Alvaro apressava o enlace. O coronel não o retardava nem o accelerava. Entrára-lhe profundamente a desconfiança na alma. Sua mulher tentava em vão destruir-lh'a. O frade chegava até a considera-la peccaminosa e ingrata aos favores do céo. Maria nem sequer imaginava que podia ser-se infeliz na situação d'ella; e contristava-se por não ver seu pae alegre como todos.
XIV
Frei Antonio foi o ministro do sacramento. Abençoou-os na capella de Alvaro da Silveira. A um dia de jubilo, seguiram-se muitos dias de felicidade intima. Em casa, porém, do coronel, chorava-se muito. Faltava alli a alma d'aquella familia. Os irmãos de Maria, alguns ainda creanças, estavam affeitos ao seu regaço, ás suas lições, e ás suas carinhosas repreensões. O coronel não queria ver a cadeira em que Maria se sentava, o piano, o açafate da costura, tudo que parecia chorar com elle a falta da sua dona. Sentava-se a familia triste e taciturna em redor da mesa. Olhavam todos, sem consolar-se, para o logar de Maria, e rompiam de todos os olhos as lagrimas. Erguiam-se, vendo o pae erguer-se; apenas a mãe ficava, com o coração partido, dando o exemplo da resignação, e consolando com palavras animosas, esforço mais intenso na dôr que a dôr de todos. Ao oitavo dia a esposa veiu visitar sua familia. Foi recebida em alvoroço. Queriam beija'-la todos ao mesmo tempo. Os irmãos mais novos perguntavam-lhe se ficava para sempre. Maria, entre risonha e lacrimosa, repartia-se em affagos por todos, desejando alguns instantes de solidão com sua mãe.
--És feliz, minha filha?--perguntava-lhe o coronel.
--Sou, meu pae, quanto se pode ser, longe dos seus. Falta-me lá esta familia; ainda não pude, nem poderei considerar-me desligada d'esta casa. Parece-me até que sou mais d'aqui, e que a outra é uma casa de emprestimo.
O coronel voltou-se para sua mulher, e disse:
--Sentias isto quando casaste comigo? Tinhas assim saudades de tua familia?
--Não...--disse a mãe de Maria.
--Então...--tornou o coronel--tua filha é menos feliz do que tu foste! No goso da abundancia tem occasião de sentir saudades da pobreza que deixou.
--O pae--replicou Maria--engana-se, ou não póde sentir como sente uma mulher. Minha mãe havia de sentir o que eu sinto; é que já se não lembra... Pois haverá felicidade que me faça esquecer a minha familia?! Eu não sei o que é abundancia nem pobreza. Ainda não pude ver a differenca que vae do que deixei ao que hoje tenho, senão pelo coração. Sou feliz com Alvaro, mas seria mais feliz se Alvaro vivesse como irmão dos meus irmãos, aqui...
Alvaro entrava n'este momento, repartindo por todos amabilidades, chamando manos a seus cunhados, queixando-se de que o não tenham visitado, convidando-os para o seu camarote, offerecendo-lhes as suas carruagens.
--Cousa notavel!--dizia o coronel, tirando á parte frei Antonio que tambem concorrera á primeira visita de sua sobrinha.--Cousa notavel! As maneiras acanhadas de Alvaro desappareceram. Todos aquelles modos, a munificencia com que nos dispensa os seus favores, tem um ar de orgulhoso triumpho que me intimida. Ha alli alguma cousa que parece dizer. «Casei com vossa filha pobre, e tenho a fidalga generosidade de vos querer elevar com ella!» Não te parece?
--Parece-me que estás contaminado da má fé do mundo.
XV
Felicidade, o que és tu? Engano providencial que nos alimentas na alternativa do desejo e do desengano. Amiga cruel que nos foges com a esperança, apenas os labios sentem o travo do absyntho que a taça do prazer esconde no fundo.
Quem te encontrou n'esta vida, felicidade? O que eras tu, quando eu te via espargindo flôres desde o meu obscuro cantinho até aos imaginados horisontes do meu destino?
O que és tu hoje, phantasma severo que desdobras o teu manto negro sobre a esperança, que, momentos antes, mandaste luzir no meu despertar de infeliz?
Felicidade, o que serás tu, se não és a filha dos homens, morredoura como elles, soberba do teu nome, embaindo, com a mascara do opulento, os pobres que te esperam, cavando, cada vez mais fundo, no coração do ambicioso, o vácuo da cobiça, chegando aos labios do sequioso, que te busca na terra, a esponja acerba do desengano?
Porque te não vejo eu debaixo do docel dos principes da terra? Enfloraste os berços de Carlos I e Luiz XVI: porque deixaste borrifar de sangue no cadafalso as tuas grinaldas?
Busquei-te no seio da familia laboriosa, que aceitou humildemente a condemnação do eterno trabalhar, do suor copioso das fadigas. Não estavas lá. O braço trabalhador enervou-o a fome, no anno da esterilidade, e as creancinhas d'esse homem, sem cobiça de mais pão que o necessario á sua familia, vagiam pendentes dos seios aridos de sua mãe.
Busquei-te na mediocridade honesta, na alegria da independencia. Era falso esse existir na vida. A mediocridade anciava saír da sua esphera; a alegria da independencia era um sonho de infelizes servos; a independencia era uma situação mentirosa como o teu nome.
Estarias tu na gloria das batalhas? Se fizeste Cesar o primeiro de Roma, porque o não salvaste do punhal de Bruto?
Na gloria da virtude? E a cicuta de Socrates? e a guilhotina de Malherbe? Como estremaste os destinos de Séneca e Nero? de Virginia e Aggripina? Quando és tu o galardão da virtude, a socia fiel do nobre espirito, o premio benemerito do coração immaculado?
Na gloria da sabedoria?
Entraste, por ventura, na alma do philosopho, que tentou levar as multidões ao teu sanctuario? Orvalhaste-lhe a aridez do espirito abraseado em ancias de achar-te aqui? Déste a Cicero, teu apostolo inspirado, a resignação na morte? Estará o teu busto levantado sobre as ossadas de centenares de homens prodigiosos, poetas que fizeram seculos, honras perpetuas das nações, pisados pela desgraça, mortos de fome de pão e de ti, que lhes mandaste arrastar a mortalha por toda a vida?
Passarás ao menos uma primavera, no coração da virgem, que te chama do céo, que te crê filha de Deus, que se acolhe ao teu regaço como a asylo inviolavel de innocentes, que te vê na ternura maternal, que te beija nos labios de seus irmãos, que te respeita nas palavras ungidas de um velho, que te abraça soffrega na idolatria de um amante, que aperta ao seio todos os teus dons, cingindo-se ao seio do esposo estremecido?
Não, maldita da esperança, tu não estás entre nós. Existirias na terra, se entre os homens e Deus não estivesse o infinito.
XVI
--Maria vive triste...--dizia padre Antonio dos Anjos a sua cunhada.--Não diga isto a seu marido, minha irmã. Poder-me-hei ter enganado, e não lhe antecipemos um dissabor.
--E porque não vem ella a nossa casa?!--perguntou a mãe afflicta.--Ha um mez que nos não visita, disse aos irmãos que não tornassem lá sem ella os chamar... Alvaro já a trata mal? já a não amará?!
--Alvaro vive triste como ella. Encontram-se poucas vezes; ainda se não deram as mais ligeiras desavenças entre elles; mas o silencio quando nos reunimos todos á mesa, é profundo entre ambos. Fogem de encontrar-se nos olhares; e, sem causa proxima, as lagrimas caem ás vezes sobre o prato de Maria. O pae de Alvaro pergunta-me o que tem seu filho. Interroga-o, e elle responde-lhe que não tem nada. Eu interrogo Maria, e ella pede-me que rogue a Deus por ella.
--É pois muito desgraçada a minha filha!--exclamou a lagrimosa senhora--Fomos nós que fizemos a infelicidade d'ella. Fui eu, fui eu só! Era eu quem devia destruir-lhe este amor no seu principio. Fiz o contrario... Dei-lhe azo para que tudo me confessasse, applaudi-lhe o puro sentimento que a levava ao coração de um homem que eu julgava digno d'ella; animei-a até a proferir palavras que o pudor lhe não deixava saír do coração! Minha pobre filha, é tua mãe quem te fez infeliz! Que direi eu a meu marido, quando elle me pedir conta da felicidade do nosso anjo, d'aquella santa que tantas lagrimas nos enxugou, e nós não podemos enxugar as d'ella... Podemos, podemos...--proseguiu ella com exaltação.--Que venha para a nossa companhia; vá, meu irmão, vá dizer-lhe que o coração de sua mãe só póde achar allivio ao seu remorso, sentindo-a chorar no meu seio... Vá, vá, antes que meu marido saiba que ella vive assim... Traga-m'a, póde ser que meu marido se não queixe na presença d'ella... Não se lembre que ella é casada... Não ha lei divina que obrigue uma mulher a ser victima de seu marido...
--Basta, minha irmã!--interrompeu com brandura o padre--Não multiplique com o seu amor de mãe os soffrimentos de Maria... Ella não se queixa. Quer que a sua dôr seja um segredo para seu proprio tio, e bem sabe que minha sobrinha me fez o confidente das suas alegrias e pesares... Póde ser que esta sombra de melancolia seja uma nuvem. Não vamos nós precipitadamente desafiar uma tempestade, que nem se quer nos ameaça. O anjo do Senhor está ao pé de Maria, e um desgosto passageiro é muitas vezes uma experiencia que Deus manda para a purificação das suas escolhidas. Confiança na justiça divina, minha irmã. Alvaro tem de responder hoje ás perguntas de seu pae, e talvez ás minhas. Póde haver n'esta melancolia de ambos uma causa dada por ambos. O silencio de Maria faz-me suspeitar que ella não tem bastante confiança na razão da sua tristeza. Póde ser que a demasiada saudade dos seus, manifestada ao marido, o tenha desgostado. Se tal fôr, é preciso dizer a minha sobrinha que o sacramento do matrimonio opera uma suave mudança nas ligações de familia. O amor de esposa tem uma santidade superior ao de filha: augmentam as obrigações, e vem com ellas o dever do sacrificio. Eu conheço pouco do coração humano; mas o de Maria sinto-o pensar, e sentir, e desejar dentro do meu. Maria deve amar e ama deveras seu marido; porém esse amor sem fausto, sem bailes, sem theatro, sem jantares, e sem visitas importunas e ociosas ser-lhe-ia mais grato, mais em concordancia com o seu natural. Ora, pois, minha irmã, menos lagrimas, e mais reflexão. Repito que não diga a seu marido que eu vim aqui fazer-lhe o mal que não imaginava.
XVII
O velho Silveira chamou seu filho, e disse:
--Que tristeza é a tua, e a da tua mulher, Alvaro?
--Não falemos n'isso, meu pae. O soffrimento calado é o mais nobre, o soffrimento irremediavel é creancice expo'-lo á piedade dos outros.
--Soffrimento irremediavel!? De que soffres? Estás arrependido de casar com esta menina que adoravas tanto?! Aborreces... enfastiou-te este anjo?!
--Não me enfastiou... receio que venha a enfastiar-me... Está bom, meu pae, mudemos de pratica. Para onde vamos nós a ares este anno?
--Que modos são esses, Alvaro! Entrou outra vez em ti o demonio da perdição!? Foi, pois, uma mentira, uma impostura, uma infame astucia a tua emenda?
--Não dou motivo para semelhantes suspeitas, meu pae. O meu proceder é hoje como era ha quatro mezes. Ouvi'-lo-hei, senhor, mas v. ex.a não me accuse sem fundar a sua accusação.
--É possivel que já não ames Maria?!--replicou o pae--Em que desdiz ella do que tu e eu esperavamos, Alvaro?
--Pois eu não a amo?! O pae que quer que eu faça? Ser-me-ha preciso trazer ao collo minha mulher para o persuadir de que a amo?! Eu não sei fazer carinhos piegas... Creio que ella não dirá que a trato mal, nem a privo dos seus prazeres...
--Que prazeres! Pois a pobre menina raras vezes sae do seu quarto, raras vezes, ha quinze dias a esta parte, se encontra comtigo... que prazeres lhe dás, Alvaro? É isto o que tu planizavas quando me pediste que empenhasse ao coronel a minha palavra de honra como abono do teu procedimento para que elle te não negasse a filha? Vejo que preparas para os meus ultimos dias uma grande deshonra, e um grande remorso! Com que cara me apresentarei ao coronel logo que elle saiba os surdos padecimentos da nobre menina, que não solta um gemido queixoso! Explica-te, Alvaro; não te offendo, sequer, pedindo-te, como pae, uma explicação d'essa frieza para com ella... O que é isto?
--Pois eu obedeço, senhor, respondendo em toda a verdade da minha alma. Creia que soffro, respondendo assim; mas eu preciso dizer a terrivel verdade que me esmaga o coração. Maria não é a mulher, que eu devia procurar. Enganei-me. Foi um desencontro, uma desgraça, uma horrivel illusão! Eu não sou digno d'ella. Fui atraiçoado pelo amor que Maria me inspirou; julguei-me capaz de occupar, toda a vida, o coração com a posse d'ella. O demonio venceu. Sinto-me enfastiado; tenho o gelo da indifferença na alma, violento este sentimento amargo a confessar as virtudes de minha mulher: vejo-a formosa, reconheço que é um anjo, mas não posso, ao pé d'ella, passar um quarto de hora sem fastio. Parece que o meu arrefecimento lhe passou á alma. Vejo-a triste, responde-me chorando se lhe pergunto que motivos tem de tristeza, evita-me quando eu faço sobre mim um grande esforço em mostrar-lhe agrado... Em fim, meu pae, não era eu o homem que devia fazer a felicidade d'esta mulher... Sou incapaz de a maltratar, terei com ella todas as attenções de irmão; mas... é necessario que deixe de sentir o que sinto... A violencia é inutil... o amor não se crava no coração como quem crava um punhal... Basta-me o meu infortunio de não poder ama'-la. Os desgraçados como eu são amaldiçoados pela sociedade, e Deus sabe se elles não são mais dignos de piedade que de maldição!... Não poder ama'-la como a adorei ha tres mezes! Isto é angustioso, meu pae! Por quem é, não me aggrave as minhas dôres com as suas censuras... Não receie nada por ella... Eu tirarei da delicadeza todos os pretextos para que ella se capacite de que ainda a amo. É uma piedosa mentira em que meu pae, por meu bem, e d'ella, e de todos nós, deve consentir, e até empregar a sua influencia auxiliadora. Consiga v. ex.a que ella saia do quarto, que vá aos theatros, que vá aos bailes, que frequente as nossas immensas relações, que aprenda na sociedade com outras mulheres a esquecer os infortunios domesticos, que eu farei o mesmo...
--É uma alliança infame, que tu queres que eu proteja?--interrompeu o velho.
--Como alliança infame!--redarguiu o filho.
--Sim! consentes a tua mulher...
--O que? queira dizer, meu pae!
--Tenho vergonha de o proferir!...
--Então não me comprehendeu, ou me julga um homem destituido de honra. Lembre-se que sou seu filho, senhor! Eu não quero fazer com minha mulher allianças infames. Quero que ella não faça consistir a sua felicidade sómente na minha convivencia de todas as horas, e de todos os instantes. Quero que ella reparta os seus desejos, e as suas idéas por tudo que possa dar-lhe uma distracção honesta, e concedida ás senhoras da sua posição. Não quero que o seu amor á solidão me force, me algeme a um gosto que não tenho. Estamos na sociedade, eu sou um rapaz, e quero viver para a sociedade. Gosar não é offender a Deus, como lhe incutiram a ella. Nunca a levei aos theatros, aos bailes, a uma visita, que não tivesse primeiro que destruir-lhe os preconceitos com que a crearam. Está sentada ao piano, ou ao bastidor: quer meu pae que eu esteja alli constantemente ao pé d'ella, repetindo-lhe as phrases cançadas de um amor de convenção? É hypocrisia com que não posso...
O velho voltára as costas ao filho, e confundira as lagrimas com as de padre Antonio que se fizera annunciar.
XVIII
Alvaro falára pela bocca de todos os maridos maus ou infelizes, quando a libertinagem os não cura do veneno do desgosto com o veneno da deshonra. Era de certo o enojo, esse desfallecimento de alma incuravel, esse morrer do amor que nunca mais resuscita, quando a mulher que o causa é esposa, e quando o homem que o recebe não tem a força de virtude que converte a piedade em estima.
A paciencia de Maria azedava ainda mais o desgosto de Alvaro, porque as lagrimas em silencio eram a mais pungente censura que ella podia fazer ao seu procedimento.
A melancolia do padre, cuja convivencia elle afastava, e o sobrecenho do pae, irritavam-n'o até ao frenesi de raiva ás algemas que lhe queriam lançar á sua liberdade.
O padre aconselhava-lhe os bailes, e os passatempos que a sua indole apreciava. Pedia á sobrinha que o acompanhasse para compartir dos prazeres de seu marido; mas a pobre menina, se alguma vez accedia ao que lhe era imposto como dever de mulher casada, ia levar á sociedade o espectaculo da sua tristeza, e dar incentivo de arguições, umas justas, outras exageradas ao procedimento de Alvaro da Silveira.
Menos instada por seu marido, e por seu tio, e por seu extremoso sogro, que lhe era segundo pae, deixou de saír, e mui raras vezes visitou sua mãe, porque não podia mentir ás suspeitosas perguntas de seu pae, a respeito da felicidade que o marido lhe dava.
Alvaro, pouco a pouco, foi-se absolvendo de seus deveres, e respeitos á sociedade. Estudou o viver e o sentir dos maridos no circulo das suas brilhantes relações, e viu que entre tantos havia só um que pudesse atirar-lhe uma pedra. Entendeu que podia ser-se um homem importante aos homens, e importante ás mulheres, embora casado, embora propenso a esquecer-se todos os dias que o era. Relaxados os deveres, seguiu-se a tibieza nas apparencias do decoro, e da delicadeza, ultima ferida que uma mulher com dignidade póde receber de um mau marido.
O seu antigo amigo conde de *** foi reintegrado na sua particular estima. Era já recebido no seu quarto, era o seu confidente em segredos dignos de ambos, era tudo o que póde ser um amigo intimo, menos relação de sua mulher. Maria regeitára com imperio, pouco natural ao seu caracter humilde, a apresentação do conde. Ouvira falar d'este homem em casa de seu pae, ao tio, e ao sogro, de modo que lhe ganhou asco, e não podia vencer o sobresalto com que ouvia annunciar um tal nome, que seu proprio marido, tres mezes antes, banira das suas relações.
Na primavera d'esse anno, Alvaro partiu com o conde, e outros de egual porte para o campo, em busca de touros para as corridas do campo de Santa Anna. Demoraram-se vinte dias n'essa gloriosa expedição digna dos netos de Vasco da Gama e de Affonso de Albuquerque... Durante esse tempo, Maria não teve de seu marido um bilhete, nem uma saudade. De volta, Alvaro achou sua mulher gravemente enferma d'essa molestia que entra no coração, e filtra de lá o veneno da morte por todas as fibras.
Disse-lhe palavras consoladoras, instigadas pelo espinho do remorso, palavras calculadas na frieza do seu desamor; mas a idéa satanica da viuvez entrou-lhe na alma com a esperança de uma felicidade imprevista.
É horrivel! mas não duvideis... Olhae de redor de vós...
XIX
Foram aconselhados a Maria ares do campo. Saíu de Lisboa para Collares, acompanhada por seu tio, e dois creados. Alvaro partira para Villa Franca, e de uma quinta, muito conhecida nos arrabaldes d'aquella villa, fazia as suas excursões á caça, em que entreteve um mez, distraído de tudo; e embebido no seu affecto remoçado ao inseparavel conde.
Entretanto, Maria déra largas ao coração abafado. Padre Antonio sabia a causa do soffrimento, mas affectava extranheza, para não auctorisar queixumes de mulher casada. Fazia grandes rodeios aconselhando a sua sobrinha a resignação, porém, simulando, sempre, que não conhecia motivo para tristeza tão inconsolavel.
Uma vez, Maria, cançou na lucta comsigo mesma, e fixou no tio os seus grandes olhos arrasados de lagrimas. Era um olhar de soffrimento que reage, uma accusação ao homem que concorrera para o seu infortunio, e parecia impor-lhe a violencia da mudez, a morte surda sem a inoffensiva respiração de uma queixa.
Frei Antonio entendeu-a, e disse:
--Fala, minha querida sobrinha, accusa-me, e depois pediremos ambos ao Senhor que nos dê melhor vida a ambos.
XX
A mulher de Alvaro da Silveira balbuciou:
--Não o accuso, meu tio; peço-lhe sómente que me deixe chorar. É bem pouco pedir; mas eu sinto um grande conforto n'este unico prazer dos infelizes.
--O da oração é maior, minha sobrinha...--atalhou o padre.
--Pois eu não oro, meu tio? É quando sinto mais dentro do coração a doçura das lagrimas. Ou peça a Deus paciencia para soffrer até ao fim, sem que a minha familia o saiba; ou peça que se digne tocar o coração de meu marido, choro sempre, e fico sempre mais desopprimida.
--Mas os teus dias são sempre eguaes, filha. Estás cada vez mais abatida, mais magra, e mais febril.
--Que importa o corpo? O que eu recebo de Deus é a força da alma... A morte não lh'a peço, por que sei que não faria com ella a felicidade de Alvaro... É impossivel que o remorso o não castigue depois... Isso é que eu não queria... O Senhor me livre de ser o instrumento das torturas d'alguem... E, se eu morresse, a nossa pobre familia soffria muito... minha mãe, seguir-me-ia, e os meus irmãos pequeninos nos braços de meu pobre pae... matal-o-iam com carinhos... É por isso que eu não peço a morte...
--Não peças, Maria. Diz-me o coração que terás melhores dias da tua existencia, e que eu hei de ve'-los ainda.
--Oxalá... e como serão esses dias, meu tio?
--Será quando teu marido voltar ao que era quando te queria tanto.
--Pois esse amor póde por ventura tornar?
--Pois não póde, filha?! Estás passando por uma dolorosa provação; é impossivel que não recebas n'este mundo o premio da tua constancia. Assim como Alvaro passou do mal para o bem, e depois recaiu no mal, o anjo, que o alumiou uma vez, ha de alumia'-lo outra, minha sobrinha. Quando menos o esperarmos, estará comnosco, para nos restituir o bom coração que nos roubou. Crê, e ora, minha filha. Oremos ambos. As nossas supplicas sejam por elle, e deixemos ao senhor apiedar-se de todos, quando a sua bondade quizer.
XXI
Padre Antonio, horas depois, enviava um proprio com uma longa carta a Villa Franca. Era um humilde requerimento ao coração de Alvaro. Lembrava-lhe, com delicadeza, os seus deveres. Contava-lhe o viver attribulado de sua sobrinha, pedia-lhe encarecidamente que viesse vê'-la, ou consentisse que algumas pessoas da familia d'ella a acompanhassem no ermo em que vivia.
O fidalgo recebera a carta no pospasto de um festim em que se banqueteavam os caçadores, commemorando as façanhas venatorias do dia. O conde de ***, chamado por Alvaro a conselho redigiu e escreveu a resposta á carta, visto que o seu amigo, turbado de vinho, apenas tinha entendimento para conhecer que o frade o incommodava, como parapeito dos tiros de sua mulher. A resposta, por tanto, foi simples e peremptoria. Alvaro agradecia muito os pios conselhos do padre, sentia muito os incommodos de sua mulher; recusava, porém, acceder á convivencia pedida, e approveitava a occasião para observar a sua reverendissima que a sua pertinaz assistencia em casa d'elle Alvaro era pouco delicada, provando-se que não havia n'essa casa meninos para educar. Terminava, ordenando que sua mulher se recolhesse a Lisboa quanto antes, visto que os ares campestres não conseguiam alliviar os seus padecimentos.
Esta carta foi lida a Alvaro, que deu no hombro do seu secretario uma sonora palmada, como signal de applauso e gratidão.
XXII
Frei Antonio fôra assistir ao trespasse de um moribundo, e não estava em casa quando chegou o conductor da resposta. Foi Maria que recebeu a carta, e vendo a letra inesperada de seu marido, sobresaltou-a tanto o prazer, que nem sequer reflectiu para abri'-la.
Leu... E mal viu as ultimas linhas. Entrou em tremuras, escondeu a carta no seio deixando uma parte visivel; luctou como querendo segurar o alento que lhe fugia; mas debalde. Padre Antonio ergueu-a desmaiada de um canapé, quando voltou. Tirou-lhe do seio a carta; leu-a, e tornou a insinua'-la sem a sobrinha dar fé. Esta, recuperando os sentidos, viu ao pé de si o tio, com ar risonho, trahindo-se em algumas palavras confortadoras; mas a pobre senhora, de momento a momento, levava a mão ao seio para certificar-se de que a carta lhe não fôra tirada.
--Então o que foi isso, minha filha?--perguntou o padre.
--Um desmaio, resultado da grande fraqueza que tenho, de um passeio que dei longo de mais para as minhas forças...
--Pois tu saíste, Maria? Não enganes o teu tio.
Aqui, Maria córava, e o frade vinha logo com o remedio, fugindo para outra idéa.
Depois de uma hora em que dois corações angustiados estiveram a enganar-se mutuamente, padre Antonio abraçou sua sobrinha; e disse:
--Olha, menina, o extremo do soffrimento não se póde dizer qual é, nem quando chega; por isso não direi ao certo que as nossas penas estão a passar por serem culminantes. Mas é de fé para mim, filha, que isto assim não póde demorar-se muito. A piedade do Altissimo está por instantes a amercear-se de nós. Maria, fica no teu quarto; pensa n'essa carta que tens no seio, eu vou pensar tambem; e, passada uma hora estaremos juntos. Antes, porém, de decidir, Maria, pede ao senhor a luz da graça.
Maria ficára como engolfada em profundo pasmo com a mão no seio. O frade saíra.
XXIII
Passada uma hora e um quarto, foi a sobrinha, atemorisada pela falta, que entrou subtilmente no quarto de seu tio. O velho estava de joelhos diante de uma cruz. Sentiu-a entrar, voltou um pouco a face, e disse:
--Espera um bocadinho, menina; eu falo-te já.
Maria ajoelhou ao pé d'elle.
--Pois sim, oremos juntos: disse o padre--se já resolveste, pede comigo ao Senhor que mude a tua tenção, se ella não é do seu agrado.
Decorridos alguns minutos ergueram-se ambos.
--Pensei, meu tio--disse Maria.
--E então?
--Creio que Deus permitte a minha vontade: o tio me dará a certeza da minha fé, se não se oppuzer.
--Pois diz, filha.
--Eu fujo a meu marido.
--Como? foges a teu marido?!--atalhou o velho espantado.
--Acolho-me ao seio de Deus, para morrer tranquilla.
--Entendi; minha filha!--exclamou elle com jubilo abraçando-a.--Queres dizer que entras n'um convento.
--Sim, sim.
--Foi a minha idéa, quando orava...
--Sim? então, bemdito seja Deus!--disse Maria erguendo as mãos com arrebatamento.--Já vejo que o Senhor approva a minha resolução. Eu pedi muito á Virgem que lh'a inspirasse, meu tio. Vou para as Therezinhas. Tenho lá muitas amigas que me hão de fazer digna de orar com ellas. Trabalharei para viver em flôres, em recorte de papeis, em tudo, por que pouco me basta. Poderei ve'-lo todos os dias, meu tio, e verei meus paes, e meus irmãos. Se Alvaro um dia me quizer, elle irá procurar-me, e eu serei sempre o que sou e o que fui. Não lhe tenho odio, não tenho. Sei que elle ha de ser ainda muito infeliz, e talvez seja eu, depois de meu tio, quem lhe restitua a boa alma que elle tinha quando o conheci.
--Tu choras. Maria?--interrompeu o padre carinhosamente--Levas saudades de Alvaro, não levas?
--Saudades? não sei que sentimento é este!... parece-se mais com o da compaixão. É como se eu dissesse: podiamos ser ambos tão felizes!.. e assim não se sabe qual de nós será o mais desgraçado! É o que eu sinto, meu tio. Já vê que o estimo ainda como se fosse um meu irmão perdido de vicios, que maltratasse sua familia, e que eu tivesse conhecido enchendo de carinhos minha mãe e meus irmãos. Lembra-me que elle era tão amigo de todos! entrava na nossa casa como se fosse nosso... agradecia tanto o nosso bom agasalho, sem saber que nós ficavamos sempre tristes quando elle nos deixava... É porque eu choro, meu tio... Isto é saudade do que elle foi, e compaixão do que é.... Paciencia... Vou para as Therezinhas... Imaginei-me sempre lá desde creança, não se lembra? No tempo em que eu cantava aquellas palavras tristes, pensava tanto em pedir a minha mãe que me deixasse entrar no convento, ainda que fosse como creada...
--E hoje, Maria... talvez... tenhas de entrar como creada...
--E isso que tem, meu tio?! Pois nas Carmelitas não entravam tantas senhoras distinctas que faziam a cozinha ás semanas? Que tem que eu seja creada? Alvaro não póde envergonhar-se d'isso; porque ha muitas situações vergonhosas para um marido, mas esta--a de servir--não é uma d'essas... pois não?
Maria córou proferindo algumas d'essas ultimas palavras. Fr. Antonio depois de abraça'-la, disse:
--Eu vou para Lisboa, minha sobrinha. Falarei com a prioreza; veremos como has de entrar; antes, porém d'esse passo, é preciso que escrevas a Alvaro.
--Pedindo-lhe consentimento?
--Sim.
--Se m'o nega?! não vou?
--Vaes, Maria. A petição é a humildade da esposa; mas a fuga é o ultimo direito da victima. Onde ha algoz não ha marido.
XXIV
Era assim a carta de Maria a seu marido:
«Foste enganado por uma chimera, Alvaro. Não era eu a mulher digna do teu amor. Quando vi apertar-se o teu coração á dôr do arrependimento, tive mais compaixão de ti do que de mim. Eu, pobre mulher, posso soffrer e chorar, sem ser vista. Tu, Alvaro, nascido para os prazeres do mundo, cuja privação o meu amor não podia recompensar-te, soffrerias muito, se não tivesses animo de affastar com a ponta do pé os deveres, e esquecer que eu sou, ao mesmo tempo, tua escrava e tua tyranna.
«Felizmente que adoptaste o melhor expediente.
«Penso que as distracções, longe de mim, te deixam sentir as doçuras da liberdade. És, talvez, feliz. Se o és, Alvaro, olha que esse bem peço-o eu constantemente a Deus para ti. Não te deixes vencer jámais do remorso. Os meus padecimentos, bem o sabes, não se alliviam em queixas. Nunca te pedi explicação da tua frieza, nem te dei uma palavra aborrecida por outra. Até as lagrimas te escondia, não é verdade? Se me surpreendias chorando, antes queria mentir-te uma invenção, que exacerbar-te com as minhas lastimas o pesar de me teres dado o direito de te arguir. Quando assim se soffre, Alvaro, não ha idéa de vingança, nem se aceita com prazer a expiação de quem nos mortifica.
«Vamos tratar da tua felicidade, meu caro irmão. Deixa-me dar-te este titulo que tem tanto do affecto como da razão. Entre nós já não existe o grande amor, que me parece ser inflexivel aos dictames do juizo. Podemos suavemente caminhar cada um para seu lado, sem voltarmos as costas com arremesso. É o que eu queria, e espero consegui'-lo, porque, sendo eu tão fraca, a força que sinto para dar um passo em teu bem, é Deus que m'a dá, e dar-m'a-ha até ao fim.
«Deixo-te mais livre do que vives, Alvaro. Vou entrar n'um convento, e vou pobre como vim para tua casa. Sentirei lá que és meu marido, porque não cessarei de orar por ti, e offerecer em desconto das minhas e das tuas faltas o tempo que Deus me der de vida.
«Conheço que nasci para a solidão e para os prazeres ignorados da vida obscura. Esta consciencia e a absolvição de algumas cruezas do teu caracter para comigo. Tu precisavas de uma mulher que te disputasse na sociedade uma parte da tua gloria. Querias, talvez, abrilhantar-me aos olhos dos outros com o reflexo da tua luz. E eu, educada na pobreza e na simplicidade, não pude, por mais que quiz, contrafazer a minha indole. Fui arrastada pelo dever aos raros bailes onde me levaste; voltava de lá contente com a esperança de estar sósinha comtigo, e muitas vezes me deixaste sósinha com a minha saudade; e tornaste aos bailes a aproveitar as horas que eu te aguava com a minha inexoravel melancolia.
«Era então que eu te lastimava, por teres sido enganado pelo coração, quando me dizias que a vida no ermo, só comigo, era o teu sonho de ventura, e amaldiçoavas o brilho perfido da sociedade que te não deixára mais cedo ver o que é este mundo, com os olhos da razão.
«Se me não tivesses dito isto, Alvaro, eu seria muito culpada por aceitar o sacrificio da tua liberdade. Fomos enganados ambos. Pensava eu que era verdadeiro o teu fastio dos prazeres ruidosos e vãos; cuidei até que o meu maior merecimento para ti estava no desprezo com que eu ouvia lá fóra do meu cantinho o bulicio da vida opulenta. Aqui está porque eu não te peço perdão de ter querido ser, contra a vontade de meu bom pae, tua mulher. D'esta culpa quem me ha de perdoar é o pobre velho, e eu conto com a bondade da sua alma.
«Aqui tens, pois, o meu destino, Alvaro. Vou para um convento; não devo, porém, sahir de tua casa sem praticar este acto de humildade, rogando o teu consentimento. Quasi certa de que m'o dás, vou fazer os meus ligeiros preparativos. Ainda não disse tudo, Alvaro... Se um dia sentires a penosa necessidade de falar a alguem que te diga palavras de allivio, procura-me, vae sem receio de encontrares uma queixosa. Eu farei quanto puder em teu bem contra o mal que o mundo te houver feito. Chamarei á tua alma as reminiscencias do que ella foi, quando eu t'a mereci, furtando-a ás outras paixões. Vae procurar-me, Alvaro, e acharás sempre uma irmã.
«De tudo o que te disse n'esta longa carta, deves tirar a certeza de que, muito longe de odiar-te, estimo-te, sou tua amiga, offereço a minha vida pelo dom da tua ventura; mas quizera, Alvaro, que essa ventura não fosse mentirosa. A que presentemente gosas não póde ser duradoura, nem filha do espirito.
Adeus.
Tua mulher
Maria dos Prazeres.»
XXV
Maria entrou no quarto do padre. Estava elle ajuntando n'um sacco os seus livros, e uma pouca de roupa branca.
--Já escreveste, filha?! Vamos ver a tua cartinha...--disse elle continuando o seu serviço--Eu estou aqui ajuntando estes farrapos, e estes quatro livros. A nossa bagagem, Maria, é tão pequena, que a póde um frade velho transportar debaixo de um braço. Ora vamos lá; lê a tua cartinha.
Maria leu, affectando serenidade. Não podia, comtudo. De instante a instante, havia embargo de soluços, lagrimas pertinazes, e alterações na côr. Padre Antonio tomou-lhe das mãos a carta, e leu-a em voz alta.
--Está muito boa--disse elle, afagando as faces de Maria--Vou mandar o proprio a Villa-Franca. Ámanhã por noite, está cá a resposta. Eu virei então saber qual ella foi.
--Pois meu tio, já hoje me deixa?!--interrompeu Maria com vehemencia.
--Pois então, menina? A minha licença acaba logo que a trouxa esteja prompta. Eu não extranho isto... Quando me mandaram saír do meu convento que era a minha casa, saí logo; agora mandam-me saír de uma casa, que não é minha, que hei de eu fazer? Saír mais depressa ainda, se é possivel, e sacudir á saída da porta o pó dos meus sapatos. De mais a mais, bem sabes que preciso falar á madre prioreza das Therezinhas no teu agasalho, que ainda não sabemos como será, e todo o tempo é pouco... Nada de lagrimas! Pelo amor de Deus, recebem-se todas as amarguras com olhos enxutos. O merecimento aqui não é chorar, é rir para o céo. Ha uma só causa justa para lagrimas, Maria: vem a ser a offensa a Deus, que é Pae, ou aos homens, que são nossos irmãos. D'estes peccados, absolvo-te eu, menina, que os não tens. A offendida és tu, e, por conseguinte, perdão para os homens, e oração de graças ao Senhor.
XXVI
Alvaro da Silveira recebeu a carta, quando saía para Santarem, onde o esperava um brilhante sarau, em que era rainha uma nobre dama que se deixara ferir do nobre caçador. Era, portanto, muito improprio o ensejo da carta, cuja generosidade tinha para elle o valor odioso de uma accusação mascarada. Foi esta a opinião do seu amigo conde.
Alvaro respondeu vocalmente que mais tarde responderia por escripto. O portado, industriado pelo padre, replicou humildemente que não voltava sem resposta, ou signal de ter sido recebida a carta. Perguntou-lhe Alvaro quem lh'a tinha dado. O creado falou a verdade. «Pois esse hypocrita ainda lá está?» exclamou irado o fidalgo... «Leva--continuou elle--ahi vae o signal de que recebi a carta».--E entregou-lhe, aberta, a carta de sua mulher.
Tal foi a resposta que Maria recebeu. Diga quem puder as lagrimas que este desprezo lhe custou. O frade respeitou-as tanto, que em logar de consola'-la com a paciencia, eloquente sempre em seus labios, chorou tambem.
--Vamos, filha--disse elle por fim.
--Já?! de noite?--reflectiu ella.
--Tens medo, Maria? A noite vae melhor ao estado da nossa alma... Chegaremos de madrugada á tua nova casa. Passarás o dia no locutorio com a nossa familia.
--Pois está tudo arranjado?
--Tudo, Maria, tudo providencialmente arranjado. Vaes ser hospeda da sr.a escrivã, em quanto eu não posso por meios certos que Deus me ha de deparar comprar-te uma cella no convento. Depois, o teu trabalho dar-te-ha uma subsistencia certa. Fallaremos, fallaremos... Vamos embora.
Maria foi, quasi desfallecida, encostada ao hombro do padre, até entrarem n'uma sege de praça que os esperava no portão. Grande, porém, foi a surpresa da attribulada senhora, quando ao entrar na sege, foi apertada por uns braços que só podiam ser de mãe pelo afago com que lhe bebiam as lagrimas da face.
O choro de ambas embargava as palavras soluçadas. O que ellas, porém, queriam dizer-se era pedirem-se perdão mutuamente; a mãe á filha, por lhe haver afervorado e absolvido o amor a Alvaro; a filha á mãe porque fraqueava no martyrio, e, sem pedir-lhe conselho, abandonava aos juizos da sociedade a explicação da sua fuga, talvez bem infamada.
XXVII
A sege parou defronte do mosteiro.
Rompia a manhã. Tão lindo estava o céo, tão balsamico o ar ao pé do arvoredo do convento, as aves deleitavam tanto o coração, o múrmuro despertar da natureza tão meigos arrobos filtrava ao seio de Maria, que, enlevada em mudo regalo, docemente lhe marejavam nos olhos as lagrimas de um contentamento infantil, se não eram antes o respirar suavissimo da abafação angustiosa em que penára.
Aberto o portão exterior, frei Antonio entrou com sua cunhada e sobrinha. Algumas religiosas desceram á portaria, e levaram comsigo mãe e filha, felicitando esta com grandes jubilos, e inventando graças para a desassombrarem da sua tristeza. Sabiam-lhe bem a maguada vida, e a virtude santa, aquellas servas do Senhor. A Mãe de Jesus, protectora sempre invocada de Maria, tocou talvez o coração das carinhosas freiras que parecem porfiar qual mais mimos e agrados fará á querida hospeda.
D'ahi a pouco volveu ao mosteiro Fr. Antonio com a familia toda. O coronel esmoreceu d'aquelle seu grande animo vendo a magreza cadaverica da filha. O velho, alimpando as lagrimas, fez que nenhuns olhos ficassem enxutos. Diante d'aquella magestosa dôr, não houve uma só pessoa que tivesse espirito para consola'-lo. O padre, esse, o que mais ali soffria talvez, abaixava humildemente a cabeça diante de seu irmão, como quem confessa a maior culpa de tamanha desventura.
Uma das religiosas, querendo consolar, censurou sem asperidão, ainda assim, o proceder inhumano de Alvaro da Silveira.
Maria fez um gesto de desagrado, e, sentindo amargamente que lh'o não entendesse a freira condoida, disse:
--Alvaro da Silveira é meu marido, minha senhora. Deus é que julga as nossas acções... Eu preciso a piedade de toda a gente; mas não queria que ella custasse a Alvaro a sua condemnação. Meu marido não é mais feliz que eu. Por isso que estou muito certa d'isto, peço ás senhoras d'esta casa que roguem a Deus por elle, quando lhe rogarem por mim.
Ficaram como assombrados todos os animos, e apiedados todos os corações. Ninguem, durante aquelle dia, proferiu o nome de Alvaro.
Á tarde houve um adeus de muito chorar; mas, ao dia seguinte, lá estavam os irmãosinhos e a mãe da secular, e o tio padre, uns para chorar com ella, outros para distrai-la com as suas innocentes graças.
XXVIII
Maria trabalhava em flores, em costura, em tudo que fazia independente o seu parco passadio; e, desde o segundo dia, oração e trabalho alternavam-se, afóra as horas das lagrimas, que eram de noite, sósinha, a occultas das consolações, ás vezes importunas, das amigas--que todas o eram.
Frei Antonio foi um dia mui alegre ao locutorio, e disse isto a Maria:
--O pae de Alvaro foi hoje a nossa casa, attribulado que fazia dó! É homem honrado, e quer-te como a filha. Sabia tudo, e abraçou-se a teu pae, pedindo-lhe compaixão para o mais desgraçado dos paes. Queria vêr-te, não se afoutava a vir sem licença nossa. Concedemos-lh'a todos com muito prazer. D'aqui a pouco está comnosco, filha. Pede uma grade para o receberes.
E, ditas estas e mais algumas palavras da alvoroçada Maria, o velho Silveira chegou-se ao locutorio, dizendo que queria abraçar sua filha. O claustro negava-lhe satisfazer tal desejo e d'ali foi para uma grade onde foi pathetica a scena. Maria não se queixava, ao mesmo tempo que o velho amaldiçoava o filho. Ella, então, punha as mãos supplicantes, pedindo-lhe que levantasse a maldição de sobre o infeliz Alvaro.
Siveira apertava a mão do padre, e dizia:
--Com este nobre e santo coração recompensa o Senhor todos os padecimentos de uma familia; esta virtude, porém, exacerba a minha magua, porque eu sou pae de um monstro, e este anjo é victima d'elle, e... talvez minha. Fui eu que lh'a pedi, sr. padre Antonio...
Occorriam então as pacientes reflexões de Maria, querendo absolver todos os que promoveram o seu casamento. E, sem affectação de virtude, a christã de coração e ensino, dizia que mais devia agradecer a Deus as provações em que puzera a sua fé, e a sua esperança no premio celestial.
Silveira quiz saber que vida era a da sua nora. Contou-lh'a o padre. O velho, pasmado de tanta resignação, quiz logo alli chamar a prioreza para dizer-lhe que n'aquelle mesmo dia, a esposa de seu filho era uma secular com fartos meios de subsistencia, e com todas as regalias possiveis n'um convento.
Maria atalhou a liberalidade do sogro, dizendo que não acceitaria um ceitil em quanto pudesse trabalhar.
Foram, pois, baldados esforços de sogro e tio. Não havia, com razões, demove'-la do seu proposito. As que se lhe davam eram frivolas. Silveira queria que sua nora tivesse alli a grandeza do seu nascimento. A isto replicava ella que nascera mui pobre, e cria que o saír da sua obscuridade fôra infelicitar-se, e rebuscar novas pompas seria reincidir na desgraça voluntariamente. Só no trabalho esperava allivio--dizia ella; e por misericordia pedia que a deixassem com os seus recursos, porque a aptidão para o trabalho fôra o seu inexhaurivel patrimonio.