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Lagrimas Abençoadas

Chapter 56: I
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About This Book

This work explores themes of suffering and redemption, emphasizing that true happiness often comes through trials and tears. It presents a narrative that intertwines religious reflections with the human experience, illustrating the struggles of individuals in a flawed society. The text delves into the complexities of virtue and the spiritual journey, portraying characters who seek solace and understanding amidst their hardships. The author articulates a vision of life where the acknowledgment of pain leads to a deeper appreciation of joy, suggesting that the path to spiritual fulfillment is paved with both sorrow and grace.

--Lê romances, escreve romances, pensa como nos romances... emfim, não vive, nem pensa, nem fala como a maior parte das mulheres...

--Ora ahi está uma definição de mestre!--disse o padre, soltando uma risada que parecia um motejo, se não fosse sua.--O romancista deve ser uma coisa bem extraordinaria!--proseguiu elle, batendo levemente no hombro do discipulo.--Quem me parece romantico, segundo a arte, é v. exc.a, sr. Alvaro.

--Eu!?--interrompeu Alvaro com innocente admiração.

--Sim, meu caro senhor. Não póde assim fazer-se uma idéa tão singular de uma pobre rapariga, sem contempla-la pelos olhos de uma imaginação maravilhosa! Minha sobrinha é uma artista que trabalha muito para sustentar-se, e vestir-se. Ora isto é muito positivo, muito trivial, muito commum com a vida do pobres, onde nunca entrou a palavra romance. Minha sobrinha nas horas furtadas ao trabalho, lê os livros que eu escolhi para a sua cultura espiritual, mas todos elles conselheiros da virtude, da probidade, da paciencia, e do temor de Deus. A sciencia profana, que eu affeiçoei ás necessidades do seu espirito, é muito pouca, porque, se fosse muita, seria um desperdicio de tempo, e de canceira inutil. A sciencia de ser boa filha, boa esposa e boa mãe, limita-se a muito poucas regras; e uma mulher não precisa outra sciencia. Minha sobrinha não leu ainda romances. Sabe que existem enredos torpes, escriptos em bella linguagem, como os cadaveres fetidos envoltos nos velludos prateados da eça; mas os seus dedos não levantaram ainda esse envoltorio de podridão. Minha sobrinha fala esta linguagem, senão geral, a melhor que os filhos podem aprender para falarem a seus paes, porque minha sobrinha conhece apenas o metal de voz de sua familia... É isto que v. ex.a chama «mulher romantica?»

Alvaro demorou a resposta.

--Eu pensava--balbuciou elle--outra cousa... O mundo engana-se muito nos seus juizos.

--Pois--tornou o padre com tristeza--que juizos são os do mundo a respeito d'ella?

--Eu lhe digo... O mundo chama romantica uma mulher, como muitas mulheres, que os romances nos pintam. Por exemplo, uma virgem, que vive n'um sonho continuado; que vê anjos onde as mulheres prosaicas não vêem nada; que scisma em continuas tristezas, ao lado dos que vivem n'uma continua gargalhada; que busca a solidão, encosta a face pallida á mão direita, como a estatua da melancolia, e se devora incessantemente sem poder explicar o motivo por que se devora. É o ideal que a mata; é a febre d'uma paixão indefinivel que a consome, é a esperança de um sonho, de que não acorda; é finalmente, a poesia, o romantismo.

Frei Antonio ouvira religiosamente este harmonico de palavras, que algumas vezes lhe pareceram desapegadas, e vasias de sentido. Respeitador das conveniencias, fez calar a verdade austera, que o mandava pedir uma definição logica de todo aquelle espiritualismo, de toda aquella linguagem refolhuda. Absteve-se da sua auctoridade, e transigiu discretamente.

--Serão esses--diz elle--os predicados da mulher romantica; mas o que eu posso conscienciosamente asseverar a v. ex.a, é que minha sobrinha está tão longe de ser romantica, quão longe de compreender a definição que o meu amigo acaba de dar.

XVI

Duas occorrencias vieram interromper a pratica: um creado, entregando uma carta a frei Antonio dos Anjos; outro participando a chegada do sr. conde de ***, que procurava Alvaro da Silveira. Este fez um gesto de enfado, e saíu. Aquelle, pediu licença, e abriu a carta. Gonçalo da Silveira retirou-se menos alegre, mas esperançado na mudança de seu filho.

Em quanto o padre lê a carta, entremos no quarto de Alvaro.

XVII

O conde de *** era um homem de trinta annos, typo de galhardia na libertinagem, esbelto, gentil, apesar de resequido, na face, por certa aridez da dissolução, que requeima o corpo, ao passo que o viço da alma vae fenecendo.

O açor, pairando sobre a avesinha desprevenida, apenas viu que um rapaz de quinze annos transpozera o limiar do grande mundo, abateu o vôo, aferrou-o com as garras das paixões licenciosas, e desappareceu com a presa através de uma atmosphera, onde o veneno se respirava pelo filtro do prazer. Alvaro da Silveira foi a presa.

Muitos dos mais apontados em certa sociedade libertina de Lisboa, mescla de beaterio, hypocrisia, e despejo, quando viram Alvaro da Silveira ligado ao conde de ***, disseram: «está perdido!» E quem o não diria?

O conde tinha uma instrucção mediana, que puzera ao serviço da sua immoralidade. No seu principio, quando a favor do seu nascimento, era bem recebido nos salões de Lisboa, o conde insultava graciosamente a sã religião e a piedade. Lera com pertinacia alguns d'esses livros immoraes e grosseiros aos vinte annos, para grangear um bom cabedal de motejos contra a religião, e emancipar-se com elles de uma leitura a que sacrificava as longas horas da noite, como um sobrinho que se violenta, em noite de orgia, a ficar em casa com o velho tio, porque é esse o preço de uma herança, que deve, á farta, indemnisa'-lo depois.

Aos vinte e cinco annos sabia tudo quanto era preciso para insultar a Deus em nome de uma sciencia impia. Apostolo infatigavel da immoralidade, não respeitava sexo, nem edade, quando vibrava a ironia, pungente como uma frecha de fogo, ao seio da moral christã. A donzellas, a mães, a creanças, a velhas, a religiosas, e a devassas falava sempre no mesmo estylo. Se acontecia ser mal recebido, assumia uma auctoridade pedagogica, dava-se um ar de respeito, e justificava o que dissera em tom de mofa discursando contra o christianismo que elle dizia sepultado para sempre no tumulo que lhe abrira a sciencia.

Alvaro da Silveira descreu espontaneamente. Não deu trabalho ao companheiro, nem quiz profundar uma questão que lhe não importava. A negação formal era a ultima palavra da impiedade constituida em sciencia. A Alvaro bastava-lhe saber essa ultima palavra.

Todavia, a assiduidade da companhia, e o habito de escutar o seu amigo em polemicas, animadas pela fé de uma parte, e da outra pelo orgulho, deixaram-lhe uma tintura scientifica de atheismo.

Alvaro não recebera de seus paes educação religiosa. Esta falta desmentia a classe d'onde viera. A jerarchia dos brazões em Portugal, com quanto viciosa, parece gloriar-se com o seu privilegio de fé, e de virtudes christãs... extra-muros. A educação ahi é mais religiosa que scientifica: é mais para Deus que para o mundo. Não é milagre encontrar cá fóra o representante de oito seculos de heroes virtuosos e bravos, enxovalhando-se na lama das covardias e das torpezas: mas raro encontrareis no colo materno, uma creança de sangue illustre, como lá se diz, cuja primeira palavra articulada não seja DEUS.

Alvaro da Silveira era uma excepção; o instrumento--quem sabe?--de um acto providencial.

XVIII

Os esplendidos festins da depravação não se fechavam para alguem. Ponto era que o conviva fosse bem apresentado, e fechasse os labios da critica com mordaça de ouro. Já sabeis que Alvaro era rico, e quem o levou pela mão até o ultimo degrau da escada da immoralidade, fôra um conde tão rico e tão nobre como elle.

Este homem pavoneava-se de ter conquistado um nome, que exprimia uma seita. Chamavam-lhe cynico, e elle gloriava-se do nome. A sociedade nunca o maltratára, mas elle dizia que tinha uma vingança solemne a tirar da sociedade. Algoz da honra de muitas familias, a sua guilhotina era a calumnia, quando não podia mostrar as mãos salpicadas do sangue das victimas. Velava alta noite a porta de um amigo, que o recebera de dia, para que os passageiros, ao ve'-lo, o considerassem amante de sua irmã. Quando o murmurio do descredito chegava aos ouvidos do pae, que rejeitava a mão de um traidor que o visitava, o conde não tinha duvida em offerecer galhardamente a esse pae uma pistola, ou um florete. Se o ancião recuava diante da morte, ou da idéa do abandono em que ficava sua familia, o cynico ria-se-lhe na face, e chamava-lhe cobarde nas praças, ou nos salões.

Assim como conduzira pela mão Alvaro da Silveira ás bachanaes, mais de uma virgem fôra conduzida por elle á ultima estação da licença. E, depois, o maldito de Deus, e dos homens, aprazia-se de contemplar o desenfreamento d'essas mulheres, como se fossem feras, restituidas á sua liberdade.

Estas linhas, esboçadas á pressa e com repugnancia, traçam a physionomia moral do conde que entrára para o quarto de Alvaro da Silveira.

XIX

A carta que Frei Antonio recebera, era de sua sobrinha. Era este o seu conteudo:

«Pedi licença a meus paes para escrever-lhe, meu caro tio, e sorriram á minha supplica. Como não pude adormecer a noite passada, trabalhei e conclui a ultima encommenda de flôres que tinha. Graças ao Senhor, já vieram novas encommendas; mas eu sinto-me fatigada dos braços, e não posso continuar. No espirito sinto eu muita vida, e não posso nem quero vencer esta consoladora força que o impelle para meu tio. Penso que o não verei hoje; mas... cedi agora á maneira commum de se exprimir a gente... eu vejo meu tio em todos os instantes e logares... Deixa-me escrever uma verdade, que não teria forças de dizer-lhe?... Deus quer que meu tio seja o prisma por onde eu devo contempla'-lo. Será isto uma fraqueza de razão, ou uma liberdade peccaminosa? Peccado seria eu calar este pensamento, que o meu querido mestre pode repreender.

«Estou triste, como ha pouco. Eu adivinho alguma infelicidade. Sinto-me com tanta coragem para ella!... Mas a natureza humana, e especialmente o espirito da mulher, e especialmente o meu espirito, é muito fraco. Espero tanto em Deus!... tanto em Maria Santissima!... e parece que uma voz, nem humana, nem divina, me diz que fuja, que trema, que recue ao combate do infortunio contra a paciencia! Muito triste é isto, meu caro tio! A minha vida tem faltas, que eu devo expiar? Porque m'as não dizem, se me amam?!

«Persigo-o muito, eu bem o sei! Não o deixo em paz, quando tão necessaria lhe é para estudar a grande lucta em que está empenhado! Não sei as forças do seu discipulo, mas eu admiro mais a conversão de Santo Agostinho que as victorias de Alexandre. Aqui estou eu a fazer-me vaidosa e sabia diante de meu tio, que tambem conhece a minha humilde ignorancia!... É que estou affeita a conversarmos como escrevo.

«E a minha melancolia? E os meus versos? Nem me disse se tinham as syllabas todas, ou quantas deviam ter mais! Nem valia a pena... Adeus, meu extremoso amigo! Meu pae, e minha mãe, e meus irmãos estão muito saudosos. Não se esqueça um instante da sua familia que o ama tanto como a sua sobrinha

Maria.»

--Coitadinha!...--murmurou padre Antonio, dobrando a carta--És um anjo!

XX

O conde tomára uma postura comica de pasmo, quando Alvaro entrou no quarto. Alguma cousa o impressionára; mas em homens taes as impressões são fugitivas, e frouxas, porque não ha ahi enthusiasmo, nem grandeza n'essas almas caídas do sublime para o raso dos sentimentos grosseiros e triviaes.

O procedimento do seu amigo devia maravilha'-lo. Era extraordinario! Apenas entrou no quarto, Alvaro extendera-lhe friamente a mão, e mandára-o sentar-se com um gesto, muito significativo de fastio. Que o hospede lhe era aborrecido, bem o denunciava elle no franzir da testa, onde por força vem á luz da physionomia sentimentos que a delicadeza quizera algumas vezes abafar.

--Doe-te a cabeça?--perguntou o conde.

--Não... doe-me o espirito--respondeu Alvaro.

--As dôres do espirito, matam-se com espirito... mas é de vinho... Bebe... Obriga a materia a pensar de outra maneira, como diz Rousseau.

--E diz Rousseau que a materia pensa?--perguntou Alvaro, com um sorriso motejador.

--Que duvida!... A materia organisada, chamada homem, é uma cousa que pensa. Quando pensa mal, isto é, quando nos apoquenta, modifica-se a materia, imprimindo lhe uma acção nova. A maneira de modifica'-la é simplicissima. Disseste que estavas triste, não é verdade?

--Sim.

--Pois bem: bebe cognac, come fiambre, afoga-o em vinho de Setubal, que é de mais a mais um triumpho patriotico sobre o Champagne e Bordeus. Seja o que fôr o bolo alimenticio, que alojas no estomago, é materia: esta, posta em contacto com a materia que pensa, altera-a; e d'esta alteração chimica e physiologica resulta um novo ser pensante, uma solemne pirraça á tristeza.

O conde esperava merecer uma risada com a sua dissaborida theoria. Foi para elle uma segunda surpresa o silencio de Alvaro da Silveira. N'este silencio transparecia o desprezo a que nos movem as chufas desengraçadas de um truão, invita Minerva, que nos noja, quando pensa recrear-nos. O conde não estava affeito a estas decepções. O orgulho doía-se. Alvaro seria o ultimo de quem elle devia esperar um mau acolhimento.

--Agora vejo eu--disse elle contrafazendo o pejo, que mais acertadamente chamariamos despejo.--Agora vejo eu, que o teu cerebro de hoje conspira contra a tua felicidade de hontem... que tens tu, mancebo gentil? A brisa da noite desfolhou-te a rosa, que te embalsamava o olphato do coração? Sonhaste alguma virgem de olhos garços, que não pudeste realizar em materia corrente e sonante n'estes reinos?

Alvaro, nem um sorriso! Era demais para tanto espirito! O conde só agora compreendeu que os seus ditos causticavam a paciencia do discipulo. Este, apesar de molestado, não queria ser incivil. O predominio do conde sobre o seu genio não estava inteiramente extincto. Era-lhe necessario justificar-se de algum modo. Qualquer evasiva podia servir-lhe; mas a transfiguração do seu caracter, n'aquelle momento, não lhe permittia uma mentira. Bem podera Alvaro queixar-se de um padecimento physico, e tinha bem justificada a sua indolencia para as caricias folgazãs do conde; mas não o fez assim, e, se consultarmos o coração humano, ouviremos um applauso á franqueza que depois ostentava Alvaro. É que, se, por ventura, um sentimento novo acorda em nós desejos bons, o primeiro d'esses desejos é communicar aos outros uma felicidade, que tanto menos egoista, tanto mais perfeita se nos afigura. A passagem da indifferença para a observancia da religião revela-se sempre com esses symptomas. O zelo de um neophito manifesta-se mais corajoso e ardente que o apostolado de um orador feito, e encanecido em desalojar a impiedade dos seus ultimos reductos. E depois, no espirito illuminado pela effusão rapida e imperceptivel da graça divina, ha um desejo forte, uma vaidade santa de attrair espiritos contumazes, de curvar os joelhos arrogantes, e de vencer razões, cuja pertinacia nos parece impossivel na presença dos argumentos que humilharam a nossa. O que então se dá na alma é uma paixão sublime. A eloquencia do que fala, convicto de verdades que lhe promettem uma aspiração immortal, parece um emprestimo da linguagem dos anjos. Ei'-los ahi, de repente, credulos, os apostolos, que extendiam ha pouco as redes no lago de Gethsemani, e surgem agora entre os interpretes da lei, nas praças da Galiléa, falando linguas que nunca ouviram.

XXI

Alvaro da Silveira sentira-se capaz de converter um impio. Ha pouco ainda, balbuciára as primeiras palavras de fé, e crê-se já robusto para vibrar a funda contra o gigante do materialismo cuja arrogancia não vencem forças de homem, sem o impulso divino, que arrojára a pedra que prostrou o gigante philisteu.

--Que tens tu?--repetiu o conde.

--O que eu tenho--respondeu Alvaro--é o desejo de um amigo; mas queria um amigo, que nascesse n'este momento, e n'um momento me comprehendesse. Não podes avaliar-me, conde. Se pudesses, ser-te-hia bastante uma só palavra...

--Pois bem--replicou o conde--diz ao menos essa palavra... ou diz sequer tres palavras conceituosas como as de Cesar...

--Ora attende-me. Tendo nós vivido sempre juntos nunca me persuadi que pudesse estar tão longe de ti como estou agora.

--Serás tu romantico?! atalhou o conde dando-se uns ares grutescos de espanto.

--Se ouvisses--tornou Alvaro sorrindo--a definição que ha pouco ouvi do que é ser romantico, e se concordasses com ella, respondia-te que estava romantico.

--Pois quem anda cá por casa a dar definições? Teu pae deu agora n'essa?

--Não foi meu pae... Meu pae o que soube foi definir a minha posição.

--Apre! Estás mysterioso como o boi Apis! Vou-me embora, que não sei ler geroglyphos humanos. Palavra de honra! Soletra lá o conceito d'essa charada, do contrario vou-te mandar preparar quarto na enfermaria de S. José.

--Então queres saber quem define os homens e as cousas cá em casa?

--Quero conhecer esse escolastico; deve ser um monstro de paciencia humana!

--É um padre!

--Um padre? exclamou o conde, erguendo-se, e apertando as mãos á cabeça--um padre em casa de Alvaro da Silveira! Malagrida em 1844 a fazer exercicios espirituaes contra os exercicios da materia!...

XXII

N'este momento, abriu-se a porta do quarto. Os que a abriram eram o pae de Alvaro, e fr. Antonio dos Anjos.

A presença do sacerdote devia augmentar o pasmo comico do conde; mas a impressão foi diversa. Este homem do grande mundo perdia muito da sua altivez sarcastica, se não tinha em redor de si um rancho que lhe applaudisse as chufas. A unica pessoa de sua confiança, n'aquelle momento, era Alvaro, mas este apostata do «grande tom» não era hoje o homem de hontem. E, por tanto, o desenvolto conde na presença do padre sentiu-se embaraçado, como devera sentir-se o padre na presença de tres cavalheiros da força moral do conde.

Frei Antonio dirigiu sua humilde saudação ao cavalheiro, que não conhecia. Alvaro apresentando-lh'o, disse:

--Tenho a honra de lhe apresentar o meu amigo conde de ***. É mais velho do que eu, mas posso dizer affoutamente que sabe menos do que eu da verdadeira sciencia.

--A verdadeira sciencia--disse o padre--é um exclusivo de Deus, e não tem academias cá na terra.

--Concordo absolutamente na negativa--disse emphaticamente o conde.

--Então em que é que concordas? perguntou Alvaro.

--Em que não se sabe nada a respeito da verdadeira sciencia.

--E em que é que não concorda, senhor?--interrompeu frei Antonio, com risonha benevolencia.

--No exclusivo divino em que vossa reverendissima monopolisa a sciencia--responde o conde sorrindo sardonicamente á palavra reverendissima.

--Não me parecem respeitosas as palavras da resposta--retorquiu o padre--mas nem por isso hesitarei em fazer-me comprehender melhor, para depois avaliar a opinião de v. ex.a. Quando eu disse que a verdadeira sciencia era um exclusivo de Deus, poderia fazer-me entender melhor se dissesse que o objecto do estudo que promettia consequencias seguras de principios certos, é Deus. Se v. ex.a quizer insistir na primeira intelligencia que deu ás minhas palavras «que a verdadeira sciencia é um exclusivo da divindade, porque só Deus é omnipotente...»

--Assim reza a cartilha do padre Ignacio--interrompeu o conde com acatamento ironico.

--É verdade--replicou o padre--a cartilha do padre Ignacio, que v. ex.a citou em ar de mofa, assim o diz e deve dize-'lo, porque essa cartilha, por onde estudam os meninos, contém as verdades eternas como ellas foram recebidas pelos sabios e illustrados doutores da egreja. E como é possivel que não sôe bem aos ouvidos de v. ex.a esta minha linguagem, buscada de emprestimo na cartilha do padre Ignacio, eu não poderei, falando-lhe a sciencia de Deus, empregar os termos que a falsa philosophia emprega contra Deus.

--V. s.a faz uma grave injustiça á philosophia. Sem a philosophia--disse o conde, assumindo um ar de séria profundidade--sem a philosophia não poderiam os padres da seita christã seduzir o espirito dos homens, a ponto de convencer alguns menos reflectidos, da divindade do christianismo.

--E por tanto--acudiu o padre--deixe-me v. ex.a concluir que a philosophia é uma mentira, por isso que os padres da seita christã, como v. ex.a gratuitamente appelida a egreja catholica, se serviram d'ella astuciosamente para convencer os menos reflectidos. Ora pergunto eu agora, quaes são os mais reflectidos?

--São os que vêem as cousas pelos olhos de uma rasão illustrada!

--Mas a rasão illustrada não é a philosophia?

-É.

--Logo a rasão illustrada é uma mentira, por isso que a philosophia é uma mentira, que seduz os menos reflectidos a julgarem divino, o que não passa de uma humana impostura. Póde v. ex.a elucidar-me n'esta grave questão, que não vem resolvida na cartilha do mestre Ignacio?

O conde embaraçado, e surprehendido pela argumentação escolastica do padre, parecia engasgar-se n'uma resposta, cuja frivolidade lhe estava bem denunciada no rubor que lhe subia á face. Este rubor era a arrogancia despeitada. Frei Antonio, repeso de assolar tão cedo o fragil edificio do seu adversario, remediou o mal que, segundo a sua humildade, tinha feito, dando elle proprio a mão ao fraco contendor.

--Estou como v. ex.a persuadido--disse elle--que ha uma philosophia á qual faria grave injustiça, se não dissesse que muito lhe devemos por nos ter aplanado algumas difficuldades em sciencia. Estas difficuldades vencidas serviram a causa de Deus, e confirmaram verdades claras que a razão humana julgára mysterios. Citar-lhe-ei um exemplo. Ha um seculo escreveu-se contra o christianismo, e disse-se que a religião assim chamada era um encadeamento de embustes desde Moysés até Jesus Christo, desde o Genesis até o Evangelho. Os que assim escreviam eram philosophos, sr. conde?

--De certo, porque os que assim escreveram foram Voltaire, d'Alembert, Holbac...

--E outros muitos que não é força citar. Pois, senhor, esses reputados philosophos disseram que Moysés era uma impostura, por isso que a philosophia não podia consentir que a relação dos successos da creação do mundo, descripta no Genesis, fosse verdadeira. Passados annos, as academias scientificas, especialmente a sociedade de Calecut, expressamente organisada para testificar ou destruir o testemunho de Moysés, declara que é impossivel compreender a cosmogonia, isto é, a formação do mundo, sem admittir as infalliveis bases de sciencia, escriptas ha cinco mil annos nos livros do povo hebreu. Agora pergunto eu se devemos julgar philosophos os primeiros que negaram Moysés, ou os segundos, que, partindo das veredas da incredulidade para o caminho recto da sciencia, declararam, após cem annos de progresso em sciencias naturaes, que a narração do Genesis era a unica admissivel em verdadeira philosophia. Se acreditamos os primeiros a sciencia é uma mentira, por isso que tanto mais progride tanto mais se afasta da verdade. Se acreditamos os segundos, os primeiros eram os mentirosos, e por tanto eu proclamarei a philosophia progressiva como aquella que conduz ao conhecimento de Deus, tanto quanto é possivel ás indagações da limitada razão do homem.

--A razão do homem não é limitada--retorquiu o conde.--Á razão do homem é que devemos o vasto terreno da sciencia, grangeado pelos esforços d'esses homens que conquistaram verdades axiomaticas, sem as armas do Evangelho, e sem as esterilisadoras argucias da theologia. A razão do homem é amplissima e immensa com Deus, porque Deus é a razão.

--Não estamos já na questão que discutimos--tornou o padre.--V. ex.a devia destruir os meus argumentos, provando-me que os verdadeiros philosophos eram os do seculo passado que desthronaram Moysés do seu prestigio de legislador inspirado directamente de Deus. Devia provar-me que a sciencia moderna, restaurando as tradições da historia antiga, e restituindo Moysés ao patriarchado das primitivas verdades, era uma nova impostura, ou a continuação d'aquella sordida ignorancia que Voltaire combateu triumphantemente, segundo a maneira por que v. ex.a vê as cousas. E, estando eu muito convencido da impossibilidade que v. ex.a ha de encontrar em provar-me as theses que lhe apontei, vou responder á apologia que fez á razão do homem.

Não ha duvida que a razão humana procura todos os dias tirar, em sciencia, novas consequencias de velhos principios; e effectivamente esse incansavel trabalho do espirito humano, ancioso de progredir, tem conseguido tudo isto que nos maravilha nas sciencias e nas artes. Já vê v. ex.a que eu concedo grandes fóros, e sublimes honras á razão; mas, já que tão opulenta a considero, não terei escrupulo em pedir-lhe que me explique os principios de que ella tira as suas consequencias scientificas. Pedirei aos chimicos, que me expliquem o seu grande principio axiomatico da «affinidade». Responde-me v. ex.a em nome d'elles?

--Eu de certo não, porque ninguem soube dizer o que era affinidade.

--Não é tanto assim. Os chimicos dizem que a affinidade é a força que attráe as moleculas de differente natureza. Respondem assim, porque observaram a combinação d'essas moleculas; mas queria eu que me fosse explicada a natureza d'essa força, o segredo d'esse movimento de corpos inertes, sem que a mão do homem lhe imprima tal movimento. É a «attracção» dizem os physicos, mas o que é a attracção? D'onde vem a força impulsiva que faz girar o globo que habitamos em redor de um outro globo, que não conhecemos?

--Não temos precisão de conhecer até á evidencia esses segredos da creação.

--Mas v. ex.a concede que o Creador não os ignora?

--Seria um absurdo não o conceder.

--E a razão humana não póde conhece'-los?

--Já disse que não.

--Mas v. ex.a disse que Deus é a razão humana! Eu sinto grandes difficuldades em combinar a sua these com as consequencias que se tiram d'ella. Se a razão humana é Deus, o homem é forçosamente divino pela celeste razão que o illumina. Se o homem, com a sua razão, não póde profundar os segredos da creação, eu não posso conceder que Deus, pelo facto de modificar-se em «razão» unindo-se á humanidade, reservasse para si certos mysterios como «Deus», e cedesse a si proprio o conhecimento de certas e determinadas verdades como «razão.»

--Não combinamos em principios, meu caro senhor, e d'ahi vem a desintelligencia em que estamos nas consequencias. Eu vou explicar-me com clareza: Eu digo que a razão do homem é uma emanação de Deus.

--Mas eu não entendo, sr. conde, o que é, e como se opera essa emanação de Deus. Deus é indivisivel; Deus é inalteravel; Deus é immutavel. Não posso, por mais abstractas que sejam as minhas intuições, imaginar que a emanação de Deus não seja uma parte de Deus; e, por tanto, não concebo como essa parte seja substancialmente diversa do todo. Deus considerado em si, segundo v. ex.a, é omnisciente, e vê os segredos da sua obra: Deus, convertido em razão pelo effeito da emanação, segundo os mesmos principios, perde os attributos de Deus omnisciente, e restringe-se ao conhecimento de algumas verdades, por meio das quaes é impossivel conhecer os mysterios, que ha perto de seis mil annos, os homens debalde tentam descortinar.

--Pois v. s.a não admitte que todo o ser creado é uma emanação de Deus?

--Não, senhor, não admitto.

--Essa é boa! Pois a creação não é uma producção de Deus?

--E a producção é por ventura uma emanação? A estatua de barro que sáe das mãos do esculptor é uma emanação de esculptor? Deus incorporeo poderia materialisar-se nas massas inertes, que foram producto de sua omnipotencia, tanto como o homem que foi feito á sua imagem?

--Ahi está um grande embaraço para mim. Não comprehendo como o homem corporeo foi feito pelo modelo de Deus incorporeo.

--A imagem de Deus, sr. conde, é a alma, não é o involucro material da alma. Memoria, vontade, intelligencia são os traços d'essa physionomia espiritual affeiçoada pelo typo divino. Attribuimos á memoria tudo o que sabemos, diz S. Bernardo, posto que esta sciencia não seja a causa de nossos pensamentos; attribuimos á intelligencia, e algumas vezes á memoria, tudo o que o pensamento nos mostra verdadeiro; imputamos á operação da vontade tudo o que reconhecemos ser bom e verdadeiro pelo soccorro da intelligencia. A memoria nos assemelha ao Pae, a intelligencia ao filho, a vontade ao Espirito Santo. Seja-me permittido citar Santo Ambrosio, em quanto v. ex.a invoca os textos de Voltaire. «Do mesmo modo que Deus, diz elle, creador do homem á sua semelhança, é caridoso bom e justo, doce e soffredor, puro e misericordioso... assim o homem foi creado para possuir a caridade, ser bom e justo, doce e paciente, puro e misericordioso. Quanto mais o homem sente em si essas virtudes, mais se approxima de Deus, e mais semelhança tem com elle. Mas, se ulcerado pelo crime e pelo vicio, elle se afasta e degenera d'esta nobre semelhança com o seu Creador, descerá á realidade d'estas palavras escriptas em predicção bem desgraçada: «O homem não compreendeu a sua elevada posição; comparou-se aos irracionaes, e assemelhou-se a elles.»

--Parece-me muito metaphysica a sua explicação, sr. padre. Eu gosto da geometria em todas as demonstrações, e não admitto verdades sem evidencia mathematica. O seu Santo Ambrosio e S. Bernardo explicariam perfeitamente a semelhança do homem com o seu Creador, mas foi n'esses tempos em que falavam ás turbas credulas, que juravam em suas palavras sem entende'-los. Hoje é muito perigoso esse assumpto, e não me consta que desde o seculo do grande Rei, desde Bossuet até Frayssinous, algum orador christão torture a intelligencia do seu auditorio, querendo á força persuadir-lhe que o homem foi creado á semelhança de Deus!

--V. ex.a não tem obrigação de ter lido tudo; mas tambem a não tem de calumniar Bossuet. Se a memoria não me falha, eu lhe cito as palavras textuaes do grande orador: «Façamos o homem; e proferidas estas palavras, a imagem da Trindade appareceu. Ostenta-se luminosa na creatura racional: semelhante ao Pae tem o ser; semelhante ao Filho tem a intelligencia; semelhante ao Espirito Santo tem o amor; semelhante ao Pae, e ao Filho, e ao Espirito Santo, tem, no seu ser, na sua intelligencia, e no seu amor uma mesma felicidade, uma mesma vida. Feliz creatura, e verdadeiramente semelhante, se ella se occupa unicamente d'elle! Então, perfeita no seu ser, na sua intelligencia, e no seu amor, conhece quanto é, ama quanto conhece: seu ser e suas operações são inseparaveis; Deus torna-se a perfeição do seu ser; a nutrição immortal da sua intelligencia, e a vida do seu amor... Ditosa creatura, se sabe conservar a sua felicidade!»

--Esta é a doutrina de S. Bernardo, de S. Ambrosio, de Bossuet, de Frayssinous, e de todos aquelles que bebem o leite da fé no seio da esposa de Jesus Christo.

--Não duvido; mas não compreendo. O que eu sei é que repugna com a menos desenvolvida razão a semelhança espiritual do homem com Deus. Eu conheço homens tão degradados da honra, tão hediondos de crimes, que reputára-me blasphemo se os considerasse semelhantes no typo divino.

--Ha de ter paciencia de escutar-me com a attenção de philosopho, se não póde prestar-me outra.--A revelação figura-nos o homem, não só como o mais perfeito de todos os seres animados, mas ainda como o rei da natureza, para o qual foram feitas todas as cousas. Por ella aprendemos que Deus fez o homem á sua imagem e semelhança, para que presidisse ao universo. Sabemos ainda que, depois de dar-lhe uma companheira, disse a ambos: «Crescei e multiplicae, enchei a terra da vossa posteridade, submettei a vossas leis tudo o que respira; pois tudo é feito para vós.» «Vós o fizestes senhor de todas as vossas obras!--exclama o psalmista--todos os entes vivos são submissos ao seu imperio, e destinados para seu uso.» É verdade que a escriptura varia a linguagem, quando lembra ao homem a sua construcção de terra, que em terra se tornará. Assim era necessario para suffocar os orgulhos do coração. Não é, porém, o longo viver sobre a terra que constitue a dignidade do homem. Não é sobre a terra, que a felicidade lhe sahirá ao encontro. Creado para Deus e para a eternidade, só no seio de Deus, e no seio da eternidade poderá ser feliz d'esse goso inalteravel que não se finda. É aqui onde começa a cadeia de objecções por parte da incredulidade. Nega primeiramente que o homem fosse feito á semelhança de Deus. Quem quizer, porém, convencer-se d'esta verdade, observe com attenção o modo como a alma exerce suas funcções, e o dominio que ella tem sobre o involucro de materia inerte, que lhe obedece: Consideremos a variedade infinita das nossas idéas, a rapidez com que ellas se formam, a communicação por intermedio da palavra, a fidelidade da nossa memoria, esse presentimento que raras vezes nos engana, tudo parece approximar-nos da suprema intelligencia, que abraça de um lance o céo e a terra, as passadas, as presentes e as futuras revelações da humanidade. A alma, quando furiosas paixões a não agitam, é capaz de reprimir seus desejos; de acalmar seus movimentos desordenados, de dirigir sua vontade, e ahi se observa uma, posto que imperfeita, imitação do imperio que Deus exerce sobre todos os seres. O sentimento que ella tem de sua immortalidade, seu olhar penetrante nas profundidades do futuro, e suas esperanças anciosas além do tumulo, são indicações do seu destino, assignalado por Deus.

--Essa imagem de Deus--atalhou o conde--está bem degenerada; e, se o não está, Deus é um ente bem imperfeito.

--Concordo--tornou o padre--que não é muito semelhante esta imagem do homem imperfeito com a do seu perfeito Creador; era-o, comtudo, no momento da creação; foi o peccado que o desfigurou. Mas se o homem degenerou por causa do peccado, lapso da sua innocencia primitiva, foi depois regenerado pelo sangue do Salvador, e, assim resgatado, tornou-se pela graça filho de Deus. O homem, no estado de innocencia, devia dominar-se, dominar as creaturas todas, e viver perfeitamente com Deus, seu creador. Eu quereria poder aqui especificar a substancia da alma, para satisfazer plenamente ás duvidas do sr. conde, mas, se eu posso provar que a sua espiritualidade está provada pela sua origem, devemos convir que tudo mais nos é desconhecido. Porque Deus soprou o barro que amassára, não se segue que a alma humana é uma porção de Divindade, como os antigos egypcios acreditavam: esta supposição levar-nos-ia ao pantheismo, de todos os systemas o mais insensato. Deus é um espirito, o espirito é indivisivel; e, recebendo cada homem no halito creador uma porção de Divindade, cada homem seria um Deus. O que devemos entender do sopro de Deus não é uma emanação da substancia, mas sim a creação de uma substancia semelhante, isto é, espiritual, mas nunca identica ao Supremo Espirito.

--Não existe entre o corpo e essa substancia espiritual uma união real?--interrogou o conde.

--Certamente, existe, porque o corpo é o instrumento de que a alma se serve para obter o conhecimento dos objectos.

--Mas qual é a natureza d'essa união?

--Essa questão não póde ser solvida pelos homens: é um mysterio d'aquelles em que a Divindade se manifesta com mais magestade ao debil entendimento da humanidade. Se, porém, não é possivel chegar á ultima consequencia d'essa pergunta, não é difficil provar-lhe que uma tal união existe. A alma possue sobre o corpo a soberania e a independencia da vontade; rege-o pelo pensamento, sem comprehender a disposição dos órgãos que rege, e sem que perceba a potencia que move e anima as fibras. Sabe, por ventura, v. ex.a explicar-me a natureza de certas operações incognitas, que se passam em si? Sem a degradação produzida pelo peccado, este imperio da alma não acharia estorvos no seu exercicio; mas, no estado actual, a vontade é muitas vezes vencida pela resistencia dos sentidos.

--Pois bem, tornou o conde--eu ponho de parte a esteril pretenção de querer saber onde está a alma, e peço que me diga, sr. padre, que culpa tenho eu no peccado de Adão, para estar pagando as suas dividas? Isto parece-me uma flagrante injustiça!

--Deus é soberanamente sabio, bom, e misericordioso; disse-nos que o peccado de Adão era uma herança de culpa para todos os seus descendentes; devemos acredita'-lo. São-nos desconhecidos os motivos d'esta responsabilidade; mas não se segue que possamos, como ignorantes, alcunhar de injusto o Altissimo. N'este mundo ha alguma cousa semelhante. Diz-se que as faltas são pessoaes, e que a vergonha de uma acção criminosa deve só recair n'aquelle que a pratica. E, quando um crime estrondoso se dá que é o que nós fazemos? perseguimos com odio e com desprezo o condemnado e a familia do condemnado, até lhe cortarmos os vinculos que a prendem á sociedade. Não quero dizer que Deus sinta estas repugnancias proprias dos homens, porque não sabemos o motivo porque elle produziu obras, que apenas podemos contemplar; o que dizemos é que Deus é infinito, eterno, e que a pena do peccado, para estar em proporção com a sua natureza, deve ser eterna e infinita. No estado de innocencia, o homem tinha a luz da sua intelligencia, e, degradado pela culpa, caíu nas trevas; de senhor absoluto da sua vontade tornou-se escravo dos sentidos; pelo repouso e felicidade que possuia, trocou a tristeza e o tumultuar das paixões, que o infelicitaram: em logar da vida espiritual e eterna, encontrou a vida material e a morte.

O conde atalhou as razões do padre, espreguiçando-se rudemente, abrindo a boca, esfregando os olhos, com a mais sensivel ostentação de escarneo. Fr. Antonio sorriu-se com bondade, e disse para o pae de Alvaro:

--Eis aqui como a philosophia do orgulho, esta rainha comica do mundo, responde aos que lhe perguntam pelos seus fóros de realeza...

--Não é isso, sr. padre--interrompeu o conde.--É que eu passei uma noite pouco orthodoxa e não posso digerir o succo nutriente da sua theologia sem dormir algumas horas, para restabelecer a boa harmonia entre as funcções do entendimento e as dos sentidos. Bem sabe v. s.a que os apostolos dormiram, e mais era Christo quem lhes pediu que velassem. Ora eu não tenho a audacia de comparar-me a Cefas, e vossa reverencia não quer de certo tambem comparar-se ao Mestre... Meus senhores, a minha noite começa agora... Vou dormir, naturalmente sonharei com S. João Chrysostomo, e S. Bernardo... Boas noites.

XXIII

As argucias galhofeiras do conde não agradaram a algum dos ouvintes. Alvaro pareceu vexar-se d'aquella despedida, mais insultuosa que engraçada, ao padre. Este, porém, supposto que vexado, não se denunciou pelo mais ligeiro gesto de enfadamento. A coragem para receber impassivel as ironias sarcasticas da incredulidade, dera-lh'a a desgraça, e aconselhára-lh'-a a caridade.

Na ausencia do conde, Alvaro e seu pae esperavam do padre palavras resentidas; e maravilharam-se quando lhe ouviram dizer com profunda compaixão:

--O desgraçado precisa muito das orações de um justo!... Quem me déra sê-lo para que a luz do céo lhe descesse ao espirito, antes que o desalento do mundo lhe aconselhasse a religião como refugio das extremas desgraças da vida! Oh! quando isso acontecer... muito infeliz deve elle ter sido!...

Desde este momento apertaram-se os vinculos de piedade, de sympathia religiosa que prendiam Alvaro e o frade. O mancebo vira a vergonhosa retirada do seu antigo mestre de atheismo, e decidira-se de coração a favor do modesto triumpho do humilde padre. Como espirito illuminado pela fé, Alvaro precisava formar a sua razão pelos elementos de uma philosophia que Fr. Antonio lhe dissera existir, mas que não era aquella do seu amigo conde.

O estudo attencioso, reflexivo, e continuado tornou-se a vida, quasi invariavel, do educando. Uma transição, assim rapida, assentava o padre que não podia, sem intervenção divina, explicar a improvisa regeneração de um homem, que deixára no mundo mil incentivos de paixões que o não tinham enfastiado ainda.

A vergonha da virtude, que não pudera vingar n'um coração ulcerado de vicios, principiou a desabrochar flôres que enfeitavam a conversão do mancebo d'essas galas de educação, que parecem vindas do berço e herdadas dos paes. Era o imperio da religião, e unicamente da religião.

Fr. Antonio dos Anjos, vaidoso com razão da obra, cujo instrumento elle fôra, não cessava de agradecer ao Altissimo a escolha que fizera de um peccador para a conversão de outro peccador, para quem o remorso seria tardio.

XXIV

Na «grande roda», falava-se muito da conversão de Alvaro. Infelizmente, porém, esta conversão tomaram-na irrisoriamente a maior parte d'aquelles que se occupavam d'ella, por não terem um caso semelhante de que se occuparem. Os da sua plana, particularmente, pareciam vexados da religiosidade do seu antigo camarada, que tão bellas esperanças dava de correr parelhas no cynismo philosophico do conde.

Na incerteza de semelhante boato, muitos vieram procurar Alvaro, e acharam-no prompto sempre a recebe'-los; se, todavia, os seus hospedes tentavam chama'-lo ao assumpto, que ali os trouxera, Alvaro contava-lhes uma historia assim resumida:

«Eu era discipulo do conde ***, assim como vós o sois. Casualmente o meu mestre de philosophia falsa encontrou-se com outro que me dizia ser o mestre da verdadeira philosophia. Disputaram por algumas horas: o primeiro, quando se viu esmagado no seu orgulho, fugiu, cantando um hymno em seu triumpho, mas um hymno injurioso ao modesto vencedor. Sabeis o que depois me fez alistar na escola do frade, e fugir á escola do conde? Foi, talvez, muito pouco: vi que o frade pediu a Deus a conversão do conde que o insultára, e insultára a Deus.»

Os que o ouviram diziam depois: «Aquelle pobre Alvaro endoudeceu!... Coitado!... Seria uma paixão infeliz? Seria desorganisação do cerebro?... Seria alguma grande perda no jogo?»

LIVRO III

I

Eram passados seis mezes depois que frei Antonio dos Anjos tomára a seu cargo a educação de Alvaro. Este mancebo, vivendo uma vida quasi de reclusão e de immobilidade corporal, fazia grande violencia ao corpo, se bem que á alma não fazia nenhuma. É que a materia, posto que sujeita á vontade do espirito, adquire certos habitos, que não seguem facilmente as modificações do espirito, principalmente quando estas são bôas e aquelles máos. É como o relevo aberto no marmore pela mão do homem, cuja imperiosa vontade não póde desfigurá'-los sem que a mão os destrua.

E a passagem da vida agitada para a meditação sedentaria fôra em Alvaro rapida, talvez de mais. Fr. Antonio conhecia a inconveniencia d'esta transição; mas superior a taes receios, o religioso esperava que, na conversão do seu discípulo, se operasse um continuado milagre.