei Antonio continuou:

«Entro pobre em tua casa, meu irmão; porém a desgraça é uma riqueza, quando com ella suavisamos desgraças alheias. Contando-te as minhas amarguras não adoçarei as tuas?

--«Deus--respondeu o coronel--suavisou-m'as antes de ti, meu irmão.»

--Bemdito seja Deus!--tornou o padre--era essa a resposta que eu pediria a Deus que te inspirasse!... pois bem... seja a minha historia um passatempo... Peregrinareis comigo n'estes infernos da terra que os homens crearam. Aqui me tendes com a tunica, e com esparto de Dante... Serei para vós o que foi o poeta para a humanidade... recrear-vos-hei...»

O frade afastára as bandas do capote, e deixára vêr o habito de S. Francisco. A magestade da sua postura excitára um calefrio respeitoso em todos, e elle mesmo, tocado pela consciencia do effeito religioso d'aquelle acto, não susteve a lagrima do enthusiasmo, que é sempre revelação de espiritos ardentes. Maria, alma tão cedo estreada na poesia da dôr, cedo principiára a enlevar-se n'aquelles transportes, que a tragedia excita em pessoas que vêem o theatro pelos olhos da innocencia, e não podem desmentir o que vêem pelos calculos frios da razão. Maria, pois, impressionára-se mais que seu pae e sua mãe da attitude pathetica de seu tio. Mais tarde confessou ella que sentira dobrarem-se-lhe os joelhos, e de certo ajoelhára, se frei Antonio lhe não tomasse as mãosinhas que pareciam ajustarem-se em adoração extatica.

Esta scena fôra muda. O silencio é o desafogo das grandes emoções, que nos abafam o espirito, enturvando-nos a razão. Parece que a consciencia precisa digerir esses alimentos extraordinarios, que são a vida energica das almas flexiveis.

XVIII

Proseguiu o frade:

«Quando, ha quatro mezes, os religiosos de *** viram approximar-se a hora de entregar as suas cellas á revolução, ajuntaram-se para deliberarem sobre a sua vida, como homens que d'ahi a pouco não tinham posição alguma no mundo, que lhes valesse um bocado de pão. Alguns eram de casas remediadas, outros irmãos de fidalgos, sacrificados ao partido que lhes assegurava os seus privilegios; mas nenhum contava com asilo seguro no tecto paternal, porque o temor da perseguição fazia-nos pensar que eramos homens expulsos da familia, e da sociedade. Entregámo-nos a Deus. E, depois, no meio de nós estavam uns homens cobertos com o nosso habito, vivendo comnosco ha muitos annos, ajoelhando comnosco ao mesmo crucifixo, e comendo comnosco no mesmo refeitorio. Eram os nossos maiores inimigos. Velavam-nos desde matinas a completas; desde a oração commum do côro até ao ultimo padre nosso rezado no isolamento da cella. Eram como os pretorianos de Nero syndicando os actos religiosos dos agapes de Christo. Chamavam-se liberaes, illustrados e amigos dos homens. De Deus sabia eu que elles o não eram. Dos homens, cruel amizade era a sua, que precisava enfeitar o seu altar com o sangue dos seus companheiros!

«Nos ultimos mezes da nossa communidade... deixae-me dizer-vos uma prophecia amarga: nos ultimos mezes das ordens religiosas em Portugal, apresentaram-se aquelles padres ao prelado, e pediram a sua liberdade. Prevenindo alguma ligeira censura, em nome da regra do patriarcha, lembraram ao guardião que o punhal era a arma do homem livre, quando os algozes da humanidade não accediam aos augustos preceitos da razão natural.

«O prelado era um justo, que chegára aos oitenta annos, com os cilicios nos rins, vergando sob o peso de austeridade, alliviando quanto podia esse gravame dos hombros menos rijos dos seus subordinados. A morte, porém, era-lhe menos afflictiva que o pesar de uma tibieza de disciplina. A sua resposta foi simples:

«Deixemos vir a mão da liberdade bater á porta do mosteiro e seremos todos livres então. Uns, livres para morrer no desamparo. Outros, livres para viver de vergonha. Todos seremos livres. Em quanto a vós, meus irmãos, pedirei aos servos de Deus n'esta casa que peçam ao Senhor para vós as consolações e a prudencia que não posso dar-vos. Retirae-vos, que sou chamado ao côro.»

«Retiraram-se; mas, dois dias depois, ao amanhecer, foi aberta por violencia a portaria. Alguns homens d'alli sahiram vestidos, e armados como guerrilheiros. O padre porteiro, que subira á cella do prelado a annunciar-lhe o acontecimento, encontrou um cadaver. Ao passar-lhe a mão pela face topou um crucifixo inclinado sobre o seio. Ao agita'-lo, humedeceu as mãos no sangue que borrifára os lençoes. Gritou. Acudiram os monges. Em volta do seu leito ajoelharam homens que choravam. Não tinham outra supplica, nem balbuciavam uma palavra. Um justo estava ali morto: mataram-n'o seus irmãos, em nome de uma liberdade, que não consentiu ao venerando ancião a liberdade de viver mais alguns dias.

--Era preciso matarem-no para fugirem?--perguntou Maria com os olhos turvos de lagrimas.

--Não seria preciso, minha filha, mas as chaves do mosteiro são entregues ao prelado: mataram-n'o, tirando-lh'as.

--Mas o crucifixo,--replicou ella quem lh'o poria sobre a face?

--Foi o moribundo a quem os assassinos deixaram tempo de pedir a Deus o perdão dos seus matadores.

--Que acontecimento tão triste, minha mãe!--exclamou assombrada a menina, tomando entre as suas as mãos de sua mãe. E continuou: Eu não pensei que os homens podiam fazer isso!... Quem me déra o céo para meus paes e meus irmãos!

--E para o tio padre, não, meu anjinho?

--Meu tio tem certo o céo, porque tem soffrido muito, não é verdade?

--Muito, minha menina; mas não é já bastante o que tenho soffrido?

--Penso que sim... Eu não sei ainda a sua vida, mas lembra-me que meu tio póde fazer que os homens sejam bons, dizendo-lhes historias que os façam ter dó dos que soffrem.

Olharam-se todos com admiração. É que Maria contava sete annos de edade; e alguns mezes de soffrimento. Predestinação!?...

XIX

«Ao anoitecer de um dia passado em orações e suffragios por alma do nosso chorado prelado--continuou frei Antonio--ouviram-se tiros ao longe do mosteiro. Eramos quarenta e tantos os monges assombrados pelo terror não sei se da morte, se das injustiças da humanidade a quem não offenderamos. A egreja, escura e silenciosa, afigurava-se-me um grande tumulo, e um doce repouso. Ajoelhei. Ajoelharam todos. E lembra-me com emoção o fervor d'aquellas preces murmuradas como a derradeira supplica do que vae apparecer na presença de Deus. Os tiros avisinhavam-se, e o alarido, ao principio confuso, era já perto um grito distincto: morram os frades! abaixo os ladrões!

«Eram 23 de Outubro de 1833. Que noite aquella, santo Deus!...

«As balas ouviamo'-las zumbir, e bater na parede da egreja, e nas vidraças do zimborio. Todos os servos empregados na casa vieram ajuntar-se ás nossas orações, acobertando-se com a protecção dos ministros de Deus, como debeis mulheres, em semelhante lance, buscando o invalido apoio de seus maridos. Nós não podiamos nada, quando á debilidade de nossas forças moraes ajuntavamos a resignação, o abandono de nossas vidas aos decretos da Providencia. Os paroxismos tinham sido longos e trabalhosos. Uma hora de preparação para receber a morte, que sentiamos avisinhar-se com a vozeria, e com os tiros, devera quebrantar-nos o espirito, aniquilando-nos lentamente a esperança.»

--E não tinham esperança nenhuma? Deus não podia salva'-los ainda? perguntou Maria.

--Nós, minha filha, não pediamos a Deus a vida: pediamos-lhe a salvação, a vida da alma. A morte não nos atormentava: poderia a natureza estremecer em nós com o terror do ferro, que no'-la daria; mas o Eterno manda que o espirito proteja as fraquezas da materia. É muito grande a providencia do Altissimo! Quando a morte se nos apresenta como um decreto irresistivel, sentimo-nos tanto mais longe da terra, tanto mais perto da eternidade, quanto a esperança da vida nos foge, e o frio da morte se chega. O que seria a morte do impio, apegada á vida, se não fosse esta resignação providencial, este esquecimento proprio, este mortal entorpecimento do corpo, antes que o espirito se deprenda das algemas, que parecem aperta'-lo mais na hora final?... Maria, tu entendeste-me?

--Penso que sim, meu tio. Deus quiz que a morte lhe parecesse um bem, em comparação do mal que estava soffrendo: não é assim?

--Sim, meu anjo. Deixa-me beijar-te que és uma boa parte da indemnisação que a misericordia divina me dá pelos meus padecimentos.

XX

«O mosteiro estava cercado de povo, attraído alli por um homem, que, depois de conspurcar uma patente no exercito realista, e avexar com despotismos os constitucionaes, viera buscar refugio entre nós.--Algumas balas bateram contra a porta principal da egreja mas não puderam vara'-la. Outras vinham, através das frestas, encravar-se nos altares. Uma, batendo na lampada do SS. Sacramento, apagou-a, espargindo os estilhaços de vidro sobre nossas cabeças. Não se ouvia uma exclamação de dentro, nem um ai afflictivo dos que alli rezavam ajoelhados, quando um de entre nós proferiu em voz alta o acto de contricção. Então, sim, as lagrimas rebentaram de todos os olhos: o espirito resurgiu da prostração em que caíra, e as vozes harmonisaram n'um murmurio profundo, arrebatado e magestoso como um de profundis.

«Os gritos de fóra eram ameaças de morte, sem excepção de pessoa, senão abrissem a portaria. Nenhum de nós abandonou a sua humilde postura de martyr. Sentimos que se arvoravam escadas ás janellas lateraes do templo: ouvimos um machado, cem machados lascando as portas. O echo das pancadas reboando pelas naves tinha em si um não sei que de terrivel, que fazia arripiar os cabellos e gelar o coração!

«Rasgada uma fenda na porta, entraram alguns poucos que franquearam as portas á chusma de povo.

«Era noite alta. Não se via ahi um homem grave sobre quem pesasse a responsabilidade d'esta sacrilega violencia. O relogio do mosteiro dera onze horas, e nunca tão melancholico me pareceu o som d'aquelle bronze, que, havia quinhentos annos, chamava as turbas á oração, e n'aquelle instante, assignalava a hora da carnificina dos ministros de Jesus Christo. O tropel d'aquella gente denunciava uma multidão grande. Sentimo'-los approximarem-se amotinados, gritando, uivando, rugindo, como tigres que partiram as grades da jaula, como possessos que deliram na sede febril de sangue. E, topando-nos de joelhos, virados para Deus, e quietos como phantasmas immoveis, pararam. Reinou um silencio de minutos. O anjo bom d'aquelles homens calou-lhes por momentos o grito sanguinario. O pensamento do bem, a idéa de Deus passou-lhes pelo coração instantanea e fugitiva como a restia do sol por entre as nuvens torvas da tempestade. Os instrumentos do mal não podiam renunciar a sua missão. Cada um de nós sentiu a mão de um inimigo arranca'-lo com violencia á sua immobilidade. Um grito deu alento a todos os gritos. Morram! era o mais distincto, era o bramido sinistramente harmonioso de muitas vozes. Senti algumas cronhadas d'arma acurvarem-me a cabeça para as lageas do altar, salpicado do sangue que me resaltára do nariz e da boca. Dos meus companheiros ouvi alguns gritos que me pareceram de estertor; e senti que alguns vinham arrastados.

«Não pude presencear as agonias de meus irmãos mixturadas com as minhas. Uma bayonetada, varando-me uma perna, fez-me perder os sentidos, e cahir com a cabeça no degrau do altar de Nossa Senhora, onde despertei depois.»

XXI

--No altar de Nossa Senhora... no altar de minha madrinha!... exclamou Maria, com a face coberta de lagrimas.--E, depois, meu tio--continuou ella--que lhe succedeu, quando tornou a si? Não lhe fizeram mais algum mal?

«Os flagellos não tinham ainda principiado, minha querida menina. Tu verás que a dôr de um golpe, não punge tanto como o escarneo de uma affronta moral. Quando recobrei o sentimento, pedi a Deus que me fechasse os olhos, e logo em seguida lhe pedi perdão da minha supplica. Compreendi nos meus padecimentos a expiação dos crimes da humanidade e a redempção dos meus peccados. Fui ahi trazido a pontapés, quando o sangue me escorrria da ferida. Fizeram-me, e aos meus companheiros, servir canecas de vinho áquella gente, que se movia em ondas pelos dormitorios, bramindo na embriaguez do seu odio. Quando a custo me pude desviar do tumulto, comprimi com o meu lenço a ferida, e esperei ensejo de poder fugir para morrer em paz debaixo de algum tecto piedoso. Não pude. Ao amanhecer fomos levados á casa do noviciado, e fechados á chave com vigias á porta, para não tentarmos o arrombamento.

«Olhavamo-nos com uma especie de idiotismo doloroso. Não sabiamos palavras de consolação, porque a amargura era extrema em todos. Em tamanha afflicção tinhamos só a linguagem da afflicção: oravamos. E nem um só reclinou a cabeça no chão para adormecer a agonia. Parece que o travo da morte, assim demorada, adoçára o coração de tantos infelizes. Nunca eu senti em mim tão santa, tão divina a influencia do temor de Deus. Esperava amanhecer na eternidade, á luz da justiça eterna, e da misericordia do Summo-Bem. A oração pelos meus inimigos era de um sabor indizivel, de um allivio intimo, que tanto mais se prende á creatura quanto ella se resigna nas tribulações! Bemdito seja nosso Senhor Jesus Christo, que por cada afflicto reparte uma faisca d'aquelle incendio de caridade em que expirára na cruz, pedindo a seu Pae o perdão para seus matadores!»

Frei Antonio não pudera, se quizesse, represar as lagrimas. A sua familia chorava, porque a voz convulsa, soturna, e sombria do padre, entrava no coração dos ouvintes, como as ultimas palavras do sacerdote no espirito do christão agonisante.

«O sol--proseguiu o padre--coava pelas frestas do noviciado uma restia pallida, que illuminava um crucifixo, esquecido pela populaça. Se cada um de nós fosse particularmente consultado em seu coração, no momento em que aquelle raio do sol nos allumiou, dissera a devoção fervente com que saudou a luz do céo, irradiando-se na effigie augusta do Creador do céo e da terra.

«Decorreu uma hora, sem que o silencio nos fosse quebrado por alguma voz. Julgámos abandonado o mosteiro como cidade viuva de seus filhos e espoliada das suas alfaias. Um de nós foi á porta escutar, e desmentiu as nossas conjecturas. Junto á porta resonavam profundamente as nossas guardas.

«Soaram nove horas, quando os primeiros echos reboaram pelos dormitorios. Como atalaias nocturnas, os brados reproduziram-se, reforçaram e subiram ao alarido compacto com que principiaram. Os vituperios vinham, como ondas sobrepostas, bater á porta do nosso carcere.

«A porta foi de improviso aberta. Mandaram-nos enfileirar. Cercaram-nos como a animaes extranhos, que movem a curiosidade. Emquanto eramos insultados por palavras de um outro menos soffrido e mais ultrajador, cuspiam-nos na face, e arrancavam-nos os cabellos. As mulheres, com as faces rubras do vinho, e com as linguas afiadas no sarcasmo villão e truanesco do seu officio, soltavam-nos aos ouvidos risadas ferozes, mixturadas com empuxões que nos davam ao capello, e aos cordões do habito. Esta situação penosa e indizivel durou meia hora.

«Mandaram-nos saír, escoltados, e fazer alto no pateo do mosteiro. Ahi lançaram ao primeiro uma corda ao pescoço, que vinha encadeando um por um até ao derradeiro monge. Depois mandaram-nos curvar o pescoço tanto quanto fosse preciso para assentar uma albarda. Penduraram-nos algumas campainhas ao pescoço, e mandaram-nos andar.

«Caminhámos uma legua, e fizeram-nos parar para reconhecermos um cadaver que se dizia pertencer ao brigadeiro realista Pessoa. Era effectivamente o seu. Dias antes estivera elle em nossa casa, já de retirada para a sua, visto que as forças sitiantes do Porto começavam a dispersar. Pedimos-lhe que se acautelasse porque os seus maus feitos tinham excitado o odio, e a vingança. Respondeu-nos, que tinha um salvo-conducto na sua honra, e na sua consciencia pura. A sua consciencia não devia estar tranquilla... Este mau homem fôra morto n'uma ribanceira pedregosa que nos ficava ao lado esquerdo da estrada.

«Caminhámos outra legua, e fomos mettidos n'uma cadeia, onde mal nos podiamos mexer. As prisões do pescoço affligiam-nos muito; e a sentença de morte fôra-nos lida quando entrámos, no caso de quebrarmos a «arreata» como elles nos disseram.

«Não vos posso contar com miudeza que tormentos provámos durante vinte dias que ahi vivemos. O frio, a fome, a insomnia, a falta de respiração, todas as privações que pode soffrer um homem, bemdito seja Deus, complicaram-se ahi... Que padecimentos! A piedade tremia de approximar-se do nosso infortunio. Homens bem trajados apiedavam-se; mas temiam o povo esfarrapado. Algum boccado de pão vinha através de difficuldades, e no ardor da sede as lagrimas serviam-nos de refrigerio aos labios queimados da febre.

No fim de vinte dias foi-nos dada a liberdade, sob a condição de não caminharmos para o sul. A infracção d'esta lei implicava pena de morte. Pensavam que viriamos procurar o exercito do sr. D. Miguel. A condição era escusada para mim. Ministro de Deus, jurado á caridade e ás humilhações, o meu braço, consagrado á elevação da hostia, não levantaria o ferro contra homens, ou barbaros, ou portuguezes. Eu maldigo em nome de Deus os meus irmãos que borrifaram de sangue a tunica legada pelos apostolos. A arma do sacerdote é o coração votado a abrandar a justiça do Altissimo, que faz dos homens o instrumento de sua vingança contra homens. Se me chamassem ao mais perigoso de um combate para acalmar, em nome de Deus e da caridade, as iras sanguinarias dos partidos, eu cruzaria as balas, e as baionetas travadas, corajoso, como um filho da patria, e um sacerdote de Christo. Viria, meu irmão, viria ajoelhar-me na frente do teu regimento, e pedir-te em nome da tua esposa e de teus filhos, que me deixasses fallar ao rei antes que mandasse voar a morte das espingardas dos teus soldados.[1]

Estás anciosa pela continuação da historia, minha menina? Olhas tanto para mim!... Tens entristecido com as desventuras do teu pobre tio?

--E tenho chorado... o tio não vê?

--Vejo, vejo, menina. E sabias que no mundo havia homens que fizessem assim padecer outros de quem não receberam alguma offensa?

--Pensei que não... Meu pae, e minha mãe, e meus irmãos são todos tão bons, tão meus amigos, tão dados uns com os outros... e eu não conhecia mais ninguem. E como é possivel ser-se assim tão cruel, diga-me, meu tio?

--Digo... direi, minha filha... mais tarde... Queres agora o fim da minha triste peregrinação até á casa de teus paes?

--A tua casa, meu irmão--atalhou o coronel.

--Sim, sim, a sua casa, meu caro irmão--disse a esposa do coronel.

--Pois não somos nós todos a mesma familia?!--perguntou Maria com um sorriso de candida alegria e admiração.

--Graças vos sejam dadas, meu Deus!---exclamou o padre.

[1] Se Fr. Antonio ampliasse um pouco mais estas suas reflexões muito judiciosas, invectivaria os frades que, fóra das linhas de Lisboa, despejavam fogo para os de dentro com uma coragem e disciplina digna de granadeiros da guarda imperial. Alguns d'esses estavam ahi provando pela pratica as theorias vociferadas do pulpito, desde 1828 até 1832. Não foi mais do que lançar um correame sobre o habito, e substituir ao som da palavra incendiaria o som do arcabuz homicida. Se não receássemos desnaturalisar o romance pondo na bocca de frei Antonio censuras inverosimeis aos da sua politica, se é que elle tinha alguma além da do Evangelho, seria elle o que nos poupasse o trabalho d'esta nota para que se não diga que o auctor acoberta um pensamento hostil á liberdade, afeiando o quadro inevitavel, no conflicto d'ella com o despotismo em paroxismo. A leitores de má fé respondemos com a boa fé de imaginarmos, antes de começar o romance, que os não teriamos...

XXII

«Eramos vinte e dois homens abandonados á Providencia, sós com a nossa desgraça, sem futuro e sem esperanças de alcançar um bocadinho de pão mendigado. Eis a nossa situação. Era forçoso separarmo-nos. Companheiros de noviciado, quasi amigos de infancia, condiscipulos, presos ao céo e ao sacrificio por um laço commum, affeitos a harmonisar as nossas vozes em acção de graças, a dobrar os joelhos no mesmo chão, a comermos á mesma mesa, a soffrermos ao mesmo tempo os flagellos que attrairamos sobre nós, porque em todas as nossas frontes fôra escripto o caracter indelevel de nossa humildade... Eu não tento dizer-vos como foi amargo, como foi chorado aquelle adeus... para sempre! «Antes o martyrio, e que nos apartem!» exclamava um em quanto outro, debulhado em lagrimas nos braços de seus compaheiros, pedia um tumulo para todos nós! Foi um lance cheio d'aquella nobre dôr, que tanto honra o coração humano. O supplicio da separação d'aquella pequena sociedade cujos membros, não cançados, não egoistas, amavam-se como virgens na esphera innocente dos seus amores de collegio... podereis vós comprehende'-lo, meus amigos? Não! Deus quer que não! É sentir-se a morte, que parece deixar no coração um alento de vida para o tormento da saudade; mas aniquila todas as alegrias, todas as esperanças... que são a vida na terra.

«E separámo-nos!... que irresistivel imperio tem a desgraça, meus filhos! Recuavamos a cada passo para um novo adeus, para um novo gemido, convulso, apertado na garganta, como se a dôr nos fosse prohibida. Este doloroso trance demorou-se muito. Alguem, condoído de nós, avisou-nos dos rumores que corriam a nosso respeito na villa proxima. Dizia-se que tencionavamos, reunidos, caminhar para onde nos fosse possivel pegar em armas. A calumnia podia tudo então. O odio foi fertil em pretextos... Ora o amor da vida fez calar o grito da saudade. Demos o ultimo Adeus. O ultimo... foi o ultimo, meu Deus!... Diz-me o coração que sim.

«Entrei n'uma aldeia, onde fôra prégar um anno antes. Pedi gasalhado na casa de um lavrador. Foi-me negado. Não instei. Fui á porta de um jornaleiro: achei-a franca. Era assim o seu coração, porque o pobre, sem vergonha nem pesar de o ser, tem uma alma cheia de bondade. Pedi-lhe umas palhas: deu-me a sua cama, a sua manta e o seu lençol de estopa. Não lhe pedi mais nada: mas o pobre deu-me o seu caldo, o seu pão amassado em suor, e o seu apresigo, producto das economias da semana para solemnisar o dia do descanço. E adormeci abençoando o pão do pobre, em quanto elle, sentado ao lar, rezava o seu rosario, ou espertava a fogueira para me ser menos sensivel a pouca roupa da cama; O pobre será sempre o eleito, o ente privilegiado para as virtudes praticas do evangelho. Jesus Christo adoçou-lhe o travo da penuria, dando-lhe ao espirito o antegosto das riquezas que enthesoura no céo.

«Adormeci.

«E alta noite, fui acordado em sobresalto pelo meu hospede. Ouvi tiros. «Que é?» perguntei eu. Não sei ao certo, senhor. Ha pedaço que ouço estes tiros, e estou com medo... «Que venham ter comnosco?» perguntei eu. «Sim, senhor; mas eu vou ver o que é» respondeu o bom homem.

«Eu quiz conte'-lo; mas elle convenceu-me da segurança da sua empresa. Quando voltou, disse-me que tinham sido mortos dois frades do meu convento em casa de um tal lavrador. Imaginae o meu terror. Quiz saltar fóra da cama, trocar o meu habito por alguns farrapos e fugir; mas o jornaleiro estorvou-me com boas razões. «A casa de um pobre, disse elle, é mais segura.» Não a perseguem as grandes desgraças, porque tambem a não procuram as grandes felicidades--disse eu na minha consciencia. Orei por alma dos meus infelizes amigos, se o seu martyrio não era expiação bastante de suas faltas.

«Amanheceu, e tive mais informações. Dizia-se que dois monges desfigurados vieram bater á porta do lavrador que me tinha recusado a entrada. A porta fôra-lhes aberta, porque ninguem de casa os conheceu ao principio. Recolhidos, foram logo conhecidos; mas era tal o seu contentamento, e a sua linguagem que o lavrador adormeceu descançado com os seus dois hospedes, que, por mais de uma vez, declararam com arrogancia que já não eram frades. O lavrador não os comprehendeu. Mas, alta noite, uma guerrilha forçara a porta, entrára e matára os dois desgraçados que tiveram a louca ousadia de resistir com bacamartes, depois de malogradas as suas razões. Surprehendeu-me esta noticia! parecia-me um conto disparatado!

«O jornaleiro arranjou-me um fato semelhante ao seu. Desfigurei-me. Providencia de Deus! No instante em que me vestia, olhei para a ferida que recebera na perna, e encontrei-a quasi cicatrizada! É quando o atheu o reconheceria o anjo do Senhor, pensando as chagas da alma e do corpo áquelles que o confessam!

«Saí. O quinteiro do lavrador estava a trasbordar de povo. Conheci que os cadaveres estavam no centro.--Atravessei a multidão, até junto do carro onde os mortos estavam... recuei horrorisado! Senti precisão de gritar: «justiça de Deus!» mas cedi a um sentimento egualmente grande. Do meu peito saíu outro grito: «misericordia, meu Deus!»

«Informei-me. Estes dois infelizes caminhavam para suas casas, com o cofre das economias do convento. Eram os assassinos do venerando prelado.

«Aquelle sangue escrevera na face de taes homens uma lugubre sentença de punição. Quem seriam os instrumentos de vingança? Ignora-se.

«Meus amigos, erguei a Deus as mãos, e os corações. Oremos pelas almas dos meus desgraçados companheiros!»

E oraram de joelhos. Maria tremia como de susto.

XXIII

Não me demorei tempo algum n'esta aldeia--disse frei Antonio--Pedi ao meu pobre bemfeitor que me guardasse o meu habito, e prometti pagar-lhe o seu, que elle me deu com lagrimas de contentamento.

«Caminhei incognito, pedindo esmolas. Atravessei dez leguas para o norte, e assim assegurava cada vez mais a minha vida, não infringindo a condicional de morte, se eu caminhasse para o sul.»

O padre soltou aqui um sorriso de ironia inoffensiva e continuou:

«Achei-me no Valle d'Aguiar, ermo de paz, de tristeza santa. Cercado de montanhas pedregosas, a planicie abrange duas leguas, e perde-se na pittoresca Villa Pouca d'Aguiar. Tão profundo foi o meu desalento quando ahi me vi. Quanto depressa me afiz áquellas varzeas, e áquelle céo que parece firmar-se nas cristas das montanhas.

--E como vivias ahi, Antonio? perguntou o coronel.

«Vivia á sopa de um lavrador... Pasmas, meu irmão.

--Entristece-me de ver a miseria a que póde descer um homem do teu nascimento.

«Do meu nascimento! disse o padre, sorrindo--O que é o meu nascimento!... Essas jerarchias são filhas da nossa miseria; a desgraça não conhece nem o fidalgo nem o jornaleiro... Não me lamentes, meu irmão. O homem só reconhece a sua dignidade quando vive pelo trabalho do braço ou da intelligencia. Que maior nobreza querias tu que eu tivesse? Eu antes queria grangear assim nobremente o meu pão com o meu braço, e o coração, cheio de vontade. E pensas tu que a sociedade estaria corrupta pela jerarchia, se a ociosidade não estivesse em guerra constante com o trabalho? Medita, meu irmão, e verás que este paiz tinha excrescencias, que o obrigaram a deitar-se no doloroso leito de Procusto em que o ouvimos gemer... e gememos todos.

--Deixemos philosophias. A minha querida sobrinha quer que eu lhe diga como vivia...

--Isso já eu sei... era trabalhando...--atalhou Maria.

--Trabalhando, sim, por um salario de jornaleiro, e agradecendo ao Altissimo a robustez com que me dotara sentindo-me até com forças para poder lançar mão da enxada, e roçar um carro de tojo. Roçar um carro de tojo é sentir a gente a cada instante a precisão de arrancar espinhos que se cravam nas mãos e nos pés. É ir com as gabelas ás costas empasta'-las no carro, arfar de cançado, limpar com a manga de uma vestia de borel a face alagada de suor, carrear outra e outra gabela, durante um dia inteiro interrompido por uma hora do dia em que se come um caldo de couves, e umas batatas salpicadas de sal. Ajoelhava a pedir a Deus coragem, forças e resignação: não lhe pedia melhor pão, nem melhor vida. Sabei que o temor de Deus é uma renuncia, que a materia do homem faz ao espirito, que é do Creador. A Providencia transfigura o infeliz, ao passo que o infortunio lhe vae mudando em dôr as lagrimas. E, se não, dizei-me: quem me obrigou a mim a occultar o nome que poderia alliviar-me de alguns rudes trabalhos de lavoura? Não poderia eu ser mestre de meninos? Não tenho eu o meu caracter de ministro do altar, e a minha pobre intelligencia para remediar n'um pulpito o ministerio apostolico? Tinha, e vivia em terra que me daria protecção. E, com tudo, nunca me escasseou o alento para trabalho mais pesado, nunca me senti doente ao levantar-me da minha enxerga, antes de amanhecer, para vigiar os fructos, em que me estava garantido pela omnipotencia do Senhor o premio do meu trabalho. Os monges primitivos da minha ordem como é que viviam? Não cultivavam elles os seus campos, e não cosiam os pannos da sua tunica? É que ainda então não viera o privilegio e a classe sanctifiar a inercia do corpo em virtude da varia côr dos sangues. Santo Deus, como são pasmosos os caprichos que rebaixam a magestade do homem trabalhador, alteando ao fastigio do acatamento o ocioso por mercê de uma herança!...

XXIV

«Finda a guerra, expirava a condição da minha liberdade: caminhar sempre para o norte. Comecei a soffrer saudades da minha familia. O coração vaticinava-me que vós existieis. E, depois, a vontade era energica, e irresistivel. Pareceu-me sobre-humano o estimulo. Despedi-me dos meus bemfeitores. Rodearam-me os filhos, e chorámos todos. Traí-me em algumas palavras que soltei. Arrebatou-me a poesia d'aquelle adeus. Fitaram-me com espanto: queriam pedir-me perdão... «de que, meus filhos?» perguntei-lhe eu!... Deus permittiu que eu me desmentisse. Parti.

«Trilhei os passados vestigios da minha jornada. Paguei o vestido que o jornaleiro me vendera. Recebi o meu habito: bem o vêdes; mas o capote? perguntaes vós. O capote é a esmola de uma missa que devo ás almas do Purgatorio. A fome estorvou-me o passo muitas vezes nas sessenta e cinco leguas, que nos separavam. Á maneira do homicida, que foge á justiça dos homens, perdi-me por atalhos e devezas, que me dobraram o caminho. Os ultrajes vexaram-me quando a fimbria do meu habito me denunciava. Algumas vezes tive em resposta, pedindo, uma ameaça, uma insolencia, um epitheto injurioso.

«Está fechada a minha Illiada de lagrimas. Deixae-me engrandecer até á valentia moral do bravo capitão de Homero. Os cabellos branquearam-se-me em tres mezes; mas venci a desgraça, porque nas mãos do Omnipotente fui instrumento de fortaleza.

«Meus amigos, não quero que a minha historia descaia em sermão. Eis-me comvosco. Somos todos pobres, não é assim?»

--Ninguem é pobre, quando ama, meu irmão--respondeu a esposa do coronel.

--É uma grande verdade, minha irmã--proseguiu o frade--o amor é uma luz que não deixa escurecer a vida; é reflectida do astro eterno; irradia-se de Deus. E é verdade que me estimaes como vosso? Não vos obrigo á resposta. Deus quer indemnisar-me. Estes meninos são os queridos do Senhor: falam pelos labios da innocencia: vê-se que me amam, e me querem: é assim, Maria?

--Muito, meu querido tio!--E abraçava-o com enthusiasmo e alegria, como se quizesse consolar os pezares do venerando velho. E abraçavam-n'o todos.

Frei Antonio dos Anjos, com seus sobrinhos nos braços, ajoelhou, exclamando:

--Graças vos sejam dadas, meu Deus! Destes o amor em recompensa ao homem attribulado! Trouxestes o pobre velho pela mão ao seio da sua familia! Provaste-o em todas as amarguras; e não consentiste que o fragil barro fosse quebrado.

LIVRO II

I

Tinha custado muito sangue, esterilmente derramado a solução de um problema que, havia muitos seculos a humanidade procurava resolver: a miseria. O processo escolhido em cada seculo para o mesmo resultado, tinha sido identico: a guerra ao rico, em nome do proletario. A unica situação real, que os homens podem consolidar no marulho fervente das suas utopias, é conciliar pelo soccorro-mutuo duas idéas que parece repellirem-se: a pobreza e a felicidade. Mas esta situação que as escolas da philosophia materialista chamavam absurdo, realisa-se pelo dogma da Associação que é a traducção da fraternidade, que o christianismo afervora: é a felicidade do homem do trabalho sem attentar contra o rico. Tão sublime idéa, tão grandes factos teem-se operado n'um grande centro, que, inspirado por Deus, irradia uma luz evangelica por todos os homens.

Enlaçar n'um abraço voluntario a pobreza e o contentamento, esposar estes dois predicados que luctam rancorosamente no coração da humanidade, amiga'-los, move'-los a dulcificarem-se, identifica'-los para que o divorcio os não desligue n'um repelão desesperado: tal prodigio, um consorcio assim só na pratica do soccorro-mutuo pela associação póde operar-se, porque é a genuina traducção do Evangelho que Jesus nos deixou recommendado.

O incredulo do christianismo e da associação ao passar na sua carruagem, assaltado de cuidados, pela porta do operario, sente-se affrontado pelas risadas alegres que lá vão dentro d'aquelle sotão raso com o chão. Tal homem não possue o capital que mais felicidade produz. Não sabe que a religião e o soccorro mutuo são o incentivo do trabalho. Compreende, apenas, que o trabalho é o capital unico do proletario. Julga elle que o artifice alquebrado de vigor, no fim do dia, atira com o corpo ás palhas do repouso para mentir no somno aos flagellos do dia futuro. Não sabe que o amor em todo o tempo, em todas as edades, e em toda a hora do dia, é quasi um exclusivo do pobre. Não sabe que o artista é pae, é esposo, é christão, e possue um thesouro de affectos que o deixam á beira do tumulo para entrarem no seio de Deus, como paga de um emprestimo contraído para adoçar as amarguras da terra. Não sabe que o soccorro-mutuo derivado do trabalho faz a tranquilidade do homem laborioso.

A familia do coronel... era como a familia do artista. Alli, a pobreza tinha sorrisos, a resignação um triumpho, e os desgraçados um exemplo. O coronel ensinava primeiras lettras. Fr. Antonio dos Anjos ensinava latim. A esposa do coronel com quatro filhos entrançavam cordões para dragonas e pennachos. Maria, aos oito annos, copiava musica e fazia flores.

--O trabalho! meus filhos, o trabalho!--exclamava padre Antonio, extendendo em veneranda postura o braço sobre a mesa, em redor da qual uma familia alegremente saboreava um parco jantar.

Estariam elles esquecidos do seu passado? como puderam amoldar-se aquelles espiritos ás angustiadas urgencias, ao passadio mesquinho de operarios? A soberba da educação não se rebella contra a lei oppressiva da necessidade?

Não. O anjo de Deus viera sentar-se no limiar do infeliz, e o demonio do orgulho não póde tramar as conspirações do ocio contra a familia laboriosa. Frei Antonio era o anjo dos alentos, da resignação, e das esperanças. Venturas que elle via no futuro, ninguem as via; mas acreditavam-nas todos, porque as suas promessas tinham a unção da prophecia. E não era calculando eventualidades politicas, nem thronos arruinados, nem batalhas feridas no seio da patria, que frei Antonio aventurava promessas. D'onde a inspiração lhe vinha não sabia elle dize'-lo; mas o santo homem nunca, se levantava dos pés da cruz, que não trouxesse aos seus uma palavra de esperança, um vaticinio mysterioso.

--É o céo que o tio nos promette...--dizia Maria, sorrindo para sua mãe, e recortando a folha de um lyrio.

--E que melhor promessa, minha filha?--respondeu a mãe sem levantar os olhos do seu trabalho.

--Queres dar a tua lição, menina?--perguntou frei Antonio, anediando os cabellos negros de Maria.

--Sim, meu tio, mas sem despegar do trabalho, porque tenho grande tarefa. Hoje ha de, permittindo Deus, ficar prompta esta flor; disse-o a mãe... senão... o tio bem sabe...

--Senão o que, minha filha?--perguntou a mãe.

--Senão...--tornou Maria sorrindo com graciosa malicia--não merendo.

--O teu sorriso faz-me chorar...--disse a mãe, limpando os olhos, e violentamente sorrindo.

--Temos lagrimas? Ora vamos...--atalhou o padre, dando ás palavras um tom de risonha ameaça.

--Não, que minha mãe é assim!--tornou Maria.--Não póde mesmo a gente fingir que é infeliz! Permitta Deus que todos se julguem tão venturosos como eu. Tenho pae que amo tanto, e mãe que mais não posso amar! sou tão feliz!... Minha mãe não podia ser tambem assim, se achasse a ventura no meu amor?!...

--Ó minha filha... exclamou a mãe.--Obrigas-me a pedir-te perdão... Castiga-me Deus pelos labios da innocencia... Sim... eu sou muito feliz...

E abraçou-a impetuosamente como impellida por um amor que a transportava.

O coronel viera testemunhar este lance. Parou respeitosamente diante do grupo, em que avultava o padre levantando machinalmente as mãos para o céo, jubiloso de um sorriso todo alegria, todo luz, que parece scintillar no semblante do justo. E o mais é que as lagrimas vieram solennisar aquelles extremos de alegria! Choravam ambas, mãe e filha, com as almas afinadas pela mesma emoção, pelo mesmo enthusiasmo no amor.

Frei Antonio antevia a nova organisação economica e social que ha de corrigir suavemente as velhas imperfeições da sociedade.

--Mãe, filha, e todos nós--dizia o coronel--seremos felizes com as vossas inspirações.

--O contrario seria um crime, meu irmão!--respondeu frei Antonio, tomando-as ambas, abraçadas ainda, entre os seus braços.

II

A vida d'esta familia correra assim tres annos. O dia de hoje, empregado em grangear a subsistencia do de ámanhã, promettia a mesma tranquillidade nos dias successivos. E assim passavam.

Frei Antonio era o mestre de Maria. A educação litteraria, que lhe dava, não era simples. Apaixonado pelos seus, e pelo esplendor da sua patria, frei Antonio affeiçoára o espirito de sua sobrinha aos moldes graves da poesia portugueza do seculo 16.o Fizera-a decorar a historia nos cantos das epopêas; afinára-lhe o gosto no arrebatamento d'aquelle genio, que deu lições de resignação aos desgraçados. Camões era mais que um poema decorado por Maria. A cada verso era interrompida, e o poema tornava-se, commentado pela eloquencia do padre, um fecundo manancial de moralidade. O sabio não se contentava com o amor exclusivo da sua litteratura. Frei Antonio amava alguns livros francezes, e os italianos de todos os seculos. Maria aos dez annos conhecia as duas linguas, e lia, nas horas vagas desoccupadas da noite, com percepção admiravel. As suas lições não interrompiam o trabalho das flôres. Em quanto de entre os dedos lhe brotava a rosa, incendiavam-se-lhe as faces, lindas como a flôr, pelo calor nervoso com que expunha episodios de historia, adaptados á sua intelligencia pelo estylo energico do seu tio. Seus irmãos, mais velhos que ella, porfiavam em imita'-la, e sentiam-se feridos no amor proprio, quando a viam voar pelo mundo da intelligencia, defeso á sua. Maria era um prodigio--dizia o pae:--era forçoso reprimi'-la na audacia das suas duvidas sobre motivos religiosos, porque frei Antonio com horror á superstição e fanatismo não tolerava senão a religião na sua maior pureza. «Maria, tinha uma razão, capaz de perder-se por muito energica» accrescentava o mestre.

Maria, aos doze annos, mostrava singular desenvolvimento de compreensão. Não se lhe difficultavam as entidades ideaes da metaphysica, e leccionava seus irmãos na arte de pensar, como se ao seu espirito descessem do céo revelações das que encaminham a razão direita ao alvo das verdades eternas. O juizo, porém, essa faculdade, que não tem ainda o nome na sciencia do coração, esfriára-lhe o enthusiasmo, que, dois annos antes, lhe acalorava a infantil eloquencia. Havia tristeza na amostra do seu talento. Parecia violentar-se quando a estimulavam a revelar a sua opinião em objectos de sabedoria. Até não queria ser galardoada com applausos, e córava, se a faziam inveja de seus irmãos. Pedia que a deixassem no seu officio de florista, dando-se por contente do pouco que sabia, pois pouco bastava a uma mulher, que não podia repousar a cabeça, e adormecer no seio da sciencia. A formosa artista tivera um piano, em que dedilhava os seus primeiros ensaios, quando seus paes o venderam. Tomara a peito um peso enorme de trabalho, esperando accumular dinheiro que lhe restituisse o seu piano; e conseguiu-o, quando o seu nome se fez celebre, n'aquelle genero de enfeites, que a moda pagava caros.

Em casa do coronel de ***, até esta epoca, nunca se reuniram a um chá pessoas extranhas. Aquellas portas fecharam-se: o habito applaudiu essa deliberação forçada pelas circumstancias; e, quando estas mudaram, não foi levemente alterada a sabia economia, que tanto concorrera para a felicidade d'aquella familia.

Não obstante, o nome de D. Maria dos Prazeres não esquecia nos grandes circulos, nos salões do luxo e da moda. A esse nome estava vinculado o prestigio de uma familia illustre, nublada pelas tempestades politicas. Pintava-se com traços exagerados, talvez, a transição da opulencia para a miseria; faziam-se romances, mais ou menos idealisados pelo gosto da epoca; contavam-se assombros de um genio que o infortunio acanhava, em forçada obscuridade. Ninguem vira de perto D. Maria dos Prazeres, ninguem a encontrára fóra da rua por onde ia á egreja; mancebos, porém, que precisavam interessar na sociedade, cançada de logares communs, diziam que a tinham ouvido um minuto, dois minutos, cinco minutos, maravilhados da sua formosura, e pequenos diante da sua eloquencia.

III

O nome de Fr. Antonio dos Anjos vulgarisou-se com o de sua sobrinha. A ligação de mestre e discipula apregoava as duas pessoas com egual elogio.

Um fidalgo de Lisboa quiz conhecer o egresso. Achou-o semelhante aos gabos, que o engrandeciam. Honrou-o com attenções e obsequios, que occultavam um fim honesto. O fidalgo tinha um filho de dezoito annos, rebelde aos rudimentos das boas sciencias, mas em demasia versado n'esta alchymia do mundo, em que o libertino devora primeiro o cabedal da sua virtude, e sacrifica depois a virtude alheia, como o escravo infeliz d'aquelle prestigio queimava no cadinho a sua subsistencia, e seduzia depois os outros a empobrecerem-se.

Fr. Antonio, instigado pela caridade que lhe impunha a salvação de um naufrago, acceitou a empresa, recusando a feliz perspectiva que devia remunerar-lhe o seu trabalho.

O padre considerou-se imprudente em annuir, quando viu a funesta impressão que tal noticia causou em sua sobrinha, particularmente. Roubarem-lhe o anjo da infancia, quando, adulta, mais carecia d'aquelle esteio a que o seu coração se acostumava, era penalisa'-la com saudades inconsolaveis: era uma crueza, não de um extranho, mas de seu tio, que não tinha precisão de assoldadar-se ao pão alheio. Esta sua queixa, justificada com profunda tristeza, e continuas lagrimas, pungia o coração do velho até ao extremo de o lançar no leito da doença. Era irremediavel a promessa indiscreta: a palavra de honra, que lhe fôra pedida pelo fidalgo: a obrigação que se impoz de arrancar á libertinagem, que dominava grande parte dos antigos fidalgos, um mancebo perdido.

Maria, quando viu adoecer seu tio, ministrou-lhe o balsamo da ferida. Ella mesma, repesa da severidade de seu amor, pede-lhe que vá repartir com os necessitados o pão da sciencia e da virtude, que, tão farto repartia com ella.