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Lagrimas Abençoadas

Chapter 37: VII
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About This Book

This work explores themes of suffering and redemption, emphasizing that true happiness often comes through trials and tears. It presents a narrative that intertwines religious reflections with the human experience, illustrating the struggles of individuals in a flawed society. The text delves into the complexities of virtue and the spiritual journey, portraying characters who seek solace and understanding amidst their hardships. The author articulates a vision of life where the acknowledgment of pain leads to a deeper appreciation of joy, suggesting that the path to spiritual fulfillment is paved with both sorrow and grace.

--Era peccaminoso o meu egoismo!...--lhe diz--Não pude vencer-me! O meu coração é impetuoso. Meu tio não quiz remediar-me este defeito, reprimindo-me a dedicação com que, ha seis annos, correspondo á sua amizade. Ambos somos culpados; mas eu sou mais... Fui precipitada. Lembrei-me que era abandonada, por ser esquecida algumas horas do dia!... É forte creancisse, não é, meu tio?

--Eu!... esquecer-te... minha filha!...--balbuciou o padre.

--Bem o disse eu! É muito meu amigo... leva a minha imagem no seu coração para onde fôr... tem-me ao seu lado nas suas orações... responde ao meu coração que lhe pergunta a adivinhação d'estes segredos que eu tenho aqui, e só meu tio me adivinha... é tudo isto... sim, meu caro tio?

--Sim, tudo, minha menina.

--Oh meu tio!--continuou ella exaltada--não nos podemos separar. A intelligencia é um fio electrico. Ha vibrações na minha alma, que, se meu tio as não ouvisse, seriam perdidas, como as notas de uma harpa tocadas pelo vento em cima de um sepulchro deserto. Meu pae, e minha mãe, e meus irmãos, quero-os para o amor, quero-os para o coração, morro pela sua felicidade se m'o exigirem; mas o meu espirito precisa de alimento, a minha intelligencia quer um pasto ideal que não acho aqui, se meu tio me desampara. Não vê que foi um impulso providencial, que o trouxe aqui salvando-o de tantas mortes que lhe embaraçaram o caminho? Eu não tenho sido ingrata a Deus: ergo-lhe as mãos todos os dias, reconhecida, humilde, mas venturosa de ter nascido sua sobrinha!... Não me faça persuadir que Deus olha com indifferença as minhas preces...[2]

--Maria, interrompeu o padre, tu não pensaste o que dirias antes de vires ao meu quarto!... Magoaram-me as tuas ultimas expressões... Não me pareceram tuas...

E Maria arquejava sem desafogo. Parecia não escutar o tio.

[2] Nem sempre é inverosimil a linguagem figurada. Mais de um critico, a estas horas, se indispõe contra as hyperboles de Maria, aos quatorze annos tão espevitada! Pois creiam que não é justo o seu reparo. Se lhes eu tivesse dito que Maria convivera nas salas onde o lyrismo do coração não tem nada a fazer com a vida positivissima que lá se vive, em linguagem chan e desenflorada de figuras inuteis, tinham razão sobeja para dizerem que nunca por cá toparam d'estas donzellas Ciceros ou donzellas Gongoras, como quizerem. Attendam, porém, ao facto, se não teem a experiencia: mulher instruida, ou presumida de instrucção, se lhe falta o trato que precisa o estylo segundo as circumstancias, fala assim, e escreve assim. Aquella filha de Manuel de Sousa e D. Magdalena de Vilhena, que o immortal Garrett faz morrer de vergonha, em Fr. Luiz de Sousa, era, com menos sete annos, muito mais espirituosa, e, se querem, mais desnatural. O inverosimil é algumas vezes verdadeiro, assim como

Le vrai peut quelque foi n'être pas vraisemblable.

(Boileau , Art. poet. c. 3.e).

--Vem cá, minha filha--continuou elle, extendendo-lhe a mão, com um sorriso affavel--vem cá. Que queres tu de mim? Não queres que eu vá fazer um bom filho, e um bom cidadão?

--Vá, vá, meu tio!--exclamou ella, com energia.

--Não achas tão sublime a missão confiada por Deus ao padre velho, que não tem outra herança a legar-te, senão a memoria da sua beneficencia?

--Sim, sim... é o que ha de superior a tudo... ao amor, á vida, á esperança... Sim, sim...dê-me esse irmão em crenças, veja-o subir para Deus, impellido pela sua palavra inspirada... eu pedirei por elle; trocaremos as nossas orações; elle pedirá por mim, porque a conversão de um perdido enche o céo de alegria e faz exultar os anjos!... Elle ha de, inspirado pelo céo, compreender, como nós já compreendemos, desde que vivemos artistas, o que é o amor de Deus e a virtude do trabalho.

IV

Frei, Antonio mudou a residencia para casa do fidalgo. Alvaro da Silveira era o educando. São precisas algumas linhas do caracter d'este mancebo.

Nascera rico: primeira desgraça, quando um pae, herdeiro de opulencia e libertinagem, sente a precisão de transmittir a seu filho a herança, qual a recebera. Acalentado em berço de ouro, quando os primeiros annos lhe deram a convicção da sua individualidade, reclamou a sua emancipação dos carinhos maternos, que lhe eram pesados, e extremos do pae que o enojavam por muito repetidos. O elogio acompanhava-o sempre em todas as suas tentativas de independencia. Quando de seis annos rasgou o A, B, C, na presença de um professor, que o contrariava, seus paes riram-se do galhardo heroismo da creança, e exultaram de ve'-lo assim brioso em tão verdes annos. Quando aos oito annos o viram espancar a ama, que lhe prohibia apedrejar uns meninos pobres, que lhe pediam pão, disseram-lhe que era feia aquella acção em menino fidalgo, e deram-se os parabens, a occultas, de tão corajoso rasgo. Quando aos dez annos o ouviram pedir dinheiro para gastar em seus caprichos de creança, preliminares de lastimaveis depravações de mancebo, deram-lhe dinheiro, com a condicional de não caír do cavallo, nem guiar o carrinho por passagens mal gradadas. Quando aos quinze annos....

Seus paes atiraram-n'o ao tremedal de todos vicios. Deixaram medrar a planta da má inclinação no clima proprio, naquella atmosphera de Lisboa, onde os miasmas da corrupção lavravam desde que alguma classe degenerou pela ociosidade, e pelos vicios da velha organisação social. A arvore lavrou raizes até onde seus paes não previram, por mais que amigos e extranhos lhes abalassem o coração d'aquelle profundo somno de um affecto criminoso. As immoralidades do filho estamparam um estigma de opprobrio nas faces dos paes. O jogo, contrariedade unica e pungente, que na sociedade encontrava o libertino, arruinaria a fortuna d'uma familia, de muitas familias opulentas se Alvaro da Silveira não attendesse aos conselhos, ás primeiras admoestações de seu pae. Foram baldadas. Alvaro ouviu-as com enfado, çom soberania, com desprezo, e satisfez a irritabilidade de sua má indole, conduzindo á porta de seu pae novos credores e novas vergonhas.

E, depois, a intelligencia d'este mancebo era um repositorio de todos os vicios, sem ao menos quinhoarem do ouropel da urbanidade que parece ás vezes modificar a torpeza com que nos enojam em um licencioso, estupido e villão. Alvaro era grosseiro no crime. Indignava os muitos que lhe não eram somenos em dissolução mas menos brutaes que elle. As pustulas n'aquelle cadaver mostravam-se ao clarão do vicio com todo o asco. O homem perdido parecia renovar emoções, e satisfazer o instincto, provocando á nausea uma sociedade cujo abandono lhe accendia um desejo impotente de vingança.

Fr. Antonio dos Anjos fôra chamado para preparar este homem a conhecer a honra, levando-o pela vereda da religião.

V

Alvaro da Silveira não fôra prevenido. A presença do sacerdote, apresentado por seu pae, moveu-lhe uma curiosidade selvagem. Parecia-lhe um sonho aquella visão extraordinaria, aquelle encontro tão disparatado com a sua vida, o seu olhar idiota era eloquente ao mesmo tempo. Revelava uma interrogação natural e desculpavel:--que me quer este homem?

Fr. Antonio, limitado ao seu ensino de portas a dentro, e alheio á vida de Lisboa, não conhecia cabalmente a historia do seu discipulo. Os traços que o pae lhe revelára eram logares communs da mocidade desenfreada. Não é crivel que o padre bem informado, tentasse a empresa de conquista'-lo para a virtude. E quem póde avaliar a coragem religiosa?

Alvaro sorriu, voltou as costas ao mestre, levando em galhofa o que lhe não parecia cousa de serio alcance. Este grosseiro procedimento magoou momentaneamente o padre; mas, repreendido pela caridade, aquietou depressa os irritamentos do amor proprio. Foi então que o pae, tão culpado como desditoso, desenrolou o sudario das desenvolturas de seu filho. Chorava, arrependido do mimo com que o perdera, e perguntou ancioso se seria possivel salva'-lo da sua ruina total.

Fr. Antonio não conhecia limites á sua confiança em Deus. Convicto das mercês visiveis que recebera da omnipotencia do Senhor, sentiu-se illuminado de uma fé que lhe affiançava um prodigio. A peleja travada, em nome da virtude, com o espirito do mal, tinha muitas vezes triumphado de uma parte da humanidade, revoltada contra um só homem. Exemplos de maiores maravilhas alentaram o sacerdote. Desde esse momento, afervorou as suas preces ao Senhor, a cujo aceno a virtude, morta no coração do impio, surgiria como a lagrima do remorso nos olhos de Magdalena.

VI

Esse dia de estreia para a missão do padre, foi mais um decorrido nas immoralidades do discipulo.

Não viera a casa, durante o dia, e metade da noite. Parece que tudo dormia no palacio; quando Fr. Antonio sentiu o rumor de um cavallo no pateo. Orava ainda, fóra do leito, ajoelhado, com o lenço ensopado em lagrimas de dorida saudade. A imagem de sua sobrinha não lhe consentia o repouso, de noite; obrigava-o ás tribulações de um amante desprezado. E, então, o ministro de Deus recolhia-se em oração, com a vehemencia de uma esperança infallivel no refrigerio do céo.

A essa hora, pois, chegava a casa Alvaro da Silveira. O seu quarto era immediato ao do sacerdote. Entrou assobiando as reminiscencias das cavatinas theatraes, e reclamou em brados imperiosos a ceia. Os servos pontuaes como escravos aos caprichos rapidos dos patricios da Roma dos imperadores, affluiam a servir o amo, que ordinariamente punia uma certa demora com a ameaça formal de quatro chicotadas. Conduzida a ceia, repellira os creados com desabrimento e ficára sósinho trauteando e comendo promiscuamente.

Alvaro acabava de cear, esquecido da apresentação do padre, quando ouviu na porta um toque.

--Entre quem é!--bradou elle.

Quem quer que era cumpriu. A presença veneranda de Fr. Antonio, um passo dentro do quarto, era uma impressão nova para o mancebo! Involuntariamente sentiu curvar-se-lhe o pescoço á cortezia grave com que o sacerdote o saudára.

--Então ainda a pé?!--perguntou Alvaro.

--Ainda a pé, e Deus sabe se me deitarei... As horas da noite são as horas da oração. Parece que o ermo e o silencio excitam a conversação do espirito com Deus... E v. ex.a recolheu-se agora, não é verdade?

--É verdade...--respondeu o mancebo com um embaraço, que revelava a sua extranheza n'estes dialogos.

--Precisa repousar--tornou o padre--Eu, como estava a pé, quiz dar-lhe as boas noites. Agora recolho-me pedindo a Deus o seu descanço, como condição da vida, para amanhã abrir os olhos á luz que bem póde não alvorecer para nós. Fique v. ex.a com Deus.

E retirou-se. As ultimas palavras de Alvaro pareciam syllabas desarticuladas. O frade ferira-lhe um orgão ainda virgem d'aquellas impressões. Aquelle memento, áquella hora, por aquelle homem, acordára-lhe o mais nobre dos pensamentos, que o materialismo lhe adormecera nos gelos do coração: DEUS. Os confusos projectos do dia seguinte aturdiam-se-lhe na cabeça, como alvoroçados pelo pregão da morte, que mandava calar os designios humanos na presença do destino eterno.

O abalo fôra vehemente, mas pouco duradouro. Alvaro da Silveira adormeceu. É que o som vibrado na corda da religião, devia esvaecer-se entre o estrondo das paixões ruidosas, como o vagido da creança no alarido das turbas amotinadas.

VII

Alvaro da Silveira costumava tocar a campainha depois do meio dia, quando alguma empresa impertinente lhe não assaltava o precioso somno da manha.

Fr. Antonio, prevenido, foi visitar sua familia, cuja ausencia lhe parecia longa e incomportavel. Antes de sair trocou algumas palavras com o dono da casa pedindo-lhe que entregasse a Deus a regeneração de seu filho.

Quando entrou na sala, sua sobrinha estava ao piano. Pé ante pé firmou-se onde de longe podia contempla'-la, e surpreende'-la com palmas. Reparou que o papel de estudo não era musica. Esperou. De improviso, ao som melancolico das teclas casou-se uma melodia triste, profundamente triste, como as convulsões de um longo gemido. Aquelle papel continha a letra do canto. Que versos seriam aquelles?

E o canto parou com a ultima nota do acompanhamento. Maria firmou os cotovellos nos braços da cadeira, e escondeu o rosto entre as mãos. Ás vezes corria as mãos pela testa, e deixava-as pender enlaçadas sobre o regaço. As suas posturas eram todas afflictivas.

--Que tens, minha filha--murmurou o padre caminhando para ella.

Maria ergueu-se arrebatadamente; correu aos braços do tio, e não teve exclamação que revelasse o alvoroço d'aquella surpresa.

--Cantavas como um anjo--continuou o padre, acariciando-lhe a face pousada no seu hombro--mas tão melancolico era o canto e a musica!... Nunca te ouvi ainda esta lamentação! Vejamos que poesia é esta!...

--Não, não, meu tio!,..--atalhou Maria, querendo affavelmente desvia'-lo do piano.

--Porque não? Mysterios para o teu amigo que t'os adivinha no coração? Segredos para o teu mestre, Maria!

--Não é segredo... é vergonha...--exclamou a linda menina com a voz entrecortada--Esses versos fui eu que os fiz..

--E tens reservado para ti esse dom? Quando disseste ao teu velho tio que fazias versos?--disse o padre sorrindo com meiguice.

--Eu não sabia que o eram... Nem sei se o são...--balbuciou Maria, córando, e procurando fugir de estar presente á leitura.

Fr. Antonio levou-a pela mão ao piano. Tomou da estante a poesia, e leu:

PRESENTIMENTO

«Minha paz no infortunio,
Minha alegria na dôr,
Quem m'a déra, qual a tive,
Qual m'a déstes, vós, Senhor!

«Desbotou-se-me nos labios
Meu sorriso tão singelo...
E eu com elle premiava
Tanto amor, tanto desvelo!...

«Tanto amor, que eu vos pedia,
Do que os anjos tem nos céos,
Para amar meus paes, meu tio,
Como vos amo, meu Deus!

«Não scismei outras venturas,
Outros gosos não pedi:
Fui tão rica na pobreza...
Na pobreza empobreci.

«Senti lagrimas no rosto...
Sei que tenho aqui no seio
Escondida uma tristeza
Que de vós, meu Deus, não veio!

«Deu-m'a o mundo?... sim... daria...
Mas que mal ao mundo fiz!?
Serei eu de alguem inveja?
Pois que eu não seja feliz!

«Volva o tempo da penuria,
Quando eu fiz a pobre flor,
Que me dava um pão regado
Com meu pranto e meu suor.

«Dae-me as noites não dormidas
De trabalho e de alegria;
Meu orar na madrugada,
Quando, tão feliz, me erguia.

«Oh meu Deus! se a humilde serva,
Não votaste ao soffrimento,
Abafae lhe a voz, que a punge,
D'um cruel presentimento!»

Fr. Antonio lera commovido essas singelas quadras, cujo toque de sentimento não póde enternecer-nos, talvez. Nos labios d'elle, tremulos e nervosos, a poesia soava como um canto funebre. Que tristeza no declamar! Poderia ter-se como uma elegia á innocencia de Maria? Por Deus que não. O hymno, que transluzia da nuvem escura da sua tristeza, era como a luz do relampago que aclara, de repente, um amplo espaço: era a luz electrica das intelligencias privilegiadas; o abalo do presentimento que quer saír do circulo do mysterio: a adivinhação do futuro.

--Que é o que entristece a tua vida, Maria?--perguntou Fr. Antonio.

--Já me lembrou se seria a muita felicidade, meu tio.

--Não te compreendo... abre-me o teu coração sem reserva... Serias culpada se fingisses a teu tio as razões do teu soffrimento...

--Não posso mentir-lhe, meu tio... Não sei ainda o que é fingimento... nunca na minha vida menti a alguem. Eu não sei porque estou triste. O meu coração não m'o diz, e a minha tristeza nasce-me do coração, esconde-se lá como um segredo afflictivo... E eu que mais hei de dizer-lhe, meu caro amigo? Que peço muito a Deus que me não quebre este calix de amargura, se a sua divina vontade ordena que eu o exgote.

Maria enxugava as lagrimas copiosas, que pareciam esfriar-lhe o calor febril das faces. Fr. Antonio, contemplativo, olhava para a sobrinha silenciosa, como querendo ler-lhe no rosto a ultima palavra d'aquella revelação confusa.

O coronel entrou na sala, e correu a abraçar seu irmão, e dar a mão a sua filha, que lh'a não beijara ainda. Maria, surpreendida, quiz, á custa de um sorriso violento, converter em alegria aquella saudação; mas a dôr de filha é necessario que seja peccaminosa para esconder-se aos olhos de pae. O coronel e sua esposa velavam as tristezas de Maria como lhe velariam perigosa enfermidade. Consultaram mutuamente os seus temores; e a severa experiencia do mundo alguma vez lhes inspirou bem tristes receios. Aos quatorze annos ha melancolias no coração de uma virgem, que apenas tem de mysterioso a tendencia irresistivel, que Deus lhe imprimiu para o ideal de um amor terreno, que, no altar da innocencia, recebe uma adoração, senão semelhante, ao menos perfumada com o mesmo incenso do amor divino. E a mãe de Maria recordava-se da sua infancia, e perguntava a seu marido se as lagrimas da filha seriam as precursoras de alguma paixão infeliz. Era indiscreta a pergunta. Não se dera nunca o incentivo de suspeita. A vida de Maria não tinha um instante mysterioso a seus paes. Trabalho e oração--não tinha outro desvelo desde o amanhecer até á ultima benção pedida a seus paes.

Maria, valendo-se da conversação do pae com o tio, retirara-se da sala. O coronel assim o queria, para consultar o irmão, homem de Deus, que via o coração dos outros com os olhos puros da probidade. Mas não são esses olhos os mais penetrantes para devassar segredos, que se escondem no coração apaixonado pelo mundo. Quem adivinha as luctas intimas do espirito, escravisado aos caprichos das paixões, é o homem das paixões, encanecido na amarga experiencia d'ellas. Bem pudera Maria dos Prazeres agonizar nas tribulações de um amor criminoso, e sua morte ser um mysterio para o padre que não sentia acordar em sua alma o echo dos gemidos de sua sobrinha. O amor de Deus preenche todas as necessidades, responde a todas as aspirações do coração de um justo. Não é o justo de uma longa vida irreprehensivel quem póde arrancar ao penitente, que se lhe ajoelha, uma revelação pungente, que o pejo emmudece nos labios. É necessario profunda'-la com a sonda das proprias agonias. É necessario adivinha'-la no espirito do penitente, a favor de um symptoma que revela outro, de uma palavra solta que vae prender-se á explicação de um longo silencio. E esta dolorosa syndicancia não póde exerce'-la a simples theoria das paixões.

VIII

A arte, que ensina a levantar o véo das paixões silenciosas, era desnecessaria para Maria. A virgem não tinha segredos para alguem. Podesse ella entender a transfiguração da sua alma, a magua confusa dos seus novos pensamentos, que, bem feliz, pediria conselhos e consolações á sua familia.

--Mas aquelle silencio!...--dizia o coronel, replicando ás santas convicções do padre, a respeito da innocencia de sua sobrinha.

--Aquelle silencio...--dizia frei Antonio, consultando a consciencia, que lhe respondia de prompto--aquelle silencio... é a falta de palavras com que possamos fazer sentir aos outros uma idéa, que só a Divindade nos compreende... As horas de tua filha não são empregadas como d'antes na oração, no estudo e no trabalho?

--São, de certo, e mais continuadas na oração. D'antes orava em commum. Agora, encontramo'-la na hora do descanço, ajoelhada no sanctuario; mas vejo-a perturbada, quando reza. Ha lagrimas, e até aqui só lhe viamos o sorriso de consolação... Parece que n'aquelle orar, ha a supplica do perdão para o crime que a accusa.

--É impossivel!--exclamou o padre, energicamente commovido.--É impossivel... não quero que em minha sobrinha se esconda um crime... uma falta! É uma injuria, meu irmão! Peccaste contra a innocentinha, e feriste-me a mim, que tenho formado aquelle coração, que Deus me confiou para crear-lhe um anjo.

--Meu irmão... não te afflijas... isto em mim é um receio.

A interrupção do coronel era tardia para evitar a exaltação nervosa do padre. As lagrimas davam-lhe ao rosto uma religiosa magestade. Assombrava-o o terror de uma conjectura cruel, como se visse caír á voragem do vicio a virtude, que elle, com sua propria mão, collocára em throno tão perto do céo. O coronel, tambem commovido, sentia-se nobremente exaltado pelo modesto orgulho de ter uma filha, cuja innocencia merecia tão fervorosa defesa. Abraçando seu irmão, parecia pedir-lhe carinhosamente desculpa do zelo paternal, que lhe inspirara receios por aquella que pertencia menos a seu pae, que a seu mestre. O lance era sublime; e o sentimento de ambos, vibrado na mesma corda, e acalorada pelo mesmo amor, elevava-se até Deus em oração de graças por Maria, anjo que lhes fôra dado como galardão á paciencia de muitos soffrimentos.

IX

Quem poderia consolar a triste nas suas amarguras?

Quem póde cá da terra dissipar a nuvem, que escurece a face de uma estrella?

Quem póde, ao descair da tarde, reverdecer a corolla da flor desbotada pelas sombras da noite?

O futuro é o presente perpetuo da Divindade. Mas o espirito que se enlucta, sem lamentar a viuvez de illusões perdidas, veste-se de negro, como a virgem violentada a desposar no altar das lagrimas uma tribulação futura. É o presentimento.

Para as almas provadas em supplicios immerecidos, mas secretamente providenciaes, o presentimento não é uma palavra sem significação.

O cantico de Maria, cadenciado pelas quadras do seu hymno, era a unica resposta, que ella podia dar se lhe perguntassem:

--Anjo, porque soffres?

X

Decorreram algumas horas, e Fr. Antonio não podia demorar a sua visita. Alvaro da Silveira, fiel a seus habitos, deveria despertar ao meio dia. O padre retirou com uma saudade profunda, e uma dôr nova. A ultima afflicção de um justo quer Deus que seja a agonia do pensamento. A vida n'elle é uma cadeia de pesares, que tem no esquife o ultimo élo. Fr. Antonio, feliz com esta certeza, poderia fraquear na primeira lucta com o soffrimento, mas a sua queda era sempre de joelhos aos pés da cruz. E esta foi a sua postura, apenas entrou no quarto que lhe fôra dado em casa de Silveira.

A oração foi-lhe interrompida pelo toque da campainha. Esse som, que provocava pragas aos servos da casa, como signal de estar acordado o tigre familiar, foi para frei Antonio um despertador da oração em favor d'aquelle, que tão longe de Deus, sem um decreto do céo, mal poderia ser lá encaminhado pela debil mão de um peccador. E, terminada a oração, o padre chamou o creado, que saía do quarto de Alvaro, e mandou a s. exc.a pedir licença para fazer-lhe companhia ao almoço. A resposta, qual era de esperar, deferiu a humilde supplica, e Frei Antonio, insinuante de brandura e civilidade, apresentou-se, pela terceira vez, ao seu educando.

A face d'este homem tinha uma alegre severidade, que não podia fitar-se sem respeitosa sympathia. Alvaro da Silveira ao ve'-lo sentia uma impressão extraordinaria, como não sentira na presença d'algum homem celebre em valentia, em talento, em devassidão, em prodigalidades, e em riqueza. A distincção da virtude ou do fanatismo, como elle dizia da religião, parecia-lhe uma cousa nunca vista na boa sociedade! Para não deixar-se vencer pelo panico da religião, Alvaro da Silveira dava-se uma explicação muito natural d'aquelle phenomeno: era a falta de convivencia com a classe dos padres.

Na verdade o jesuitismo e a hypocrisia pelos seus abusos interesseiros, tornando a religião instrumento innocente de uma politica facciosa, tem dado causa a todos os homens de consciencia conspirarem a expulsa'-los como vendilhões do templo. Essa a razão por que os falsos religiosos blasphemam quando presentem que uma minima centelha da razão illumina o campo da religião que elles pretendem pôr em trevas. Todo o homem sensato e sãmente religioso soffre uma intima dôr quando os falsos religiosos impellem os ignorantes, e alguns immorigerados como Alvaro da Silveira, a irem lançar-se na impiedade, fugindo da hypocrisia, que elles não sabem discernir da purissima religião do crucificado.

Mas, a seu pesar, a entrada de Fr. Antonio, e as palavras urbanas, e poucas, com que o saudára, continuavam a impressiona'-lo.

--Dormiu v. ex.a socegadamente, não é assim?--perguntou o padre.

--Deliciosamente--respondeu Alvaro, apertando cortezmente a mão do sacerdote.--E v. s.a como se deu no seu novo quarto?

--O melhor possivel. Um egresso, affeito a dormir na casa de um lavrador, acharia boa pousada em todos os logares debaixo do céo. Uma boa cama não abona sempre uma noite deliciosa ao que se deita n'ella. O melhor gasalhado, senhor, é o que nos dá a consciencia quando francamente se abre para receber-nos, e velar-nos o somno com o anjo da paz. Deus defenda v. ex.a de revolver-se um dia nos espinhos, que perturbam o somno do mau, deitado em leito de cortinas douradas.

--Então v. s.a--tornou Alvaro--tem andado por casa de lavradores? Eu cuidei que os frades eram ricos, e amigos das commodidades. Pelo menos é o que se diz por ahi...

--Os frades, senhor, não só eram ricos, mas tambem opulentos; procuravam todas as commodidades, gosavam todas as delicias, todos os prazeres que podem ser desfructados na vida material da terra. A ociosidade e a riqueza perverteu-os. As excepções choravam tal aberração. Como que olvidados do céo mergulharam-se n'uma politica inconveniente e injusta. Em pena de Talião, a politica por elles hostilisada, por todos os meios, tão obstinadamente, puniu-os expulsando-os das casas que não deviam mais pertencer-lhes.

Estava na mesa o taboleiro do almoço. Fr. Antonio pedia licença para servir o discipulo.

--Então v. s.a não almoça?--perguntou Alvaro, offerecendo ao hospede uma chavena, não recebida.

--Almocei já, sr. Silveira.

--Com o pae, não é verdade?

--Não, senhor: com a minha familia.

--Então v. s.a tem familia em Lisboa?

--Nasci em Lisboa, e tenho uma familia numerosa.

--Naturalmente pobre...

--Naturalmente, não, sr. Silveira; mas Deus indemnisou-a. Deu-lhe o amor do trabalho, e a noite e o dia, para grangear o pão de uma hora. Tem sido feliz, penso eu. O temor de Deus é a coragem com que se vencem os infortunios...

Alvaro, com a chavena esquecida na mão, escutava-o religiosamente. A novidade da linguagem, e o gesto religioso apraziam-lhe, e creavam-lhe desejos de ouvir o padre longo tempo.

XI

--A sua familia é conhecida?

Esta pergunta de Alvaro da Silveira é textualmente o inquerito galhardamente fidalgo, que a nobreza d'estes reinos faz, antes de deixar approximar-se por algum desconhecido, duvidosamente inscripto no livro dos costados. Perdôe-se-nos o estylo; mas, desgraçadamente, tudo que é ridiculo traz inçadas certas classes, e não sabemos, quando se farão sérias, quando se approximarão um dia as familias, de modo que não possamos sem offender a Deus, perguntar a nosso irmão se seu pae é conhecido...

--A minha familia--respondeu frei Antonio--foi conhecida; mas não é de lamentar que seja hoje obscura. Mal d'ella se quizesse manter as vans regalias da sociedade, que v. ex.a chamou conhecida! Penso que a minha familia não é conhecida.

--Mas deve estar aparentada...--replicou o fidalgo, instando nas perguntas inauferiveis da pragmatica heraldica.

--Creio que sim... O coronel ***...

--Já sei--interrompeu Alvaro--pois não!... é muito fidalgo, e está aparentado com boa gente; mas não apparece. Então v. s.a é tio de uma menina muito falada?...

--Muito falada!?--atalhou o padre com sobresalto.

--Sim, senhor, dizem que é poeta, romantica, e muito linda.

--É virtuosa, senhor Silveira. Não lhe conheço outra qualidade, que valha a pena de mencionar-se. V. ex.a já viu poesias ou romances, ou o retrato de minha sobrinha?

--Não, senhor, mas creio que não é mentira o que se diz. A opinião de virtuosa tambem a tem; se não falei de virtude, é porque não sei verdadeiramente o que é virtude; mas acredito que ella é uma excellente menina a todos os respeitos.

--A virtude, meu caro senhor, é a censura pratica do crime. Sabe v. ex.a o que é crime?

--Tambem não--respondeu Alvaro com uma vaidosa entoação de espirito-forte.

--Eis ahi--disse Fr. Antonio sorrindo--uma violencia que está fazendo á sua alma, sr. Silveira. V. ex.a disse que minha sobrinha era dotada de bellos attributos. Falou pela bôca da fama, e chamou-lhe poeta, romantica e formosa. Se minha sobrinha, apesar d'estas decantadas prendas e dons, que a sociedade encarece tanto, fosse má filha, e má irmã, poderia ella cegar os olhos da sociedade com a sua formosura e talento, para que lhe não vissem os defeitos...

--De certo não.

--Então é verdade, que a sociedade reprovaria o procedimento de minha sobrinha?

--Creio que sim.

--E v. ex.a?

Alvaro ficou suspenso, e balbuciou, depois:

--Eu... eu... naturalmente...

--Juntava a sua voz á opinião publica--interrompeu o padre--embora v. ex.a não antipathisasse com os actos repreensiveis de minha sobrinha.

--Assim é sempre--disse Silveira, com uma forçada resolução.

--E assim será sempre, porque ha um juiz incorruptivel, chamado a «verdade». As sentenças d'este juiz, embora fulminem as paixões desatinadas, são sempre recebidas, senão pelo espirito de uma sociedade gasta e immorigerada, ao menos por a consciencia d'essa sociedade. Ora a innocencia é invulneravel ao contagio da corrupção, como a lampada do templo ás exhalações pestilenciosas dos tumulos. A consciencia é o pregoeiro das sentenças que a verdade profere, e v. ex.a, insensivelmente, apregoa. Será necessario dizer-lhe eu que sentimento é esse que se serve de v. ex.a, como de uma machina para se exprimir? É a virtude, sr. Alvaro, é a virtude que faz realçar os dons de minha sobrinha, que lhe dá a soberania de um anjo, que o crime não póde encarar sem curvar-se servilmente: é a virtude, galardão ao principio do bem, que triumpha na lucta incessante com o principio do mal. A verdade não se desmente porque é o Evangelho identificado nos corações, e Christo ha dezoito seculos, encarnado na humanidade...

Alvaro parecia alegrar-se conforme ia perdendo o terreno, diante de um tão generoso como irrespondivel adversario.

Como se anciasse pela continuação da resposta do padre, quando este se calou, tambem Alvaro não teve uma syllaba, das que se pedem á «philosophia» irreconciliavel, para responder.

--Crê na virtude, sr. Silveira?--perguntou o padre com summa bondade e modestia.

--Tinha-me dito que o crime e a virtude eram relativos--respondeu o mancebo com ar de quem desacredita as doutrinas de um mestre que respeita.

--Tinham-lhe dito, senhor, que a consciencia universal era uma mentira. Mentiram-lhe cruelmente, porque v. ex.a não podia, sem horror, encarar um filho que matou seu pae; um homem que traíu o seu bemfeitor; um juiz que entregou um innocente ao carrasco; um seductor que atou uma pobre mulher a um poste de ignominia eterna. V. ex.a não póde, com indifferença, apertar a mão a este homem, não é assim?

--De certo: eu sou um extravagante, um vicioso, mas detesto infamias...

--Que todo o mundo detesta; mas o mundo onde a luz da verdade venceu as trevas do erro, que a palavra do Christo condemnou.

--Mas diga-me v.a sr.a... não dizem que ha paizes onde os paes matam os filhos, e os filhos os paes, legalmente?

--Houve, e haverá ainda. Mas sabe v. ex.a o que é permittido ahi pela lei? É justamente o que é reprovado pelo christianismo.

--Mas a consciencia não se revolta contra taes actos sem que seja preciso que o christianismo os declare criminosos?

--Revolta, sim. Quando as virgens indianas se lançavam nos tumulos dos maridos, ou nas fogueiras legalmente accesas, as lagrimas, vencendo a coragem da superstição religiosa, desciam nas faces de uma familia, que seria injuriada se não cedesse em holocausto a desgraçada viuva. Os gritos d'esta eram os gritos da consciencia contra a lei barbara; eram a adivinhação da verdade denunciada pelo filho de Deus. Os filhos, que matavam os paes, eram algozes que a lei fizera, como entre nós a lei faz um carrasco. Poderemos nós argumentar contra a piedade, contra a virtude, e contra o amor porque um justiçado morre entre os braços de um homem, que executa a sentença de um juiz?! Persuade-se alguem que o homicidio legal, na consciencia do algoz, é um acto de amor e caridade?

--Penso que não.

--Pois bem, senhor Silveira; respeite a sua propria dignidade, já que os homens sem crença, sem Deus e sem esperança, lh'a quizeram aviltar, dizendo-lhe que o crime e a virtude são relativos...

Fr. Antonio fez menção de levantar-se e continuou:

--Tenho-o talvez privado dos seus divertimentos...

--Não, senhor... pelo contrario tem-me dado momentos de muita satisfação...

--Encho-me de prazer, se o consegui... E como tenho a honra de ser hospede de v. ex.a...

--Mestre...--interrompeu Alvaro com alegria sincera.

--Não posso acceitar esse lisongeiro titulo;--amigo, se v. ex.a me quizer honrar com este parentesco.

--Não me embaraça... Tenho muito prazer em que esteja...--disse Alvaro, apertando-lhe cordealmente a mão.

--Tenho obrigações a cumprir para com Deus: não faltará tempo proveitoso para os meus deveres com o proximo. Não sabe v. ex.a que os padres teem um breviario, que a cada hora do dia lhe recorda o dever de orar por aquelles, que não cedem alguns minutos á oração? Filhos de Deus, pedimos uns pelos outros; e Jesus Christo beneficiou-nos com a riqueza da prece, com este patrimonio commum a todos os irmãos... E não é isto uma consolação para os que são atheus por contagio e não por convicções; fanaticos e supersticiosos por ignorancia e por estupidez?

--A respeito de atheismo... tenho... minhas... duvidas...--disse Alvaro com palavras entrecortadas por aquella pausa emphatica, semelhante á ironia dos sabios, segundo a moda.

--Pois bem... Temos zelo e vontade para acertarmos... Deus hade conceder-nos o tempo, que é o desengano de todas as duvidas... Até outra occasião...

E retirou-se contra os desejos de Alvaro. Mas fr. Antonio conhecia o coração do homem. Chamara-o Deus para uma empresa trabalhosa. A força descia-lhe do céo. Não era em si que elle confiava.

XII

Mal o padre saíra, entrou Gonçalo da Silveira. Era o pae que procurava o filho: cumprimentou-o com a sua habitual frieza: mas o que de outras vezes era proposito, poderia então suppôr-se distracção. Alvaro absorvido nos seus pensamentos, quaesquer que elles fossem, parecia meditar uma das suas heroicas façanhas, sobresaltado, como quem recua diante de algum perigo assustador. Julgara-o assim o pae, julga-lo-iam assim os domesticos, e os cumplices, elle proprio, talvez, se se visse n'um espelho.

--Que tens?... pareces-me somnambulo!?--disse o pae.

E Alvaro affavelmente respondeu:

--Pelo contrario: estou acordadissimo... muito accordado, penso eu.

--Falaste com o egresso?

--Sim, senhor.

--Que te pareceu?

--Um homem bom, virtuoso e extraordinario.

--É realmente... que a virtude tornou-se em nossos dias uma apparição extraordinaria, e milagrosa,.. Gostaste d'elle?

--Quem me dera ser o que elle é...

--Isso é que é extraordinario, meu filho--exclamou o velho.

--Amar um bem, que não podemos possuir, é tão proprio do homem... Que acha o pae de extraordinario, n'este meu desejo:

--Muito, muito, meu caro Alvaro!... Tu hontem não falavas assim...

--Tambem meu pae não amava a formosura de minha mãe, antes de conhece'-la... A virtude é como a virgem, que um homem estragado vê na vertigem de uma orgia, mas não póde ama'-la sem approximar-se realmente do original d'essa sombra phantastica. Sabe meu pae o que eu amo em padre Antonio? É a transparencia d'aquella face, que deixa vêr um bello coração. Amo-lhe a paz, a firmeza, a confiança com que censura os crimes, sem irritar o amor proprio do criminoso. Amo-lhe a independencia com que falla, e a soberania com que responde. Parece que Deus o manda falar! É um bello caracter! A sociedade, se conhecesse este homem, adorava-o!

O jubilo de Gonçalo da Silveira era um delirio. Parece que lhe não ouvira as ultimas palavras. A emoção sublimára-se até ás lagrimas. Alvaro tocado por uma scena, que nunca elle se julgára capaz de estimular, recebera seu pae nos braços, com vehemencia, com transporte, com amor de filho, sentimento para elle novo!

XIII

Do abalo á conversão vae um grande espaço, eriçado de espinhos, que, primeiro, medram nas lagrimas, e, no fim, se transformam em flores.

Amar a virtude não é esposa'-la. Rainha de dois mundos, com formosura immortal, a sua posse custa muitos sacrificios. No estrado do seu throno, pisam-se as paixões do mundo. Os labios, que a saudam, devem ter sido abrazados pela oração contricta.

Os olhos que a contemplam, devem ter sido manancial de lagrimas purificadoras das maculas hediondas do vicio.

Mas ha muito que soffrer desde o amor á posse.

Alvaro da Silveira enamorou-se do anjo do bem, que lhe transluzira de entre a nuvem com que o ministro de Deus lhe escondia um novo mundo. Agitára-se-lhe o sangue no coração, e, no scepticismo, a esperança, que é a vida do espirito. Sentia-se com mais vida, mais alentos e idéas novas. Aprendera a pensar. Mas o pensamento é o gerador das convicções; e as convicções são absolutamente um dom exclusivo da verdade; e a verdade é a perpetua conversação de Deus com o homem. Para Alvaro existia DEUS!

XIV

A incredulidade tem um sorriso de escarneo para estas transfigurações. Erma do coração, e fistulada nas entranhas pela podridão do epicurismo, ri-se, ri-se, ri-se como um demente a quem ninguem contesta o direito de rir.

XV

Fr. Antonio dos Anjos concluira a sua reza. Gonçalo da Silveira esperava anciosamente o ensejo de visita'-lo. Mal ouviu passos no quarto, entrou. Riam-se-lhe as feições, e pulava-lhe o coração na face. O sacerdote achou-se nos braços do velho pae, que soluçava expressões de reconhecimento.

O padre maravilhava-se.

--Pois a que devo eu esta commoção de agradecimentos?--perguntava elle enternecido.

--Salvou meu filho!--exclamava o fidalgo, beijando-lhe as mãos.--Amenisou-me a velhice... Deu-me um bom fim de vida, e uma boa morte. Vós arrancastes meu filho do mau caminho.

Era bem justificado o pasmo de frei Antonio! Gonçalo da Silveira contara-lhe o que vinha de passar com Alvaro. Exagerára, talvez, as suas expressões, as palavras do filho, os elogios do mestre, e as esperanças da sua boa alma. Frei Antonio, que não podia attribuir-se a rapida mudança do neophito, agradecia tacitamente a Deus o raio luminoso de graça que fizera baixar ao coração escuro do convertido. Depois, quando a commoção do contentamento serenou em Silveira, o padre, magestoso como um propheta, apontou para o crucifixo.

--É alli--exclamou com uma voz vibrante e pathetica.--É alli, que v. exc.a deve ajoelhar e agradecer.

Gonçalo da Silveira ajoelhou. Pouco mais atraz ajoelhára o padre.

O lance era sublime, o que ha de mais sublime debaixo do céo. Adorar com mais fervor, só os anjos na presença immediata do Altissimo!

Alvaro entrava no quarto do padre, cuja porta ficára meio aberta. Ao ver seu pae n'aquella postura extranha, e mais atraz, o vulto immovel do levita, recuou machinalmente.

Que sentimento o fez recuar? Não saberia elle dize'-lo! Susteve-se irresoluto. Ergueram-se os que oravam, e ambos olhavam para a porta. Viram Alvaro, que parecia ceder ao pejo. Pejo! um tal sentimento nas faces petrificadas pelo gelo da libertinagem! Pejo no mancebo, que se vangloriava de um cynismo inalteravel!

--Não quer entrar na sua casa, sr. Alvaro?--perguntou Fr. Antonio, collocando-se cortezmente fóra da porta do quarto.

--Vim perturba'-lo...--murmurou Alvaro, hesitando entrar.

--Não era possivel...--O espirito quanto mais se avisinha de Deus, menos cede ás perturbações... Nós oravamos com fé, e ardor. E, demais, a entrada de v. exc.a não podia distrair-nos para mal.

Alvaro tinha entrado.

Agitou-se uma conversação variada entre as tres pessoas. Fr. Antonio, que vivera na casa do agricultor nas provincias do norte, falava de agricultura. Gonçalo parecia versado n'este ramo, e applaudia os melhoramentos, a que elle devia um duplicado rendimento das suas grandes propriedades. Alvaro escutava, pela primeira vez, um discurso serio, especialmente sobre agricultura, que elle ignorava desde a estação das sementeiras á das colheitas. E não parecia enfastiado, com quanto guardasse um justificado silencio na materia.

Era já outra a conversa. Frei Antonio estudava a maneira de entreter a attenção do discipulo. Falou d'esta litteratura amena, que se tornou universal por ser perigosa, por ser destruidora dos costumes, e dos estudos sérios. Falou de romances, como falaria de livros canonicos.

Conhecia-os como um vigilante examinador da origem da immoralidade. Alvaro conhecia alguns e honrava-os com a posse privilegiada de uma pequena estante que decorava no seu quarto. Fr. Antonio reparava nas encadernações de marroquim douradas, e nos titulos com que os licenciosos Paulo de Kock e Pigault Lebrun assignalaram os seus thesouros de libertinagem, escandalos da prevertida arte de imprimir.

Alvaro que não podia impugnar os argumentos do padre, e tivera a louvavel modestia de ouvi'-lo apenas, não quiz deixar-lhe plena gloria de triumpho, sem uma observação que elle julgava um golpe certeiro:

--Mas sua sobrinha--diz elle--é romantica...

--Que é ser minha sobrinha romantica?--atalhou o padre, sorrindo.